Homilia  

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A Santíssima Trindade e a fraternidade

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha - Solenidade da Santíssima Trindade  Ano C – 12/06/2022 - missa às 10h) 

Nós estamos na solenidade da Santíssima Trindade. Nós não adoramos o Deus dos hebreus, não adoramos o Deus dos muçulmanos, nós adoramos a Trindade. Os hebreus e os muçulmanos adoram um único Deus e, com eles, nós somos as três religiões monoteístas do mundo, mas o nosso Deus único é trino: Pai, Filho e Espírito. Jesus diz no Evangelho: “O Espírito receberá do que é meu, ele dirá o que ouviu”, mas Jesus também fala isso de si mesmo: “eu falo o que o Pai me disse, eu vos comunico o que o Pai me disse” e depois Ele vai dizer: “eu e o Pai somos um” e vai dizer mais: “se eu ajo com o dedo de Deus é porque entre vós chegou o reino de Deus”. O dedo de Deus é um modo de dizer o poder de Deus e do Espírito Santo.

Quem pode ver Deus? Ninguém. Deus habita em uma luz inacessível. Quando Moisés pediu para ver Deus, Deus falou para ele: “você vai se esconder na rocha, no buraco, em uma caverna, eu vou colocar a minha mão na entrada da caverna e vou passar diante de ti com toda minha glória e você vai me ver pelas costas, porque ninguém pode ver o rosto de Deus e permanecer vivo”. Aí a gente olha no evangelho de São João que diz: “aquele que tem o rosto voltado por Pai”: ele nos revelou que quem tem o rosto voltado para o Pai é Jesus, na eternidade, verbo eterno do Pai. Quem pode olhar o rosto do pai? Só Deus. Jesus é Deus, só Ele pode olhar para o rosto do pai. Quem pode ouvir e comunicar a palavra do Pai? Jesus é o verbo encarnado, e o Espírito porque o espírito é Deus. Como o Pai e o Filho, o Espírito perscruta, olha o coração de Deus. O Espírito é o amor de Deus entregue para nós.

Então a Trindade vive um abraço estreito e a força que abraça o Pai e o Filho é o Espírito. Esse abraço é tão forte, tão potente que as três pessoas são uma única divindade e cada pessoa tem as outras duas em si – sem ser esquizofrênicos; quem tem múltipla personalidade é doido, mas pra Deus isso é possível.

Essa representação do altar mostra a Bíblia na primeira página e a primeira frase da Gênesis é “no princípio, Deus criou o céu e a terra”. Nós atribuímos a criação do universo ao Pai, mas o Pai cria no Filho e com o poder do Espírito – as três pessoas agem sempre aqui. Em seguida, temos aqui a cruz: Jesus, o verbo encarnado do Pai, que cumpre a vontade do Pai. O Pai quer a salvação do universo e o Filho é enviado pelo pai para anunciar e viver isso. E Ele o faz com a força do Espírito Santo. Por último, temos o Espírito Santo que é representado por várias imagens como o vento, o fogo, o óleo, a água, a pomba que desce de forma certeira no ninho... Quando João fala que viu o céu se abrir e o Espírito descer como uma pomba não é porque parecia uma pombinha voando, ele quis dizer que o Espírito desceu de forma certeira sobre Jesus para indicar o início da missão de Jesus. É um sinal externo porque Jesus está em eterna comunhão com o Pai e o Espírito.

Se olharmos para a Trindade perguntamos “saber tudo isso o que muda na nossa vida?”. A Trindade são três pessoas completamente diferentes: o Pai é o gerador, o Filho é gerado, e o

Espírito é expirado. São três situações diferentes que em Deus, por força do Espírito, estão tão unidas que formam um só. Um único Deus em três pessoas representa harmonia, amor, luz, graça, alegria. Para traduzir na nossa forma de viver, na nossa condição humana, isso é fraternidade. Jesus diz: “vou para o meu Deus e vosso Deus, meu pai e vosso Pai, vós sois todos irmãos”. Deus não faz distinção de pessoas. O que pode criar vida entre nós? Fraternidade. Viver realmente e crer realmente que nós somos todos irmãos e irmãs. A fraternidade entre nós é a realização em nós daquilo que é o amor de Deus por nós, e qual é a vontade da trindade? Que todos sejamos um. Foi isso que Jesus falou que nós estejamos neles e eles em nós, é isso que Deus quer de nós e temos que aprender isso aqui nesse mundo, lugar de viver a graça e o poder de Deus. Para isso, não precisa ter poder ou milagre, é amar o outro, é ver que o outro é meu irmão e irmã. Algumas pessoas nós temos que ajudar a se levantar, outras temos que colocar na cadeia para aprender a viver como irmãos, mas, todos são irmãos. Se vivemos como irmãos, não tem fome, não tem miséria, não tem gente mentindo ou matando, porque o outro é meu irmão. É diferente de mim, mas eu não quero matar o meu irmão e nem minha irmã. Isso é caminho de Deus e o que a Trindade ensina, é nisso que a Trindade nos é modelo. Deus quer que sejamos como Ele. Vamos pedir a Virgem Maria que reze por nós e conosco; ela que é e que foi filha predileta do Pai, mãe do verbo divino encarnado, templo do Espírito Santo, que Nossa Senhora nos ensine a viver o amor que Deus tem no coração dele: a fraternidade.

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Que o Senhor nos encha do Espírito

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha - Solenidade de Pentecostes Ano C – 05/06/2022 - missa às 10h) 

Nós temos hoje aqui essa decoração que nos lembra os 7 dons do Espírito. O Espírito de Deus é Deus como o Pai e o Filho, é a ação em Deus. Nós, na teologia, usamos um modo esquisito de falar: o Espírito Santo é a hipostatização de todos os atributos divinos. O que quer dizer isso? O Espírito Santo é a divindade em Deus, o Espírito Santo é o amor de Deus, o Espírito Santo é o poder em Deus, o Espírito Santo é a onisciência de Deus. Todos os atributos de Deus são do Espírito Santo, e o Espírito de Deus leva não só a humanidade, mas toda a criação, à sua plenitude que vai ser a comunhão com o Pai e o Filho.

Quando São Paulo nos fala “Deus será tudo em todos, Cristo será tudo em todos, então ele entregará o mundo nas mãos do Pai que se faz na força do Espírito”, o Espírito Santo faz com que a palavra de Deus seja atual sempre. O evangelho de Jesus sempre é capaz de responder às nossas várias situações da vida ao longo dos tempos!

 

Nós vivemos o século 21, temos os nossos problemas, somos 7 bilhões de pessoas nesse planeta. Nós temos a consciência de planeta e antes não se tinha essa consciência, nós temos tecnologia, hoje nós estamos com o problema da Covid, e o que a palavra de Deus tem para dizer sobre isso? Tem alguma coisa para dizer? É o Espírito Santo que nos ajuda a fazer com que a palavra de Jesus possa ser vivida hoje no tempo da Covid, no tempo da tecnologia e até no tempo das fake news. Viver hoje o evangelho, o amor ao próximo, o serviço.

 

Nós ouvimos na sequência “iluminai a escuridão”. O tempo nosso, com a Covid, está levando muita gente à depressão, e ela é descrita como escuridão, o não-sentido, o vazio. É o Espírito de Deus que é capaz de dar luz para o nosso coração, iluminar as nossas trevas. Então, nesse tempo, pedir ao Espírito que nos dê luz, nos dê discernimento nesse tempo de tanta mentira, tanta polêmica, tanto problema. Pedir ao Espírito de Deus que nos mostre o caminho do Evangelho, o rumo de Deus, para que nós não nos enganemos e não enganemos os outros.

 

O Espírito de Deus é apresentado por Jesus como o advogado, o defensor: “Eu enviarei do Pai o outro defensor”. Por que outro? Quem é o defensor? Jesus! Jesus atrai sobre si a maldade do mundo. O mundo se joga sobre Jesus e o mata, mas esse é o maior testemunho de amor e fidelidade que nós temos. O Espírito Santo, como o outro o defensor, faz com que a comunidade cristã seja a face de Jesus presente no mundo. De fato, em muitos lugares do mundo, a Igreja é perseguida e cristãos são mortos porque são de Cristo, porque defendem a justiça, a paz e a verdade.

 

A gente fala “nossa, isso pode estar longe de nós”, e não está não! Vocês viram essa semana aqui em São Paulo os discursos de ódio contra o Padre Júlio Lancellotti? Por quê? Porque cuida dos pobres. Cuidar dos pobres é cuidar da vida, é promover a vida nesse nosso tempo. Isso é a força do evangelho que nos leva, e toda vez que você segue o evangelho pode ter certeza de que você vai levar paulada na cabeça.

 

É o Espírito Santo que nos leva a seguir o evangelho e a dizer como São Paulo: “Ai de mim se eu não anunciar o evangelho”, ou como profeta Jeremias: “Eu tentei até não falar mais a Tua palavra, eu tentei não ir mais atrás disso, mas a Tua palavra é um fogo, parece que queima nos meus ossos, eu tenho que falar!” Essa é a força do Espírito.

Nós somos chamados a pedir ao Espírito de Deus e poder viver o amor de Jesus no nosso tempo, na nossa família, no nosso trabalho, na sociedade, na política, dentro da comunidade cristã. Ser testemunhas de Jesus, esse é o caminho do Evangelho, essa é a via que nos leva o Espírito.

 

Ai a gente fala: “mas, padre, o senhor fala de ação, fazer isso, fazer aquilo… e o Espírito Santo?” O espírito de Deus é como o vento, é como o fogo, é certeiro igual uma pomba que desce para o ninho. Nós vemos o efeito, mas não vemos ele porque o Espírito de Deus é livre. Nós não conseguimos prender o Espírito de Deus, por isso se fala de vento, fogo, é ação, e a ação dele na nossa vida é o amor pelos que sofrem.

 

Vamos pedir ao Senhor que ele nos encha do seu Espírito para que nós possamos realmente testemunhar Jesus neste nosso tempo.

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A Ascensão é um convite à propagação do Evangelho

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha - Ascensão do Senhor Ano C – 29/05/2022 - missa às 10h) 

São Lucas escreveu uma grande obra em dois volumes, que foi idealizada assim desde o início. O primeiro volume é o Evangelho de São Lucas e o segundo é o Atos dos Apóstolos. Ele encerra este evangelho falando da Ascensão e começa o Ato dos Apóstolos narrando a Ascensão de Jesus de novo.

O que é a Ascensão? Deus, na sua infinita bondade, esvazia-se de si e torna-se um de nós. É como se Ele tirasse de cima de si Sua glória e se tornasse igual a nós. Deus pode fazer isso. Viveu a nossa vida, teve nossas alegrias, sofrimentos, angústias, nosso trabalho, anunciou o Evangelho e, no fim, foi assassinado pelo sistema político daquele tempo, que era o sinédrio judeu e o poder romano. O Pai aprova toda a ação de Jesus. Jesus, sendo Deus, nos revela como é o coração de Deus. Deus é fiel até o fim. O Pai se entrega todo para o Filho e este, imitando o Pai, se entrega totalmente a nós até a morte de cruz. O amor de Deus não tem limite. O limite do amor humano é dar a vida pelo outro e Jesus faz exatamente isso: dá a vida pelo outro para mostrar a fidelidade de Deus. É interessante ver que o trecho da carta aos hebreus que ouvimos hoje [Hb 9,24-28;10,19-23] termina exatamente com essa frase: “é fiel aquele que fez a promessa”. Esse é o nome de Deus: fidelidade. A ascensão é o final da missão visível de Jesus nesse mundo. Deus se fez um de nós por 33 anos. Ele caminhou conosco em um determinado lugar, em um determinado tempo da história, em uma determinada cultura. Viveu a vida ali, foi morto e nos revela que a vida não termina no frio do túmulo, mas sim que ela se abre para a eternidade. Essa é a revelação de Jesus. E os apóstolos, que viram Jesus mais uma vez, contemplaram essa realidade nova, que é Deus após 40 dias. Eles tiveram várias experiências de Jesus ressuscitado, que não é um defunto que volta a andar, mas sim outra coisa. Jesus foi além da morte: atravessou o vale da morte junto do Pai e se manifesta para nós.

Senhor da vida eterna, a morte não tem poder sobre Jesus. No livro do Apocalipse, vemos Jesus que tem as chaves do lugar dos mortos na mão. Isso significa que Ele é o dono. Quando você tem um cachorro e tem a coleira dele, você é o dono e tem poder sobre ele. A mesma coisa Jesus, sobre a morte, o mal e o inferno. Jesus tem tanto domínio sobre o inferno que a última palavra da história é de Jesus. E a última palavra de Deus é misericórdia. Então Jesus nos manifesta isso. A ascensão é o fim desse período em que Jesus está conosco de forma visível mesmo nessas manifestações da ressureição. Para que Jesus esteja conosco de outro modo, para que Ele esteja presente na comunidade de seus discípulos e discípulas e essa comunidade possa fazer transparecer o rosto de Jesus. Todas as vezes em que nós nos amamos como irmãos e irmãs, em que vivemos e promovemos a justiça a paz, ou somos solidários com os que sofrem, ou lutamos para que haja justiça e igualdade nesse mundo, estamos fazendo transparecer o rosto de Jesus, que permanece em nosso meio.

Jesus, quando ascende ao céu, é como se ele se expandisse e abraçasse o mundo todo em todos os tempos, de modo que hoje possamos testemunhar Jesus do mesmo jeito que aqueles homens e mulheres testemunharam Jesus há dois mil anos e ao longo de todo esse período da história. Quem faz com que Jesus esteja presente desse modo no nosso meio? O Espírito Santo. Porém, no Pentecostes, que nós vamos comemorar domingo que vem, poderíamos falar “presta atenção ao próximo capítulo”. Nós lemos a escritura e rezamos, tendo o cuidado para não ficarmos alienados. E Jesus, mais de uma vez, nos ensina isso, já no Antigo Testamento, quando Elias fugiu pro Monte Horeb dizendo “quero morrer, não quero mais fazer nada disso”. Deus aparece e, depois de conversar com ele, diz: “pode voltar por cima dos seus passos, pois você tem uma missão”. Lá no Monte Tabor, quando houve a transfiguração, São Pedro, São João e São Tiago estão lá e São Pedro diz: “nossa, é tão bom a gente ficar aqui”. Claro que é, pois é o céu. Quem não vai querer? Mas Jesus diz: “a gente vai descer o morro porque temos uma missão a cumprir”. Maria Madalena, quando Jesus ressuscita, ela vê Jesus e vê o céu. Ela quer abraçar Jesus e diz que quer viver a eternidade. Mas Jesus fala: “vá anunciar para seus irmãos”. O céu é para depois, mas a missão é para agora. Situação semelhante ocorre quando Jesus abençoa os discípulos e é levado pra junto do Pai. Eles ficam pasmados olhando para o céu. Aí vem os anjos e falam: “Ele disse para vocês irem anunciar o Evangelho em Jerusalém, na Samaria e no mundo inteiro”. Você olha pra Deus, lê a Sua Palavra a fim de viver e anunciar o Evangelho, a Boa Nova.
Aprender a viver com os outros como irmãos: este é o caminho do Pai. Caminho este anunciado por Jesus. Esse é o caminho que nos impulsiona o Espírito Santo. Vamos louvar a Deus pela Sua misericórdia de nos revelar isso e nos capacitar a viver como irmãos e irmãs.

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Buscar a transformação para a Jerusalém Celeste

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha - 6º Domingo da Páscoa Ano C – 22/05/2022 - missa às 10h) 

Jesus está na Última Ceia, Judas já foi embora e Judas Tadeu pergunta para Jesus se é essa a hora que ele vai se manifestar para o mundo. O que significa? Judas Tadeu, depois de 3 anos com Jesus, e Jesus falando que o reino de Deus é diferente do que pensam os hebreus, que o Messias não é como os hebreus querem, e Judas Tadeu pergunta para ele: “é agora? Vai ser o reino agora?” Jesus vai dizer: “quem ouve a minha palavra, nesse o pai faz morada.”

O reino de Deus é reino de paz, de serviço, de solidariedade, de fraternidade. Jesus vai dizer: “eu vos dou a paz”, mas não como o mundo dá a paz! A paz do mundo é a paz romana: os romanos chegavam no lugar e, ou o pessoal se rendia, ou eles massacravam tudo, colocavam “paz romana”. É violência, força, subjugar os povos, isso não é de Deus, Deus não quer isso. E é exatamente isso que está na cabeça dos hebreus quando pensam no messias ou no reino do messias: um messias que vá botar ordem em tudo, mudar todas as liturgias do templo, expulsar os romanos da Palestina e implantar um reino que dominará o mundo inteiro. É essa a ideia que eles têm na cabeça.

Jesus fala não! O reino de Deus caminha por outras vias, é reino de paz e de entrega de si para os outros, é confiança total no Pai. Jesus se coloca como modelo: eu me entrego na total confiança para o Pai, e o Pai é fiel, o Pai da vida eterna. Jesus nos convida a fazer a mesma coisa, gastar nossa vida fazendo o bem e confiantes de que o Pai não vai nos abandonar. Mesmo que vierem perseguições e morte, o Pai estará conosco.

Jesus fala do Espírito Santo, o defensor, o advogado, o outro advogado – o primeiro é Jesus, que pede por nós ao pai. O Espírito Santo vai nos recordar as palavras de Jesus, o amor de Jesus em cada tempo. Hoje os nossos problemas são diferentes dos tempos de Jesus, são diferentes de quando teve o descobrimento do Brasil, são diferentes dos problemas no Japão ou na Índia. O Espírito de Deus fala conosco hoje, aqui, para que aqui nós possamos viver a palavra de Deus, colocar atualizada a palavra de Jesus aqui no nosso meio.

A comunidade cristã é lugar de discernir, de escutar a palavra de Deus que o Espírito Santo acende no nosso coração. Nós ouvimos o livro do apocalipse, essa cidade maravilhosa que São João vê sobre a montanha – a montanha, na Bíblia, lembra a presença de Deus. É interessante ver que, no Apocalipse, nós temos duas cidades, Babilônia, chamada de prostituta, e Jerusalém Celeste. Uma coisa interessante é perceber certas coincidências entre essas cidades! A Babilônia é quadrada, tem um rio que atravessa a cidade. A Jerusalém do alto, a Jerusalém Celeste, também tem um rio que atravessa a cidade. Nós nos perguntamos “mas, é outra cidade ou é a mesma cidade convertida?”

O mundo de Deus é de Deus, é uma outra realidade e vai se manifestar no último dia, mas, nesse mundo, nós somos chamados a transformar nossa sociedade que, muitas vezes, é Babilônia, a cidade da morte, a cidade que explora, a cidade que bebe o sangue dos inocentes. Nós, cristãos, somos chamados pela nossa ação transformar essa cidade para que ela se torne cada vez mais parecida com a Jerusalém Celeste. Nós podemos viver um mundo de irmãos aqui, agora. O reino de Deus é simplesmente decorrência disso, se entra no mundo de Deus e se vive lá a radicalidade da fraternidade que nós já começamos viver aqui.

Muitas vezes, nós nos perguntamos “e como é viver isso?” – olhar se o que você faz, se o que a comunidade faz, se o que a nossa sociedade faz é gerador de vida ou de morte. “Ah, mas ninguém sai aí dando tiro para todo mundo” – tem uns doidos que saem! “Ninguém sai dando tiro para todo o mundo então está ótimo.” Não, não está ótimo! Nós temos pobreza, nós temos injustiças, nós temos desigualdades, nós temos governantes que estão querendo agora destruir a educação do Brasil. Fizeram essa semana uma votação que a gente só pode chamar aquilo de iníqua, colocando a educação em casa. Para você educar seus filhos em casa, você tem que ser um professor! Bota um negócio desse nas nossas favelas, nas nossas comunidades, isso vai acabar com a educação do país. Esses são instrumentos da morte, esse é o antirreino.

Na nossa comunidade, às vezes, se critica, se fala mal, se faz fofoca, se luta contra... você está trabalhando para o antirreino. O reino de Deus é solidariedade, é se dar as mãos, é fazer o possível para que tudo funcione bem mesmo que eu não apareça. E em casa? O respeito, o diálogo, não viver uma vida escondida em que a mulher não sabe o que o marido faz ou que o marido não sabe que a mulher faz. Os filhos que podem viver também com uma vida escondida, isso não cria família, isso é o antirreino. Diálogo, amor, compreensão, perdão, esses são valores do reino e essas coisas fazem que a nossa vida vá se transformando cada vez mais na Jerusalém Celeste.

Vamos pedir ao Senhor que ele nos ajude a trabalhar sempre pelo reino e, quando nós descobrimos em nós elementos ou raízes que não são boas, que Deus nos dê a coragem de arrancar essas raízes ruins e buscar o reino de Deus.

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Qual a medida do amor de Deus?

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha - 5º Domingo da Páscoa Ano C – 15/05/2022 - missa às 10h) 

O Evangelho de hoje [Jo 13,31-33a.34-35] se apresenta num momento dramático. Nós estamos na última ceia, Jesus sabia que estavam fechando o cerco em volta dele, e num certo momento ele percebeu que Judas tinha se vendido para o outro lado. E Jesus diz pra Judas: o que você tem que fazer, faça logo! Interessante o Evangelho dizer que Judas saiu e era noite – Judas abandona a luz e entra para o mundo das trevas. No meio das trevas, ele vai aparecer a última vez, lá com os soldados que vão prender Jesus. Ele desaparece nas trevas. E nesse momento, Jesus percebe que, realmente, é questão de horas. Ele abre o seu coração. Dentro de algumas horas, Jesus vai revelar a medida do amor de Deus. A medida do amor de Deus é a não medida. O que o ser humano pode fazer pelos outros é dar a vida, morrer pelo outro é o máximo que nós podemos fazer. E nisso Jesus revela a fidelidade do Pai. Deus é fiel. De Deus não se deve ter medo, Deus é vida, Deus salva. Deus quer a vida para todos. Jesus se entrega como fidelidade ao Pai. O Pai entrega tudo, eu entrego tudo. E Ele vai dizer aos apóstolos, vamos dizer assim, o segredo do seu coração: Eu vos dou um novo mandamento, amai-vos uns aos outros. Como Eu vos amei, amai-vos uns aos outros.

Amar o próximo como a si mesmo já era um mandamento do Antigo Testamento, mas esse mandamento, muitas vezes, simplesmente pode nos levar a um grande egoísmo, eu não faço as coisas para que não façam para mim, mas aqui estamos no negativo. O que Jesus faz é transformar este mandamento numa atitude ativa: amai-vos como Eu vos amei! Não tem maior amor do que dar a vida pelos que você ama. Jesus entrega, Jesus morre com uma morte terrível, o pior tipo de tortura que existia naquele tempo. E não é simplesmente morte, Jesus morre como herege, ou seja, fora da religião. Jesus morre como delinquente contra o estado, o Império Romano o condena como delinquente. Jesus é completamente esvaziado como ser humano, lhe negam toda a dignidade humana possível. Deus se esvazia de si mesmo, não guarda nada, nada, nada, nada para si, para mostrar que é fiel. Não tenham medo de Deus.

Nós lemos na Segunda Leitura, uma parte do capítulo 21 do Apocalipse, onde São João fala da nova Jerusalém e da vida nova de Deus: eis que faço novas todas as coisas! O livro do Apocalipse é o livro da grande esperança, que nos anuncia que a fidelidade de Deus se mantém sempre. Deus nos prometeu vida eterna, Deus nos dará vida eterna. Deus vai tirar de nós a morte, o sofrimento, a dor, Ele vai fazer as coisas novas, um mundo de paz, fraternidade, de comunhão entre nós. O que nós não conseguimos nesta terra, o que nesta terra nós temos que trabalhar, nos empenhar constantemente, uma geração depois da outra para construir, isso nós teremos em plenitude na casa do Pai. Como filhos e filhas de Deus que somos, nós somos chamados a já neste mundo viver esses valores: justiça, paz, fraternidade, solidariedade, respeito. Esse é o caminho de Deus, e Jesus não poupou nada de si para nos indicar esse caminho.

Vamos pedir que Ele nos guie, nos ajude e nos faça realmente crer que Ele é fiel. O nosso problema é sempre desconfiar de Deus, mas esse é o veneno do maligno no nosso coração.
Depois Jesus nos dá com este mandamento, aquilo que é o distintivo do cristão: amar! Não são roupas, não são penduricalhos religiosos, não são determinadas devoções que nos fazem católicos, que nos fazem cristãos. O que nos faz cristãos, seguidores de Jesus, é agir como Ele. É nas suas ações que vai aparecer que você é ou não é discípulo e seguidor de Jesus. Vamos pedir ao Espírito Santo que nos dê forças para viver o mandamento do amor.

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Jesus é o Bom Pastor que dá a vida por suas ovelhas 

Homilia: Pe. José Ailton Teixeira - 4º Domingo da Páscoa Ano C – 08/05/2022 - missa às 10h) 

Hoje nós celebramos três momentos importantes na Liturgia deste quarto Domingo da Páscoa. O primeiro é chamado Domingo do Bom Pastor, retratado neste Evangelho de apenas quatro versículos [Jo 10, 27-30]. Jesus diz: “eu sou o Bom Pastor, que dá a vida por suas ovelhas”. O segundo momento é o dia mundial de oração pelas vocações sacerdotais e religiosas, instituído pelo então Papa João XXIII, em 1963, que até hoje celebramos, sempre no Domingo do Bom Pastor; e hoje, coincidentemente, temos também o Dia das Mães que, como Maria, não poupam a própria vida, mas a entregam por amor a Deus, aos homens e ao mundo, a partir do momento em que elas se tornam mães, assim como fez Maria dando à luz a Jesus Cristo. E Maria colaborou com Deus, com o plano de salvação, quando aceitou a maternidade divina. Por isso, a Igreja, com muita alegria e esperança, celebra esse dia tão importante, Dia das Mães.

Queridas mães aqui presentes, as ausentes e as que já nos precederam, marcadas com o sinal da casa do Pai, que Deus as abençoe, as fortaleça, as encoraje e sejam realmente mães, como Maria, de doação, de entrega, de renúncia, de mortificação da própria vida. Assim como o Bom Pastor, que não poupa a própria vida e a dá por amor. Por isso, Jesus diz que é o Bom Pastor, já que viria a dar a vida por suas ovelhas.

Que neste dia das vocações, possamos rezar, incansavelmente, pelas vocações sacerdotais e pelos seminaristas para que, como Jesus, também possam dizer: “sim, eis-me aqui, ó Pai, para fazer a Tua vontade”. Nós todos, mães e pais, não nos cansemos de rezar pelas vocações sacerdotais, pelas vocações religiosas - pelas irmãs e pelos padres - para que continuemos presentes no meio de nosso povo; rezem pelo pároco de vocês, padre João Aroldo, para que continue sendo um homem de Deus, a serviço das coisas e das causas de Deus, no anúncio do Evangelho, levando a todos uma mensagem de vida, de esperança. Por isso, quando a Igreja, 59 anos atrás, celebra o primeiro dia de orações pelas vocações, ela viu que havia a necessidade de anunciar ao mundo e aos homens que Jesus Cristo é o Bom Pastor.

Louvado Seja Nosso Senhor Jesus Cristo, o Caminho, a Verdade e a Vida."

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Criar consciência no amor

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha - 3º Domingo da Páscoa Ano C – 01/05/2022 - missa às 10h) 

Hoje, nós vamos fazer uma pregação breve porque nós temos a nota dos bispos da CNBB para ser lida. Vamos pegar o miolo deste evangelho [Jo 21, 1-19] que é a tripla confirmação de Pedro. Deus não está pronto para nos apontar o dedo, para mostrar nossos pecados; Deus ama, Deus quer a vida.

Jesus sabia muito bem que Pedro o tinha negado, que tinha sido covarde, orgulhoso, sabia. Porém, diferente de Judas, que se entregou para o poder das trevas e ficou com os inimigos de Jesus, Pedro nunca abandonou a comunidade. A comunidade dos discípulos foi, também, suporte pra Pedro, ele não abandonou.

E nós vemos Jesus que vai dizer a ele: “você me ama?” Jesus não pergunta para Pedro: “você criou vergonha na cara? Você se arrepende do que você fez? Você tem remorso da tua covardia?” Deus não pergunta nada disso. “Pedro, você me ama?” Três vezes Jesus pergunta isso. Por três vezes Pedro tinha negado e, cada vez, de forma mais consciente.

Agora Jesus pergunta para ele sobre o amor: “Pedro, você me ama?” “Sim, Senhor!” – estamos ainda no entusiasmo. “Pedro, você me ama?” Você já pensa na segunda vez: ué, será que não escutou? “Sim, você sabe que eu te amo.” – a resposta já é mais séria. Na terceira vez, o sujeito tem que estar realmente pensando “mas espera aí, tem alguma coisa séria aqui.” “Senhor, você sabe tudo, você sabe que eu te amo.”

É como se Pedro fosse cada vez tomando mais consciência da resposta que ele vai dar para Deus. Do mesmo modo que ele foi criando a consciência na negação, aqui ele vai criando consciência no amor. E Jesus vai dizer: “esse amor que você tem é suficiente para cuidar dos meus irmãos e irmãs, e vai ser suficiente para você dar testemunho de mim na hora do martírio”, o amor a Deus.

Pedro se tornou imediatamente um homem maravilhoso, perfeito, não sei o quê? Não! Mas ele continuou buscando Jesus, ele continuou confirmando a fé dos irmãos, ele aprendeu a, devagarinho, ir mudando de atitude, especialmente com os cristãos que vinham do paganismo.

O caminho de Pedro é longo, ele vai se convertendo aos poucos, mas ele está sempre na comunidade, está sempre seguindo Jesus, então o amor dele é verdadeiro, dentro dos seus limites, dentro dos seus defeitos, mas é verdadeiro. Não abandona Jesus, não abandona a comunidade.

Vamos pedir ao Senhor que Ele ajude também nós a respondermos cada vez mais decididos Senhor, eu te amo! Vamos todos responder juntos: Senhor, eu te amo! De novo: Senhor, eu te amo! Mais
uma vez: Senhor, eu te amo!

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Cristo caminha conosco

Homilia: Pe. Oberdan Santana da Silva - 2º Domingo da Páscoa Ano C – 24/04/2022 - missa às 10h) 

No Evangelho de hoje [Jo 20, 19-31] São João nos fala de uma aparição de Jesus ressuscitado aos seus discípulos que aconteceu ao anoitecer do primeiro dia da semana, isto é, domingo. E onde estavam os discípulos quando ocorreu essa aparição? Segundo o evangelista, eles estavam em um lugar com as portas fechadas, estavam escondidos por medo de serem perseguidos e condenados à morte como Jesus.

Os discípulos tinham perdido sua referência, o mestre Jesus, e agora era o medo que dominava seus corações, mas eis que Jesus aparece e se põe no meio dos discípulos, apesar de as portas estarem fechadas. E Jesus, estando no meio, transforma tudo pela sua presença. Com a presença de Jesus o medo vai embora, e os discípulos recebem um novo ânimo, recebem a paz que vem de Deus, em Hebraico, o "Shalom", isto é, a plenitude da benção, a harmonia, a tranquilidade, a confiança.

Aqui o evangelho nos ensina algo muito importante: é necessário que Jesus esteja no centro! São João nos convida a reconhecer que é ao redor de Jesus que a comunidade se estrutura e recebe força para enfrentar todo tipo de dificuldade. Sem Jesus, sem a sua referência, nós nos tornamos um rebanho perdido e assustado que não sabe o que fazer e muito menos para onde ir.

Mas quando Jesus está no centro, no centro da nossa comunidade, no centro da nossa vida pessoal, no centro das nossas ocupações, tudo se transforma, tudo se ajusta quando Jesus está em um lugar que lhe é devido. Ele deve estar no centro, a harmonia depende disso, da presença de Jesus no centro da nossa vida. Então, ao escutar este evangelho, a primeira pergunta que nós devemos fazer é se Cristo está verdadeiramente no centro da nossa vida!

Às vezes, nos preocupamos com tantas coisas e não nos preocupamos com as coisas que são essenciais, não nos preocupamos em dar a Cristo o lugar que lhe é devido, e, então, a nossa vida vira uma desordem, a bagunça se torna completa. Cristo deve estar no centro e, por isso, nós recebemos dele a paz, a verdadeira harmonia.

Em seguida, o evangelho nos faz contemplar a divina misericórdia nos gestos de Jesus. Jesus bem poderia repreender a conduta dos seus discípulos – eles tinham negado o seu mestre, não tinham acreditado na ressurreição, e estavam escondidos. Mas a primeira palavra de Jesus ressuscitado não é de reprovação, não é de condenação! As palavras que Jesus dirige a seus discípulos são palavras de conforto, são palavras de confiança: "a paz esteja convosco".

De modo simples é como se Jesus dissesse: "está tudo bem, fiquem tranquilos, eu venci a morte". Jesus ressuscitado se coloca no meio da comunidade dos discípulos, para, em sua misericórdia, lhes transmitir a paz que supera todo medo e discórdia. Aliás, este domingo, Segundo Domingo da Páscoa, é chamado de "Domingo da Divina Misericórdia". Essa festa foi instituída por João Paulo II no ano 2000, na missa em que ele canonizou Santa Faustina, a Santa a quem Jesus disse: "eu sou o amor e a misericórdia em pessoa, não há miséria que possa superar a minha misericórdia", e tudo se encaixa! O evangelho hoje nos ajuda mesmo a orientar o nosso olhar para a divina misericórdia que se revela em Jesus ressuscitado.

Podemos contemplar a divina misericórdia, como acabei de dizer, pelo gesto de Jesus de transmitir a paz a seus discípulos assustados, mas contemplamos também, e sobretudo, a divina misericórdia nos sinais que permanecem no corpo de Jesus.

Depois de transmitir a paz aos seus discípulos, Jesus lhes mostra as mãos e o lado onde estão as marcas dos pregos e da lança. No corpo de Jesus permanecem as chagas que vieram da cruz, mas por quê? Como assim? Jesus ressuscitado aparece ainda com as marcas da paixão? Sim, as chagas permanecem no corpo de Jesus porque permanece o amor de Jesus pela humanidade. As chagas são os sinais do seu amor e da sua misericórdia, e por isso não desaparecem.

Jesus será sempre o Messias que ama no suplício da cruz e na glória da ressureição, e eu penso que isto é, de fato, muito reconfortante: o amor de Deus por nós é infinito, sempre podemos contar com a Sua divina misericórdia. A divina misericórdia não nos abandona, não nos deixa à mercê dos nossos pecados e das nossas misérias!

E, em seguida, este evangelho tem muitos símbolos: Jesus sopra sobre os seus discípulos o Espírito Santo. Esse gesto de Jesus é semelhante ao gesto de Deus quando criou o homem: Deus soprou seu Espírito Divino sobre o homem feito de argila, e, a partir daquele momento, o homem passou a ser um ser vivente. Jesus repete esse gesto do sopro do Espírito para realizar a nova criação! Pelo sopro do seu Espírito, os discípulos vão receber vida nova, vão receber a força da ressureição.

Pois bem, compreendidos esses símbolos, nós devemos nos questionar: qual é o lugar ideal para fazer essa experiência que os discípulos fizeram? A experiência do encontro com Jesus ressuscitado que sopra sobre nós seu espírito de vida? O evangelho nos ensina que é na vida em comunidade.

O evangelho, na realidade, fala de duas aparições de Jesus ressuscitado, e as duas ocorrem quando a comunidade dos discípulos está reunida. E nós vimos que, na primeira aparição, Tomé não estava com os discípulos, e, por isso, perde a oportunidade de encontrar-se com Jesus ressuscitado. Mas, na segunda aparição, Tomé está com a comunidade, e dessa vez, ele pode participar da experiência de encontro com o Cristo vivo, dessa vez Tomé pode ver Jesus ressuscitado e mesmo tocar suas feridas, e isso o desperta para a fé.

Vocês percebem? Tomé só se encontra com Jesus ressuscitado quando ele volta para a comunidade dos discípulos. Aqui está um grande ensinamento que o evangelho nos traz neste dia: não é em experiencias egoístas, fechados nas nossas casas que nós nos encontramos com Jesus ressuscitado. A comunidade, por mais que tenha seus defeitos, por mais que tenha dificuldades, é o lugar onde se faz verdadeiramente a experiência do encontro com Jesus. Aqui Jesus se revela a nós de maneira privilegiada, na palavra proclamada, no pão repartido que é o seu próprio corpo entregue para nossa salvação, no diálogo, na comunhão dos irmãos, é aqui, em meio a todos esses sinais, que Jesus se faz mais próximos de nós e alimenta a nossa fé. Aquele que está fora da comunidade, corre o risco de perder a fé, corre o risco de se desanimar, de não enxergar mais os sinais de Cristo ressuscitado. Mas aqui não, aqui nós nos fortalecemos, aqui nós crescemos juntos como irmãos recebendo o sopro do Espírito, a força do ressuscitado.

Eu não sei se eu deveria ser tão direto, mas eu vou ser! Quem deixa de vir à missa dominical perde a grande oportunidade de encontrar-se com Jesus ressuscitado, e a experiencia de Tomé comprova isso. Era domingo, primeiro dia da semana, e os discípulos estavam reunidos, e nós repetimos esse gesto. Hoje é domingo, e estamos nós aqui reunidos como comunidade para recebermos a força de Jesus que se faz presente em nosso meio.

Depois da segunda leitura [Ap 1, 9-11a.12-13.17-19], que é do Apocalipse de São João, ressalta de maneira semelhante ao evangelho a presença de Jesus, que venceu a morte, nas comunidades cristãs. Na igreja, Jesus se faz presente com a força do seu Espírito e nos dá a força que necessitamos para vencer as forças do mal.

São João utiliza muitos símbolos para falar do poderio de Jesus ressuscitado, ele fala do filho do Homem que aparece em meio a sete candelabros vestido com uma túnica comprida e com uma faixa de ouro em volta do peito. O que São João quer nos dizer por meio dessa imagem magnífica é que Jesus, que morreu e vive para sempre, tem autoridade sobre tudo. Ele é o Senhor da história, é o princípio e o fim de todas as coisas. Portanto, se caminhamos com Ele, não devemos ter medo de nada.

Naquele contexto, os cristãos estavam sendo violentamente perseguidos pelo Império Romano. São João mesmo, quando escreveu esta carta, estava preso na Ilha de Patmos, mas, em sua carta, ele não se lamenta, pelo contrário, ele manifesta a firme convicção de que Jesus está vivo, de que tem poder sobre tudo, e de que aqueles que caminham com ele podem ter a certeza da vitória.

O testemunho que nos dá São João é um testemunho muito belo, aqui está algo que pode iluminar nossa caminhada de fé: devemos sempre nos recordar de que Cristo, aquele que venceu a morte, aquele que venceu todas as barreiras, caminha conosco, e é graças à comunhão com Cristo que nós podemos superar todo mal. Nos momentos de dificuldades, nas perseguições e provações, nos lembremos dessa grande verdade porque certamente isso vai alimentar nossa fé e vai nos trazer coragem para seguirmos adiante a nossa missão!

E, por fim, a primeira leitura [At 5, 12-16], que é do Atos dos Apóstolos, nos mostra que uma característica admirável das primeiras comunidades cristãs era o poder de realizar milagres. Os discípulos realizavam milagres e, assim, manifestavam a força do Cristo Ressuscitado, e isso fazia com que a comunidade dos fiéis crescesse cada vez mais. Homens e mulheres atraídos pelas maravilhas que os discípulos realizavam passavam a fazer parte da comunidade dos cristãos. Isso deve nos fazer questionar sobre o que nós estamos fazendo para dar testemunho da nossa fé e para fazer a nossa comunidade crescer.

O texto nos fala que os discípulos realizavam até mesmo curas, pelo poder de Cristo tudo é possível. Mas há coisas mais simples que nós fazemos todos os dias e que também dão testemunhos de nossa fé! Quando nos esforçamos para diminuir o sofrimento de algum irmão, quando nossos gestos falam de amor, de reconciliação e de partilha, nós realizamos o verdadeiro milagre e estamos dando testemunho da vida nova que vem de Jesus, da sua ressureição, nos nossos gestos simples nós mostramos a luz do cristo ressuscitado que brilha em nós.

Então, nessa Eucaristia, vamos pedir a Cristo que sopre sobre nós seu Espírito de vida como soprou sobre os apóstolos para inspirar as nossas palavras e gestos e para nos dar a força que precisamos para nos tornarmos suas testemunhas. Que nós, e, de modo especial, essas crianças que hoje serão batizadas, sejamos no mundo testemunhas de Cristo ressuscitado, testemunhas de Sua divina misericórdia que abraça o universo.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo

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Encontro com Jesus fonte de vida

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha - Domingo da Ressurreição Ano C – 17/04/2022 - missa às 07h30) 

Que santa disposição desse povo às 7 horas da manhã ir fazer procissão e cantar e caminhar com alegria: a nossa vida deve ser um hino de nossa alegria! A procissão lembra o caminho. Abraão foi chamado lá da Mesopotâmia da terra de Ur da Caldeia, ele foi chamado por Deus para que fizesse um longo caminho. O povo depois, os filhos de Jacó, fazem também um caminho longo para o Egito e, do Egito, Deus chama o seu povo 400 anos depois para fazer um outro longo caminho. O povo de Israel fazia sempre grandes procissões, iam das suas cidades aos templos regionais ou ao templo de Jerusalém. Nós vemos Jesus que caminha pela terra de Israel com os seus discípulos, todos peregrinando pelo mundo. Deus vai ao nosso encontro e é interessante ver que Jesus continua indo ao encontro dos seus: Jesus vai ao encontro das mulheres no sepulcro, Jesus vai ao encontro dos apóstolos, Jesus vai no encontro dos discípulos em Emaús. Deus vem ao encontro e o nosso caminho é um encontro com Deus.

Jesus, na ressureição, nos revela que este encontro é um encontro definitivo. É um encontro de alegria, de misericórdia, de vida eterna. Esse é um encontro com Deus e também o nosso caminhar pela vida, o nosso peregrinar, não é uma coisa que nos leva para o nada perde o sentido. O sentido é a vida em Deus, por isso o nosso caminhar pode e deve ser orientado por aquele que nós encontraremos: Jesus, Ele é o caminho, “caminho, verdade e vida”. Quem segue Jesus não perambula pela vida, caminha na vida, na vida verdadeira, na vida que nós leva para a casa do Pai e quem está nesse caminho, nós podemos dizer que já esta na alegria daquela chegada. Por isso esta nossa vida encontra sentido no doar-se, no fazer o bem, no gastá-la pelo bem dos outros. Esse é o nosso sentido da nossa vida: gastar o nosso tempo e as nossas energias para que todos nós possamos ser como irmãos e irmãs. Busquemos o bem pelos outros para que ninguém esteja fora desse caminho. Que todos possam seguir Jesus de mãos dadas, como nós fizemos nessa procissão guiados por Jesus ressuscitado.

