Homilia  

A ressurreição é a luz da eternidade

Padre João Aroldo Campanha – 2° Domingo da Páscoa, Festa da Divina Misericórdia (Ano B) - 11/04/2021 (Domingo, missa às 10h)

Estamos no segundo domingo da Páscoa. Durante oito dias a contar da Páscoa, nós contamos como se fosse um único dia, tanto que durante as missas que celebramos durante a semana – infelizmente não estamos celebrando aqui na igreja, o padre está celebrando as missas sozinho em casa. Todos os dias desta semana nós rezávamos não neste tempo da Páscoa, mas neste dia – oito dias como se fossem um único dia, por isso nós dizemos Oitava da Páscoa. E neste tempo, vamos dizer assim, esta alegria vai se estender por mais quarenta dias até Pentecostes. A alegria da Páscoa está viva na Igreja e, essa alegria depois com Pentecostes se esparrama para o mundo para anunciar o Evangelho.

Nós temos este Evangelho, que nós já conhecemos, João bem ali mostra os onze apóstolos, onze não, dez, reunidos e Jesus que aparece várias vezes no dia. Naquele domingo, Jesus já tinha se manifestado: se manifestou no primeiro momento para as mulheres, se manifestou para Maria Madalena, se manifestou a Pedro, se manifestou para os doze, se manifestou para aqueles dois discípulos que estavam indo a Emaús, Jesus se mostra para as pessoas que conviveram com Ele. Por quê? Jesus não é um milagreiro barato, a fé ela nasce do testemunho de vida. A vida que Jesus levou com aquelas pessoas, os anúncios que fez, os milagres que realizou, todo o drama daquele processo, dos sumos sacerdotes, saduceus, fariseus, doutores da lei, que foram apertando o cerco, o próprio Herodes que disse que ia matar Jesus... Esses apóstolos, essas pessoas que estavam próximas, elas viram tudo isso, elas conheceram os fatos desde dentro e é para essas pessoas que Jesus se manifesta. Para que? Para que elas possam olhar a vida de Jesus e o caminho que eles fizeram à Luz da ressurreição. Tudo na vida de Jesus passa ter um sentido novo, um sentido pleno a partir da ressurreição. E Jesus no caminho de Emaús vai ensinar os apóstolos a lerem a Sagrada Escritura, ou seja, o Antigo Testamento, as leis, os salmos, os profetas, não mais como os hebreus liam, mas sempre à Luz da ressurreição. A ressurreição fará a Escritura todinha ter uma nova luz, por isso o Concílio Vaticano II vai dizer que o Antigo e o Novo Testamento formam uma única Escritura, aí algumas pessoas podem dizer: mas lá no Antigo Testamento está dizendo que estão esperando o Messias, se Ele já veio, então não serve para nada. Não, é à Luz da ressurreição que nós lemos isso. Eles estão anunciando, eles são preparação a ressurreição, então serve de baliza, é uma baliza nova, é um novo modo de ver toda a Escritura e toda a revelação de Deus que foi feita antes da ressurreição de Jesus.

Uma coisa muito interessante, nós podemos perguntar, mas para que essa história desse homem com tantas dúvidas? Isso não é para eles, isso é para nós. A dúvida de Tomé é algo para nós. Os outros relatos falam de Jesus, São Lucas vai inclusive dizer que eles estavam tão incrédulos naquilo que Jesus se senta e como um pedaço de peixe assado com eles, para que eles se dessem conta de que aquilo não era um fantasma, aquilo é o novo de Deus. E São João se lembra desse fato, esse discípulo que diz “pera aí, isso pode ser tudo conversa mole de vocês, vocês podem ter bebido um pouco demais e começaram a ver coisas. Ninguém botou a mão nele. Não, eu quero botar a mão”. E ele faz esse gesto quando Jesus aparece novamente e diz ‘Põe aqui na minha mão – era no pulso na verdade. Põe na minha mão, o dedo no buraco, no furo, no rasgo que a lança fez no meu peito. Põe a mão aqui, não duvide’. Tomé fez um gesto para nós, Jesus não é um fantasma, Jesus não é uma alma voando por aí. Jesus ressuscitado é Ele inteirinho. O mesmo Jesus que caminhou com eles, agora está vivo de um outro modo. Ele mantém, carrega consigo as marcas da sua vida, das consequências, das opções da sua vida. Os sinais da Cruz são os sinais da fidelidade de Jesus à vontade do Pai, é a fidelidade que está ali marcada naqueles pregos, nos buracos daqueles pregos, no buraco daquela lança que abriu o peito de Jesus depois que ele já tinha morrido, está lá, mas Ele é o novo, Ele é diferente. Os discípulos de Emaús não O reconheceram num primeiro momento, ou por um longo caminho. Maria Madalena num primeiro momento não O reconheceu, os próprios apóstolos nos outros Evangelhos aparecem como assustados, pensando que fosse um fantasma. Tem algo novo, por quê? Porque é o mundo de Deus, é o mundo de Deus que aparece nesse nosso mundo frágil e finito, nesse nosso mundo condenado à morte. Em Jesus ressuscitado, aparece a eternidade. Quando Santa Bernadete falava de Nossa Senhora, ela dizia: nunca vi nada mais lindo, e depois daquelas visões a luz do sol deste mundo não era mais tão brilhante. Ela viu a Luz da eternidade, isso os apóstolos viram, o mundo de Deus. Por isso que a pregação do Evangelho, é pregação de um mundo humano possível. Jesus, enquanto estava conosco, pregou o amor fraterno entre nós, valores novos e Ele morreu por isso, porque essa era a vontade do Pai, que nós nos amemos como irmãos. Então é possível construir um mundo mais parecido com aquilo que Jesus anuncia, mais parecido que aquilo que Jesus viveu, nós podemos fazer, porque Ele se fez um de nós. Ele não é um fantasma e se Ele amou com amor humano, nós também podemos, com a graça Dele podemos imitá-lo, podemos segui-lo. E São João vai dizer que o verdadeiro amor a Deus aparece no amor ao próximo. Se você ama o próximo, é porque você ama a Deus. Você não pode dizer que ama a Deus se despreza o teu irmão, nisso o amor de Deus se manifestou. Deus nos amou primeiro não só em questão de tempo. Ah, Jesus nos amou há dois mil anos atrás. E o pessoal que tinha morrido antes de Jesus, Deus não amou? Não. Deus ama sempre. O amor de Deus é presente, ele é eterno. Nós que temos passado e futuro. Nós vivemos um presente que goteja, nós não saímos disso, nossa vida é sempre este tempo que goteja. Mas Deus é presença eterna, então o amor Dele é imutável desde antes a criação do mundo, e será imutável também depois da consumação dos séculos. Deus nos ama, Deus nos amou primeiro neste sentido, é amor eterno. É amor antes do tempo, e vai ser amor além do tempo. Nós podemos imitar este amor, Jesus nos mostrou como, Deus que é amor eterno se tornou humano, e nos amou com a capacidade humana, nos ensinou a ser fiéis, até a morte se for preciso. Esse é o caminho de Deus, esse é o caminho do amor eterno e nós podemos fazer, porque Deus nos ajuda, Deus nos dá a sua graça, nós sozinhos não podemos, mas a graça de Deus pode fazer isso em nós. Ele sustenta a fraqueza humana, Ele vai além, até mesmos das nossas infidelidades, dos nossos pecados, das nossas fraquezas. Todos os santos tinham as suas fraquezas, todos os santos talvez tivessem seus pecados, mas a graça de Deus suporta, carrega, dá força para aqueles que buscam viver na fidelidade.

Depois nós temos essa primeira imagem, uma imagem pitoresca da igreja primitiva, os discípulos, os irmãos tinham tudo em comum, vendiam tudo o que tinham e colocavam aos pés dos apóstolos, isso é tudo muito bonito, se o mundo acabasse em um ano. O problema é que o mundo não acabou em um ano e, com esse modelo, eles foram muito ingênuos e algum tempo depois o dinheiro acabou, venderam tudo, acabou. E as outras comunidades tiveram que ajudar a comunidade de Jerusalém. São Paulo fez uma grande coleta entre as comunidades para ajudar a comunidade de Jerusalém, e ali nos descobrimos que o nosso modelo deve ser o da solidariedade, dar de coração, sem constrangimento e sem má consciência. Dar o que te diz o coração, esse é o ensinamento de São Paulo, que depois vai guiar as práticas das comunidades cristãs. Vamos pedir ao Senhor que nos ajude a amar, que Ele nos ajude a ser mais irmãos e irmãs dos outros, participar mais dos sofrimentos dos outros. É tempo de pandemia, mas nós podemos ser solidários. Solidários na ajuda aos mais necessitados, que agora no Brasil são mais de 19 milhões, isso dos famintos, porque se fala em 100 milhões de pobres, nós estamos no desgoverno mais absurdo das últimas décadas, e a solidariedade é possível. É possível nos tornar próximos dos que sofrem. Quantas pessoas perderam seus familiares. Ah, mas eu não posso visitar. Você pode mandar uma mensagem, você pode fazer um telefonema, tem muitos jeitos. E jeitos que não custam, você não tem que ir ao correio para mandar uma mensagem de WhatsApp. Vamos colocar-nos à disposição das pessoas. Às vezes eu não posso ir visitar, mas eu posso fazer uma compra e ir levar até a pessoa, tem tantos modos de ajudar. Vamos fazer o melhor que podemos.

Hoje também é o Domingo da Misericórdia, o que que nos lembra isso? Deus é misericordioso. Nós pensamos – porque nós somos vingativos, extremamente vingativos – que a misericórdia e a justiça não andam de mãos dadas. A misericórdia é a irmã, eu diria sinônimo, da justiça divina. A misericórdia de Deus vai muito além, infinitamente além da nossa justiça, que é extremamente vingativa, muitas vezes não é curativa, não reintegra as pessoas, na maioria das vezes não as ajudam a ser cidadãos melhores. Não é essa justiça que Deus tem. A nossa concepção de justiça é vingativa, que é mandar um monte de gente para o inferno. Deus não é assim não. A alegria de Deus é ver o inferno vazio. Aliás, o inferno é a solidão esquizofrênica de tudo. Deus é misericórdia e bondade. Quando nós celebramos o Domingo da Misericórdia, as portas da misericórdia de Deus estão escancaradas. Isso não quer dizer que estão escancaradas hoje, agora. A misericórdia de Deus está escancarada desde a criação do mundo e se mostrou a nós na cruz de Jesus. Jesus carrega em si estes sinais. É a misericórdia de Deus que se derrama sobre nós e nos chama continuamente a ser melhores. Caminhe os passos de Jesus, busque o bem das pessoas, não procure só o seu interesse, pense nos outros, não se coloque como melhores que os outros, mas como servo dos outros, quem mais tem, mais tem que dar. Quantos talentos nós temos, vamos pôr à disposição. Este é o chamado que o Senhor nos faz, nós, cristãos católicos, devemos ser as pessoas mais alegres, a gente tem que andar na rua rindo sozinhos, porque nós sabemos que Deus é bom. Deus quer que todos sejam felizes e nós devemos fazer o possível para que todos sejam felizes já neste mundo com a prática da justiça e a paz entre as pessoas. Vamos louvar a Deus pela sua bondade, pela sua Misericórdia, por nos ter dado seu Filho Jesus, como revelador do Pai.

Que a alegria da ressureição transforme o mundo

Padre João Aroldo Campanha – Domingo de Páscoa (Ano B) – 04/04/2021(Missa às 10h).

Nós não podemos, de modo nenhum, reprovar, nem Maria Madalena, nem as outras mulheres, nem Pedro porque foram ao túmulo procurando um cadáver. É o drama humano: a morte.

Nós prestamos culto aos mortos. Quando nós estudamos o passado do ser humano, nós podemos dizer que, a partir do momento em que foi feito o primeiro enterro, ali existe ser humano, não apenas um corpo. Mas dali para frente, tem-se consciência da existência da alma humana.

Alguns animais têm certa reverência pelos mortos. Os elefantes fazem guarda para o morto por horas e, depois, simplesmente o abandonam. Alguns primatas, chimpanzés e macacos também se aproximam do morto, tocam-no, mas, após certo momento, viram as costas e vão embora, entregando-o à putrefação. O ser humano não. O ser humano reverencia este mistério, que é a morte. Por isso, para nós, neste tempo de pandemia é tão difícil olhar os que morrem com COVID. Nós, praticamente, não podemos prestar, no momento, culto ao cadáver.

Maria Madalena levanta-se, ainda de madrugada, prepara aqueles aromas para cuidar, demonstrar toda sua devoção, carinho e gratidão a um cadáver. E não é possível que faça diferente. Quando Maria chega ao túmulo, nós podemos dizer que sentiu ainda a “rocha quente” da ressurreição. Ela não acredita e na sua cabeça se passa o que passaria a qualquer um de nós: roubaram o cadáver. Isso a transtorna. Ela corre até os apóstolos: “roubaram, roubaram o cadáver! Roubaram o corpo. Não está mais lá”. Como um defunto não sai andando, concluiu que o roubaram. E os dois discípulos correm. O discípulo amado corre mais rápido. E aqui nós temos uma figura teológica: o amor nos atrai. Tem algo estranho ali, e ele é atraído por isto.

Pedro está imerso em suas desilusões. Ele esperava um Messias político, um Messias que fosse restaurar Israel. O Rei Messias que iria fazer de Israel a nação mais gloriosa do mundo. O descendente de Davi prometido por Deus. Ele caminha – talvez até corra –, mas sob o peso dessa enorme desilusão. João chega na porta do túmulo, na beirada do túmulo, abaixa-se – porque a entrada do túmulo era uma descida –, olha dentro daquela sala e vê as faixas. É como se o corpo tivesse “evaporado”. É isso que João viu e crê.

O amor vai além. O amor supera as coisas comuns do dia a dia porque ele consegue ter entendimentos que a razão comum não consegue ter. Depois chega Pedro, que olha e permanece perplexo ao ver que o cadáver não está aqui. Em seguida, voltam para casa. A Sagrada Escritura nos diz que, depois deste fato, em algum momento do dia, Jesus apareceu a Pedro. Tanto que, à noite, quando os discípulos de Emaús voltam, eles mesmos vão dizer: o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão. É a revelação de Deus, que é algo que vai além da nossa possibilidade.

Jesus nos revela o que está no coração de Deus. E só quem está no coração de Deus pode revelar isso. Jesus nos revela filhos de Adão, filhas de Eva, criados do barro. Mas nos diz que não é este barro, este pó, a última palavra da vossa vida. A vossa vida é para a eternidade. É vida para luz. E o caminho é Jesus. Caminho este que começa aqui, neste mundo. Porque se a nossa vida tem sua plenitude, o seu cumprimento, é porque esta vida é um caminho que pode ser gasto para amar, para fazer o bem, para transformar o mundo em um mundo de irmãos. Esta é a grande novidade do Evangelho. Esta é a Palavra de Deus que nos é revelada pelo próprio Deus, que é Jesus. Não com simples palavras, mas com sua vida, com a sua ressurreição.

O Pai coloca o selo da sua aprovação na vida humana de seu Filho, que estava com Ele na Glória antes da criação do mundo, na eternidade. Este Filho, que se esvaziou da sua glória e se tornou um de nós, caminhou nas nossas estradas. Ele faz o caminho do Pai. Ele mostra a fidelidade do Pai e nos chama a ser fiéis como Ele. Assim como Ele se fez humano como nós, isto mostra que somos capazes, cada um a seu modo, cada um na sua medida de seguir os passos de Cristo. E isto não por nossas forças, com nossa boa vontade, mas abrindo-nos à graça do Espírito Santo de Deus.

Vamos pedir ao Senhor que a alegria da ressurreição, que nos mostra que nossa vida é um além, nos ajude a transformar este mundo, para que ele seja sempre mais parecido com aquilo que é a Glória do Pai. Que nós possamos, apesar das nossas fraquezas – e também com elas –, apesar dos nossos pecados – que Deus perdoa –, trilhar o caminho humano de Jesus, porque este é o caminho da vida eterna.

A ressureição nos ensina a amar

Padre João Aroldo Campanha – Vigília Pascal (Ano B) - 03/04/2021 (Sábado Santo, missa às 18h)

Meus irmãos e minhas irmãs, a fé em Jesus ressuscitado é a nossa força. A fé em Jesus ressuscitado é a garantia da nossa ação. Jesus nos mostrou, no Evangelho, que o Pai trabalha, a criação não foi terminada. Jesus é o ser humano, o ser humano desejado por Deus na eternidade. Ele gerou o seu Verbo Eterno, seu Filho e o desejo que Ele fosse o Homem perfeito. Não existem outros super-homens. O super-homem é o Homem da Cruz, é o Homem que é fiel até a morte, o Homem que anuncia a paz, a paz que Deus nos dá e a paz que nós podemos construir.

Com a ressurreição de Jesus, inicia-se o oitavo dia da criação. Deus repousa, e Deus quer que toda a criação – o ser humano e toda a criação – entre nesse oitavo dia. O número sete é número de completamento, o número oito é a eternidade, a volta sobre si mesmo. Eternidade. Deus nos criou para a eternidade, em Jesus, o Cristo. Ele nos criou, olhando para o seu Filho. O seu Filho, a seu tempo, desceu do céu, se tornou um de nós, nos ensinou a ser humanos – humanos novos, não mais nos fazendo de barro, mas nos ensinando a amar, nos ensinando a fidelidade ao Pai, nos ensinando que nós somos irmãos e irmãs. Nós nos lamentamos do mundo, mas por que o mundo é como é? Porque o mundo não vive o anúncio de Jesus. O mundo não vive considerando o outro como irmão, por isso promove guerras, por isso promove a fome, num tempo onde nós temos mais que o dobro do necessário de comida para a humanidade, nós ainda temos milhões de pessoas que morrem de fome, invejas, a busca do lucro desenfreado à custa de milhões de desempregados. As situações mais mesquinhas desde o roubo da merenda até gastos astronômicos numa nave espacial, ou pior, uma bomba atômica! Por quê? Porque não aprendemos a ser irmãos. Desrespeitamos as pessoas, consideramos as pessoas descartáveis, segunda, terceira, quinta categoria. Não consideramos o outro como um irmão. Irmão é igual, igual em dignidade. Quanto mais um irmão sofre, mais os outros tem que ajudar, porque o que vale não é o lucro, mas a vida do outro.

Esse é o novo que Jesus nos trouxe, essa é a verdade que transformará a face da terra em um mundo novo. Essa é a parte nova da criação que Deus confiou a nós, Ele nos mandou seu Filho, desejado desde a eternidade, para que fosse para nós modelo, para que fosse para nós caminho, para que fosse para nós ponte, força, para que possamos também nós com sua ajuda e com sua graça ser verdadeiramente filhos e filhas de Deus, homens e mulheres que promovem e vivem a paz. A paz entendida da forma hebraica, a paz que é vida, saúde, casa, educação, respeito, acolhida das várias diversidades da humanidade. Paz que é prosperidade, mas prosperidade que é fruto do trabalho comum, onde todos têm a oportunidade de dar seus frutos para o bem de todos – de todos, não de 2% da humanidade, não para 10%, para todos os irmãos que diante do Pai são iguais. E como é difícil para nós aceitar e entender isso, nós queremos sempre ser diferentes, os melhores, aqueles que apontam os dedos para os outros, aqueles que dizem inclusive: você é um pecador, não te posso abençoar... Como somos arrogantes! Deus morre pelos pecadores e faz um absurdo, leva consigo para a eternidade um assassino. Os malfeitores que estavam na cruz com Jesus estavam envolvidos com homicídio, por isso foram condenados do jeito que foram condenados, e Barrabás também iria acabar com eles lá, no mesmo lugar, só que Jesus pegou o lugar dele. Jesus leva esses homens para junto Dele, como para dizer pra todos nós: ninguém é melhor que ninguém. Ninguém é melhor que ninguém, todos são chamados a ser irmãos, todos! E a salvação é para todos, inclusive para os absurdos e cínicos assassinos de Jesus. Ninguém é excluído da salvação. Isto também nos deixa perdidos, como é possível? Isto é incompreensível sim, porque o amor de Deus é maior do que nós, a misericórdia de Deus é mais justa do que a nossa justiça, e o Pai quando ressuscita Jesus e o recoloca no trono da sua glória – glória que Ele tinha antes da criação do mundo, porque é Filho, igual ao Pai, mesma dignidade, mesma divindade. Ele diz: é exatamente isso o homem novo. A fidelidade, que se torna doação e chega ao extremo de dar a vida, se necessário, nos faz homens e mulheres novos. Vida nova. Às vezes, nós pensamos em coisas do outro mundo, mas é na vida do dia a dia que nós vivemos a fidelidade a Deus, que nós vamos aos poucos nos assemelhando mais a Cristo: um pai de família que se dedica aos filhos e a esposa, a mãe de família que se dedica aos filhos e ao esposo, a família que se dedica ao bem da comunidade, do bairro, da cidade, as pessoas que se ajudam entre si, que praticam a justiça e promovem a paz, resolvendo os conflitos com diálogo, as nações que se ajudam e não se roubam.

Nestes dias, ouvimos falar da situação terrível que estão sofrendo a população que está sofrendo lá no Norte de Moçambique, milhões de pessoas levadas à beira do desespero e da morte. E se você vai escavar nisso, não são guerra entre etnias, não são grupos de fanáticos. Sim, tem tudo isso, mas isso tudo é pago, insuflado e promovido pelos grandes produtores e recolhedores de gás natural. Não estão preocupados com a população, com o bem do povo de Moçambique que seria extremamente rico, se este gás extraído para o bem também dos outros povos, rendesse benefício para eles. Não, deve-se esmagar esta pobre gente, levá-los à morte e à fome, com tanto que nenhum metro de gás seja tirado a menos que as nações que estão explorando continuem se enriquecendo. No Iêmen, ao lado da Arábia Saudita, estamos tendo uma situação muito parecida. Sem falar do Brasil, que há anos e anos não tinha nível de corrupção tão alto como agora. As organizações mundiais começam a nos colocar outra vez entre as nações de governos corruptos, se nós nos preocuparmos com o outro como irmão, nós, nesta hora, já teríamos vacina para todos, nós não teríamos catorze milhões de desempregados. Catorze milhões de desempregados multiplicados por quatro ao menos nos dão mais de cinquenta milhões de pessoas sem renda em casa. Isto é um absurdo, um desastre! E grandes empresários se enriquecendo, durante a pandemia. Enquanto os pequenos quebram, os grandes se enriquecem. Venda tudo, jogue tudo no lixo, venda a preço de banana, metade da banana vem para o meu bolso, o resto, jogue para o povo, deixe o povo morrer. Estas são as consequências de não ver o outro como irmão. Jesus nos ensina que só na fraternidade nós poderemos ser realmente humanos, verdadeiros filhos e filhas de Deus. E o Pai deu a sua aprovação a Jesus, ao seu modo de fazer, ao seu modo de pensar, aos seus sentimentos, à sua fidelidade. A ressurreição é o selo do Pai que proclama “Este é o meu Filho amado”. Nele e à imagem Dele, Eu criei o universo, o ser humano e o ser humano deve aprender a ser como Ele.

Vamos pedir ao Senhor que ele nos ajude a nos convencer que só quando nos damos a vida e promovemos a vida, vendo os outros como irmãos e irmãs é que nós estaremos no caminho da verdadeira paz, do verdadeiro respeito pelo outro.

Ser fiel ao Pai, como Jesus

Padre João Aroldo Campanha – Paixão e Morte do Senhor (Ano B) - 02/04/2021 (Sexta-feira Santa, celebração às 15h)

A cruz de Jesus e o seu processo mostram o que é ser do Pai e ser dos poderes do mundo, ser do deus mamona. Jesus era indiferente ao templo. Jesus muitas vezes foi ao templo, mas para fazer pregações, não aparece em nenhuma página da Escritura que Jesus, durante seu ministério, participasse de algum ritual do templo. Dessa forma, Jesus desautoriza o templo. Jesus já tinha expulsado os vendilhões do templo e isso causou um escândalo.

No momento em que Jesus é preso, Ele desmascara também a mentalidade até mesmo de seus discípulos. Pedroainda espera o messianismo de força e de poder. De fato, ele tinha uma espada e corta a orelha direita do servo do sumo sacerdote. O sumo sacerdote, quando era consagrado, não podia ter defeito físico nenhum e ele era "ungido" – não se diz ungido porque era sangue. O sangue do sacrifício se passava exatamente no lobo da orelha direita. Pedro, cortando essa orelha, em um ímpeto de raiva, São João vê nisso a de sagração do sumo sacerdote. O sumo sacerdote, que na verdade é Anás, Caifás era só uma figura de momento. Caifás foi sumo sacerdote de 6 d.C. até 15 d.C. Depois disso, ele colocou cinco filhos dele, um atrás do outro, como sumo sacerdotes, e finalmente colocou o próprio genro, mas quem manipulava tudo, quem governava tudo era Anás. De fato, é para a casa dele que levam Jesus e vão dizer "a casa do sumo sacerdote". Ele era o grande manipulador, homem rico, avarento, que vai julgar por trás, que manipula as cartas, que faz as mentiras parecerem verdades. Ele chantageia, manipula as massas e se aproveita de uma mentalidade do povo que tinha desacreditado nos reis. Herodes, Magno, aquele que fez a perseguição aos inocentes quando Jesus era pequeno, aquele homem era um usurpador, ele e seus filhos Arquelau, Herodes Antípa, e outros filhos que teve eram todos usurpadores, então o povo não acreditava mais nesses reis. O povo começou a acreditar nos sumos sacerdotes, e reconheciam neles a grande autoridade. É um perigo, quando a autoridade religiosa se torna autoridade civil e política, quando se torna autoridade econômica. Foi exatamente isso que aconteceu com os sumos sacerdotes e Anás jogava esse jogo muito bem, perverso. Jesus vai dizer que o inimigo é o pai da mentira, assassino desde o início, o grande servo do inimigo aqui é Anás. Jesus já tinha desautorizado o templo, Pedro cortando a orelha direita do servo do sumo sacerdote que por acaso se chama Malco – Malco significa "rei". Jesus desautoriza o sumo sacerdote e aqueles que se dizem reis. Destitui, não reconhece a autoridade religiosa nem aquela civil. Estes homens são todos servos do deus mamona, do deus dinheiro, do deus lucro, e o deus mamona só pode dar uma coisa: morte, exploração, humilhação. Não se interessa com nada, a única coisa que interessa é que os cofres estejam cheios, mesmo que os pobres tenham que jogar dentro deste cofre, tudo o que tem para viver. É assustador.

O que os hebreus esperam no Messias? Que reforme o culto, que reforme as instituições, que faça de Israel uma grande nação, aliás, a maior nação do mundo e que posso dominar sobre o mundo, impondo a Lei de forma implacável. Jesus não aceita nada disso. Deus é amore o amor dá a vida. O amor não mata, o amor morre para que o outro viva. Isso é o absurdo que eles não aceitam. Nem Pedro entendia isso, se não ele não tinha levado a espada. Nem os outros apóstolos entendiam isso, porque senão não iam brigar entre si, dizendo que ia ficar a direita e a esquerda de Jesus. Todos fugiram. Pedro segue Jesus com o discípulo amado de longe, ou seja, "eu não tenho que aparecer, vamos ver no que vai dar". E, quando Pedro é confrontado, ele cede, "eu não aceito esse Deus aí não, eu não aceito esse Messias, esse Messias me pede pra acabar que nem Ele e eu não quero". Isso nos ajuda a ver que o caminho do Evangelho é desafiador, mas Pedro se arrependeu, retomando várias vezes o caminho... Quantas vezes Pedro voltou atrás? Muitas, até São Paulo desmascarou Pedro pela sua hipocrisia uma vez. Como esse homem fez um vai-e-vem, que é muitas vezes o nosso caminho, mas por fim, foi fiel.

É um caminho difícil e, Jesus não aceitando o poder deste mundo, Ele vai ser difamado, visto como um endemoniado, um herege, e depois eles o condenam como um malfeitor. Ele foi detonado, humilhado, com uma morte terrível, porém o Evangelho é muito sutil quando diz "Jesus tomou sobre si a cruz". Jesus vai livremente para a morte como a dizer "eu morro para ser fiel, eu morro para amar, o ódio não pode ser respondido com ódio". O que vence o ódio, o que vence os poderes do mundo é o amor radical até o fim, por isso Jesus coloca a cruz sobre os ombros, Ele pega a cruz, Ele carrega a cruz. Claro que a cruz seria imposta, mas tem esse detalhe, Ele pega a cruz, Ele faz da cruz algo seu, esse sinal, essa opção de ser de Deus, de ser do Pai, de ser fiel ao Pai, de ser a revelação do Pai, de mostrar "Eu sou Deus, e Deus ama até o fim". Deus não destrói, Deus não mente, Deus não manipula, Deus se entrega e Jesus faz isso.

O Evangelho de João é muito seco nas palavras de Jesus quando está na cruz, mostra a mãe e o discípulo amado, Jesus que tem sede, Jesus que entrega o espírito. "Eu atrairei todos a mim". Maria e João se aproximam de Jesus, é um gesto para escutar as palavras deste homem torturado e agonizante e, nesse movimento, Jesus reconhece o caminho que vai ser feito, aqui começa a atração do mundo, o mundo inteiro virá atrás de Jesus, o mundo terá vida se seguir o caminho de Jesus. Amor, liberdade, paz, solidariedade, justiça, fraternidade são essas as palavras que devem ser acompanhadas sempre dentro daquilo que chamamos de caminho cristão. Durante a Campanha da Fraternidade, vimos a palavra "acolhida do diferente", esse é o caminho de Deus, não o caminho dos preconceitos, dos ódios, dos muros, mas o caminho da acolhida e do respeito, do reconhecer na outra pessoa, seja quem for, um irmão e uma irmã minha, com a mesma dignidade, de filho e filha de Deus. Jesus paga com a vida por isso.

Nós podemos pensar "Nossa, mas é tão pouco", não é tão pouco. Pautar a vida por esses valores, pode nos levar a morte, reconhecer que os sofredores e os explorados são dignos de atenção, cuidado, pode nos levar a morte. Ameaças de morte têm tantas. Nós temos exemplos, e muito recentes, pessoas que cuidam dos pobres e que são ameaçadas de morte. Tivemos muitas pessoas, especialmente no campo, entre operários, entre camponeses que foram mortos, por quê? Porque não aceitam, em nome de Jesus, o mundo da morte e da exploração do outro. O caminho de Jesus é muito forte, o amor de Deus vai muito além do que o que os poderes deste mundo podem fazer. Os poderes deste mundo podem te matar e, além disso, o que sobra para eles? Todos nós vamos morrer, todos nós vamos encontrar com nada, todos nós teremos este momento terrível do estar sem nada, de ser nada. E nisso nós vemos Jesus também solidário com todos nós, Jesus desce ao frio do túmulo, talvez com tantas figuras românticas, Maria Madalena que chora, Nossa Senhora que O segura, tem muito romanticismo aqui, mas Ele está no frio do túmulo. Quando se coloca a tampa, quando se gira as costas, Jesus assume esse lugar. Se faz solidário com toda a humanidade, da morte nenhum de nós escapa. Há os que são santos, há os que são extremamente pecadores, há os monstros da história, mas, na morte, todos nós somos solidários, e Jesus abraça a nossa morte. Jesus morre a nossa morte, carregando sobre si o que nós somos capazes de produzir, morte, destruição, pecado. Jesus carrega tudo isso consigo. Nenhum de nós pode se dizer inocente diante de Jesus crucificado, e os inocentes aparecem crucificados. Procuremos especialmente neste tempo aprender de Jesus, aprender de Jesus que nos dá a vida, aprender de Jesus que não mata, aprender de Jesus que não condena as pessoas, aprender de Jesus que se coloca do lado e junto dos que sofrem daqueles que são tidos como amaldiçoados pela religião. Lá nos tornamos discípulos de Jesus, esses valores nós temos que aprender a colocar na nossa vida, porque só assim seremos discípulos, luz para o mundo. É um caminho difícil sim, cruz não é de chocolate, é um caminho duro, mas é o caminho da vida, da liberdade.

Lembra um fato, não sei se vocês se lembram... Há alguns anos, teve uma grande revolta e manifestações na China, e tinha até tanque de guerra. Uma pessoa se colocou na frente dele, e o tanque de guerra passou por cima do sujeito. É um absurdo, fizeram protestos internacionais, a China teve que mudar uma série de coisas rápido, porque as repercussões tinham sido terríveis, porém, aquele homem não se deixou intimidar pela violência e pela escravidão. Ele preferiu morrer livre, ele se colocou na frente do tanque de guerra, ninguém o obrigou a fazer aquilo, ele o fez livremente. Isso nos ajuda a entender o que Jesus fez. "Eu não vou responder ao ódio do mundo com ódio, o mundo com seus poderes não destrói a minha liberdade, o mundo com seus poderes não me impede de amar até o fim". Isso é redentor, isso salva, e a resposta do Pai virá na madrugada do domingo, mas vamos permanecer diante da cruz. Facilmente nós queremos sair dela, especialmente nesses dias, tantos problemas, isolamento, depressão... São momentos difíceis? São, até eu fico chateado de vez em quando, mas é a cruz! Vamos aprender, vamos caminhar mais uma vez, vamos fortalecer nossa esperança, Jesus não se abate, vamos abraçar a cruz, porque depois da noite longa, por mais longa que seja, sempre vem a aurora. Nós vamos permanecer diante da cruz porque a aurora vai chegar.

Fidelidade ao caminho de Cristo

Pe. João Aroldo Campanha – Ceia do Senhor (Ano B) – 01/04/2021(missa às 18h30).

Última Ceia. Um momento cheio de tensão e, pela dinâmica daquele momento, nós percebemos que os discípulos não estavam entendendo nada. As pessoas que sabem que estão enfrentando de cara o inimigo, sabem que o inimigo vai se aproximando e que o cerco vai se apertando, e chega a hora que a pessoa sabe que vão matá-la.

Jesus já tinha percebido isso. Dias antes, ele já tinha dito isso, em várias ocasiões. Antes, ainda, Jesus já tinha dito “o Filho do Homem vai ser traído, vai ser morto”. Os seus discípulos não entendiam porque a ideia que eles têm é a ideia dos poderes deste mundo, que usam tudo o que podem para se manter por cima, para encher-se de privilégios, para encher os bolsos.

Era assim há dois mil anos e é assim hoje. Usam de tudo, e um dos instrumentos é o medo, a ameaça. Já tinham tentado matar Jesus. Já o tinham avisado: “olha, Herodes está querendo te matar”. No templo, mais de uma vez, pegaram pedras para apedrejar Jesus até a morte, mas Ele consegue escapar. É a ameaça. E, para isso, usa-se de tudo: a mentira, a manipulação. Para quê? Para que o outro ceda, para que o outro mude o seu discurso, para que o outro, de algum modo, entre no jogo. E é essa a grande tentação de Jesus.

E este é o cenário diante da morte iminente de Jesus, homem de meia idade, pleno das suas energias, onde é massacrado e morto. Só que Jesus faz uma coisa que muitas vezes nós não conseguimos nem imaginar: Jesus quer a fidelidade do Pai porque Jesus é a revelação do Pai, e o Pai é fiel até o fim. Jesus é fiel até o fim, e o fim humano é a morte.

Jesus não aceita a tentação de dar uma desviada, de deixar de enfrentar. “Adoce as palavras, mude um pouco, entre no nosso jogo”. Jesus desmonta um mundo de autoridades judaicas daquele tempo, que era todo apoiado no templo, na sua administração, dinheiro, poder e solidificado com a lei. A lei, que deveria ser o sinal da fidelidade de Deus, se tornou o lugar da morte. A aplicação implacável de normas e regras infalíveis - porque os doutores da lei interpretam de forma infalível - não tem espaço para Deus.

Deus foi posto fora do jogo e Jesus, que é Deus, a revelação do Pai, será posto fora do jogo. Jesus sabe e está angustiado. É a angústia humana. Todos nós trememos diante da morte. Todos nós trememos quando nós vemos os abismos se abrirem diante de nós ou quando nós vemos as trevas que nos envolvem. É difícil. Jesus vive este drama de permanecer fiel, sabendo que isso vai pedir a sua morte, vai pedir a sua vida.

Mas Jesus, para se manter fiel ao Pai, para permanecer no amor do Pai - e não na morte da lei -, abraça livremente a morte, não cede. Morre para ser fiel e para mostrar o rosto de Deus, que é amor. Nessa tensão, Jesus se reúne com seus apóstolos. No dia seguinte, eles teriam celebrado a Páscoa hebraica. Mas aquela celebração não foi uma Páscoa hebraica. E, um dia antes, foi uma celebração muito especial, onde aconteceram alguns gestos que são muito diferentes dentro do contexto de aliança, de celebração sagrada. Mas tem algo tão forte, tão estranho, tão novo, que aquelas palavras ficaram marcadas como fogo na memória daqueles homens.

Dois dias depois, quando dois deles estão fugindo para outra cidade, chegam a Emaús, encontram este forasteiro. E quando este forasteiro abençoa o pão, aquelas palavras de fogo se acendem de novo no coração deles. E eles reconhecem, naquele gesto, a plenitude da vida de Jesus. Ele que estava ali caminhando e falando com eles. E, sem seguida, desaparece. Permanece o pão dividido, o amor entregue até o fim e a vida doada. Essa é a mensagem do Evangelho, essa é a mensagem da Eucaristia.

A Eucaristia é uma escola de Cristianismo, é uma escola do Evangelho, como o Pai-Nosso. A Eucaristia é o próprio Jesus que, todas as vezes, se dá para nós. O Deus vivo nos convida a sermos pão dividido para os outros e fidelidade ao amor até o fim, com todas as consequências que isso possa pedir de nós. Fidelidade é a palavra de Jesus em relação ao Pai.

Nisso nós nos tornamos irmãos e irmãs, e é um caminho. Nós, na eternidade, fomos desejados por Deus, à imagem do verbo encarnado, à imagem de Jesus. Mas esta semelhança a Jesus nós construímos no nosso dia a dia, quando nós buscamos sempre, e de novo, ser fiéis ao evangelho. Sempre, e de novo, ser pão repartido para os outros, para que os outros tenham vida, vida doada.

Então a morte de Jesus toma todo um outro sentido: fidelidade, amor pelo Pai e por aqueles que abraçam o caminho do Pai, que também é o amor. E, atentos, o contrário de amor é poder. O ódio é um substrato do poder. O poder desse mundo esmaga, mata. Por isso Jesus, na última Ceia, faz esse sinal estranho, absurdo: lavar os pés. Este era um trabalho de um escravo que não valia mais nada. Mas eu, que sou Mestre, faço assim. Vocês, discípulos, aprendam a fazer isso, todos os dias, durante toda a vossa vida: ser servos dos outros. E, se as circunstâncias nos colocam em situação de comando, lembrem-se: um cristão serve. Para nós, tudo é serviço, não é privilégio. Não é ocasião de se enriquecer, não é ocasião de favorecer grupos especiais, não é ocasião para mentiras.

Jesus e o seu amor desmascaram as mentiras, desarmam o medo. Há duas situações que podem nos dar um pouco esta ideia. E estas situações são tiradas dos muçulmanos. Duas coisas que os muçulmanos têm de muito interessante, que escandalizam a nós, homens e mulheres do Ocidente. O soldado muçulmano não vai para a guerra pensando em voltar para casa. O soldado muçulmano vai para a guerra para morrer por uma causa. E esta é a coisa que mais coloca os soldados ocidentais, de nosso povo, em desespero: eles jogam tudo, mas nós jogamos até certo ponto.

Outro ponto que os muçulmanos nos sacodem é ficar escandalizados com o crucificado. Eles acham horripilante um cadáver pendurado em uma cruz. Infelizmente nós, cristãos, perdemos isso. A cruz, para nós, virou obra de arte. Nós, diante de um crucifixo, achamos bonito – dizemos “que bonito, que coisa linda”. A cruz é um horror. A cruz é a pior tortura à qual podia ser submetida uma pessoa dois mil anos atrás pelo Império Romano. É uma monstruosidade.

Nós deveríamos realmente ter terror diante da cruz. Mas aquilo é amor de quem não teme ser esmagado para ser fiel. E a Eucaristia é isso: serviço na fidelidade, amor radical, que não faz conchavos, que não se vende, que não mente, que não faz narrativas para esconder a verdade, que não vive inventando ameaças para que as pessoas se distraiam dos seus crimes. A cruz é amor radical. A cruz é o lugar onde Jesus mostra até que ponto vai a fidelidade de Deus: até o fim.

Jesus assume a nossa humanidade, e o fim para nós, neste caso, é a morte injusta, massacrada, sob tortura. A Eucaristia nos lembra tudo isso. A Eucaristia nos chama sempre à fidelidade. Por isso, São Paulo [1Cor 11,23-26] – quando vê que os irmãos, antes de celebrar a Eucaristia, fazem banquetes sem que todos da comunidade participem e fazem distinção entre os pobres e os mais ricos – diz que a Eucaristia desse jeito é condenação. Por quê? Ele desmascara essa incoerência. Como você pode ser pão dividido para todos se você faz distinção de pessoas?


E, aqui, nós podemos pegar o tema da Campanha da Fraternidade: como é possível ser cristão se vivemos divididos? Se somos intolerantes, racistas, homofóbicos? Pessoas que aplaudem alusão à tortura, pessoas que aplaudem a limitação da liberdade das pessoas são incoerentes com a Eucaristia! Não pode um cristão viver na incoerência com essa palavra que se faz pão.

Muitas vezes nós nos descobrimos incoerentes e Jesus nos convida, na infinita paciência divina: “acerte o seu passo, acerte o caminho, venha comigo, tente de novo, melhore, converta-se, confesse os seus pecados, peça ajuda aos seus irmãos e irmãs na fé”. A fidelidade, para nós, é uma construção. Mas o importante é ter a coragem de, todos os dias, outra vez, retomar esse caminho de se seguir a Jesus. Aprender da Eucaristia, que é amor coerente até o fim, que Deus se dá, sem distinção. Jesus não faz distinção entre as pessoas e vai chegar ao absurdo de pedir perdão ao Pai pelos seus cínicos assassinos. Tal é o absurdo do amor de Deus que perdoa até quem não pediu perdão. É difícil, mas é esse o caminho de Jesus. E o Espírito Santo nos dá as forças para seguir esse caminho.

Nós estamos aqui hoje, mas não podemos fazer o Lava-pés. Mas nós temos aqui a cânfora, as sandálias – que lembram exatamente o descalçar-se para ser servidores –, temos as uvas e o trigo, que é moído – o grão, se ele quer ser pão, ele tem que aceitar ser triturado. Quem aceita seguir Jesus, aceita este caminho de triturar os seus egoísmos, os seus interesses mesquinhos, para ser, para os outros, pão. Pão novo, pão que dá a vida. Esse é o nosso caminho, ser pão e vinho. A uva também é esmagada. E a uva esmagada, nos dá o vinho. Mas o vinho é alegria, a alegria desse mundo novo. Este mundo novo, que é o amor.

Vamos pedir ao Senhor que nos dê a graça de aceitar ser grão de trigo, que aceita moer os seus egoísmos para ser farinha boa, para ser pão para todos.

A morte de Jesus nos dá vida eterna

Pe. João Aroldo Campanha – Domingo de Ramos e Paixão do Senhor (Ano B) – 28/03/2021

(Missa às 10h).

Parte I

 

Jesus, antes da Páscoa, vem e entra em Jerusalém. Era uma festa popular, e Jesus simplesmente entra no meio dessa festa. Todos esperavam que a entrada do Messias em Jerusalém fosse alguma coisa parecida com a apoteose do imperador de Roma; no entanto, Jesus entra em Jerusalém na humildade, porque esta é a característica de Deus: a humildade. Deus não precisa parecer grande; Deus não precisa se mostrar gigantesco: Ele é. Por isso, pode ser humilde, pequeno, e fazer uma entrada triunfal no meio de uma festa popular.

 

Vamos pedir ao Senhor a graça de poder reconhecer Seus gestos de humildade, que são bem mais fortes que os nossos grandes gestos de poder.

 

Parte II

 

O Evangelho de Marcos [Mc 15, 1-39] nos coloca a crueldade deste momento que é a morte de Jesus. Essa é a parte mais antiga dos Evangelhos, e o Evangelho de Marcos é o mais antigo de todos eles. Jesus é destruído, e a coisa mais absurda é ver que Deus aceita ser aniquilado. Foi um complô dos sumos sacerdotes, com uma ajuda inesperada de um dos discípulos de Jesus – que o Evangelho de Marcos nos deixa com este amargo na boca. Judas foi, de livre vontade, até os sumos sacerdotes. Livre vontade, não queria nada. Traiu o seu mestre, depois prometeram dinheiro para ele. Mas ele não estava preocupado com dinheiro, ele tinha se desiludido com Jesus.

 

No Getsêmani, o Jesus de Marcos é um homem que está lutando contra o terror do sofrimento. Jesus está estendido por terra, implorando ao Pai que afaste Dele o cálice do sofrimento. Essa mesma cena era usada por muitos pagãos para debochar do Jesus que os cristãos chamavam de Deus: "Como é possível que um Deus se jogue no chão, como uma criança, pedindo que o Pai afaste Dele o sofrimento?". Deus não tem medo de tremer diante da maldade humana. A grandeza de Deus, a grandeza de Jesus, está em abraçar, até o fim, esta situação terrível: morte injusta (verdadeiro assassinato), provas falsas, chantagem contra o governador e deboche. Jesus aceita tudo. Isso não é fácil. A pessoa pode ter até consciência de que está na lista dos que deverão ser mortos, pode ter até profunda serenidade; mas a morte sempre assusta, o modo da morte assusta.

 

Jesus é levado, interrogado em um processo que já estava praticamente pronto; sumariamente, decretam que Ele é culpado; e, agora, não basta dizer que Ele é um blasfemador. Um blasfemador seria apedrejado em praça pública até a morte. Não basta isso, eles não se contentam com esse pouco, querem mais. Jesus tem que ser colocado como escória. E isso não é uma coisa só dos judeus, não é uma "coisinha nossa"; Roma, com todo seu poder, vai demonstrar que esse sujeito não vale nada, que é um criminoso da pior espécie – é isso que eles querem, e por isso vão pressionar o procurador. Eles sabem que o procurador está em uma situação de muita fragilidade, e o chantageiam, forçam a mão. E o procurador recua, lava as mãos dizendo: "Este crime é vosso. Vocês me chantagearam, porque sabem que eu estou em uma situação fraca". Porém, só o nome de Pilatos entrou para o "Creio"...

 

Jesus carrega a cruz, que era o símbolo da infâmia. Existe uma maldição, no Antigo Testamento: "Maldito o que morre no madeiro". Jesus é crucificado fora da cidade santa, fora das muralhas. Jesus faz um caminho de, aproximadamente, 600 metros, que é o caminho do Calvário. Crucificado entre inimigos do Estado. Por que não crucificaram discípulos de Jesus? Para não dar nenhuma importância a Ele. Por que colocaram Jesus entre malfeitores comprovados? Eles eram assassinos, tinham assassinado um soldado ou um cidadão romano – era o único modo que levava as pessoas à crucificação. Barrabás seria um deles. Inimigos do Estado, pessoas que complotaram contra o Estado, não só contra os judeus. Pior ainda: contra o Império!

 

E, já na cruz, Jesus abraça nosso abismo da morte. Lá, em outro lugar, em um "tempo sem tempo". No mito de Adão e Eva, a árvore da vida foi lugar do "Não"; a árvore do bem e do mal foi lugar do "Não". Agora, uma outra árvore, um outro madeiro, se torna lugar da fidelidade: fiel à vontade do Pai até o fim, fiel à vontade do Pai mesmo vendo tudo que se destrói, fiel à vontade do Pai mesmo sendo engolido pelo abismo da morte. Jesus grita: "Pai, por que me abandonaste?". É uma frase do Salmo 21, que nós ouvimos durante as leituras. Esse é o salmo que canta essa situação dramática do servo de Deus, mas é um salmo que termina convidando todos a louvarem a Deus, porque a mão de Deus é maior que o abismo da morte, é maior que a maldade humana, é maior que a associação dos nossos pecados contra o Ungido do Pai.

 

E Jesus entrega o espírito. Deus entrega vida. Deus só pode dar a vida. E Jesus entrega a vida. Expira. Sopra o Espírito. A vida de Deus se mantém na eternidade. Deus é vida. O Espírito Santo é a vida em Deus. Jesus, ao mergulhar no abismo da morte, abre para nós o caminho da vida: Ele se torna caminho, Ele se torna ponte entre nós e a vida eterna do Pai.

 

Ter a coragem de olhar Jesus na cruz. Jesus tem como companheiros dois assassinos. Deus se solidariza com os sofrimentos, com as dores, com os horrores da condição humana. Jesus quer salvar a todos, não exclui ninguém. O momento mais alto da nossa salvação, Deus o viveu entre dois assassinos. Deus ama realmente o ser humano! E não adianta querer quase dissuadir Deus do Seu eterno desejo de amor. Até da morte Ele faz ressurgir vida! A paixão na cruz é o lugar da solidariedade, onde todos e cada um de nós pode, realmente, se identificar com Jesus. Ele assumiu toda nossa dor, a nossa miséria, as nossas contradições. Sofreu com todas elas e por todas elas. Ali, naquele homem, nós estampamos tudo que nós podemos: toda a nossa maldade, todo o nosso pecado.

 

Teve um santo, São Jerônimo, aquele que traduziu a Bíblia do grego e do hebraico para o latim. No fim da vida, Jesus apareceu para ele e disse: "Jerônimo, me oferece alguma coisa tua". Jerônimo falou: "Ah, eu te ofereço a Bíblia que eu traduzi". "Não, isso eu não quero. Fui eu que te dei a capacidade para fazer isso". "Eu te ofereço as minhas penitências tremendas, de anos e anos e anos". "Isso não me interessa. Fui eu que te dei a força para fazer isso". E ele foi oferecendo outras coisas e outras coisas, e Jesus falava: "Não, isso eu não quero, isso aí fui eu que permiti que você fizesse". "E o que eu posso te oferecer então, meu Senhor?". E Jesus falou para ele: "Me ofereça os teus pecados". Esta é a única coisa realmente nossa que nós podemos oferecer a Deus: os nossos pecados. E reconhecer, no Crucificado, os pecados que nós estampamos Nele. Ele não pegou os nossos pecados, nós estampamos esses pecados Nele, por isso Ele carrega os nossos pecados. E só quem é capaz de se reconhecer pecador pode mergulhar com Jesus, como nas águas do batismo, mergulhar na morte para ressurgir na vida eterna.

 

Vamos pedir ao Senhor que nos dê esta consciência do amor incondicional que Ele tem por nós; nos aproximar do Crucificado sem medo, reconhecendo que somos necessitados da Sua graça para podermos viver já a vida nova do amor e da solidariedade. É esse o caminho que Jesus tem para nós.

Ser fiel aos planos do Pai

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 5º Domingo da Quaresma (Ano B) – 21/03/2021

(missa às 10h).

Jesus entende a Sua missão destinada primeiro ao povo hebreu. Jesus não tem dúvida que a sua missão, que o seu evangelho, tem que ser anunciado para o mundo. Porém, primeiro a Israel porque este é o povo da aliança, um povo escolhido por Deus. Não porque era melhor que os outros, não. Mas Deus escolheu este povo porque quis! Outros povos fizeram êxodos; outros povos acreditaram em deuses; outros povos experimentaram a própria providência de Deus pensando que eram outros deuses. Contudo, Deus escolheu Israel por pura misericórdia, assim como poderia ter escolhido qualquer outro povo. Elegeu Israel e, com isso, Ele quer demonstrar a Sua fidelidade a este povo, para mostrar a sua fidelidade a todos os povos.

Nesta passagem do Evangelho [Jo 12,20-33], nós percebemos que as coisas estão ficando muito difíceis para Jesus. Quando você assume certas atitudes, certos modos de pensar, você sabe que, em algum momento, o cerco pode fechar em volta de você. E Jesus sabe que as coisas estão se complicando para o lado Dele. E em toda essa máquina que vai se apertando, falta ainda uma peça da engrenagem, que é Judas.

Jesus sabe que é questão de dias, talvez de horas. E estando no templo, vêm estes dois discípulos e falam para ele: "tem um pessoal aí de língua grega". São hebreus da diáspora, hebreus que moravam fora, na Grécia. Talvez, na sua viagem para Jerusalém para comemorar ali a Páscoa, ouviram falar neste profeta, neste pregador, neste homem que fazia sinais, milagres, e querem ver Jesus.

Quando Filipe e André vêm falar com Jesus, Ele diz: "agora é a hora marcada; chegou o tempo; de agora em diante, o anúncio vai ser o anúncio da fidelidade". A fidelidade do Pai vai ser revelada por Jesus na cruz. Naquele período – e o último de todos esses momentos vai ser o Horto das Oliveiras –, Jesus ainda poderia mudar a história: escapar, fugir, mudar as cartas. Mas Ele sabe que, se fizer isto, Ele sabe que estará faltando com a fidelidade ao Pai.

Jesus, que é a revelação do Pai, permanece fiel. E, diante daquilo que Ele sabe que pode e que vai acontecer, Ele sente angústia. Repare que não se diz medo, mas sim angústia. Ninguém quer sofrer torturado. Ninguém quer morrer sob tortura, mas este é o momento da prova. Ou Jesus é fiel até o fim, ou Ele falhou na missão e não revela o Pai. E, como Jesus é a revelação do Pai, Ele se mantém fiel.

Outros povos já foram atraídos pois o nome de Jesus já chegou no ouvido deles. E esses outros povos vão ver o quê? Vão encontrar Jesus onde? No testemunho dos apóstolos que conheceram Jesus na sua entrega absoluta, para revelar a fidelidade do Pai até na crucificação. O amor do Pai vale a vida, e Jesus entrega tudo. E, nessa entrega, Ele se mostra doador de vida. Deus faz isso, doa a vida. Jesus revela o Pai, a força do Espírito, dá a vida para doar vida eterna para nós. Isso é o amor de Deus.

Peçamos ao Senhor a graça de, também nós, sermos fiéis, sabendo que muitas das nossas atitudes e afirmações podem ter consequências dolorosas para nós. Porém, o que conta é sermos fiéis ao Pai.

A luz de Jesus

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 4º Domingo da Quaresma (Ano B) – 14/03/2021

(missa às 10h).

Nós estamos, praticamente, no meio da Quaresma; um pouquinho mais da metade. O domingo de hoje é chamado Domingo Laetare: "Domingo da Alegria" – é por isso que o padre usa essa cor mais fraca de roxo, quase rosa, para lembrar que é um domingo mais suave no caminho da Quaresma. Por quê? Para nos prepararmos para as três semanas que ainda faltam. Temos duas semanas para chegar ao Domingo de Ramos; depois, a grande semana, que é a Semana Santa, em que nós celebramos o mistério da morte, sepultura e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

Na primeira leitura [2Cr 36, 14-16. 19-23], nós ouvimos a história da infidelidade do povo, e como essa infidelidade acabou colocando o povo numa situação de desgraça. Veio o rei da Babilônia e tomou tudo! Esse rei era um louco, era perverso, era horrível – Nabucodonosor. Ele levou os grandes de Jerusalém e da Judeia presos para a Babilônia e deixou para trás o povo mais pobre, de modo que a Judeia ficou praticamente largada, abandonada a si mesma. Depois de 70 anos, o Império Babilônico desabou e foi conquistado pelo rei Ciro, da Pérsia. Ele tinha uma política bem diferente daquela do rei da Babilônia. E o que ele fez? Queria que todos os vários povos adorassem os seus deuses; bastava que pagassem os impostos para o rei e podiam adorar o deus que quisessem. Então ele manda que construam de novo, em Jerusalém, o templo que o rei Nabucodonosor tinha mandado destruir.

 

E aí nós temos a ação de duas grandes figuras: Esdras e Neemias (um era governador e o outro, o sumo sacerdote), que praticamente fundaram o que nós chamamos de judaísmo primitivo. Foi Esdras que estabeleceu os cinco livros da lei, a Torá – Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio –, porque ele fixou esses textos, que eram trechos muito antigos, de muitas tradições; ele, com ajuda de sacerdotes e anciãos, juntou tudo para que se falasse "uma língua só". Desse modo, ele conseguiu dar uma identidade para o povo judeu, e esses livros passam a ser luz para o povo. Por quê? Com a volta dos filhos dos deportados, colocou-se uma grande questão: "Afinal de contas, nossa religião, nossa identidade como nação, vai continuar ou vai desaparecer?". Então Neemias e Esdras têm essa preocupação: "Nós vamos marcar bem a identidade do nosso povo, deixando escrito, claro; pegando todas as nossas tradições e deixando aqui, juntas, para que o nosso povo não se disperse, não erre". E eles conseguiram. Sua obra foi grandiosa!