Não foi fácil para aqueles homens e para aquelas mulheres perceberem essa novidade, porque é o novo de Deus. Quando Deus irromper de novo na nossa realidade, no último dia, nós também ficaremos de boca aberta porque é o mundo de Deus – a coisa é tão potente que os mortos, o pó perdido dos mortos, ouvirão a voz de Deus e se levantarão dos seus túmulos. Isso que para nós parece lixo que colocado ali no Cemitério do Camilópolis ou do Curuçá, Deus chamará das cinzas com voz potente, porque é o mundo de Deus e não o nosso mundo. Maria Madalena contemplou esse mundo, queria se jogar nesse mundo. Os discípulos de Emaús viram isso no momento que Jesus partiu o pão, o coração já queimava quando Jesus explicava, mas quando Ele partiu o pão, eles viram esse sinal do céu. Essa coisa que vai além de nós, e correm com o ânimo novo, com o fogo novo dentro deles, aqueles homens e aquelas mulheres amedrontados, retomam vida no encontro com Jesus. E esse encontro é tão forte que repercute nas nossas vidas até hoje e vai permanecer até os fins dos tempos. E vamos nessa alegria, porque Deus não nos deixa órfãos, Deus não nos deixa prisioneiros da morte e nem do pecado. Nós podemos construir um mundo melhor, nós podemos ser fermento na massa do mundo, não ver o mundo como o nosso inimigo, mas como o lugar para transformar em vida.

Vamos pedir ao Senhor que Ele nos faça crer realmente na ressureição. Que nós possamos viver nessa alegria e transformar o nosso mundo com esse fogo novo que o Senhor colocou nos nossos corações.

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A certeza de que a morte não é o fim

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha - Sábado Santo Ano C – 16/04/2022 - missa às 19h) 

Esta Santa Missa solene de hoje é chamada de mãe de todas as liturgias. Da liturgia de hoje, derivam todas as outras. E, nesta liturgia, nós vamos ter a graça de batizar três pessoas e outras onze que vão receber a Eucaristia pela primeira vez. E teremos também uma senhora que, por algum tempo, esteve em uma comunidade evangélica. Ela sempre foi católica, ficou lá algum tempo e agora quer voltar novamente para a comunhão católica. Então, no momento da renovação das promessas do batismo, ela vai vir aqui à frente e vai conosco renovar, solenemente, diante de toda a comunidade, a fé em Jesus - que lembro, é a mesma fé dos evangélicos.

Nós, cristãos, professamos a mesma fé: Jesus é nosso único Salvador! Isso nos une a todos os cristãos: a única salvação em Jesus Cristo.

Quando nós ouvimos estas leituras - ouvimos o Gênesis, o Êxodo, as palavras dos profetas -, nós vemos como Deus é fiel. A fidelidade de Deus se manifesta no seu povo e se realiza plenamente na pessoa de Jesus: Deus feito um de nós. Da eternidade, como diz São Paulo, Deus tinha predisposto isso. Deus criou o mundo, o universo, tudo, tendo em vista o momento da encarnação do seu Filho. Deus quis, da Eternidade, que seu Filho se tornasse um de nós. E Deus quis que Jesus fosse o seu revelador. Deus, falando com voz humana. Deus sentindo com coração humano. Deus caminhando pelas nossas estradas empoeiradas. Deus passando a nossa fome, a nossa sede. Deus sofrendo as nossas dores. Deus carregando sobre si as nossas injustiças.

Jesus, na cruz, traz estampado em si, sobre seu corpo, as nossas maldades. Todas as vezes que nós combatemos a vida, isso ofende a Deus. Porque Deus é vida e Deus só pode dar vida. O Filho se encarna naquele tempo, naquele lugar e ali, dentro da história, ele salva a humanidade toda. Muitas vezes nós pensamos que tirar nossos pecados é algo muito simples para Deus. Deus poderia tirar os pecados por um simples ato de vontade. Deus não precisava mandar seu Filho do céu pra isso. Deus nos salva porque este era o seu desejo desde sempre: que nós estejamos com Ele, na eternidade.

Deus nos encontra envenenados pelo pecado, que faz um dano danado na história. Como fica difícil caminhar segundo o olhar de Deus. Mas isso não atrapalha aquilo que Deus quer. O profeta Isaías diz muito bem: “assim como a chuva desce do céu e não volta pra mim sem molhar a terra e fazer crescer a semente para que o agricultor possa colher e comer, assim também é a minha Palavra: não volta para mim sem cumprir o que eu quero”. Não existe poder que possa ser obstáculo à vontade de Deus. E a vontade de Deus é que todos sejam salvos! Todos!

E Jesus, caminhando entre nós, se fez caminho. Nós seguimos uma pessoa, e essa pessoa é Jesus. Jesus passou a Sua vida fazendo o bem, anunciando a salvação, vivendo conosco como irmão de todos e todas. Jesus trata as mulheres com igualdade porque ele as reconhece iguais. Aos estrangeiros, Jesus elogia a fé. Aos pagãos, Jesus elogia a fé. Aqueles que eram tidos como desgraçados e amaldiçoados, feridos por Deus, que eram os leprosos naquele tempo, Jesus os cura. Jesus vai ao encontro das pessoas. Ele nos ensina a sermos irmãos e irmãs, mas também, Ele nos mostra o quanto querer viver como irmãos e irmãs, neste mundo envenenado pelo pecado, pode custar. Tem muitas pessoas que não querem viver como irmãos porque se acham melhores, porque querem ter mais. E não é um prato de comida a mais. É tanto dinheiro que nem em uma vida inteira daria pra gastar. Há pessoas que decidem vida e morte de povos inteiros, de nações. Pessoas que se levantam como deuses. Estas pessoas esmagam o povo porque não vivem como irmãos e irmãs. E como esmagam o povo, esmagaram também Jesus. Por isso, Jesus carrega em si, no seu corpo ferido, as marcas da injustiça. São essas forças contra a fraternidade que esmagam o povo, que esmagam Jesus. Mas Deus é fiel e a Sua palavra não volta para Ele sem cumprir aquilo para que ela foi mandada.

Jesus veio para anunciar a salvação para todos e o poder da morte não é páreo para Jesus, não é páreo para Deus. Deus está acima do mal. O bem e o mal não são duas forças iguais e opostas. O mal não pode competir com a vontade de Deus porque o mal e o pecado são nada.

A ressurreição de Jesus é o selo que Deus Pai coloca sobre toda a vida do seu Filho como uma prova, uma amostra para nós. O caminho é esse. Vocês são todos irmãos e irmãs? Vocês querem um mundo melhor? É esse o caminho. E esse caminho é vida eterna.

Nós vemos, nos relatos da ressurreição, essas mulheres que ficam, aparentemente, abobadas, estão perdidas completamente. Mas depois também os onze, quando Jesus vai aparecer para eles na tarde de domingo. Eles estão mais perdidos do que cego em tiroteio. Por quê? Porque ali eles veem, vamos dizer assim, um pedacinho do céu. Nós somos deste mundo. Deus é o transcendente. Nós não podemos nem imaginar o mundo de Deus se Ele não desce até nós e nos diz como é o seu coração. Nós nunca saberíamos quem é Deus. Os apóstolos e, primeiro de tudo, Maria Madalena e aquelas mulheres viram o novo de Deus. A ressurreição é o mundo de Deus, que explode dentro desta nossa realidade limitada e isso nos deixa abestalhados. É muito difícil mesmo, para nós, pensar na situação dessas mulheres.

O último enterro que participei foi do Padre Odair. Como é marcante esse gesto humano de sepultar os mortos. Nós deixamos de ser animais. Nós acordamos da inconsciência animal no dia em que nós enterramos o primeiro ser humano. Ali nós sabemos que nós somos humanos, com alma, à imagem de Deus. É naquele momento. O enterro, a sepultura é algo primordial na experiência humana. E nós nos deparamos com esse momento estranho que rompe tudo, corta relações, devasta nosso coração. E a mesma coisa sentiram aquelas mulheres, aqueles homens. Ninguém vai em um túmulo esperando o novo. De fato, aquelas mulheres foram esperando o de sempre: essa profunda experiência humana. Mas só humana. Foi difícil para elas entenderem que tinha alguma coisa diferente. Uma violência para o coração do ser humano. Quando você chega em um túmulo e não encontra lá o defunto, pensa que o roubaram. E ver aquelas pessoas, aqueles dois homens brilhantes, dizendo “não está aqui! Ressuscitou!”. Eles têm que insistir com as mulheres. Lembra que Jesus falou isso quando ainda estava na Galiléia? A mesma coisa Jesus teve que fazer com os discípulos de Emaús. É o novo, é uma coisa única na história humana. Ninguém nunca tinha presenciado uma coisa daquela. Naquele momento, aquelas mulheres não O viram, só viram este túmulo vazio. E depois, nós vamos ver nas próximas semanas, Jesus que se manifesta, que abre os nossos corações, abre a nossa mente, nos diz e nos faz crer nesta verdade: Ele é a revelação do Pai e o caminho humano é a fraternidade. Todos somos iguais diante de Deus. Todos seremos salvos porque, no final, vai dar tudo certo. A ressurreição é a nossa alegria, é a certeza da fidelidade de Deus. Apesar de, na vida terrena, nos vermos no ciclo humano da vida e da morte, sepultura sobre sepultura, a nossa fé está lá.

Vamos pedir ao Senhor que nos dê ânimo, luz e coragem para viver o que Ele ensinou, para sermos irmãos e irmãs.

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Jesus se doa para um novo início à humanidade

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha - Celebração da Paixão - Sexta-feira Santa Ano C – 15/04/2022 - celebração às 15h) 

Nós temos várias atitudes neste evangelho [Jo 18,1-19,42]. A primeira é Judas que, pela última vez, é nomeado no evangelho de João. Caminhou com Jesus por três anos, durante todo seu ministério, desde a Galiléia, e traiu o mestre. Desiludido? Tentando um levante popular? Quem sabe? Alguns evangelistas tentam dar explicações, mas o fato é que essa situação continua escandalosa: um discípulo traiu o mestre. Depois, nós temos o outro discípulo, Pedro, que, junto com João e André, dormiram todo o tempo que Jesus pediu para que eles vigiassem com Ele. Porém Pedro, que era todo entusiasmado e na lavagem dos pés falou “eu vou morrer por você”, no seu entusiasmo, pega a espada. Não tem sentido. Ali tem uma divisão de soldados – paus, tochas, armas – a de Pedro é uma ameaça sem sentindo. Jesus vai dizer: “guarda isso, armas só chamam outras armas”. E nós vemos isso bem hoje nessa guerra louca entre Rússia e Ucrânia. Armas chamam armas. Armas chamam a violência. Não é esse o caminho para terminar com a violência. Depois, nós vemos esse mesmo Pedro que, de um modo cada vez mais consciente, vai negando o mestre. Ele sabe que está negando e cada vez mais forte. Como é difícil arriscar a própria pele por aquilo que se acredita. E, com Pedro, estão todos os outros que fugiram. Sobrou o discípulo amado, que é essa figura enigmática. Nós identificamos como João, filho de Zebedeu. Mas é uma identificação um pouco forçada. Esse rapaz ou homem que conhece o Sumo Sacerdote e, pelo teor do seu evangelho, conhece muito bem os ritos, as festas e o mundo interno do templo, ele vai seguindo de longe Jesus. Ele segue o mestre de forma discreta. E esse seguimento vai aparecer lá na frente. Ele está lá debaixo da cruz. O evangelista o coloca ali, como também vai colocar Maria, embaixo da cruz.

O discípulo amado representa a nova comunidade de Jesus, o novo povo reunido em volta de Jesus. E Maria representa também o Israel fiel, o pequeno resto do povo de Israel que acreditou na palavra e nas obras de Jesus. Esse pequeno resto que se tornou discípulo é confiado por Jesus a sua nova comunidade. Estranhamente, os evangelhos insistem em quase mostrar inocência do sujeito, que é Pilatos. Três vezes, no evangelho de João, nesse trecho muito breve, ele vai dizer: “não encontro culpa nesse homem”. Pilatos não era um tolo. Era um homem muito bem informado, era o ocupante daquela região, o procurador do Imperador, do invasor. Ele conhece muito bem os movimentos que acontecem naquela região e não ama muito aquele povo hebreu, que era esquisito. Ele se informa muito bem. Ele sabe que ali tem um jogo e ele deixa claro que existe um jogo. Ele viu o que os Sumo Sacerdotes estavam aprontando. É um pregador popular, querem se livrar desse homem, que estava incomodando. Não estava incomodando Pilatos, mas está incomodando essa gente, mexendo com a religião deles. E esses caras querem acabar com esse pregador popular. Pilatos diz: “querem matar? Matem vocês, não me botem nisso”. Mas eles insistem e usam todos os meios. É importante percebermos que esses homens, os Sumo Sacerdotes e os fariseus, são gente de igreja. Os Sumo Sacerdotes são os que comandam a religião hebraica, o judaísmo. Os fariseus eram um grupo potente, religiosos, muito observante da lei. Um grupo que tinha uma tradição de mais de 100 anos. Descendentes, como movimento, dos Macabeus, uma grande revolta que teve na Palestina, mais de 100 anos antes de Jesus. É de lá que eles vêm. São pessoas que têm nome, reputação, bons religiosos. Esses homens que se nomeiam homens de Deus jogam todas as cartas podres que têm. Subornam, pagam para que pessoas mintam no tribunal. Acusam sem nenhuma prova. E, finalmente, tendo marcado todas as suas cartas, eles querem mais: “não podemos matar esse homem como um herege, temos que ir mais longe, temos que desmoralizar esse sujeito do modo mais horrível que existe”. Esses homens de Deus querem que Jesus, esse pregador popular, fosse massacrado. Não basta matar e apedrejar, querem massacrá-lo porque não querem colocar em risco seu templo, seu poder, seu dinheiro, sua opressão sobre o povo, o acordo com Roma. Não querem perder nada disso e, mais, querem mostrar que é inimigo do império. Não é um problema deles, é do império. São perversos. São os “homens de Deus”. Em outra passagem do evangelho de João, eles diziam: “nós somos filhos de Abraão”. E Jesus responde: “se vocês fossem filhos de Abraão, fariam as obras de Abraão. Vocês são filhos do diabo”. Jesus não era brincadeira, não. E eles mostram aqui que, realmente, são. Eles massacram um inocente para defender seus interesses, seus privilégios, o seu poder usando o nome de Deus. E usam a última carta. Interessante também perceber que a consciência de Pilatos sobre Jesus vai aumentando. Primeiro são as acusações. Depois, “você é Rei, Filho de Deus”. Pilatos é romano e estes são pessoas extremamente religiosas, não como os hebreus, mas, tudo que faziam precisavam ver com os deuses. Então a consciência deste homem sobre Jesus também vai crescendo. Mas aí vem o jogo sujo, mais uma vez, para conseguir o que esses homens querem – ou seja, a morte humilhante de Jesus – vale tudo. O rei de Israel é Deus. O rei de Israel é o Senhor dos Exércitos. Quando pedem um rei para Samuel, ele vai se lamentar diante de Javé. Deus vai dizer para ele: “dê um rei para eles; eles não me querem mais como rei”. E o povo de Israel vai pagar caro por ter instalado a monarquia. As injustiças do Egito voltaram todas e, talvez, até pioradas. Porque antes eles eram estrangeiros. Agora é um rei deles que os oprime. Porém, o povo é unânime em dizer: “Javé é nosso rei”, rei que tem seus pés no templo e seu trono no céu. Esses homens da religião vão dizer: “temos um único rei, que é César”. César, que se fazia chamar divino. Eles mostraram, realmente. Esses homens não mentiram. O Deus deles não é Javé, não é o Deus de Abraão. O Deus deles é a morte, é o diabo. Como disse Jesus, o demônio, o inimigo, ele é mentiroso e assassino, desde o início. E esses homens mostram exatamente isso: mentirosos e assassinos. Chantageiam Pilatos, que está em uma situação frágil. Essa expressão “amigo de César” era muito particular e Pilatos cede diante da chantagem. Mas ainda assim, proclama a inocência do sujeito. “Levem-no para crucificar, mas eu não vejo culpa nesse homem”.

Depois temos as outras figuras que são os soldados e essa testemunha que é o narrador. Ele nos traz a notícia do transpasso de Jesus na cruz. E é interessante ele insistir três vezes: “isso é verdade, quem diz é verdadeiro, o seu testemunho é autêntico”. Quando o soldado furou o peito de Jesus, dali saiu sangue e água. Provavelmente, o que aconteceu é que Jesus morreu de um tremendo infarto e o coração abriu e se derrama no peito. Passadas algumas horas, o sangue coagula e se separa do plasma. Quando fura, sai o sangue coagulado e o plasma, separados. E a testemunha viu aquilo como sangue e água. A vida da igreja e a vida da nova comunidade nascem do sangue de Jesus e das águas do batismo.

Jesus não quer ser atordoado na cruz. Para os crucificados, as pessoas piedosas preparavam uma mistura de vinho com fel, que vira vinagre. Mas essa droga é um potente anestésico. Era um modo de deixar o condenado um pouco atordoado em suas dores. O condenado podia ficar dias pendurado na cruz até morrer. Jesus diz que tem sede e lhe oferecem essa mistura, mas ele não aceita e morre. Jesus quer estar lúcido até o fim. Deus não guarda nada para si. Deus se entrega sem reservas. De Deus não é preciso ter medo. Ele não esconde nada na manga. Deus se entrega todo, até na morte. Por isso, no Evangelho de João, Jesus, tantas vezes vai dizer: “tende confiança”. E, nos outros evangelhos, Jesus vai dizer: “não tenham medo, Deus é fiel”. E a fidelidade de Deus é radical. Não desconfiem nunca do amor e da misericórdia de Deus. Depois, vemos no final do evangelho essas duas figuras: José de Arimatéia e Nicodemos, que talvez, depois, tenham se tornado discípulos de Jesus, membros da comunidade cristã. Mas, muito provavelmente, nesse momento, não passavam de dois judeus muito escrupulosos, que queriam se ver livres daqueles corpos que estavam lá, mortos e pendurados, de modo a esconder aquilo no dia da Páscoa, que viria a ser comemorada. Jesus morreu às 3 da tarde, na hora em que, nas casas, estão sacrificando os cordeiros para celebrar a Páscoa Hebraica. Por isso que a última ceia não foi a Páscoa Hebraica, foi outra coisa. Jesus morre exatamente nesse momento. Esses homens querem se livrar desse condenado, desse maldito. Enterram rápido, sem romance nenhum. Aqui é tudo muito cru, muito triste. A sepultura apaga do nosso meio o relacionamento com a pessoa. Podemos dizer que, até quando a pessoa está no caixão, tentamos nos relacionar com ela. Já a sepultura esconde tudo, pois não tem mais proximidade, não tem mais toque, não tem mais nada. É uma pedra em cima.

Jesus, na sua morte, julga o mundo. Revelam-se os corações das pessoas. O nosso coração se revela diante da cruz de Jesus. O que nós somos, o que buscamos, os nossos interesses mesquinhos, nossas perversões, tudo aparece. Aparecem nossos riscos, nossos desejos de bem, a nossa busca de algo melhor. Tudo isso aparece diante da cruz de Jesus. Estamos nus. Mas não é nudez de roupa, é nudez de máscara, de mentiras, de desculpas. Tudo isso nos é arrancado e aparecemos diante de Deus exatamente como somos. A cruz de Jesus é o julgamento do mundo. Do alto dessa cruz, Jesus se mostra revelador do Pai. “Pai, perdoai-os, não sabem o que fazem”. Nos coloquemos diante de Jesus, na atitude de acolher essa misericórdia de Deus, que vem ao nosso encontro antes de nós a buscarmos. Deus nos ama primeiro. Pedir para acolher essa misericórdia e, acolhendo a misericórdia, sermos misericordiosos com os outros para que, no nosso tempo, possamos ter uma vida humana melhor, mais digna, mais verdadeira, mais fraterna. Quando experimentamos a misericórdia de Deus, nossa vida se transforma e a vida em volta de nós renasce.

Outra realidade dura da morte: no velório, estamos ali em cima do defunto, flores, beijos, pedidos de perdão. Na ida para o cemitério tem quem fale que quer carregar o defunto, que chora pelo morto. Mas, há um momento em que você vira as costas e vai embora, como aquelas mulheres que viraram as costas e voltaram para casa para preparar aromas para ungir esse corpo. Depois do dia do sábado, da grande festa em que não podia se fazer nada. Esse momento é difícil. Acabou o sonho, acabou a vida, acabou qualquer esperança, o que sobra é saudade, se sobra isso. É esse o nosso momento, até amanhã à noite. Virar as costas para um túmulo e ver que a esperança morre. Na tradição da Igreja se diz que a fé dos discípulos morreu com aquela pedra. Só uma pessoa manteve viva a fé no seu coração: Maria. Ela canta, no seu hino de louvor, a fidelidade de Deus, de geração em geração. Ela espera, contra tudo e contra todos. Contra os fatos, ela espera na fidelidade de Deus. Vamos nos aproximar dela, nessas horas, para que também nossa fé se mantenha viva e possamos ser contados entre os discípulos de Jesus que vivem da alegria da ressurreição que surgirá amanhã. Nos coloquemos junto com Maria, pedindo que ela nos acompanhe.

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Dar a vida pelo outro

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha - Quinta-feira Santa Ano C – 14/04/2022 - missa às 20h) 

Existem momentos em nossas vidas que ficam marcados. Eu me lembro do 4º ano de teologia! Tínhamos um professor de liturgia que eu nem me lembro o nome, porém ele nos disse: “na última aula – que seria a próxima – nós vamos celebrar a Eucaristia entre nós”. E foi muito interessante porque foram poucos os alunos que vieram. E, no começo daquela celebração, ele disse: vocês não vão lembrar nada do que eu falei durante esse ano, a gente esquece mesmo, mas dessa celebração vocês vão lembrar. Já são 35 anos, eu esqueci o nome do professor, mas não esqueço daquela celebração. Foi a última vez que eu vi aquele professor.

Aquela ceia não é a Páscoa hebraica, a Páscoa hebraica foi celebrada no dia seguinte! Foi uma celebração diferente; ali, por exemplo, não tem o cordeiro, que foi imolado na tarde da sexta-feira para ser comido à noite, já no sábado. Jesus, naquela hora, já estava sepultado.

Jesus reúne seus apóstolos, esses homens que caminharam com Ele durante todo o seu ministério, pessoas que o conheciam muito bem. Ele sabe que o cerco em volta dele está se fechando, e sabe que o cerco já pegou um dos seus discípulos. Jesus sabe que o negócio vai pegar, mas não precisa ter visão de futuro para saber, você percebe pelas circunstâncias, as palavras de Jesus, os gestos dele, os bate-bocas que ele tinha com os grandes daquele tempo, os senhores do templo, os senhores da religião. Os sinais que ele fazia não passariam em branco, Ele iria pagar muito caro pelo que fazia, Ele ia deixar a própria pele e sabia disso.

E chegou o tempo. Ele quer deixar para os seus apóstolos três coisas de suma importância. A primeira delas: o poder como serviço. Quando você recebia um hóspede um sinal de atenção por este hóspede era mandar que um escravo viesse lavar seus pés. Era um gesto de cordialidade, de boas-vindas, e quem lavava os pés do hóspede era o escravo velho, o que não servia para mais nada, o último dos escravos.

É muito significativo o início desse encontro, dessa janta, que é um pouco diferente. Eles prepararam esse momento, pois a Páscoa é no dia seguinte. Tem alguma coisa particular aqui, tem um ar diferente, e começa com Jesus que lava os pés dos discípulos. E Ele vai dizer: “Eu sou o vosso Mestre e Senhor, e vocês dizem bem, porque sou mesmo. Mas, eu, vosso Mestre e Senhor, lavo os vossos pés. Façam a mesma coisa entre vocês”. O poder é serviço, o poder é dar vida para o outro, promover a vida do outro à custa, se necessário, da própria vida, das próprias energias, das próprias faculdades mentais. Entrega. Promover a vida do outro, pensar no outro, agir para o bem do outro. Todo poder deveria ser deste modo.

É claro que os senhores do poder não querem ouvir uma conversa dessa, não aceitam, e nós estamos vendo o que o poder egoísta está fazendo no mundo e no nosso país também. O Putin quer a vida dos russos? Zelensky quer realmente a vida dos ucranianos? Os Estados Unidos querem realmente a vida da Líbia, do Iraque, do Afeganistão? A Arábia Saudita quer a vida do Iêmen? E no Brasil, os nossos governantes querem mesmo que os nossos jovens tenham mais educação? Querem que o nosso povo passe menos fome? Isso é o poder do mundo, o poder que não dá vida, busca a vida para si.

Jesus ensina que para melhorar e mudar esse mundo o poder tem que ser serviço, tem que ser entrega de si pelo outro. E Ele vai dar um mandamento: “Amai-vos uns aos outros, e amai-vos como Eu vos amei." Não tem maior amor que dar a vida pelo outro.

A Eucaristia vai ser uma nova modulação deste mesmo mandamento. Jesus se entrega, e Ele se entrega porque é fiel. Ele se entrega porque o Pai se entrega. Para ser fiel ao Pai até o fim, Jesus não podia – eu não sei se ainda existe essa gíria – ‘fugir da raia’, porque se Ele fugisse, Ele não era Filho de Deus, Ele não era o revelador do Pai, porque o Pai fica até o fim, o Pai é fiel até a morte, Jesus é fiel até a morte.

Fiel a quê? Ao amor pelos irmãos e pelas irmãs. A Eucaristia é a concretização disso. Jesus não guarda nada para si, Ele se entrega todo para nós, os padres colocam limites Jesus não. Jesus se entrega todo, e essa entrega é salvação para nós, porque ela é amor, é misericórdia, é perdão.

Misericórdia que é mais justa do que a nossa justiça. Entrega sem limite, simplesmente acolhe. E acolhendo nos dá vida, vida eterna. Na Eucaristia nós temos todo o mistério da vida de Cristo ali, num pedaço de pão e num gole de vinho. Deus entregue, Deus que se dá, Deus que nos salva e salva o mundo, e convida a nós, que recebemos desde Sacramento, sermos também Eucaristia para os outros, porque se nós imitamos Jesus no mundo, o mundo melhora.

Se nós imitamos Jesus, nós faremos uma política melhor, se nós imitamos Jesus, nós vamos cuidar dos que mais sofrem, vamos pôr remédio para que os sofrimentos do mundo diminuam, se não podem desaparecer. Nós não vamos pensar só em nós, porque dando a vida para o outro eu estou crescendo como ser humano, eu estou sendo realmente humano.
Jesus, na Eucaristia, nos mostra isso, a entrega de Deus. A entrega que amanhã será Cruz. Deus não guardou nada para si, é tudo entrega.

Vamos pedir ao Senhor que mande sobre nós o seu Espírito, o Espírito Santo, que é o amor do Pai e do filho entregue, doado a nós, para que nós possamos ser transformados e transformadas naquele que nós comungamos, poder ser servidores como Jesus onde quer que estejamos.

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Deus é misericórdia infinita

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha - Domingo de Ramos Ano C – 10/04/2022 - missa às 09h30) 

1º evangelho [Lc 19,28-40]
Jesus entra em Jerusalém exatamente como haviam dito os profetas antigos: “o teu rei vem na paz, sentado sobre um jumentinho”. Todos esperam – e nós também esperamos – que o poder de Deus se manifeste de forma esplêndida. Não é essa a mentalidade de Deus. Jesus, provavelmente, entrou com seus discípulos no meio de uma festa popular. O povo aclamava e Jesus, com seus discípulos, em meio a essas aclamações, entra em Jerusalém. Deus veio visitar o seu povo na paz, que é alegria. Paz que não é exagero, mas que é vida. Em uma outra passagem do Evangelho, Jesus vai chorar sobre Jerusalém porque ela não soube reconhecer a visita de Jesus, o Príncipe da Paz. Por isso, Jerusalém desabou 40 anos depois. Vamos seguir Jesus. A lógica de Deus quer a festa do povo, alegria, saúde. Quando o povo celebra, significa que ainda tem esperança, tem vida. Apesar de tudo, este povo não esmorece. Essa é a grandeza do povo brasileiro.

2º evangelho [Lc 23, 1-49]
O Evangelho de Lucas é chamado de Evangelho da misericórdia. Ali, nós vemos esta atitude de Jesus. Lucas coloca atenção nesta atitude. Jesus é a revelação do Deus fiel, do Deus de perdão, de reconciliação. No Monte das Oliveiras, quando prenderam Jesus e cortaram a orelha do servo do sumo sacerdote – que, como símbolo, significa que o Sumo Sacerdote não tem mais a sua autoridade –, Jesus cura a orelha deste homem e em nenhum momento vai acusar quem quer que seja. O que Ele falou e fez publicamente, os fatos, estava tudo ali. O que se tem que argumentar? Jesus curou as pessoas. O Evangelho de Lucas fala de 18 curas (15 na Galiléia e 3 na Judéia). A Galiléia era uma região de hebreus também, mas muito desprezada pelos judeus de Jerusalém, que tinham sempre essa mania de se achar a grande, a melhor. Jesus é acusado e Pilatos percebe muito bem a artimanha dos chefes do povo, dos Sumo Sacerdotes e dos Fariseus. E ele vai dizer bem claro duas vezes: “não encontro motivo para matar esse homem”. Mas estes homens insistem. Então Pilatos usa um subterfugio e manda Jesus para Herodes. E se Pilatos estava preocupado de ver se ali tinha realmente algum crime, Herodes, que era um monstro, mandou matar um monte de líderes, inclusive João Batista. O evangelho diz que ele debocha com seus soldados de Jesus e o deboche consiste em pedir pra ele fazer um milagre para mostrar que era rei. E ainda mais quando coloca nas costas de Jesus um manto púrpura, que era a vestimenta dos reis. Isso é deboche e desprezo. Mas Jesus não abre a boca diante do tribunal. O silêncio denuncia a falsidade das acusações. Jesus é mandado de volta para Pilatos, que não vê crime e usa a famosa frase: “Herodes não viu crime nele e o mandou de volta”. Mas o povo insiste. No evangelho de João, nós temos uma frase ou uma expressão que pode ter realmente feito Pilatos tremer: “esse homem se diz rei; o único rei é César; se você não o condena, você não é amigo de César”. Amigo de César era um título que se dava ao primeiro conselheiro do imperador e esse conselheiro era amigo de Pilatos. Mas ele tinha caído em desgraça, tinha perdido seu cargo e Pilatos não tinha mais as costas quentes. Então os chefes dos judeus, na verdade, chantagearam Pilatos e ele cedeu à chantagem. Quem matou Jesus, quem mexeu com tudo foram os chefes dos judeus, não o povo hebreu. O povo amava e seguia Jesus. As primeiras comunidades são todas de hebreus. Mas são os chefes das nações, os Sumo Sacerdotes, doutores da lei e fariseus que condenam Jesus à morte. Um grupo pequeno. O povo só sofre na mão dessas pessoas e, ainda assim, a passagem de Jesus – quem sabe, por minutos, na vida de Pilatos e Herodes – criou na vida dessas pessoas reconciliação. Pilatos e Herodes eram inimigos e, nessa ocasião, tornaram-se amigos. A intenção de Lucas era mostrar que a presença de Jesus é reconciliadora.
Levado para a crucificação, Jesus consola as mulheres. É um consolo amargo. “Não chorem sobre mim, chorem sobre vocês mesmas e vossos filhos, essa cidade será destruída”. Foi um massacre na Palestina. O templo de Jerusalém foi destruído porque eles não souberam reconhecer o tempo em que Deus os tinha visitado. Não souberam depois quando crucificam Jesus. Temos que lembrar que os seus assassinos debochavam dele. Aqueles que tinham criado aquele julgamento injusto naquela corte maldita passavam em frente ao calvário e debochavam “desce daí você que falou que reconstruiria o templo”. Para essa gente cínica, que sabe muito bem o que fizeram a Ele, Jesus pede perdão ao Pai. Esse é um Deus muito estranho. Jesus pede perdão por aqueles que o estão matando de forma criminosa porque, se o Pai não os perdoa, eles serão condenados ao inferno. Mas Deus não quer ninguém no inferno. Mais adiante, veremos essa outra situação que nos deveria deixar sempre admirados: Jesus tem do seu lado dois assassinos - não são ladrões, porque ladrões não morriam daquele jeito. O texto diz que estavam envolvidos em um homicídio e que eram amigos de Barrabás. E para serem crucificados eles tinham que ter matado um cidadão romano. Temos que pensar o que significa uma pessoa sã ser pendurada numa cruz para morrer à míngua. Às vezes as pessoas ficam 1 semana agonizando na cruz. O fato de Jesus ter sido pregado fazia com que a morte fosse mais dolorosa, porém mais rápida. Mas, mesmo assim, podia levar dias. Esses dois homens veem diante de si esse fim horroroso: morrer sob tortura numa cruz. E, no desespero, um deles diz: “você é o Messias, nos salve, tire a gente daqui”. É desespero, não é maldade, é ver um fim horroroso. O outro confessa a própria situação: “nós estamos aqui porque merecemos, nós matamos alguém do império e o império nos mata, é essa a pena que dão pra quem cometeu nosso crime; esse homem não fez nada; lembra-te de mim quando estiveres no teu reino”. E aí a grandeza de Jesus não falou que o faria dali três dias, não falou no fim do mundo, não falou no purgatório. Ele falou “ainda hoje estarás comigo no paraíso.” Hoje. E, de fato, aqueles dois homens morreram naquele dia porque quebraram os joelhos deles e, assim, a pessoa cai e não consegue respirar mais. É um ato de misericórdia monstruoso. É muito estranho pensar que Jesus levou consigo para junto de Deus um assassino. O seu perdão e sua misericórdia não têm limites. A misericórdia de Deus vai muito além disso que nós, vingativos, chamamos de justiça.
A misericórdia de Deus nos resgata do pecado, nos tira da lama, nos tira da morte. Contemplar Jesus crucificado é contemplar essa bondade infinita que é fiel até o fim. Jesus não amaldiçoa, não se defende, não acusa. Jesus perdoa, reconcilia, cura. Esse é o nosso Deus. Essa é a revelação que nós recebemos. Esse é o Deus que nós celebramos na eucaristia. Todas as vezes que celebramos a eucaristia, nós vivemos hoje aquele momento. Nós e aquele povo, nós e os discípulos, nós e todos os seguidores de Jesus, da história, que são e que virão e que foram, estamos unidos naquele momento eucaristia. Para nós, é a recapitulação de tudo isso feito em vida aqui. É essa vida de amor, de misericórdia, de perdão que está na eucaristia. É a vida de Jesus que está ali e se entrega para nós e nos convida a sermos também vida para os outros. Em um mundo que só está falando de guerra e construindo a guerra, tem pouca gente falando de paz. Por aqui, temos a guerra de violência. A quantidade de assassinatos que temos no Brasil é uma coisa assustadora. São números de guerra civil para esse mundo de violência. Olha só esses escândalos no Ministério da Educação, com uma gangue de ladrões roubando dinheiro dos vossos filhos, das vossas escolas. Não podemos esquecer que isso significa que a qualidade de estudo dos vossos filhos está sendo jogada no lixo. Nesse mundo, nós somos chamados a buscar vida melhor e situações mais dignas porque somos cristãos, somos católicos e queremos a vida de todos, porque seguimos Jesus. Ele quer que todos tenham vida e para todos entregou Sua vida. Vamos pedir ao Senhor que nos ajude, nessa Semana Santa, a entrar no seu mistério de amor e de fidelidade.

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A dignidade dos filhos e filhas de Deus

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha - 5° Domingo da Quaresma Ano C – 03/04/2022 - missa às 10h) 

Nós estamos na Quaresma, que esse ano é guiada por essa Campanha da Fraternidade sobre o tema “Fraternidade e Educação: Fala com sabedoria e ensina com amor”. No cartaz da campanha, nós vemos um desenho de Jesus inclinado e escrevendo na terra e a pecadora, a adúltera, que está ajoelhada aos pés Dele, e Jesus escreve as palavras “amor e sabedoria”.

Muito bem, uma primeira curiosidade: a adultera não é Maria Madalena. Outra prostituta que Jesus perdoou? Não, foi a terceira. Foram três mulheres diferentes, às vezes o pessoal chama de “a pecadora” e todo mundo diz ser Maria Madalena, mas não é, isso é falso. O que nós temos no Evangelho de hoje? Jesus que vai para o templo e se senta – sentar-se era sinal do mestre. Quando Jesus subiu no monte, no Evangelho de São Mateus para falar as bem-aventuranças, Ele sentou-se, isso é um símbolo de mestre. E Ele estava ali conversando com as pessoas e de repente vem alguns homens, homens de igreja, eram fariseus, doutores da lei, mestres do povo que arrastavam uma moça que não devia ter mais de 13 anos de idade. As mulheres naquele tempo se casavam depois da primeira menstruação, com 12 ou 13 anos. Aí há o tempo do noivado, que é quando a moça fica um ano na casa dos pais, e só depois de um ano ela é levada para a casa do esposo e vão viver como marido e mulher. Nesse ano, não pode ter “brincadeiras”, e se ela “brincar” com outro é adultério e será apedrejada até a morte, mas não é só ela, seriam os dois. E esta moça estava para ser apedrejada, porque foi pega em flagrante por adultério, mas adultério se faz com duas pessoas: cadê o homem? Geralmente em sociedades machistas, fazem vistas grossas para os homens, facilmente o deixam escapar. Mas eles levam essa moça, que para eles já era para não ter mais vida, para Jesus, para que? Para colocar Jesus em uma armadilha, para ter o que acusá-lo, eles querem matar a moça para cumprir a lei de Moisés, mas também querem culpar Jesus.

Vocês já viram como funciona um linchamento? Eu vi uma vez no centro de São Paulo, na Rua Direita, a um certo momento alguém gritou “pega ladrão”, é uma coisa assustadora, parece que ligam algo nas pessoas e elas saem correndo atrás daquele jovem, e teriam pegado e dado uma surra ou sabe lá o que mais, a sorte do moço é que na ocasião tinha aqueles policiais montando a cavalo, que entraram na frente do rapaz e das pessoas, deixando o rapaz próximo ao cavalo. E dispersaram o povo. Nesse caso do Evangelho, o povo está enlouquecido para matar a mulher, e aí o que fazem? Levam-na a Jesus. A primeira atitude de Jesus é se abaixar e escrever no pó. Ele não grita, não fala, Ele somente se abaixa e escreve no pó, esse gesto para os hebreus era sinal de maldição – “teu nome está escrito no pó do mundo dos mortos”, terrível. Mas nós não sabemos o que Jesus estava escrevendo, isso fez com que o pessoal se acalmasse, mas eles insistem e Jesus fala “quem não tem pecado que atire a primeira pedra”, qual o problema do linchamento? O linchamento faz com que as pessoas percam a razão e ajam por um instinto assassino, matam a pessoa, aí você pergunta: quem deu a paulada? Quem atirou a pedra? “Ah foi o grupo”, a mão assassina se torna anônima, dizem “foi a multidão que matou”.

Jesus acalma essa gente e depois que eles insistem, Jesus faz essa provação terrível contra eles. Ele não discute com eles, não fala se está errado, se está na lei ou não. Jesus faz esse pessoal acordar, e faz com que cada um tenha um nome: “quem não tiver pecado”, cada pessoa cai em si e não é mais uma multidão, não é mais o anonimato assassino. Jesus transforma esses homens de juízes que julgam a moça em réus. “Vocês são todos pecadores, porque querem julgar outra pessoa?”. É interessante que a partir dos homens mais velhos vão indo embora – o homem mais velho é visto como o mais sábio – e as pessoas vão saindo, largando as pedras e vão embora. E o que encontramos? Jesus com esta moça, e vocês perceberam que em nenhum momento essa moça falou, porque a mulher naquele tempo não tinha possibilidade de comparecer em tribunal. Ela não podia ser testemunha, não tinha voz, era como se fosse incapaz, só podia falar dentro de casa, fora não tinha voz. E Jesus pela primeira vez neste Evangelho se dirige a moça e pergunta para ela. Se nós olharmos todos os evangelhos em que Jesus está com mulheres, sempre tem uma atitude diferente, por quê? Porque Jesus não promove a mulher, porque promover é tirar de lá de baixo. Jesus reconhece a dignidade da mulher desde o início dos tempos, Jesus trata as mulheres como igual, coisa que o povo na época não podia conceder. Jesus trata as mulheres iguais, ninguém tem que condenar ou tirar voz da mulher pelo fato de ela ser mulher, Jesus dialoga, Jesus faz aparecer a dignidade que ela sempre teve pelo simples fato de ser filha de Deus, isso é muito importante. Essa moça olha em volta e Jesus diz “eu não te condeno”. Quando te devolvem a dignidade, você volta a ser patrão ou patroa de sua própria vida, e Jesus ainda diz “vai em paz, não volte mais a pecar”. A conversão é possível porque essa moça reencontrou a sua dignidade.

A Campanha da Fraternidade, falando sobre educação, está nos chamando a atenção para a educação integral da pessoa. Essa educação começa em casa, na escola, na igreja, a pessoa ela tem que ser formada em todos os aspectos da sua vida. Educação íntegra, a educação deve fazer as pessoas se valorizar, e valorizar os outros, deve ser de qualidade, especialmente onde existem mais dificuldades econômicas e sociais, para que haja promoção humana, dar dignidade a quem sempre levou dignidade, educação básica para crescimento de um povo. Nós queremos homens e mulheres capazes de guiar este país, e a educação precisa criar isso. Vamos pedir ao Senhor Jesus que nos ajude e nos ilumine neste caminho.

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Ser o filho que acolhe os irmãos com a compaixão do Pai

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha - 4° Domingo da Quaresma Ano C – 27/03/2022 - missa às 10h) 

Parábola do filho pródigo [Lc 15, 1-3. 11-32], parábola conhecida! É o coração do evangelho de São Lucas. O que nós temos aqui? Jesus acolhe as pessoas, Jesus é revelação do Pai, Ele não faz distinção de pessoas, Ele acolhe os pecadores, os cobradores de impostos, que eram pessoas odiadas pelos hebreus porque cobravam impostos para o Império Romano. Eram tidos quase como hereges, "onde já se viu um judeu cobrar impostos para um país estrangeiro e se enriquecer com isso?".

Comendo com essas pessoas que comiam do mesmo prato, pois naquele tempo não tinha cada um o seu prato, comiam em um prato comum, os judeus achavam que as pessoas se tornavam impuras porque comiam com pecador. “Quem come com pecador se contamina com impureza, não pode participar do culto”, e criticam Jesus por isso. Quem são os fariseus, os doutores da lei? São os homens de igreja, eram os homens que governavam a Palestina e o templo, eram aqueles que julgavam as pessoas.

E estavam lá criticando Jesus, então Jesus lhes conta essa parábola deste filho jovem que pede tudo que é dele para o pai. Herança a gente recebe quando as pessoas morrem, pedir a herança antes do tempo queria dizer para o pai "você morreu para mim". Foi embora, gastou tudo, mas, de repente, as lições da vida. O sujeito foi trabalhar no meio dos porcos, foi o único trabalho que ele encontrou; quem sabe os amigos de farra dele que colocaram ele lá para trabalhar com os porcos. E a situação era tão grave que nem da lavagem dos porcos ele podia comer!

Estando naquela situação de miséria e desespero, esse homem caiu em si! O verbo em latim e grego diz: "olhou para dentro de si" – no português nós falamos "caiu em si". Toma consciência da sua situação, vê o horror em que a pessoa está vivendo, vê o marasmo da vida, vê as opções erradas, e esse é o momento de grande possibilidade porque a pessoa pode realmente reorientar a própria vida. Foi o que este homem fez: "eu herdeiro não sou mais, não tenho mais nada na casa do meu pai, mas eu posso pedir para ele para ser empregado, lá pelo menos eu não vou passar fome".

Ele foi, e vai pedir para o pai para ser empregado, assalariado. Quando o pai o vê de longe, reconhece o filho. Sabe lá quanto tempo esse filho ficou fora, em que condições esse moço estava voltando, de onde, de um país estrangeiro. Se ele estava na miséria, imagina como chegou! Mas o pai o reconhece de longe, corre para o filho movido de compaixão.