 

Depois, nós temos essa imagem de Jesus no Evangelho [Jo 3, 14-21]. Nicodemos é um membro do sinédrio – e ele vai, inclusive, chamar a atenção dos membros do sinédrio quando começam a acusar Jesus, lá no capítulo 2 do Evangelho de João; ele fala: "Calma. A nossa lei não permite condenar uma pessoa sem, antes, ter provas". E eles ainda xingam Nicodemos... Esse homem, à noite – para que os outros não saibam –, vêm conversar com Jesus, e Jesus vai falar das coisas do Reino para ele. Uma das questões é esta: o Pai mandou seu Filho para que todas as pessoas que crerem em Jesus tenham a vida eterna. E todos aqueles que se aproximam de Jesus têm suas obras iluminadas, porque essas pessoas não têm medo da luz. As nossas obras boas aparecem, mas os nossos pecados também aparecem... E a misericórdia de Deus nos perdoa e nos ajuda a nos convertermos. Nós não temos que ter medo da luz de Jesus, porque se Jesus mostra os nossos erros é para que nós possamos caminhar com Ele, melhorar, acertar o passo, continuar na vida da luz. Têm pessoas que não querem Jesus, porque suas ações são das trevas – uma pessoa egoísta, uma pessoa que só pensa em passar a perna nos outros, uma pessoa que é capaz até de corromper juízes, políticos... Essa pessoa não quer se aproximar de

Jesus. Você se aproxima de Jesus, seu pecado aparece, e muitas dessas pessoas não querem mudar de atitude, elas se afastam, não querem a luz. Porque se elas se aproximam da luz, elas são convidadas a se converter, e para essas pessoas a conversão é dolorosa, porque é exigente.

 

O Reino de Deus tem uma força que é dele. Não depende de nós, é dele. E Jesus vai dizer: "Vocês se lembram quando o povo reclamou de Deus e de Moisés no deserto? Deus mandou umas cobras para pegarem o povo, daí o povo foi, arrependido, pedir perdão. E Deus falou: 'Constrói uma haste e, nela, põe uma cobra de bronze. Todos aqueles que olharem para ela serão curados'. É exatamente a mesma ideia: quando Jesus for elevado na cruz, todos aqueles que se aproximarem Dele terão vida eterna". Essa é a Palavra de Jesus.

 

Quando Jesus, na cruz, está agonizando (no Evangelho de São João), tem ali a mãe e o discípulo amado – Jesus não chama Maria pelo nome, chama de "mulher". E Ele diz: "Mulher, eis aí teu filho; filho, eis aí tua mãe". Jesus está agonizando, e as palavras desse agonizante são ditas com dificuldade. Então São João quer mostrar Maria e o discípulo que se aproximam, fazem um movimento para ouvir Jesus que está na cruz, um movimento de atração. Quando Jesus vê esse movimento, Ele diz: "Está consumado, agora eu expiro". Esse movimento de se aproximar da cruz nunca mais vai acabar, a humanidade inteira vai chegar e será chamada pela cruz.

 

Essas semanas atrás, nós vimos o Papa Francisco que foi ao Oriente Médio se encontrar com líderes muçulmanos e com antigas comunidades, antigas tradições católicas, cristãs, lá no Iraque e outros países dali. Para mostrar o que? Jesus une as pessoas. Jesus é capaz de colocar na mesma mesa, como irmãos, cristãos católicos, ortodoxos, muçulmanos, hebreus. Deus é capaz de unir as pessoas. Vamos sentar e conversar, vamos aprender. Não vamos deixar que nossas religiões – especialmente, as três grandes religiões que chamamos abraâmicas (que reconhecemos nosso pai comum em Abraão): Hebraismo, Cristianismo e Islamismo – serem manipuladas por interesses e facções políticas, mas possam, realmente, anunciar a fidelidade e o amor de Deus. Foi um ato corajoso o do Papa Francisco, muito corajoso; ele foi em regiões realmente tensas. Mas quando nós queremos a luz do Evangelho, nós conseguimos fazer isso.

 

A partir de amanhã, nós do Estado de São Paulo vamos entrar em um período severo de lockdown, isolamento social. Os doentes chegaram a números absurdos. E, hoje, um ato de amor pelos irmãos e irmãs, pelos nossos próprios parentes, para com nossos amigos, filhos, pais, é ficarmos em casa! Quinze dias. Para tentar fazer com que o número dos doentes diminua, para que nossos hospitais possam dar conta da demanda. Aqui, em SP, já tem gente que está morrendo em filas, esperando a ventilação, esperando a UTI – e não só o pessoal com Covid, porque se você enche as UTIs, as pessoas que estão precisando de atendimento por causa de um infarto, de uma situação grave, não têm como ser atendidas. A doença só vai ser controlada com a vacina! Fazendo lockdown, não vai acabar a contaminação, não, essa só acaba com a vacina. E, infelizmente, nós temos, de um lado, os governadores, que lutam pelo fechamento, para poupar vidas, e nós temos, do outro, o doido que só pensa na economia – "Põe todo mundo para trabalhar! Morre! Não tem problema, a gente enterra...". Daqui a pouco, não vamos ter lugar nem para enterrar esse povo! Se nós contivermos a transmissão, poderemos cuidar das pessoas. Sua mãe, se tiver Covid, vai poder ser atendida. Seu irmão, sua esposa, seu filho... Vão poder ser atendidos. Se nós não respeitarmos isso, nós vamos morrer na fila.

 

Teve um governador, esses dias, que fez um discurso falando: "Gente, não interessa em quem você votou. Deixa isso para lá! Nós temos que cuidar de vidas". E ele falou assim: "Por amor de Jesus Cristo, fiquem em casa!". Vamos cuidar, pessoal. Nenhum de nós quer participar de enterros de paroquianos, nenhum. E eu muito menos! Eu não quero que a minha gente, que o meu povo morra por descuido. Nós somos rigorosos, agora, no agendamento, em medir a temperatura... Nós somos a única igreja aqui na região que faz o povo passar o pé no tapete higienizador. Por quê? Porque nós amamos vocês! Nós queremos o bem de vocês! Nós não queremos mortos. Vamos oferecer a Deus como penitência – não estamos na Quaresma? Penitência. Ficar em casa, essa é uma ótima penitência para este tempo! "Ah, mas eu queria tanto...". Fique em casa! "Meu Senhor, eu Te ofereço este tempo como penitência: vou ficar em casa o mais que eu puder". Sair, só para as coisas essenciais. E, assim mesmo, com todo o cuidado. Vamos tentar, vamos dar o melhor de nós mesmos. Nós não estamos pedindo para subir a Serra do Mar a pé; estamos pedindo para ficar em casa, só isso, gente. Vamos fazer esse esforço para o nosso bem e para o bem daqueles que nós amamos.

Viver em unidade como irmãos

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 3º Domingo da Quaresma (Ano B) – 07/03/2021

(missa às 10h).

A Primeira Leitura de hoje nos traz o livro do Êxodo e fala sobre o decálogo: os dez mandamentos. Ouvindo esta leitura nós vemos que os três primeiros mandamentos são muito compridos. E os três primeiros mandamentos, nós chamamos de "primeira tábua". A "segunda tábua" começa com o amor aos pais: "Amarás os pais", "Não Matarás", "Não cometerás adultério"... enfim, esta é a segunda tábua. A primeira tábua são as que se referem a Deus: "Amar a Deus sobre todas as coisas", "Não tomar Seu santo nome em vão" e "Guardar o dia do Senhor". O que nós percebemos nesta primeira tábua? Que Deus exige de nós reverência, na linguagem teológica nós dizemos "temor de Deus", mas temor de Deus não é medo, é um dom do Espírito Santo. A reverência a Deus é reconhecer a grandeza de Deus, o Seu amor, a Sua sabedoria e a Sua bondade. Nós diante de Deus somos nada, somos pó, pó que o vento leva embora, só Deus é desde a eternidade e será por toda a eternidade. Nós somos por graça e misericórdia de Deus. Nós temos que cuidar muito de não mentir em nome de Deus. "Não tomarás Teu santo nome em vão" não é só não dizer "Ai meu Deus", não... É mentir em nome de Deus ou então querer ser deuses. Existem muitos deuses falsos: o deus da ganância, o deus do ódio, o deus que quer que o outro valha menos do que nós, esses são os deuses falsos, não é o Deus da vida.

 

Deus não precisa mostrar que é grande e poderoso, porque Ele é. Quem é uma coisa não precisa ficar gritando para todo lado o que é, tanto que nós estamos sustentados pela misericórdia de Deus e nós não vemos Deus, Ele não aparece, e Ele nos sustenta e dá a vida. Deus pode ser humilde e absolutamente invisível. E essa é a grandeza do Pai, Ele não tem que mostrar o que Ele é, mostrar no sentido de ser reconhecido pelos outros, Deus não precisa disso. Por isso que Ele pede o santo temor, a reverência, porque a reverência faz reconhecer que nós dependemos Dele completamente. E se nós dependemos de Deus, nós vamos seguir os Teus preceitos. E os preceitos de Deus são vida. É muito interessante nós vermos lá no final do livro do Deuteronômio, quando Deus fala para Moisés: "Eis que coloco diante de ti e do teu povo, a vida e a morte. Se você observar meus preceitos vai ter a vida, se você não observar meus preceitos, você vai caminhar para a morte". Escolhe então a vida! Engraçado, às vezes a gente pensa que ser livre é poder escolher entre a vida e a destruição, entre a vida e a morte. A ordem de Deus é outra. Liberdade verdadeira é escolher a vida! E olha só que coisa engraçada: escolher a vida, porque o caminho que Deus nos mostra é um caminho de vida. E Jesus vai dizer "Eu sou o caminho verdadeiro para a vida!". Jesus, Ele mesmo, o seu modo de fazer, as suas opções, Jesus conhece os corações das pessoas, Ele sabia que aqueles chefes dos judeus que estavam ali conversando com Ele, eram todos falsos. Se nós seguirmos a leitura do Evangelho, logo para frente eles vão se reunir e vão preparar o processo de morte de Jesus. O processo de Jesus estava pronto há mais de um ano, talvez até dois, quando eles finalmente O condenam, pegam Jesus por traição e O condenam a morte. Um processo rapidinho que não acontecia naquele tempo, eram longos os processos. Mas foi bem rápido, do dia para a noite, aliás, da noite para o dia, porque foi no meio da noite, por quê? Provavelmente o processo já estava pronto. Aquela gente era gente falsa. Mas Jesus não se engana com o coração das pessoas falsas, Ele conhece e sabe. Ele sabe que Herodes é uma raposa e fala isso: "Vá dizer para aquela raposa que eu fico aqui ainda, três dias pois eu tenho que cumprir minha missão". A terrível prova que colocam Jesus: "Mas afinal, temos que pagar os impostos para César ou não?", e Ele responde: "Dai a César o que é dele, e para Deus o que é de Deus, mas saibam que vocês ficam mostrando esta moeda, vocês não estão seguindo Deus". É interessante. Jesus conhece muito bem o coração dessa gente.

 

E o que nós vemos aqui no Evangelho de hoje? Essa imagem que às vezes choca, porque nós nos acostumamos com uma imagem muito "frufru" de Jesus, um Jesus bonzinho, delicado, de fala mole... esse Jesus nunca existiu! Jesus anuncia o reino, a salvação, chama as pessoas para mudar de vida e não é com discurso "frufru" que você chama as pessoas para mudanças fortes na vida delas. E uma dessas imagens que mais chocam em Jesus é a da expulsão dos vendedores do templo. Nós quando pensamos no templo de Jerusalém, o máximo que a gente consegue é pensar é em uma igreja grande como a Basílica de Aparecida, do Vaticano, ou a Igreja da Penha no Rio de Janeiro. O templo de Jerusalém era muito mais do que somente uma igreja para o povo rezar, nós temos que pensar que o templo de Jerusalém era tudo, ele era como se fosse: o congresso nacional, o supremo tribunal federal, o banco central e a casa da moeda tudo juntos e a igreja, tudo a mesma coisa. Os sacerdotes comandavam tudo, tanto que eles fazem um tribunal e condenam Jesus a morte. Eles não podem condenar a morte de cruz, que era o que eles queriam, só o governador podia fazer isso, por isso que eles chantagearam o governador. É esse o mundo do templo que Jesus condena, o templo que deixou de ser o que deveria ser, o sinal da unidade do povo de Israel, o lugar que se celebra a aliança com Deus, o lugar onde o povo é realmente irmão um dos outros, onde se vive a fraternidade, onde se acolhe o outro. Por isso Jesus vai dizer para a samaritana "Nem aqui e nem em Jerusalém, os adoradores do Pai o adoram em espírito e verdade".

 

E aí nós perguntamos: quem é o templo do Pai? É Jesus. "Destrua este templo e eu reconstruirei em três dias". Jesus está dando um sinal para os hebreus pois eles viviam pedindo sinais. "Mostra um sinal do céu para nós acreditarmos". Jesus vai condená-los por causa disso, Ele vai dizer "Desfrutem três dias deste templo aqui". Jesus é o templo, Jesus é o novo lugar da adoração do Pai, e como nós adoramos o Pai? Fazendo as coisas que Jesus fazia, assim nós adoramos o Pai. "Nossa, então nós não temos que ir à igreja?" Tem sim. Na igreja, nós nos sentimos comunidade. Na igreja, nós somos comunidade, comunidade de fé, comunidade que reza para poder imitar Jesus lá fora, levar o anúncio de Jesus lá fora. Aqui nós encontramos a Eucaristia, a vida de Jesus toda entregue para nós, para que nós possamos ser eucaristia para o mundo. Aqui nós encontramos a Palavra de Deus, a palavra que ilumina o nosso caminho. São Francisco dizia que a Palavra de Deus é tão poderosa que quando o sacerdote pronuncia as palavras escritas no Evangelho "Isto é o meu corpo, Isto é o meu sangue", essas palavras são tão poderosas, que o próprio pão e vinho se tornam corpo e sangue de Jesus, é o poder da palavra. Aqui nós nos encontramos como irmãos e irmãs para aprender, e como é difícil aprender isso, todos somos iguais. Não pode ter distinção entre nós, não podemos excluir as pessoas, porque é mais pobre, porque é preto, porque é gay, porque pensa desse jeito ou porque pensa daquele. Somos irmãos! E entre irmãos podemos até ter opiniões diferentes, mas o que conta é a nossa união. Somos capazes até de deixar de lado opiniões diferentes para podermos juntos viver como irmãos e irmãs, e Jesus é o lugar da nossa adoração ao Pai. Qual Jesus? Lá na cruz. Jesus sabia muito bem as consequências daquele gesto absurdo que Ele fez no templo, Ele sabia muito bem, mas a verdade tem que aparecer, mesmo que seja o custo da própria vida. Esse é Jesus, é isso que nós temos que aprender.

 

Vamos pedir ao Senhor nessa Quaresma que Ele nos ajude, e eu proponho, o que já foi proposto há algum tempo na Campanha da Fraternidade dos Negros, eu proponho como modo de aprender a acolher o diferente, deixar de fazer piada com três tipos de pessoas: com os pretos, com os gays e com os nossos irmãos e irmãs protestantes, cuidado! Piada que envolve pretos a gente identifica fácil, contra os gays então nem se fala, mas nós somos muito sutis e maldosos com os nossos comentários contra nossos irmãos protestantes, os crentes. Vamos nos propor, nessa Quaresma, a aprender a respeitar as pessoas, a morder a própria língua e não falar piadas destes três tipos de pessoas, e nós vamos estar dando um passo a mais no caminho da fraternidade. Nós vamos ser mais adoradores de Jesus.

Esperança em tempos difíceis

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 2º Domingo da Quaresma (Ano B) – 28/02/2021

(missa às 10h).

Na primeira leitura, nós encontramos esta situação tremenda: Abraão, que tem o seu único filho legítimo – ele tinha outros filhos; naquela época, era poligamia, então ele tinha outros filhos com outras mulheres, mas a esposa que ia dar o herdeiro a ele era Sara, e ela não tinha filhos. Deus prometeu a ele: “Sara vai ter um filho, e esse filho, dessa mulher, será o herdeiro. É ele o herdeiro, não o filho das outras, mas o dela”. Sara teve a criança, e quando o menino já tinha mais ou menos 10, 12 anos, Deus diz: “Agora você vai sacrificar o teu filho para mim”. Lógico que Deus não falou uma coisa dessa; essa era uma tradição pagã, Abraão vinha de uma terra pagã, ele era um pagão. Deus o chamou de Ur, da Caldeia; antes, ele era um pagão – um homem reto, justo, mas um pagão. Não existia o povo hebreu ainda. E Abraão vai, com todas essas tradições religiosas, seguindo o chamado de Deus: “Sai da tua terra e vai para onde Eu vou te mostrar”. E Abraão acreditou em Deus, e ele se torna um adorador de Deus. Abandona os deuses pagãos e se torna adorador de Deus – por isso nós chamamos Abraão de “o pai da nossa fé”, dos hebreus, dos cristãos e dos muçulmanos.

 

Então ele vai, com essa tradição: “Eu vou oferecer para Deus o meu filho”. E Ele põe isso na boca de Deus. Mas Deus não é um monstro, e o que Ele fala? “Está bom, meu filho, pode parar com esse negócio. Eu vi a tua fidelidade, a fidelidade até de oferecer um filho para a divindade! Eu vi, já está bom, pode parar. Oferece um carneiro em vez do teu filho. Mas por causa dessa tua disposição, dessa fé enorme, você vai ter uma descendência maior do que as estrelas do céu, mais do que as areias do mar”.

 

Fidelidade. O nosso Deus é fiel. O nosso Deus nos ama. E Ele não quer a morte de ninguém. Ele salva os Seus filhos! E Ele vai mostrar isso também para o povo no deserto. O povo estava com o exército do faraó atrás dele, com armas, com cavalos... E eles a pé, com mulheres, crianças, velhos, rebanhos. E, de repente, o mar à frente! O que você faz? Estavam perdidos, acabou. E, na última hora, Deus abre um caminho no meio do mar. O povo está no deserto, à beira de morrer de fome; Deus os faz encontrar o maná. O povo está com sede; Deus faz jorrar água da rocha. O povo está cansado dessa comida leve – o maná é uma resina, muito leve, dá para fazer umas broinhas, mas é muito leve; Deus manda os pássaros, que estão fazendo a migração anual e param bem naquela região. Mandou alimento para o povo, salvou o povo da guerra – um grupo muito pequeno que conseguiu destruir um inimigo muito mais forte por causa das orações de Moisés. Isso é para que? Para o povo aprender: Deus nos ama! Deus não quer a morte de ninguém. Esse é o Pai de Jesus: Ele não quer a morte de ninguém.

 

Jesus, no Evangelho de Marcos, nós vemos que Ele faz pregações e o povo fica admirado: “De onde vem essa autoridade?”. Depois, Jesus faz milagres. “Mas como é que ele comanda até os espíritos impuros?”. As pessoas ficam se perguntando: “Mas quem é esse fulano que cuida da gente, que se compadece das nossas dores, das nossas doenças? Quem é esse fulano?”. E um belo dia, Jesus pega três dos Seus discípulos e sobe nessa montanha, o Monte Tabor, e ali se transfigura. Deus mostra um pedacinho do céu. E é muito interessante que nós temos um outro momento, em um outro Evangelho, que fala disso também. Quando Maria Madalena estava lá, à beira do sepulcro, Jesus não estava lá e ela estava desesperada: “Cadê esse corpo?”. Pergunta a uma pessoa que ela vê chegando perto: “Mas o que você fez com o corpo? Diz onde está que eu vou buscar”. A mulher nem sabe o que está falando... Aí o sujeito a chama pelo nome: “Maria”, e os olhos dela se abrem, e ela vê Jesus ressuscitado. Ela também vê um pedaço do céu! E a reação dela é muito parecida com a reação de Pedro: “É muito bom estar aqui”. Ela quer abraçar Jesus, ela viu o céu, ela viu a luz eterna, ela viu a vida de Deus – Jesus ressuscitado é a vida de Deus! E ela quer isso para ela. Jesus vai dizer: “Calma. Ainda não é o tempo, não me toques. Vai anunciar aos meus irmãos que Eu os espero”. E, de fato, naquela noite ainda, Jesus vai aparecer para os doze.

 

Jesus, no Monte Tabor, se transfigura. Esses três apóstolos veem um momento da glória de Deus. E quem está perto de Jesus? Moisés e Elias. Moisés é o grande legislador do povo de Israel, foi aquele que deu uma configuração para esse povo por meio da lei. E Elias é o primeiro dos profetas. Interessante: os dois morreram séculos antes de Jesus. Moisés, mais de 1200 anos antes de Jesus; Elias, muitos séculos antes. E os dois estão vivos, falando com Jesus. Jesus vai dizer: “Para Deus, todos vivem”. A morte nos coloca imediatamente diante de Deus, e nós aparecemos exatamente o que somos diante Dele.

 

Pedro e os outros dois, João e Tiago, escutam esta voz. Veem a nuvem e a sombra, e ouvem a voz do Pai em cima de uma montanha. O que isso lembra? O Monte Horeb: Moisés no deserto, a nuvem que pairou sobre a montanha onde Deus deu a lei para Moisés. Jesus é a nova lei! Aquele que vai escrever nos nossos corações a lei divina, para que nós aprendamos de dentro a vontade de Deus. Jesus é também o cumprimento de todas as profecias, representadas por Elias. Os dois estão voltados para Jesus, porque Ele é Senhor, Ele é Deus. E o Pai diz aos apóstolos: “Este é Meu Filho amado. Escutai-O”. Ele não é um profeta, não é um legislador; Ele é o filho amado do Pai, aquele que olha o rosto do Pai – o que nenhum ser humano pode fazer. Só quem é igual ao Pai pode olhá-Lo face a face.

 

Nós temos essa ideia absurda, que nasce do veneno do maligno em nosso coração, que pensa que os grandes, os “salvadores da pátria”, são pessoas que comandam, são despóticos, decidem a vida e a morte das pessoas. Jesus vai mostrar algo bem diferente. Ele não vai deixar os apóstolos lá, olhando as maravilhas do céu, não. A missão continua! Nós vamos descer esta montanha, e vocês não vão falar nada do que vocês viram até que se cumpra todo o caminho de Jesus.

 

Dali para frente, Jesus vai direto para Jerusalém, e lá Ele vai ser hostilizado, condenado, traído, assassinado. Assassinado como o pior dos criminosos – só crucificavam os piores criminosos contra o Estado Romano. A transfiguração é um sinal antecipado de esperança num tempo difícil, no tempo das trevas, no tempo da morte, para que os apóstolos não se desesperassem com a crucificação de Jesus. E, ainda assim, fugiram...

 

Este nosso tempo é um tempo de trevas, e a coisa mais assustadoras é que as pessoas não estão nem aí. Nós temos gente sentada no Planalto que está dizendo que não tem que usar máscara – bastou aquela meia besteira essa semana para muita gente deixar de usar máscara. Nós estamos em um tempo terrível! Cadê as vacinas? Os hospitais estão todos a 90%, 100% em alguns lugares. Já tinham avisado: o Brasil inteiro vai virar Manaus. Isso é tempo de trevas, isso é tempo de guerra. Uma vez eu falei um negócio e uma pessoa falou: “Padre, pelo amor de Deus, que isso não aconteça!” – eu falei isso no começo da pandemia: nós vamos ver os caixões passando em frente à igreja... Nós estamos às vésperas de ver isso. Isso é tempo de trevas, muitas trevas. E, para ajudar, nós temos um louco, desvairado, que não faz nem uma conta de mais de 270 mil mortos neste país. Tempo de trevas. Mas como disse nosso bispo, Dom Pedro: “Não existe noite que não chegue ao fim”.

 

A nossa esperança é Jesus. Nós vimos dias melhores, e a nossa esperança, hoje, é Jesus. “Ah, tá bom, padre, e na prática?”. Máscara! Higienização. Obedecer às normas de isolamento e lockdown: 21h, todo mundo em casa! “Ah, padre, mas eu gostaria tanto de dar um passeiozinho...”. Aguente, nós estamos em tempos de guerra. Mas a impressão que dá é que as pessoas gostariam que fosse uma guerra de verdade, com bombas derrubando casas, prédios, escolas. Muitos de nós estamos podendo ficar em casa. É um tempo difícil, mas com muita paciência, observando esses poucos meios de prevenção que nós temos – que não é remédio para tratar piolho –, nós vamos conseguir ver dias melhores. A nossa fé em Jesus nos ensina isso.

 

“Padre, o que tem a ver a transfiguração com esta situação que nós temos?”. Tudo. Porque a Palavra de Deus é luz para nossa vida. Para este tempo de trevas: paciência e perseverança. Amar aos outros. Como? Ficando longe por algum tempo. Não existe estrada mais longa que aquela que não começa nunca. Quanto mais desrespeitamos essas regras de segurança, tanto mais longe vai ficar o dia da luz. Quanto mais a gente insiste em nos reunir – 10, 12, 15, 20 pessoas – mais a gente vai ter mortes... Eu não estou falando isso por ouvir falar, não, eu tenho parentes que morreram por causa da Covid. Eu tenho famílias inteiras, da minha grande família, contaminadas. Gente que foi parar em UTI e, graças a Deus, não morreu. Por quê? Por causa da insanidade de se reunir 30 pessoas no Natal – tinha uma pessoa contaminada, que contaminou todos.

 

Vamos descer da montanha! Há um caminho a se fazer. O caminho pode ser difícil, pode ser demorado; mas vamos insistir nesse caminho, que nós vamos ter dias melhores. E vamos rezar. Eu não sei... Deus ajuda os loucos, ajuda também. Mas tem gente que não quer a ajuda de Deus, tem gente que é perversa. Então vamos pedir a Deus que encontre meios – Deus tem Seus meios, Seus modos – de nos salvar desse louco. Que Deus escute o grito do nosso povo neste tempo de trevas. Nos livre desses desvairados. E que, uma próxima vez, nós aprendamos que você só protesta de forma inteligente, e não chutando o pau da barraca, que nem fizemos em 2018. Tinha muita gente para ser eleita; nós elegemos o pior que podíamos. Olha no que é que deu... Estava descontente com o que estava? Todo o direito para mudar! Com inteligência, não com esta loucura. Olha o que nós colocamos lá! Eu, graças a Deus, não votei nele. Um louco, desvairado, que está matando o nosso povo.

 

Vamos rezar. Que Deus dê luz para nossa vida no Brasil, para nossa vida em São Paulo, em Santo André, na nossa paróquia de Santa Teresinha. Vamos pedir à Virgem Maria, Nossa Senhora Aparecida, que olhe por nós.

Ser cristão é ser um missionário de Jesus

Homilia: Dom Pedro Carlos Cipollini – 1º Domingo do Tempo da Quaresma (Ano B) – 21/02/2021 (missa das 10h, Crisma de adultos).

Meus queridos irmãos e irmãs, reunidos nessa celebração eucarística, sei que cada um traz no seu coração sua fé, mas também suas preocupações e incertezas, coloquemos tudo isso no coração de Jesus e digamos: “Jesus nós confiamos em vós”. Ele se preocupa e cuida de nós. A fé é o nosso tesouro: muitas vezes caminhamos no deserto e no escuro, mas a luz da fé deve arder em nosso coração e brilhar iluminar a partir de dentro. Por isso, é tão importante estarmos aqui na igreja mesmo com todas essas limitações e observâncias, muito justas, legítimas desse distanciamento como o uso de máscara, álcool em gel, cuidado pela sua saúde e dos seus irmãos. Lógico que estamos cansados de um ano de pandemia, mas não existe noite tão comprida que não acabe – essa também vai acabar! Vamos continuar rezando e celebrando a nossa fé, vivendo a nossa esperança, é isso que no início dessa homilia quero dizer a todos vocês presentes e vocês que nos seguem pela internet na transmissão ao vivo.

 

A palavra de Deus que foi proclamada nos fala do nosso batismo. Nesse Primeiro Domingo da Quaresma, a Palavra de Deus vem dizer para você: você foi batizado, como você está vivendo o seu batismo? O que você faz da graça do sacramento do batismo que lhe é dada? A Primeira Leitura fala de Noé no dilúvio, onde as pessoas que foram salvas entraram na arca com os animais e o dilúvio devastou tudo, mas, depois do dilúvio, a arca pousou e essas pessoas que estavam lá dentro e os animais começaram de novo a vida na terra devastada por aquele dilúvio. Símbolo desse dilúvio purificador das águas do batismo limpou a terra dos pecadores etc., mas a água do batismo limpa você dos seus pecados para ter uma vida nova em Cristo Jesus e o Evangelho nos fala de Jesus que é tentado, mas falando ainda do batismo digo a vocês que vão ser crismados que hoje encerra um ciclo da vida de vocês. Como cristãos, vocês recebem hoje o último dos três sacramentos da iniciação cristã, que são o Batismo, a Primeira Eucaristia e o Crisma. Com esses três sacramentos, o cristão é declarado maior de idade na igreja. Ele já conhece Jesus, sabe quem é Jesus, tomou conhecimento da proposta de Jesus, como disse Jesus no Evangelho “convertei-vos e crede no evangelho”, tomou conhecimento de que o Reino de Deus que está próximo. O cristão adulto é aquele que conhece a pregação de Jesus que nos ensinou a nos esforçarmos, fazermos a nossa parte porque a graça Dele faz a maior parte para entrar no dinamismo do reino de Deus, que não é um lugar, não é só a eternidade, é um modo de viver. O cristão tem que ser diferente desta onda do mundo que aos poucos vai desconhecendo Jesus e ao lado de um desenvolvimento, um progresso, uma tecnologia maravilhosa humanamente falando, se empobrece no egoísmo, na ganância, na sede do lucro e em atos tremendos de falta de amor e caridade que vemos até nessa pandemia pessoas levando lucro, roubando, corrupção, falsificando vacina, tudo isso faz parte do mundo sem Deus, o cristão vive em um mundo com Deus e um Deus que tem um rosto, Jesus, Seu filho que se encarnou. Então, vocês que serão crismados, assim como todos que estão dentro dessa igreja que já foram crismados, são aqueles que optaram por seguir Jesus e nesse caminho somos tentados. Jesus foi tentado no deserto. Após seu batismo no Jordão, o Espírito Santo leva Jesus ao deserto e lá Ele é tentado por Satanás, mas vence as tentações. Jesus é tentado a se desviar do caminho, da vontade de Deus, a não acreditar na Palavra de Deus, a desconfiar do amor de Deus. Então o diabo diz pra Jesus “transforma pedra em pão, você está com fome e tem um poder enorme, se der pão pra todo mundo as pessoas vão te seguir”, mas Jesus disse “nem só de pão vive o homem, mas da Palavra de Deus”, porque o ser humano não tem sede só de pão material, mas tem fome do sentido da vida e Jesus não era um trambiqueiro que dava pão para a pessoa ir atrás Dele, não por Ele, mas pelo pão e assim por diante...

 

As tentações na nossa vida são muitas e onde é o deserto no qual somos tentados? No coração de cada um, é aí que você tem que decidir se segue Jesus ou não, se vai atrás de outros que te prometem felicidade ou de Jesus que promete a felicidade plena e a realização total da pessoa, mas passa pela cruz porque todo reino de Cristo é baseado no amor, e não existe amor sem a cruz. Não há prova maior do que dar a vida. Toda pessoa que ama, sofre e o sofrer ensina a amar. Jesus só teve um modo de mostrar seu amor, todos os outros foram negados ou desacreditados, a cruz, o sofrimento. E às vezes na nossa vida, quem é pai e mãe sabe que as vezes o único modo de amar o filho é sofrer por ele, porque ama e Jesus fez isso por nós e o cristão tem que segui-lo também.

 

Meus queridos irmãos e irmãs, nesse Primeiro Domingo da Quaresma, o Senhor nos convida à conversão e pergunta o que você fez do seu batismo e a Segunda Leitura fala da vida de comunhão: nós seguimos Jesus não isoladamente, mas em uma comunidade, porque acreditamos que Jesus morreu por todos não por um só. E quem nos ajuda nesse itinerário de conversão é o Espírito Santo. Vocês invocam o Espírito Santo todo dia? Precisa, é Ele que nos ilumina para não cairmos nos enganos, é Ele que nos dá força para vencer o desânimo, Ele que nos ajuda a perseverar, Ele que nos recorda que é Jesus. Vocês que serão crismados recebem o Espírito Santo que vamos invocar e ungir com óleo, símbolo da escolha de Deus para que vocês vivam a vida nova do cristão sem medo e covardia. O Espírito Santo é simbolizado pelo fogo e vento, o fogo simboliza o amor de Deus derramado no coração de vocês, o dom do amor para amar como Jesus amou, esse é o caminho da libertação: o amor, que liberta, acolhe para amar, assim como Deus te acolhe e te ama. E o vento sinaliza o movimento, o cristão não pode ficar parado. Aquele que encontrou Jesus tem que ser missionário levar Jesus ao outro, ir anunciar para que a alegria do Evangelho chegue a todos de forma que ao ser crismado você se torna um missionário, uma missionária de Jesus. E isso você pode fazer de vários modos “ah eu não sei nada como vou ensinar?”. Ser missionário não é ensinar com palavras somente, mas com a tua vida. Madre Teresa de Calcutá dizia: “a minha pregação é a minha vida, olhando o que eu vivo as pessoas entendem o que é ser cristão: fazer o bem, vencer o mal fazendo o bem”.

Quaresma: tempo de orar, jejuar e fazer penitência

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – Quarta-feira de Cinzas (Ano B) – 17/02/2021 (missa das 15h).

Com o evangelho de hoje [Mt 6,1-6.16-18], iniciamos esse caminho de quaresma, de penitência, de revisão de vida. É um tempo para acertarmos nossos passos de acordo com os passos de Jesus. Este ano, a Campanha da Fraternidade nos propõe fraternidade e diálogo. E para você ser fraterno e dialogar com o outro, primeiro de tudo tem que reconhecer a dignidade do outro. Jesus disse que nós temos um único Pai, aquele que está no céu, e que todos somos irmãos e irmãs. Não só os católicos, não só os cristãos, não só os que acreditam em Deus, mas todos, porque Deus ama todos nós, individualmente, como se fossemos únicos. Não existe, diante dos olhos de Deus, quem seja excluído do chamado da salvação. E nenhum de nós tem o direito ou arrogância de dizer: “você está fora da salvação de Deus”. Ninguém tem esse poder. Todas as vezes que até a Igreja tentou fazer isso, errou gravemente. Não podemos excluir, pois a Salvação é para todos. Nós, cristãos católicos, somos chamados, em primeiro lugar, a sermos testemunhas de respeito e diálogo, por isso a Campanha da Fraternidade 2021 nos propõe isso: reconhecer que todas as pessoas são iguais a mim e que não existem pessoas de segunda classe, que estão previamente condenadas ao inferno.

Todos somos chamados à salvação, mesmo porque o juízo não se dará sobre o pertencimento a determinado grupo, clube ou seita. O juízo se dará sobre o amor ao próximo. Jesus não vai perguntar para ninguém se veio na missa, mas vai perguntar: “você amou e serviu os seus irmãos?”; “Você respeitou as pessoas?”; “Você reconheceu a dignidade delas mesmo que pensassem diferente de você? Mesmo que elas fossem de outra cor, tivessem outra orientação sexual, outra religião ou até não acreditassem em Deus? Você reconheceu na outra pessoa a dignidade de filho e filha de Deus?”. Essas são as perguntas que Jesus vai nos fazer. E, dentre essas pessoas, você se dobrou sobre aqueles cuja dignidade era mais destruída – os pobres, os doentes, as pessoas marginalizadas que, às vezes, até a Igreja bota de lado –, você cuidou dessas pessoas?

Nós corremos o risco, muitas vezes, de cuidar apenas do altar e esquecermos que cada pobre, cada sofredor deste mundo, é imagem de Jesus Cristo. A eucaristia que celebramos neste altar tem sentido no serviço que eu presto aos outros porque nesta eucaristia está presente Jesus, vivo, morto e ressuscitado. Os crucificados do mundo estão aqui, na cruz de Jesus, também na hora da eucaristia e, com Jesus, pedem ressurreição. Como Jesus ressuscitou, nós temos que primeiro ajudar a erguer a dignidade dessas pessoas para que todos nós possamos, juntos, estar na ressurreição diante de Jesus no dia do juízo.

O evangelho de hoje nos fala destes três exercícios de piedade religiosa que, praticamente, encontramos em todas as religiões: jejum, oração e penitência (ou esmola) porque todas as religiões – e isso nos ajuda a entender as questões de ecumenismo –, pregam o respeito pelo outro. Todas, de um jeito ou de outro. Pode ser muito limitado “respeito o irmão da sua religião”, mas já é um passo. “Respeite aquele da sua nacionalidade” já é um passo. “Respeite aqueles da sua cor” já é um passo. Se você respeita e os demais respeitam, podem dar o outro passo, de respeitar a todos.

O nosso nome “católico” significa “de todos os povos, de todas as raças, de todas as culturas”. Todos são irmãos e irmãs e nosso amor e respeito devem ser vividos e não falados. O mundo está cansado de conversa mole desde o tempo de Jesus. Tanto que Jesus pregava e as pessoas diziam: “nossa, ele prega com autoridade e não como os doutores da lei (os quais dá a impressão que é conversa mole)”. O povo tem faro para essas coisas.

E, então, Jesus esclarece estes três exercícios de piedade. Pede que façam na sinceridade e não para aparecer para os outros e dizer “eu sou o bom e vocês que não sabem o que estão perdendo”. Era uma atitude que Jesus condenava muito nos fariseus do seu tempo pois eles tinham uma mania de quererem ser os bons judeus de modo que, se todos fossem como eles, o Reino de Deus viria mais rápido, como se tivessem o poder de obrigar Deus a mandar o seu reino. Porém, o reino é de Deus e vem quando Ele quiser. E essa atitude dessas pessoas cria morte: “você não pensa e não faz como eu, então eu te mato”. O que Jesus busca é a sinceridade e o coração aberto para Deus.

A oração é gratuita, um ato de gratidão para o Pai, para Jesus, para o Espírito, para a Santíssima Trindade. Um ato de louvor sem segundas intenções. Santa Ângela de Foligno falou que só fazemos orações interessadas, não somos gratuitos na oração. Até quando louvamos a Deus estamos querendo alguma coisa. Como é difícil ser gratuito com Deus, nos abrir com Ele, nos entregar no mistério dEle. Pois Ele cuida de nós. Devemos ter confiança em Deus, pois Ele vai nos ajudar a viver do melhor modo possível, vai estar ao nosso lado na hora da dor e vai sofrer conosco as nossas dores.

Temos muitos vícios e limitações. Portanto o jejum serve para irmos aparando as arestas. Eu como demais e isto está me fazendo mal. Uma boa penitência de quaresma é comer menos. Vivo grudado no celular. Então uma boa penitência de quaresma é limitar seu tempo no celular. Eu falo demais da vida dos outros. Então na quaresma vou morder a língua e não vou falar. Eu não me importo com as pessoas de jeito nenhum. Então todos os dias na quaresma eu vou mandar mensagem para alguém. Que seja um “bom dia”, para começar a dar atenção para as pessoas.

Já as grandes perguntas que a esmola nos faz são as seguintes: “eu tenho compaixão pelos que sofrem? Quando vejo uma pessoa caída na rua, dormindo, bêbado, embaixo do caixote, aquilo me diz alguma coisa? Ou simplesmente é mais um lixo que eu nem me preocupo? Eu me compadeço com um parente ou amigo doente? Que atenção eu dou para essa pessoa? Eu sou capaz de me compadecer da dor do outro?”. Deus se compadece, tem compaixão, sofre com a gente. Tirar algo de mim para ir em ajuda do outro que sofre: esse é o nosso caminho de quaresma.

Lembrando que só sou gratuito com Deus se eu começo a combater o meu egoísmo, nas situações onde quero tudo para mim e uso Deus para isso. Ser mais gratuito na oração sabendo que Deus já ouviu minha necessidade. Aprender a ser uma pessoa que trabalha sobre os meus defeitos e a não ser egoísta comigo mesmo. Por exemplo, se eu fumo igual a um condenado e neste período vou tentar fumar menos. Quem consegue fazer uma coisa desta na quaresma, rapidinho consegue largar o vício depois. E ainda é possível ver o quanto eu queimo e destruo a minha saúde.

Amar os outros, amar a quem sofre. Vamos pedir a Deus que nos ajude neste caminho.

O amor de Deus não exclui ninguém

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 6º Domingo do Tempo Comum (Ano B) – 14/02/2021

(missa das 10h).

No Antigo Testamento, a lepra não era como conhecemos hoje como hanseníase, mas outra doença de pele. Havia feridas e coisas desse tipo, podia-se pegar em uma grande parte do corpo ou no corpo inteiro. As pessoas leprosas, diagnosticadas tais pelos sacerdotes, eram afastadas do convívio com os outros. Fosse da dignidade que fosse, eram afastadas. Elas viviam em lugarejos fora das cidades, longe das cidades. Quando você estava andando pelo caminho e tinha um leproso a vários metros de distância, o doente começava a gritar "leproso, leproso", para as pessoas não se aproximarem. Isso no tempo de Jesus. Já na Idade Média, eles tocavam um sino para avisar as pessoas para ficarem longe. E, para piorar a situação – que já era terrível –, existiam ainda maldições religiosas: quem se aproximasse de um leproso, quem tocasse em um leproso ficava impuro para os rituais, tornava-se amaldiçoado como os leprosos. Não é à toa que o profeta Eliseu não quis nem ver Naamã. Ele era um homem rico, um ministro da economia da rainha Candace, e o profeta nem quis chegar perto, só deu uma ordem: "Vá lá no rio"; depois que se purificou, ele voltou.

 

O que nós temos aqui na primeira leitura [2Rs 5, 6-14]? Esse homem riquíssimo, ministro da economia de uma rainha, que ouve dizer por uma serva que existe um profeta em Israel que seria capaz de curar a lepra do seu senhor. E o que ele faz? Vai lá procurar. Ele é o ministro da economia do país, então vai procurar quem? O rei. Mas o rei achou que era uma provocação de guerra, e falou: "Mande-o a Eliseu, o profeta. Ele vai resolver isso". Esse homem achava que o rei poderia resolver o problema, mas o rei o manda para um profeta. Depois, o profeta nem vai ver o homem, só fala para ele ir se lavar no Rio Jordão. O ministro ficou muito bravo – ir naquele barreiro? E, então, foi embora. Por quê? Porque as pessoas sempre acham que a graça de Deus tem que ser comprada com sacrifícios enormes – ir de joelhos da Basílica nova de Aparecida até a velha, queimar muitas velas, fazer vários sacrifícios e gastos... Isso é comprar Deus. A graça de Deus, como já diz o nome, é de graça! O que Deus pede é confiança, fé e perseverança no bem. É isso que Deus pede, não se desesperar. Mesmo na cruz, mesmo na escuridão da vida.

 

Então Naamã vai embora com muita raiva, e um dos servos fala: "Meu amigo, se ele tivesse lhe pedido algo difícil, você teria feito. Se ele tivesse te pedido para subir uma grande montanha, você ia. Entrar no rio barrento, o que importa? Entra!". E o homem vai, faz os sete mergulhos – que é um gesto ritual – e sai curado. Ele volta, vai querer agradecer o profeta, oferecer dons a ele, mas Eliseu não aceita, só pede um saco de terra de Israel para levar consigo essa terra santa, essa terra bendita.

 

Vamos para Jesus. Existia, naquele tempo, a ideia de que a lepra era incurável, só Deus podia curar a lepra, e pedia-se uma série de rituais para demonstrar aos sacerdotes que a pessoa tinha sido curada da lepra, além de exames físicos que o sacerdote fazia na pessoa. Sacerdote era quase um médico naquele tempo. Então esse homem do Evangelho (Mc 1, 40-45) ele ousa muito. Primeiro de tudo: ele não grita de longe para Jesus não chegar perto dele. Não, ele se joga aos pés de Jesus, ele é ousado. O que esse homem espera de Jesus? O que esperava de qualquer outro hebreu, que a pessoa imediatamente o afastasse e o chamasse de amaldiçoado. Mas Jesus não faz isso. O homem pede: "Se queres, tens o poder de curar-me". Deus quer a salvação de todos. De todos! Não só dos católicos batizados, não só dos católicos que vão à missa, não só de católico casado direitinho... De todos! Do pessoal que não vai à igreja também? Também. Dos protestantes também? Também. Dos mulçumanos? Também. Das prostitutas? Também. Dos gays? Também. E das pessoas más? Também. Porque Deus não pensa como nós. Ele quer que se convertam, mas quer que todos sejam salvos. "Eu quero". E, na cruz, Jesus pediu ao Pai: "Perdoai-lhes, eles não sabem o que fazem". Jesus não falava isso só para as pessoas boazinhas, não, Jesus estava pedindo por seus assassinos, pelos maldosos e perversos do mundo. Misericórdia para essa humanidade louca, misericórdia. E a misericórdia de Deus nos é dada de graça. Olha que coisa! Nós não somos convictos disso.

 

Tinha um filósofo – meio doido, morreu louco, mas disse uma coisa muito verdadeira; ele era de um mundo protestante, de um mundo luterano, e dizia: "Como vou acreditar nesse Deus cristão? Os cristãos são tão tristes... Se eles acreditassem mesmo na salvação do Deus deles, eles seriam pessoas alegres". Olha que critica séria, muito séria. Nós vivemos querendo comprar a salvação, uma salvação que já nos foi dada, na cruz. Jesus já nos salvou, o sangue dele intercede por nós junto do Pai – está escrito lá na carta aos Hebreus, não é invenção minha não, está lá. Ele entrou com sangue no santuário, e este santuário está colocado diante do Pai. Deus quer a nossa salvação, quer a salvação de todos, por isso que é perfeitamente compreensível um teólogo, Hans Urs von Balthasar, que foi muito criticado por uma frase que ele disse: "Existe o inferno, mas a fé cristã quer que ele esteja vazio". Porque Deus quer a salvação de todos.

 

Aquele homem se ajoelha diante de Jesus, extremamente ousado, e Jesus faz um gesto perigosíssimo – nós não temos ideia hoje do risco que Jesus correu, e pagou as consequências. Jesus estende a mão e toca aquele homem. Quando você se sente um amaldiçoado pela religião, o que é que você pensa que Deus vai fazer com você? Que Deus vai te fulminar, vai te mandar para o quinto, sexto, sétimo dos infernos! Não é assim? E não pense que não existem pessoas que não se sentem amaldiçoadas pela Igreja, porque tem. Pergunte aos gays como eles se sentem...

 

E, de repente, o homem reconhece que, ali, tem a mão de Deus! Jesus estende a mão e toca nele – o Evangelho diz que Jesus teve compaixão. Deus sofre nossas dores, Ele não está só ao nosso lado passando a mão na cabeça, mas sofre as nossas dores. O fulano está lá doente, morrendo; cadê Deus nesse momento? Está lá, sofrendo as mesmas dores. Onde está Deus neste tempo de Covid? Está morrendo sem respirar em certos hospitais, mal acomodado em corredor de hospital, lutando pela vida no respirador – ou sem o respirador. Deus está lá! Deus tem compaixão! E mais uma coisa assustadora: Jesus sabia muito bem que não podia tocar o leproso; as maldições que caiam sobre o leproso caiam em quem o tocasse; Jesus então se torna um amaldiçoado pelo fato de ter tocado aquela pessoa leprosa.

 

Que coisa estranha, tocar um leproso. Nós temos que pensar que o leproso é a primeira pessoa que se sente amaldiçoada por causa da sua doença, então ela é uma maldição para as pessoas da sua família, do seu bairro e da sua cidade. E ele se afasta. A aproximação do outro se torna algo impossível, ninguém pode tocar nele. Às vezes, é muito interessante ver que alguns sofredores de rua, mais do que comida ou ajuda que você dá, alguns te pedem um abraço. Apenas um abraço. Está lá, passando fome... Mas por quê? O abraço indica amizade, acolhida, respeito; dar e receber afeto. Eles são considerados lixo pela sociedade, colocam até pedra embaixo de viaduto para eles não irem dormir. Sabe como se chama esse tipo de arquitetura? Arquitetura do ódio. Nos pontos de ônibus, ao invés de colocarem o banco reto, colocam o banco inclinado, que é para pessoas não deitarem; ou então colocam divisões no meio do banco para que, de novo, a pessoa não consiga deitar. Isso se chama arquitetura do ódio. Então essas pessoas se sentem excluídas, e um abraço é um sinal de inclusão – você é um ser humano, não é lixo.

 

Jesus tocar aquele homem cria, antes de tudo, uma cura interna nele – você é uma pessoa digna, você não é lixo, você não é maldição, você é um ser humano. E Jesus paga as consequências disso. Tocar aquele homem significa que Jesus também se torna maldito, por isso o Evangelho termina dizendo: "Jesus não entrava mais nas cidades". Os leprosos e as pessoas que tocaram em leprosos não podiam entrar nas cidades, porque eram amaldiçoados como os leprosos. Deus, ao nos curar, assume para Si também as dores das nossas maldições. Já pensaram nisso? A compaixão de Deus chega a esse nível! Assumir aquilo que, para nós, é maldição, para nos curar. Nós dizemos e, de fato: "Pelas suas chagas, fomos curados". Quem morria no madeiro era amaldiçoado. Por isso que muitos protestantes, principalmente Testemunhas de Jeová, representam Jesus pendurado e não crucificado, e dizem: "Ele não pode ser Filho de Deus, porque Filho de Deus não pode ser amaldiçoado". Jesus assume as nossas maldições – religiosas, antes de tudo. Por isso a Igreja sempre tem que repensar suas atitudes, suas doutrinas, porque as próprias doutrinas da Igreja podem criar amaldiçoados, e isso vai gerar condenação para a Igreja. Cuidado!

 

Vamos pedir a Deus que Ele nos ajude a aprender a fazer este gesto, tocar no outro. Que nós não consideremos ninguém como amaldiçoado ou excluído. No mundo civil, tem outro jeito de dizer a palavra amaldiçoado – foi até utilizado em campanhas políticas: "vagabundo". Esse é um modo de amaldiçoar as pessoas hoje. Eles são seres humanos, aprendamos isso. Quem está na tua frente é um ser humano como os outros, um cidadão como você, um ser humano amado e querido por Deus. Inclusive as pessoas que os chamam de "vagabundos" são queridas e amadas por Deus, porque Deus não exclui ninguém.

Ouvir a voz de Deus

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 5º Domingo do Tempo Comum (Ano B) – 07/02/2021

(missa às 10h).

Se nós prestamos atenção nas falas de Jó na Primeira Leitura [Jó 7,1-4.6-7], nós ficamos realmente assustados. “Não é acaso uma luta a vida do homem sobre a terra? Seus dias não são como dias de um mercenário? Como um escravo que suspira pela sombra, como um assalariado aguarda sua paga. (...) Se me deito, penso: Quando poderei levantar-me? E, ao amanhecer, espero novamente a tarde e me encho de sofrimentos até ao anoitecer".

 

São terríveis as falas de Jó. O livro de Jó é uma das maiores obras literárias da humanidade, comentado por grandes pensadores, filósofos, psicólogos, cristãos, hebreus, pagãos (que seriam os ateus hoje), e outras pessoas de outras religiões, porque o livro de Jó toca o problema do sofrimento humano – mas pior, o sofrimento do inocente. É terrível porque o drama do sofrimento nós podemos dizer que é o drama humano. A nossa vida é uma fadiga, e certas situações de sofrimento são uma tortura de dia e um pesadelo de noite. Essa fala dele assusta: eu passo o dia sofrendo, esperando a noite, e a noite eu passo aterrorizado com os meus sofrimentos, tremendo.

 

Quatro amigos de Jó vêm conversar com ele. Vocês sabem como Jó acabou? Era um homem riquíssimo, honestíssimo, perdeu a família inteira, perdeu todos os seus bens, ficou pobre miserável, sobrou a mulher que o amaldiçoava, e a única coisa que sobrou foi um caco de telha com a qual ele raspava as suas feridas. É terrível a situação, tremenda. E é muito interessante ver o que a mulher de Jó fala para ele: “amaldiçoa Deus e morre!”. Mas Jó em nenhum momento do seu sofrimento, do seu desespero, amaldiçoou Deus, em nenhum momento! Ele se lamenta do seu sofrimento, ele não aceita as explicações falsas e religiosas que os seus amigos traziam, mas ele quer se afundar no drama do sofrimento, e grita a Deus: “o que que é isso?”.

 

Os amigos de Jó virão com muita conversa mole que nós facilmente usamos, nós continuamos tentando explicar o sofrimento do mesmo jeito até hoje. Primeiro, vê a prosperidade como sinal da graça e da salvação de Deus. Esse pensamento existia no tempo de Jesus, ele era mandado para frente pelos saduceus, que eram sumo-sacerdotes, e, no mundo cristão, ele se tornou emblema do Calvinismo e impera no pensamento norte-americano. Pensamento norte-americano que alguns querem trazer para nós, mas é falso! O outro é “você cometeu algum pecado, então você está pagando por algum pecado”, e Jó responde: “isso não é possível, eu sou um homem justo, eu sempre paguei os meus assalariados, eu sempre pratiquei a religião, eu sou um homem honesto, eu não tenho crime” – então ele descarta essa possibilidade. “Por que é que eu sofro?”. Aí vem um outro: “ah, é porque você está pagando o pecado de alguém!” e ele descarta isso também – “isso é mentira, cada um paga as consequências dos próprios atos, isso é conversa mole” e o outro vai dizer: “porque você não pratica a religião” e ele fala “isso é mentira, porque eu sempre prestei culto a Deus”. Ele manda os amigos todos embora e ele continua a debater com Deus, uma coisa muito interessante.

 

Finalmente ele chama Deus para o tribunal, aí Deus fala com ele: “escuta aqui, foi você que criou os fundamentos da terra? Foi você que me aconselhou a fazer alguma coisa? Você chama as estrelas do céu todos os dias pelo nome delas? É você que comanda as ondas do mar? Que mantém o mundo – hoje nós diríamos, girando no espaço? É você que cuida disso? Foi você que criou os peixes do mar? Foi você que botou a vida na terra? É você que decide a vida e a morte das pessoas? É você que acolhe elas na boca do Sheol?” Sheol é o mundo dos mortos, os hebreus pensavam assim. Jó fica sem palavras, mas ele ousa procurar as profundezas do sofrimento humano, e grita contra essa condição terrível que é a nossa. Mas tem uma luz em tudo isso: Jó nunca amaldiçoa Deus. Ele amaldiçoa até o próprio dia que ele nasceu, mas não amaldiçoa Deus. É como se ele tivesse sempre no ouvido a voz da mulher dele: “se você amaldiçoar Deus, você vai morrer”, e é estranho porque Deus leva Jó para o limite do sofrimento, o máximo, mas não lhe dá a morte. O livro termina com Deus que desaprova os amigos de Jó e as desculpas que eles davam para o sofrimento, e ele recompensa Jó voltando à vida que ele tinha antes.

 

Jó desmonta as nossas falsas explicações sobre o sofrimento humano e se debruça sobre a misericórdia de Deus, a grandeza de Deus. Nós somos pó, nós somos sombra, nós somos como reflexo num espelho – você passa e o seu reflexo não existe mais. Só Deus permanece – essa é a situação que Jó percebe: nós não somos nada.

 

Quem somos nós para analisar os dramas do sofrimento humano? E, cuidado, eu digo o sofrimento humano, porque muito sofrimento tem explicação... O sofrimento por causa da injustiça, esse tem explicação. O sofrimento por causa da guerra, esse tem explicação. A injustiça é sempre manobra dos grandes. A guerra é sempre o orgulho dos grandes, e os pobres pagam a conta. Mas existem sofrimentos que se impõem para a nossa vida, e nós nos perguntamos “por quê?”. Jesus não vai nos explicar o porquê do sofrimento em nenhum momento, nenhum. Jesus cura algumas pessoas, Jesus não cura todo mundo. Ele cura algumas pessoas e isso serve como sinal – sinal de que Deus está perto de nós, que Deus se compadece. Mas, ao longo do Evangelho, esses são sinais, até o grande momento da cruz. Na cruz, Jesus sofre a nossa morte e a morte de todos os injustiçados da história, porque Jesus, sendo inocente, foi vítima de um complô, de chantagem entre os poderosos e morre assassinado e inocente. A morte de Jesus na cruz é um assassinato, é o sofrimento do inocente.

 

Jesus vive o nosso drama, Ele vive o nosso desespero: “Pai, por que me abandonaste?” – é o mesmo grito de Jó, o mesmo. E Deus permanece em silêncio, olha que coisa terrível, Deus permanece em silêncio, o Pai permanece em silêncio. O silêncio de Deus fala, o que é que Deus está falando para Jesus, o Pai está falando para Jesus? Essa cruz é tua, o que você pode fazer é carregá-la na fidelidade a Deus. Jesus não amaldiçoa o Pai, do mesmo jeito que Jó, ele nunca amaldiçoa o Pai. E Jesus se torna morto como nós, morre na cruz, vê todos os seus desejos, seus sonhos, os seus projetos completamente aniquilados – acabou. Ele é depositado no frio de um sepulcro, Ele se solidariza com todos nós, com nosso sofrimento e com a nossa morte, e Ele nos dá como grande resposta a ressurreição. A ressurreição é a resposta de Deus para o sofrimento e para a morte humana. Mas não nega, não explica e não nos tira da morte e do sofrimento, porque todos nós, desde o mais velho até o neném, todos nós veremos a morte, todos, é a nossa condição humana.