A compaixão é um sentimento de Deus, e Ele fala no antigo testamento que Suas vísceras tremem de amor pelo seu povo – as mulheres entendem isso porque elas têm útero, mas os homens não. E ele corre ao encontro do filho que tinha preparado um discurso para dizer ao pai, reconhecendo a situação grave que tinha cometido: "Pai, eu pequei contra o céu e contra ti, eu não posso mais ser considerado seu filho, trata-me como um de teus empregados". Mas o pai cortou o discurso dele no meio, e o que o pai fez? "Vai botar uma nova túnica, uma sandália, um anel, vamos devolver a dignidade para o meu filho". E não só o anel, que era sinal de poder, mas poder dispor tudo o que tem na casa!

Para Deus, nós somos filhos e filhas, Deus nos ama sempre. Dele não precisa ter medo.

E fazem uma festa. O que acontece? Tem o filho mais velho, mas o filho mais velho não aceita a situação! Apesar de o pai insistir "venha, se reconcilie com teu irmão", o irmão responde "não, este teu filho, que gastou os teus bens com prostitutas"; as acusações eram absurdas. E ele ainda reclama: "eu observei tudo que você manda, nunca desobedeci a uma ordem tua.” A grande pergunta é como este filho vê o pai? Ele vê o pai como um patrão, e um patrão do qual você pode cobrar as coisas.

"Eu merecia mais do que um cabrito e nem isso você me deu" – isso você fala para um patrão, e para um patrão injusto. Então o pai com toda a calma diz: "Calma, tudo o que é meu é teu. Vamos parar com essa conversa de empregado para patrão pois não sou seu patrão, sou teu pai, e nós vamos festejar porque aquele teu irmão estava perdido e foi reencontrado."

Jesus está falando para os fariseus, por isso não temos a resposta do que aconteceu com o moço, que estava lá fora e não queria entrar na festa. Cada um daqueles fariseus e doutores da lei tinha que se colocar no lugar daquele filho mais velho. Jesus acolhe os pecadores, e os bons religiosos condenam Jesus e os pecadores.

A grande pergunta que fica para nós: qual dos dois nós somos? É muito fácil, geralmente nós caímos logo no filho pródigo e pensamos "nossa, eu sou tão pecador, Deus me acolhe". Nós somos pessoas de igreja, somos o filho mais velho, não o mais novo! Nós somos chamados a acolher as pessoas, a ver Deus como Pai, porque se Ele é nosso Pai, é Pai dos outros também, e não é porque sou religioso, sou honesto, só faço o bem, que sou melhor que os outros.

A mesma salvação que Deus der para nós dará para os outros também, porque Ele é bom. E nós conseguimos ter um mundo melhor se nós nos convencemos de que os outros que estão lá fora, e outros têm nome: pobres, sofredores de rua, pessoal das estradas, encarcerados, pessoas de periferia. O dia que nós considerarmos essas pessoas como irmãos e irmãs, filhos do mesmo Pai, nós conseguiremos melhorar nossa sociedade.

Enquanto nós apontarmos o dedo para os outros, apontando o erro dos outros, nós não estaremos na dinâmica do reino; seremos bons religiosos, mas estaremos longe de Jesus. Nós temos que pedir ao Espírito Santo: "ajude-me a ver os outros como irmãos, a não julgar", porque Deus quer a salvação nossa e deles.

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Assim como Deus, não façamos distinção entre pessoas

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha - 3° Domingo da Quaresma Ano C – 20/03/2022 - missa às 10h) 

Deus chamou Moisés para libertar o povo. Um pequeno grupo que depois se uniu com outros grupos no deserto, já na terra da Palestina, e formou o povo de Israel. Um povo que nasce dessa vontade: serem livres da opressão dos outros. E o que aconteceu? Com o passar dos séculos, especialmente com a monarquia, este povo voltou à situação de opressão que tinha antes. Tanto que, quando morre o Rei Salomão, os representantes do povo chegam para o seu sucessor – Roboão – e dizem: “escute, o teu pai nos colocou um jugo insuportável, nos liberte desse jugo.” O jugo insuportável é o mesmo modo que se usava para falar da opressão dos egípcios. Você escapa de um lugar com anseio de liberdade e acaba criando uma situação de opressão exatamente igual. Por quê? Porque você não cultivou o amor e a igualdade entre as pessoas.

Quando Jesus fala da figueira no Evangelho [Lc 13,1-9], Ele está dizendo sobre isso. Deus teve paciência com esse povo, mandou profetas, mandou reis, juízes, mas esse povo não se converteu, não deu frutos. Que nem o dono de um pomar fala para o jardineiro: “pode cortar aquela árvore ali porque ela não presta pra nada, ela não deu frutos nos últimos três anos, vamos plantar outra coisa”. Aí o jardineiro que estava cuidando das plantas diz: “espera aí, eu vou pôr adubo no pé desta figueira, vamos ver se dá frutos no ano que vem, senão cortamos”. Tem planta que só dá frutos se você machuca ela todinha em seu tronco, é a coisa mais engraçada. O adubo, o cuidado, é a ação de Jesus para esse povo. Mas o chamado à conversão que Jesus fez para este povo, infelizmente, poucos ouviram.

Os hebreus achavam que, quando lhe acontece uma desgraça, é porque você está pagando algum pecado. Você aprontou alguma, e agora está pagando o pecado que você fez. Então, o que aconteceu lá na Galileia? Provavelmente estavam fazendo sacrifícios de animais, ou matavam por ordem de Pilatos e eles viam isso como profanação, desrespeito e violação do culto. Mas, justificavam também a morte desses que morreram assim, é porque eles tinham cometido algum pecado. Mas Jesus vai falar que não era assim e que se eles não se convertessem ia acontecer pior do que aconteceu com os anteriores. Se converterem do quê? Da mentalidade de opressão, do nacionalismo doentio.

A gente não precisa falar muito do nacionalismo, basta ver a doidice que está acontecendo na Ucrânia. Entenderam? O nacionalismo, nós na América Latina, graças a Deus não sofremos dessa doença. O nacionalismo é um amor visceral que a pessoa tem pela sua terra, pelos seus costumes, tradições, religião. E isso tem um aspecto bom, porque é um amor àquilo que é teu. Mas tem um lado tenebroso, que é o ódio pelos outros, o ódio pelo diferente, e a busca de impor aquilo que é meu. Terrível, porque quando explode o lado obscuro, dá nisso o que a gente vê: guerras que não são mais grito contra injustiça, contra uma invasão injusta. Não, você demoniza o outro, como se ele fosse o anticristo. Mas, isso por quê? Porque você odeia. E os hebreus, naquele tempo, tinham exatamente essa mentalidade: tem que botar fora os romanos, nós temos que ser a maior nação do mundo e, quando isso conseguirmos, botar todo mundo debaixo do nosso chinelo. No fim das contas, o nacionalismo gera isso. O nacionalismo gera campo de concentração. Por trás de todo nacionalismo exacerbado tem um Hitler, porque começa a excluir pessoas e matá-las. É muito sério isso. Por isso, no Antigo Testamento, muitas vezes, os profetas chamam atenção falando para cuidarem e respeitarem o estrangeiro na tua terra. E também para cuidarem dos pobres, porque eles são os primeiros da lista para serem excluídos.

E aqui no Brasil acontece a mesma coisa. Quem são os 170 por dia que são assassinados no Brasil? O pobre, o preto. Índio então, a gente nem fala, muita gente considera que não vale ou vale menos. Jesus fala que essa mentalidade não é de Deus e que ela destrói. E o que aconteceu? Não mudaram de mentalidade, mataram Jesus, perseguiram a primeira comunidade cristã. Quarenta anos depois, fizeram uma revolta em Israel. Vieram os romanos guiados por Tito, que depois foi imperador, e acabaram com tudo. Profanaram o Templo e derrubaram as muralhas de Jerusalém. Os dezoito que estavam na torre de Siloé, quando ela desabou, alertou que se não mudassem de mentalidade ia acontecer com eles igualzinho. E foi o que aconteceu. Depois, no ano 117, Adriano mandou acabar com tudo. Sobrou apenas a esplanada do Templo e os judeus foram expulsos da Palestina e só puderam voltar como Estado depois da Segunda Guerra Mundial. Eles ficaram quase 1900 anos sem um estado. Isso nos alerta para quê? Nós somos todos irmãos. Se nós não nos convencermos disso, nós continuaremos matando as pessoas, continuaremos com nossos racismos, continuaremos com nossos ódios. E disso só pode nascer morte, sofrimento, extermínio. 170 assassinatos por dia é uma vergonha para o nosso povo, sinal de que nós não amamos os nossos irmãos. Nós desprezamos os pretos, nós desprezamos os índios, nós desprezamos os gays, e nós estamos longe do Evangelho. Jesus nos diz: “convertam-se! Se vocês não se convertem, vocês vão ter como resultado a morte”. E isso não é maldição de Deus. Isso é olhar a realidade, e ela está gritando na nossa cara.

Vamos pedir a Deus que os exercícios da quaresma – jejum, oração e esmola – nos ajudem a descobrir no outro, que é diferente de mim, um irmão e uma irmã amados por Deus, exatamente do mesmo jeito que eu. Deus não faz distinção de pessoas. E esse mal pode entrar em nós católicos. Aí vem a Segunda Leitura, em que São Paulo diz para termos cuidado. O mesmo engano que aquele povo cometeu lá no passado, nós podemos cometer também. Portanto, é necessário conversão, mudança, vigilância, para que nós não caiamos nos mesmos erros. Vamos pedir a Jesus que Ele nos dê paz neste tempo difícil. Papa Francisco, na próxima sexta-feira, vai consagrar a Rússia e Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria. Várias vezes os papas fizeram esta consagração já, mas cada tempo grita diante de Deus pedindo paz. Vamos nos unir ao Papa, na próxima sexta-feira, rezando pela paz.

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Jesus nos ensina a amar a todos a todos como irmãos

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha - 2° Domingo da Quaresma Ano C – 13/03/2022 - missa às 10h) 

As leituras de hoje nos apresentam três figuras do Antigo Testamento que estiveram na presença de Deus, atentos a presença de Deus, mas não viram o rosto de Deus: na primeira leitura, Abraão e, no evangelho, Moisés e Elias.

Quando Moisés estava no Monte Horebe e pediu para Deus: “mostra-me a tua face”. Deus respondeu para ele: “ninguém pode ver a minha face e permanecer vivo, você vai se esconder na fenda da rocha, na caverna e eu passarei diante de ti com toda a minha glória e você vai poder me olhar quando eu estiver de lado mas o meu rosto você não pode ver”. Elias, quando subiu no Monte Horebe, quase 500 anos depois, Deus se manifestou. Primeiro veio o furacão, depois veio a tempestade, depois veio terremoto e Deus não estava em nada disso. Aí veio o silêncio de uma brisa leve e Elias pôs o manto na frente do rosto e saiu de dentro da caverna porque o Senhor estava ali nesse vento. Mas ele não olhou, ele estava com o rosto coberto. Abraão também não vê Deus assim face a face. Estes três apóstolos viram a glória de Jesus, mas Moisés tinha morrido há 1200 anos atrás, Elias tinha morrido há 700 anos antes. Vocês se lembram quando Jesus debate com o pessoal que tinha uma mulher que se casou com 7 irmãos? Jesus fala para Deus todos vivem. Os nossos defuntos estão na presença de Deus.

Mas qual que é coisa que chama atenção neste evangelho? Os apóstolos há um certo momento parecem delirar – São Pedro está fora completamente – porque, podemos dizer, eles viram um pedacinho do céu. São Paulo nos diz “coisas que os olhos não viram, sons que ouvidos não ouviram, isso Deus preparou para aqueles que o amam”. A realidade de Deus ela nos deixa como delirando, por ser grande demais, diferente demais. E aí Pedro começa “ah vamos construir 3 tendas”, mas eles foram lá para rezar, cadê o pano para construir as tendas? Ele está completamente fora e aí acontece que a nuvem cobre tudo. Quando Moisés subiu no monte Horebe para receber as tábuas da Lei, o cume da montanha foi coberto por nuvens de tempestade isso era um sinal da presença de Deus. Então a nuvem que cobre Jesus, Moisés, Elias e os 3 apóstolos indica a presença de Deus. E é muito significativo que Deus fale “esse é o meu filho, o escolhido, escutai-o”. E quando você olha, você encontra Jesus. A glória de Deus se manifesta em Jesus, em Deus que se fez um de nós, um igual a nós para que nós aprendêssemos a nos amar como iguais. Para Deus, não existe gente de segunda, terceira, quarta classe, não existe gente civilizada, mais ou menos civilizada, pouco civilizado e selvagem, existem filhos e filhas. Então é em Jesus que a glória de Deus se manifesta, nesse homem, e mais a glória de Deus vai se manifestar na cruz, no horror da cruz! Nós transformamos a cruz em objeto de culto, nós transformamos a cruz em arte, mas a cruz é um horror, aquilo é um homem torturado colocado ali pendurado naquele pedaço de madeira para morrer! Isso é a cruz e, nesse horror, aparece a glória de Deus para nos mostrar que o que é de Deus é diferente do que nós temos nesse mundo. A transfiguração foi uma coisa assim preparação, quase um sonho, uma consolação para aqueles discípulos suportar depois o escândalo da cruz. De fato, depois da cruz, eles se esconderam, alguns foram embora para poder ver se salvavam a própria pele da mão do governador. Então, em Jesus, se manifesta a glória de Deus. A glória de Deus se manifesta na cruz.

Nós, nesse mundo, às vezes olhamos para força, dinheiro, beleza, na cruz de Jesus não tem nada disso. Na cruz de Jesus tem sofrimento, humilhação, mentira – mentiram para matar Jesus – tem morte, isso é a vida dos inocentes. Isso é a vida dos pobres. Isso é a vida de quem não conta. Isso é a vida das vítimas dos grandes desse mundo que vivem no próprio orgulho, que querem ser senhores do céu e da Terra. Nós temos aí essa guerra que não é outra coisa que a busca imperialista de um lado é a busca imperialista do outro. Quem sofre é o povo, e não todos, ou melhor todos sim, mas entre os que sofrem há os que sofrem mais, porque são considerados segunda classe. Na Ucrânia, os negros não podem subir nos trens, não podem fugir, só os brancos loiros e de olhos azuis, isso são palavras de repórteres europeus e americanos. A força do poder desse mundo realmente é destruidora, separa as pessoas, faz delas menores, pouco civilizadas. Vocês sabiam que no Brasil nós temos uma média de 170 assassinatos por dia? Em 5 anos, 269 mil assassinatos. Sabem quantos mortos teve a guerra na Síria durante esses anos? Em 5 anos, 265 mil mortos. No Brasil, se mata mais do que nas guerras. Por que matamos? Por que nós não nos incomodamos? Porque a grande maioria das pessoas que são assassinadas no Brasil são pretos jovens de periferia. consideradas pessoas e segunda classe. No Brasil, nós estamos tendo a morte de índios de uma forma assustadora nunca teve na história recente – antes mataram muito, é a mentalidade colonialista que faz ver as pessoas como de segunda classe. Ninguém fala nada, não faz notícia, isto é para ver como nós estamos mergulhados dentro dessa ideia que transforma o outro em gente de segunda e terceira classe.

Jesus manifesta a sua glória lá numa cruz e ele não está sozinho, tem dois assassinos junto com ele, homens que estavam envolvidos em homicídio. Deus se manifesta lá onde nós achamos que ele não se manifesta, lá onde nós juntamos as pessoas no lixo, Deus está ali se manifestando no meio deles para salvar a todos para curar o coração de todos. Aprendamos a ver o outro como irmão e irmã, e logo nós começaremos a construir um mundo de paz. Vamos pedir a Virgem Maria, chamada Rainha da Paz, que nos ensine a ver em Jesus crucificado e nos crucificados da vida o rosto de Jesus.

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Diante das tentações, confie em Deus 

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha - 1° Domingo da Quaresma Ano C – 06/03/2022 - missa às 10h) 

O deserto é o lugar da prova, mas é lugar também do encontro com Deus. Quando nós falamos do deserto, nós lembramos o povo que saiu do Egito, eles foram para o deserto. Lembramos de Moisés, Josué, lembramos de Elias que foi para o deserto fugindo da rainha de Jezabel, e ficou lá 40 dias caminhando até chegar no Monte Horebe. O povo de Israel ficou 40 anos no deserto. E o que acontece? Foi no deserto que Deus se revelou a Moisés: “Eu sou aquele que sou e te envio para libertar o meu povo”. Lugar do encontro com Deus. Jesus vai para o deserto com a força do Espírito Santo. e aí ele é colocado a prova. Jesus ser tentado no deserto nos lembra o Jardim do Éden, onde Adão e Eva são enganados pelo inimigo e duvidam de Deus. Jesus ele é colocado à prova de três modos.

Primeiro, o pão. Quando nós falamos de pão nós lembramos o povo também no deserto, que a um certo momento, começou a reclamar de Deus: “Ah, nos tirou do Egito, mas lá a gente tinha panelas de cebola para comer, aqui nós estamos passando fome” Ai meu Deus manda o maná, que nós supomos que fosse como uma resina de plantas, de cactos, ou coisa parecida, nós não sabemos o que era só sabemos que isso matou a fome daquele povo não pensar que era um dez mil pessoas, era um grupo de pessoas... Às vezes certos números ali são exagerados. Depois tem um problema: a tentação de querer a soluções rápidas para a vida e soluções fáceis: “transforma essa pedra em pão”. Não precisa trabalhar, não precisa cultivar a terra, não precisa crescer como pessoa, vamos logo conseguir o resultado final. Essa é uma das grandes tentações de Adão e Eva, quando ouvem “vocês serão como deuses”. Jesus não aceita essa mentira. Não só de pão vive o homem, mas da Palavra de Deus. Deus falou: “com o suor do teu rosto, cultivarás a terra, comerás o teu pão” – é no trabalho do dia a dia.

Depois, a segunda tentação do Evangelho de Lucas: o maligno leva Jesus para o alto de uma montanha, sabe-se lá onde, e ele vê a glória das grandes cidades E aí o demônio faz o que nós chamaríamos uma fake news: “isso tudo me foi dado e eu dou isso para quem eu quiser”. É uma mentira, é uma ilusão, “mas você me adorar vou te dar tudo isso”. Os poderes deste mundo muitas vezes se apoiam na mentira, no despotismo, em corrupção. Tem situações tremendas, mas Jesus não quer esse poder para ele. Tem o poder dos exércitos, o poder das guerras, o poder econômico. Jesus não quer isso para ele, não é esse o caminho.

Depois, o maligno leva Jesus ao pináculo do templo. O pináculo do templo era parte mais alta, tinha até 70 m de altura. O povo no deserto passou sede e até Moisés duvidou de Deus. Aí Deus falou para ele: bate na pedra e vai sair água. E Moisés bateu, pensando ‘mas será que Deus vai fazer isso mesmo? Deus está aqui ou não tá?’. Ou seja duvidou de Deus duvidou da fidelidade de Deus, por isso Deus amaldiçoou o povo, dizendo nenhum de vocês vai entrar na terra prometida, exceto dois: Josué e mais um outro, porque vocês não confiaram em mim. Esse lugar foi chamado Meriba, o lugar da prova. Jesus não só não aceita colocar Deus à prova, como deposita a sua confiança em Deus. Não tentarás o Senhor, teu Deus. Você vai acreditar na sua fidelidade, na fidelidade dele, mesmo nas dificuldades da vida, mesmo nas dores, mesmo na morte. E cuidado: o maligno embrulhou Jesus, nessa terceira tentação, usando a Palavra de Deus.

O maligno pode tentar nos embrulhar com a palavra. A Palavra de Deus tem que ser lida com fé. a palavra de Deus não é livro de adivinhação. Aí eu estou com dor de dente, vou ver que a Bíblia fala, isso é blasfêmia. Na Escritura, devemos buscar conhecer a fidelidade de Deus, seguir Jesus e encontrar luz para o nosso caminho, mas não como respostas de oráculos. A gente pode falar mas essas coisas foram só com Jesus, não gente! Essas realidades são constantes, nós muitas vezes renunciamos a empenhos, a dificuldade de sempre caminhar, a gente se acomoda, isso é modo de querer ter facilidades na vida, respostas fáceis. Nós nos enganamos com os ídolos desse tempo. O povo de Israel se enganou com o bezerro de ouro, eles adoraram o bezerro de ouro no deserto, se enganaram. Nós somos muitas vezes enganados pelos ídolos desse tempo. Um ídolo desse tempo é a estética. Outro ídolo que nós temos que está causando danos terríveis é a bendita da Internet, seria mais a bendita da informação, nós nos convencemos que somos informados. Liga a televisão e ouve um monte de coisa, a gente pensa que está informado, na verdade nós estamos é tontos com tanta informação e terminamos por não participar de nada. São enganos depois nós temos ainda atualidade terrível das fake news, mentiras, olhem bem essa história da guerra na Ucrânia. Quanta mentira dos dois lados – ali não tem nenhum santo não viu, um é um ditador terrível e o outro é um doido varrido neofascista. Nenhum dos dois é bom ali não e tem um bando de doido olhando em volta querendo botar fogo em tudo. Gente, é o mundo da mentira, o mundo do poder. Nós temos que olhar com pinças toda essa situação, tem muitos lados toda essa situação. É uma coisa horrível essa guerra e temos que rezar: colocar em Deus o nosso coração, como Jesus nos ensina, aprender os passos de Jesus procurar a paz, a justiça, a verdade para poder seguir Jesus. E o caminho de Deus não é um sucesso garantido, o caminho de Jesus leva para a cruz, temos o exemplo de Santo André, também como São Pedro, foi crucificado só que era uma cruz em forma de X. Existiam três tipos de cruz: em X, a cruz que se apoiava e a cruz onde se colocava o patíbulo na trave.

Vamos pedir ao Senhor que ele nos ensine a procurar a verdade, que é Jesus, a ter confiança em Deus, a ter confiança em Jesus e não procurar só as respostas fáceis para nossa vida.

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Tempo de voltar ao Pai

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha - Quarta-feira de Cinzas (Ano C – 02/03/2022 - missa às 19h4) 

Olha o apelo que São Paulo nos faz: “Em nome de Cristo, nós vos suplicamos. Deixai-vos reconciliar com Deus”. Essa coisa não parece meio esquisita? A gente não pensa sempre que é Deus que está esperando? São Paulo está falando o contrário. Deus quer nos reconciliar, Deus quer! Nós é que fazemos resistência, nós é que não aceitamos o perdão de Deus, a sua acolhida, porque nós temos medo de Deus, desconfiamos Dele. Nós vivemos ludibriados pelo inimigo que botou esse veneno no nosso coração lá no mito do Éden, no paraíso perdido. Deus quer que nós nos voltemos para Ele. Deus nos ama, e no seu amor infinito Ele deu seu Filho para que Jesus fosse para nós instrumento de salvação. Deixem-se reconciliar por Deus, voltem-se para os braços de Jesus, sigam os caminhos de Jesus. Deus quer a salvação de todos e Ele vai conseguir... Porque, no fim da história, quem vai dar a última palavra é Jesus. Ele vai dar a última palavra.

No Evangelho, nos são apresentados três exercícios que nós chamamos de penitência, de piedade, que são ensinados, recomendados durante a Quaresma. Isso não quer dizer que nós não tenhamos que fazer estas coisas durante o resto do tempo, porém, na Quaresma especialmente: Jejum, com o qual nós começamos a Quaresma no dia de hoje, e com o qual nós vamos terminar a Quaresma na Sexta-feira Santa, nos preparando já para o Tríduo Pascal; a oração, que é nosso diálogo com Deus; e, a esmola.

No tempo de Jesus, existia um grupo que era muito religioso, observantes da Lei, eles tinham um ciúme da Lei que era uma coisa louca. Olha que coisa, pois então, “se você não segue a Lei, a gente te mata”, era assim que eles faziam. E o que acontece? No início eram os fariseus, herdeiros do chamado movimento Macabeu, mais ou menos ano 120, 150 a.C. e era um grupo que cuidava da identidade do povo, e a identidade do povo é a Lei, a Lei que Moisés tinha dado. Mas eles eram muito rigorosos na observância da lei e isso não é mau. E quando isso se torna um mau? Quando você, observando a Lei, começa a fazer isso para mostrar para os outros: “olha aqui, você quer ser um bom católico? Você tem que fazer igual a mim”. E até na igreja está cheio dessas tranqueiras agora. Mas tem um passo ainda pior, “vocês que não seguem o que eu faço, são todos perdidos”. Isso é hipocrisia e arrogância, e se tem coisa que Deus abomina é a hipocrisia e a arrogância. Por isso São Paulo vai dizer: “Deixem-se reconciliar por Deus, mudem essas atitudes, é Deus que vos salva não as vossas ações”. Não é você chegar diante de Deus e dizer: eu fiz jejum, eu botava cinzas na minha cabeça, eu me deitava no saco de estopa, e todo mundo que passava via, “olha esse homem fazendo penitência, que exemplo!”. Não é esse o caminho de Jesus. Como também esse pessoal que dá esmola que fazia tocar sininho para os outros verem, olha tem que dar esmola, olha ali o bom fulano que dá esmola, que maravilha, aprendam a fazer isso vocês que são perdidos. A mesma coisa com a oração, queriam estar sempre nos primeiros lugares, serem chamados de piedosos, para mostrar para os outros que os outros não faziam, que os outros estavam perdidos. Não é esse o caminho de Jesus.

Jesus fala do Deus que vê no oculto, no escondido, quer dizer Deus olha a intenção do teu coração. É isso que ele olha. A tua oração é verdadeira quando você faz sem que ninguém veja, porque na hora que você está com todo mundo ela pode ser verdadeira ou pode não ser, pode ser por conveniência, pode ser por tradição, pode ser realmente por devoção, mas quando você reza sozinho você quer mesmo. Mesma coisa, se você faz jejum tocando trombone para todo mundo ficar sabendo que você está fazendo jejum, era um verdadeiro circo. Pessoas se vestiam de saco de estopa, botava saco de estopa no chão, se sentava em cima, se cobria de cinzas, era uma coisa espetacular. Pode ser que a pessoa esteja fazendo isso por devoção, mas pode ser que esteja fazendo só por show. Se você faz jejum sem que os outros saibam, você no teu coração sabe, e esse jejum é autêntico, o outro pode ser, mas pode não ser. A esmola que você dá tocando sino, ah eu fiz isso, eis sou bom, olha só quanta caridade que eu faço. Ainda bem que no Brasil é proibido dar camiseta, boné, essas coisas, porque antes tinha isso também, você compra voto dando presentes para os pobres, já recebeu sua recompensa, esmola não é assim não, caridade não é assim, ela é gratuita e cuida do bem do outro, não está preocupado consigo, é o bem do outro, é esse que interessa, porque o outro que sofre é a imagem de Jesus, então você está fazendo para Jesus.

“Deixais-vos reconciliar com Deus”. Deus está esperando, Ele já nos deu a salvação no sangue de Jesus já nos deu. Vamos começar a agir como filhos e filhas de Deus, esse é o apelo deste Evangelho, esse é o apelo da Segunda Leitura.

Nós também temos a Campanha da Fraternidade este ano que fala sobre a educação. Nós sabemos que a educação no Brasil nas últimas décadas não tem sido bem cuidada e nos últimos três anos tem sido destruída. Isso é um dano para os nossos jovens, para as futuras gerações. É um dano quando nós não nos preocupamos com a cultura, com a pesquisa, mas não nos preocupamos também com a formação do cidadão, as pessoas facilmente perdem aquilo que nós chamamos de educação cívica, as pessoas não respeitam os outros, tratam o ambiente, as ruas, os terrenos baldios como se fossem casa de ninguém. Jogam lixo, desrespeitam as pessoas, não se interessam pelos outros, isso é deseducação cívica.
Papa Francisco nos chama a ser educadores da pessoa inteira, nós temos que cuidar que a pessoa seja totalmente formada a imagem de Jesus Bom Pastor. Ele indica o caminho, o amor ao próximo até a morte, o respeito pelas pessoas, o cuidado com os que sofrem, os doentes, com os pobres, e rejeitar tudo aquilo que é contra isso. Isso é educação integral, e para nós, católicos, nos educar no conhecimento e no seguimento de Jesus.

Eu já perguntei isso muitas vezes, eu faço o povo passar vergonha, eu não vou perguntar quem já leu o Evangelho de São Lucas, porém, como eu gosto de fazer estes desafios, deixo a vocês uma sugestão para a oração, depois ainda tem o jejum e esmola. Para oração: ler durante a Quaresma o Evangelho de São Lucas, é o evangelho que estamos lendo este ano. Para quê, padre? Para conhecer Jesus, para poder dizer eu fui ver com os meus olhos quem é Jesus. Eu fui ver. Jesus tem que ser o centro da vida de cada um de nós, mas isso só vai acontecer se nós conhecermos Jesus. E o primeiro passo é ler o Evangelho. Conhecer o Senhor para aprender agir e pensar como ele.

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Rezar pela paz e abrir nossos olhos para agir como Jesus

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha - 8º Domingo do Tempo Comum (Ano C – 27/02/2022 - missa às 10h) 

“Jesus está falando para os seus discípulos que serão formadores da comunidade, mas todos nós, batizados de algum modo, somos também anunciadores e formadores dos outros. E qual é a medida? A medida é a do Mestre, e a medida do Mestre é a cruz.

Jesus quer que nós aprendamos a ver, a descobrir aquelas coisas em nós que não são do evangelho, que não são de Deus, para que nós comecemos a tirar essas coisas da nossa vida, porque se nós não fazemos isso, nós simplesmente vamos levar para os outros as maldades que estão no nosso coração e não vamos anunciar Jesus coisa nenhuma!

Quando o evangelho diz “pode um cego guiar outro cego?”, se você não tem Jesus no seu coração, se você não olha para Jesus constantemente, se você não se mede com Jesus, você não tem a luz. E, mesmo que você fale de Jesus, você vai levar o outro para o buraco porque você não está se medindo com Jesus.

Tire a trave do teu olho. Se eu tenho um cavaco enfiado no olho, se pensarmos, é muito mais fácil tirar este cavaco que você está vendo do olho, do que tirar um cisco. Para tirar o cisco do olho de outra pessoa, você tem que estar com o olhar muito bom, então temos que trabalhar o nosso olhar, e o nosso olhar tem que ser Jesus.

Às vezes a gente não tem um cavaco no olho, às vezes temos uma árvore inteira enfiada no olho e não conseguimos ver. Vamos olhar Jesus. E as nossas árvores, os nossos cavacos aparecem em todos, todos! Jesus nos dá o critério, escute o que você fala porque do jeito que você fala é o que está no teu coração, revela o que você tem dentro. Se você fala com raiva, se você fala com ódio, se você fala com desejo de vingança, se você amaldiçoa os outros, se você fala mal dos outros, se você inventa, se você mente, comece a escutar o que você fala, isso revela o que você tem no coração!

E, se você se escuta, e depois escuta a palavra de Jesus, você tem uma chance de começar a mudar. “Gente, eu falo mal dos outros, mas Jesus não fala mal dos outros... eu tenho que aprender a não falar mal dos outros! Na boca de Jesus só tem bênção. Eu vivo amaldiçoando os outros, eu vou parar com isso. Jesus cuida dos que sofrem, eu não estou nem aí com esse monte de pobre que tem por aí... opa, esse caminho não é de Jesus!”.

Jesus cuida das pessoas que sofrem. Vamos nos aproximar mais, ser misericordiosos, dar atenção para as pessoas, a nossa vida muda, e a medida do amor é sempre Jesus e a cruz. Ninguém tem mais amor do que aquele que dá a vida pelo outro! Isso é o que Jesus fez, isso é o que todos os discípulos e discípulas têm como medida: dar a vida pelo outro.

Muito bem, esse é o evangelho de hoje. Só que esses dias a gente só escuta falar de uma coisa, a gente liga a televisão, até lá no Instagram, do que é que estão falando? Só falam disso hoje: da guerra. Guerra, aí vem o povo com medo, terceiro segredo de Fátima e não sei o que... Primeiro que se fosse segredo não tinha que ser revelado! Tem muita invenção por aí, muito medo.

A situação da guerra é sempre injusta, toda guerra é injusta. Não existem inocentes entre aqueles que promovem a guerra, entre os grandes senhores do mundo, não existem inocentes não! Inocentes são aquelas pessoas que estão debaixo das bombas, é a população que não tem nada a ver com as doidices dos governantes. Mas tem coisas que dá para entendermos sobre essa guerra.

Eu tenho amigos lá na Itália, em Portugal, e eles estão com o risco ali do lado, nós estamos longe, então podemos falar com mais distância emotiva. Nenhuma guerra se justifica, mas tem muita coisa que explica essa guerra: uma delas é o fato de a OTAN estar cercando a Rússia por todos os lados, e a Rússia está simplesmente doida. Eles vão fechar as fronteiras todinhas em volta da Rússia, só falta a China e a Índia, então o homem está doido. Muita coisa poderia se resolver na diplomacia, mas como você tem um louco, Putin é um louco, um autocrata, um tirano, que vai tentar ficar no poder até 2036, ele faz essa loucura.

Porém, lá na Ucrânia também existe um louco, um doido, um homem que fala para a população montar coquetéis molotov para enfrentar tanques de guerra, para enfrentar helicópteros, aviões, esse sujeito é um louco irresponsável, um criminoso. Isso para nós vermos que entre esses senhores não existem inocentes.

Vai virar Terceira Guerra Mundial? Provavelmente não, ninguém tem interesse na Terceira Guerra Mundial. A Rússia tem muita influência no mundo econômico, por isso não vão tirá-la do tal SWIFT [Sociedade de Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais], se fizerem isso acabam com a economia do mundo inteiro!

O grande problema dessa guerra é que se dá muita importância para ela e não se olha para outras situações igualmente terríveis. Na Líbia, acabaram com o Gaddafi [antigo governante], que era outro louco, e olha o que sobrou. No Iraque, tiraram o Saddam-Hussein [antigo governante] que era outro doido, tirano, terrível, e olha o que sobrou. O Putin quer acabar com o presidente da Ucrânia, e foi exatamente isso que fizeram. Isso é para mostrar que não há inocentes! Você grita “ah, vamos promover a paz”, mas você promoveu a monstruosidade dois minutos atrás.

Pensem na situação do Iêmen, um país que está ao lado da Arábia Saudita: estão acabando com aquele povo! Fome, fecharam todos os corredores humanitários. Quem já ouviu falar do Iêmen? Poucos. Pois quem está pisando neles? A Arábia Saudita, que é amiga dos Estados Unidos. São interesses tremendos desses senhores, e muitos deles são loucos, que nem o nosso louco aqui que foi visitar o outro louco.

Nós, que estamos longe, qual é a nossa possibilidade? Ficar vendo esses jornais o tempo inteiro amaldiçoando o Putin, fazendo torcida pela OTAN? Não! A guerra é injusta, a guerra é uma monstruosidade, e quem sofre é o povo. Nós, de longe, o que podemos fazer? Rezar, isso nós podemos. Pedir para que Deus coloque um pouco de luz na cabeça desses doidos porque toda essa questão poderia ter sido resolvida com diplomacia, com plebiscitos, poderia. Mas não com guerra, não criando esse medo, essa tensão terrível no mundo inteiro.

E tem muita gente que ganha com isso, muita. Aqui no Brasil os ricos enriqueceram com a pandemia 20%, olha que desgraça, e para o povo aumentou a pobreza. Esses grandes senhores guardam grandes interesses; nós temos que pedir a Deus luz e graça. Luz para esse bando de doidos, e paz para o povo, paz.

A Ucrânia elegeu um neofascista e está pagando as consequências. Nós elegemos um doido e estamos pagando as consequências. Nós temos sempre que estar atentos à vida, à verdade, à liberdade. E a guerra é também guerra de mentiras, é terrível a fábrica das mentiras. Na guerra não há nada de bom, nada.

Vamos manter os nossos corações em Deus, rezar para que esse negócio acabe logo, que esses grandes loucos do mundo se entendam, porque quem se dana são só os inocentes.

Vamos pedir a Deus que nos dê paz e luz."

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Como amar nossos inimigos?

Homilia: Pe. Bennelson da Silva Barbosa - 7º Domingo do Tempo Comum (Ano C – 20/02/2022 - missa às 10h) 

A liturgia desse domingo nos faz refletir sobre um tema muito importante para a nossa fé cristã: a nossa relação com os nossos inimigos e com aqueles que se opõem aos valores evangélicos que abraçamos. Vocês acham que é todo mundo que gosta gente? Tem gente que não gosta da gente por natureza, só de olhar ‘eu não gostei’, como fosse uma coisa, não é? E quem tem essa mania de chegar e falar ‘meu santo não bateu com o dele’? Bom, cada um é um. Só que o evangelho de hoje é um convite a aprender a lidar com essas situações, porque tem gente que tem uma lista de inimigos, gente intrigada, que fala: ‘se uma pessoa estiver lá, eu nem vou’. Isso quer dizer que você se tornou um escravo do seu ódio, da sua indiferença e Jesus está falando ‘olha, vocês precisam a lidar com os seus inimigos, com as pessoas que vocês não sentem atração’, porque tem pessoas que não gostam da gente e está tudo bem. Vocês acham que eu gosto de todo mundo? Não, eu não gosto de tudo mundo, mas eu sou convidado a amar todo mundo, e amar é respeitar. Nós temos que prestar muita atenção nisso. É bom perdoar? Sim, mas o melhor é a gente prestar atenção para não magoar as pessoas, isso é melhor. Tem muita gente que prega muito sobre o perdão, é verdade, mas também vamos pregar para as pessoas pararem pra pensar no que fazem para não complicar a vida dos olhos? Tem gente que fala ‘a fulana me chateou’, mas presta atenção também no que você faz, será que aquilo que eu faço é bom?

Ontem mesmo eu saindo da missa e uma pessoa me parou para falar mal do Papa, aí eu fiquei assim e pensei ‘Jesus amado, toma conta’, porque parece uma tentação para ver o que você vai falar, o que você vai fazer. Agora vocês acham que eu gostei dessa conversa? Mas eu fiquei quieto, boca fechada, eu só escutei, mesmo com aquela tentação, falando mal do Papa, a pessoa esqueceu de ler esse evangelho. Então, se eu entro na lógica dele, porque ele tocou num assunto que não gosto... Ainda bem que eu tinha acabado de sair da missa e estava com a cabeça no lugar, porque senão eu ia brigar com aquele homem. Aí vem a história da Primeira Leitura de hoje, Davi, um homem jovem, ungido, futuro rei de Israel, que tinha um rival que é Saul. E Saul pintou e bordou na vida de Davi, por quê? Ciúmes, inveja, queria acabar com a vida de Davi de qual quer jeito. Só que aí, diz a leitura, que estava uma disputa de Saul com Davi, e ele ia atrás de Davi para matar o Davi, mas chegou num momento que quem bobeou foi Saul, ele e a equipe dele estavam dormindo. Foi aí que alguém perto de Davi falou: é agora que vamos pegar esse safado. Mas Davi se deu conta que ele não podia matar esse homem, pois ele é ungido de Deus, se eu matar esse homem minha vida vai para o “beleleu”. E é assim mesmo, gente, nós não podemos pagar o mal com o mal, por mais que alguém esteja nos prejudicando, falando ou fazendo a gente sofrer, isso não nos dá o direito, pois isso atrapalha a vida espiritual. Cuidado para você não ficar se vingando das pessoas. E aí Davi, movido por aquele Espírito de Deus, diz ‘não, eu não vou fazer isso’ e a vida de Saul foi poupada. E Deus vai honrar a aliança, Davi vai se tornar rei, mas não pela morte de Saul. Então nós temos que aprender a esperar. Às vezes nós ficamos brigando com as pessoas para nos defender, fica falando de mais, e isso traz tanta confusão na família. Você que está casado e não confia na sua esposa ou no seu esposo, tem alguma coisa errada ou, no trabalho, que tem aquela criatura falando, cobrando, quem aguenta e dentro de casa, sempre tem aquelas criaturas que não tem paz, que não está bem, chega dentro de casa atazanando, quem aguenta? Ninguém né. Então a gente tem que pensar, realmente...

Na Segunda Leitura de hoje, São Paulo explica sobre o primeiro homem que é Adão, um homem terrestre, um homem que infelizmente pelo pecado deixa o projeto de Deus e aí vem o segundo homem, o homem celeste que é Jesus, o próprio Cristo, é Ele quem restaura todas as coisas e aí ele continua fazendo essa catequese da ressurreição, porque essa comunidade tinha uma dificuldade imensa de entender que o princípio da nossa vida é a vida eterna e quando a gente se batiza, nós tornamos novas criaturas. É isso, nós vivemos nesse mistério, a gente mergulha na misericórdia de Deus e pode viver com toda a dignidade. Quando estamos aqui ou em qualquer igreja, Deus deixa os nossos pecados lá para fora, e a gente agradece: ‘Senhor, obrigado de ser dignos de estar aqui e vos servir’. Gente, vocês tem noção que, quando vamos à igreja, Deus reveste cada um de nós? Por isso que é importante participar, porque é de uma profundeza, Deus vai nos tocando na nossa alma. Duas semanas atrás, eu fiz um retiro num mosteiro e as irmãs que vivem lá não saem, né? Aí a irmã foi me revestir, que é uma coisa muito sagrada, quando ela colocava a roupa em mim, eu sentia a força de Deus; eu falei ‘Jesus, eu não sou digno de ser revestido por tanta santidade’, porque aquela mulher só faltava voar de tão santa que ela era e eu sentia esse amor. E esse amor que Ele tem por cada um de nós, veja o evangelho de hoje, Ele dá a graça para os ingratos e para os malvados. Se Ele faz isso para quem a gente acha que não presta, imagina conosco que se esforça?! Porque eu creio que todo mundo aqui está se esforçando para viver a santidade.

O evangelho é a continuidade do ensinamento das bem-aventuranças da semana passada, lembra? Aquele programa de vida: bem-aventurados são aqueles os pobres, aqueles que promove a paz, aqueles que são perseguidos. Jesus vai trabalhando a nossa consciência. Hoje Ele vai tocar naquela feridinha nossa, a nossa raiva de cada dia com as pessoas, e vai falar: ‘Olha, vocês não podem agir assim, vocês não podem tratar as pessoas maldosas com maldade’. Aqui é outra lógica, o agir cristão vai além, não é pagar o mal com a mesma moeda, o amor cristão inclui perdão, diálogo, a construção da paz, por meios específicos, pacíficos. Então você tem sempre que avaliar como que você fala, o tom de voz, que hora que você está falando, em que espaço, para quem eu vou falar, pois se falar de qualquer jeito dá confusão. Tem hora que cansa, mas você tem que ser paciente, sede misericordioso como vosso Pai é misericordioso. Deus é misericordioso comigo, por que eu não posso ser com todas as criaturas?