 

Jesus não explica a morte, não explica o sofrimento, Ele cura algumas pessoas como sinal de esperança para os que sofrem. Ele sofre na cruz, se solidarizando conosco. Ele morre a nossa morte e abraça o frio do sepulcro, e nos dá a vida eterna. Essa é a nossa esperança, essa é a luz que é capaz de nos guiar nas trevas do sofrimento e da dor – por isso a luz que nós celebramos hoje. Às vezes, no meio das trevas, nós não temos a luz do sol. Às vezes nós temos uma luzinha, uma chama pequena no meio das trevas. Essa chama, que, no batizado, nós entregamos para os pais é a chama da fé, que nos ajuda a caminhar no vale da dor, do sofrimento e da morte.

 

Esse é o caminho cristão, esse é o sentido da nossa vida. Cristão não fica perguntando o porquê dos sofrimentos, cristão se solidariza com os que sofrem porque sabe que Deus, Jesus abraça o nosso sofrimento. E nós vemos que, apesar do Pai ter ficado em silêncio durante toda a Paixão de Jesus, pela sua morte, na ressurreição, nós descobrimos que o Pai nunca tinha abandonado Jesus, mas estava em silêncio. “Essa cruz é tua. Carregue na fé.”. Isso não é a defesa do sofrimento, mas é dar o sentido cristão do sofrimento humano.

 

Vamos pedir à Virgem Maria que nos ajude – nós cremos, numa antiga devoção cristã, que nos três dias da morte de Jesus, só no coração de Maria a fé da Igreja se manteve viva como uma pequena vela abatida pelo vento, mas se manteve viva até que aparece a manhã da ressurreição. Por isso Jesus não precisou aparecer para Nossa Senhora, não precisa. A fé dela se manteve acesa. Vamos pedir a ela que nos ajude.

Reconhecer Jesus como o Messias

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 4º Domingo do Tempo Comum (Ano B) – 31/01/2021

(missa às 10h).

Nos anos 600, os grandes da cidade de Israel foram deportados para o império da Babilônia. Só sobrou o povo mais simples. E o que aconteceu? Na Babilônia, eles atribuíam as doenças, físicas e mentais, a espíritos. Naquele tempo, eles não sabiam o que era vírus, o que era bactéria, o que eram infecções... Não tinham normas de higiene muito sérias. O povo de Israel ainda era um povo bem limpo, mas, em outros povos, o negócio era feio – e isso foi até muito pouco tempo atrás... Então doenças não faltavam, e todas as doenças físicas e mentais eram atribuídas a espíritos. Com o tempo, começaram a atribuir as doenças mentais a demônios – esses espíritos eram chamados "demônios".

 

Nós temos que pensar que temos situações psiquiátricas e neurológicas terríveis. Pensem na epilepsia. Naquele tempo, não existia Gardenal; a pessoa podia ter 20, 30 convulsões por dia! Uma pessoa esquizofrênica, louca completamente, não tinha nenhum tratamento, não existia cura para essa gente, o máximo que faziam era amarrar o pobre coitado e largá-lo, meio doido, vagando... Pensem nas pessoas com histeria – os fanáticos, geralmente, são pessoas histéricas. Fanáticos que saem gritando no meio da rua são pessoas histéricas, muito parecidas com esse homem do Evangelho [Mc 1, 21-28]. E Jesus curava essas pessoas, curava o demônio que essa pessoa tinha – eles achavam que era um espírito que causava isso. E Jesus também achava, viu? Porque, senão, Ele não era Filho de Deus. Porque Jesus se encarnou em um tempo, em uma cultura, em uma compreensão de mundo; Jesus não sabia que ia ter astronauta nem internet, porque, se soubesse, Ele não era Deus. Olha que engraçado, né? A gente pensa, às vezes, exatamente o contrário. E é errado. Jesus assumiu a visão e a mentalidade do Seu tempo. E Jesus curava essas pessoas.

 

Em Marcos (nós estamos vendo, este ano, o Evangelho de São Marcos), nós temos este chamado "segredo messiânico". Quem são as pessoas que confessam que Jesus é o Filho de Deus? Os demônios, que Jesus manda calarem a boca; pessoas que recebem curas de Jesus, que Ele também manda que se calem; e os próprios discípulos, quando, lá em Cesareia de Filipe, Jesus pergunta: "Vocês, quem dizem que Eu sou?", e São Pedro fala: "Tu és o Filho de Deus", mas Jesus proíbe os discípulos de falarem isso. Por quê? Só no fim do caminho de Jesus – que vai ser a cruz – é que o centurião, um pagão, vai dizer: "Este homem era o Filho de Deus". Então toda a vida de Jesus é revelação da messianidade. Jesus que é Messias, ungido do Pai, igual ao Pai. Mas toda a vida Dele é vida do Messias, e a vida do Messias é diferente do que se esperava. O Messias termina Sua missão neste mundo na cruz – isso é um escândalo, isso é um absurdo! Todo mudo esperava que Ele fosse reformar o templo de Jerusalém, que fosse modificar todas as estruturas civis, políticas de Israel... E Ele não fez nada disso. Ele pregou a conversão, que as pessoas começassem, realmente, a viver como irmãos e irmãs – isso muda o mundo! Isso purifica a religião. Isso faz com que as pessoas possam viver na paz e na justiça.

 

A fama de Jesus é também por causa do modo como Ele fala. Jesus não fala como alguém que leu em livros, Ele fala com autoridade própria. Jesus entende a Si mesmo como aquele que mostra e revela o coração do Pai. A autoridade Dele está no Pai, e isso vai incomodar tanto os sacerdotes, os doutores da lei, os fariseus – que eram bons religiosos – que eles vão começar a perguntar: "Mas com que autoridade você fala isso? Como você fala desse jeito?". Porque a autoridade de Jesus é Dele, e não recebida de outros. Deus não precisa pedir autorização para ninguém. E Jesus é igual ao Pai: Filho, gerado na eternidade do coração do Pai. Então Ele revela o Pai, e a autoridade Dele é essa.

 

Vamos pedir ao Senhor que nós também possamos reconhecê-Lo como Messias, como Aquele que nos indica o caminho do Pai – caminho que é Ele mesmo, a vida Dele, o jeito de Ele fazer. E que nós possamos reconhece-Lo também, especialmente, nas pessoas que sofrem, porque lá está o Senhor.

Deus quer a salvação de todos

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 3º Domingo do Tempo Comum (Ano B) – 24/01/2021 (Domingo, missa às 10h)

Na Primeira Leitura, nós temos um trecho de uma novela do Antigo Testamento, que tem muitas novelas – o livro de Jonas e Tobias, Rute, Ester são todas novelas, não é só a TV que faz novelas, elas já existem a muitos milênios. A história de Jonas nós conhecemos, é um profeta que Deus manda ir anunciar na cidade de Nínive, porque dentro de pouco tempo se eles não se converterem serão destruídos. Jonas tenta fugir da vontade de Deus, entra num navio e vai pra outro canto do mundo, Deus faz vir a tempestade, jogam ele no mar e depois o peixe o salva – o peixe aqui simboliza a graça de Deus – e o coloca lá na praia perto de Nínive, ou seja, a palavra de Deus pode girar o mundo, mas ela vai cumprir a vontade de Deus que é que todos sejam salvos, todos! Nínive era uma cidade de três dias de caminho e Jonas é um homem de cabeça dura, faz quase uma pirraça pra Deus, só anda na cidade um dia, não percorre toda a cidade, anunciando que se a cidade não se converte, destruição. Mas esse anúncio já é suficiente pra chegar aos ouvidos do Rei, e ele proclama jejum e penitência, todo o povo faz, e Deus perdoa a cidade. Nínive é a capital de um grande império, a Assíria, são pagãos, não acreditam no Deus de Israel e esse povo escuta o chamado de Deus à conversão e muda de vida. Como profeta, Jonas é um bom Israelita, ele não acredita que esse povo vai se converter, então ele sobe na montanha e fica esperando Deus mandar fogo do céu, mas isso não acontece, Deus perdoa o povo e é muito interessante ver o final do livro de Jonas que é quase um bate boca entre Deus e Jonas: “pra que eu vim aqui se você perdoa tudo, não adianta nada”, é um cabeça dura até o fim, para provar que Deus também usa os cabeças dura.

 

Depois encontramos no Evangelho, Jesus que faz um anúncio. Ele foi batizado, foi tentado no deserto, João Batista foi preso e Jesus começa a sua missão “convertei-vos, o Reino de Deus está próximo, crede no Evangelho”. Existe uma diferença muito grande entre este anúncio é o anúncio de Jonas, que é de castigo e destruição, que é uma mudança fruto de medo. O Evangelho é diferente, Jesus anuncia a Boa Nova, a palavra Evangelho quer dizer “boa notícia”. A plenitude do tempo chegou, a promessa de Deus se cumpriu, Jesus, o salvador, está ali no meio do povo, creiam na boa notícia, se convertam segundo essa boa notícia, misericórdia, amor, comunidade de irmãos. Tanto que logo depois Jesus chama os primeiros discípulos à boa nova de Deus é um mundo de irmãos e irmãs que busquem sobretudo o Reino. E tem uma coisa meio estranha nessas duas histórias: Jonas vai anunciar a uma grande cidade, capital de um império, mas Jesus começa o seu anúncio em um fim de mundo, a Galiléia, era meia desprezada pelos judeus, eles pareciam meio misturados, um povinho que acreditava em muita coisa, Deus vai falar e mandar seu Verbo Encarnado lá nesse fim de mundo e Ele começa o anúncio para esse povo. Deus quer a salvação de todos, mas quer a salvação começando por baixo, pelas periferias do mundo, é curando as dores das periferias do mundo que nós vamos mudar a ação da toda a sociedade, não o contrário, começando de cima... Esse foi um projeto que durou mais de mil anos na igreja: “vamos converter os chefes, os reis, os nobres e eles vão converter o povo”, isso é falso, demos com os burros n’água. Se as pessoas recebem o anúncio de cima elas começam a segurar as coisas pra si, não chega nunca lá embaixo, é de baixo que mudamos o mundo e não de cima. É da consciência do povo que nasce um mundo novo e não da cabeça de um líder político, nós estamos vendo a desgraça que está ai, não é esperar o salvador da pátria, é a união do povo que cria um mundo diferente. Jesus quer que esse mundo diferente nasça entre nós, saber olhar onde Deus olha, Deus olha para o pobre, para a viúva, para o órfão, para aqueles que chamamos de marginalizados. Por isso que tudo que fazemos a um desses, estamos fazendo para Deus, para Jesus, pois Deus está lá.

 

Hoje também é o chamado Domingo da Palavra de Deus, pode ser estranho para nós, porque temos o mês da Bíblia aqui no Brasil, mas isso é coisa da CNBB, não é do mundo inteiro. Então, para dar destaque a importância da Palavra de Deus para a vida do mundo, dos católicos, o Papa Francisco instituiu um dia pra isso, a Sagrada Escritura é uma palavra para o povo, mas muitas vezes ela virou palavra controlada pelos padres e, no mundo católico, foi bem assim, se formos para a Antiguidade é pior porque ninguém sabia ler e nem escrever. Com a igreja católica foi igual, e com a reforma protestante piorou... Os protestantes pegaram a Palavra, a traduziram nas várias línguas dos países dele, os católicos se fecharam no latim que o povo não tinha acesso, supervalorizamos os sacramentos e a Palavra de Deus ficou em segundo plano. Em 1800, começa um grande movimento bíblico entre os protestantes, um estudo muito sério da palavra que deu origem depois as grandes descobertas bíblicas, várias formas de ler, aprofundar, a arqueologia bíblica, descobrimos documentos novos, tudo começou com esse grupo de protestantes, os católicos aos poucos foram entrando também nisso, estudiosos católicos, e muitos deles foram perseguidos, foram proibidos de escrever e de falar, o negócio não foi fácil. Depois, na metade de 1900, começa a entrar na igreja essa voz, a Bíblia como guia, com necessidade de estudo. Com o Concílio Vaticano II, tivemos a revalorização da Palavra. Existe um texto inteiro, uma constituição inteira do Concílio, colocando nas mãos do povo a Palavra de Deus para que os católicos leiam a Bíblia. Depois de quase 50 anos do Concílio, percebemos que os católicos não leem a Bíblia. Fazemos no Brasil o mês da Bíblia e o povo não lê, o Papa institui um dia para a leitura da Bíblia e o povo não lê. A Bíblia é Palavra de Deus, onde encontramos as raízes da nossa fé, alimento para a nossa vida, onde conhecemos Jesus Cristo e a fidelidade de Deus ao longo da história do seu povo. Na Palavra de Deus, nós ouvimos a grande palavra de esperança de Deus sobre a história humana e será dita uma última palavra e ela está no Cordeiro, Jesus, Ele vai dar sentido para história, Ele vai dar a última palavra para tudo. Eu espero que depois de toda essa falação vocês cheguem em casa e procurem onde esqueceram a Bíblia e quem sabe tenham a coragem de começar a ler. Começa na primeira página, pela Gênesis, mesmo que tiver que pular a parte que não entendeu, continua a leitura e vai lendo como um romance, página por página, para ao menos uma vez na vida poder dizer que leu a Palavra de Deus inteira. Leia os Evangelhos se você não entende o Antigo Testamento, não tem desculpa! Vamos ter a Palavra de Deus como leitura de todo dia, um trechinho por dia, lá encontramos força para nossa vida, luz para o nosso caminho, lá conhecemos Jesus.

Estar mergulhado em Deus

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 2º Domingo do Tempo Comum (Ano B) – 17/01/2021 (Domingo, missa às 10h)

Onde Deus está? Qual a ideia que nós temos da presença de Deus? Será que Deus está acima daquele azul que a gente vê lá no céu? Será que Deus está em Marte? Em algum buraco negro pelos confins do universo? Será que Deus está fora do universo? Onde Deus está?

A pergunta deve ser ao contrário: onde nós estamos? Nós e o universo inteiro estamos mergulhados em Deus. Nós e toda a criação somos como um pequeno peixe, no mais profundo oceano infinito. Nós estamos mergulhados em Deus. E Deus se faz encontrar. Todos os povos adoram alguma divindade. E por quê? Porque Deus se faz sentir pelos povos, se faz sentir pelo coração humano, pelos nossos desejos, pelas nossas grandes perguntas: qual o sentido da vida? Para onde vamos? Por que morremos? E nossa revolta contra a morte.

Não sei se vocês já ouviram falar da 9ª sinfonia de Bethoven. Talvez nestes termos não ouviram, mas seus principais acordes todo mundo já ouviu. Esta sinfonia é sobre o grito da alma contra a morte. E olha que engraçado: grito contra morte, contra essa "coisa" que nos devora, mas que nos obriga a perguntar o sentido da vida. Nos obriga a perguntar sobre Deus. E aí, nos questionamos novamente: onde Deus está? Estamos mergulhados nEle e Ele nos faz achar cada um de nós de modo diferente.

Nós temos, na Primeira Leitura [1 Sm 3,3b-10.19], o modo como Deus se aproximou de Samuel. Ele era filho de Ana, que era uma mulher estéril. Naquele tempo, as mulheres hebreias que eram estéreis eram consideradas amaldiçoadas. O povo de Israel tinha que ter filhos e, portanto, uma mulher estéril era uma maldição. Então Ana pede a Deus que lhe dê um filho: "se eu tiver um filho, vou dar ele para o templo, para ser um servidor". E Deus concedeu. E o menino chamava-se Samuel. E quando ele tinha idade, ela foi e colocou o menino no templo, a serviço de Deus. E esse menino talvez não tinha ouvido falar muito de Deus. Trabalhava e servia os sacerdotes e talvez os sumo-sacerdotes, mas não tinha ainda ouvido a voz de Deus.

Nós podemos passar anos das nossas vidas falando de Deus, rezando e ainda não ter encontrado Deus. Algo estranho, não é? Samuel estava lá dormindo e ouve essa voz. E várias vezes vai até Eli e fala: "olha, o Senhor me chamou, estou aqui!". Em um certo ponto, Eli se dá conta: "espere, isso pode ser a voz de Deus. Se você ouvir de novo, você vai dizer: “Fala Senhor que o teu servo te escuta”. Deus estava procurando Samuel, mas ele não tinha entendido. Muitas vezes Deus nos procura de muitos modos e nós não queremos ouvir ou não entendemos a sua voz. E, às vezes, é necessário que alguém nos ajude a ouvir a Palavra. Nós não vivemos pedindo conselhos para os outros? Conselhos também para o padre. E por quê? Porque a gente precisa entender a voz de Deus. O que é essa voz, essa ideia, esse desejo. Isso é de Deus? Isso, muitas vezes, acontece. Todos nós teremos nosso encontro definitivo com Ele, na hora da morte. E aparecemos, diante Dele, exatamente como somos. E essa será a nossa felicidade: finalmente podermos ser nós mesmos, sem enganos, sem mentiras, sem máscaras.

E nós temos este outro jeito: nós temos esses discípulos e João Batista. João Batista, que apareceu como profeta, sendo que Israel não tinha profetas há mais de 700 anos. Assim, o povo ficou todo entusiasmado. Mas João avisou logo: "fiquem atentos, pois eu não sou o Messias. Eu batizo com água, Ele vai batizar com o Espírito". João tinha muitos discípulos e a comunidade dele existiu até mais ou menos o ano 150 d.C. E a maioria das pessoas da comunidade viraram cristãos. João Batista vê Jesus como o único dos profetas: "Eis o cordeiro de Deus, Eis aquele que nós esperamos". André e um outro discípulo, imediatamente, vão atrás de Jesus, querem conhecer Jesus. E Jesus logo se volta e pergunta: "o que vocês querem?". Deus não se faz esperar, Ele vem a nosso encontro.

Nós temos um outro lugar na escritura, onde outros dois discípulos caminham e Jesus os acompanha. Eles são os discípulos de Emaús. Deus nos procura e se volta para nós, se preocupa conosco. Então aqueles discípulos perguntam a Jesus: "onde você mora?". Onde é a casa de Jesus? A casa de Jesus é o Pai. A vida de Jesus é fazer a vontade do Pai. Então, quem procura Jesus, quem chega até Jesus, encontra o Pai.

Jesus não é uma história fictícia. Jesus é uma pessoa de carne e osso que mora, que anda e que vive conosco. Jesus não é um mito ou uma história que inventaram, não. Ele é ser humano. Deus se fez ser humano, falou conosco e nós podemos seguir seus passos. Ninguém conhece Jesus só lendo um livro. Nós conhecemos Jesus quando colocamos em prática aquilo que Ele fez. Muitas pessoas viram Jesus: Herodes viu, Pilatos viu, os sumo-sacerdotes viram. Mas não tinha olhado a fé. O máximo que conseguiram ver foi um revolucionário, fanático e sabe lá mais o quê. Agora, para aqueles que creram, eles viram. E quando você descobre que Jesus é, realmente, o Messias, você não segura isso para você. Não dá, não cabe dentro de si. E, por isso, logo depois Santo André vai lá e chama Pedro. Vai lá e fala para o irmão. E, depois, o outro discípulo vai falar para outros ainda. O anúncio do encontro com Deus é contagiante e chamamos de testemunho.

Encontrar Jesus muda nossa estrada. A partir daquele encontro, aqueles 12 homens tiveram a vida deles completamente transformadas. Pedro era pescador. E o que um pescador pode esperar da vida? Uma boa pesca, peixes em abundância, ter operários bons ou, quem sabe, ter uma casa melhor. Mas Ele chamou Pedro para outra coisa, algo que ele nem podia imaginar, assim como todos os outros. Deus nos chama a procurar Jesus. E onde nós estamos o anunciando? Talvez anunciá-lo com nossas palavras e nossas obras, como André fez: "Encontramos o Messias, encontramos o sentido para a vida, encontramos algo novo, encontramos alguém que não mente para nós, encontramos o sentido da vida".

Vamos pedir a Jesus a graça de poder nos convencer pela fé que nós estamos mergulhados em Deus. E se nós estamos mergulhados nEle, Ele não nos esquece. Na cruz, o Pai estava silencioso, mas não abandonou Jesus. Ele pode ficar silencioso, mas não nos abandona. Vamos pedir a Ele a graça de procurá-lo. E temos que nos perguntar isso: "Eu estou realmente procurando Jesus na minha vida? Eu quero conhecer Jesus ou é só uma conversa de domingo, quando o padre não faz sermão comprido?”. Porque se faz sermão comprido, pior ainda. Eu estou procurando Jesus?

E peçamos mais uma graça: ver Jesus com os olhos da fé, reconhecendo nEle os Seus sinais de vida eterna. Reconhecer Jesus na Escritura, reconhecer Jesus na Eucaristia, reconhecer Jesus em cada irmão e irmã, especialmente, naqueles que sofrem. Porque Jesus está lá, mas somente os olhos da fé conseguem ver isso.

O Espírito do Senhor está sobre nós

Homilia: diácono Renan Silva – Batismo do Senhor (Ano B) – 10/01/2021 (domingo, missa

às 10h).

Estar aqui, celebrando esta Solenidade do Batismo do Senhor, é um momento propício para renovarmos nossa graça batismal. Infelizmente, hoje, na cultura em que vivemos, o batismo vai perdendo a sua característica, a sua finalidade como sacramento de Deus. Às vezes, no curso de batismo, eu pergunto para os pais e padrinhos: "Por que você quer batizar o seu filho, o seu afilhado?". As respostas são as mais diversas: "Para espantar mau-olhado"; outro diz: "O menino está muito danado, vamos ver se, com a água, ele para de bagunçar" – isso quando já é maiorzinho; outros dizem: "É porque é um ritual da família, minha bisavó fazia isso". "Mas quem é Jesus? Vocês acreditam?". "Ah, não sei. Mas é importante batizar".

 

Hoje nós encerramos o ciclo do Natal, que começou lá na celebração do Natal do Senhor, Festa da Sagrada Família, Epifania e, hoje, Batismo do Senhor. Celebrar esta data é renovar as nossas promessas batismais. O batismo, sim, serve para tudo isso que eu falei, mas o batismo é a graça maior de sermos cristãos. Hoje, o nosso curso de batismo dura 1h30, 2h... Mas, no início da Igreja, eram anos de formação para uma pessoa ser batizada. Tinha que saber rezar o Pai Nosso, tinha que ter maturidade na fé. Era uma decisão se tornar um cristão e ser batizado. Nós precisamos renovar isso.

 

O Papa Francisco tem dito para celebrarmos a nossa data de batismo. Eu convido você, depois, a procurar no seu batistério (se é que você vai encontrar), ou com alguém da família, o dia em que você foi batizado, e celebrar esse dia como um aniversário. É o dia em que nós nos tornamos filhos e filhas de Deus! E, na primeira leitura [Is 42, 1-4. 6-7], mesmo no antigo testamento, em que existiam vários ritos de purificação, a gente já vê ali a missão de um batizado, que é exatamente saber que o Espírito do Senhor está sobre nós. E todo batizado tem uma missão. Às vezes, nós achamos que a figura mais importante na Igreja é um padre, um diácono, um bispo... São os batizados, que professam a fé em Jesus – homens e mulheres, crianças, jovens, idosos. Esses dias, eu acompanhei um batismo de uma senhora de 75 anos de idade, que nunca pediu o batismo. Ela veio da roça e tinha vergonha, era analfabeta; até que, um dia, alguém da comunidade chegou e disse: "A senhora é batizada?". "Nunca tive a oportunidade" – olha o que ela disse! E ela foi batizada, recebeu a primeira comunhão e foi crismada. Ela chorava de alegria! É a graça de ser batizado. O Espírito do Senhor está sobre nós!

 

Todo batizado tem um pacto com a verdade, anunciar a verdade. 80% dos nossos parlamentares, sem citar nomes, são pessoas batizadas – a maioria na Igreja Católica e, alguns, nas igrejas evangélicas. E eu pergunto: por que, se mais de 80% dos nossos representantes são batizados e professam a fé em Jesus, nós estamos vivendo deste jeito no meio desta pandemia, no meio do nosso país? É algo para a gente pensar. E não só apontar para eles, mas para nós: quantas pessoas nos nossos bairros são batizadas? A Igreja criou um termo: "batizados, mas não evangelizados", e é verdade. Aí a nossa missão de levar esse amor de Deus a essas pessoas, ser luz para as nações, abrir os olhos das pessoas que estão cegas.

 

A CNBB lançou uma nota essa semana, muito importante, que valeria a pena todos nós lermos. Nós, batizados, devemos ser contra este negacionismo que estamos vivendo nos nossos tempos, de que tudo o que está acontecendo é normal, que é vontade de Deus... Não! Isso tem uma finalidade. Nós lutamos e, juntos, vamos sair, se Deus quiser, chegando essa vacina. A glória de Deus é ver o ser humano vivo, não é ver o ser humano sofrendo. Não é um Deus que gosta do masoquismo, de ver os seus filhos sofrerem. Não!

 

Por isso que, na segunda leitura [At 10, 34-38], o Ato dos Apóstolos dá uma característica da Igreja primitiva aos batizados: todo batizado não deve excluir as pessoas. Nós não podemos fazer distinção de pessoas. Fazer distinção, excluir, é pecado! Deus acolhe a todos, e nós, como Seus filhos – graça batismal – devemos acolher. Não significa também passar a mão na cabeça, mas acolher, incluí-los, integrá-los na comunidade. Essa é a nossa missão. Eu vejo o trabalho, acompanho de perto, do monsenhor Júlio Lancelotti, um padre fantástico que faz um trabalho na Arquidiocese. As pessoas dizem: "Mas, padre, você acolhe pessoas que são pecadoras", e ele diz: "Aqui nós não julgamos, nós acolhemos, porque Deus acolhe, e essas pessoas são filhas e filhos de Deus". Essa é a nossa missão, quebrar um pouco o nosso preconceito. Não é fácil! Por isso que uma das graças do batismo é a conversão, metanoia, mudança de vida constantemente.

 

O Ato dos Apóstolos diz, ainda, que Jesus passava pelo mundo fazendo o bem. Essa é a nossa missão de batizados. Se fizeram o mal com a gente, vamos pagar o mal com o bem, não com vingança, com maledicência, mas com o bem. Nós desarmamos uma pessoa quando ela quer brigar com você e você diz: "Irmão, não, pare com isso, somos irmãos". A pessoa fica até sem saber o que fazer – às vezes, fica até com mais raiva ainda por você ser pacífico, pacífica. Essa é a nossa missão.

 

E entramos no Evangelho [Mc 1, 7-11], Evangelho de São Marcos, que é o resumo do Batismo do Senhor. A nossa vocação é sermos como João Batista: prepararmos o caminho do Senhor. Catequistas não são só os da comunidade; você que é pai, mãe, você que tem afilhado, afilhada: essa é a nossa missão, dar testemunho para essas pessoas. Eu sou professor, dou aula em um colégio católico e, às vezes, a gente tem o hábito de fazer a oração no início da aula, rezar a Ave Maria. 83% dos meus alunos são católicos. Quando eu peço: "Vamos rezar a Ave Maria?", "Não sei, professor". Como não sabe a Ave Maria? 10, 12, 13, 15 anos. "Meu pai e minha mãe não rezam". Aí está a nossa missão de ensinarmos as crianças, os jovens, o prazer pela oração, rezando juntos, não só mandando rezar. É o Santo Terço, é meditando a Palavra, é acompanhando a missa neste tempo de pandemia... Porque, senão, as pessoas vêm procurar o batismo apenas como um ritual de passagem, e não é.

 

Nós recebemos três graças no Batismo, a tríplice missão. Primeiro, sermos sacerdotes e sacerdotisas – sacerdócio comum, de doar a vida ao próximo. Essa é a missão do batizado. Segunda graça batismal: sermos profetas e profetisas – não de adivinhar o futuro, mas de anunciar a verdade. E lembre-se: todo batizado que anuncia a verdade vai parar na cruz. Não podemos ter medo da cruz. No início do cristianismo, muitos eram martirizados por serem batizados e professarem a fé em Jesus publicamente. Então nós temos um pacto com a verdade. E a última graça: participamos da família de Deus, o reinado de Deus, somos reis e rainhas. Você, eu, nós, somos da família real – não da família do Reino Unido, da Inglaterra, não. Da família de Deus. Todos. Daqui a pouco, a gente vai rezar o Pai Nosso; se Deus é "Pai nosso", somos todos irmãos.

 

Hoje é um momento de renovarmos a nossa graça batismal. Que o Senhor possa nos ajudar a vivenciar e não ter medo da cruz. Ser batizado é se comprometer com as causas de Jesus. Nós estamos dispostos a assumir as causas de Jesus? Os pobres, os últimos, os doentes, os fragilizados pela pandemia, as pessoas que estão passando necessidades... Estamos dispostos? Não só o pobre que passa pedindo comida – também esse, principalmente – mas os pobres que também "têm tudo e não tem nada", como um jovem me dizia na escola: "Professor, eu tenho tudo: apartamento, vou para os Estados Unidos a hora que eu quero, casa na praia... Mas me sinto vazio. Sinto que ninguém se preocupa comigo". Os batizados têm que levar o amor de Deus para essas pessoas também.