Nós temos que parar, gente. ‘Mas padre o que devo fazer?’. Eu vou falar para vocês o que eu faço e muito: é orar, não é que Jesus está falando aqui? Orai por aqueles que vão contra os seus próprios valores. Meus irmãos não são meus inimigos só que eles não vivem a mesma vida do que eu, então é tentar conversar e ir na fé. Eu creio na misericórdia, pois não dá para desanimar, pois Deus conta comigo e Deus também está contando com vocês. Deus está contando com vocês mesmo com todas as dificuldades que você está passando, então não é para ficar parado, chorando. Vocês vão aprender a lidar com as coisas da vida. É isso que Jesus nos faz. É por isso que toda a missa que você participa Deus vai mostrando para nós: ‘Quando você sair por aquela porta, não é para ficar lamentando, é para ter consciência’. Aí eu volto para aquela cena de ontem, naquele homem que foi me levar, falando mal do Papa, se eu não estivesse ligado tinha entrado na dele, mas eu não entrei. Deixa ele falar, ele acha que está certo, deixa, uma hora Deus cutuca dele, não é que Deus vai fazer mal a ele, Deus vai cutucar e falar acorda, feche sua boca, para de jugar, seja mais humilde. Esse negócio de cuidar da vida do outro é feio, nós temos essa mania, aí você fala ‘mas padre só estou fazendo um comentário’, mas não é comentário, é fofoca e fofoca é coisa do demônio. Agora porque você não abre essa boca santa para abençoar ou elogiar? Não economiza isso, isso nós podemos fazer, mas a gente não faz. E isso é dentro de casa, um membro da nossa família faz uma coisa simples e já achamos que é uma obrigação. Abre o olho, porque você não está entendendo nada, tem coisa que nós fazemos nessa vida, não como uma obrigação, mas porque nós temos um amor profundo pelas pessoas: cuidar de uma casa, fazer comida todos os dias, lavar roupa, sair cedo para trabalhar, pegar trânsito e vocês acham que é apenar uma obrigação?! Oh, nós temos que acordar. Vir aqui na igreja, servir como o pessoal da acolhida, a pessoa que fica colocando o álcool nas mãos das pessoas, outro fica medindo a nossa temperatura, é obrigação? Isso é amor! O povo que vem como ministro, a pessoa que vem fazer leitura, o povo que canta, isso é puro amor! E a gente tem que ver a vida nessa expectativa, pois senão a gente acha que tudo é obrigação e não é. É porque alguém é tocado e quando você é tocado, você se torna misericordioso. A palavra misericórdia é a gente aprender a lidar com as misérias nossas, mas também da humanidade, eu não vou ser jogado fora, porque é tão triste a gente ser jogado fora, talvez por meus erros, eu vou ser jogado fora? Não, pelo contrário, Deus vai cuidar de mim e é isso que nós temos que fazer também, cuidar das criaturas que andam soltas por aí, sem amor e sem juízo. Que o Senhor nos dê essa capacidade de amar profundamente e acordar, porque a vida só vale se for vivida no amor – por isso que Jesus insiste ‘O amor. Acima de tudo, o amor’.

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Que saibamos cuidar dos irmãos mais necessitados

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha -  6º Domingo do Tempo Comum (Ano C – 13/02/2022 - missa às 10h) 

O Evangelho de Lucas é chamado de “O Evangelho dos pobres” porque Lucas vê Jesus como aquele que veio trazer a salvação aos que sofrem. Deus é aquele que vê a realidade do avesso. É muito estranho quando as pessoas têm coragem de perguntar quem é pobre. Pobre é quem passa fome, quem não tem o pão. Pobre é quem não tem casa, não tem saúde. Pobres são também as pessoas que são marginalizadas e de, algum modo, são considerados gente de segunda classe. A maioria, ou talvez 100% de nós, é apenas pobre remediado. Quem vive de salário é pobre remediado. Quem não tem 1 milhão para jogar na Bolsa de Valores todo dia – e tanto faz se ganha ou perde esse dinheiro – não é rico, é pobre. Então vamos tirar da cabeça que, se conseguimos alguma coisa – às vezes com o salário de uma vida inteira –, nós somos ricos. Somos apenas pobres remediados e temos que parar de “arrotar peru” se o que a gente come é ovo e abobrinha. Porque nem dá para comer carne todo dia.

Porque Jesus fala isso? Porque a salvação de Deus começa de baixo. Para salvar a todos, quando você pensa a partir dos excluídos, dos que não têm nada, você não exclui ninguém. Porque os que têm já pensam por si mesmos, no seu grupo. E por que a salvação começa de baixo? Por uma questão de justiça. Se olharmos em certas estatísticas, vamos ver que 2% da população brasileira, os mais ricos do Brasil – bancos inclusive –, ganharam uma fortuna na pandemia e aumentaram em até 20% seu patrimônio. Como podemos anunciar a salvação para esse povo?

Deus anuncia a salvação para quem nesse mundo não tem salvação, para quem nesse mundo vive de injustiça. E não é para dizer que os pobres são bons. Pobres são iguais a todo mundo. As mulheres são todas boas? Não. Mas a mulher, na nossa sociedade, ganha o mesmo que o homem trabalhando na mesma função? Os pretos sabem o que significa ser preto. Você vive com medo de ser parado pela polícia só por causa da sua cor de pele, o que é um absurdo. Isso é ser excluído. O Brasil é o país que mais mata travestis no mundo. Isso é machismo barato, intolerância. E está piorando.

Deus quer fraternidade. Deus é pai de todos e de cada um. Então, para Deus, somos todos irmãos. E, se somos irmãos, temos que agir como tal. Irmão não rouba o outro e, se o outro está sofrendo, ele cuida. Ele não bota o outro para fora, mas sim o ama. Este é o caminho de Jesus. Mas esse discurso não agrada porque muitas pessoas querem ter ainda mais. Para quê, não sabemos.

Eu lembro de um líder, um destes ditadores que estava na África e cujo governo dele havia dado um golpe. Quando foram para a casa deste homem, acharam um container cheio de dólares. Mesmo que esse homem vivesse 250 anos, ele não conseguiria gastar aquele dinheiro. Então por que queria? Deus olha pelo avesso. A pobreza é fruto da injustiça, da má distribuição, do desprezo pelo outro. Querer tirar dos outros mesmo que comigo, em excesso, as coisas apodreçam.

Hoje, no mundo, produzimos praticamente o dobro do que precisamos de comida. Produzimos comida para 14 bilhões de pessoas e somos somente 7,5 bilhões. E existem milhões de pessoas passando fome. Porquê? Porque não pensam no outro como irmão, mas sim como lucro. “Eu vou pegar um navio e colocar comida para mandar para o outro lado do mundo? E o dinheiro que vou gastar? Não, fica aqui. Melhor apodrecer e jogar fora. Eles que fiquem passando fome lá. Eu não vou ganhar nada”. Essa é a mentalidade do mundo. Mas não a de Deus. Deus quer que todos vivam e, por isso, a salvação vem das bordas pois é o único modo de salvar a todos. A Virgem Maria, no cântico do Magnificat, cita “derruba os poderosos de seus tronos e eleva os humildes, sacia de bens os famintos e despede os ricos sem nada”. O Teólogo brasileiro Leonardo Boff diz que Deus faz isso para dar uma chance para essas pessoas se converterem e descobrir o amor pelos outros. Não é o acúmulo desmedido que faz as pessoas serem irmãos, mas sim a partilha. Nós tivemos e temos hoje muitos católicos que têm muito dinheiro. É pecado? Não. Mas desde que tenha partilha, cuidado e respeito pelos outros.

Vamos pedir ao Senhor que Ele ajude a nós, pobres remediados, a cuidar dos mais pobres. Que nós possamos aprender também a não ver os outros como pessoas de segunda classe. E isso é algo que devemos aprender bem porque essas raízes estão enfiadas no nosso coração e são difíceis de arrancar. Vamos aprender a respeitar os pretos, os gays, as mulheres e todas as outras minorias. O número de assassinatos de mulheres no Brasil é uma coisa assustadora. Temos que aprender a respeitar no nosso modo de falar e no nosso modo de agir. Comece pelo modo de falar e não faça piadas com as pessoas. Respeite-as. Com pequenos passos, quem sabe, um dia, conseguiremos estar mais pertinho do Reino de Deus.

Semana passada não pude vir rezar a missa porque estava com COVID. Já fiz um novo teste e deu negativo. Tive pouquíssimos sintomas graças à vacina. Vamos nos vacinar! Quem ainda não se vacinou, saiba que vacina não faz mal para ninguém. Tome a segunda dose quem ainda não tomou. Quem já pode, tome a terceira. Vacinem também as crianças. É a única arma que temos contra essa pandemia. Não caiam em conversa mole. A maioria das pessoas que hoje está morrendo por causa da variante Ômicron não se vacinou. Não acredite nas mentiras daqueles que querem ver a morte do povo. Vacinem-se e incentivem as pessoas a se vacinarem pois é a única arma que temos. Remédio para piolho, é para piolho. Coronavírus não é piolho. Vamos cuidar uns dos outros também pois, quando eu me vacino, eu cuido das pessoas. Um católico nunca poderia colocar em questão as vacinas. Isso é obscurantismo, é ser filho da morte. Deus nos deu a ciência e os remédios para que nós possamos usá-los e a inteligência para descobri-los.

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Pescar, de fato, e anunciar ao mundo as palavras de fé

Homilia: Pe. José Ailton Teixeira -  5º Domingo do Tempo Comum (Ano C – 06/02/2022 - missa às 10h) 

Queridas irmãs, queridas irmãos, ministros, ministras, leitores, cantores e animadores da Santa Missa, louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

Neste 5º domingo do tempo comum, somos convocados por Deus e enviados por Jesus Cristo para uma missão nobre de evangelizar com verdadeiro ardor missionário. As leituras hoje nos levam a esta realidade. A primeira do profeta Isaías, quando Isaías se põe pronto a servir: “Aqui estou! Envia-me!”, depois de ter pedido que seus lábios fossem purificados com aquela brasa ardente porque ele se achava indigno de assim anunciar a palavra de Deus.

Ele purifica, por isso que nós padres antes de proclamarmos a Palavra de Deus sempre dizemos: “Senhor, purificai-me coração e lábios para que anuncie dignamente o vosso Santo Evangelho”. Isso já era antes do próprio Cristo, no Antigo Testamento; Isaías purifica com a brasa ardente os seus lábios porque se achava um homem impuro com seus lábios de proclamar a Palavra de Deus. Como Isaías, nós também devemos ter esta capacidade depedir a Deusque purifique não somente os nossos lábios, mas o coração, para que, purificados, nós possamos anunciar ao mundo e aos homens esta palavra de vida, de fé e de esperança.

Por isso, minhas irmãs e meus irmãos, é que Paulo, escrevendo aos cristãos de Corinto, diz: “é isso o que temos pregado e é isso que crestes”, de que a palavra que Jesus ensinou é palavra de vida, de esperança e salvação para toda a humanidade. Mesmo para aqueles que tenham se afastado do convívio, mesmo daqueles que tenham deixado a convivência desta palavra ou a convivência com os irmãos e irmãs. Mesmo assim Deus não nos abandona! Nós até o abandonamos, quantas vezes? Mas Deus continua conosco. No momento em que voltamos somos admitidos para continuarmos a missão que recebemos no início da nossa vida ou quando fomos batizados.

O evangelho hoje, de Lucas, este capítulo 5, versículo de 1 a 11, deixa bem claro qual é a nossa missão: deixar tudo e seguir prontamente os passos do Mestre. Não sei se as senhoras se lembram, mas quando, pela primeira vez no Brasil, depois do Concílio Vaticano II, foi proclamado no Brasil o primeiro ano vocacional nacional, proclamado pela CNBB em 1983, era justamente esta frase do evangelho de Lucas que hoje nós lemos: “Avancem para águas mais profundas! Lançai as vossas redes”.

Justamente a partir deste momento Pedro e seus companheiros deixaram tudo e seguiram prontamente o Mestre. Jesus pede que eles lancem as redes em águas mais profundas! Eles ficaram assustados porque já tinham passado a noite inteira numa pescaria e não tinham conseguido nada. Então, diante das palavras de Jesus Cristo, eles lançam as redes e ficam tão absortos com a quantidade de peixes, que ficaram abismados, admirados, e deixaram tudo e seguiram o Mestre, prontamente seguiram os passos do Mestre! “Quando acabou de falar, disse a Simão: ‘Avança para águas mais profundas, e lançai vossas redes para a pesca.’”

A pesca foi tão grande que foi preciso outras barcas que estavam vizinhas ali dos seus companheiros para ajudar a trazer para as praias as redes superlotadas de peixes de todos os tamanhos. Assim, amadas e amados de Deus, como naquele tempo, nós também hoje somos convocados de uma forma diferente, mas tendo sempre essa presença daquela pescaria tão milagrosa que Jesus permitira com os pescadores, e continua a nos dizer “lançai as redes em águas mais profundas”, e vamos pescar de fato.

Vemos então, desde aquele tempo, em 1983, quando fizemos a primeira campanha de vocações da igreja, sempre, sempre temos passado por momentos importantes. Momentos importantes no tocante às vocações, não só sacerdotais, mas vocações à vida religiosa na parte feminina, e homens e mulheres que se doam, se entregam, renunciam a si mesmos e se lançam nas águas mais profundas. Não somente do mar, mas da vida,da pastoral vocacional, quer para sacerdócio, quer para vida religiosa, ou mesmo entre os casais com as diversas pastorais que hoje nós temos na igreja.

A fonte, amados e amadas de Deus, é este trecho do evangelho de Lucas [Lc 5, 1-11] em que Jesus diz“lançai as redes para as águas mais profundas”, e tenham a certeza, amados e amadas de Deus, se assim fizermos, com confiança, Deus vai nos atender, Deus vai nos escutar, Deus vai nos ouvir e vai fazer com que nossas redes sejam cheias de vocações. Não só para o sacerdócio, não só para a vida religiosa, mas vocações em todos os níveis, pais, mães, casais que também se consagram a Deus, na educação familiar, na educação dos filhos, na instrução religiosa para que assim nós possamos ouvir estas palavras de Jesus Cristo:“deixaram tudo e seguiram o Mestre”.

Ora, é preciso que nós estejamos disponíveis, estejamos despojados e abertos àquilo para o qual Cristo nos chama:“vinde e farei de vós pescadores de homens” – não mais de peixes, mas pescadores de homens e mulheres para a igreja, para evangelizar. Como dizia o Papa João Paulo II, hoje São João Paulo II, com o verdadeiro ardor missionário, isto é, de anunciar ao mundo e aos homens esta palavra de vida, esta palavra de fé, esta palavra de amor, de doação, de renúncia e de entrega total.

Sejamos homens e mulheres disponíveis, abertos e acolhedores daquilo que o Senhor nos chama; aliás, pelo Batismo nós já somos convidados a sermos homens e mulheres lançando as redes em águas mais profundas. Não precisa mais ser no mar como no tempo de Jesus, com os apóstolos, naquelas barcas em alto mar, mas no mar da vida, no cotidiano da nossa caminhada com nossos parentes, amigos e a vizinhança com a qual convivemos.

Sabemos, também, pelo nosso exemplo, pelo nosso testemunho de verdadeiros cristãos e cristãs, homens e mulheres, casais que se doam, que renunciam a si mesmos para doarem-se aos outros na evangelização, como fizera Jesus Cristo. E Jesus Cristo nos convida, através dos apóstolos a quem Ele os envia: “ide por todo mundo e fazei discípulos meus todos os povos”. Como? Batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Essa, amados e amadas de Deus, é a minha, a sua, é a nossa missão: evangelizar com verdadeiro ardor missionário.

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Deus se faz presente

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha  -  4º Domingo do Tempo Comum (Ano C – 30/01/2022 - missa às 10h) 

Na leitura, eu alterei duas palavras que estão na nossa tradução, porque elas não mostram bem a situação de conflito que se estabeleceu na sinagoga de Nazaré. Semana passada Jesus tinha falado que Ele veio para anunciar a Boa Nova aos pobres, a liberdade aos presos, a visão aos cegos, a liberdade aos oprimidos, o ano da graça do Senhor. Os galileus eram pessoas de cabeça muito quente, amavam uma revolta. É um problema tanto que revoltoso era sinônimo de Galileu, ou melhor, Galileu era sinônimo de revoltoso ou de gente de cabeça quente. O povo de Israel estava todo na espera de um Messias, um Messias político que fosse restaurar o culto do templo, expulsar os invasores de Israel aí no caso eram os romanos, fazer de Israel a maior nação do mundo, era isso que eles esperavam. E os galileus esperavam isso, começando com uma revolta. “Vamos levantar o povo, vamos expulsar os romanos, vamos mudar a liturgia do templo, vamos fazer tudo porque o Messias vai nos guiar”. É isso que eles esperam.

Aí Jesus lê essa passagem do profeta Isaías e pula última frase “o ano da vingança do nosso Deus”, era isso que eles queriam ouvir, e não ouviram. Aí ficam, mas espera aí, que conversa é essa de graça? Que conversa é essa? Esse rapaz não é filho do José? Não é um dos nossos? Ele não pensa que nem nós? E Jesus vai mais longe ainda, diz: vocês vão querer que eu faça aqui as mesmas coisas que eu fiz lá em Cafarnaum, mas vocês não têm fé. E aí então Jesus vai instigar ainda mais aquele pessoal. Os galileus eram extremamente nacionalistas e Jesus vai dizer: Deus, no tempo de Elias, mandou ele cuidar de uma viúva estrangeira, fora da terra de Israel. A salvação também é para eles. No tempo de Eliseu, que era outro profeta, Deus fez Eliseu curar um sírio, um pagão, gente de outra terra. O que Jesus está dizendo? Deus não é propriedade de vocês, Deus está aqui no vosso meio, anunciando uma mudança de mentalidade e vocês não querem ouvir porque vocês estão cegos, pelo vosso nacionalismo e pelo vosso messianismo. E o que acontece? Eles pegam Jesus e vão levá-lo para o alto, para jogá-lo de um penhasco. Eles consideram Jesus um blasfemador. Ser atirado de um princípio ou ser apedrejado até a morte era a mesma coisa era punição para os blasfemadores. Mas Jesus, com a sua autoridade, passou no meio deles e seguiu o seu caminho.

 

Gente, isso é assustador! A graça passa e se nós não a acolhemos, ela passa. O povo de Nazaré não viu passar a presença de Deus, ficaram fechados no seu pensamento, mas a mesma coisa aconteceu depois com Jerusalém, Jesus também foi anunciar o evangelho lá. Jesus também anunciou o evangelho da salvação, mas isso o povo não queria saber, tanto que o sumo sacerdote vai lá e fala: é melhor que um homem morro que toda a nação sofrer com a invasão aqui dos romanos. Eles queriam é salvar a própria pele, defender os próprios interesses, não estavam interessados na palavra de Deus, por isso Jesus um dia Monte das Oliveiras – do Monte das Oliveiras, você vê o vale e você vê Jerusalém do outro lado – Jesus chora sobre Jerusalém e ele fala: Jerusalém que matas os profetas quantas vezes eu quis reunir os vossos filhos debaixo das minhas asas que nem a galinha reúne os pintinhos mas vocês não foram capazes de reconhecer o tempo vocês se foram visitados. Olha que coisa, 1800 anos esperando a visita de Deus e não foram capazes de reconhecer Deus porque não aceitaram mudar de mentalidade, ficaram fechados na sua ideia de Deus. Deus tem que ser como eu quero. Só que Deus não é como nós queremos. Deus passa e nós não percebemos! E cuidado nós também hoje podemos cair nesse erro. A graça de Deus passa na nossa vida todos os dias e nos desafia a crescer, mudar de mentalidade, abrir o coração e nós muitas vezes não queremos. A realidade está gritando nos nossos olhos, mas nós não queremos. E quando você não quer, nem que Deus apareça na tua frente você vai mudar.

Nós temos realmente que pedir a Deus que Ele nos ensine a ouvir a sua palavra, a deixar que essa palavra entre na nossa vida, que nem água que tira a sujeira, para que nós possamos realmente ver pensar e agir que nem Jesus, no nosso tempo, dos nossos jeitos, mas agir hoje conforme o evangelho. Se nós não fazemos isso, acontece com a gente igual aconteceu com o Jerusalém. Jerusalém se fechou no seu coração, se fechou nas suas ideias, não quis reconhecer o caminho que Jesus apontava. Quarenta anos depois da morte e ressurreição de Jesus, Jerusalém foi destruída. Depois no ano 135 o imperador Adriano mandou derrubar tudo na esplanada do templo, sobrou só o muro das lamentações. Porque não souberam reconhecer o tempo da visita de Deus. Peçamos ao Senhor que nós como igreja, como pessoas, como discípulos e discípulas de Jesus sejamos capazes de reconhecer essa passagem de Deus.

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Que o Senhor nos dê também a visão do avesso

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha  -  3º Domingo do Tempo Comum (Ano C – 23/01/2022 - missa às 10h) 

São Lucas era médico e uma pessoa muito instruída. E existiam já outras comunidades que tinham alguns escritos sobre Jesus, como a comunidade de Roma que possuía o Evangelho de São Marcos. E Lucas decide, ele também, fazer um relato dos acontecimentos. E ele apresenta, de forma ordenada, para que mostrasse a solidez da fé que nós professamos. Ele fala “caríssimo Teófilo”. Teófilo pode ser uma pessoa, mas pode ser cada um de nós. Teófilo significa “Filho de Deus”. 

 

O Evangelho de Lucas segue, o quanto possível, uma linha histórica. E ele apresenta Jesus, que estava com João Batista há algum tempo. Depois recebe o batismo, a unção do Espírito e vai para o deserto e lá sofre as tentações. O Evangelho das tentações nós vamos ler no começo da quaresma. E depois, ele volta e começa a anunciar o reino. 

 

João Batista foi preso. O povo esperava que João Batista fosse o Messias. Fazia 500 anos que Israel não tinha nenhum profeta e veio João Batista com uma força igual à que possuía Elias, um grande profeta. Então o povo falou “é agora que Deus vai intervir na história”. E João Batista é preso e Jesus começa o seu anúncio. E as pessoas começam a se aglomerar, a escutar a pregação deste homem. E ele faz sinais, ele cura as pessoas, coisa que João Batista não fazia. Ele caminha, e João Batista ficava sempre fixo no mesmo lugar. Ele vai ao encontro das pessoas, é diferente, mas tem o ar de profeta. 

 

Ele vai pra Nazaré, sua cidade Natal, um fim de mundo da Galiléia. E os galileus tinham uma fama de serem pessoas de cabeça quente. Quando você queria falar de encrenqueiro, de gente pronta para fazer revolta, chamava de galileu. Então Jesus vai para a sinagoga, como ele fazia sempre. Provavelmente o presidente da sinagoga pede para Ele ler e as pessoas já ouviram falar deste homem, já conhecem Ele. Mas parece que tem alguma coisa diferente. Os galileus eram muito a fim de uma revolta. Eles estão esperando uma mudança. Eles não suportam mais o julgo que Roma impõe sobre eles. Eles esperam uma libertação política forte. 

 

Então Jesus abre o livro. Naquele tempo, o termo certo era “desenrolar”, pois eram rolos de pergaminho. E pergaminho era pele de barriga de ovelha que você secava, fazia uma espécie de folha comprida e escrevia. Por isso que você enrola ele. Então Jesus abre o livro nesta passagem. Foi Ele que escolheu a passagem. E Ele, ao lê-la, corta o último versículo. E então Ele diz: “O Senhor me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres, a libertação aos presos, a vista aos cegos, a salvação aos oprimidos e o ano da graça do Senhor”. O que aquele povo estava esperando era o último versículo “o ano da vingança do nosso Deus”. Jesus simplesmente não leu este versículo. Por quê? Deus não é um revolucionário louco. A salvação não vem de revoltas. A salvação vem a partir dos pequenos e daqueles que ninguém considera coisa alguma. 

 

Boa Nova para os pobres. É para os últimos que a salvação de Deus é uma Boa Nova. Por quê? Para os ricos e poderosos, não tem nenhuma notícia boa que interesse. Eles já têm dinheiro, posição, já pisam em cima dos outros. São exatamente os últimos que recebem o anúncio de misericórdia, de amor, de fraternidade, de solidariedade de Deus como boa notícia. Jesus está pregando uma mudança na mentalidade das pessoas. Nós temos que aprender a olhar o mundo pelo avesso porque Deus faz isso. Quando nós olhamos os profetas, eles vão sempre falar disso: das pessoas que são injustiçadas, os pobres, as viúvas, os órfãos, os estrangeiros. Deus olha para eles. Todo o resto que vocês fazem para Deus não significa nada. Nem a vossa Liturgia maravilhosa. Se não tem amor por eles, é blasfêmia. Então o critério que Jesus nos dá no Evangelho é olhar o mundo do avesso. O mundo inteiro estará melhor quando os pobres estiverem melhores. Onde tem aumento de pobres, onde tem aumento de desempregados, o Reino de Deus não está perto. Quando você ouve que o número de pobres está diminuindo porque as pessoas estão conseguindo trabalho, assistência, nós estamos mais perto do Reino de Deus. 

 

Vamos pedir ao Senhor que Ele nos dê esta visão Dele, a visão do contrário, a visão do avesso em nossa cabeça e nosso coração. A nossa comunidade tem uma realidade que cuida disso, que é exatamente a Pastoral de São Sebastião. Nós tínhamos a comunidade de Santo Antônio que já fazia este serviço e aí pediram aqui na comunidade para que pudéssemos começar. E, devagarinho, este trabalho foi tomando corpo e hoje nós estamos dando uma média de 1200 marmitas por mês para os sofredores de rua. Em uma atitude que é a de ir até eles. Nós vamos até eles. E, ali, a gente percebe situações realmente de degradação humana. Pessoas que vivem em verdadeiros buracos, com crianças, em situações absurdas. E você pensa o quanto isto é extremamente desumano. Nós damos este pequeno alívio. Porém, seriam necessárias atitudes muito mais enérgicas das autoridades civis para melhorar esta situação humana, que é extremamente grave. Ninguém merece estar no meio da rua. Isto não é humano. Ninguém está lá porque quer ou porque é vagabundo. As situações da nossa sociedade são graves, muito graves. E nós temos que pensar no avesso. Nós temos que pensar naqueles que realmente estão dispostos a fazer alguma coisa melhor para este povo que sofre. E isso é para o bem de toda sociedade brasileira, não só para eles. Toda a sociedade ganha quando todos estão em uma situação melhor.

 

Vamos pedir a Deus que nos guie e nos ajude a perseverar neste caminho maravilhoso que é esta Pastoral São Sebastião.

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É através do Evangelho de Jesus que aprendemos a seguir seu caminho

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha  -  2º Domingo do Tempo Comum (Ano C – 16/01/2022 - missa às 10h) 

O tempo de Natal esse ano foi muito curto por causa do dia em que foi o Natal, quando coincide com a sexta ou sábado, fica tudo corridinho. Hoje iniciamos solenemente, com o Batismo do Senhor, o Tempo Comum, também chamado Tempo Ordinário, são 34 domingos onde nós somos guiados, passo a passo, por um dos evangelistas – esse ano é São Lucas. Vamos seguir Jesus até que cheguemos no último domingo do ano, vamos celebrar Jesus Rei do universo e o trono dele é a cruz. Será um longo caminho de Jesus, de pregação, de curas, de brigas, de bate bocas com as pessoas do poder religioso, de chamado aos seus discípulos, multiplicação dos pães, transfiguração... Sobre todos esses eventos da vida pública de Jesus vamos meditar durante todo o ano e seremos ajudados esse ano por São Lucas, que era cristão, filho de mãe cristã e pai pagão. Ele era médico e devia ser uma pessoa muito estudada. Ele fala, no começo do seu Evangelho, que fez muitas pesquisas. Ele não conheceu Jesus pessoalmente, mas fez muitas pesquisas e foi preparando esse texto que é o Evangelho de Lucas e os Atos dos Apóstolos. Foi uma obra escrita e planejada em dois volumes: Evangelho e Atos dos Apóstolos. No seu Evangelho, ele usou uma grande parte o Evangelho de São Marcos que já estava escrito, então ele foi juntando tudo que tinha na comunidade de Roma e escreveu o Evangelho para os pregadores. Ele usou esse material e muitos outros. O texto de São Lucas é escrito em um grego tão bonito, é um texto tão bem-feito que é considerado uma das obras literárias do primeiro século! É um Evangelho muito gostoso de ler, é bonito e elegante, é chamado de “o Evangelho dos pobres”. São Lucas vai colocar a sua ênfase, dar destaque aos pobres, aos últimos, aos pecadores. De fato, em seu Evangelho, quando vimos lá no presépio, ele mostra a visita dos pastores, nas bem-aventuranças vamos ouvir as bem-aventuranças secas, “bem-aventurados os pobres” deles é o reino do céu. Maria também vai cantar a misericórdia de Deus sobre os pobres e os humildes.

Então, em São Lucas, nós iniciamos com esse momento: o Batismo de Jesus e o que percebemos? Jesus não chegou triunfante nas margens do Jordão dizendo: “olha, eu sou o bombom da história”. Jesus chegou como as outras pessoas, Deus caminha com seu povo, Deus caminhava com o povo, no Antigo Testamento, ao longo do deserto e estava presente na vida do povo, na arca, no templo, nas orações. Deus está sempre presente e Jesus está no meio do seu povo. Deus não está acima de ninguém, Ele está no meio de nós, caminha conosco, guia nossos passos, mas no meio de nós. O povo ia até João porque estava esperando e achava que João Batista era o messias, ficaram 500 anos sem profeta na Palestina e de repente apareceu esse homem com sinais que o povo conhecia, como o profeta Elias, vestia um manto, cinturão de couro, ele também comia gafanhoto, mel silvestre, era a vida do deserto. Essa era a vida de João Batista e o povo ficou impressionado porque esse homem pregava com muita força e anunciava a chegada eminente de Deus. E junto com o povo que vinha Jesus também veio, recebe o Batismo e se retira a parte para rezar.

 

É muito importante para Lucas esses momentos de oração de Jesus. É no silêncio, na oração, no recolhimento que Deus nos fala. Temos que criar um coração que esteja esperando. O silêncio faz isso. Esperar Deus falar nos mostra o caminho, nos ensina, Ele sempre reponde no tempo Dele, mas nenhuma oração nossa é perdida, Deus nos escuta sim, Deus se manifesta não para Jesus, para o povo. Para nós, Ele manda o Espírito de forma certeira em cima de Jesus, é esse o eleito, é esse o messias, esse é o meu filho amado, nele eu coloco o meu bem querer. Isso é uma manifestação para as pessoas. Jesus não precisava disso, mas marca também um início da missão pública de Jesus. Até então Jesus vive o que chamamos de vida oculta, vida normal do dia a dia, como todos nós: trabalhava, vivia, na comunidade de Nazaré e em Cafarnaum uma vida normal de um carpinteiro daquele tempo. Agora não, agora essa vida é largada para trás e se inicia a missão de Jesus: missão que será a libertação dos pobres, anunciar aos pobres que o reino de Deus é deles, não dos donos da religião, não dos donos do poder, mas dos pobres, aqueles que o mundo não considera, aqueles que são considerados perdidos pelo mundo, aqueles que é uma conversa que conseguimos entender até na língua econômica, “aqueles que não contam para o mercado”. Para essas pessoas que são massa de manobra, é para eles que Deus anuncia a salvação. A lógica desse mundo não é a lógica de Deus e isso nós também descobrimos na oração como Jesus fez. Vamos pedir ao Senhor que nos ajude nesse ano litúrgico guiado por São Lucas.

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O Batismo de Jesus é um sinal para o povo

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha  -  Batismo do Senhor (Ano C – 09/01/2022 - missa às 10h) 

Casamentos são coisas que acontecem sempre. Na região da Palestina, mas também no mundo Oriental da época, casamento durava uma semana. A noiva era levada para casa do noivo, aí tinha uma festa e se servia, seguramente, muito vinho. E numa situação como essa, que ainda não era o fim da festa, acabar o vinho era um desastre. Mas qual a coisa interessante dessa história? É que Maria vai avisar quem que acabou o vinho? Jesus. Jesus não é o noivo, e de fato Ele responde: “esse não é problema nosso, é do noivo.” E Maria – seguramente os servos estavam perto dela – diz: “façam o que Ele disser.”

É Jesus que nos dá o vinho da salvação, o vinho da vida. As talhas de pedra que os judeus usavam para fazer as suas purificações antes das celebrações, das festas, estavam secas, não tinham nada. Pedra seca é pedra sem vida. O que se está dizendo aqui?  As tradições hebraicas, a fé, na lei, secaram, não dão mais vida, não dão mais nada. Você não arranca vida de pedra seca.

Jesus manda que se coloque água ali porque Ele é a fonte de água viva, e o vinho transformado é um vinho de ótima qualidade, “Você esperou até agora pra nos dar o vinho bom”, quer dizer o que? Os vinhos que os outros deram antes – os reis, os profetas, os sacerdotes – não era ainda o vinho bom. O vinho do Reino é aquele que Jesus dá. E é muito importante lembrar que Jesus multiplica os pães, e o pão faz referência à Eucaristia, mas Jesus muda a água em vinho, e este vinho faz lembrar o cálice que nós consagramos, que é o sangue do Senhor.

A vida eterna é só Jesus que nos dá. Nem a lei, nem os profetas, nem os reis do Antigo Testamento, nenhum deles dá vida eterna, só Jesus. E, para isso, é preciso obedecer a única ordem que Maria nos dá na Escritura, única: “façam o que Ele vos disser”. Seguir Jesus, os passos dele, o jeito dele pensar, os seus valores, as suas ações, claro, dentro do nosso tempo, esse é o caminho. 

As bodas de Caná nos apresentam a figura de Maria, que, aliás, não é nomeada, é chamada mãe de Jesus, e Jesus se dirige a ela com essa estranha palavra: mulher. Nós temos que olhar os textos de São João. No Evangelho nós temos duas menções de Maria: no início, quando Jesus começa a manifestar a sua glória, e na máxima manifestação da glória de Jesus, que é a Cruz. Maria está presente nos dois momentos, e nos dois momentos Maria aparece com os discípulos. Por quê? Porque para Jesus e para a comunidade dos cristãos não contam mais as ligações de sangue, mas o seguir Jesus.

 

Seguir Jesus nos faz ser filhos e filhas de Deus, irmãos de Jesus. Maria segue junto com os discípulos; na cruz ela está ao lado do discípulo amado e das outras mulheres que seguiam Jesus. É na comunidade dos discípulos que nós descobrimos a vontade de Deus e o caminho de Jesus.

 

Então nós temos esses dois: Caná e Cruz, e no livro do Apocalipse, que foi também escrito pela comunidade de São João, nós temos a figura da mulher vestida de sol que dá à luz o Messias. Nestas três imagens nós temos o Israel fiel, a mulher representa o povo de Israel que espera o Messias, representa a comunidade dos discípulos que segue Jesus, e é a Virgem Maria, única no universo a ter gerado o filho de Deus. As três figuras se fundem em uma só: fidelidade, seguimento.

 

Estas duas características estão presentes na Virgem Maria e devem estar presentes em todos nós. Lembrar sempre: nós não precisamos correr atrás de aparições, de revelações, não, vai ficar escutando mensagenzinha todos os dias de Nossa Senhora, não. Nós temos uma ordem dela, e essa está no Evangelho: façam o que Jesus vos diz, ali, no Evangelho, não inventam moda, no Evangelho de Jesus. Amem-se, perdoem-se, sejam capazes de ajudar uns aos outros. Respeitem-se – esse é o começo do caminho de Jesus.”

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É das periferias que vêm a Salvação de Deus

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha  -  Epifania do Senhor (Ano C – 02/01/2022 - missa às 10h) 

Epifania é a manifestação de Deus aos povos. Nós temos 2 evangelhos que falam do nascimento de Jesus: o evangelho de Lucas, que nos fala dos pastores que foram lá encontrar Maria, José e o Menino. E nós temos o Evangelho de Mateus, que nos fala dos Magos do Oriente. Magos do Oriente que nós chamamos de reis. Eram sábios, sacerdotes, adivinhos, astrólogos. Homens da sabedoria pagã. Nós temos que ter muita atenção. O povo de Israel olhava com muito desprezo os povos pagãos. Eles chegavam a dizer que estas nações pesam na balança como poeira ou como uma gota de água em um balde. Isto é sinal de desprezo total pelos pagãos. No Evangelho de Lucas, os primeiros que recebem o anúncio são estes pastores, que eram uma gente perigosa. Muitos deles eram ladrões, assassinos, perdidos no meio do nada, cuidando destes animais por muito tempo. E, agora, estes magos, estes bruxos, adivinhos dos pagãos, vêm para Jerusalém encontrar os sumo sacerdotes e os mestres da lei. 

 

A cruz e o presépio dialogam constantemente, um ilustra o outro. Quem condenou Jesus à morte: os sumo sacerdotes e os doutores da lei. As mesmas funções. E mais: os magos que reconheceram a estrela – o sinal de que nasceu um Messias em Israel – chegam em Jerusalém, a Sede da religião hebraica, que recebeu a lei e os profetas, que reza e espera as promessas de Deus. Como diz São Paulo, tem a lei e as promessas. E este povo fica de boca aberta com o fato de ter nascido um rei. E quando eles falavam rei, pensavam logo no Messias. E, no ouvido do Rei Herodes – que era um louco tirano terrível – isso soava como ameaça. Ele já tinha mandado matar uma mulher e dois filhos por medo de perder o trono. Quando ouviu falar que nasceu um rei, aí endoidou. E foi lá perguntar para os sumo sacerdotes e doutores da lei o que a Escritura falava. Eles responderam que o nascimento seria em Belém. Aí ele, com muita esperteza – aquela esperteza que só as cobras têm –, recebe os magos, conversa com eles e pede para olharem bem onde ele estaria e depois lhe dessem notícias exatas. A cobra queria dar o bote. E eles, todos contentes, vão. Uma coisa interessante é que a estrela brilhava antes e a estrela brilha depois. Quando eles entram em Jerusalém, a estrela some. Quando eles saem de Jerusalém, ela volta a brilhar.

 

Jerusalém é a cidade das luzes. A cidade do templo, a habitação de Deus. E essa cidade tornou-se cega, a escuridão. Os magos vão e encontram Maria e o Menino em casa. Não é mais no presépio. Isto havia sido no dia do nascimento de Jesus. José, provavelmente, permaneceu ali trabalhando como carpinteiro e conseguiram um lugar para ficar. Lá os magos os encontram e oferecem incenso, para o Deus do céu; ouro para o rei; mirra, para o homem que deve morrer. A intenção deles era voltar para Herodes e dizer para ele onde o menino estava. Mas um anjo do Senhor aparece e diz a eles para não retornarem pois ele ia querer matar o menino. 

 

Nós temos, depois, a matança dos santos inocentes. Eu mandei mensagem para o pessoal falando os santos inocentes e muitos perguntavam quem eles seriam. São as crianças que morreram em Belém. O rei Herodes descobriu que os magos haviam enganado ele, então calculou o tempo de nascimento daquela criança e pediu para matar todas as crianças que tivessem uma idade inferior àquele tempo. Isso é um genocídio terrível. Um monstro. Essas crianças que morreram antes de serem capazes de proclamarem sua fé, proclamaram a fé em Jesus pelo sangue. Por isso nós comemoramos os santos mártires inocentes. 

 

O que significa tudo isso? Que Deus não faz distinção de pessoas. A mesma salvação que Deus dá para os hebreus, ele dá para todos os povos. Porque Deus quer que todos sejam salvos. E quando se diz todos, são todos mesmo. Começando pelos últimos, pelos pastores, que eram uma “gentalha”. E por esses bruxos que vieram do Oriente, que eram desprezados pelo povo hebreu. De lá, Deus começa o anúncio da salvação para todos. É das periferias que vêm a salvação de Deus. 

 

Uma pergunta: quantos de nós nos preocupamos ao menos em rezar pelos desabrigados de Mauá e Ribeirão Pires? E para quantos de nós isto passou batido? Nós temos que estar atentos ao mundo dos pobres. Porque, quando o mundo dos pobres se tornar lugar de dignidade, de vida, o mundo estará mais perto do Reino de Deus. Este é o caminho. E saber reconhecer Deus nos vários sinais da vida. 

 

Estes bruxos do Oriente reconheceram através das estrelas, dos estudos de astrologia. Eles reconheceram pelos sinais que estavam ali. E nós temos que ter muito cuidado porque, do mesmo jeito que o povo de Israel não foi capaz de reconhecer o tempo de Deus, nós também, católicos, podemos não reconhecer os tempos da manifestação de Deus. Temos o risco de nos fecharmos dentro de nossas sacristias e, com isso, esvaziar o Evangelho. Nós temos que estar sempre atentos para que possamos ver os sinais da presença de Deus em nosso meio. 

 

Vamos louvar e bendizer a Deus pelo novo ano. Vamos pedir ao Senhor que nós possamos, neste ano, ouvir a Sua voz e interpretar os sinais da vida olhando a cruz de Jesus, que é também a cruz dos pobres.

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Seguir a vontade de Deus como Maria

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha  -  Solenidade de Maria, Mãe de Deus (Ano C – 01/01/2022 - missa às 16h)

A Boa Nova de Deus não é segundo o que nós queremos, mas é segundo que Deus quer. Nós julgamos as pessoas indignas de Deus, nós até amaldiçoamos pessoas, nós excomungamos pessoas, isso para Deus não significa um belo nada, porque exatamente a pessoas que eram consideradas malditas e eram mesmo – muitos deles, bandidos; alguns deles, assassinos – que todos da religião acreditavam que, quando Deus se manifestasse, essas pessoas seriam fulminadas, pois Deus escolheu exatamente essa gente para anunciar a paz. Os pastores eram pessoas muito rudes, violentas, muitos ladrões, assassinos, viviam meses e meses e meses nos campos cuidando desses rebanhos, numa situação realmente desumana. Estavam à margem de tudo o que se pudesse pensar. E eles foram os primeiros a receber o anúncio que tinha nascido um Salvador. “Nasceu para vós um Salvador”.

 

Qual é o grande sinal? A gente sempre pensa que os sinais de Deus são grandiosos, coisa d’outro mundo, não é? “Vocês vão a cidade de Belém e vão encontrar uma mãe, uma criança, deitada na manjedoura, ou seja, num cocho”. Quem pode esperar que Deus faça um negócio desse? E é bom lembrar que o romance de Natal só existe na nossa cabeça, viu gente? Aquilo ali era uma dureza extrema. Não tinha lugar para eles em lugar nenhum. Era muito comum que mulheres dessem à luz em estábulos, porque lá tinha feno e tinha o calor dos animais. Porém, a situação de Maria e José era diferente eles não tinham outra opção, não tinha lugar para eles. O Salvador do mundo nasce e é repousado num cocho de estábulo. Esses homens rudes avisam: nós vimos o anjo e ele falou paz na Terra para todos, porque Deus nos ama! Deus não nos julga, Deus não nos fulmina, Deus não nos manda para o quinto dos infernos, Deus nos ama!

 

E como a bondade de Deus se manifesta? Numa criança, recém-nascida. Quem tem medo de uma criança recém-nascida? O que pode uma criança recém-nascida fazer? Uma criança recém-nascida se você deixar ela parada por doze horas, essa criança morre. Uma criança recém-nascida não tem força para nada, não sabe se alimentar, não sabe se movimentar, não sabe fazer nada. Deus se revelou assim na fraqueza para que nenhum de nós tenha medo de se aproximar Dele. Aqueles homens não tiveram medo de ir até aquele estábulo porque Deus é uma criança recém-nascida, é um Deus bom. E o texto diz que eles falavam para as pessoas, talvez tivesse gente passando por ali e eles contavam para as pessoas e todos se admiravam: ué, mas os sacerdotes sempre falavam que quando Deus se manifestar vai fulminar todos os pecadores, não é essa gentalha aqui que eles falavam que iam para o inferno?! O anjo fala paz para essa gente? Que Deus esquisito! As pessoas estavam admiradas disso. 

 

E Maria olha, Maria recolhe todos os comentários, toda aquela situação desde o anúncio do anjo, do caminho que ela fez para as colinas da Judéia, a volta, José que a aceita como esposa, depois essa viagem para Belém já com a gravidez muito adiantada e quando chega na cidade, as dores do parto. Essa situação de pobreza e depois esses estranhos. Maria olha tudo isso, ela vê os sinais de Deus. Maria não se deixa enganar por notícias, por falsas notícias, ela olha as coisas, olha com o olhar de Deus e aí ela vai percebendo por onde vai o caminho de Deus. E ela ainda fará um longo caminho na via de Deus até chegar ao pé da Cruz. A Maria da cruz é a mesma do presépio. A Maria do presépio é a mesma que está debaixo da cruz. Um caminho feito seguindo os passos estranhos de Deus.

 

Maria, justamente, nós a chamamos de mãe de Deus por quê? Uma mulher quando dá à luz, ela não dá luz a um corpo, ela dá à luz a uma pessoa. Maria dá à luz a uma pessoa, que é o Verbo de Deus encarnado. Deus gera um Verbo na eternidade, Maria gera o Verbo encarnado no tempo. O Verbo existia na eternidade, mas no tempo, ele começou a existir em forma humana no seio da Virgem Maria. Por isso a criança que nasceu de Maria é Deus e homem, mas nasceu uma pessoa e não um corpo. Seria um corpo se fosse nascido morto, não nasceu morto é uma pessoa. Essa é a maior, nós chamamos assim, prerrogativas da mãe de Deus. Todos os outros atributos da Virgem Maria – Perpétua Conceição, Santíssima Virgindade, Assunção ao Céu, Rainha do Céu e da Terra, Templo do Espírito Santo – todas essas prerrogativas só existem porque ela é mãe de Deus, mãe do Verbo encarnado, mãe da segunda pessoa da Santíssima Trindade. E essa união, essa situação, esse mistério, Deus visualizou só e somente só nessa mulher, uma nossa irmã pode gerar um filho que é Deus, uma nossa irmã e só ela é mãe de Deus ninguém mais. É justo que nós chamemos Maria – esse é um atributo dela – de Rainha do Céu da Terra e a gente pergunta: mas a rainha não é a mulher do rei? Não no Oriente antigo, no Tempo de Jesus e milênios antes dele, rei era logicamente o rei, mas o rei tinha muitas mulheres e então quem era a rainha era a mãe do rei. Tanto que os grandes os diplomatas, os outros reis pedem a ela favores. E quando uma princesa se casava com um rei, a grande esperança dela era ter filhos que se tornassem reis, porque aí ela seria rainha. Então, Maria como mãe de Deus, ela está sempre junto com seu filho, do seu filho que reina na Cruz. O reino de Deus é diferente dos reinos deste mundo e a mãe de Deus está junto do seu filho e lá junto dele intercede por nós e reza conosco, quando nós rezamos, Maria reza conosco. Santa Bernadete, nas aparições de Lourdes, ela rezava o terço e Nossa Senhora tinha o terço na mão e ela ia escorrendo as contas do terço junto com Santa Bernadete. Sem mover os lábios, na hora que Santa Bernadete rezava o Glória, Nossa Senhora se inclinava em louvor à Santíssima Trindade. Mas ela reza por nós, mas reza conosco. É mãe, mãe de misericórdia, mãe de bondade, como Deus é bom.

 

Vamos pedir a Virgem Maria que nos ajude a olhar os fatos da vida, olhar a Sagrada Escritura, o jeito de Jesus e aprender Dele como enfrentar os fatos da vida – Maria fez assim: Via a vida, olhava a vontade de Deus e agia segundo a vontade de Deus.

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Família é lugar de crescimento, ensinamento e compreensão

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha  - Sagrada Família de Jesus, Maria e José (Ano C – 26/12/2021 - missa às 10h)

Hoje celebramos a Sagrada Família de Nazaré e o centro é sempre Jesus. Em toda a Escritura, a preocupação é Jesus. E temos que pensar e lembrar que Jesus é o verbo eterno, igual ao Pai, que se esvazia de si mesmo e se torna um de nós, com todas as dinâmicas humanas. Mas Jesus não tem uma coisa: Ele não tem o pecado. Então Jesus vê, sem sombra, a vontade do Pai. Isto não quer dizer que Jesus, desde pequeno, tinha debaixo da manga todas as respostas ou sabia como seria toda sua vida - ou seja, que iria ressuscitar no fim. Isto é uma heresia chamada docetismo, que assumiria que Jesus era quase um fantoche ou um fantasma. Assim, Sua encarnação viraria uma brincadeira. Deus, quando se torna um de nós, faz isso de forma muito séria e radical. E seu conhecimento e seu relacionamento com o Pai é algo que vai progredimento conforme esta criança vai crescendo. Como qualquer criança, ele nasce sem o obstáculo do pecado, e se desenvolve como um de nós. Jesus não é um gênio com QI acima da média. É uma pessoa como as outras e não sabia que em 1969 o homem iria colocar o pé na lua. Mas Jesus sabia o nome do monte Hérmon, uma montanha muito alta na Palestina, coberta de neve. E quando o vento bate por cima da montanha manda vento fresco sobre Jerusalém. Isso Ele sabia. O que é interessante e necessário prestar atenção neste Evangelho [Lc 2,41-52] é que Jesus crescia em sabedoria, estatura e graça. 

 

Qual foi a ordem que Deus deu para Adão e Eva no paraíso? Crescei, multiplicai-vos e dominai a terra. E Jesus cresce em estatura, sabedoria e graça diante de Deus. A sabedoria, a pessoa vai adquirindo ao longo da vida até que chegue a maturidade, por volta dos 30 anos. Jesus vai ao encontro de João Batista e ali, em plena maturidade, inicia seu ministério anunciando a Boa Nova do reino. Hoje é dia da família e não adianta ficar falando de família tradicional pois é tudo conversa mole. Porque não podemos cair no romanticismo puritano dos anos 1800. Família é um negócio sempre muito complicado. E não devemos pensar que nunca foi assim. Vai ver como era a nossa família antes de 1800. Se formos honestos conosco, vemos as diversas situações que existiam com nossos antepassados. A família tem que ser um lugar onde as pessoas possam crescer. Não pode ser lugar de desagregação. O problema é que, muitas vezes, a família não é lugar de diálogo, mas sim de briga, de discórdia, de violência. Isso não pode acontecer, seja a família que for. 

 

Nós temos uma situação gravíssima no Brasil, que é a educação pública que foi jogada no lixo. E a educação privada está indo pelo mesmo caminho. Como você pode garantir valores dentro de uma família, que às vezes é meio bagunçada, se a educação também é muito fraca ou péssima? E dinheiro para tudo isso tem. É só não gastar com coisas supérfluas. Gaste com educação. Sabedoria não é conhecer noções sabedoria é ver o coração de Deus e viver segundo o coração de Deus. E vemos, na Segunda Leitura[1Jo 3,1-2.21-24], que o coração de Deus é amor. Em nossas famílias, sejam elas como forem, nós estamos cultivando o amor entre nós? Estamos ensinando nossos filhos a amarem os outros, a respeitarem as pessoas, a serem solidários? Nós estamos ensinando isso ou simplesmente deixando que a televisão, os desenhos e o Whatsapp ensine? O que estamos fazendo? 

 

Esta é a missão da família. Seja a família como for, nós temos uma missão. Vamos pedir ao Senhor que possamos, olhando o mistério e a vida de Jesus, aprender a viver como marido, como esposa, como filhos. Aprender também a viver como idosos e ensinar as nossas crianças a viverem como Jesus.

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Deus se faz homem por nós

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha  - Missa de Natal (Ano C – 25/12/2021 - missa às 16h)

Neste Evangelho, nós vamos ver provas de João. São João quer reescrever as escrituras e ele começa com as mesmas palavras da Gênesis "No princípio...". O livro da Gênesis relata "No princípio...". E ele vai recordar o mistério de Deus, porque é simples para Deus e a palavra é igual ao coração do Pai. O Pai fala assim mesmo, e esta palavra é a segunda pessoa que se faz a Trindade, e o Pai fala com os que sofrem, abraçados pelo poder do Espírito Santo e faz com que os três sejam um único Deus. Só pode conhecer Deus quem é Deus. Nós não temos capacidade de descobrir, Deus está numa forma que chamamos de "transcendente", está além. Nós somos equivalentes, e quando nós estudamos astronomia, nós duvidamos de um universo e leis físicas que falam sobre o espaço-tempo, é muito difícil para nós! E isso falando do mundo físico, quem dirá do espiritual...

 

Nós projetamos muitas coisas e chamamos isso de "Deus", nós nos sentimos fracos, então nós fazemos esses feitos gigantes diante de nós e dizemos "Deus é onipotente". Mas nós conhecemos poucas coisas, nós não conhecemos os corações das pessoas. Então nós olhamos para nossos feitos gigantes de novo e dizemos "Deus é onisciente". Nós morremos, mas temos medo da morte ou não aceitamos a morte, então nós olhamos para o nosso espelho e dizemos "Deus é imortal". Isso são projeções nossas, puras projeções nossas. Só Deus pode falar dEle mesmo, mas se nós não podemos ver o coração de Deus, como que nós vamos conhecer Deus? Tem um jeito, Deus vem falar para nós, se fazendo um de nós, se tornando um de nós, sentindo com o nosso coração, caminhando nas nossas estradas, trabalhando como nós, se fadigando, conhecendo as profundezas de nosso coração humano, porque Ele também pega para si um coração humano, e como Ele vê o coração do Pai, com voz e coração humano, Ele pode nos falar do Pai. Então o que nós não conseguíamos se tornou alcançável, nós conseguimos entender, e mais, conseguimos imitar, porque Deus se tornou humano, e é capaz de amar e agir com coração e forma humana, então é possível conhecer e seguir os passos de Deus por meio de Jesus. Deus é Jesus que se encarna, se faz um de nós. 

 

O apóstolo vai dizer "nós vimos a sua glória, nós tocamos, nós falamos com o Verbo e a Palavra de Deus que é Jesus". E como eles podem falar isso? Porque Jesus ressuscitou. Se Jesus não tivesse ressuscitado, Ele não era Deus, mas Jesus ressuscitou e nos mostrou o que nos basta para o coração de Deus, para poder entrar no mistério do coração de Deus, e o mistério é muito simples, é muito prático: é amar, ser pessoas da luz, da verdade, esse é o caminho que Jesus nos revelou.

 

E essa palavra de hoje, nasceu no meio de nós e revelou uma outra coisa sobre Deus, de um neném recém-nascido, ninguém tem medo, quem se apavora diante de um recém-nascido? Somente um louco: Herodes. Mas uma pessoa normal, por pior que seja – pois os pastores não eram santos não, eles eram bandidos viu? –  Essa gente era tida como amaldiçoada. Para eles, Deus anunciou a salvação. Primeiro para eles, eles foram os primeiros que contemplaram a bondade de Deus. De Deus não temos que ter medo, porque Deus é como um recém-nascido, então é possível se aproximar dEle como nós somos, do jeito que nós somos, e quando nós nos aproximamos dEle, Ele nos transforma, Ele nos faz criaturas novas, Ele muda nosso jeito de agir, de pensar, de amar. Esse caminho muitas vezes pode nos levar para a cruz, mas é caminho de vida eterna, isso Deus revelou ali no presépio, para esses homens que estavam perdidos no meio das trevas, perdidos no meio do pecado, amaldiçoados até pela religião. Para eles, por primeiro, Deus se mostrou bondade, então nós podemos nos aproximar dEle, podemos aprender a nos aproximar de outras pessoas.

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Ver o outro como irmão e irmã nos levará a viver o Natal todo dia

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – Véspera de Natal - Missa do Galo (Ano C – 24/12/2021 - missa às 19h)

Natal de Jesus! Hoje eu mandei uma mensagem para nossas comunidades e grupos: o Deus do céu, o senhor do céu e da terra, aquele que mantém o universo com o sopro da sua boca, aquele que mantém no seu seio toda a criação como um pequeno peixe no mais profundo de um oceano. Ele, por pura bondade, manda no tempo e na história o Seu filho, igual a Ele, Deus eterno como Ele, na potência do Espírito, Deus eterno como o Pai e o Filho.

E para onde Ele manda? Ele manda num beco, numa calçada, num estábulo porque não tinha lugar para eles na hospedaria. Jesus nasce nas margens do mundo porque não tem lugar para ele. É lá onde não tem lugar, onde as pessoas são postas fora, lá Deus nasce: no meio das pessoas descartadas, no meio das pessoas que não contam nada, lá Jesus nasce.

 

E o que ele encontra lá? O que se encontra nessas margens! Converse com nosso pessoal que leva marmita para o pessoal sofredor de rua, o que você encontra lá? Pobres, miseráveis, bandidos, drogados, prostitutas, travestis... é isso que você encontra na margem, no lixo, no porão da humanidade. E aqueles pastores que foram lá e receberam o primeiro anúncio do nascimento de Jesus hoje nós chamaríamos de bandidos, porque não eram mais do que isso, e muitos deles assassinos. Eram pessoas rudes, ladrões, na maioria das vezes, gente que ficava longe, fora, meses e meses no meio dos bichos, só podiam ser bichos! Essa gente, lá.

Eles vieram para ver esse sinal que talvez fosse até bastante comum, pois muitas mulheres antigamente davam à luz no estábulo, onde tinha feno e calor. Encontram esse menino coberto por alguns panos em um cocho. Que jeito estranho de Deus nascer! Como é estranho o jeito desse Deus morrer: pendurado em uma cruz.

A cruz e o presépio dialogam entre si. Deus veio para os últimos, para salvar o mundo inteiro, e Ele morre amaldiçoado no lenho da cruz para salvar a todos. A salvação de Deus, do mundo começa por lá, pelos que estão longe, pelos que nós consideramos muitas vezes nada, é de lá que começa a salvação do mundo.

Na minha mensagem eu não coloquei o final pois era para agora! Natal, e nós todos reclamamos: “nossa, podia ser assim o ano inteiro, parece que tem um clima de alegria e paz!”. Por que isso não é o ano inteiro? Será o ano inteiro o dia que lá, no mundo dos pobres, dos miseráveis, dos excluídos, das pessoas que jogamos fora, pessoas que apontamos o dedo, que consideramos de segunda classe, gente pecadora, gente indigna da comunhão, o dia que essa gente tiver vida digna, naquele dia, será Natal todo dia. Enquanto não fizermos isso, Natal vai ser um dia com muito sentimento de culpa, pois sabemos que tem muita gente sofrendo.

Não é impossível que o mundo não seja assim! Papa Francisco nos diz: “aprendam a viver o evangelho que pode ser resumido em uma palavra: fraternidade. Aprendam a ver a outra pessoa como irmão e irmã!”. Eu repito isso até enjoar porque é a verdade: aprendam a ver o outro como irmão e irmã. Não significa ser ingênuo; Jesus mesmo diz: “simples como as pombas, espertos como as serpentes”, não é ingenuidade.

 

Ser irmão não é ser ingênuo, mas ser irmão e irmã é buscar reconhecer a dignidade e reconstruir a dignidade do outro que foi destruída. O dia em que o mundo fizer isso, o dia em que nós fizermos isso, vai ser Natal o ano inteiro.

 

Mas tem uma frase de Madre Teresa de Calcutá que pode nos dar alguma esperança! Ela dizia: “se você não pode dar comida para 100 pessoas, dê pra uma, mas se você tiver só um pão, reparta com o outro”. Isso vai ser Natal porque a salvação do mundo passa pelos pequenos, passa pela divisão do pouco, passa por esse ato de doar-se para o outro. É assim que Deus mantém na existência o universo, é assim que Deus salva o mundo, de um presépio ou do alto da cruz. É das margens do mundo que Deus salva a todos. Feliz Natal para todos vocês

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Maria: a serva confiante em Deus

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 4ª Domingo do Advento (Ano C – 19/12/2021 - missa às 10h)

Na preparação imediata para o Natal, nós nos fixamos na figura de Maria. Maria recebeu o anúncio do anjo, no qual o anjo lhe deu uma notícia: "a tua prima Isabel, já idosa (...)" – quem sabe naquele tempo seja uns 50 anos de idade, a idade média das pessoas era de 22 anos, tinha gente que vivia até os 90, mas a maioria morria muito mais novo. Isabel era considerada estéril, porque durante toda vida chamada "vida fértil" ela não teve filho, e no fim da menopausa vai ter filho? É um milagre de Deus! Então Maria vai, sabe-se lá quantos dias ou quanto tempo, para as colinas da Judéia, Maria estava na Galileia, para ajudar sua prima na gravidez? Não, Isabel não precisava disso, pois era mulher de um sacerdote que servia no templo, no templo de Jerusalém. Então por que Maria vai? Maria vai para codividir com Isabel a alegria da salvação, o que Deus tinha prometido a Abraão, há 1800 anos antes, se estava cumprindo naquele momento. O Salvador, o Messias estava chegando ao mundo e estava no ventre de Maria.

Geralmente os hebreus quando chegam na casa das pessoas falam "Shalom", "Paz". Ao ouvir a saudação de Maria, a criança pulou na barriga da mãe. Mãe entende essas coisas né, criança que mexe na barriga, se a criança não mexe na barriga a mãe fica preocupada, não é? Mas aqui a criança mexeu mais do que devia. E Isabel ficou repleta do Espírito Santo! João Batista ainda no seio da mãe reconhece o Messias, é a mesma cena que nós vamos ver no dia do Batismo de Jesus, quando João Batista diz "eu que tenho que ser batizado por você, e não eu te batizar". É o reconhecimento do Messias, o Messias que é Jesus. "O maior filho nascido de mulher", João Batista vai dizer isso e reconhece "Ele é o cordeiro de Deus, Ele é o Messias" desde o ventre materno. É muito interessante ver como Isabel saúda Maria. "Bendita és tu entre todas as mulheres", "bendita por excelência, não existe uma mulher mais abençoada que você", mas não por ela, pelo Messias que ela traz, pelo Messias que ela foi digna de gerar, pelo Messias que Deus fez com que ela fosse digna de gerar, e essa união, essa relação não se apaga. Mãe pode gerar bandido, mas sempre vai ser filho dela. Mãe pode gerar santo, mas sempre vai ser filho dela. Mãe pode gerar Deus e sempre vai ser filho dela. Porém, o maior elogio que Isabel faz para Maria é aquele que anula o pecado das origens.


No mito de Adão e Eva, nós vemos desobediência, o medo e a desconfiança. Em Maria, o que Isabel louva? "Bendita és tu que acreditastes, porque se farão as coisas que o Senhor prometeu". O que nós temos aqui? Nós podemos dizer que naquele instante que Maria recebeu o anúncio do anjo, ali é o verdadeiro momento da criação do ser humano, porque ali tem obediência, tem confiança, disposição de seguir o que Deus propõe. E cuidado! Quando Deus propõe para a Maria não está tudo claro, Ele fala para ela que ela vai ser mãe, que o filho será Deus conosco, que vai ter o trono de Davi para sempre, mas o anjo não revela tudo. Nós temos que pensar que essa atitude de confiança de Maria se mantém lá debaixo da cruz. Ela ficou de pé, embaixo da cruz. "Confio no meu Senhor, Ele é fiel, eu não entendo, Ele faz". De fato, três dias depois, Jesus se revela o Deus da vida e da ressurreição. E, na hora de Pentecostes, diferente do que muito das nossas culturas mostram, Maria lá no centro com os apóstolos em volta, não. O texto de Lucas não diz isso, fala dos doze, fala dos cento e vinte irmãos com Maria e os parentes de Jesus. Maria está na comunidade, a comunidade que agora é lugar do Espírito de Deus, e há confiança mais uma vez. "Deus vai cuidar da gente". Deus manda o Espírito Santo e Deus vai fazer igreja com esse pequeno grupo de pessoas, vai fazer a igreja anunciar o Evangelho ao mundo inteiro. Confiança, essa é a grande atitude que o Evangelho de hoje que nos convida a ter.

Cuidado, é mais difícil do que nós pensamos ter plena confiança em Deus, e a plena confiança é colocada a prova nos momentos de grande crise, o maior deles: a morte, e é nesse momento que é colocado em xeque-mate a nossa confiança em Deus. Mas também no momento da dor, da doença, no momento da morte dos outros, mas é no momento da nossa morte, que a nossa confiança em Deus é colocada em xeque-mate. Por isso nós pedimos na oração da Ave-Maria "Rogai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte". Para que? Para que nós tenhamos a mesma atitude de Maria, essa confiança incondicional em Deus, Ele vai cuidar, a resposta é dEle, a última palavra é dEle, eu entrego com confiança nas mãos dEle. Por isso Maria é chamada de "bem-aventurada por todas as gerações", porque a confiança dela é a confiança que Deus espera de nós. Não tenham medo, confiem! Olhando para Maria, nós aprendemos a confiar em Jesus e a seguir os seus passos de vida eterna. Maria se faz portadora dEle, seguindo os caminhos dEle, porque, em tudo e para tudo, Maria é de Jesus. E do mesmo jeito que o coração da mãe e o coração do neném batem, o coração de Maria e o coração de Jesus batem unidos, do modo que a vontade de Jesus é a vontade de Maria, não poderia ser diferente. Vamos pedir ao Senhor que nos ajude, nesses dias que precedem o Natal, a depositar a nossa confiança em Deus como Maria depositou a sua confiança em Deus.

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Convertamos nosso coração e sejamos solidários

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 3ª Domingo do Advento (Ano C – 12/12/2021 - missa às 10h)

É muito interessante ouvir João Batista, que está chamando o povo à conversão. E mais interessante é que ele não fala para ninguém rezar ou ir ao templo. Ele pede que as pessoas mudem de atitude. Chama muita atenção, também neste texto, que ele fala com cobradores de impostos e soldados. Estas são pessoas que estão diretamente lidando com o povo e, de alguma forma, exercem poder em nome do Estado. Os cobradores de impostos cobravam absurdos. Roma pedia uma moeda e eles cobravam 3, 4 ou 5. E essas a mais eles colocavam no bolso. Era corrupção correndo solta. E os soldados, que muitas vezes praticavam a extorsão – coisa que ainda pode acontecer hoje em dia.

 

Quantas vezes, para se protegerem, a gente vê pessoas que exercem poder sobre o povo inventarem histórias. Nós vimos a que ponto pode chegar esta invenção de histórias. No Brasil, com acusações falsas para lá e para cá, estamos no caos que estamos hoje. A justiça transformada em arma política. Isso é o que acontece. Acontecia lá e acontece agora. É claro que nós precisamos que os nossos policiais, por exemplo, tenham um salário mais digno. Você não pode enfrentar certas situações, arriscando a vida e sua família inteira em troca de merreca. Então nós teríamos que melhorar muita coisa. Mas, como diz São João, isto não pode ser por meios fora do caminho.

 

E para os demais, São João não fala nada? Fala. As duas primeiras coisas São João fala para nós. Se você tem duas túnicas, dê uma para o outro. Se você tem comida, ajude quem não tem. Nós temos que aprender a solidariedade. Nós temos que aprender a não viver em torno do próprio umbigo. Nós temos que olhar as necessidades das pessoas que estão à nossa volta. E, atualmente, a nossa consciência é maior. Não só com relação às pessoas, mas também ao ambiente. Uma coisa que nós podemos e devemos fazer é a reciclagem, separando o lixo do modo correto. E nós percebemos que o chamado lixo orgânico é pouco, mas o reciclável é muito. E, se a gente separa as coisas, fica muito melhor para depois se desfazer disso tudo. 

 

Depois, o Evangelho de Lucas[Lc 3,10-18] continua com uma conversa ainda muito pior, que é com o povo da religião. São os escribas e os fariseus. João vai chamá-los de raça de víboras. Nós estamos vendo muitos problemas com o mundo religioso. Se nós não nos tornamos verdadeiros anunciadores de Jesus Cristo, não nos tornamos verdadeiros testemunhos Dele, não nos tornamos testemunhas da verdade, Deus transforma a nossa palavra em pó na nossa boca. Nós temos que anunciar Jesus sem outro interesse. Sobretudo, sem interesses políticos. É uma questão complicada. João chama todos a se prepararem para aquele que está por vir, que é Jesus. Porque o julgamento de Jesus toca o coração de cada um e se baseia no amor e na justiça. Vamos pedir a Deus que Ele nos ajude a ouvir este grito de João Batista. 

 

Hoje também celebramos a memória de Nossa Senhora de Guadalupe, do México e de toda a América Latina. No Brasil, a colonização foi terrível, mas foi um pouco mais lenta. Na América espanhola, a imposição do império sobre os nativos foi ainda mais intensa. E, no meio deste conflito difícil, um índio estava indo, 5h da manhã para a catequese. E nós temos que pensar que ele estava no México, que é no hemisfério norte. 5h da manhã ainda é bem escuro, frio. E, em um certo momento, ele escuta música, uma música estranha e atraente, algo que ele nunca tinha ouvido. E ele vai procurar esta música na colina, que não era muito longe de um antigo templo que existia ali. E ele vê esse lugar diferente e ele pensa “nossa, será que eu cheguei naquele lugar que nossos pais falavam que nós teríamos depois da morte? A terra sem males?”. E ele ali, encantado, de repente vê esta menina de uns 12 anos e ele vai sempre se referir à Nossa Senhora como “minha menina”. E o interessante é que esta menina está grávida. Nossa Senhora não tinha mais de 12 ou 13 anos quando ficou grávida de Jesus. Esta era a idade com a qual as meninas se casavam naquele tempo. E ela fala para ele: “você vai lá e fala pros padres para eles construírem aqui uma capela porque eu quero enxugar as lágrimas, consolar os meus filhos”. Aí ele vai para a cidade onde ia ter a catequese, fala com o padre, com o secretário e com o bispo sobre isto. Todos o taxaram de louco. Mas, no dia seguinte, ela falou de novo, assim como nos dias seguintes. Daí ele mudou de caminho e ela foi atrás dele no novo caminho. Ele retruca dizendo que ela provavelmente teria outros mensageiros mais importantes que ele para levar o recado, pois ele era apenas um índio. Ela falou: “tenho muitos, mas é você que eu quero que insista”. Daí ele foi novamente falar com eles e o bispo, irritado, diz: “você diga para esta menina que eu construo essa capela se ela me der rosas de Castilla”. Castilla era na Espanha. Rosas não existem no hemisfério Norte, no inverno. Ou seja, algo impossível. Mas o índio foi embora todo contente achando que a menina ia dar um jeito no pedido. No outro dia, foi falar com ela e ela disse para ele pegar ali as rosas. Ele as pega e as carrega junto ao corpo. E, todo contente, foi levar para o bispo. Quando ele chega, o bispo vê que se estampa na roupa dele a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe. 

 

São coisas muito interessantes naquela imagem: as estrelas que estão no manto dela é como se ela pegasse o céu naquele momento astronômico e colocasse em cima dela. Ela tem a lua debaixo dos pés e o sol atrás dela. A lua e o sol para os maias eram deuses. Ou seja, ela está dizendo que está acima da lua e que ela ofusca o brilho do sol. Ela diz, desse modo, que é a mãe do verdadeiro Deus. E ela está grávida de Jesus, tendo um laço que indica que está grávida. A imperatriz maia, quando estava grávida, usava aquele sinal. E a roupa dela é cheia de flores, que nós chamamos de desenhos. Mas que, para os índios daquele tempo, eram letras, eram símbolos. Nós, quando lemos letras japonesas ou chinesas, nós não entendemos. Mas eles entendem. Os índios quando viram aquilo gritavam “indiazinha toda nossa”. E daí por diante, eram milhares de índios que vinham, todos os dias, ser batizados por causa daquela manifestação da Virgem Maria. Então nós podemos dizer que, na América Espanhola, Maria foi a verdadeira evangelizadora. Ela falou a língua dos índios e não desvalorizou os símbolos dos índios, mas os assumiu todos, levando este povo ao verdadeiro Deus. 

 

Vamos pedir à mãe de Jesus – que, aqui no Brasil se manifestou como Nossa Senhora Aparecida, a pretinha sem cabeça tirada do rio das águas podres, onde os negros eram decapitados quando fugiam e jogados lá dentro – que ela também nos ajude a superar os nossos racismos, as nossas divisões, para que nós possamos ser um povo de grande consciência, um povo que ama a sua terra e que seja solidário entre si e com os outros povos.

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Perdoar e respeitar o outro pra estar mais perto de Jesus

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 2ª Domingo do Advento (Ano C – 05/12/2021 - missa às 10h)

A tradição nos diz que Baruc era secretário do profeta Jeremias, e ele também era profeta. O povo tinha sido exilado, tinha sido mandado para a Babilônia, e o povo da terra, os pobres que tinham ficado, ficaram perdidos, sem liderança. Então, é a tristeza, a desolação de tudo. O templo tinha sido destruído, e Baruc faz esta profecia: “vai chegar o tempo, e que os caminhos serão aplainados, e que o povo das várias regiões do mundo, o povo de Deus que foi esparramado, vai voltar para Jerusalém.”

E é exatamente essa imagem que São Lucas vai usar para mostrar como é esse tempo. E ele diz que o Imperador era Tibério, o rei da Galiléia era Herodes, o outro rei era Filipe, o outro governava uma outra parte, Pôncio Pilatos era o governador da Judéia, e, nesse tempo, os sumos sacerdotes eram Anás e Caifás.

No tempo comum, no tempo normal, todo tempo tem um rei, todo tempo tem um presidente da república, todo tempo tem um governador, um bispo, todo tempo tem… é na vida comum. Deus escolhe um momento da vida para mostrar a sua fidelidade. Por que é que Deus faz isso? E por que Deus fez isso em Jesus? Para que aconteça exatamente o que o evangelista diz: para que os buracos sejam cheios, as montanhas sejam abaixadas, os caminhos tortos se tornem retos, para que todos possam ver a salvação que vem de Deus.

Jesus, Deus, se fez um de nós para falar com palavra humana, sentir com coração de carne, sofrer com dor humana, para que todos nós pudéssemos entender o Evangelho, a mensagem Dele: Sejam irmãos, se perdoem, amem uns aos outros, amem até dar a vida pelo outro. Essa é a salvação de Deus, essa é a salvação do mundo.

Na próxima semana nós vamos ver como João Batista vai ser bem duro e vai mostrar bem as coisas como elas são. Um caminho novo... comece a agir de outro jeito! Não existem mistérios na palavra de Jesus, é uma palavra da verdade, é palavra que se pode entender. Deus não fala de forma misteriosa, Deus falou para nós com voz humana, caminhou pelas nossas estradas dois mil anos atrás, mas eram estradas humanas.

O Natal, este tempo que nos separa do Natal, que chamamos de Advento, aquele que vem, é tempo para isso, ir tirando da nossa vida aquelas coisas que são obstáculos. As montanhas serão abaixadas, tudo que na nossa vida é obstáculo para ver e encontrar Jesus, e Jesus de um jeito que nós nunca esperamos!

Quem poderia pensar que o Deus do céu e da terra ia nascer numa manjedoura? Manjedoura é cocho, viu gente. Palavra bonita para dizer cocho. Esse é nosso Deus, que fala de forma simples para que quem quer ver, possa ver. Não tem obstáculo, está ali.

Vamos pedir ao Senhor que Ele nos ajude a tirar tudo aquilo que atrapalha no nosso caminho de ver Jesus. Primeira coisa de todas: tirar do nosso coração os nossos ressentimentos, os nossos ódios. Aprender que, apesar de a outra pessoa até pensar diferente de mim, ela é filho e filha de Deus tão amado quanto eu. Isso gera em nós o respeito pelo outro, seja quem for. A figura de Jesus pode estar muito estragada naquela pessoa, mas é sempre a figura de Jesus. Se nós aprendemos isso, nós entramos na dinâmica do Natal: conversão. Vamos tirar estes obstáculos do coração, vamos aprender a ouvir o outro, não só a nós mesmos, ouvir o outro para que nós possamos também ouvir Jesus.

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Olhar os pobres com carinho

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 1ª Domingo do Advento (Ano C – 28/11/2021 - missa às 10h)

Nós iniciamos o novo ano litúrgico e, com isso, nos preparamos para o Natal. Vamos acender, neste período, quatro velas, durante os quatro domingos, cada uma indicando um momento. Hoje, a esperança da vinda do Messias. Esta é a promessa que Jesus nos fez: Ele volta para julgar o mundo, julgar a história. E, olhando a primeira vinda de Jesus, nós nos preparamos para a segunda vinda. Para aqueles que durante a vida praticaram a injustiça, a morte, serviram aos ídolos da morte – que podem ser resumidos em dinheiro e poder –, destruíram as pessoas ou fizeram os outros sofrerem, a vinda de Jesus será um desespero. Para aqueles que seguiram Jesus e praticaram o bem, será um momento de muita alegria, tanto que o evangelista São Lucas vai nos dizer: “Levante a cabeça! Erga-se! A vossa libertação está próxima”. Isso ele fala para todas as vítimas da história que sofreram por causa dos desmandos daqueles que só buscaram dinheiro, poder, fama e glória à custa dos outros. 

 

Nós temos aqui preparado o nosso presépio. E as pessoas perguntam: “ué, cadê o Menino Jesus na manjedoura?”. O Menino Jesus é a Palavra de Deus eterna, encarnada. E nós vamos colocar o Menino Jesus ali na noite de Natal. Durante este tempo, nós vamos lendo as palavras da Escritura que nos preparam a vinda de Jesus. Então, na manjedoura, está a Bíblia, sobretudo o Antigo Testamento, que anuncia a vinda do Messias; e o Novo Testamento, que espera a segunda vinda de Jesus. 

 

O Advento é tempo de espera. Nós usamos roxo, mas é um tempo diferente da Quaresma, em que nos preparamos para dias pesados e difíceis da Paixão do Senhor. No Advento, permanecemos naquela espera alegre, naqueles últimos dias da mulher grávida que vai dar à luz o filho. A família toda fica ansiosa. É uma espera, uma expectativa. Esta é a atitude espiritual do Advento: a espera da chegada da promessa de Deus. E chega na fidelidade. Deus é fiel. Ele vai vir consolar e salvar o seu povo. 

 

Não sei se vocês acompanham as redes sociais, mas, nestes dias, temos visto o padre Júlio Lancelotti colocar nas redes sociais vários lugares aqui no Brasil que mostram a aporofobia, que é o medo dos pobres, desprezo pelos pobres. São, por exemplo, placas de incentivo dizendo “não dê esmola, mande para o assistente social”. Mas, se isso fosse verdade, nós não estaríamos distribuindo 1500 marmitas por mês para os pobres aqui em volta da nossa região. Não estaríamos dando 250 cestas por mês. Isso é uma forma que esses governos têm de colocar esses miseráveis em uma situação ainda pior. Ajude segundo o seu coração. A pessoa pode decidir “não dou ajuda no semáforo, mas vou dar na paróquia todo mês um quilo de alimento para os pobres”. A pessoa pode decidir, mas não deixe de ajudar. Os pobres serão os primeiros que, no dia do juízo, vão se levantar e erguer a cabeça porque seu libertador chegou.

 

 Vamos nos colocar do lado deles para que eles também sejam nossos advogados junto de Jesus. Não deixe de fazer o bem. Ninguém está na rua porque quer e gosta. Ninguém fica dias e dias sem comer um prato de comida porque gosta. Ninguém fica com roupa velha, suja e fedida porque gosta. E não basta dizer que é vagabundo, que tinha oportunidade. Mas que oportunidade essa gente tem? Onde? Mentiras. E se a assistência social realmente se preocupasse com os pobres, eles teriam o que comer, o que vestir e onde ficar. Jesus nasce na pobreza. Não despreze os pobres. Desprezar os pobres é desprezar Jesus.  

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Jesus é o Rei que se eterniza

Homilia: Pe. Flávio José dos Santos – Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo - Rei do Universo (Ano B – 21/11/2021 - missa às 10h)

Queridos irmãos e irmãs, Deus nos dá a graça, nessa manhã, de caminharmos e fazermos essa passagem. Celebrar Cristo Rei é celebrar, no sentido litúrgico, o último dia do ano. A partir do próximo domingo, primeiro do advento, celebraremos 2022, no sentido da liturgia. E, com isso, o que nós colhemos de tudo que experenciamos? Que período difícil! Mas Deus foi aquele que não nos abandonou, nos sustentou, por isso chegamos até aqui! "Ah, padre, mas e aqueles que partiram? Eles foram esquecidos por Deus?" Não, muito pelo contrário, estão em Deus. Eu sempre reflito isso.

Se você teve alguém que se foi, nunca diga que perdeu, quem ama não perde! Quem ama parte para Deus, e sua partida deixa tristeza, mas tenha certeza de uma coisa: cada lágrima que você deixa cair vai te dar mais esperança de um dia se reencontrar. E, no momento que estivermos juntos, não será somente momentâneo, mas eternizado, porque é a graça do amor que conduziu a eles que vai nos sustentando para o dia que estivermos juntos também.

Esse é o sentido de celebrarmos hoje Cristo Rei do Universo. Jesus é o rei, mas não é o rei como temos em nossa mente de um reinado humano, temporal, é aquele que se eterniza, como nós ouvimos na primeira leitura da profecia de Daniel [Dn 7, 13-14]. É bonito perceber que, diante daquela realidade difícil em que Daniel escreve para aquele povo, ele diz: "Haverá um Deus que é rei e que vai governar para sempre!". E que governo é esse? Não é no autoritarismo, não é na violência, mas é no amor, Sua lei é o amor. E esse rei tem um trono, que é a cruz.

Mas, ontem, eu até refletia: " onde que ele se senta nesse trono?" – coloque a mão no seu coração agora, até você que está em casa... é aí que ele se senta. Assim, vamos entendendo até mesmo o que Ele diz para Zaqueu: "Zaqueu, eu devo estar na sua casa." Por isso, hoje, Ele fala: "eu devo estar na sua casa que é o seu coração". É ali que Ele se senta. "Nossa, padre, então o senhor está me dizendo que eu sou uma cruz?" Sim, mas o que você entende por cruz? “Ah, então eu faço os outros sofrerem? Eu faço até mesmo Jesus sofrer? Eu magoei o coração de Deus?”. Ele mesmo vai dizer lá em Ezequiel: "os seus sentimentos não são como os meus".

E uma coisa mais bela: a partir de Jesus nós vamos entender o sentido da cruz para nós. A cruz, por mais que pensemos que é dor, sangue, sofrimento, angústia, lágrimas, para Jesus é diferente: “por você eu sofro, por você eu morro, você é a razão do meu viver!”.  É por isso que você é cruz, porque, por você, Ele faz tudo.

Quem é pai e mãe sabe perfeitamente que pelo filho fazem tudo, e é por isso que hoje nós queremos perceber que este sentimento vai perpetuando ao longo da nossa existência. E, ali, o reino não é somente o lugar, mas uma realidade, onde vai crescendo em nós essa expectativa e, aqui mesmo, nós vamos vivendo essa realidade. Não é viver somente no fim último, "ah, então deixa que no momento que eu ressuscitar, vou ver como é este reino"... não! Nunca se esqueçam o que é o reino: onde não há divisões, não há brigas, nem rancores, nem ódio, onde todos são contemplados, não há fome, não há sede.

Neste reino não há desistência, e, por isso, falo até para você que vai fazer o ENEM: você não é avaliado por uma prova, se você tem no coração o seu sonho, lute! Muitos vão falar para você que não vai dar certo, muitos vão falar para você que está errado, para buscar outra coisa. Mas, se você tem isso no coração, vá em frente, você vai conseguir. Não sabemos o dia, mas você vai conseguir. Caminhe, coragem! Não deixe que, às vezes, as adversidades do dia matem o seu sonho, tenha coragem.

Ele é o rei que vai nos dando perseverança em tempos de angústia. É muito interessante, é um rei que nos dá esperança em tempos de angústia, é um rei que nos defende. Então, vamos percebendo aquilo que nos diz a segunda leitura [Ap 1, 5-8]: é o rei que torna nossa vida um momento celebrativo, e abre as portas da eternidade para que todos nós possamos fazer essa experiência.

Por isso, hoje, ao celebrarmos o Cristo Rei, nós queremos pedir que Ele, como rei do universo, tão grandioso que é, sente e conviva comigo, tão miserável que sou. Não importa o que você faça ou o que você seja, o que importa é a sua existência para Ele, e deixar que Seu amor sempre o transforme, sempre o fortaleça, para que, cada dia, produza muitos frutos, frutos do Seu reino, que a cada dia é o cuidar, zelar e animar, e levar essa graça e essa luz a muitos corações que ainda não O descobriram.

 

Vamos pedir que essa Eucaristia ilumine muito a nossa fé, que possamos retomar cada dia nossos caminhos, e, com certeza, pedir que este rei que não é distante, que está tão próximo, este rei que não desiste de você, de nós, cada dia nos sustente nos momentos mais difíceis que iremos passar na vida.

Louvado seja o nome do nosso Senhor Jesus Cristo! Para sempre seja louvado.

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A saída para nosso mundo é a fraternidade

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 33º Domingo do Tempo Comum (Ano B – 14/11/2021 - missa às 10h)

Na semana passada nós celebramos a Solenidade de Todos os Santos, então o Evangelho era outro, não era o exatamente anterior a este. O Evangelho anterior (Mc 12, 38-44) fala da queda e destruição de Jerusalém, local que era um sinal para o povo da tribo de Judá, depois da Palestina. Era um sinal da presença de Deus! Ali estava o templo, estava o sinédrio, que eram os juízes, o congresso, e ali estava também o que chamaríamos hoje de casa da moeda, todo o poder estava concentrado em Jerusalém.

Jesus faz a profecia da destruição de Jerusalém: “quem estiver no terraço não desça para pegar suas coisas, quem estiver nos campos não volte para a cidade. Pobre das mulheres que estiverem grávidas naquele dia, pobre das mulheres que estiverem amamentando!”. Uma profecia terrível, porém, não é uma visão do futuro, como se Jesus fosse um lunático, não! São as consequências das ações do próprio povo e dos seus chefes, que foram infiéis à aliança. E mais: vão matar o messias que Deus mandou, o próprio Jesus. Não reconheceram os sinais de Deus porque se tornaram infiéis, por isso foram destruídos. 

O templo de Jerusalém foi arrasado, as famílias sacerdotais foram mortas, um grande grupo de pessoas, no ano 72, foram massacradas. O judaísmo que existia até o ano 72 simplesmente deixou  de existir! O judaísmo que conhecemos hoje é um judaísmo que foi reestruturado depois da destruição do templo.

As consequências foram tremendas porque o povo de Israel, com seus chefes, não foram fiéis a Deus. Essa é a profecia que trata de Jerusalém, porém, o Evangelho estava sendo anunciado para as nações, então, esse Evangelho que ouvimos hoje (Mc 13, 24-32) fala não do fim do mundo, mas da queda dos falsos deuses pagãos, que são representados pelo sol e pela lua.

 

O anúncio do Evangelho e a vida de amor e serviço dos cristãos denuncia esses falsos poderes do mundo que criam morte. A ação dos cristãos vai fazer com que esses ídolos de morte desapareçam! As estrelas vão caindo; ao longo da história, grandes líderes, grandes ditadores, grandes imperadores pensavam que eram os donos do mundo. O rei da Babilônia se considerava a luz do céu, uma estrela, uma grande luz no céu.  Por quê? Ele se chamava deus. Os imperadores de Roma era divinizados, deuses. E o que você pode contra um “deus”? Bem pouco, ainda mais se ele é um tirano louco, não é?