 

Que nós possamos ter essa missão. E, diante desta pandemia, que nós possamos não infectar com o vírus da covid-19, mas "infectar" as pessoas com o amor de Deus que nós recebemos na pia batismal. A pia batismal é o útero de novos cristãos. O útero. Não é uma pia normal, é o útero que gera novos cristãos para adorar Jesus de corpo e alma. Nós, agora, encerrando esta homilia, vamos fazer algo que é próprio, que faz parte do ritual do Batismo, que é a Profissão de Fé. Que nós possamos, ao professar a nossa fé, renovar a nossa graça e o nosso compromisso de levar Jesus ao mundo, de ser luz para as nações e anunciar Jesus às pessoas hoje, amanhã e sempre. Amém.

Jesus vem para salvar a todos

Homilia: Padre João Aroldo Campanha - Epifania do Senhor (Ano B) - 03/01/2021 (missa às 10h)

O fim desse anúncio [“A Cristo, que era, que é e que há de vir, Senhor do tempo e da História, louvor e glória pelos séculos dos séculos”] lembra a Vigília da Páscoa, quando o padre marca o Círio Pascal e usa essas mesmas palavras “Jesus Cristo ontem e hoje, princípio e fim a Ele a Glória, o poder por todos os séculos e séculos”, bem parecido com a oração e termina com o anúncio.

Hoje celebramos a Epifania do Senhor, que significa “manifestação”, uma palavra de origem grega. Deus colocou no coração humano grandes interrogações, a mais grave de todas é a morte. Nós nos tornamos humanos quando pela primeira vez enterramos nosso semelhante. No dia que fizemos isso, na sombra da história, lá trás, nós nos tornamos humanos, significa que não éramos animais, éramos humanos de alma racional, imagem de Deus. Essas grandes perguntas moveram os corações das pessoas e das nações a procurar respostas e essas respostas terminam sempre na divindade. Todos os povos adoravam e adoram divindades. Deus de algum modo se mostra, se faz encontrar, porém essa inquietude que está no coração procura algo, mas Deus está além, está naquilo que chamo de transcendência. São Paulo diz: ‘o que o ouvido humano não ouviu, o que os olhos humanos não viram, isso que Deus tem preparado para aqueles que O amam’. Ou Deus vem até nós e se revela ou nós vamos viver nessa inquietude, arranhando, procurando, procurando... e, olha que engraçado, esses magos astrólogos estudavam as estrelas e também procuravam Deus, também tinham suas divindades. Eles viram no céu essa conjunção de Júpiter, Saturno e Vênus, parecia uma fubeca no céu, aconteceu mais ou menos 8 a.C., e eles foram atrás pois interpretavam esses sinais no céu. ‘Nasceu o Messias’. A profecia de Balaão falava: “eu vejo uma estrela surgir sobre Israel” e atraídos por esse fenômeno eles vão procurar um menino. É muito interessante que eles procuram e a estrela os guia, é uma luz! Até mesmo os povos pagãos, mesmo sem conhecer o Deus verdadeiro, também são guiados por Deus e chegam em Jerusalém que era a cidade das luzes, com um grande candelabro de 9 braços. Quando entraram na cidade a conjunção se desfez e não viram mais nada, a cidade das luzes tinha se tornado cidade das trevas. Mas ainda assim foram procurar um Rei, por isso foram ao palácio e, quando chegaram, o rei ficou desesperado, já tinha mandado matar uma mulher e dois filhos com medo deles lhe tomarem o trono, aí casou com outra, teve outros filhos, mas estes não tinham sangue real, então ele ficou desesperado com a chegada dos magos. Então o rei chamou os sacerdotes da época para perguntar onde ia nascer esse rei e eles responderam que na escritura diz que “tu, Belém de Judá, não é a menor entre os povoados de Judá, de ti nascerá o condutor do meu povo” que na época era o rei Davi, então eles lembraram dessa profecia e falaram para os magos. Herodes, na sua astúcia, pede que lhe deem informações exatas para que ele também fosse adorar o menino, mas era para matar o menino Jesus.

Os magos então saem de Jerusalém e veem as estrelas novamente. Que interessante o anseio de Deus, agora iluminado pela palavra de Deus, guia esses homens! Podemos dizer que esses homens pagãos tinham mais fé que aqueles sacerdotes e que o próprio Herodes. Então chegam na casa, não é mais no presépio, o que significa que essa situação já se resolveu, e eles encontram uma normal família pobre daquele tempo. O pai não está porque estava na praça trabalhando, nos campos, o homem saia cedo de casa e voltada no cair da tarde. A mulher ficava o dia inteiro dentro de casa e as crianças ficavam com as mulheres até os 12 anos. Jesus está em casa com a mãe e chegam esses homens, que se surpreendem ao encontrar Deus, o Messias, desse jeito, em uma casa do povo, pobre, com pessoas pobres, um pai que está trabalhando. Mas, nessa situação, eles reconhecem o Messias e lhe concedem três dons: ouro, incenso e mirra. Ouro para realeza; incenso, porque Jesus é Deus; e a mirra, para o homem que deve morrer, já que essa era uma essência que se usava na preparação do cadáver antes de ser sepultado. Eles louvam a Deus e receberam em sonho o pedido de Deus para não voltar a Herodes, mas pegarem outro caminho.

Deus tem jeitos muito estranhos para falar conosco e a coisa interessante aqui é perceber esse fato: essas pessoas que procuram a divindade foram capazes de reconhecer Deus, Jesus Deus. Não que eles tenham a verdade, não dá pra falar “ah eu sou católico, mas os orixás da umbanda também estão certos” ou que “a reencarnação também está certo”. Devemos, porém, reconhecer a dignidade e respeitar a busca que esses povos fazem, isso temos que fazer, isso é um empenho interessante. Católico quer dizer “universal”, “de todos os povos”, não é igual o povo de Israel “só” o povo de Israel, não, todos os povos podem abraçar o caminho de Jesus, todos os povos. Então para esse respeito, especialmente, o Concílio Vaticano II nos abriu os olhos. Ele é um movimento católico, nosso, a busca e ir ao encontro dos outros para poder buscar o que nos une e, quando começamos a olhar profundamente as várias religiões, vamos encontrar uma coisa em comum: o amor ao próximo. Algumas religiões vão dizer “ama o teu povo”, outros vão falar “ame os mesmos da sua religião”, muitos dos nossos evangélicos vão dizer “ame os da sua igreja, os outros estão todos perdidos”, mas esse elemento do amor ao outro nós encontramos em todas as religiões, e isso aqui é o que pode levar todos os povos à salvação, pois no dia do juízo Jesus vai perguntar sobre o amor ao próximo.

Vamos pedir ao Senhor que Ele nos dê essa capacidade de ter o coração aberto para descobrir a boa vontade das pessoas, o bem que está nas pessoas, para acreditar realmente que o ser humano é bom, pode estar mascarado, com o coração cheio de entulho do mal, mas a marca de Deus, Jesus Cristo está no coração das pessoas. Nós temos que acreditar nisso, pois isso move a nossa esperança de que o mundo será melhor. Vamos pedir ao Senhor que nos dê essa fé: o ser humano é bom e busca e quer o bem, alguns se desviam, muitos erram, fazem o mal, porém é o bem que vai guiar e fazer crescer a humanidade.

Como Maria, seguir os passos de Jesus

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – Solenidade da Santa Mãe de Deus, Maria (Ano B) – 31/12/2020 (Quinta-Feira, missa às 19h).

Um ano. Um ano não é pouco na vida das pessoas. E, no hino que nós fizemos, nós dissemos: "Todos os dias vos louvamos", "Por todos os dias vos louvamos". O Evangelho [Lc 2, 16-21] diz, duas vezes: "E Maria meditava esses fatos no seu coração". Este foi um ano diferente. 2020 vai ser lembrado na história como "o ano da pandemia" – como alguns outros anos: 1936, o ano da gripe espanhola, que matou também muita gente no mundo inteiro; os anos da peste negra, que dizimou quase dois terços da Europa... Coisas terríveis. Nós perdemos amigos, perdemos parentes, perdemos paroquianos, perdemos um padre do nosso clero com Covid... Vários tiveram Covid. É uma situação única. Ficamos muito tempo – e devemos estar ainda muito tempo – no isolamento. O isolamento nos chateia, nos deprime; mas o isolamento nos faz pensar. É um modo de reagir contra o isolamento, contra o medo e a depressão do isolamento: pensar, meditar, ler. Ler a Palavra de Deus. Para olhar os nossos dias difíceis como dias de prova. Não prova mandada por Deus, porque Deus não quer a morte nem o sofrimento de ninguém; mas tempo de sofrimento e suportação, porque o sofrimento e a suportação geram em nós a paciência, e a paciência gera em nós a perseverança. "Aos que perseverarem até o fim, a estes será dada a salvação" [ref. Mt 24,13]. Paciência e perseverança.

 

É um ano de guerra. Sem bombas, porém com um inimigo invisível que, às vezes, entra nas nossas casas sem nós percebermos e faz desgraças. Eu tive um tio e um primo que morreram de Covid. Quantos paroquianos nossos... Uma paroquiana nossa teve dezesseis pessoas da família com Covid, dois mortos. Logo no começo, entre os meses de fevereiro e março, dois médicos aqui da nossa paróquia morreram com Covid. Nós nos assustamos, e a única coisa que podemos fazer é nos defender com isolamento, máscara, álcool em gel... Essas coisas parecem ridículas, mas podem nos dar muitas chances! Muitas chances de continuarmos vivos, de continuarmos sãos.

 

Nós aprendemos muito! Em abril, não sabíamos nada sobre essa doença. Hoje sabemos tanto! Nós temos que perseverar neste caminho, nesta guerra, enquanto nós não estivermos seguros. Estarmos seguros significa vacinados. Pela cabeça de um cristão, não pode nem passar a ideia de não se vacinar! Por quê? Porque não é um bem só para mim, é um bem para a minha comunidade, para a minha família, para as pessoas que trabalham comigo, para as pessoas que vão no ônibus comigo... Não é só para mim. Nós temos que pensar no bem do outro, no bem do povo. E começar a ver: têm pessoas que não se importam com isso, pessoas que não se importam com a morte, que fazem blefa da morte, blefa dos outros. E poderiam fazer tanto... Sejamos nós responsáveis!

 

Maria olha os fatos da vida e os medita no coração. Mas medita como? Procurando e vendo a fidelidade de Deus. A fidelidade de Deus que passa por gestos muito pequenos, mas que salva o mundo! Naquele menininho, naquele curral, dentro de um cocho; quem poderia dizer que, ali, estava o Salvador da humanidade? Deus eterno feito carne. Quem? Só um menininho, entre tantos menininhos daquele tempo... Herodes mandou matar um montão para ver se matava Ele junto. Um menininho... Como Deus é discreto. Como, com gestos pequenos, Deus salva o mundo! E Ele pede a nós, hoje, gestos pequenos: máscara, álcool em gel, distanciamento. Amor ao próximo, amor ao nosso povo.

 

Hoje nós celebramos a Virgem Maria, Mãe de Deus. O que quer dizer isso? Ela não gerou a Trindade, não. Ela gerou, no tempo, o Filho do Deus Eterno, o Verbo: eterno como o Pai, Deus como o Pai, que se esvaziou de si mesmo, tornou-se uma célula, um código no ventre daquela mulher. Foi gerado, como um de nós, porque se fez um de nós. Nasceu, como nós. Como Maria continuou virgem, isso é problema de Deus. A fé diz: virgem antes, durante e depois do parto. Problema de Deus. E o menino que ela deu à luz é Deus, Deus feito homem. Deus, esvaziado de si mesmo, feito homem. Deus pode fazer isso: Deus pode diminuir, e Ele se torna salvação. O contrário não é possível: nós querermos ser deuses. Isso cria idolatria e morte, perdição. O caminho da salvação está no abaixamento. É por isso que Maria diz: "O Senhor fez em mim maravilhas, porque olhou para a pequenez de Sua serva" [ref. Lc 1, 48s]. Não para a grandeza, mas para a pequenez de sua serva.

 

Quando nós damos títulos, cada nome enorme para Nossa Senhora, nós temos que pensar muito. O que significa "Imaculada Conceição"? Significa ser, como Deus, última. Humildade. Onde está a humildade, o inimigo não chega; o poder do inimigo é anulado. "Rainha do Céu e da Terra". Onde Maria reina? Lá na cruz, ao lado de Jesus. Belo reino! E tem gente que se faz escravo de Maria... Para que? Se for para seguir Nosso Senhor Jesus Cristo, ótimo! Maria não precisa de escravos, Maria quer seguidores de Jesus, gente que seja capaz de ir atrás dos últimos. Isso ela quer! Mas gente para viver na arrogância e dizer: "Eu sou consagrado, não sei o que...", isso não leva a nada! Nada. Ser consagrado é ser como Maria foi: última, servidora dos últimos, como Deus, como Jesus. "Maria assunta ao céu". Terminada a vida terrena, experimentando a morte, Deus cumpre, em Sua mãe, a promessa que fez a todos nós: "Eu vos tirarei dos vossos túmulos, porque Eu Sou o Deus Fiel, digo e faço" [ref. Ez 37, 12s]. Nela aparece a fidelidade de Deus como, digamos assim, um "sinal" para nós: o que Ele fez nela, fará conosco.

 

Nos anos 430, estavam reunidos vários bispos na cidade de Éfeso, na atual Turquia. E discutiam: "Afinal de contas, Maria é mãe de Deus ou Maria é mãe do homem Jesus?". Era uma briga danada... O povo discutia na rua, nos bares, nas praças; as pessoas se dividiam, discutiam. Aí os bispos, lá reunidos, conversa daqui, conversa dali, e briga daqui, e briga de lá, excomunhão para cá, excomunhão para lá... Até que chegaram a uma conclusão: Maria é mãe de Deus porque Jesus é Deus, e não se pode separar o homem do Deus. O menino que nasceu dela é Deus! O povo estava na porta, esperando os bispos, com um monte de pedaços de pau na mão. E a fé do povo é mais rápida que a fé dos padres, viu? Nós padres somos complicados... A gente discute, a gente começa a achar pelo em ovo, é um problema. O povo de Deus não tem isso, o povo de Deus é espontâneo na fé. E, muitas vezes, chegam às verdades, à iluminação da fé muito antes dos padres. Então o povo estava lá, na porta, esperando. "Se vocês disserem que Maria não é mãe de Deus, nós acabamos com vocês quando saírem daí!". Olha só esse povo como era bravo! Aí proclamaram que Maria era Mãe de Deus, e o povo todo levou os bispos em procissão, com tochas e coisas, a maior festa. Isso para ver: a fé do povo reconhece as verdades de Deus. A fé do povo simples, a nossa fé, reconhece as verdades de Deus. Como Maria via as verdades de Deus? No seu dia a dia.

 

Maria é, também, nossa mãe. Nossa mãe na fé. Por quê? Primeira discípula de Jesus: desde o momento em que o anjo anunciou a Maria, ela se colocou totalmente à disposição daquilo que fosse a vontade de Deus. Ela ainda não via o futuro, como ia ser – não era bruxa. Ela não sabia que aquilo tudo ia acabar na cruz... Mas ela se colocou nas mãos de Deus, todinha: "Faz". E foi caminhando, todos os dias da sua vida, buscando a vontade de Deus. E, no seu caminhar, ela nos ensina a seguir Jesus. Por isso ela é nossa mãe na fé, porque ela, antes de nós, fez esse caminho. E, ao longo da história, nos convida a fazer este caminho: siga os passos de Jesus.

 

Vamos pedir à Virgem Maria que, neste novo ano que se inicia, nós possamos seguir Jesus, num tempo que não parece que será melhor do que 2020, infelizmente... Que nós possamos ter paciência, perseverança e amor ao próximo. Bom Ano Novo!

Reconhecer a presença de Deus

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – Solenidade da Sagrada Família (Ano B) – 27/12/2020 (missa às 10h)

Vocês já foram em Aparecida quando tem os batizados? É uma muvuca em todo o santuário, tem sempre algum devoto ou beato, aqueles que estão sempre lá, nunca saem da igreja, conversam com um e com outro, explica alguma coisa, fica lá horas e horas conversando, são os beatos do santuário que a gente chama. Pois é, nós temos que imaginar José e Maria no meio dessa muvuca, eram muitas as crianças que levavam para fazer a apresentação ao templo, alguns eram ricos e levavam novilhos, carneiros para oferecer em troca do filho. Como que é essa história de “em troca do filho”? Todo primogênito de animais ou de mulheres, macho, sempre homens, eram oferecidos ao Senhor, aí você pagava o resgate. Imagina se você pegasse todos aqueles primogênitos dos homens de Israel, não ia caber de tanta gente dentro do templo, então se fazia o resgate. Você apresentava a criança para Deus e, no lugar da criança ficar no templo, você oferecia um bezerro ou um carneiro – as pessoas pobres ofereciam um par de rolinhas ou um par de pombas. O que nós vemos aqui? Nós não vemos uma família rica, nós vemos um casal pobre que oferece duas pombinhas. E, no meio desse povão que estava ali, se aproxima este velho devoto do santuário e começa a falar: “eu te louvo, Senhor, porque os meus olhos viram a salvação do teu povo, Israel”. As pessoas nem prestam atenção no que aquele homem está falando, um doido começou a falar, pensavam. E para ajudar, ainda veio uma devota que começa a falar também. “Um bando de doido” é o que quem olha pensa. Pois é, o Evangelho diz que aquele homem era movido pelo Espírito Santo e que aquela velhinha era uma profetiza. Só quem tem os olhos da fé é capaz de identificar isso. No meio de tudo aquilo, de toda aquela gente, quem reconheceu naquele casal pobre que carregava esse menino o Messias só essas duas pessoas, nem os sacerdotes, nem os levitas, nem os bons religiosos e nem o povo que estava lá, apenas esses dois velhos.

Quando Jesus entra em Jerusalém, no Domingo de Ramos, sete dias antes de ser crucificado, ele provavelmente entra no meio de uma festa, uma espécie de carnaval que tinha naquele período ali, então ele entra num jumentinho, os apóstolos jogam os mantos no chão, pegam os ramos e vamos fazer festa! O Messias estava entrando em Jerusalém, como os profetas haviam predito. Quem reconheceu Nele o Messias? Aqueles 12 homens ali e mais algumas pessoas que O seguiam. E o resto? Para o resto, era Carnaval. Deus tem um caminho que não é o nosso, só as pessoas de fé conseguem ver na simplicidade, na humildade, a presença de Deus.

Hoje nós celebramos a Sagrada Família, nós celebramos a nossa família. Jesus é salvação. Todos os gestos de Jesus são salvíficos. Jesus ficou 30 anos no anonimato, no dia a dia, numa vida familiar. Ele santificou a vida do dia a dia das nossas famílias, porque é na família que nós aprendemos a amar, respeitar, cuidar uns dos outros, nos suportar – essa palavra “suportar” dá uma impressão de peso, mas não é esse o sentido, “suportar” é ser apoio um para o outro, é ajudar o outro a carregar o próprio peso que nem o Cirineu ajudou Jesus a carregar a cruz. Na família, também é lugar de perdoar e de aprender uma vida nova. Tem um filme que se chama Colombo, que é a história de Cristóvão Colombo quando ele chegou a América e tem uma cena que ele estava falando com um grande professor de uma grande universidade e o homem não entendia a doidice de Colombo de querer chegar às Índias rodando o mundo. Esse homem diz para o Colombo: “nós, homens do pensamento, nós criamos a civilização”. Aí o Colombo vai para a sacada, olha para a cidade e diz: “não, quem constrói o mundo e as civilizações são os pedreiros anônimos, são os marceneiros que ninguém sabe quem é, são as mulheres que cozinham, são os artesãos, os carregadores dos portos, esses constroem o mundo”. Olha que visão interessante, isso é uma visão profundamente cristã! A nossa vida, o nosso dia a dia, nas nossas casas, aí nós construímos o mundo.

Nas nossas casas, nós vivemos e ensinamos a vida ou a morte, o respeito ou o desrespeito, o perdão ou a vingança, o falar mal ou o aceitar as pessoas, compreender os limites, carregar pesos... Qual a grande desgraça de hoje, principalmente na educação dos nossos filhos? Nós não dizemos mais a palavra “não”. Não colocamos limites. Aí quando chega o mundo, os limites são impostos e a pessoa desaba – depressão, suicídio, desorientação, culpa de quem? Dos pais que não disseram “não”, deram tudo de graça, tudo fácil. Na vida, bata o pé como quiser, a vida diz: vai ser como eu quero. Na família, nós educamos, fazemos crescer e aprendemos a amar. Um dos maiores sinais de amor é o perdão.

Vamos pedir ao Senhor que nos abençoe, que nos guie e faça perceber que é no nosso dia a dia que nós vivemos como cristãos, nas coisas simples, igual aquele casal de pobres e aqueles dois velhinhos do templo de Jerusalém. As nossas famílias ensinam a ver o mundo e as coisas com a fé em Jesus ou negam isso? Aqueles dois velhinhos viram no meio daquela muvuca o Messias presente, porque eles viviam com os olhos da fé. Que as nossas famílias sejam lugar de crescimento na fé para que nós possamos reconhecer a presença de Deus em todas as pessoas, especialmente nas que mais sofrem.

Não tenha medo, confie no Senhor

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha - Missa de Natal (Ano B) – 25/12/2020 (missa às 17h)

Na noite de Natal, nós narramos o Evangelho de Lucas ou de Mateus, o nascimento de Jesus, mas na missa do dia, ouvimos a primeira página do Evangelho de São João. Se ouvirmos a primeira página do Evangelho de São Marcos, lemos “filho de Deus”, enquanto aqui, no Evangelho de João, ele escreve essa página maravilhosa que chamamos de prólogo, podemos dizer que ele vai desenvolver essa fala de São Marcos “filho de Deus”. É muito interessante pois ele vai explicar como é a relação do Pai com a Palavra. A Palavra do Pai só pode ser Ele mesmo e ela é exatamente idêntica ao Pai, está diante do Deus Pai e vê e contempla o rosto de Deus. E o Espírito Santo é o abraço, essa pessoa divina que mantém os três tão unidos que são uma única divindade.

Tudo que o Pai faz, o Filho faz; tudo que o Pai é, o Filho é. O Pai é luz, e São João vai dizer: “Deus é luz e Nele não há sinal de trevas”. Se o Pai é luz, o Filho é luz e o Espírito é luz. Quando a Palavra de Deus desce, se esvazia da divindade e se torna um de nós, mas tudo que Ele faz é revelação do Pai. Jesus vai dizer no Evangelho “eu faço tudo que vejo o Pai fazer”, pois são idênticos. Toda a ação de Jesus, todas as palavras de Jesus, os sentimentos Dele são revelação de Deus. Nós não estamos diante de um grande revolucionário ou de um mestre, estamos diante de Deus mesmo que se revela a nós na sua glória. Quando nos perguntamos: “como é Deus?”, olha para Jesus e tudo que não é Jesus, não é Deus e tudo que Jesus faz ou diz revela Deus. Quando dizemos Jesus é Deus colocamos as nossas ideias em cima de Jesus e isso cria um monte de problemas na teologia pois são pensamentos humanos e tentamos fazer Deus entrar dentro deles. Mas quando dizemos “Deus é Jesus” aí temos que olhar pra Jesus para entender quem é Deus, pois Jesus desmonta a nossa compreensão de Deus, uma delas é esse aqui: o menino Jesus.

“Nasceu hoje o Cristo Salvador” essa é a mensagem dos anjos, luz no céu, coral de anjos, imagina o espetáculo que esses pastores viram no céu. “Eis o sinal”, o que você espera? Algo grandioso, mas é um menino envolto em faixas, dentro de um estábulo, Deus é o contrário de nós, pensa do avesso, onde está a salvação? Nas periferias. De onde Deus começa a salvar o mundo inteiro? Das periferias. Onde dizemos que Deus está entronizado? A Glória de Deus, o juízo de Deus onde está? Na cruz. Deus é muito esquisito, Ele nos dá o alimento, pão divino, o cálice da Salvação, pão e vinho, o corpo e o sangue Dele entregues por nós. Se o mundo aprender a ser pão dividido para a vida e o bem dos outros, o mundo será um lugar de irmãos e irmãs. Nos reconhecer como irmãos, ser para o outro, esse é o caminho de Deus e a revelação de Jesus. A primeira mensagem dos anjos aos pastores foi “não tenham medo” de um Deus que é uma criança que precisa dos nossos cuidados, um Deus que está crucificado de braços abertos agonizando. Deus que se torna silencioso e se entrega para todos nós na Eucaristia. De um Deus assim não tem que ter medo, só nos causa alegria, só nos faz crescer como seres humanos.

Vamos pedir ao Senhor poder realmente ler a Escritura, olhar os vários momentos e frases de Jesus e dizer “Deus está falando, está agindo” e nos deixar transformar por essa palavra que é palavra de vida.

Outro dia uma pessoa reclamou porque eu falei sobre racismo, mas enquanto eu não deixar meu racismo eu não posso tratar o outro como irmão. Se eu não aceito o outro na sua diferença, eu nunca vou ser irmão do outro ou da outra. Nós temos que descobrir em nós, essas raízes do mal, porque elas só criam desconfiança para com o outro. E depois, desconfiança de Deus. Deus é um juiz implacável, vai nos esmagar, vai destruir tudo, vai ser fogo para todo lado, vai mandar todo mundo pro inferno por "uma coisinha de nada". Esse é o veneno que o inimigo colocou em nosso coração lá no mito de Adão e Eva, e Abel e Caim. Todos nós somos Adão, todos nós somos Eva, Caim e Abel. Vivemos desse drama e medo terrível, nós olhamos o nosso tempo, esse tempo. Se nós temos um pouco de responsabilidade, um pouco de amor próprio e ao outro, o outro vira uma ameaça, porque eu não sei se ele está contaminado, eu também me torno uma ameaça aos outros, porque os outros também não sabem se eu estou contaminado, eu vivo no medo, mas se eu pegar o vírus, e eu for um dos 2% que morre? E desses 2% nós já temos 188 mil mortes. Medo, medo de tudo.

Aqueles pastores eram o que nós hoje chamaríamos de "delinquentes". Eram homens rudes, mal conseguiam falar, pior pessoas que poderiam existir, muitos eram ladrões, ou assassinos, e a única coisa que podiam confiar a eles eram os rebanhos e que eles vivessem em montanhas, indo atrás de ervas para estes rebanhos. Todo mundo tremia quando essas pessoas se aproximavam, e a religião de Israel dizia que no dia da manifestação de Deus, esses homens ou pessoas como eles seriam fulminadas pela glória de Deus, destruídas, derreteriam como cera diante do esplendor e da justiça de Deus. Esses homens viviam com medo, e eles acreditavam nisso que a religião falava, nós chamamos isso de medo projetado. É como uma pessoa preta que acredita que é inferior porque a sociedade falou isso. Não acreditem, isso é falso. É como a pessoa homoafetivas, que acreditam que é um pecador absurdo, desviado, desordenado intensivamente, são palavras da religião. E as pessoas acreditam nisso, até própria pessoa acredita nisso. É tudo mentira, viu gente? Até as palavras ditas pela religião. Por quê? Isso descrimina as pessoas. Mas Deus não descrimina ninguém. E para que eu estou falando tudo isso? Para a gente se dar conta do que significou para aqueles homens que estavam lá, no meio do campo a noite, cuidando de ovelhas, para que lobos ou outros bichos não viessem atacar aquelas ovelhas. Para eles que eram considerados lixo do mundo, malditos, amaldiçoados por Deus, para eles, apareceu o anjo de Deus, apareceu a luz divina, e aqueles homens só podiam sentir uma coisa: terror. Tudo aquilo que tinham falado para eles, todas aquelas asneiras que tinham enfiado na cabeça deles, de que eles eram malditos, perdidos, assassinos, ladrões, e que seriam fulminados no momento da glória de Deus. E o que acontece? Olha que absurdo, eles morrendo de medo e o anjo diz: "Não tenhais medo". E fez daqueles homens, lixo do mundo, anunciadores e testemunhas da fidelidade de Deus, eles vão anunciar: "Nasceu para vocês um salvador, glória a Deus nas alturas, paz para os seres humanos, Deus ama vocês, Deus ama vocês com vossos pecados, até com vossos crimes. Deus ama e quer salvação para todos. Nasceu o Salvador, na cidade de Davi". E o que vem na nossa cabeça? Vem na nossa cabeça o esplendor e a grandeza, o salvador que esperávamos, descendente de Davi. E qual é o sinal? Os sinais absurdos de Deus: "Vocês vão encontrar um menino envolvido em faixas, lá no estábulo, deitado numa manjedoura, cocho”. Não tinha lugar para eles, então botaram eles lá. A lenda diz que foi uma mulher chamada Abigail que falou pra São José: "Olha, vai por ali, tem um lugar fora da cidade, onde tem animais, vacas, é um lugar tranquilo, tem palha e daqui a pouco vou lá para ver como é que está a situação da moça".

E então essa gente que o mundo diz que não vale nada, que a religião diz que vão ser condenados, estes homens vão até lá e encontram o Salvador, um menino em um cocho do estábulo, que salvador esquisito. E o que o anjo disse no inicio? "Não tenhais medo". Quem tem medo de uma criança pobre num cocho de estábulo? Uma criança recém-nascida? Até aqueles homens rudes, ladrões, assassinos foram ver ele. Não podiam se aproximar das pessoas, mas foram anunciar "Os anjos vieram e nos falaram isso". E falaram para pessoas que talvez tinham encontrado no caminho, às vezes até falou para a tal da Abigail também. Quem de nós teme uma criança recém-nascida? Quem? Se fosse um filho de rei, teria muito poder, mas uma criança pobre num estábulo, quem tem medo? Ninguém. Do mesmo jeito, que ninguém tem medo de um homem pendurado na cruz, agonizando. Quem tem medo de se aproximar desse pobre? Quem tem medo de se aproximar do Pão Eucarístico, que se entrega sem perguntar se você é santo ou pecador? Os padres que inventaram essa história de "aquele pode", "aquele não pode". Jesus não faz essas coisas, os padres que fazem. Tem medo de um pedaço de pão, que se reparte para ser comida pro mundo, para que as pessoas possam viver, pessoas como nós, pessoas piores que nós, pessoas que nós mesmos apontamos o dedo e dizemos: "condenado". Jesus se entrega a todos, para todos, não tenham medo.

E o que quer dizer "não tenha medo" nesses dias de pandemia? Nesse tempo de uma alegria bem "borocoxo". Quando é que vocês viram uma missa de véspera de Natal com a igreja vazia deste jeito? "Ah, padre, é pandemia", mas cabem 150 pessoas aqui e não tem. "Ah padre, mas tinha que agendar" Isso é conversa mole. Jesus nos diz "Não tenhais medo". Jesus não disse: “Sejam irresponsáveis", Ele disse: "Não tenhais medo". A situação é difícil, é, vai ficar pior, vai. Não tenham medo, as dificuldades na história existem, as dificuldades na vida existem e são muitas, mas a gente consegue ir para frente, as pessoas conseguem melhorar, as sociedades melhoram, faça o que pode hoje, o que eu posso fazer? Máscara, álcool e isolamento, isso você pode, faça. Não faça festinha, não faça esse ano para poder fazer ano que vem. Porque muitos que irão fazer festa este ano, não vão fazer ano que vem porque foram irresponsáveis, porque tiveram medo, medo de ter que se isolar, de ter que ficar sozinhos, medo de ter que aguentar a chatice do dia-a-dia. Não é fácil aguentarmos a chatice do dia-a-dia trancado dentro de casa, mas para quem persevera, tem saúde depois. Não persevera e não quer? Tem doença, e o risco de morte ou sequelas. Não ter medo hoje é responsável, é manter o contato virtual com as pessoas, hoje é tão fácil, tem muito jeitos, mandar mensagem, falar por WhatsApp, tem jeito de manter contato com as pessoas, e assim você vai estar enfrentando o medo. Quem foge do isolamento, ou nega os sistemas de proteção que são mínimos, máscara e álcool, se essa pessoa tem medo, essa pessoa é fraca. Cuidem-se, empenhem-se. Quem se empenha, dará frutos, Deus ama a todos, inclusive aos que tem medo, mas nos chama a ser responsáveis. Deus deu uma missão àqueles pastores, que eram amaldiçoados pela religião e temidos pelo povo, porque Deus confia em nós, essa é a mensagem de Natal. Não tenham medo, vamos em frente, mesmo que seja chato, cansativo estar em isolamento. Esse é nosso caminho, essa é nossa confiança, nossa esperança, e vamos nos alegrar um pouquinho mais, porque Jesus nasceu para cada um de nós e nos acolhe como somos. Toda a outra imagem de Deus é falsa, Deus é o menino na manjedoura, Deus é o pão da Eucaristia, Deus é o homem da cruz. São três momentos, e é o mesmo e único Deus que acolhe a todos. Bom Natal!

Não tenha medo, confie no Senhor

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha - Missa do Galo (Ano B) - 24/12/2020 (missa às 20h)

A frase deste natal e do começo do novo ano são as que o anjo disse para os pastores: "Não tenhais medo!". Medo, aqui no caso, é o medo de Deus, mas também é o medo de si mesmos e o medo dos outros. Quando nós aprofundamos as nossas raízes lá no mito de Adão e Eva, nós vamos encontrar o momento exato quando o ser humano mostra a sua infidelidade a Deus. Deus caminha no jardim, como fazia todos os dias, procura Adão não encontra, procura Eva e não encontra, e diz: "Onde vocês estão?" e os vê atrás do matinho. "Opa, vocês estão aí" e Adão logo fala: "Eu vi os teus passos no jardim e tive medo, eu estava nu". Mas Deus falou: "Quem te disse que você estava nu? Você por acaso comeu o fruto da árvore que eu proibi?". Quando o ser humano não quer crescer, quando o ser humano não quer fazer este longo caminho que é arar a terra, colocar a semente, cuidar da terra, esperar a planta crescer, esperar vir os frutos, esperar que os frutos amadureçam, recolher o fruto, moer a semente, preparar o fermento para fazer o pão. Todo este caminho... Quando o ser humano não quer esse caminho e quer o fruto final, quer o pão em sua mão, ele começa a não se aceitar. "Eu quero ser como Deus, eu quero o fruto final de tudo, não quero fadiga, não quero crescer porque sofrer dói". E a mesma imagem pode ser dada para a mulher, carregar uma criança na barriga por 9 meses, parto, dores únicas, depois tem que amamentar a criança, educar, fazer crescer, quando chega na adolescência vira um desastre, depois esperar ser adulto... Quanta fadiga, quanto tempo... "Não, quero tudo pronto, tudo maravilhoso". Isso não existe. Mas quando Adão e Eva rompem esse caminho de crescimento, esse caminho às vezes se torna uma maldição, punição de Deus. Nós temos medo. Medo foi o veneno que o inimigo colocou no nosso coração. Medo de Deus e de nós mesmos, porque nós somos miséria, nós sabemos que vamos morrer, nós temos medo do sofrimento e nós vemos muito sofrimento também, temos medo da pobreza, miséria, e muitas vezes nós mesmos produzimos miséria. Muitas vezes nós produzimos sofrimento, nós temos medo do outro que pode nos agredir, que pode nos atacar ou nos matar. E enfiamos de novo nossas raízes lá no mito de Abel e Caim, quando se pergunta a Caim "Onde está seu irmão", e ele responde "O que eu tenho a ver com meu irmão? Não interessa nada do meu irmão". Medo. Medo de Deus, medo de si mesmos e medo do outro. E quantas mentiras nós engolimos durante a história? Durante a vida? Quantas mentiras?

Outro dia uma pessoa reclamou porque eu falei sobre racismo, mas enquanto eu não deixar meu racismo eu não posso tratar o outro como irmão. Se eu não aceito o outro na sua diferença, eu nunca vou ser irmão do outro ou da outra. Nós temos que descobrir em nós, essas raízes do mal, porque elas só criam desconfiança para com o outro. E depois, desconfiança de Deus. Deus é um juiz implacável, vai nos esmagar, vai destruir tudo, vai ser fogo para todo lado, vai mandar todo mundo pro inferno por "uma coisinha de nada". Esse é o veneno que o inimigo colocou em nosso coração lá no mito de Adão e Eva, e Abel e Caim. Todos nós somos Adão, todos nós somos Eva, Caim e Abel. Vivemos desse drama e medo terrível, nós olhamos o nosso tempo, esse tempo. Se nós temos um pouco de responsabilidade, um pouco de amor próprio e ao outro, o outro vira uma ameaça, porque eu não sei se ele está contaminado, eu também me torno uma ameaça aos outros, porque os outros também não sabem se eu estou contaminado, eu vivo no medo, mas se eu pegar o vírus, e eu for um dos 2% que morre? E desses 2% nós já temos 188 mil mortes. Medo, medo de tudo.

Aqueles pastores eram o que nós hoje chamaríamos de "delinquentes". Eram homens rudes, mal conseguiam falar, pior pessoas que poderiam existir, muitos eram ladrões, ou assassinos, e a única coisa que podiam confiar a eles eram os rebanhos e que eles vivessem em montanhas, indo atrás de ervas para estes rebanhos. Todo mundo tremia quando essas pessoas se aproximavam, e a religião de Israel dizia que no dia da manifestação de Deus, esses homens ou pessoas como eles seriam fulminadas pela glória de Deus, destruídas, derreteriam como cera diante do esplendor e da justiça de Deus. Esses homens viviam com medo, e eles acreditavam nisso que a religião falava, nós chamamos isso de medo projetado. É como uma pessoa preta que acredita que é inferior porque a sociedade falou isso. Não acreditem, isso é falso. É como a pessoa homoafetivas, que acreditam que é um pecador absurdo, desviado, desordenado intensivamente, são palavras da religião. E as pessoas acreditam nisso, até própria pessoa acredita nisso. É tudo mentira, viu gente? Até as palavras ditas pela religião. Por quê? Isso descrimina as pessoas. Mas Deus não descrimina ninguém. E para que eu estou falando tudo isso? Para a gente se dar conta do que significou para aqueles homens que estavam lá, no meio do campo a noite, cuidando de ovelhas, para que lobos ou outros bichos não viessem atacar aquelas ovelhas. Para eles que eram considerados lixo do mundo, malditos, amaldiçoados por Deus, para eles, apareceu o anjo de Deus, apareceu a luz divina, e aqueles homens só podiam sentir uma coisa: terror. Tudo aquilo que tinham falado para eles, todas aquelas asneiras que tinham enfiado na cabeça deles, de que eles eram malditos, perdidos, assassinos, ladrões, e que seriam fulminados no momento da glória de Deus. E o que acontece? Olha que absurdo, eles morrendo de medo e o anjo diz: "Não tenhais medo". E fez daqueles homens, lixo do mundo, anunciadores e testemunhas da fidelidade de Deus, eles vão anunciar: "Nasceu para vocês um salvador, glória a Deus nas alturas, paz para os seres humanos, Deus ama vocês, Deus ama vocês com vossos pecados, até com vossos crimes. Deus ama e quer salvação para todos. Nasceu o Salvador, na cidade de Davi". E o que vem na nossa cabeça? Vem na nossa cabeça o esplendor e a grandeza, o salvador que esperávamos, descendente de Davi. E qual é o sinal? Os sinais absurdos de Deus: "Vocês vão encontrar um menino envolvido em faixas, lá no estábulo, deitado numa manjedoura, cocho”. Não tinha lugar para eles, então botaram eles lá. A lenda diz que foi uma mulher chamada Abigail que falou pra São José: "Olha, vai por ali, tem um lugar fora da cidade, onde tem animais, vacas, é um lugar tranquilo, tem palha e daqui a pouco vou lá para ver como é que está a situação da moça".

E então essa gente que o mundo diz que não vale nada, que a religião diz que vão ser condenados, estes homens vão até lá e encontram o Salvador, um menino em um cocho do estábulo, que salvador esquisito. E o que o anjo disse no inicio? "Não tenhais medo". Quem tem medo de uma criança pobre num cocho de estábulo? Uma criança recém-nascida? Até aqueles homens rudes, ladrões, assassinos foram ver ele. Não podiam se aproximar das pessoas, mas foram anunciar "Os anjos vieram e nos falaram isso". E falaram para pessoas que talvez tinham encontrado no caminho, às vezes até falou para a tal da Abigail também. Quem de nós teme uma criança recém-nascida? Quem? Se fosse um filho de rei, teria muito poder, mas uma criança pobre num estábulo, quem tem medo? Ninguém. Do mesmo jeito, que ninguém tem medo de um homem pendurado na cruz, agonizando. Quem tem medo de se aproximar desse pobre? Quem tem medo de se aproximar do Pão Eucarístico, que se entrega sem perguntar se você é santo ou pecador? Os padres que inventaram essa história de "aquele pode", "aquele não pode". Jesus não faz essas coisas, os padres que fazem. Tem medo de um pedaço de pão, que se reparte para ser comida pro mundo, para que as pessoas possam viver, pessoas como nós, pessoas piores que nós, pessoas que nós mesmos apontamos o dedo e dizemos: "condenado". Jesus se entrega a todos, para todos, não tenham medo.

E o que quer dizer "não tenha medo" nesses dias de pandemia? Nesse tempo de uma alegria bem "borocoxo". Quando é que vocês viram uma missa de véspera de Natal com a igreja vazia deste jeito? "Ah, padre, é pandemia", mas cabem 150 pessoas aqui e não tem. "Ah padre, mas tinha que agendar" Isso é conversa mole. Jesus nos diz "Não tenhais medo". Jesus não disse: “Sejam irresponsáveis", Ele disse: "Não tenhais medo". A situação é difícil, é, vai ficar pior, vai. Não tenham medo, as dificuldades na história existem, as dificuldades na vida existem e são muitas, mas a gente consegue ir para frente, as pessoas conseguem melhorar, as sociedades melhoram, faça o que pode hoje, o que eu posso fazer? Máscara, álcool e isolamento, isso você pode, faça. Não faça festinha, não faça esse ano para poder fazer ano que vem. Porque muitos que irão fazer festa este ano, não vão fazer ano que vem porque foram irresponsáveis, porque tiveram medo, medo de ter que se isolar, de ter que ficar sozinhos, medo de ter que aguentar a chatice do dia-a-dia. Não é fácil aguentarmos a chatice do dia-a-dia trancado dentro de casa, mas para quem persevera, tem saúde depois. Não persevera e não quer? Tem doença, e o risco de morte ou sequelas. Não ter medo hoje é responsável, é manter o contato virtual com as pessoas, hoje é tão fácil, tem muito jeitos, mandar mensagem, falar por WhatsApp, tem jeito de manter contato com as pessoas, e assim você vai estar enfrentando o medo. Quem foge do isolamento, ou nega os sistemas de proteção que são mínimos, máscara e álcool, se essa pessoa tem medo, essa pessoa é fraca. Cuidem-se, empenhem-se. Quem se empenha, dará frutos, Deus ama a todos, inclusive aos que tem medo, mas nos chama a ser responsáveis. Deus deu uma missão àqueles pastores, que eram amaldiçoados pela religião e temidos pelo povo, porque Deus confia em nós, essa é a mensagem de Natal. Não tenham medo, vamos em frente, mesmo que seja chato, cansativo estar em isolamento. Esse é nosso caminho, essa é nossa confiança, nossa esperança, e vamos nos alegrar um pouquinho mais, porque Jesus nasceu para cada um de nós e nos acolhe como somos. Toda a outra imagem de Deus é falsa, Deus é o menino na manjedoura, Deus é o pão da Eucaristia, Deus é o homem da cruz. São três momentos, e é o mesmo e único Deus que acolhe a todos. Bom Natal!

Em Maria, cumpre-se a vontade de Deus

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 4º Domingo do Advento (Ano B) – 20/12/2020 (missa às 10h).

Vamos começar com uma curiosidade sobre o Evangelho: nós não sabemos qual é a linhagem de Maria. Nós só sabemos a de José, ele era descendente de Davi. Filho que nasce de mãe hebreia é hebreu. Quem dá a descendência para o filho é o pai, mesmo que seja pai adotivo. Maria garante que Jesus é hebreu, mas é José que, assumindo a paternidade de Jesus, aceitando esse mistério que Deus operou na vida dela, diante da Lei, José aparece como pai de Jesus. Então Jesus se torna descendente de Davi por causa de José, que, diante da Lei é pai de Jesus, apesar de nós sabermos que Ele é filho de Deus.

Muito bem, já falei aqui outras vezes sobre a anunciação. Essa menina de fim de mundo, que Deus tinha desejado na eternidade que fosse a mãe do Seu filho. E, quando chegou o tempo, Ele cria Maria inundada, ou imersa, na graça de Deus, de modo que, nela, só existe luz. Os nossos irmãos protestantes muitas vezes traduzem “cheia de graça” por “agraciada”, para mostrar esse fato que Maria recebe de Deus a graça, e é justa a afirmação. Maria é nossa. Ela está deste lado do abismo, ela está conosco. Do outro lado, está Deus. Entre nós e Deus, existe um abismo intransponível. Deus habita numa luz inacessível, não tem como chegar lá. Ou Ele vem até nós, ou nós não temos acesso. E o que nós vemos é exatamente a misericórdia de Deus que vem ao nosso encontro, vem através da criação, vem através da criação do homem e da mulher, vem através do Seu filho, Jesus, verbo eterno do Pai, que se esvazia de si mesmo e se torna uma célula no seio da Virgem Maria. Maria, estando desse lado do abismo, se torna o ponto de apoio da ponte, entre Deus e nós e a Jesus. Essa ponte encontra o seu fundamento aqui do nosso lado em Maria, no seio dessa mulher. Deus operou um milagre. O filho que dela nasceu é um homem perfeito e ao mesmo tempo é o Deus eterno. Só nessa mulher, em toda criação, se encerra o mistério que Deus operou na encarnação.

Quando o anjo diz “alegra-te”, ele está dizendo “Maria, finalmente a espera do povo vai se concretizar, a promessa que Deus fez para Abraão há mil e oitocentos anos, as promessas que Ele fez a Davi há mil anos atrás, as profecias de setecentos, quinhentos, quatrocentos anos atrás se cumprem agora”. E se cumprem do jeito de Deus, não do nosso jeito. Um descendente para Davi, cujo trono vai ficar eternamente diante do Pai. O que você pensa? Um super rei, imagina! E qual é o trono que Jesus tem? A cruz. Que jeito esquisito de Deus. E, na eternidade, Jesus reina com os sinais da cruz, e Ele nos julga a partir da cruz. O julgamento de Deus é um julgamento de misericórdia, lembrando que a misericórdia de Deus é mais justa que a nossa justiça vingativa. Deus quer a salvação de todos.

Nós aprendemos ainda com Maria, no momento da anunciação, muitas coisas. Hoje nós vamos frisar uma. Já falei isso muitas vezes porque é importante! Maria não pergunta “por quê?” para Deus, não pergunta. Maria pergunta para o anjo “como fazer, o que eu tenho que fazer? Eu não conheço o homem”, ou seja, “eu sou virgem”, “o que eu tenho que fazer? Tenho que casar logo com José? Tenho que procurar outro homem? O que eu tenho que fazer?” – é uma pergunta operativa. Não é uma pergunta que quer saber “por que é que Deus permite isso? Por que eu? Por que para mim isso?”. Não. Isso é pergunta arrogante, pergunta de quem não tem fé. A pergunta é: ‘o que fazer nesta situação?’. O que fazer numa situação de câncer terminal, o que fazer nessa situação de doença grave, desnecessária que é o COVID. O que fazer com um parente que morre, o que fazer com o meu vazio, o que fazer com a minha dor. O que fazer? Essa é a grande pergunta. A essa pergunta Deus dá respostas. Uma pessoa com câncer terminal, às vezes eu não posso fazer nada, está morrendo. Mas eu posso, às vezes, segurar a mão da pessoa. Posso, às vezes, estar ao seu lado, às vezes rezar por ela, especialmente agora, o pessoal com COVID, que a gente não pode nem rezar uma Ave-Maria antes de enterrar, e a maior parte dessas pessoas não teria que ter morrido, o que eu posso fazer? É rezar, isso eu posso. Ajudar as pessoas que estão sofrendo, isso eu posso. “Por que Deus permitiu que o meu marido morresse assim?”. Isso é problema de Deus, a vida não vai te responder. O que fazer agora? Às vezes a resposta é: chora. Quando a dor é grande, Deus entende. Não podemos ser arrogantes diante de Deus, Maria nos ensina isso. O que fazer? Isso é uma atitude espiritual. Essa é uma atitude que deve nascer da fé cristã. Não ser arrogante e perguntar o porquê para Deus, arregaçar as mangas e fazer o que é possível, e, às vezes, tem bem pouco para fazer. Mas, às vezes, tem muito. Isso faz a diferença.

Depois, tem uma frase que a gente às vezes precisa explicar também. O anjo diz: “o Espírito do Senhor virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a Sua sombra”. Dá impressão de que são dois atos, ou duas pessoas. Não é, é o mesmo. O Espírito Santo é o poder do Pai, a força do Pai. É o Espírito Santo que cria em Maria a possibilidade de gerar um filho que seja homem e Deus. É o Espírito Santo que faz isso. O filho é do Pai, Ele envia o seu verbo do céu. Mas o poder que permite isso é o Espírito Santo. A sombra do poder de Deus é o mesmo Espírito Santo, as duas expressões falam de um único ato, e lembram a presença de Deus. Onde que nós encontramos a figura da nuvem no Antigo Testamento? Quando o povo de Deus, aquele grupinho de pessoas que fugia do Egito, perseguidos por soldados egípcios – homens, mulheres, crianças, animais, pessoas anciãs, que situação difícil. E o pessoal atrás com as bigas, que eram que nem carros de guerra, conduzidos a cavalo, terríveis. O que essa pobre gente conseguia contra aquilo? A nuvem se coloca entre o exército e o povo. Para o povo, ela é luz. Para o exército, ela é trevas. É a presença de Deus. Um outro momento em que nós encontramos a nuvem é quando Deus fala com Moisés no monte Horebe, para dar para ele os dez mandamentos, as tábuas da lei. Horebe estava cheio de tempestades. Aquilo, a nuvem, indica a presença de Deus. Quando rei Salomão consagrou o templo de Jerusalém e pede que Deus esteja presente naquele lugar, desce sobre o templo a nuvem, sinal da presença de Deus. Quando o povo é exilado para a Babilônia, o profeta Jeremias vê a nuvem se levantar do templo e ir atrás do povo, para onde o povo vai. No Novo Testamento, nós temos a transfiguração. Jesus, que no monte Tabor se transfigura e, próximo dele aparecem Moisés e Elias vivos, não mortos. Vivos, e falam com eles. Deus é Deus dos vivos, não de mortos. Quando nós morremos, nós ressurgimos para a vida eterna, viu gente? Não acaba no túmulo não. Ali a gente enterra carne, e vai apodrecer. Nós ressurgimos para a vida na hora da morte. Pedro, João e Tiago viram a sombra, a nuvem que encobriu o topo do morro, encobriu Jesus, Moisés e Elias. É a presença de Deus, e eles ouvem “este é meu filho amado, ouvi-o”. É a presença de Deus, a presença de Deus desce sobre Maria, o poder de Deus desce sobre ela, e permite que ela, sem ajuda de homem, conceba um filho que é homem e Deus eterno.

Nós nunca vamos contemplar o bastante o mistério da encarnação do verbo, nunca. Porque cada vez que nós debruçamos sobre esta passagem, toda vez que nós nos debruçamos sobre qualquer passagem da Escritura, do Novo Testamento, dos quatro evangelhos, nós encontramos sempre, sempre, sempre, novas luzes. Os hebreus falam que a leitura constante da palavra é como pegar duas pedras, dessas que fazem fogo, e bater uma contra a outra. Sempre saem faíscas novas. Essa é a Escritura, esse é o mistério de Deus. Por isso, a Sagrada Escritura é sagrada, é Palavra de Deus, mesmo tendo sendo escrita há dois mil, três mil, três mil e quinhentos anos atrás, ela continua nos falando hoje. E, com essa leitura de hoje, nós aprendemos uma atitude cristã fundamental: não devemos nunca perguntar os porquês para Deus, mas aprender a perguntar o que fazer.

Ser luz em um mundo de trevas

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 3º Domingo do Advento (Ano B) – 13/12/2020 (missa às 10h).

Os quatro evangelhos nos falam de João Batista, essa figura que foi complicada para a primeira comunidade cristã. Porque os discípulos de João Batista acreditavam que era ele o Messias, então se formaram comunidades de discípulos. Enquanto os evangelhos foram escritos, ainda existiam essas comunidades – por volta da metade do segundo século, ano 120, 130 –, os chamados "Batistas". Eles se tornaram cristãos, reconheceram que Jesus era o Messias, mas, enquanto os evangelhos eram escritos, ainda tinha polêmica. Quatro comunidades diferentes escreveram os evangelhos – comunidades diferentes, pessoas diferentes, problemas diferentes. Os evangelhos não são biografias de Jesus, são o anúncio da boa notícia que Jesus trouxe. Jesus é nosso Salvador; morreu e foi ressuscitado, está na glória do Pai e há de vir. Esse é o grande anúncio dos evangelhos.

 

O primeiro evangelho a ser escrito foi o de São Marcos. Nele, São João Batista é apresentado assim, com cores bem vivas. Depois, São Lucas e São Mateus copiaram praticamente 90% do evangelho de São Marcos, e eles tentaram englobar João Batista dentro da vida de Jesus – São Lucas vai apresentar João Batista como primo de Jesus. São João, ou a comunidade de São João, vai apresentar João Batista como uma testemunha. Se vocês lerem lá no primeiro capítulo de São João, não tem e não aparece o batismo de Jesus.  Engraçado, não é? Pois é, São João esvazia essa figura de João Batista. Para ele, João Batista é uma testemunha – uma testemunha qualificada, porque ele cumpre uma profecia de Isaías: "Uma voz grita no deserto: preparai os caminhos do Senhor" [ref. Is 40, 3].

 

São João Batista chama o povo para a conversão, e ele usa as roupas, os trajes que eram próprios dos profetas. Elias usava aquele tipo de roupa (pele de camelo), comia mel silvestre e outras coisas que conseguiam obter no deserto – até gafanhotos comiam! Quando teve aquela nuvem de gafanhotos aqui na América Latina – isso é uma piadinha, tá? –, aqui no Brasil, o pessoal começou a fazer fritada de gafanhoto; tem gente que come casquinha de siri, outros começaram a fazer fritada de gafanhotos. Os gafanhotos chegaram na fronteira e pensaram: "O que? Vamos acabar na panela? Nada disso...", aí foram embora. Então significa que gafanhoto dá para comer, viu, gente? Naquele tempo, comiam.

 

O que João Batista faz? Ele anuncia: "Eu não sou digno de desatar as suas sandálias". O que isso quer dizer? Quem desatava as sandálias era o escravo velho, que não servia para mais nada, ele só dava gastos para o dono da casa. Então era ele, que não valia mais nada, que desamarrava as sandálias do dono. João Batista está dizendo: "Nem isso, eu sou muito menos que isso. Podem me chamar de profeta, podem me chamar de novo Elias, isso não é nada comparado ao que Ele é. Eu batizo com água" – o que é agua? Não é nada – "Ele dá o Espírito dá vida, que só Deus pode dar".

 

São João deixa muito claro em seu evangelho: Jesus olha o rosto do Pai. Só quem pode olhar o rosto do Pai é quem é igual ao Pai, Deus como Pai. Então Ele nos revela o Pai. Todo gesto de Jesus é gesto divino, é o humano que revela Deus. E qual o problema? São João diz: "Ele está no meio de vocês, mas vocês não O conhecem". Olha que coisa estranha. Quem eram esses homens que vieram perguntar para João Batista o que ele era? Sacerdotes e levitas. Levitas seriam os nossos sacristãos de hoje, ou seja, gente de dentro da igreja. E o que esperamos dessas pessoas? Que sejam capazes de reconhecer o Messias, é isso o que a gente espera. São João vai dizer o que? "Vocês não O conhecem". Por quê? Porque não são capazes de ouvir "a voz que grita no deserto" chamando à conversão. Convertei-vos! Este era o grande anúncio de João Batista: convertei-vos. E essa gente não se converteu; e essa gente, depois, vai matar João Batista e Jesus. Para nós, fica também esta pergunta: "Você é capaz de reconhecer Jesus?". Onde Jesus está? Jesus está na Eucaristia. Jesus está em Sua Palavra. Jesus se manifesta em Sua comunidade quando ela reza em nome Dele. Mas Jesus também está em todas as pessoas que se aproximam de nós ou de quem nos aproximamos – aí está Jesus. São João, em sua primeira carta, vai dizer: "Quem diz que ama a Deus e não O vê, mas não ama seu irmão, que vê, é mentiroso" [ref. 1 Jo 4, 20]. Você só pode amar a Deus se você ama o teu irmão, a tua irmã; senão, você não conhece Deus, você está como aqueles sacerdotes e levitas – Jesus estava ali, no meio da multidão, mas eles não O reconheceram e O mataram. Então nós reconhecemos Jesus nos nossos irmãos e irmãs, especialmente nos que mais sofrem. Jesus está desfigurado nos pobres, nos doentes, nas pessoas desesperadas, nas pessoas marginalizadas, nas pessoas excluídas das nossas comunidades: Jesus está lá, pedindo a nós que os reconheçamos, para que essas pessoas vivam os valores do Reino. E uma coisa interessante: São João, em seu evangelho, não fala de Deus nenhuma vez. Porque, para São João, o Reino de Deus não era uma realidade visível; para ele, o Reino de Deus era Jesus. Tudo, para São João, era Jesus.