 

A ação dos cristãos de fraternidade, de amor, de luta e denuncia contra a tirania dessa gente, fará, ao longo da história, com que eles vão caindo até que o mundo se torne o mundo dos eleitos de Deus. E o que isso significa? Um mundo de amor e fraternidade!

Hoje estamos em um tempo terrível. Qual é o grande deus do nosso tempo? É o mercado, e o poder dele é o lucro, e existe uma série de deuses menores que vêm junto com ele, e que criam para o povo sofrimentos, diferenças, morte, fome... esses são ídolos da morte!

O Papa Francisco, na sua carta Fratelli Tutti (irmãos, todos irmãos), vai dizer: “nosso mundo só tem uma saída! Na frente desse monstro, desse ídolo da morte que se chama mercado, que é implacável, só tem uma possibilidade: a fraternidade.” A fraternidade coloca o lucro fora do jogo porque o que conta é o bem do outro. O outro está passando fome? Eu divido o que eu tenho.  Um país na África está passando fome e eu tenho aqui 10 toneladas de comida? “Ah, mas vai ficar caro pegar um avião e mandar para lá, deixa apodrecer aqui...” não! Eu não vou ter tanto lucro, talvez até vá perder, mas lá tem gente precisando. Essa é a lógica da fraternidade!

 

Nós estamos falando tanto agora de clima, e o Brasil está sendo um vergonha nisso. Além do mentiroso que vai lá mentir para as nações, estamos em uma situação grave: a Amazônia nunca teve tanta queimada como agora. Se você só pensa no lucro (mineração ilegal, extração de madeira ilegal), você derruba tudo, você devasta tudo! “Ah, mas eu quero esse pedaço de terra grande igual ao ABC!” - mas ali tem uma tribo indígena! “Coloca fogo, queima tudo! Tanto que o que é índio?”

Essa é a ideia do lucro, de quem não pensa no bem do outro, e nem no bem do mundo! “Ah, mas é só um pedacinho de terra que eu vou queimar...” mas isso está fazendo mal para o mundo inteiro. Todo o discurso dos combustíveis fósseis... mas estão realmente investindo, por exemplo, na energia solar?  A gente paga uma fortuna para instalar um painel solar, o próprio Estado coloca dificuldades. Tem muita gente ganhando, então o que conta é o dinheiro, não o bem do povo, do mundo nem das próximas gerações.

 

Existiu um rei no tempo de Israel, o rei Acabe, que era marido de uma mulher terrível, a rainha Jezabel. O nome dessa mulher e demônio são quase sinônimos, e ele fez uma loucura, arrumaram um complô para ele se apossar de um terreno de um homem inocente, um horror o que fizeram! E o profeta o amaldiçoou. Ele se arrependeu, e Deus falou: “essa desgraça não vai acontecer com você, mas com seu filho.” Aí ele falou: “ah, que se dane, é com meu filho”.

A nossa geração, os grandes do nosso tempo, está fazendo exatamente o que esse rei fez: “nós estamos comprometendo o futuro do mundo...” – “Problema deles, problema para as próximas gerações, até lá eu já estarei morto e terei passado a vida com o bolso cheio de dinheiro!”.

Isso é a lógica da não fraternidade! Por isso, os cristãos têm que estar sempre atentos à fraternidade e às situações do mundo que são contra a vida, contra o Evangelho, porque é pela ação dos cristãos, a ação nova dos cristãos, que essa mentalidade monstruosa do mundo vai mudando, essas estrelas falsas vão caindo e o respeito pelas pessoas vai crescendo.

 

Essa é a mensagem de Jesus, e é muito interessante ver a última frase do Evangelho: “sobre aquele dia e aquela hora ninguém sabe, nem os anjos, nem o filho, só o pai.” A hora, no Evangelho, é a hora da cruz de Jesus.

A cruz de Jesus é o julgamento do mundo. Todos nós, todas as nossas ações, todos os nossos pensamentos, julgamentos, todo o amor que temos pelas pessoas aparecem agora, diante da cruz de Cristo: o homem massacrado porque pregou o amor aos irmãos e irmãs.

O que os ídolos da morte são capazes de fazer? Matam, só isso eles podem: matar e destruir! Mas a resposta de Deus só pode ser uma: vida. E, para esse inocente massacrado, Deus responde com a vida eterna.

 

Jesus é causa de salvação para todos que nele creem e que buscam agir como ele! Esse é o poder de Deus, diferente do poder do mundo, e é isso que esse Evangelho está anunciando: é a prática dos cristãos que vai, aos poucos, mudar o mundo, e a quantidade de pessoas que vai acolher o Evangelho será tanta que abraçará os quatro cantos do mundo! É por isso que, em torno do filho do homem, que é Jesus Crucificado, vão se reunir todas as nações da terra.

Vamos pedir ao senhor que, nesse tempo, em que no Brasil vimos tanta mentira, tanta injustiça, tantas pessoas passando fome... hoje celebramos o dia do pobre! No mundo inteiro a igreja está fazendo ações pelos pobres. “Ah, mas não ajudamos os pobres todos os dias, toda semana?” Sim, mas é um modo de gritar para o mundo: nós temos que mudar nosso modo de agir, nós temos que nos preocupar com aqueles que sofrem, nós não podemos produzir mais sofrimento!

A cruz de Jesus nos leva a anunciar isso de uma forma muito forte. Hoje, na praça do Carmo, vamos distribuir 500 marmitas para os pobres, um grito para Santo André inteira: tem fome e pobreza nesta cidade! Nós, cristãos, estamos tentando fazer o que podemos, mas não basta. Os outros poderes deste lugar precisam fazer algo pelos pobres.

 

Vamos pedir ao Senhor que nos ajude a continuar olhando para Jesus crucificado, mudar o pensamento e a ação desse mundo.

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A santidade em nosso dia a dia

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – Solenidade de Todos os Santos (Ano B – 07/11/2021 - missa às 10h)

O Evangelho de hoje[Mt 5,1-12a] se presta a muitos comentários que devemos vigiar nas nossas ações e pensamentos. Bem-aventurados os pobres em espírito. Um cristão tem sempre os olhos voltados para onde estão os olhos de Deus. E os olhos de Deus estão voltados para os pobres, os injustiçados, os doentes, enfim, toda pessoa que sofre. E Jesus está pregando este Evangelho para seus discípulos e toda multidão que o segue e seguirá. Os olhos de Deus estão lá. Todas as outras bem-aventuranças serão consequências deste “ter os olhos voltados para o lugar que Deus olha”. A consolação na aflição, a misericórdia onde vem o desejo de violência, a busca da paz e da justiça, mas a justiça da Escritura. A justiça do Estado – e não poderia ser diferente – se baseia em um princípio: dar a cada um o que lhe é próprio. É um princípio muito bom, mas também pode simplesmente manter a sociedade e o mundo exatamente como estão.

Na Escritura, o significado de justiça é o de fazer justiça ao pobre. Defender o direito do pobre. Por quê? O rico já tem como se defender. O pobre é que não tem justiça. Ao pobre, há demora em se fazer justiça. Ao pobre, o Estado dá calote. E, muitas vezes, quando você grita contra isso, você é perseguido. Nós temos sempre que ter os olhos voltados para Jesus e Seu jeito. E o jeito Dele é esse. Jesus não está nos palácios, tomando chá com Herodes ou Pilatos. Jesus está no meio dos pobres, no meio do povo. E o povo daquele tempo era pobre. A eles, Jesus diz bem-aventurados. Todos aqueles que se solidarizam com os pobres entram nas bem-aventuranças: todos aqueles que buscam a paz, que buscam a justiça, que não se enganam e não se deixam enganar pelas mentiras que são ditas constantemente pelos poderosos e outros grupos de poder. Estes são os puros de coração porque veem sempre o rosto de Jesus e o jeito Dele de ver, agir e sentir. Então devemos ter sempre os olhos em Jesus e em seu Santo modo de fazer.

Queria fazer um comentário sobre o livro do Apocalipse porque aqui nós encontramos tantas interpretações sobre este texto que nós ouvimos hoje. O anjo marca a testa dos 144 mil eleitos das 12 tribos de Israel. 12 mil de Rúben, 12 mil de Gade, 12 mil de Benjamim e assim sucessivamente. 144 mil não significa realmente este valor, mas sim um número simbólico. Existem muitos números, na antiguidade, que são considerados quase que mágicos. Os números 3 e 4 estão entre eles. Sua soma, 7, e sua multiplicação, 12, são números de perfeição. 12 vezes 12 dá 144, que é outro número de perfeição. 144 vezes 1000 dá 144 mil. 1000 é um outro número de perfeição. Portanto, 144 mil significa totalidade. Ou seja, Deus vai salvar o povo de Israel, os hebreus, os judeus. Por quê? Porque ele prometeu e Deus é fiel. Só que nós temos que olhar o jogo que o escritor do Apocalipse faz. Porque são duas imagens: deste lado, os 144 mil; e esta outra imagem que São João vê logo depois. Aqui são 144 mil, um número fechado. Do outro lado existe uma multidão que ninguém é capaz de contar. É muita gente.

O povo de Israel é apenas um dos povos. Do outro lado, nós temos todos os povos. O povo de Israel fala uma língua, que é o hebraico. Aqui são todas as línguas. O povo de Israel é uma raça, semita. Do outro lado, todas as raças. Israel é uma nação, nação hebraica ou judaica. Aqui, todas as nações. O que significa isso? Que os privilégios e as promessas que Deus dá para Israel, para os judeus, Ele dá para todos os outros povos. Todos. Porque, para Deus, não existem privilegiados. Deus não faz distinção de pessoas. Deus não diz para um homem e uma mulher que trabalham em um emprego e fazem a mesma coisa: “você, homem, ganha mais e você, mulher, ganha menos”. Deus não faz isso. A mesma coisa com cor de pele. Deus não faz distinção entre preto e branco.

Deus quer todos na Sua casa. E Ele vai fazer de tudo para conseguir isso. E, diante Dele, nós temos a igualdade radical. O que nós não conseguimos neste mundo, devido ao nosso sistema político, econômico, religioso, nós vamos ter diante de Deus. E, quando nós somos cristãos, nós procuramos sempre formas de nos aproximar cada vez mais desta imagem. Papa Paulo VI disse sobre paz e progresso. Papa João Paulo II falou de solidariedade. Já o Papa Francisco falou de fraternidade. São estes princípios que fazem com que o mundo, a sociedade e a economia possam se aproximar sempre mais disto, que é a igualdade entre as pessoas. Porque é isso que Deus quer. E o Apocalipse nos mostra exatamente isso. Não existem privilégios. Todos recebem a mesma paga, ou seja, a plenitude de Deus. Para alguns, isto será o céu – ser radicalmente igual aos outros em dignidade, em acolhida. Para outros, isso será o inferno – para quem não se considera como o outro, para quem se acha superior, encontrar-se na igualdade será o inferno. Para quem viveu pisada, esmagado, perseguido, discriminado, ter dignidade igual isso será o céu.

O Apocalipse é um livro que tem grandes consequências. De fato, apocalipse significa revelação. A revelação de Jesus são os Evangelhos. Então o Apocalipse está, com uma linguagem toda própria, na via estreita dos evangelhos.

Vamos pedir ao Senhor que Ele nos ajude. Primeiro, a escutar a Sua Palavra. E aqui, vai sempre o puxão de orelha do padre: quem é que lê a Escritura todos os dias? Quem que já leu um Evangelho inteiro? Tem Evangelho com 16 capítulos. O Evangelho de Marcos em 4 horas você lê. Quem já leu o Novo Testamento inteiro? Quem já leu a Bíblia inteira? Pode me perguntar, que eu já li. Então, ao menos essa, eu ganho. Se nós não conhecemos as Escrituras, se nós não conhecemos os Evangelhos, como que, realmente, nós vamos seguir Jesus e ter os sentimentos Dele? Vamos ter coragem, conhecer Jesus, começando pela Escritura, a Palavra Dele. Depois, o passo seguinte, colocar o que nós aprendemos de Jesus em prática. Nesta hora, é preciso pedir luz e força para o Espírito Santo porque aí começam a aparecer as nossas mentiras, as nossas máscaras, os nossos preconceitos. E aí é preciso ir arrancando isso e, às vezes, dói. Porém, este é o caminho de Jesus. Lá no livro do Apocalipse diz: “lavaram suas vestes no sangue do Cordeiro”. Não necessariamente foram mártires, mas tiveram a coragem de olhar para Jesus e arrancar de si essas coisas, essas atitudes que não são de Deus. Esses são os santos. A Igreja nos apresenta alguns dos infinitos santos que há na Igreja para que possam ser, para nós, estímulo e modelo. Porém, a santidade, o seguir Jesus, é algo que está esparramado no meio do nosso povo: pais e mães de família dedicados, filhos dedicados, pessoas honestas, pessoas que promovem a caridade, pessoas que fazem o bem, pessoas que falam a verdade, pessoas que não enganam. Estes são os santos e eles estão no nosso meio e são muitos.

Vamos pedir ao Senhor, que nos marcou com o Seu selo, que tenhamos os santos como exemplos. Nós somos todos batizados. E, no dia do batismo, nós recebemos o Sinal da Cruz em nossa testa e, depois, a unção do Crisma. Tudo isto nos faz de Jesus e nos coloca nesta multidão. Então nós vamos fazer o possível para colocar a nossa vida neste caminho.

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Jesus nos revela que o nosso caminho é a ressurreição

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – Comemoração dos fiéis defuntos (Ano B – 02/11/2021 - missa às 17h)

No dia de hoje, queremos lembrar as nossas orações pelos nossos falecidos. Desejamos que as nossas orações subam até Deus como o perfume de fumaça de incenso. Por isso que hoje utilizei o incenso. Jesus nos fala, várias vezes, sobre julgamento. E sempre que nós vemos isto, aparece a questão do como nós vivemos a nossa vida aqui, como nós tratamos os nossos irmãos e irmãs. Aliás, esta é a grande pergunta: nós tratamos os outros como irmãos e irmãs? Se nós vemos os outros desse modo, nós não deixamos que haja fome, ignorância ou doença. Todas as vezes que nós destratamos as pessoas, que nós as vemos como seres de segunda classe – às vezes, nem como seres humanos –, nós estamos fora do caminho do Reino. Deus ama a todos como irmãos e irmãs e o julgamento recai sobre este modo que nós temos de tratar o outro. Nós construímos vida ou nós a destruímos? Vocês promoveram a vida entre aqueles que estavam sofrendo ou vocês ignoraram e deixaram o sofrimento permanecer?

Nosso tempo não é pior que o passado. O nosso tempo é único e é nele que nós temos que fazer o que podemos. Nossa comunidade tem sido muito generosa com os que sofrem e isso é um motivo de louvor e agradecimento a Deus. Porém nós, todos os dias, temos que nos colocar sempre a questão: “Meu Deus, eu estou tratando os outros como irmão e irmã?”. Ela é fundamental pois isso nos leva à conversão.

Eu aceito e respeito os pretos? Os estrangeiros? Os gays? As pessoas, em geral? A palavra é respeito. Posso até não gostar, mas nem por isso a pessoa é menos. Eu não posso querer eliminar o outro porque ele é diferente de mim. O que não significa que quem erra não deva pagar pelo seu erro diante do Estado. Amor e justiça não são incompatíveis. Uma é irmã da outra. Em Deus, existe só misericórdia. E a misericórdia Dele é mais justa que a nossa justiça.

Todas as vezes que nós apresentamos uma intenção na missa pelos nossos mortos, nós estamos rezando por eles. Toda vez que nós pedimos a Deus que Ele lhes dê o descanso eterno – a nossos pais, nossos irmãos, nossos amigos –, esta oração chega aos ouvidos de Deus. Quando? Na eternidade de Deus. Deus está fora do nosso tempo. E as orações que nós fazemos hoje, Deus as escuta no momento da morte da pessoa, que é o momento do julgamento. Em Deus não há antes e depois. Para nós existe, mas para Deus não. E, na hora da morte, nós saímos do tempo e entramos na eternidade.

É muito interessante ver, na Transfiguração de Jesus, que Moisés – que viveu 1250 anos dele – e Elias – que viveu 600 anos antes – estavam vivos e falavam com Jesus. A ressurreição dos mortos é revelação de Deus em Jesus. Jesus é Deus ressuscitando dos mortos e, assim, Ele nos revelou que o nosso caminho é a ressurreição. O túmulo onde Maria Madalena foi procurar um defunto, o túmulo onde João e Pedro foram procurar um cadáver não é a última resposta da nossa vida. A resposta de Deus é aquela que abre os olhos de Maria Madalena e faz com que ela contemple Jesus ressuscitado. Ou, como no caso dos discípulos de Emaús, que caminharam com Jesus ressuscitado e lhes queimava o coração quando Ele lhes falava da Escritura. E quando Jesus parte o pão na mesa, com eles, seus olhos se abrem e eles contemplam, por um segundo, Jesus ressuscitado. Outra situação foi com os doze reunidos, e ali Jesus se apresenta diante deles e eles ainda têm medo que seja um fantasma. E Tomé quis colocar a mão em suas feridas. É a realidade nova que Deus nos mostra e que Deus nos dá: vida eterna. A morte dói? Para nós dói. É separação, é saudade, são laços que são rompidos. Porém, os nossos mortos estão em Deus e nos amam – e podemos dizer que até mais do que antes, porque agora eles veem o verdadeiro rosto do amor, que é Jesus. E eles desejam para nós que façamos um caminho que nos leve sempre mais para junto de Jesus.

Vamos pedir ao Senhor que usemos bem o tempo que temos enquanto nós dissermos “hoje”. Este grande hoje que, para alguns dura 30 anos; para outros, 50; para outros, 90. Enquanto nós dissermos “hoje”, que nós possamos, realmente, amar e servir, porque é isso que nós faremos no céu.

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Não tenham medo

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 31° Domingo do Tempo Comum (Ano B – 31/10/2021 – missa às 10h)

Jesus, quando foi para Jerusalém, sabia que os dias Dele estavam contados e, naqueles dias, Ele bateu boca com um monte de gente, porque todos queriam pegar Jesus numa cilada e, por fim, mandam este Doutor da Lei. Os doutores da Lei eram homens que durante toda a vida estudavam as Escrituras e, aos 40 anos de idade, eles recebiam um tipo de ordenação e a interpretação que eles davam da Palavra era considerada infalível. Eles mandam um homem desses para colocar Jesus a prova. Este homem não está ali porque ele gosta de Jesus, mas para pegar Jesus numa cilada. E então pergunta: “Qual é o primeiro e mais importante dos mandamentos?”. Jesus responde com uma oração que os hebreus rezam todos os dias, três vezes ao dia, que se chama Shemá, que significa “escuta”. Shemá Israel, Adonai Eloheinu, Adonai Ejad. Escuta Israel que o Senhor é teu Deus, o Senhor é único.

Depois Jesus coloca que o segundo mandamento é amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Desses dois mandamentos depende tudo, não existe mandamento maior do que este. E o mestre da Lei que queria pegar Jesus no pulo responde: “Mestre, o Senhor respondeu bem”. Este homem é um inimigo de Jesus e está ali para pegar Jesus no pulo, mas este homem é profundamente honesto, porque ele reconhece a verdade que veio da boca de Jesus, daquele que ele quer destruir. Amar a Deus e amar ao próximo é maior que todos os holocaustos e sacrifícios. E Jesus dá a contrapartida: “Você não está longe do Reino de Deus”. A verdade é verdade venha de onde vier e você não pode dizer que uma palavra ou uma ação de uma pessoa é falsa só porque ele é seu inimigo. O bem que a pessoa faz, mesmo sendo seu inimigo, continua sendo bem. Os católicos ajudam os pobres. O pessoal da umbanda ajuda os pobres. O pessoal do centro espírita ajuda os pobres. O deles é diferente do nosso? Não, é o bem do mesmo jeito. Agora, você dar camiseta para os outros para ganhar voto, isso aí é comprar votos. Entenderam? Querer estourar o teto de gastos para dar 400 reais para o povo, tirando um monte de gente do meio, isso é comprar votos, 400 reais não dá para nada, tinha que ser mais para deixar o povo comer. Pois é, o bem é bem de onde quer que venha. O mal tem que ser apontado e reconhecido.

Na Segunda Leitura, na Carta aos Hebreus, o autor nos fala de Jesus sumo sacerdote. No tempo dos hebreus, o sumo sacerdote, antes da celebração, tinha que oferecer um sacrifício que era matar um animal, isto é, oferecer o sangue do animal no lugar do seu, pelos seus próprios pecados. Depois, ele ia oferecer pelos outros. Mas isso tinha que fazer todo dia. Então, o autor fala que este sacrifício não serve para nada, pois todo dia ele tem que oferecer um novo sacrifício. Jesus é o Filho de Deus, o Filho do Pai. Ele se ofereceu em sacrifício e Ele entra na eternidade diante do Pai, com seu sangue. E é o sangue de Jesus, este sacrifício único, que nos salva, que intercede por nós diante do Pai. Nós temos um sumo sacerdote que é capaz de se compadecer de nós, porque Ele conhece a nossa humanidade. Ele se fez semelhante a nós em tudo, menos no pecado, para poder ser, diante do Pai, um sumo sacerdote capaz de salvar a todos nós. Por isso que nós podemos ter plena confiança em nos aproximar de Jesus. Não temos que ter medo. Jesus fala, repete nos Evangelhos: “não tenham medo, tenham confiança”. Confiança em quem? Em si mesmos, no outro e em Deus. O medo é o veneno que o maligno colocou no nosso coração, a desconfiança de nós mesmos, dos outros e em Deus. Jesus vai falar: acabem com isso, confiem. E Jesus nos mostra a confiança Nele até o ponto de morrer, Ele dá a vida, Ele não segurou nada para Ele para que nós possamos ter plena confiança Nele. A confiança em Jesus é o fruto do nosso batismo, é a graça que nós recebemos no dia do batismo.

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Lutar contra as cegueiras que o mundo nos coloca

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 30º Domingo do Tempo Comum (Ano B – 24/10/2021 - missa às 10h) 

Na Primeira Leitura de hoje, nós ouvimos um trecho do livro do projeta Jeremias [Jr 31,7-9]. Ele viveu 100 anos depois do profeta Isaías. E Isaías foi um profeta cujas muitas de suas profecias vieram a ser realizadas. A principal delas, para nós cristão, que nós interpretamos como o anúncio do nascimento do Messias, é que uma jovem dará à luz um filho. Na época, Isaías estava falando da rainha. No tempo dele, a Assíria era um grande império e cercou Jerusalém e ia tomar a cidade. O cerco foi terrível, mas Isaías disse: “não temam, eles não vão entrar nesta cidade”. E, de fato, não se sabe o porquê até hoje – se foi uma guerra em outro lugar, uma epidemia, uma peste –, mas o exército, de um dia para o outro, levantou acampamento, foi embora e não voltou mais. E isto criou para o povo a ideia de que Jerusalém estava protegida por Deus e que, poderia acontecer o que fosse, Deus estava nesta cidade. Cem anos depois, o profeta Jeremias vai anunciar a destruição de Jerusalém e a deportação do rei e da corte inteira. Ele viu a deportação, viu a destruição do templo e ele anunciou. Mais para a frente, este povo vai voltar, serão trazidos. O terreno vai ser aplainado, as pessoas não terão nem como se perder, tal será a glória desta cidade. Os povos das nações irão para aquela cidade. Só que ele não viu esta profecia cumprida porque isto aconteceu 70 anos depois e ele já havia sido assassinado no Egito.

Porém, este anúncio “os cegos vão ver, os coxos vão andar” é a ideia, pregação, profecia sobre o Messias. E aí nós vemos o Evangelho[Mc 10,46-52], no qual Jesus está indo de Jericó para Jerusalém. Em Jerusalém, Jesus vai ser crucificado. Então estão Jesus, seus discípulos e se fala de uma grande multidão. No meio do caminho, sentado, um mendigo cego começa a escutar aquela confusão e pergunta o que estava acontecendo. E lhe dizem que Jesus, o Nazareno, estava passando por ali. Então ele começa a gritar: “Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim”. Ele é cego, ele não pode nem sair de onde ele está, pois há uma multidão passando ali. Ele não é como a mulher que sofria de fluxo de sangue, que consegue passar no meio do povo até tocar em Jesus. Ele não é como Zaqueu, que mesmo sendo de baixa estatutra, corre na frente do povo e sobe em uma árvore para ver Jesus. Tudo que este cego pode é gritar. Mas a coisa interessante é esta: os discípulos e aqueles que estão seguindo Jesus mandam ele se calar.

Mas este homem insiste porque o sofrimento grita e grita diante de Deus. E Deus escuta. E Jesus também escutou. Até quando parece que Deus não responde, ele escuta. Por que Deus não responde? Porque, às vezes, esta cruz é sua e você tem que carregar. Foi isso que Ele fez com Jesus no Horto das Oliveiras. Aqui, Jesus escutou o homem e pediu para levá-lo até Ele. E tem uma atitude interessante deste homem. O que ele faz? Ele dá um pulo e joga o manto dele fora. O manto era a única proteção que estas pessoas tinham para se cobrir durante a noite, ao relento. Então, a única defesa que ele tem, ele joga fora. Ele joga tudo fora para ir até Jesus. E Jesus vai lhe perguntar: “o que você quer que eu faça para você?”. Deus não está preocupado consigo, mas sim com o outro. O olhar de Deus está voltado para nós. E, especialmente, para os que sofrem. Os olhos de Deus estão fixos nos sofredores do mundo: nas pessoas sem casa, nas periferias do mundo, nas pessoas que estão morrendo de fome, nas pessoas que morrem porque não tem um medicamento para superar uma doença, nas pessoas que não têm água potável ou que vivem na miséria, em um mundo que esbanja muito do que produz. O mundo hoje poderia alimentar o dobro das pessoas que tem. E, no entanto, nós temos milhões de pessoas passando fome. E os olhos de Deus estão lá porque são estas pessoas que gritam diante de Deus. E os discípulos, o que tem que fazer? Conduzi-las para Deus. Não é fazer estas pessoas católicas, mas sim dar vida e dignidade para estas pessoas. É isso que Deus quer.

Jesus pergunta para o cego o que ele quer que Ele faça. E ele responde: “Senhor, que eu veja”. E Jesus responde para ele “seja conforme a sua fé”. Outra coisa interessante que lemos neste Evangelho é que Jesus diz: “vai, tua fé te curou”. E o homem continua seguindo Jesus pelo caminho. Bartimeu se torna o modelo de discípulo de Jesus. Ele viu não só com os olhos do corpo, mas também com os olhos da fé. Tem um puxão de orelha aqui neste Evangelho para os outros seguidores de Jesus. Aquela multidão – e em seu meio, os discípulos também – mandam o cego ficar quieto. Nós não queremos este tipo de problema aqui, isto não nos interessa. Não é disso que temos que ir atrás. Cuidado que mesmo a comunidade pode ser cega e não ter os olhos onde Deus têm. Por isso que nós temos que fazer o que este cego fez e pedir: Senhor, que eu veja. Tire dos meus olhos as cegueiras que eu tenho, que podem ser muitas, para que eu possa ver aquilo que Você vê. Para que eu possa ser realmente seu discípulo e não apenas mais um fã, que não serve para nada. Na hora do aperto, foge todo mundo.

Esta é a mensagem deste Evangelho: que todos nós podemos ter muitas cegueiras. E é só olhando para Jesus e o Seu santo modo de pensar e fazer que nós vamos acertando nosso passo e tirando dos nossos olhos esta cegueira.

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O poder de Deus é o amor

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 29º Domingo do Tempo Comum (Ano B – 17/10/2021 - missa às 10h)

Jesus segue decididamente para Jerusalém. Jerusalém é a Sede do poder da Palestina. Lá está o que nós chamaríamos hoje de congresso, o governo e a casa da moeda. Todo poder concentrado neste lugar. Na cabeça dos apóstolos existe uma concepção de Messias político e reformador das estruturas de Israel. E eles acham que Jesus vai para Jerusalém fazer isso: tirar os poderosos dali, pôr para fora o pessoal que comanda o templo, reformar a liturgia, expulsar os romanos e instaurar um governo que será o maior do mundo. Estes são delírios megalomaníacos de um pequeno estado que na antiguidade contou pouco ou nada. Porém, era isto que o povo esperava. E os discípulos não esperavam diferente. Jesus já havia anunciado duas vezes que ele, indo para Jerusalém, seria morto e ressuscitaria ao terceiro dia, embora ninguém entendesse o que era esse negócio de ressuscitar. E eles continuavam na cabeça com este Messias político.

Na subida para Jerusalém, há uma curva na qual, quando se vira, a cidade aparece na sua frente no meio das colinas, e você vê o vale e a cidade. Quando chegam às portas de Jerusalém, dois discípulos correm diante de Jesus, jogam-se a seus pés e pedem que Ele lhes conceda um pedido. “Queremos que você nos dê um lugar à tua direita e outro à tua esquerda”. Eram os ministros mais importantes do reino. Eram as posições do Primeiro Ministro e do Ministro da Justiça. Porque era esta a visão que eles tinham na cabeça. Antes que chegassem a Jerusalém, eles estavam falando que queriam os cargos mais importantes, para que Jesus não os cedessem a outras pessoas. Aí Jesus diz: “vocês podem beber do cálice que eu vou beber? Serem batizados do modo como serei batizado?”. Embora dissessem que podiam, eles não tinham ideia do que estavam falando. Eles estavam tão cegos que eles não tinham ideia das consequências do que eles falavam. O batismo, o cálice de Jesus é o da tortura e do sofrimento. O cálice que foi apresentado para Jesus no momento do Monte das Oliveiras, da agonia. E o batismo é o de sangue, na cruz. Eles estão pensando em outra coisa, completamente diferente. E uma coisa interessante: depois da ressurreição e da vinda do Espírito Santo, aí eles compreenderam e, realmente, seguiram Jesus no Seu cálice amargo e no sangue derramado da cruz.

Aí o que nós vemos? Nós vemos o que era de se esperar. Os outros, que pensam exatamente igual aos dois, ficam bravos, pensando que eles queriam ser espertos e dar um golpe neles. Os dois que ficam querendo chamar fogo do céu para devorar as vilas que não os acolhem, não acolhem Jesus, agora estavam querendo pegar os dois primeiros lugares. Estão exatamente na mesma ideia dos outros dois discípulos. Aí Jesus puxa o tapete.

Os chefes das nações as tiranizam. Não existe poder neste mundo que não se imponha. É certo que a força coercitiva, a polícia, o exército, são forças para se usar em caso de necessidade. Mas, mesmo assim, são forças coercitivas. E matam. Os homens do poder arrogam-se poder de vida e de morte sobre os seus subordinados. Tanto podem dar comida quanto tirar. Nós estamos vendo no Brasil. De dez milhões de pobres em 2018, nós temos 19 milhões atualmente. Pode dar vida ou pode dar morte. Teríamos, inevitavelmente, muitas mortes por COVID. Mas poderiam ter sido muito menos. Poder de vida, poder de morte. Mas isto não é só no Brasil, é em todo o mundo. O poder humano esmaga, ou tira a liberdade, ou impõe cultura, ou ele controla a economia. Ele se impõe.

Jesus alerta exatamente para isto. Não é este o caminho. O Pai é pai de todos e quer que vocês se sintam filhos e filhas Dele. Mas, se eu sou Filho de Deus, o outro, que está ao meu lado, também é. Então eu tenho que pensar como Deus. Como é ver todos como irmãos e irmãs? Quem está sentado ao seu lado no banco, você considera seu irmão ou irmã? Você está a missa toda aqui, às vezes vai até fazer a comunhão e nem disse “bom dia” para a pessoa que está do seu lado. Você chama isso de irmão ou irmã? Olha como nós estamos bêbados desta mentalidade de separação das pessoas. Eu sempre gosto de lembrar os primeiros meses, nos quais nós começamos a rezar o Pai Nosso de mãos dadas na igreja. Gente, isto aqui há quase 50 anos, há bastante tempo. Mas a coisa mais “engraçada” de se ver era que tinha gente que se negava a dar a mão para o outro. Não conheço essa pessoa. Essa pessoa é preta. Essa pessoa é pobre. As pessoas não davam as mãos facilmente, não. Demorou para que as pessoas aprendessem a dar as mãos. Nós temos esta mentalidade enfiada dentro do coração. E quando nós fazemos distinção de pessoas, nós podemos sim matá-las, com desprezo, com um tanto faz. São os nossos desprezos porque nós não vemos a todos como irmãos e irmãs. E ver a todos como irmãos e irmãs não é achar que todo mundo é bonzinho não. Porque, às vezes, nós temos irmãos e irmãs que não prestam, mas eles continuam sendo meus irmãos ou irmãs.

Deus tem só um poder: amor. O amor de Deus dá vida. Ele não mata, ele dá vida. E para mostrar o coração do Pai, Jesus aceitou morte injusta. Quando a gente fala morte injusta é exatamente este poder do mundo, poder dos governantes – na época, eram Pilatos e Herodes, eram Anás e Caifás. Mas são os poderes do mundo, que sempre criaram mártires, sempre mataram. Jesus não quer ser que nem estas pessoas. O Reino de Deus não é deste jeito. Jesus aceita que este poder esmagador caia em cima dele. Por isso nós dizemos que “Ele carregou sobre Si os nossos pecados”. Esses crimes, que são nossos também, de distinção de pessoas, de ódio pelos outros, de querer ser melhor que o outro, de poder decidir sobre a vida e a morte do outro, isto Jesus recebeu sobre Si. E morre pedindo perdão por nós, que o matamos. Por isso que nós dizemos que, toda vez que você não ama o seu irmão, você peca, porque você não reconhece nele a imagem de Jesus. E quanto mais desfigurado estiver, mais parecido com Jesus na cruz ele está. Porque Jesus na cruz não atraia o olhar de ninguém não, pois aparecia como bandido, excomungado, como um marginal contra o império. Então não atrai o olhar de ninguém, mas, sobre ele, caíram os nossos pecados. Ele, nesta situação, intercedeu por nós. Nesta situação, Ele nos deu Salvação, para que nós aprendamos a ser como Ele e amar os outros e não nos armar contra os outros.

Vamos pedir ao Senhor que Ele nos ensine a sermos servos e a ter a coragem de beber este cálice de amarguras. Não é fácil dar a vida pelo outro, cuidar do outro. Isto pode nos custar caro. Daí o batismo de sangue. Nem a todos é pedido, mas a cada um é pedido em sua proporção. E isto faz a diferença no mundo. Nisso nós somos luz para as outras pessoas que pensam e agem de outro modo. Pessoas que buscam a morte, a distinção entre as pessoas e a inferiorização do outro. Deus não é assim. Jesus não é assim e nós temos que ser como Ele.

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Ser devoto de Nossa Senhora é seguir Jesus

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – Solenidade de Nossa Senhora Aparecida (Ano B – 12/10/2021 - missa às 18h)

O Evangelho de João quando fala as duas vezes de Maria: no início do ministério de Jesus, seu primeiro sinal, e aos pés da cruz, no final da vida terrena de Jesus. Maria não é uma simples mulher, ela representa também todo o povo fiel, o povo que esperava a manifestação de Deus que tinha perdido as suas esperanças em reis, em governadores, em sumo sacerdotes. Este povo começou a depositar só em Deus a sua esperança e ele espera a manifestação de Deus. Maria é sua representante e ela sabe que a esperança está em Jesus, por isso ela vai até Jesus e diz: acabou o vinho. As festas de casamento, naquele tempo, duravam sete dias e acabar o vinho no meio de uma festa dessas era um desastre, mas é interessante prestar atenção nas palavras desse Evangelho... Maria é o povo fiel, representa o povo fiel e ela mesma faz parte desse povo fiel, dos judeus que esperam a vinda do Messias. A festa desse casamento é a grande festa que nós esperamos, que esperávamos que a lei de Moisés nos desse, mas não tem mais alegria, não nos dá mais vida, está seca. E é interessante escutar a fala “as talhas de pedras”. As pedras eram o nome mais comum que tinha para se falar das duas tábuas da lei onde estavam escritos os dez mandamentos, ou seja, a lei de Moises. Então a lei antiga não produz mais nada, acabou, ficou seca e Jesus diz: mas essa não é a minha hora, a grande revelação do amor do Pai não é agora vai ser lá na cruz. Mas Maria dá àquele servo e dá também a nós a única ordem que ela dá no Evangelho: “façam tudo que Jesus vos disser”, essa é a única ordem que a Virgem Maria nos dá. Por isso, de forma muito clara, São Paulo VI, Papa do Concílio Vaticano II diz que a verdadeira devoção à Virgem Maria é seguir Jesus, não são penduricalhos de imagens, escapulários e outras coisas, não é ficar acreditando em promessa de não sei onde com não sei quem. A verdadeira devoção à Nossa Senhora é ser discípulo de Jesus, fazer o que Jesus fazia, pensar como Ele pensava, isso é ser discípulo de Jesus e devoto de Maria, porque se ela é a representante do povo fiel também é representante dos discípulos de Jesus, então o modo como ela age para seguir Jesus é o modo que temos que agir para seguir Jesus. Em Maria, tudo leva para Jesus. Tem uma grande bobagem de certas devoções marianas que falam Jesus é o trono da justiça, Maria é o trono da misericórdia ou então a escada que leva Jesus é difícil, mas a escada que leva a Maria e o céu é fácil. Quanta bobagem, tudo asneira, devocionismo barato! Ninguém segue Maria por essas bobagens. O coração de Maria bate no mesmo ritmo que o coração de Jesus, o que Jesus quer é o que Maria quer e o julgamento de misericórdia de Jesus é o mesmo olhar de misericórdia de Maria. Entre os dois não há diferença de vontade, Maria quer o que Jesus quer, Maria quer que todos nós nos tornemos discípulos e discípulas do seu filho.
Depois Jesus manda colocar água nas talhas, não se fala mais talhas de pedra, a lei antiga passou agora é a Palavra de Jesus que permanece e permanece para sempre. É o que nós ouvimos nas palavras da consagração do vinho: “nova e eterna aliança”, o que é eterno não passa. Aí levam o vinho ao mordomo que cuidava da festa e ele fica admirado com a qualidade do vinho e isso é para os discípulos e para Maria um sinal que confirma a fé deles, como dizer o caminho é esse. E como termina esse Evangelho? Maria e os discípulos voltam para Cafarnaum, onde estavam morando, voltam com ele, ou seja, um sinal de Deus que os discípulos conseguiram ver na fé. Para os outros, era um vinho bom, de ótima qualidade, mas para os discípulos era um sinal de Jesus que era o esperado. Jesus é aquele que nos dá vinho novo do Reino de Deus.
Hoje é festa de Nossa Senhora Aparecida e nos nunca vamos cansar de nos lembrar desse fato: o rio Parnaíba era o rio das águas podres. O mundo dos escravos nunca foi tranquilo, os escravos não ficavam debaixo do chicote belos e serenos esperando para ir para o céu, muitos se rebelavam e fugiam e seus senhores capatazes e muitos eram negros perseguindo negros, no vale Paraíba, pegavam os fujões, pegavam o chefe, cortavam a cabeça e jogavam no rio para servir de exemplo para os outros. Então o governador da capitania de São Vicente, que ia até Minas Gerais, que vai fundar a cidade de Guaratinguetá ali e precisam dar baquetes para ele, mas começa uma chuva do outro mundo e o que era para ser uma visita de um dia se tornou de quinze dias. Ninguém aguentava mais, a gente diz que o peixe depois de 3 dias fede, visita também então a gente tem que estar sempre atento, depois de 3 dias, lavar uma louça, limpar a casa, vamos passear, levar para comer uma pizza... e não era tempo de peixe, esse era o grande problema! E mesmo com essa chuva, esses pescadores pobres tendo que pescar uma noite depois da outra para conseguir um mínimo de peixe para poder servir ao governador e sua comitiva. É no fim desse período que três pescadores lançam no raiar do dia, depois de passar a noite sem nada, um deles diz: “Em louvor a mãe de Deus, vamos lançar as redes mais uma vez”, eles lançam e não recolhem nada, mas na rede vem uma imagem de Aparecida sem a cabeça. Empolgados com aquilo, talvez até sem refletir muito, jogam as redes de novo e vem uma quantidade absurda de peixes e a cabeça ali no meio. E como estava essa imagem toda dourada e bonita? Não, preta! Preta como os pretos decapitados e jogados dentro do rio. Maria no Brasil e na América Latina se mostra solidária com os pequenos, com os perseguidos, com os pobres, com os miseráveis. Solidária, podemos dizer que ela se fez uma com os pretos que era jogados mortos naquele rio. Ela sai decapitada do rio das águas podres para ser consolo e luz para um povo oprimido. O primeiro milagre feito para uma pessoa pela imagem de Aparecida foi exatamente a quebra das correntes de um negro que tinha sido capturado e seria levado para ser decapitado. Diante da imagem que estava ali na casa do pescador, ele grita “minha Senhora” e suas correntes se quebram. A mãe de Deus quer filhos livres, essa é a grande mensagem de Aparecida, como será também a grande mensagem de Guadalupe. Quando os índios na América Central, no México, eram mortos, ela se torna a evangelizadora, “a indiazinha toda nossa” como diziam os índios. Maria na América Latina é solidária com os que sofrem. Nossa Senhora quer que nosso povo seja íntegro, que não seja decapitado, mas que o nosso povo tenha vida. Ela quer um povo que viva na vida de Deus, na dignidade de filhos de Deus.
Aqui vamos para nossos cinco minutos de política, essa bandeira que colocamos aqui representa o Brasil inteiro. Ela é nossa e ela está estampada no manto da Virgem Maria, Nossa Senhora Aparecida. Essa bandeira é de todos nós e não de grupos facciosos, grupos de extrema direita, gente que se arma, que odeia, que mente, gente que nos desonra. Essa bandeira é nossa, do povo e temos que ter orgulho dela e não vergonha como muitos começam a ter. Nossa Senhora quer vida e dignidade para todos os brasileiros, todos nós que temos que nos orgulhar dessa bandeira, porque ela é nossa como Nossa Senhora é nossa mãe. Vamos terminar rezando pedindo a Virgem Maria que olhe pelo nosso povo mais decapitado sempre mais enfiado nas águas podres da fome, do desemprego e da desonra internacional. Viva Nossa Senhora Aparecida!

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Doar aos pobres e valorizar a vida

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 28º Domingo do Tempo Comum (Ano B – 10/10/2021 - missa às 10h)

Este evangelho[Mc 10,17-30] é cheio de pegadinhas, vamos chamar assim. Nós temos este homem, muito rico, que se joga aos pés de Jesus e, já nas suas primeiras palavras, mostra a cabeça que ele tem, falando “bom mestre”. Quando você quer puxar uma pessoa para o seu lado desde o começo, jogue um grande elogio na pessoa. Isso se chama, em latim, captatio benevolentiae. Puxe a atenção da pessoa, faz um agrado nela. E, já nisso, ele está tentando comprar Jesus. E faz a pergunta: o que eu devo fazer para ganhar a vida eterna?
Ele é um homem rico que, provavelmente, sabe aplicar muito bem em seus negócios, o seu dinheiro. Naquele tempo não tinha offshore, mas tinha gente que ficava rica e cada vez mais rica. Aí Jesus dá a primeira cutucada: “só Deus é bom. Por que você está me chamando de bom?”. Desmascara o início. E Jesus vai colocar para ele aquilo que é o comum de todos os hebreus. Ele pediu alguma coisa grande, no caso, para ganhar a vida eterna. Jesus vai dizer “não matarás, não cometerás adultério, não roubarás, não prejudicarás ninguém”.
Coisa engraçada, muitas vezes os ricos fazem exatamente isso. Cuidado, gente! Enfiem bem na cabeça, ninguém aqui é rico, viu? Esse discurso não é para nós, não. Quem consegue uma casa e um carro com trabalho assalariado não é rico. Nós somos pobres remediados. Então tire isso da cabeça pois ninguém aqui é rico! Jesus não está falando com uma pessoa como nós.
Por causa de dinheiro se mata, se rouba, se comete adultério, se prejudica aos outros. É muito interessante, mas são as mesmas palavras dos dez mandamentos. Mas ditas para um homem cujos escrúpulos podem ser bem superficiais. Aí o que acontece? Ele imediatamente diz: “ah, mas isso eu já faço!”. Aí Jesus, vamos dizer assim, dá um golpe de misericórdia. E, olha que interessante: o evangelho diz que “Jesus o olhou e o amou”.
Tudo que Deus nos diz, tudo que Ele faz, é um gesto de amor. Jesus pensa, provavelmente, que o que esse homem precisa para se converter desse modo de pensar e de agir, é ser virado do avesso. E, olhem que absurdo, Jesus diz para esse homem: “vai, vende tudo que você tem”. Gente, isso já seria um desafio terrível para nós, pobres remediados. Já isso seria tremendo. E continua dizendo: “dá aos pobres”. Por que “dá aos pobres”? Ninguém acumula riquezas sem que alguém seja pobre. Ninguém.
Nestes dias, nós temos ouvido aí a historinha do offshore do ministro. Se aumenta o dólar, os ricos ficam mais ricos e os pobres ficam mais pobres. Por quê? O arroz fica mais caro, a carne fica mais cara. Para ele, o preço da carne não é importante. Mas, para o pobre, é. Você enriquece, mas o pobre fica mais pobre ainda. Então Jesus pede que doe para eles, que ajude a restituir a justiça social. Só depois, ir e segui-lo.
Seguramente, o evangelista está mostrando o fim oriundo do seguimento de Jesus. Ser discípulo de Jesus pode nos levar para a cruz, que é a perda total. Ele pediu vida eterna, o reino do céu. E Jesus está mostrando o caminho para ele. Jesus não está mentindo. O gesto de Jesus é um gesto de amor! Esse homem que quer comprar Deus, até que Deus diz qual é o preço. O preço é esse: vai, vende e dá para os pobres. Depois, me segue, que o meu caminho leva para a cruz. Ou seja, seja o último, o servo de todos. Não se julgue melhor que ninguém, pense nos outros e no bem dos outros, que era exatamente o que esse homem não fazia.
Essa palavra de Jesus é dirigida, sim, a todos nós também! Porque, mesmo remediados, nós podemos pensar exatamente como esse rapaz e viver dentro de um egoísmo no qual o pouco que nós temos, nós fazemos disso a nossa escravidão para não seguir Jesus. É complicado, gente!
Jesus nos diz “vende tudo”. E esse “vende tudo” não é pegar o carro que você tem e vender, não. Aprenda a ser útil para os outros, a construir paz e não muros de ódio entre as pessoas. Quem faz isso não é de Deus. Devemos procurar construir pontes de amizade, como diz o Papa Francisco. Ir ao encontro do outro, especialmente daquele que sofre. De onde vem a solidariedade? Dos grandes? Não, dos pobres. De nós, pobres remediados. Nós tiramos um quilo de arroz para dar para os pobres.
De nós, espera-se que sigamos o evangelho. E dos outros? Problema dos outros. Jesus chama e pede a todos. Fica a pergunta: nós vamos ter a atitude deste homem ou vamos arriscar esse caminho de solidariedade, de fraternidade, que pode, realmente, nos levar para a cruz? Essa é a pergunta do evangelho.
Hoje nós celebramos o dia do nascituro, que é o neném que está na barriga da mãe. E nós temos uma situação muito grave no mundo, onde se praticam milhões de abortos. Nós temos que redescobrir o valor da vida! Madre Teresa, uma vez, disse uma frase assustadora. Perguntaram para ela: “o que a senhora acha do caminho no qual o mundo está indo, com estas guerras, ameaça de extinção da humanidade, guerra atômica?”. Tudo é perigo agora. Se alguém dos Estados Unidos aperta um botão, acaba com o mundo. Se alguém da Rússia aperta um botão, acaba com o mundo. Se alguém da China aperta um botão, acaba com o mundo. Se alguém da Índia aperta um botão, acaba com o mundo. Queriam saber a opinião de Madre Teresa a respeito deste mundo ameaçado. E ela disse assim: “quando o Santuário mais sagrado, que é o ventre da mãe, é violado, nada mais pode nos admirar”.
Quando você atenta contra a vida inocente, incapaz de se defender, vida que se está desenvolvendo, você não tem mais valor nenhum, pode acabar com tudo. Nós perdemos o valor da sacralidade da vida. Este é o grande drama do aborto. O poder legislativo tem que legislar sobre o aborto? Tem. Isso é uma prática horrorosa. Aqui no Brasil, milhares e milhares de mulheres morrem todo ano por causa de práticas absurdas, de clínicas clandestinas e coisas desse tipo. Gente rica que sai do Brasil e vai fazer aborto em outro lugar e volta não são punidos.
Mas um cristão católico não pode, em nenhum caso, por nenhum motivo, suprimir a sacralidade da vida, que é o feto. Aquela vida humana no ventre da sua mãe. Nós, católicos, não aceitando e não praticando o aborto, mesmo que fosse legalizado, nos tornaremos um sinal de vida, de evangelização para uma sociedade que não respeita a vida.
Vamos pedir ao Senhor que a vida seja respeitada em todos os seus níveis, desde o nascimento, até o desenvolvimento infantil. Olhem quantas crianças abandonadas, adolescentes entregues à droga. Famílias, casais, gente amontoada, pobres a não poder mais, com fome. Pessoas que morrem, não por causa de eutanásia, mas porque ficam nas filas porque o governo não liberou os insumos. Nós, cristãos, temos que defender a vida. Nós, por primeiro, não admitindo que, entre nós, pratique-se o aborto.
No tempo dos romanos, nos primeiros séculos, o pai da criança tinha o direito de vida e de morte sobre o filho. A criança nascia, a parteira levava a criança e colocava nos pés do pai. O pai podia simplesmente esmagar a cabeça da criança, pisar em cima. Ele podia não reconhecer a criança, tinha direito de vida e ou de morte. Tinha criança que tinha defeitos físicos e os pais as matavam. Qual foi o grande testemunho dos cristãos que criou escândalo para os romanos? Os cristãos acolhiam todos os filhos que tinham, viessem como viessem. Inclusive com defeitos físicos, coisas que os romanos eliminavam imediatamente. Nós nos tornamos sinal para aquele tempo, valorizando a vida, viesse de onde viesse.
Vamos pedir ao Senhor que nós possamos amar, servir e valorizar a vida.

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Jesus nos ensina a respeitar todos como iguais

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 27º Domingo do Tempo Comum (Ano B – 03/10/2021 - missa às 10h)

Antes das várias declarações de direitos das mulheres e dos direitos das crianças, Jesus já tinha feito isso há quase dois mil anos atrás. Os fariseus não estavam nem um pouco preocupados com a questão do divórcio, eles querem pegar Jesus no pulo, é isso o que eles querem. A mulher, no tempo de Jesus e antes Dele, não tinha direito a nada. Ela era propriedade do pai até que se casasse, depois propriedade do marido até que ele morresse. Se ele morria deixando filho com mais de doze anos, ela passava para propriedade desse filho. Se o marido morresse sem que ela tivesse filhos, ela passava para propriedade do parente homem mais próximo e, se fosse irmão do defunto, tinha que se casar com ela para dar descendência para o irmão. A mulher não podia participar da vida pública, a vida da mulher era o âmbito familiar, ali, nas coisas da família. Podia ajudar na época da colheita.
Nós temos situações parecidas hoje no mundo e nós nos aterrorizamos quando vemos o que está acontecendo, por exemplo lá no Afeganistão. É voltar quatro mil anos na história, é um horror esta situação. E a coisa interessante é ver como Jesus vê a mulher, todas as vezes que Jesus se encontra com uma mulher ou fala delas, Jesus trata a mulher como igual, escandalizando muita gente. Quando Jesus conversa com a samaritana, isso era outra coisa que era proibida: um homem não podia conversar com uma mulher, ou melhor, a mulher não podia conversar com um homem estranho, e Jesus estava conversando com uma mulher lá na beira do poço, e os discípulos ficaram escandalizados com Jesus. Isto é um absurdo. Jesus tem atitudes realmente revolucionárias, mas por quê? Porque Ele acredita na igualdade de dignidade das pessoas.

Moisés, em 1250 a.C., quando ele promulgou esta Lei ou herdou esta Lei, o que os homens faziam, geralmente quando a mulher se casava, o pai dava um dote e às vezes o sujeito gastava o dote todinho, passava um tempo, não tinha mais dinheiro e o que faziam? Matava a mulher e se casava com outra, ou então, ‘ah eu não gosto mais dessa, gosto da outra’, matava a mulher e se casava com a outra. Moisés fala: parem com essa loucura, pelo menos não mate a mulher, dê a carta de divórcio e manda ela para a casa do pai. Era um modo de salvar as mulheres, porém não mudou a situação de desigualdade da mulher. Jesus vai restabelecer essa igualdade lembrando não a lei de Moisés, mas lembrando a criação, que é antes de Moisés. Quando Deus criou, Deus os criou homem e mulher. No hebraico, homem se diz “ish”, mulher se diz “isha”. O jogo de palavras é para mostrar que são iguais, não tem diferença de dignidade entre os dois, e Jesus chama isso: se você trata a sua mulher com a dignidade igual a tua, você não vai ter divórcio, você vai construir alguma coisa diferente, você vai construir alguma coisa nova. Acontecem situações de divórcio? Acontecem, tem situações impossíveis, mas deveriam ser poucas e raras para que as pessoas realmente buscassem viver como iguais.

A outra figura que nós temos aqui são as crianças. As crianças são uma outra categoria sem nenhum direito. Dependendo do lugar, o pai podia matar a criança, o filho, em Roma acontecia isso: a mãe paria a criança, a ama ou a parteira levava a criança nos pés do pai. Se o pai quisesse, se o pai achasse que o filho não era dele, se a criança tivesse algum defeito ou alguma coisa, o pai simplesmente pisava na cabeça, esmagava a criança ou então, não reconhecia como filho seu, deixava vivo, mas não reconhecia, isto também podia acontecer. A criança não tem direito nenhum, ela está totalmente à mercê do pai. Criança, isso até hoje, não pode testemunhar no tribunal, porque são facilmente influenciáveis e podiam ser vendidas como escravos para pagar dívidas. Imagina se tivesse esta lei no Brasil? Então, estas crianças não têm nenhum direito. Mas Jesus era o mestre e o povo o reconhecia como tal então as pessoas estão lá, aquela historinha de quem fica querendo chamar a atenção, o mestre está lá talvez descansando ou coisa parecida, aí as mulheres e as mães trazem as crianças, e estes falam “Não, não vai atrapalhar o mestre, ele está descansando, não vão ficar aqui, vão embora”. Aí Jesus dá uma bronca nos discípulos: deixem as crianças virem aqui. Ele abraça e abençoa as crianças e o que ele diz? Quem não receber o Reino de Deus como uma criança não entrará no Reino. Por quê? A criança, ela olha o pai, olha a mãe para aprender. O filho olha o pai trabalhar, e imita o pai para aprender a trabalhar. José era carpinteiro, Jesus aprendeu com José a ser carpinteiro, como? Olhando o pai, imitando o pai. E Ele vai usar esta imagem depois, dizendo: como o Pai Celeste trabalha, Ele que é meu pai verdadeiro, eu também trabalho. Mas tem outra coisa, um discípulo só pode ser como o mestre, se vocês não forem como crianças, vocês nunca serão como o mestre. O que significa? Nós muitas vezes, e digo aqui nós, padres também, nós achamos que sabemos quem é Jesus, nós já sabemos o que é o Evangelho, e se eu perguntar aqui quantas pessoas aqui já leram o Evangelho... Bom, não vou nem perguntar para não passarem vergonha. Só se pode imitar alguém se eu olho para essa pessoa, se eu conheço essa pessoa. E olhar para que? Para ver onde eu estou fora do caminho, para acertar meu passo. Se eu não acerto meu passo com Jesus, eu estou fora do caminho, mesmo dizendo que sou discípulo de Jesus, mesmo fazendo comunhão todo domingo. Eu já sei, mas não vivo e não tenho os valores de Jesus. Tinha um mestre chinês muito famoso, aí chegou um grande professor e falou para o mestre “olha, eu vim aqui para aprender a tua sabedoria”, o mestre não falou nada, convidou a sentar-se à mesa, preparou chá, e foi colocar na xícara do grande professor. E punha chá, punha chá e de repente, encheu a xícara e o chá foi indo, e foi derramado tudo. “Você é louco?”, o mestre falou “não, em xícara cheia não dá mais pra colocar chá”. Aquele homem, na verdade, já achava que sabia tudo, ele queria aumentar aquilo que ele pensava que seria a sabedoria, aí o mestre falou não adianta, se você não esvaziar eu não posso pôr chá aí dentro, ela já está cheia. Esvazia-se de você, jogue fora as tuas ideias, as tuas ações que não são de Jesus. Vá conhecer Jesus, e conhecer como? No Evangelho, vá ler o Evangelho! Comece pelo Evangelho de São Marcos, o mais curto e mais antigo, para começar a colocar na tua xícara o chá novo do Evangelho. Cuidado, quem diz que mais sabe, pode ser quem tem a xícara mais cheia de si mesmo, onde não entra mais nada do Evangelho. Só quem é como criança, que está vazio e disposto a acolher o ensinamento de Jesus, pode ser discípulo e discípula do Senhor.

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Só segue Jesus quem o conhece

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – Festa de Santa Teresinha (Ano B – 01/10/2021 - missa às 19h45)

Certa noite, Santa Teresinha, ainda pequena, estava com seu pai, no jardim de casa, e olhou para o céu e viu na conjugação de estrelas um "T". E ela disse: "Papai, meu nome está escrito no céu". No Tríduo deste ano, e na novena, nós refletimos muito sobre a família de Santa Teresinha, seus pais, Luís e Zélia, pessoas realmente devotas, pessoas honestas, pessoas dedicadas ao dia a dia de casa, da vida de todo dia, trabalho, sustento da família, e interessante: a mãe de Santa Teresinha também trabalhava, trabalhava em casa, mas ajudava no sustento da família porque ela fazia rendas, rendas de pano, de linha. E a preocupação desse casal era que suas filhas vivessem num lar de santidade. Santidade quer dizer o quê? Um lar onde se vivem os valores do Evangelho. Nós muitas vezes achamos que sabemos quais são os valores do Evangelho, mas aí vem a pergunta: quantos de nós já leram os evangelhos? Quantos de nós já leu um dos evangelhos? Quantos de nós já leu o mais curto dos evangelhos, que é o Evangelho de Marcos, com 16 capítulos? Qual de nós? E queremos dizer que conhecemos Jesus, que conhecemos os valores de Jesus...

A família de Santa Teresinha vivia os valores de Jesus, por isso são santos. Os pais de Santa Teresinha, São Luís e Santa Zélia, santos. E eles tiveram nove filhos, quatro morreram em idade muito crianças, cinco sobreviveram e eram cinco mulheres, a mais nova era Santa Teresinha. Essas cinco filhas foram para o convento, mas se as cinco tivessem se casado, teriam sido santas mães de família e santas esposas, porque elas foram educadas no Evangelho. Quando a igreja coloca os pais de Santa Teresinha como modelo de casal e de família, está dizendo a vocês casados que a vossa pode ser vida de santidade, de lugar do Evangelho, lugar de amor, lugar de diálogo, lugar de respeito, lugar de perdão, lugar de preocupação com a outra pessoa, lugar de amor até o fim. São Paulo diz: "Mulheres sejam submissas a seus maridos, como a igreja é submissa a Cristo". E aí alguns dizem que São Paulo é misógino. Mas São Paulo vai dizer: "Maridos, amem a vossas mulheres até morrerem por elas", e aí o que vamos falar? São Paulo é contra os homens? Não. A medida do amor, ele está mostrando, ser capaz de morrer pela outra pessoa, dar a vida pela outra pessoa, dar a vida pelos filhos. Ser para as pessoas que estão em volta de nós um exemplo, não porque a gente quer aparecer – quem faz isso não vive o Evangelho, porque está morrendo de orgulho, mas porque realmente acredita nesses valores, mas para isso precisa conhecer. Só pode amar e só pode viver no caminho de Jesus, quem conhece Jesus.

É muito vir a missa com frequência, é muito bom vir a missa no domingo, mas eu tenho que dizer: Não basta! Não nesse nosso tempo, que nos dá tantas informações e desinformações. Tem gente praticante, que vem em missa, que assiste qualquer bobagem que mostre no cinema, nessas novelas de certas emissoras não católicas que distorcem tudo, e estão prontas para acreditar naquelas abobrinhas, não escutam os padres, mas também não vão ler a Sagrada Escritura para conhecer Jesus. O mundo oferece mil interpretações, verdadeiras e falsas, nós temos que nos responsabilizar por conhecer Jesus. Luís e Zélia fizeram isso. Esse casal transmitiu para suas filhas os valores de Jesus porque conheciam Jesus profundamente, seja pela prática dos sacramentos, mas também pela prática do amor.

Jesus não quer que nós sejamos "superstar" nesse mundo que prega estrelas. O Evangelho prega exatamente o contrário: humildade, caminho pequeno, o dia a dia comum, porque a nossa vida é o dia a dia comum: levantar, tomar café, ir para o trabalho, voltar, trabalhar, ter o que fazer com os companheiros de trabalhos ou companheiras, filho para a escola, voltar da escola. É nesse dia a dia que nós seguimos Jesus. Esse lugar do dia a dia é o lugar da santidade, é o lugar onde nós escrevemos no céu o nosso nome, Deus lê o nosso nome, e sabe o nome de cada um de nós, e quer para cada um de nós um caminho de santidade.

Santidade também significa serviço, um dos sinônimos da palavra "serviço" na igreja é "ministério", e não tem nada a ver com ministro da educação, da economia, nada disso, isso é outra coisa. Na igreja, existem os ministérios ordenados que são os ministérios do sacerdócio, do diácono e do bispo, serviços ordenados. E tem os serviços extraordinários. Entre os batizados, Deus escolhe alguns para o ministério ordenado, mas também escolhe outros para o ministério extraordinários, temporários. Temporários não significa um mês ou dois meses, mas que não fica para o resto da vida. Neste dia de Santa Teresinha, nós vamos instituir nove ministros extraordinários da comunhão, homens e mulheres, casados, solteiros, para fazer o que? Para virem aparecer aqui na frente, fazer showzinho? Não! Para servir a comunidade, levar para a comunidade na celebração a Eucaristia. E fora da celebração, levar a comunhão aos doentes, ou abençoar as pessoas e as casas, ou abençoar os mortos com a celebração das exéquias, todos de serviço, caridade. Esse é o caminho da igreja, e esse é a essência do ser cristão: servir a todos. O padre não está aqui para usar este monte de panos, o diácono não está ali para ficar cantando o Evangelho, nós estamos aqui para servir a comunidade, servir a Palavra, servir na caridade, na unidade, no perdão, é para isso que estamos aqui. E Teresinha, e antes dela seus pais, entenderam isso muito bem. Santa Teresinha sem ser missionária – ela era monja, carmelita, ficava trancada dentro do mosteiro, mas essa mulher rezou tanto pelas missões, por sacerdotes que estavam em terra de missão, e ela desejava tanto ir para terras de missão que o Papa Pio XI, que a canonizou, a proclamou Patrona das Missões. Ela queria sempre fazer a vontade de Deus, e ela ardia de desejo de ir para as missões, e num belo dia, a superiora do convento falou: "Olha, temos um projeto abrir um mosteiro em terras de missão". Santa Teresinha quando escutou isso ficou contentíssima, falou: "Meu Deus, você ouviu minhas preces". Naquela noite pela primeira vez, Santa Teresinha vomitou sangue e, um ano e pouco depois, morria de tuberculose. Ela aceitou esse caminho estranho que Deus deu para ela, e ofereceu isso pelas missões, para que a Igreja possa levar o Evangelho, para que as pessoas aprendam a viver como Jesus. Vamos pedir a ela, que acenda no nosso coração, o desejo de conhecer Jesus e, que no ano que vem ou quando eu perguntar outra vez, quem já leu um evangelho, a igreja inteira levante a mão e fale "eu já li". Fica o desafio: só conhece Jesus, só vive os valores de Jesus quem conhece Jesus. Leia, pelo menos o Evangelho de São Marcos, é o mais curto, o mais antigo, leia e você vai aprender muito sobre Jesus.

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Orar a Deus para que Ele sempre envie operários para a messe

Homilia: Pe. Cleidson Pedroso Souza – 3º Dia do Tríduo de Santa Teresinha (Ano B – 30/09/2021 - missa às 19h45)

Muita alegria nesta noite tão especial para nossa comunidade, celebrando a véspera da festa de Santa Teresinha do Menino Jesus e encerrando esse Tríduo que, com certeza, animou nosso coração pela palavra proclamada. Esse momento de devoção à Santa Teresinha motiva o nosso coração a acolher este dom de amor da nossa querida Padroeira. Este luzeiro, digamos assim, que brilha na Igreja como um sinal do amor do Senhor para conosco. Esta meditação farei em duas partes, pensando que hoje é festa de São Jerônimo, mas também falando de Santa Teresinha.
Celebramos São Jerônimo, este santo tão importante na história da Igreja, sendo o padre latino mais importante segundo alguns estudiosos pois, afinal, coube a ele esta tarefa de traduzir os Evangelhos originais gregos e hebraicos. Principalmente do hebraico, uma vez que o grego era a segunda língua mais falada do mundo naquela época, graças a Alexandre, O Grande e todo o avanço da cultura helenística. O hebraico era uma língua falada por pouquíssimas pessoas, mas que trazia em si toda essa importância. Então, o Papa pede a Jerônimo para que ele pudesse realizar esta grandiosa tarefa. Ele vai à Terra santa e lá começa a tradução da Bíblia para o Latim, chamada Vulgata. Hoje, muitas traduções bebem dessa fonte. Por exemplo, a Bíblia Ave Maria, que foi traduzida para o francês direto da Vulgata e, depois, para o português. Isto mostra, justamente, a importância de São Jerônimo na vida da Igreja e, por isso, marcamos o mês de setembro como o mês da Bíblia, para exaltar esta importância na história.
Ouvimos, na Primeira Leitura[Ne 8,1-4a.5-6.7b-12], que conta sobre a restauração de Jerusalém depois que o povo volta do Exílio da Babilônia. E uma das coisas mais importantes que se faz é a solene Proclamação da Palavra, que é colocada para todo o povo como uma renovação da aliança que Deus havia feito com os pais e, agora, este povo estava finalmente de volta à sua terra, no seu templo, ouvindo a lei. E nos chamam a atenção, justamente, as reações. O povo chora porque ouve a Palavra. Quem dera se nós tivéssemos um pouquinho disso. E não é emoção porque a Palavra é proclamada de forma bonita, com impostação e teatralidade. Mas sim porque a Palavra tocou fundo no coração do povo. E nos chama a atenção para termos também o coração aberto para que a Palavra possa nos tocar. E eu tenho certeza que este foi o objetivo que motivou a Igreja no Brasil, há 50 anos, a proclamar o mês de setembro como mês da Bíblia. Para que os fiéis pudessem mergulhar ainda mais na experiência da Palavra. E a Palavra é o alimento que temos para sustentar a nossa fé e esperança.

Como eu dizia, não ouvimos a Palavra apenas para matar o tempo e poder completar uma hora de celebração. E é importante termos esse cuidado e atenção para ouvir a Palavra e não aproveitar o momento das leituras para ir ao banheiro, tomar água, dar uma volta com as crianças e tantas práticas que fazem parecer que a leitura da Palavra é uma pausa da celebração. Eu tenho certeza que isso fere o coração de Deus, pois é através da Palavra que Deus está falando do Seu mais íntimo para nós e, com certeza, este momento tem que ser celebrado com toda a atenção para ser uma Palavra proclamada e meditada. Então, a homilia também não é uma coisa paralela. Faz parte deste momento da Palavra e, por isso, o padre proclama a Palavra e faz a meditação atualizando, destacando algum ponto, colocando algo em evidência. Assim como os levitas faziam: explicavam enquanto a Palavra era proclamada. Cada um no seu lugar para que a Palavra lida, claramente, pudesse chegar ao coração e seu sentido acolhido. Eu já vi muita gente falar que a Palavra de Deus é difícil de entender ou que a Bíblia é um livro complicado. Por isso o padre estuda, desdobra, busca um ponto ou outro para ressaltar. E tamanha são a beleza e grandeza da Palavra que, se você a ouve hoje ou daqui 1 ou 2 anos, ou até daqui a 15 dias, outras coisas serão ditas e outros tesouros serão revelados.
Um Deus que fala conosco nos tempos de hoje. Isto é a graça que temos em acolhermos a Palavra de Deus para que o esforço de São Jerônimo não tenha sido em vão. Ter realizado este trabalho em um tempo em que não havia Google tradutor, buscando sentido até para as palavras mais difíceis. Quem já fez trabalho de tradução, sabe como é custoso, pois não basta apenas traduzir palavra por palavra. É preciso descobrir o sentido, o que o autor quis dizer, o que Deus quis revelar. Porque nós cremos que a inspiração da Palavra parte do coração do próprio Deus, que fala conosco, através da linguagem humana, para que pudéssemos compreender. Então, o que Deus quis dizer ali, através das palavras humanas, todo esse trabalho não pode ter sido em vão. Sendo assim, é importante que possamos acolher a Palavra. E como diz o Papa Francisco: “a Bíblia não pode ser um objeto de decoração na estante da nossa sala. Ela tem que estar nas mãos, no ouvido, na boca e no nosso coração”. Quem prova a Palavra sente, ao mesmo tempo, o seu amargor – porque a Palavra provoca, questiona, nos convida à conversão –, mas também a sua doçura, que alegra nosso coração. Por isso, a alegria do Senhor seja a nossa força. A alegria do Senhor, que é expressa por nós, através da Palavra. É ela que sustenta e ampara a nossa vida. Palavra hoje também proclamada no Evangelho[Lc 10,1-12]. Que alegria poder ouvir esta Palavra que se casa tão bem com o tema que hoje estamos tratando neste Terceiro Dia do Tríduo de Santa Teresinha. O Evangelho diz que Jesus envia 72 outros discípulos. Se você prestou bem atenção na Palavra proclamada no último domingo, você já deve ter ouvido esse 72 em algum lugar. A Primeira Leitura do domingo passado[Nm 11,25-29] fala de 72 anciãos, homens que receberam uma porção do espírito de Moisés. Setenta estavam com ele na tenda e dois estavam lá no acampamento. Então este número 72 é reconstituído por Jesus. Assim como aqueles 72 iam ajudar Moisés na condução do povo, estes 72 do Evangelho de hoje são enviados para levar a boa nova aonde Jesus deveria ir pois, afinal de contas, Ele que deve chegar aos corações. Ele vem trazer, para nós, libertação e salvação. Somos mensageiros dessa boa nova, operários dessa messe.

Esse Evangelho tão marcadamente vocacional nos fala tão bem dessa experiência do chamado de Deus na nossa vida. Convidados a sermos colaboradores dessa graça. Olha que coisa bonita! Além de sermos destinatários da graça – porque a graça é oferecida a nós –, também somos chamados a sermos colaboradores para que essa graça chegue a todos os corações, especialmente nestes tempos tão difíceis e tão sofridos que estamos vivenciando por conta da pandemia, das perdas, do desemprego, da fome, da miséria. Assim, vemos o quanto Deus precisa chegar aos corações e o quanto essa Boa Nova precisa ser proclamada.

O Papa Bento XVI certa vez dizia que, mais do que pessoas que não creem em Deus, temos as pessoas que o ignoram e colocam Deus de escanteio. Vejam o quanto é necessário Deus chegar nesses corações para trazer um ânimo novo. Para isto, Deus precisa de nós, vocacionados do reino. Jesus diz que a messe é grande e tem muito trabalho para ser feito, mas os trabalhadores são poucos. O que devemos fazer para mudar essa situação? Jesus diz só uma coisa: pedir ao dono da messe para enviar novos trabalhadores para a colheita. Portanto, nós temos esta missão também de rezarmos para que Deus suscite vocações, não apenas à vida consagrada, sacerdotal e religiosa, mas a todos os chamados do reino que são convidados a ir aos quatro cantos do mundo. E o quanto hoje nós precisamos de famílias vocacionadas!

E é muito bonito pensar nas irmãs de Santa Teresinha. Não nas congregações que surgiram depois por conta de sua inspiração, mas em suas irmãs de sangue, que foram tão importantes para o desenvolvimento da própria vocação de Teresinha. Dizem-nos os relatos da sua biografia que ela já tinha esse desejo desde pequena. Brincava, inclusive, de freira quando era bem pequenininha. Mas depois da morte de sua mãe e toda situação que se desenrolou por conta disso, ela tem a chama da vocação novamente reacendida em seu coração quando sua irmã Pauline ingressa no convento das carmelitas. Isto foi realmente importante. E que coisa bonita uma família toda marcada por esse ar de santidade: os pais já declarados santos; a filha mais conhecida e também as irmãs, todas religiosas. Uma família que foi marcadamente vocacional e que respondeu esse chamado que o Senhor da messe lhes fez. Com certeza estão entre esses 72. E Santa Teresinha é reconhecida como a padroeira das missões sem nunca ter pisado em uma missão. Missão na concepção de ir para fora, para os diferentes povos.
Santa Teresinha gostaria muito e rezava continuamente pelos missionários e religiosos que faziam esse trabalho tão importante, batendo de lugar em lugar, levando a boa nova sem bolsas, sem sandálias. Apenas confiando na misericórdia e na providência divina. Ela pedia por cada um deles. Assim também, suas irmãs que ali estavam, foram para o mesmo convento das carmelitas. Todas ali vivenciaram, junto com Santa Teresinha, essa experiência do Carmelo. Que experiência riquíssima e, com certeza, mais do que apenas pelo fato de serem todas religiosas. Isso, por si só, já é uma coisa grandiosa. Mas eu acho que mais importante é a experiência familiar de Santa Teresinha. Esse alicerce que os pais ofereceram à sua família, onde a vocação foi despertada graças a esse exemplo e testemunho da fé. Porque Deus ama das formas mais diferentes ou absurdas e até das mais incríveis e maravilhosas. Claro que, se nós, por exemplo, não rezarmos ao dono da messe, ele vai continuar mandando trabalhadores para colheita por causa da sua misericórdia e amor que nunca abandona seu povo, mesmo nos momentos mais difíceis. Mas é bom quando nós rezamos a ele, ou seja, abrimos o nosso coração. Assim “facilitamos” o trabalho de Deus, cumprimos a nossa parte nesse caminho. Porque assim foi a vida da família de Santa Teresinha: o exemplo de testemunho dos pais, a sua fé sempre presente e atuante foram conduzindo as filhas para o encontro com Deus. Sua biografia conta que os pais iam à missa todos os dias e aos momentos litúrgicos marcantes, como as festas e romarias. Todos estes instantes que Deus nos concede como oportunidade de fazer florescer a nossa fé, nossa piedade. E isso tudo foi vivenciado também dentro de casa. Claro que a vocação iria florescer mesmo se elas tivessem sido mães de família. Elas seriam excelentes mães cristãs e continuariam fomentando isso no coração dos filhos. Mas Deus tem um chamado especial para todos nós. Basta que nós acolhamos esse chamado e nos deixemos conduzir por ele. Como aqueles 72. O Evangelho de hoje não termina porque não nos conta do resultado desta missão. Mas Lucas vai continuar dizendo que depois eles voltaram e muitos frutos foram colhidos graças a essa disponibilidade do coração dos 72, dos doze originais e tantos outros. De São Jerônimo, de Santa Teresinha e tantos homens e mulheres que, na história da igreja, deixaram-se conduzir pelo Senhor e tiveram esse alicerce, essa experiência familiar. Com certeza transforma. Por isso, queridos irmãos e irmãs, somos convidados a fazer nossas famílias vocacionais para que Deus possa enviar vocações religiosas sacerdotais, leigas, missionárias, consagradas, bons pais e mães de família que transformam o mundo nas suas profissões, nos seus lugares de trabalho.
Outro ponto que chama a atenção neste Evangelho é um detalhe que passa desapercebido muitas vezes. Estejam os corações sendo abertos ou não, Jesus sempre diz: proclame que o reino de Deus está próximo. Essa proximidade de Deus se faz presente a corações abertos ou não. Mas é bem melhor ter o coração aberto para acolher esta graça e deixar-se tocar por esse amor. Que nós também estejamos com o coração sempre aberto para atender o chamado do Senhor e possamos rezar a ele pedindo que envie trabalhadores para a colheita. Que possamos nos deixar conduzir pela Palavra e fazer a graça de Deus acontecer no mundo.

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SERVIR A DEUS E BUSCAR O CÉU

Homilia: Pe. Marcos Vinícius Wanderlei da Silva – 2º Dia do Tríduo de Santa Teresinha (Ano B – 29/09/2021 - missa às 19h45)

Queridos irmãos que nos acompanham pelas mídias sociais, a liturgia de hoje é muito bela dentro de toda a dinâmica que ela propõe e também celebramos o dia dos arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael. Na Primeira Leitura de hoje[Dn 7,9-10.13-14], temos essa visão apocalíptica de Daniel, essa visão futura, onde é dado o trono, a glória, o poder e a majestade ao Filho do Homem, um termo muito utilizado pelo evangelista João que, inclusive, acabamos de escutar. E quem é esse Filho do Homem, a quem todos servem? A quem os anjos se prostram e se colocam diante dele? A quem é dado o poder, a glória e a majestade e cujo reino é eterno e não tem fim, nem se diluirá ou dissolverá? O próprio Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador. Ele mesmo vai nos dando, ao decorrer do Evangelho, indícios de quem Ele é. Ele, por exemplo, diz: "O meu reino não é deste mundo". O reino de Cristo é eterno, ele reina sobre todos nós. Os anjos, arcanjos e toda milícia celeste o louva e o glorifica.

Hoje celebramos, em especial, o dia de São Miguel, São Gabriel e São Rafael, que servem aos projetos de Deus. Alguns estudos teológicos dizem que os anjos, muitas vezes, são colocados diante das situações da vida na sagrada escritura quando faltam profetas. Nós também somos chamados a exercer um papel diante de Deus. Jesus, quando vê Natanael, diz: "Aí vem o homem que não tem falsidade". Jesus não olha apenas para o estereótipo da pessoa, quem ela é por fora, mas Ele vê profundamente quem é Natanael. Assim como Ele vê cada um de nós, quem realmente nós somos, diante da grandeza que o próprio Deus concedeu nas pequenas coisas. Como também fez Teresinha, a santa das pequenas coisas, que soube reconhecer em sua vida, em sua pequenez, a grandiosidade das ações de Deus. E nessa grandiosidade, ela soube ser missionária de dentro de um Carmelo, o que parece até contraditório. E neste sentido, Jesus vê o que há de mais profundo. Ele vê toda nossa potencialidade, que muitas vezes não exercemos porque temos medo. E tantos no decorrer da história da salvação, nas narrativas bíblicas também o possuem.

Em certos momentos, aparecem os anjos, justamente porque falta o nosso compromisso de fé diante do amor a Deus. Nos falta sermos os homens e mulheres que Deus possa dizer: "ali vem um homem de verdade, uma mulher de verdade, humanizada de verdade, imagem e semelhança de Deus e em cuja alma não há falsidade e que, verdadeiramente, está aberto a compreender e ouvir a vontade de Deus, a servir a Deus". Os anjos de Deus, independente de virem nesses momentos, também nos trazem uma grande mensagem. Gabriel é o grande anunciador. O nome dele significa "força de Deus" e vem ser o mensageiro e o protetor dos anjos.

São Miguel é o anjo guerreiro, aquele que vai à frente da milícia celeste para vencer o inimigo. E nós somos chamados a não viver de uma forma rasa tudo isso, mas, diante do convite a sermos profetas, a batalharmos também. Não devemos jogar tudo nas costas dos santos e anjos. Nós também temos que fazer a nossa parte. Então os anjos devem ser motivadores também por meio daquilo que eles representam para nós para que assumamos também este papel de sermos mensageiros e profetas de Deus. Para que nós assumamos também o papel daquele que vai guerrear. E guerrear não significa apenas o ódio, porque discursos de ódio e outras dinâmicas do tipo não são propostas do Evangelho. Mas lutar para viver, até interiormente, para eliminarmos os males que habitam em nossas vidas. E também lutarmos diante dos males que estão assolando a nossa sociedade, inclusive nos contextos das famílias. E Santa Teresinha e, sua mãe, Santa Zélia, sempre valorizaram o seio familiar.

E São Rafael é aquele que cura, aquele que é a medicina de Deus. Isto pode ser expresso também na medicina de Deus que ocorre em nossas vidas se estivermos abertos no âmbito espiritual e físico. São Rafael cura os males espirituais que dividiam Sara e Tobias, quando aparece nas Sagradas Escrituras. Também é aquele que vai curar a cegueira física do pai de Tobias. Então, desta forma, as devoções que nós temos aos santos e anjos devem ter uma vivência mais profunda. Não ficarmos no superficial de uma devoção, mas aprofundarmos naquilo que eles representam para nós. E todos os santos e santas de Deus não apontam para si mesmos. Nem Santa Teresinha, nem Santa Zélia e nenhum outro santo apontam para si mesmos, mas sim para o Filho do Homem, para Jesus Cristo, aquele que tem todo o poder, honra e glória, sempre e sempre por todos os séculos.

Santa Zélia, a querida mãe de nossa padroeira Santa Teresinha, ela foi uma menina muito simples. Nasceu em uma família muito pobre, cujos pais eram muito piedosos, católicos e ensinavam a devoção e a fé a seus filhos. Mas até mesmo pela própria austeridade da vida, os seus pais não eram amorosos e carinhosos com seus filhos. Ao contrário, eram pais muito duros com eles. Santa Zélia não sentiu amor no lar e passou por diversas privações, sejam financeiras ou no âmbito da afetividade. E tudo isso poderia gerar uma pessoa rancorosa, uma pessoa que, de algum modo, não conseguiria desenvolver o amor pelos outros, ou até viver fechada no vitimismo. Mas, pelo contrário, Santa Zélia consegue ressignificar tudo isso e, olhando para Deus, dá sentido a tudo aquilo que aconteceu na sua vida. Tanto que ela conseguiu estabelecer, por meio da vivência especificamente com seus irmãos, uma relação que a fazia ter um amor profundo por aquele lar, da forma que ele era: com suas dificuldades financeiras e de convívio. Ela conseguiu estabelecer um amor profundo dentro daquele lar. E, neste amor profundo, ela foi cultivando amor e mais amor, porque sabia que aquele que a amava por primeiro era Deus. Então ela cultiva esse amor pela família. Ao mesmo tempo que este amor por sua família cresce, apesar das dificuldades, ela também vai crescendo no amor a Deus. Ao passo que, em um determinado momento da vida, ela se consagra totalmente a Deus. E nós também precisamos compreender tudo aquilo que Deus quer de nós.

Em certo momento, ela resolve entrar na ordem das filhas da caridade, em São Vicente de Paula. Ordem esta que, inclusive, está presente em São Paulo, no colégio Padre Chico, onde cuidam dos nossos deficientes visuais. A mãe de Santa Teresinha tentou adentrar, e com a graça de Deus, não conseguiu, porque não era a vocação dela. Mas ela achava que seria porque, em sua humildade, em sua simplicidade, ela pensava que para servir e amar a Deus de forma plena e profunda, ela deveria se consagrar inteiramente a Ele somente por uma ordem religiosa. Mas não era isso que Deus queria. Ela tinha uma saúde muito frágil. E justamente por esta fragilidade ela não foi aceita. Teoricamente, seria uma pessoa que daria muito trabalho dentro do convento, em vez de ser aquela que vai cuidar dos outros. Lembrando que as filhas da caridade tinham essa concepção de cuidar daqueles que precisavam. Por isso não aceitaram a Santa Zélia. Precisamos compreender também que, na história dos santos, nada é por acaso. Ela ficou muito triste. Quem não ficaria quando recebe um não daquilo que você sempre quis na vida? Mas sente uma voz interior muito profunda, em determinado momento, em que ela cruza com seu querido futuro esposo na ponte São Leonardo. Então, ali vem uma voz interior que fala para ela: "este é o marido que eu preparei para ti". Assim, ela entende que a sua vocação – a maneira com que ela iria servir generosamente a Deus de maneira profunda e integralmente – seria o matrimonio. Ainda ela não entende plenamente, mas ela entende os indícios que Deus começa a colocar em seu coração.

Zélia estuda e começa a ter ganhos fazendo renda, renda de costura, gerando verba para ela e sua família. E uma das alunas – que depois de estudar muito, abriu uma empresa e começou a prosperar – é a mãe daquele que seria seu esposo, o mesmo homem que ela havia encontrado na ponte e não sabia quem era. Então já era Deus encaminhando tudo. E depois de apenas três meses, eles se casam. E, neste casamento, por amor e respeito, diante da concepção, ele tem muito cuidado com a pequena Zélia e eles consumam o casamento apenas 10 meses depois, por orientação de um padre, o que mostra que eles eram muito fiéis a Deus e que eles deveriam gerar vida para povoar os céus. Ou seja, gerar santos. E, de certo modo, foi exatamente isso que eles fizeram. Mas, às vezes, nós confundimos algo que Santa Teresinha mesmo nos corrige. Por mais que ela tenha sido canonizada antes de Santa Zélia e de seu pai, ela teve um terreno fértil e terra boa onde pôde florir. A flor do Senhor, Santa Teresinha. A santa que cresceu e foi cultivada em uma terra santa dos pais. Eles a intercederam na santidade. E ela também tem uma frase muito bonita sobre os pais, que falava: "Bastava olha para eles para ver como rezavam os santos". Essa frase me emociona muito porque os nossos pais são, para nós, os grandes modelos. E que bom que sejam bons modelos de santidade. Santa Zélia foi assim até o fim da vida, por mais que Santa Teresinha tenha convivido muito pouco com sua mãe, já que, quando ela própria tinha 4 anos de idade, Santa Zélia faleceu.