 

Quem vê Jesus, vê o Pai. O Espírito Santo é o espírito de Jesus ressuscitado. O Reino de Deus é Jesus. Tudo, para São João, era Jesus. Jesus é o Reino, e Jesus faz o que? O bem. Anuncia o que? A verdade – não fake news. Ele não engana o povo, Ele diz a verdade. Inclusive, diz: "Quem segue meus passos, pode acabar na cruz". Jesus não engana, não; Jesus não faz fake news nem conta histórias pela metade. Se nós formos ver os milagres que Jesus faz, não são shows, não têm "estrelinhas" e holofotes. Por quê? Porque o Reino de Deus é discreto. Nós vamos construindo o Reino aos poucos. Onde aparece o Reino de Deus? O Reino de Deus aparece nos nossos pequenos gestos, no pedaço de pão que você dá a quem te pediu. Para quem está com fome, você vai, entrega, não tem brilho, não tem estrelinha, não aparece anjo, ninguém bate palma, não tem nada disso. Ali, naquele momento, aconteceu uma faísca do Reino de Deus, como estrelas no céu, como se ficassem apagando e ascendendo o tempo inteiro sinais do Reino. Toda vez que você faz o bem, que você defende a verdade, a honestidade, a justiça, você está fazendo brilhar, num instante, o Reino de Deus. E é este o Reino que nós temos aqui neste mundo; este mundo aqui poderia ser um mar de luzes... Mas, muitas vezes, é um mar de trevas. Ainda assim, quanto maiores as trevas, mais a luz brilha! Vocês já andaram... Bom, para moradores de cidades, como aqui, é mais difícil, mas pega a rodovia Castelo Branco – eu falo dessa rodovia porque é a única que eu conheço mais –, pega a rodovia e vai embora. Depois da entrada para São Manoel, entre numa estradinha de lado qualquer em uma noite sem lua, com céu encoberto... É um breu total. No meio deste breu, se você acende um palito de fosforo, você pode ser visto a quilômetros! Em um mundo onde reinam as trevas, Jesus nos ensina a ser luz. E Ele quer que nós transformemos essa maré de trevas em um mar de luzes! Esse é o Reino neste mundo. Porque, no Reino de Deus, é só luz, lá não tem trevas.

 

Vamos pedir ao Senhor que nós possamos reconhece-Lo e, desse modo, estar sempre preparados para Sua nova vinda. Hoje, um modo de dar testemunho da luz é ficar em casa, esquecer de fazer festinha de Natal e Ano Novo. Quer comemorar Natal de 2021 e Ano Novo de 2022? Fique em casa! Sem festinhas, para não comemorar o ano que vem no cemitério. Entendeu? Está muito preocupante, não se iluda! Se feche em casa neste fim de ano, melhor renunciar às festinhas de 2020 para comemorarmos em 2021. Isso também é cuidar e amar os outros.

Três passos para a conversão

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 2º Domingo do Advento (Ano B) – 06/12/2020 (Missa às 10h).

O livro do profeta Isaías foi escrito em três etapas: a primeira parte é do tempo do profeta (700 a.C.), a segunda parte é do tempo da volta do exilio da Babilônia por volta dos anos 535 a.C. e uns 50 ou 60 anos depois, o que nós chamamos de terceiro Isaías. O segundo Isaías anuncia o retorno do povo exilado. Os chefes do povo, os nobres, a corte foram exilados na Babilônia. Só ficaram na Palestina as pessoas mais pobres do lugar, esse pessoal ficou passando miséria por 70 anos. Aí veio o rei Círio da Pérsia e fez todo mundo voltar para a Palestina, então os discípulos do profeta contemplam um Deus que volta com o seu povo. Essa é a diferença do Deus de Israel para os deuses dos outros povos. Os deuses dos outros povos eram fixos em templos e o templo não se move. São as pessoas que vão até o templo. O Deus de Israel é um deus que está com o seu povo. Por isso que nós, neste período de pandemia, que estamos em isolamento e rezamos em casa, Deus está conosco. Porque Ele não depende dessas quatro paredes aqui. Ele está onde estão os seus filhos, onde estão as suas filhas. Esse é o nosso Deus.

E Jesus é a revelação do Pai: Deus que desce do céu, se esvazia de si mesmo e se torna um de nós, mas é sempre Deus. Humano como nós, porque Deus pode fazer isso. Nós não podemos ser deuses. Se nós queremos ser deuses, nós caímos na autoidolatria que é o pecado das origens: ‘Vocês serão como deuses’. Mas Deus pode ser um de nós, Ele pode se tornar um de nós e, em Jesus, Ele se tornou um de nós. Por isso que as palavras, os gestos, as opções de Jesus, para nós, são normativos. Por quê? Porque Ele é Deus, Ele é o Filho de Deus, que amou com coração humano, andou com pés humanos, se compadeceu de nós e das nossas misérias, veio ao nosso encontro e Ele nos convida – e João Batista também – a um caminho de conversão. Porque se Jesus é o homem novo, o homem que Deus pensou desde toda a eternidade, para que eu seja uma pessoa nova, uma pessoa do Reino de Deus, eu tenho que olhar para como age Jesus.

São João diz ‘conversão’. E conversão é o que? Se eu estou andando para um lado, eu olho Jesus e Ele diz que o caminho é para o outro lado, então eu começo a seguir o caminho de Jesus. Eu mudo o caminho. Eu sigo as vias novas de Jesus. Muitas vezes, não são as minhas. Se eu sou uma pessoa injusta, começar a praticar a justiça. Se eu minto, começar a falar a verdade. Se eu não me preocupo com os outros, começar a me solidarizar com o sofrimento dos nossos irmãos. Olha que frase bonita aqui no Salmo 84: ‘A verdade e o amor se encontrarão, a justiça e a paz se abraçarão, da terra brotará a fidelidade e a justiça olhará dos altos céus’. O nosso Deus é um Deus fiel. Ele nos ama na verdade, no amor e na justiça. Ele nos dá a paz. E busca em nós correspondência para a sua fidelidade, que na nossa vida é a perseverança no bem, mesmo que isso possa custar perseguição, mesmo que isso possa custar a morte.

É a isso que esse Tempo do Advento nos convida: viver de um jeito novo, na espera do dia em que Jesus volta. Olhando os passos de Jesus, acertar os nossos passos hoje, esperando a sua volta. Desse modo nós conseguimos construir um mundo novo, com relações novas entre nós. O que quer dizer fidelidade? As pessoas saberem que podem contar conosco, que não vamos deixá-las na mão nem trai-las ou virar as costas. Isso é fidelidade. No nosso tempo, não dar ouvidos às mentiras que se contam para todo o lado. Fidelidade é querer o bem do povo, é querer construir uma sociedade boa e justa e não destruir tudo o que a sociedade tem. Agora nós estamos num tempo da demolição, os senhores que estão sentados lá em cima estão demolindo tudo, isso não é fidelidade ao povo. Temos que construir um mundo novo, tempos novos. Seguir Jesus é construir isso, o bem entre nós, começando pela solidariedade, nos importarmos uns com os outros.

 

Vamos pedir ao Senhor que nos dê coragem: primeiro, de ver onde nós estamos andando, depois a coragem de olhar como Jesus fazia e o terceiro passo da coragem, mudar as nossas atitudes e os nossos caminhos para seguir Jesus. Vamos lá, são três passos: 1. Ver onde eu estou. 2. Olhar Jesus. 3. Seguir os passos Dele. O Espírito Santo pode fazer isso em nós. Vamos pedir que Ele nos ajude!

Espera no Senhor

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 1º Domingo do Advento (Ano B) – 29/11/2020 (Missa às 10h).

Nós estamos lendo, neste novo Ano Litúrgico, o Evangelho de São Marcos – pois, hoje, para a Igreja, começa o Ano Novo, o novo ciclo da liturgia, e quem vai nos acompanhar este ano é São Marcos. Como ele é muito curto, nós vamos ter vários trechos de São João e de São Lucas também durante o ano, mas digamos que a "espinha dorsal" das leituras do Evangelho será São Marcos. O ano passado foi São Mateus; neste ano litúrgico será São Marcos; e, no ano que vem, o Advento vai começar com São Lucas.

 

Vigilância. Nós, muitas vezes, queremos que Deus intervenha na história. "Por que Deus não acaba com esse coronavírus?" – tantas vezes ouvi isso da boca das pessoas... "Por que Deus não acaba com as guerras no mundo?", "Por que Deus não acaba com a fome?". Nós estamos dizendo a mesma coisa que o povo de Israel dizia, quase desafiando Deus: "Por que você não rasga o céu e faz alguma coisa?". A história humana, Deus deu para nós criarmos. É a nossa parte da criação, e Ele não vai "descaroçar o angu" que nós encaroçamos, nós é que vamos ter que descaroçar esse negócio... De que jeito? Voltando para o caminho de Deus. E qual é o caminho de Deus? Justiça, paz, verdade, honestidade, solidariedade. Olha que coisa: solidariedade. Isso, para a comunidade cristã inteira. Para que? Para que nós sejamos, no mundo cheio de trevas, luz. Porque um cristão desonesto, vale nada; um cristão injusto é das trevas do mesmo jeito. Quem pratica a verdade, a justiça, a honestidade, esse sim é luz! É um cristão que é luz no mundo. E é luz o que somos chamados a ser, como comunidade. Então o que Deus espera da sua comunidade é que, em cada tempo, ela seja uma luz. Luz de amor ao próximo, de serviço, de justiça, de honestidade, de solidariedade... De verdade!

 

Qual o grande problema que nós estamos atravessando agora na sociedade? Fake news, ou seja, mentiras, notícias falsas. Fake, em inglês, quer dizer falso; news, notícias – notícias falsas. Para quê? Para enganar as pessoas, para enganar o povo; para que, desse jeito, eu possa dominar o povo; para que eu seja a única fonte da verdade e, quando falar que o branco é preto, todo mundo diga que é preto. Mas continua sendo branco. Então o cristão, hoje e sempre, tem que ser uma pessoa da verdade, como comunidade, esperando o dia do Pai. Não adianta fazer contas com os números da Bíblia, não adianta ficar fazendo conta com astrologia, achar que o asteroide número não sei qual vai vir, bater na Terra e acabar com tudo. Não adianta ficar tendo esse tipo de conversa. O tempo de Deus é Dele, é do agrado Dele, e não tem ninguém, nem no céu nem na terra, que abaixe aqui e venha dizer quando é – nem a Virgem Maria faz isso, porque ela também não sabe. Jesus falou que só o Pai sabe, ponto final, palavra de Jesus.

 

Depois, para cada um dos discípulos, para cada um de nós, discípulos e discípulas, quando é o dia do Senhor, o dia do encontro com o Senhor? Primeiro, todo momento é momento de encontro com Deus. Todo momento, porque Deus é mais presente a nós do que nós mesmos. Todo tempo é tempo de encontro com Deus, mas o grande momento é o momento da morte, quando nós nos encontraremos face a face com o Pai – ou, alguns místicos dizem, face a face com a única imagem do Pai, Jesus crucificado. E, ali, se dá o julgamento do mundo. A morte não é algo determinado, não está escrito num livro: "Você vai viver tantos dias". Isso não existe, isso é bruxaria. Deus conhece? Claro que conhece, na onipotência, na onisciência Dele. Porém, em Deus, as coisas são eternas. Nós vemos o tempo; Deus vê a eternidade.

 

Nós temos que estar prontos para a morte, e este tempo nosso aqui está nos alertando muito. Quantas pessoas nós conhecemos que estavam bem e, por causa desse vírus, não estão mais conosco? Por responsabilidade – ou irresponsabilidade – do governo, isso é outro problema, mas quantos não estão mais conosco? Quantas pessoas morrem de infarto todos os dias? Que estava bem, era novo, nova... Eu me lembro de uma paróquia onde tinha um casal com dois filhos e a esposa tinha problema de coração; eles estavam tomando café, de manhã, e ela simplesmente caiu morta em cima da xícara, mortinha da Silva, na frente do marido e dos filhos. Quantos jovens estão andando na rua e caem mortos por aneurisma? Quantas pessoas de idade foram internadas, entubadas, passaram quarenta dias em UTI, em hospital, com Covid e, no fim, saíram boas? Quantos jovens foram e não voltaram?

 

A morte é incerta, então Jesus nos convida a estar sempre prontos. Prontos em quê? Na prática das boas obras, na prática do Evangelho, do amor, perdão... E, naquilo que não conseguimos perdoar, pedir a Deus que nos ajude – e Deus ajuda. Além disso, ajudando os outros que sofrem, não sendo indiferentes. "Ah, mas eu tenho que ficar em casa o dia inteiro, porque eu sou do grupo de risco", mas fica lá vendo bestagem no WhatsApp o dia inteiro... Em vez disso, mande uma mensagem para as pessoas que você conhece e sabe que não estão bem. Telefone para alguém, para consolar as pessoas. Esses são modos de estar presente, mesmo estando longe. Você reza pelos outros? Com mais tempo, você lê a Palavra de Deus? Para aprender mais sobre Jesus, para aprender mais a como viver o Evangelho... São questões. Vigiai, preparai-vos, porque o dia do Senhor chega para todos nós. Ninguém vai ficar para semente não, viu, gente? Todos nós, daqui a 100 anos, nenhum que está aqui, nenhum, nem o que estiver na barriga da mãe vai estar mais neste mundo.

 

Este tempo é tempo de fazer o bem; este tempo é tempo de ser luz para o mundo; este tempo é tempo de ser testemunhas de Jesus e do Seu santo modo de agir. Advento é isso, Advento é a espera. Espera do Natal? "Mas o Natal já foi há dois mil anos...". É a espera da vinda do Senhor. Ele quer que a nossa comunidade seja luz para o mundo, para este mundo. Ele quer que cada um de nós sejamos discípulos e discípulas, pratiquemos as palavras do Evangelho. Nós lembramos o Natal para esperar a segunda vinda de Jesus. E, como diz São Paulo, na segunda leitura [1Cor 1, 3-9], Deus é fiel – o que Ele promete, Ele faz, e Ele vai cuidar da gente.

 

Muito bem. Por que é que o Padre veste roxo? Morreu alguém? Não. O roxo, as cores da liturgia, não são para moda – "Ah, hoje eu quero usar verde, amanhã eu quero usar vermelho". Não tem isso, não. Cada tempo tem uma cor, e a cor agora é o roxo, o tempo do Advento é roxo. O roxo significa três coisas: penitência (durante a Quaresma, nós também usamos roxo), espera (Advento, que é o que nós temos agora) ou celebração dos mortos. São essas três coisas que significa o roxo na liturgia. O verde é o Tempo Comum, é a maior parte do tempo, quando nós seguimos Jesus passo a passo pelo Evangelho. Depois nós temos o Tempo da Páscoa e o Tempo do Natal, que são brancos. Pentecoste é vermelho, e quando celebramos os mártires, pessoas que derramaram o sangue por causa do Evangelho, também usamos vermelho.

Jesus traz os oprimidos ao banquete do Reino

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – Solenidade de Cristo Rei (Ano A) – 22/11/2020 (Domingo, missa às 10h).

Este evangelho[Mt 25, 31-46] traz um ponto de reflexão constante para nossa vida cristã. Foi baseado neste evangelho que Frederico Ozanan fundou os Vicentinos. São Vicente de Paulo, duzentos anos antes, vivia dessa espiritualidade: do serviço ao pobre, ao que sofre. Hoje em dia, continuamos, infelizmente, tendo tantas situações de sofrimento e de injustiça no mundo. Nós vimos, dois dias atrás, um homem espancado em um mercado, depois de agredir um vigia. Ele cometeu um erro, mas isso não justifica que a pessoa seja espancada até a morte. E este homem que foi morto era negro. Então nos vem a pergunta: “se fosse um homem branco, teriam feito aquilo?”. Temos que nos fazer estas perguntas.

Um dia, uma pessoa me perguntou: “por que que fala tanto de negro? Para de falar tanto, fala de branco também”. Mas o que não se percebe é que de branco se fala o tempo inteiro. Quando você assiste novela, a maioria é branco. Agora que começaram a mudar, mas antes você podia contar dois ou três artistas negros. Tudo é baseado na cultura branca. Nós não temos o racismo segregacionista da África do Sul, no qual os negros ficavam em lugares separados dos brancos durante o período do Apartheid. Isso não existe no Brasil. Nós também não temos o mesmo segregacionismo americano, mas não podemos dizer que não temos racismo no Brasil.

Vocês já ouviram falar das conversas que os pais negros têm com os filhos quando tem 10, 11 ou 12 anos? A conversa do pai é – prestem atenção nas palavras –: “filho, quando você for parado pela polícia (não é “se”, é “quando”; ele sabe que vai ser parado porque ele é negro), olhe para o chão, entregue os documentos, seja educado, responda às perguntas, se estiver com tênis novo, leve a nota fiscal na carteira”. Se isso não se chama racismo, eu não sei o que vai chamar. Qual pai branco teve essa conversa com o filho quando tinha 11 ou 12 anos? Nenhum. Isso nem passa na nossa cabeça. E os negros são pouco mais da metade da população brasileira.

Não adianta alguns senhores que se sentam em certas cadeiras dizerem que, no Brasil, não há racismo. Não tem como aparece nos EUA e na África do Sul, mas tem. Pergunte a um negro. Tem a história da moça que foi com a amiga negra fazer comprar no shopping. Ela queria comprar sutiã. Chegaram no shopping e a vendedora se dirigiu somente à branca, nem considerou a negra que estava com ela. Só quando foi informada que a moça negra era a cliente é que se dirigiu a ela. A moça negra disse que queria um sutiã cor da pele. A vendedora pegou todas as variações de bege. Por quê? Porque pensamos que cor de pele é só branca. Isso se chama racismo introjetado e nós fazemos isso todos os dias. A vendedora, que não é mais culpada do que nós, deveria ter perguntado: “é para você? Qual a cor de pele da pessoa?”. Racismo introjetado é isso: se você vai comprar uma tinta e quer tinta cor de pele, ela vai ser bege.

Isso está na nossa cabeça e se chama racismo estrutural. E nós somos culpados? Não! Mas temos que ligar o sinal vermelho e saber que não está certo. Que cor você quer pintar a pessoa? Se for São Benedito, a pele é escura; se for Santa Clara de Assis, então a pele é clara. Do mesmo modo, se é uma mulher negra, as cores de sutiã cor de pele serão dentro do cinza, do negro, do marrom. Nós temos que ligar o sinalzinho vermelho.

Padre, e o que isso tem a ver com o evangelho? Tudo! Porque se o Evangelho não nos incomoda, não nos cutuca, é porque estamos lendo errado. Hoje, no Brasil, amar o próximo é respeitá-lo na sua diferença, é considerar o outro, um cidadão como eu. A lei leiga, ou seja, que não é confessional, reconhece isso: “todos os cidadãos são iguais diante da lei”. Mas, algumas semanas atrás, uma juíza escreveu em uma sentença: “pela raça desta pessoa, a gente já vê que tende ao crime”. Isto é falso e absurdo. Ser cristão, hoje, no Brasil, é ter uma mentalidade antirracista. “Eu era negro e você me respeitou” é o que o evangelho nos fala hoje. Eu era negro e você não fez piada. Eu era gay e você não ficou fazendo chacota da minha cara. Eu era loira e você não me chamou de burra. Inclusive, atualmente, estas coisas dão até cadeia. O Evangelho se atualiza nas várias realidades, por isso é Palavra de Deus. E hoje, no Brasil, ele pede respeito, justiça e honestidade. Olha que coisa horrorosa! A que nível nós caímos! Alguns anos atrás, isso eram coisas quase descontadas pois assumia-se que as pessoas eram honestas. Hoje em dia, ser justo e respeitar o outro virou valor cristão. O evangelho incomoda e nos obriga a tomar atitudes. O que podemos fazer? Parar de fazer piadas sobre negros, sobre gays, loiras. E você vai ver como é difícil parar. Você vai ver como isso entrou dentro da sua cabeça. E para mudar, precisa de esforço.

Vamos aprender: quando estou chegando perto do farol e eu vejo um rapaz negro, eu fecho o vidro? Eu faria a mesma coisa se fosse um branco? Ou a gente faz com os dois ou não faz com nenhum! São coisas para pensar. É o evangelho do julgamento. E isso não é política. Esse é o evangelho que incomoda em uma situação que nós vemos todos os dias. Vamos pedir ao Senhor que Ele nos ajude a nos limpar destas ideias e conceitos podres que colocaram dentro da gente. E que nós não temos culpa. Cuidado. Foi colocado dentro da gente. Anos e anos pensando assim. Mas temos que ter consciência e começar a limpar, olhando para Jesus que, na cruz, que foi o Seu trono, perdoou e levou para junto de si nada menos que um assassino.

Fazei o bem com os dons que Deus nos dá

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 33° Domingo do Tempo Comum (Ano A) – 15/11/2020 (Domingo, missa às 10h).

Tanto o Evangelho da semana passada das virgens, como este de hoje, nos fala da vinda do Senhor e fala aos discípulos de Jesus. Jesus monta esta parábola em volta de um fato histórico: o rei Herodes, o grande, que matou os inocentes, ele foi para Roma e comprou o título de rei. E um grupo de inimigos dele foi logo atrás, só que chegaram atrasados e o rei já tinha comprado o título. Quando eles voltaram para trás, o rei mandou cortar a cabeça de tudo mundo. Jesus usa este fato e conta essa parábola. O rei foi para um país estrangeiro e confiou os seus bens aos seus servos. Ele chamou os servos – este “chamou” é a mesma palavra que se usa quando Jesus escolhe os apóstolos, Jesus passou a noite rezando e, ao amanheceu, chamou os seus discípulos e escolheu 12 entre eles. Esse “chamou” então é uma escolha do Senhor.

 

Deus nos chama e Deus nos dá talentos: a vida, as nossas aptidões, os nossos sentimentos, nos dá a vida e isso tudo é graça. Se nós nos convencermos de que nós não somos donos nem de nós mesmos, tudo o que temos e somos é graça de Deus, nós vamos começar a cuidar muito melhor disso. E o que somos não é para nós é para a vida do mundo, para que o mundo seja melhor, mas o que é o mundo? Minha família, minha vizinhança, minha comunidade, minha cidade, meu estado, meu país, este é o mundo. Dar frutos: paz, justiça, solidariedade, honestidade, estes são os frutos que Deus quer para nós, além do fato de também testemunhar o Evangelho, testemunhar o nome de Jesus e as opções de Jesus – isso é ser cristão, isso é ser discípulo de Jesus.

 

Este Evangelho não está falando de problemas bancários de inflação, a preocupação desse Evangelho é outra. Um talento, naquela época era muito dinheiro, eram 6 mil diárias de dinheiro, imagine mil dias são três anos, seis mil é o trabalho com o salário de 18 anos. Um talento é muito dinheiro, então ele entregou esse dinheiro na mão desses servos, para cada um segundo a sua capacidade, pois nós não somos iguais: tem gente que sabe falar bem, tem gente que sabe consertar as coisas, tem gente que sabe ajudar os outros, tem gente que sabe curar feridas, tem gente que sabe fazer comida e tem gente que sabe construir paredes. Cada um segundo a sua capacidade e foi embora e o rei confiou neles, veja só confiança! Quem é este rei? Nesta parábola, é Jesus que confiou aos seus discípulos a Palavra do Evangelho, confiou a nós os mandamentos do Evangelho amai o próximo a ponto de dar a vida por ele e amai a Deus sobre todas as coisas, Deus que é pai de todas as coisas, Deus que é pai de todos, Deus quer que todos tenham vida. E Jesus volta, Ele vai voltar, essa é a nossa fé: Ele prometeu que volta. “Na casa do Pai tem muitas moradas, eu vou e vou preparar para vós uma morada para que onde eu esteja vocês também estejam”, essa é promessa de Jesus e Jesus é fiel. Aqui tem fidelidade: Ele volta! E, quando Ele voltar, Ele vai pedir o que é Dele. “Eu confiei a vocês essa missão, eu dei para vocês os dons necessários para cumpri-la, como que vocês fizeram isso?”, essa é a pergunta. Qual que é o coração dessa parábola? Fidelidade! Ser fiel ao Senhor e ser fiel significa produzir, colocar em prática aquilo que o Senhor nos ensinou, lutar para que os valores de Jesus sejam implantados no mundo, que nós aprendamos que a pessoa que está do meu lado, que todas as pessoas do mundo, começando sempre pelas periferias, pelos últimos, todas são meus irmãos e irmãs! Este é o caminho.

 

E hoje é dia de eleição e a gente tem que se perguntar: este candidato realmente se preocupa com o povo? Esse candidato realmente se preocupa com as periferias da cidade? Esse candidato está cuidando das coisas básicas para o nosso povo, especialmente, para o povo pobre: escola, educação, saúde? E durante os próximos quatro anos, você tem a obrigação de ir procurando para ver o que está fazendo, se está fazendo esse mundo melhor. É isso que a gente tem que fazer: procurar que este mundo seja melhor, em todos os campos. Tem gente que tem a vocação da vida pública, da vida política, isso é graça de Deus também. Nem todos nós podemos ser políticos, mas todos nós podemos nos preocupar com a vida do povo, isso é política também.

 

Precisamos ser fiéis. E o que aquele terceiro homem fez? Gente, tem uma situação muito estranha se prestar a atenção no que o rei falou: “você deveria ter pego o dinheiro e colocado no banco”, é o mínimo de interesse por aquilo que era do rei. Você pega o negócio e entrega para o banco, você não faz nada, o banco pensa por você. Se você aplica o dinheiro na poupança, você não precisa ir lá todo mês colocar mais dinheiro, a poupança vai sozinha. Você nem precisa se preocupar, a única preocupação é você dizer: vamos guardar esse dinheiro num lugar seguro, o banco é um lugar seguro. Mas o que este homem fez? Abriu um buraco no chão e enterrou ali aquele talento. Existia um costume hebraico, naquele tempo, que se você caminhasse e por um acaso de repente batesse lá num saco de dinheiro, você podia pegar aquele dinheiro para você, ou seja, isso demonstra que o servo não teve cuidado nenhum com o dinheiro. Ele enterrou lá e se qualquer outra pessoa descobre, leva embora. Ele não mostrou nenhuma preocupação, chega ao desprezo. Ele podia ter chego no fim e falado para o patrão: “eu enterrei, mas acho que alguém levou embora, eu não achei mais”, isso é total desprezo.

 

Não podemos desprezar o Evangelho de Jesus. Ou nós somos discípulos e discípulas fiéis ou nós estamos na infidelidade. Isso não significa as nossas fraquezas, debilidades, porque Deus sabe tudo isso. Quando Ele nos chama, ele dá segundo a capacidade de cada um. Tem quem tem o ombro fraco, Ele não vai dar peso muito grande. Tem quem tem a mão torta, Ele não vai mandar essa pessoa fazer um bordado. Ele dá segundo a capacidade de cada um.

 

Vamos fazer o bem, querer bem as pessoas, nos importar com elas, nos preocupar com os pobres, nos preocupar com a nossa esposa, com o nosso esposo, com os nossos filhos. Nos preocupar, nos ocupar deles, conversar com as pessoas, ser honestos. Que coisa horrorosa, gente, temos que chamar as pessoas a honestidade. Que coisa triste. Honestidade tem que ser de todo dia. Temos que aprender a ser pessoas honestas: esse é caminho de Jesus e aprender que o outro e a outra é meu irmão e minha irmã, eu não sou melhor do que eles, estamos todos no mesmo barco e vamos chegar todos na casa do Pai. E o Pai vai perguntar para nós: “que bem que você fez com os dons que Eu te dei?”. É isso que Ele vai perguntar. Ele não vai perguntar dos seus pecados: “que bem você fez?”

Paróquia Santa Teresinha

Praça Rui Barbosa, s/n - Santa Terezinha, Santo André/SP

Informações: Tel. (11) 4996-3506 | WhatsApp. (11) 99971-5580 | teresinha.sa@diocesesa.org.br | Redes sociais: @santateresinhasa