E, para finalizar minha reflexão, algo que eu achei muito bonito ao ouvir sobre a história de Zélia, é que ela tinha uma preocupação com a santidade de seus filhos, que seus filhos não perdessem o céu. Sequer passassem pelo purgatório e que fossem direto para Deus. E ela tinha uma filha que era muito peralta e de gênio muito difícil, se não me engano era chamada Leônia. Daquele tipo de pessoa que falamos "Deus me livre e guarde viver com uma pessoa assim". E sua mãe se preocupava. Havia questões ali, dentro do próprio lar, que geravam isso, com uma empregada que maltratava a menina. E a própria Zélia não sabia disso. Depois que isto se resolve, Leônia começa a se aproximar mais da mãe. Mas, mesmo assim, a mãe se preocupa profundamente com esta filha, para que ela não perca o céu. Durante todo o período de doença – deste câncer que durou bastante tempo, não foi um câncer do dia para noite, foram 12 anos de caminhada e sofrimento também para Santa Zélia –, ela nunca esbravejou contra Deus, e nem pediu que fosse necessariamente curada. Mas que a vontade de Deus fosse realizada em sua vida. O único momento em que ela pede cura é para que ela possa ter mais tempo para acompanhar sua filha Leônia, para que ela se tornasse alguém que deveria ser. Não sei se vocês sabem, embora tenha sido a que mais deu trabalho das filhas, agora Leônia está em processo de beatificação, tamanho o zelo, o cuidado e o amor de uma mãe que, no seu leito de morte, entendeu que suas filhas não ficariam órfãs. Seria a própria Virgem Maria, segundo ela, que cuidaria delas. Então, nas pequenas coisas, sua mãe soube reconhecer as ações de Deus.

Que nós, com Santa Zélia e Santa Teresinha, com essa família santa que Deus nos apresenta – sendo Teresinha a padroeira desta paróquia –, possamos procurar, nas pequenas coisas, louvar e agradecer a Deus, com os anjos e os santos.

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BUSCAR A DEUS NAS PEQUENAS COISAS DO COTIDIANO

Homilia: Pe. Cláudio Santos – 1º Dia do Tríduo de Santa Teresinha (Ano B – 28/09/2021 - missa às 19h45) 

Meus queridos irmãos e irmãs, que nos acompanham aí de suas casas, hoje nós damos início ao Tríduo de Santa Teresinha do Menino Jesus. O Tríduo de um padroeiro de uma comunidade é um momento especial para renovarmos as nossas forças. É um momento – eu penso, e sempre faço essa leitura – de revermos também como está a nossa caminhada e, também, claro, de cultivar de uma maneira mais profunda à devoção ao nosso padroeiro. Aqui, no caso, Santa Teresinha do Menino Jesus.

Eu tenho um carinho muito especial por Santa Teresinha. Aliás, o povo brasileiro também. Porque Santa Teresinha, dentre tantas coisas que nos ensina, uma delas é a que mais me marca, que é quando ela fala da infância espiritual que, longe de ser uma imaturidade na fé, é, na verdade, um caminho de grande crescimento espiritual. A infância espiritual consiste, então, em um abandono de total confiança nos braços de um Deus que é Pai. É isso que a criança faz: ela confia. Somente isso. Se o seu pai ou a sua mãe lhe dão segurança, ela se joga. Ela confia no pai e na mãe.

E Santa Teresinha só trilhou este caminho de confiança em um Deus que é Pai porque ela teve, no seio familiar, um grande exemplo dessa paternidade divina. Um grande exemplo que, para ela – e ela mesma vai dizer isso –, representava muito bem o amor de Deus Pai. E hoje, de maneira especial, neste primeiro dia do Tríduo, falamos desse homem, desse grande Santo, São Luís Martin, o pai de Santa Teresinha.

Uma das frases tão bonitas que Santa Teresinha disse é: “quando eu queria saber como que os santos rezam, bastava eu olhar para o meu pai e minha mãe, e eu sabia exatamente como é que os santos rezavam”. E também contava muito o exemplo que eles davam. E a vida de Luís Martin não foi um mar de rosas. Às vezes, a gente imagina isso quando a gente vê os santos. A gente cria uma ideia tão romântica, não é? “Ah, mas foi tudo muito bem, tudo muito perfeito”. Não! A vida dele não foi bem assim.

Nós sabemos que ele ficou viúvo muito cedo. A sua esposa, Zélia, faleceu. E Teresinha ainda era tão pequena, Celina pequenininha também. E havia as outras filhas um pouco mais velhas. Mas ele foi um homem de garra, de coragem. Ele, sendo viúvo, não se casou novamente porque ele tinha uma grande missão, que iria exigir muito dele: a missão de educar as suas cinco filhas, de conduzi-las em um bom caminho. Ele poderia ter, é claro, se casado novamente, mas ele fez disso uma decisão, um propósito, o seu caminho.

E nós não vemos grandes feitos, aquelas coisas miraculosas, atribuídas a Luís Martin. Nós vemos, sim, as coisas pequenas, as coisas do cotidiano, que mostram essa santidade. E aí é que está o ponto chave do que este Santo nos ensina hoje: o pai de Santa Teresinha nos orienta a viver a nossa vida cristã de amor a Deus e aos irmãos, no nosso cotidiano. Não é apenas nas coisas grandes, nas coisas miraculosas, que nós daremos o testemunho da fé. E na nossa vida, isto é feito no dia a dia, no encontro com Deus, no encontro de fé. E também neste Tríduo, momento em que talvez muitos queiram estar aqui fisicamente, presencialmente, mas nos acompanham de casa.

E São Luís Martin fazia isso. Por exemplo, ia levar as filhas na escola e buscava. É um ato tão rotineiro, tão comum, mas, ali, ele estava oferecendo o cuidado de um pai que se preocupa. Celina, que é uma de suas filhas, conta que, quando eles vinham no caminho, ele ouvia, pacientemente, todas as histórias que elas tinham que contar para ele. Preparava as coisas, cuidava das suas filhas, era um homem trabalhador. Quando a sua esposa, Zélia, ainda estava viva, ela tinha um trabalho com rendas de costura. E ele deixou a sua relojoaria, fechou e vendeu por um precinho bem modesto, para poder investir e promover a sua esposa. Era um homem de comprovada virtude. Sereno e forte, ao mesmo tempo, ele entrou para um clube militar para poder ajudar as pessoas, quer seja no mar, quer seja em incêndio. Seria hoje o que nós chamamos de bombeiros. E fazia isso com muito amor.

Não eram raras as vezes em que se preocupavam quando ele demorava para chegar porque imaginavam que ele devia estar protegendo alguém que estava em uma briga na rua. Porque ele não gostava de briga e ele defendia as pessoas. Então, na vida, no cotidiano, Luís prestava culto a Deus e dava o testemunho da sua fé e levava suas filhas à missa, religiosamente, mantendo uma rotina de vida espiritual. Hoje nós pedimos a sua intercessão e pedimos ao nosso Deus que nos ajude a também ter estas sementes, esta entrega, numa vida de infância espiritual, de santidade.

No Evangelho de hoje[Lc 9,51-56], nós vimos Tiago e João indignados porque não ofereceram hospedagem para Jesus no povoado dos Samaritanos. Eles fizeram pouco caso pois viram que Jesus estava indo para Jerusalém – pois eles tinham uma rixa – e não oferecem hospedagem para Jesus. Só que Jesus já estava acostumado com isso. Jesus, quando era pequeno, no momento de seu nascimento, já não tinha lugar em hospedagem. Tiago e João se indignam e querem pedir que desça fogo do céu. Eles não estavam entendendo nada, estavam indo no caminho contrário, no caminho da vingança. Jesus repreende essa atitude de Tiago e João porque é preciso continuar o caminho. E o caminho de Cristo é o da paz, não o da violência. Não é o caminho da vingança, do desamor, do ódio, do “olho por olho, dente por dente”. Jesus, então, nos ensina que precisamos continuar trilhando o nosso caminho rumo à Jerusalém celeste, sem parar nas situações que não nos oferecem acolhimento. É preciso continuar e deixar o sinal de paz, nunca da vingança, do rancor, da falta de perdão, do ódio, das mágoas. Isso não leva a nada. Precisamos continuar o nosso caminho.

Mas uma pergunta que eu queria fazer para vocês e também para mim hoje é a seguinte: Jesus não encontrou um acolhimento naquele povoado de Samaritanos. Já que estamos em Tríduo, revendo a nossa vida e nossa caminhada, a pergunta é: e nós, estamos acolhendo Jesus em nossa vida, com a Sua proposta, acolhendo a Ele com a Sua palavra, o Seu Evangelho, ou ainda temos resistências e não queremos nos comprometer?

É importante refletirmos isso todos os dias, pedindo a Jesus e ao Espírito Santo que nos ilumine para caminharmos assim, para acolhermos a Sua presença. Deus está presente na sua vida, na sua história. Deus está presente nessa comunidade paroquial. É preciso, então, abrir as portas do coração para acolher Jesus e toda a novidade que Ele quer trazer para a nossa vida. Que essa comunidade paroquial cresça na novidade do Espírito Santo. E que fiquemos atentos para não fechar as portas do coração, para não deixar de ouvir as novidades que Deus tem para nos dizer e o caminho que Ele quer nos mostrar.

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Imitar os passos de Jesus

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 26º Domingo do Tempo Comum (Ano B – 26/09/2021 - missa às 10h)

Na Primeira Leitura, nós vivos o Espírito de Deus, espírito que tinha iluminado Moisés que ilumina também outros 70 homens que Moisés tinha escolhido para ajudar a cuidar do povo de Israel. E eles, para receber o Espírito, se reuniram com Moisés ali na tenda da arca. Durante o tempo que eles estavam no deserto, eles não tinham o templo. Eles tinham uma arca coberta por uma grande tenda e, toda vez que eles se mudavam de lugar, eles iam carregando a tenta junto, desmanchavam e depois montavam de novo. A coisa mais importante da tenda era a Arca da Aliança, era o coração da tenda e do povo de Deus. Então Moisés chamou esses homens que tinha escolhido, mas dois não conseguiram chegar, ficaram para trás. E quando Moisés fez a oração pedindo a Deus iluminasse aqueles homens, os dois que ficaram lá no acampamento também receberam o espírito e era um espírito de profecia, então eles começaram a profetizar lá no meio do povo. Ah, olha fofoqueiro existe em tudo quanto é canto, né? Aí um fofoqueiro correu falar para o Josué: ó meu amigo, aqueles dois lá que não vieram estão profetizando. Aí o Josué, que era outro fofoqueiro, foi lá falar com Moisés: olha, aqueles dois estão lá profetizando, eles não estão aqui com a gente... Então o Moisés pergunta: mas o que você tem com isso meu amigo?! Está com ciúme por quê? Tomara que todo o povo profetizasse! Gente, nós não podemos ter ciúmes dos dons de Deus dá para as pessoas. Porque se você tem ciúme dos dons que Deus concede às pessoas, você tem ciúme de Deus e você tem que se perguntar quais são os dons que Deus te deu e que você não está colocando a serviço da comunidade. Porque muitas vezes nós nos sentamos em cima nos dons que Deus nos deu e ficamos criticando os outros porque nós não fazemos nada. É complicado o negócio!

E a mesma coisa aconteceu com os discípulos de Jesus. Só que agora quem é que é o linguarudo? O linguarudo dessa vez é João que depois vai ser o apóstolo que vai dar origem ao evangelho de São João. ‘Ah Jesus, fulano lá de não sei onde que a gente encontrou estava expulsando demônios no teu nome e nós proibimos, porque ele não é um de nós’. E Jesus passa um sabão em São João na hora: ‘ele está fazendo alguma coisa em meu nome, essa pessoa não pode acabar falando mal de mim, ele não vai falar mal de mim. Quem está conosco, não está contra nós’. Em seguida, Jesus vai falar e muita gente fica perdida com o que isso quer dizer. ‘Se a tua mão te leva a pecar, corta a tua mão. Se o teu pé te leva a pecar, corta o teu pé. Se teu olho te leva a pecar, arranca-o.’. É uma imagem muito pesada, mas será que Jesus quer que todo mundo fique sem mão ou sem pé? Não.

A mão é um sinônimo das nossas ações. A mão pode se estender para ajudar, mas com a mesma mão eu posso dar um tapa no ouvido de uma pessoa. A mesma mão que faz um carinho pode ser a mão que rouba. Então se a tua mão está indo para o caminho da violência, do roubo, do erro, as tuas ações não são ações de Deus, corta esse caminho, volta para o caminho de Deus, porque se você continuar por essa estrada, o fim é o inferno.

O pé vai significar a mesma coisa. Se você ficar indo por caminhos que não são os caminhos de Jesus. E cuidado, muitas vezes nós católicos de missa diária não estamos no caminho de Jesus! Quando nós aceitamos a violência contra os outros, pode fazer comunhão todo dia, mas você não está no caminho de Jesus. Quando a gente fica defendendo o armamento da população, nós não estamos no caminho de Jesus. Quando nós não defendemos o direito dos pequenos, dos índios, dos pobres e aplaudimos violências que fazem contra esses povos, nós não somos de Jesus. Quando nós criticamos quem ajuda e faz o bem para essas pessoas, porque não pode fazer mais... Se nós criticamos pessoas que fazem o bem, nós não somos de Jesus. Nós estamos no caminho torto. Temos que jogar fora essa visão torta e pegar o caminho de Jesus. O caminho de Jesus é defender a vida, ajudar e promover o pobre, querer a paz. Jesus não fala bem-aventurados os que tem armas, Jesus fala: bem-aventurados os promotores da paz, deles é o Reino do Céu. É o caminho de Jesus que nós temos que seguir. Cortar o pé significa sair desse caminho que não é de Jesus.

Arrancar o olho... O olho é a nossa guia. A grande pergunta é: o que está nos guiando? Mais uma vez, é Jesus ou é um ídolo da morte? Hoje nós temos muitos ídolos da morte: o culto da beleza, a estética, tudo tem que ser fitness, é um absurdo. Esses deuses falsos comem muito dinheiro. Depois o deus do sucesso, tem que ter 10 mil visualizações no Instagram ou ter 10 mil amigos no Facebook são todos deuses falsos que nos alienam e que muitas vezes mentem. Não é possível ter juventude para sempre. Não é possível ser o bonzão da história o tempo inteiro. A vida é aquela que é. Cada momento da vida tem a sua beleza. A deusa da estética chegou a um tal exagero que os grandes produtores de moda feminina tiveram que fazer acordos contra a anorexia. É uma doença, uma loucura para cultuar essa deusa que no fim das contas é uma deusa do inferno que pode levar as pessoas à morte. Depois, a chamada estética muda conforme os tempos. Na antiguidade, existia um certo modelo de beleza feminina que aparece na Vênus de Milo. Na Renascença, anos 1500, as mulheres são todas rechonchudas. Se você vai nos anos 50, o modelo daquele tempo é Marilyn Monroe, que para um jovem de hoje seria considerada gorda, porque venderam para nós uma imagem de estética que é anorexia. Isso é só para a gente pensar um pouquinho nas ideias falsas que o mundo nos dá e como nós bebemos essas falsidades. Jesus nos diz: o caminho da vida. Esse é o nosso caminho: o caminho da alegria, da paz com os outros, esse é o caminho de Jesus. No Evangelho, vemos muitas vezes, Jesus na mesa, comendo com as pessoas, é alegria, é o pão, é conversa ali entre amigos. Ninguém está preocupado se é bonito ou feio, se é gordo ou magro, isso é fraternidade, são esses os valores que contam. Nós agora estamos para entrar em uma guerra de novo: a polarização da política. Vamos aprender e não vamos criar guerras entre os nossos amigos e parentes. Estar na mesa em paz com as pessoas é mais importante que os partidos políticos. Isso também é mudar o olho. A outra pessoa é mais importante que o seu partido político, porque quando eu sinto respeito e afeto, eu consigo conversar com as pessoas. Esse é o caminho do Evangelho. Jesus sabia que Zaqueu era um corrupto terrível, era chefe dos cobradores de impostos, metia a mão adoidado, mas servia alguma coisa Jesus xingar o homem? Não, Jesus conversou com ele e esse homem se converteu para o Evangelho. É só na amizade que nós trazemos as pessoas para o Evangelho. Olhem lá o que está acontecendo no Afeganistão: quando você não ama as pessoas, você mata porque essas pessoas não pensam como você, e pior, em nome da religião.

Vamos pedir a Deus que o Espírito Santo nos ensine a mudar as nossas ações se não são de Jesus, a mudar os nossos caminhos para seguir só Jesus e a mudar os nossos modos de ver a vida e o mundo para sermos de Jesus. Lembrem-se de que não basta vir à missa todo domingo, é preciso pensar e agir como Jesus.

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Viver é exercer o serviço aos irmãos

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 25º Domingo do Tempo Comum (Ano B – 19/09/2021 - missa às 10h)

Novamente, o tema de hoje é Jesus ensinando seus discípulos. Porém, eles saíram de Cesareia de Filipe, que era um deserto, e estão entrando na Galileia, que é uma terra fértil. A seguir, dirigem-se a Cafarnaum, que era a cidade onde Jesus estava morando naquele tempo em que ele foi para seu ministério público. E Jesus, novamente, falou que iriam matá-lo, e que, ao terceiro dia, Ele iria ressuscitar.

E os discípulos, mais uma vez, não entenderam nada porque, no meio do caminho, começam a discutir quem é o mais importante entre eles. Porque, se Jesus é o Messias e Ele vai estabelecer o Reino, então o pessoal queria saber quem que é o mais importante para ser o Primeiro-Ministro, ou, pelo menos, o Ministro de Graça e Justiça, que é o segundo! E começam a discutir entre eles e param até para pensar em critérios para ser o primeiro como, por exemplo, aquele para quem Jesus direcionou primeiro a palavra ou aquele que tinha o grau de parentesco mais próximo de Jesus. E Jesus só escutando as abobrinhas.

Quando chegam em casa, Jesus pergunta: “afinal de contas, vocês estavam conversando de quê? Que besteira era aquela que vocês estavam falando?”. E ninguém fala nada. Acho que entenderam que Jesus ia dar uma puxada de orelha. Aí Jesus faz uma coisa engraçada. Jesus pega uma criança e a abraça. A seguir, começa a fazer este discurso esquisito: “se alguém quer ser o primeiro, seja o último, aquele que serve a todos”. E por que Jesus abraçou uma criança? Pois Jesus está ensinando os discípulos sobre o fato de ser último.

Naquele tempo, as crianças não tinham nenhum direito. Absolutamente nenhum, a tal ponto que o pai – o pai, não a mãe, pois a mãe também não tinha direito a nada – podia vender os filhos como escravos para pagar dívidas. Já pensou se a gente pudesse fazer isso hoje em dia? A molecada estava frita, não é? Isso dá para mostrar a condição das crianças. Então, o que Jesus está mostrando para os seus apóstolos? Que eles têm que ser assim: pessoas que não reivindicam direitos! O único direito do cristão é servir aos outros. E quem deu o maior exemplo de serviço foi Jesus.

É bonito falar essas coisas, né? Aí chega na vida prática – e isso acontece muito nos encontros de casais, de jovens –, todo mundo quer trabalhar na cozinha, todo mundo quer trabalhar na acolhida, fazer horas de oração, fazer visitação. Mas vocês sabem a coisa mais difícil que tem para encontrar gente? Limpar o banheiro. Ninguém quer! Mas é onde você mais serve as pessoas, porque todo mundo tem que ir ao banheiro. Todo mundo quer dar palestra, mas limpar o banheiro ninguém quer!

Jesus diria exatamente isso: você quer servir a todos? Vai limpar o banheiro. Engraçado, né? Como é engraçado o Evangelho, como a nossa mentalidade está longe do Evangelho de Jesus.

Olha lá! Dia 25, sábado que vem, nós vamos ter limpeza da igreja. Quero ver quem vem ajudar, viu? Já estou convidando o povo para vir ajudar no sábado que vem, às 8 horas da manhã! Pode ser homem também. Aliás, muitos, porque vamos precisar mexer todos esses bancos de lugar.

Que a nossa vida seja um pleno serviço aos demais.

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Carregar a cruz é servir a todos como Jesus

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 24º Domingo do Tempo Comum (Ano B – 12/09/2021 - missa às 10h)

O Evangelho de Marcos é escrito em Roma por um evangelista que não conheceu Jesus pessoalmente. Ele pensa em hebraico e escreve em grego – e um grego bem fraquinho, mas ele tem uma ideia na cabeça quando ele escreve e deixa os primeiros nove capítulos com uma grande pergunta: “quem é Jesus?”. As pessoas ao longo dos nove capítulos perguntam quem é esse homem que faz essas coisas, que acalma o vento e a tempestade, que multiplica os pães. E no capítulo nove quem faz essa pergunta é Jesus para seus discípulos, mas até então faz essa pergunta em uma região de deserto, não tinha ninguém ali só Jesus e os doze e Pedro muito entusiasmado diz: “tu és o Messias”, porém vamos ver qual Messias Pedro tinha na cabeça... Jesus fala que vai para Jerusalém ser preso, torturado, morto e ao terceiro dia vai ressuscitar, mas o povo de Israel desde que faliu a monarquia davídica esperava um Messias que fosse o reformador da vida de Israel, reformador dos costumes, da religião, fosse um grande rei, um grande guerreiro que iria expulsar os dominadores de Israel na época os Romanos e que faria de Israel a maior nação do mundo: essa era a ideia e Pedro quando fala de Jesus é o Messias não tem nada de diferente disso na cabeça. Por isso Jesus fala “vai embora satanás, você não pensa igual Deus”, mas qual é o caminho de Deus? O que Deus pensa? Primeiro Jesus chama a si as multidões – e isso é um artifício literário, São Marcos está falando que Jesus está perdido em meio a um deserto, a única multidão que pode ter ali é de mosquito, como ele chamou as multidões?

Nós podemos dizer que foi como nos filmes quando os atores estão conversando entre si e um deles olha para a câmera e parece que está falando com você, foi exatamente isso que São Marcos fez: Jesus fala para os doze e para as multidões, que não estão ali, mas as multidões que lerão esse Evangelho e ouvirão esse Evangelho, ou seja, nós, todas as pessoas que antes de nós escutaram o Evangelho e todas as pessoas que depois de nós ouvirão esse Evangelho. Jesus fala, nesse trecho, olhando para os olhos de cara um de nós: você quer ser meu discípulo? Renuncie a si mesmo, toma tua cruz de todo dia e me siga. Renunciar a si mesmo não significa viver abandonado, mas renunciar aos próprios projetos de grandeza, de egoísmo para que todo dia na vida, no trabalho você aprenda a servir os outros, você aprenda a ser servo de todos e não querer que os outros te sirvam, não querer oprimir os outros para que você esteja bem, mas como faz Jesus na última ceia lavar os pés de todos e Jesus disse “eu sou Mestre e Senhor, mas sou Mestre e Senhor que serve”.

Essa mentalidade muda o mundo, muda a sociedade, muda a economia, muda tudo. Se o Presidente da República se coloca como servo do seu povo, ele vai querer o bem do povo e não cortar o dinheiro da vacina. Se o governador quer o bem do povo, quer ser servo do povo, ele vai implementar a educação e não a destruir. Se você é um funcionário público, você vai cuidar para que a merenda escolar chegue a todas as crianças e escolas necessitadas, mas não vai enfiar o dinheiro no bolso. Se você é pai de família, você vai se empenhar para que seus filhos vivam os valores cristãos que promovem a vida, o direito e a igualdade das pessoas. E se você for uma boa mãe de família que serve, vai buscar a mesma coisa. O padre que quer ser servo tem de servir a Palavra de Deus para o povo, mesmo que isso custe para ele críticas e às vezes até perseguição, porque isso é o caminho de Jesus: isso é carregar a cruz. Não é pegar uma cruz de 40 quilos e sair por aí ou então pegar um chicote para se bater e sofrer bastante, isso é loucura, mas na história já se fez isso, mas não é isso que Deus quer. Deus quer o serviço, ser servo dos outros é querer a vida e o bem do outro. Vamos pedir a Jesus que Ele nos ajude nisso!

Nós também estamos no mês da Bíblia e, nesse ano, refletimos e incentivamos o povo a ler a carta de São Paulo aos Gálatas. São Paulo sofria muito uma situação, ele ia numa cidade nova pregava o Evangelho, as pessoas se convertiam – às vezes só pagãos, se batizavam e queriam viver o mandamento de Jesus. São Paulo pregava o Evangelho da liberdade do amor e do serviço sem aquelas regrinhas do mundo hebraico e dizia “Jesus já acabou com isso, vamos viver o mandamento do amor e do serviço”. Então, São Paulo depois saia daquela cidade e ia para outros lugares e vinha gente da comunidade de Jerusalém para aquele comunidade cristã que Paulo tinha fundado depois que ele ia embora e falava que não era bem isso que tem que seguir a lei de Moisés, se circuncidar e São Paulo ficava louco da vida vendo o trabalho dele ser destruído, ai ele fala em uma de suas cartas “eu pedi duas vezes pra Deus me livrar desse Demônio que é para mim como um espinho na carne, vou lá trabalho, me arrebento para anunciar o Evangelho e depois vem esses folgadões e estragam tudo e Deus me disse: te basta a minha graça, vai adiante”. Aí São Paulo fica sabendo que na comunidade dos Gálatas aconteceu exatamente isso, era uma região bem do interior e São Paulo tinha constituído ali uma bela comunidade e chega esse pessoal de Jerusalém e joga água no angu, mas São Paulo escreve essa carta e fala “quem é que vem aí destruir e anunciar outro Evangelho que não seja o que eu anunciei para vocês? Foram eles que sofreram, que levaram pauladas por causa do Evangelho? Foram eles que naufragaram por causa do Evangelho? Foram eles que passaram fome, sede, frio por causa do Evangelho?”. Ele fala: “Jesus mesmo me chamou, Ele me chamou e mandou eu anunciar o Evangelho, não foi ser humano nenhum, isso foi Ele e vocês são uns insensatos, trocando um banquete que servi para vocês pela lavagem que essa gente anuncia”. São Paulo é terrível, é uma carta forte que nos lembra de que não se devem medir esforços para anunciar o Evangelho da liberdade. Papa Francisco esses dias fez um sermão falando sobre isso muitos rituaizinhos, muitas leizinhas, muitas manias religiosas, devoções que muitas vezes não servem para outra coisa, condenam um coração duro que julga os outros, condenam as pessoas, excluem as pessoas, ou seja, para não viver o Evangelho nós temos que tomar muito cuidado com isso. Jesus não chamou exército nenhum, Jesus quer servos, discípulos, como briga São Paulo na sua Carta aos Gálatas. E espero que depois de toda essa falação vocês essa semana vão lá lê-la na Bíblia, é uma carta curtinha e bem interessante na qual esse apóstolo que anuncia e grita com todas as forças o Evangelho da liberdade.

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Acreditamos no Deus da verdade

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 23º Domingo do Tempo Comum (Ano B – 05/09/2021 - missa às 10h)

A Primeira Leitura [Is 35,4-7a] parece uma contradição. Ela começa com “dizei às pessoas deprimidas”. Deprimido aqui não se refere apenas aos deprimidos de depressão, mas também aos oprimidos. Isto nós vamos entender com a continuação da leitura, que ela se refere a todas as pessoas que estão de algum modo sofrendo. Sofrendo por causa de quê? Por causa dos desmandos dos reis. Os profetas são críticos da realeza porque ela trouxe para Israel a idolatria, culto de falsos deuses. E quando nós abraçamos falsos deuses, nós geramos o sofrimento e a morte. Então, os profetas criticam duramente a monarquia quando ela é causa de morte e de sofrimento para o povo.

Mas a coisa interessante é esta: “dizei às pessoas oprimidas: criai ânimo, não tenhais medo!”. As pessoas abatidas deixam-se tomar pelo medo, pelo desânimo. O medo foi exatamente o veneno que o inimigo colocou no coração do homem no momento do pecado original. De fato, Adão vai falar pra Deus: “tive medo e me escondi”. O medo nos paralisa e nos faz acreditar que uma formiga é um dinossauro, que um mentiroso diz a verdade. O medo faz isso. E o profeta continua: “vede, é vosso Deus, é a vingança que vem, é a recompensa de Deus”. Mas daí pensamos: que vingança é esta? Ela vem para vos salvar. A vingança de Deus é contra os ídolos, contra os instrumentos de morte, contra as mentiras que os governantes falam e iludem os povos. Deus traz o quê como vingança? A cura. Porque o povo está sem saúde. Abrir os olhos para ver a verdade e não se enganar com as mentiras. Abrir os ouvidos para ouvir e olhar o que realmente está acontecendo em torno de nós, não nos deixar enganar. O coxo, que pode ser entendido também como o paralítico, saltará como um cervo e se desatará a língua dos mudos. Não é andar, simplesmente. É saltar de alegria, pois a salvação chegou. A salvação que os grandes negaram ao povo.

Hoje nós temos toda esta ideologia barata que as vacinas fazem mal. E já temos um desastre que advém disso. Tem muita que não toma a vacina da Covid e outros tantos que não tomam nem a segunda dose. E isso é um crime contra os outros. Mas tem gente que está deixando de dar para os próprios filhos pequenos as vacinas essenciais, sendo uma delas a da poliomielite. Tem gente que não quer dar porque acha que o filho vai ter um chip. Isso aqui é ignorância e não tem outro nome. Se você não dá vacina de poliomielite para as crianças, você corre o risco de condenar uma criança a ter paralisia nas pernas para o resto da vida. Por causa de uma ignorância tua, quem vai pagar é o teu filho. Não acredite em mentiras. Deus nos quer vendo e ouvindo a verdade.

Então Deus vai tirar as mentiras do nosso meio para nos dar a verdade. Brotarão águas no deserto, jorrarão torrentes no ermo. Este texto aqui foi escrito há cerca de 2.500 ou 2.700 anos, mas parece que ele está lendo o Brasil de hoje. Nós estamos destruindo o Brasil. O mundo precisa destas florestas. O mundo precisa da nossa água e estão deixando destruir tudo. Vamos pôr o olhar em Deus e olhar para aquilo que Deus olha.

Onde está o olhar de Deus? O olhar de Deus está nos pobres, nos que sofrem, nos desempregados, nos doentes. Seus olhos não estão em cima dos banqueiros ou de deputado que segura mais de cem pedidos de impeachment no governo. Os olhos de Deus não estão lá. Nós temos que pensar nos pobres, nos que sofrem e ajudarmos estas pessoas. No dia em que, verdadeiramente, aprendermos isto, nós vamos estar mais perto do Reino de Deus. Neste dia, nós vamos começar a ter um Brasil melhor e uma vida mais serena. Porque, se eu promovo a justiça, o bem, o trabalho, a educação e a saúde para o povo, eu não vou ter violência. Toda a sociedade ganha. Não haverá mais sofredores de rua, porque este povo não vai ter que viver no meio da rua por não poder mais pagar aluguel na favela. Imaginem, todos terem onde morar porque não existe mais um mar de desempregados. É isso que Deus quer. E isso nós podemos começar a plantar já neste mundo. Porque, no Reino de Deus, vai haver igualdade radical para todos, dado que todos somos filhos e filhas de Deus. Nenhum de nós é melhor diante de Deus. Para alguns, esta igualdade radical vai ser o céu. Para outros, que vivem da ganância, do roubo, da mentira, a igualdade radical será o inferno. Mas, ainda assim, se tiver alguma pessoa que deseje ir nestas manifestações, ao menos respeitem os outros. Todos querem voltar para casa, os prós e os contras as pautas, todos têm família.

Vamos aprender a não nos odiar e, pior ainda, por assuntos que não valem a pena. Vamos nos respeitar como cidadãos, do mesmo jeito que vocês respeitam a mim falando tudo isso e não deixam de amar a Nosso Senhor Jesus Cristo. Procurem, de todo modo, fazer o bem para quem sofre, porque nós, no dia do juízo final, seremos julgados por isso.

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A luz de Cristo está no coração de cada batizado

Homilia: Pe. Flávio José dos Santos – 22º Domingo do Tempo Comum (Ano B) – 29/08/2021 (missa das 10h, Dia Nacional do Catequista).

Primeiramente, queridos pais e padrinhos, vocês estão nos ensinando muito o sentido do que é o Batismo. Isso é muito importante, até para que possamos esclarecer o que é batizar de verdade. Eu escuto muitas bobagens por aí, e uma delas eu tenho certeza que vocês nunca escutaram, que é alguém chegar para vocês e falar: "Por que você vai batizá-la quando criança? Ela não sabe o que está acontecendo. Deixe-a crescer, aí ela vai escolher o que quer ser". Que pensamento errôneo, pois só olha para si mesmo. E se eu chego a vocês e pergunto "por que querem batizar seus filhos", vocês vão falar um monte de coisas: "Ah, minha família é católica, eu nasci em berço católico", "Porque quero que eles se casem"... Alguns falam: "Porque quero que a criança fique quieta, que afaste mau-olhado". Um monte de coisas, não é? Mas se eu começo a perguntar mesmo, vai chegar uma hora em que vocês não saberão responder o real motivo do porquê vocês as trouxeram. Aí é que está um grande ensinamento para nós: não é só o nosso desejo de querer batizar os nossos filhos, é o desejo de Deus.

 

Nesse momento em que ungi o peito dessas crianças, eu falei: "Que o Cristo Salvador lhe dê a Sua força". E se todos nós somos batizados, um dia, um Padre fez a mesma coisa com você: mostrou, nesse gesto, que a força, a graça e a luz de Cristo estão no seu coração e na sua vida. Então a gente deveria pensar três vezes antes de desistir de alguma coisa, de achar que nossa vida não vale nada, pensar que Deus nos abandonou. Não! Nesse gesto, Deus transfere para nós a Sua luz, a Sua graça, a Sua força; ninguém tira! E é desejo Dele, por isso é que o Batismo é único, não é uma imposição da Igreja, mas é um desejo de Deus que sejam filhos e filhas amadas e amados.

 

A partir de hoje, essas crianças não pertencem mais a vocês, pertencem a Deus. Só que Deus não é igual ao ser humano, egoísta; Ele sabe – e confia – que vocês são os melhores para cuidar e zelar. Por isso, cuidem muito bem delas. Eu sempre digo, em todos os batizados: nunca deixe de abençoar os seus filhos, os seus afilhados. Tem gente que fala que isso é coisa para velho, "Ah, só velho faz isso, pedir a bênção", não é? Uma vez, eu vi uma senhora que estava com a netinha do lado, que falou "benção, vó", e ela disse: "Sai, menina! Você está me chamando de velha?". Não! Todos os dias, ao acordar, quando eu vou iniciar o meu dia, a primeira frase que levo no meu coração é: "Deus te abençoe, meu filho" – a bênção da minha mãe. Meu pai já partiu, mas a bênção dele permanece, e que bom iniciarmos o nosso dia recebendo essa bênção, porque abençoar é mostrar o bem de Deus que está em nós, e esse bem nos acompanha sempre.

 

Por isso, parabéns a vocês, viu? E vocês não estarão caminhando sozinhos. É nosso dever, enquanto comunidade, rezar por vocês! Pedir a Deus que sempre os mantenha firmes. E, saibam, vocês podem fazer tudo e deixar tudo para suas crianças, mas o bem maior: deixe Deus no coração delas! Assim, elas nunca serão alienadas, mas serão humanas, percebendo, cada dia, essa dádiva, por meio do Sacramento que nós celebramos na manhã de hoje.

 

Queridos irmãos e irmãs, como é bom celebrarmos e percebermos a riqueza da nossa fé! A liturgia de hoje nos mostra isso. Seria muito interessante perguntarmos sempre: em que a fé me ajuda enquanto pessoa? Não tem como nós vivermos algo dentro de uma igreja e sermos outra pessoa fora. A liturgia de hoje questiona isso. Na primeira leitura [Dt 4, 1-2. 6-8], Moisés vai dizer: "Olha, não invente mais coisa, já existem os mandamentos de Deus". E qual é o mandamento de Deus? Pai de todos; ama todos; anima todos; acolhe a todos... Não adianta inventar mais coisas, porque, senão, acaba distanciando.

 

É aí que a gente compreende o Evangelho de hoje [Mc 7, 1-8. 14-15. 21-23]. Porque, quando olhamos este Evangelho, ficamos com o pé atrás até mesmo com Jesus e os discípulos – eles não lavavam as mãos para comer? Eles não tomavam banho? Não é isso. Aqui, a questão é do ritual. O judeu é muito ritualista. É como na missa também: o padre, depois que apresenta as oferendas, vai lavar as mãos, e não é por que sujou, não, é um gesto ritual. E a mesma coisa era na época de Jesus, tanto é que o Evangelho vai dizendo: "Tem a maneira certa de lavar os copos, as jarras; não é de qualquer forma". Mas tudo isso muito categórico, porque tinha todo um ritual para fazer aquilo.

 

E Jesus vem dizer: "Não". Porque em que isso enriquece você? Em que isso transforma a sua vida? É por isso que Jesus chama a atenção: "Olha, não é o que está fora e entra que é o grande mal, mas o que está dentro e é manifestado". E é por isso que ele vai dizer que o que causa, realmente, uma ação terrível são as más inclinações, as maldades, o desejo que o outro se dê mal, causar divisões, separações... É para tudo isso, cultivado no coração do ser humano, que Jesus chama a atenção. Os ritos, as expressões de fé, nos ajudam a superar tudo isso – porque também é natural, muitas vezes, alguma situação terrível, provocar isso em nós; mas não deve permanecer. É para isso que Jesus chama a atenção.

 

Na segunda leitura [Tg 1, 17-18. 21b-22. 27], Tiago vai nos mostrar isso de uma forma muito incisiva, quando ele diz: "Vivam aquilo que vocês celebram, vivam a Palavra que vocês escutam, sejam realmente sinal de proteção". É por isso que ele diz para proteger as viúvas e os órfãos, ou seja, aqueles que estão, de certa forma, em perigo de muitas situações. Protegê-los. E de que forma? Estando sempre atentos, discernindo realmente a graça e a ação de Deus, para que esse vínculo nunca se separe de nós.

 

Hoje, ao celebrarmos esta Eucaristia, nós também queremos agradecer aos nossos catequistas. Pela manhã, lá na Catedral, a gente também rezou por eles, mas uma coisa é fato: não adianta transferir a educação da fé dos nossos filhos para os catequistas. Eles ajudam a aprofundar, mas os primeiros catequistas – e maiores – são vocês, pai e mãe. O que nós estamos deixando para nossos filhos? Uma coisa que temos que refletir é se não estamos destruindo uma dimensão tão especial no ser humano, que é o cuidado. Ninguém mais quer cuidar de ninguém, ninguém mais quer ouvir, compartilhar, ajudar no sofrimento dos outros... "Cada um que siga com a sua cruz". Não!

 

Precisamos muito ajudar a transmitir esses valores tão especiais para nossas crianças, sem deixar de agradecer aos catequistas das nossas paróquias, porque são homens e mulheres que, muitas vezes, deixam suas casas, suas famílias, para zelar e cuidar do bem maior que são os nossos filhos. E, mais ainda, transmitir a eles aquilo que eles também acreditam, que é a questão da ternura e da graça da fé. Então nós queremos muito agradecer a você que é catequista: Deus sempre abençoe você! Porque todas as vezes que nós olharmos para vocês na igreja, vamos sempre recordar: a Igreja, por sua essência, também é catequista, porque a catequese é permanente, ela nunca é temporária; tem os momentos para aprofundarmos, mas ela sempre é permanente, pois ela sempre nos leva a permanecer no colo e no coração de Deus.

 

Vamos pedir que esta Eucaristia fortaleça a todos nós e ilumine os nossos corações, para que essa graça sempre seja a luz necessária para o nosso caminhar.

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Aprender com a Virgem Maria

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha –  Solenidade da Assunção de Nossa Senhora (Ano B) – 15/06/2021 (missa às 10h).

Hoje celebramos a Assunção de Nossa Senhora. O que quer dizer assunção? Assunção significa ser levado. E ascensão? Elevar-se. É diferente, Jesus ascendeu ao céu, subiu ao céu, por força própria, porque Ele é Deus. Maria foi assunta, foi levada, não por força própria, foi levada por força de Deus. Maria morreu? Sim, morreu – até Jesus morreu, todo mundo morre. E na hora da morte, Deus ressuscitou Maria e ela está de corpo e alma junto de Deus. Ela aparece para nós como uma estrela, no meio do mar, no meio da tempestade, uma estrela que indica para nós a direção, e a direção que Maria indica é sempre Jesus. Maria nunca aponta para si mesma. Quando ela fala de si mesma, ela vai dizer: "O Senhor viu a humildade da sua serva, por isso Ele fez grandes coisas em meu favor, foi Ele que fez, é Ele que é grande, eu sou uma humilde serva do Senhor". Ver Maria assunta ao céu de corpo e alma também é garantia que Deus nos dá de que essa nossa fraqueza, essa carne fraca, essa nossa vida breve e sofrida tem um valor para Deus. E essa vida vai se sentar junto de Deus, a nossa vida, a nossa fraqueza, a nossa miséria, o nosso pó vai ser mantido vivo na eternidade pela graça de Deus. Isso que o Evangelho de hoje e a doutrina da igreja nos ensinam com a assunção de Maria.

Vamos olhar essa belíssima leitura de Apocalipse, final do capítulo 11 e começo do capítulo 12, mas primeiro vamos falar sobre a arca da aliança... Ela foi mandada ser construída por Deus, que disse: "Moisés, você irá construir uma barca deste jeito aqui". Então deu as medidas e instruções de como deveria fazer e Moisés fez, no meio do deserto, lá no livro do Êxodo – se vocês ainda não leram o livro do Êxodo é porque não estão assistindo "As Aventuras Bíblicas", né? Todos os sábados lá no Facebook da paróquia, nós estamos explicando passo a passo da Bíblia. Nós começamos lá em Gênesis, e já estamos no livro de Rute, já estamos bem adiantados, mais de 40 capítulos, então vocês tratem de ir lá, assistirem e aprenderem coisas da Bíblia. Pois então, Moisés fez a arca, e a arca caminhou com o povo no deserto, depois que entraram na Terra Santa, ainda ficaram lá 250 anos sem o templo, a arca ficava num templo que era uma cabana móvel, uma tenda móvel, depois Salomão fez um templo e colocaram a arca no templo. Por volta dos anos 600, 500 a.C., antes da invasão da Babilônia, o profeta Jeremias pegou a arca e levou para as montanhas, para um lugar escondido, e a arca se perdeu, não se sabe onde ele colocou a arca. Entre o povo criou-se então a tradição, que no dia do juízo, a arca de Deus estaria no céu, a arca da aliança.

Então vamos para Apocalipse, onde João diz: "Vi a arca da aliança que aparecia no céu, era o sinal de Deus, chegou o tempo do julgamento". Interessante é que São João olha de novo e o que ele vê é uma mulher grávida, vestida de sol, com a lua debaixo dos pés e uma coroa com doze estrelas em volta da cabeça, e ela está gritando porque ela vai ter uma criança. Ela está gravida, mas já está dando a luz à criança e, ao mesmo tempo, aparece no céu um dragão gigantesco, monstruoso, com dez chifres. Com o rabo, ele leva um terço das estrelas do céu, é uma coisa assustadora! O que essa pobre mulher, nas dores do parto pode fazer contra uma coisa desse tipo? E o dragão se coloca em frente a ela, para devorar o filho. A criança nasce e Deus leva a criança para junto de si. Essa mulher simboliza o povo de Israel, ela simboliza também a comunidade dos cristãos, a Igreja que somos nós, e ela também representa a Virgem Maria que é membro da Igreja, uma de nós. O filho que nasce dela é Jesus que é levado para junto de Deus, essa é a Ressureição e Ascenção de Jesus. E a mulher então foge e vem para a terra, é a Igreja que tem que anunciar para o mundo o Evangelho de Jesus, e ela vai sofrer muita perseguição, do dragão que ficou muito bravo porque não conseguiu destruir o messias de Deus. Então ele se joga contra a mulher e a terra se abre, e o mar que o dragão tinha vomitado para afogar a mulher, a terra engole, isso é para dizer que Deus sempre vai proteger seu povo, o povo de Deus tem uma missão e a missão é anunciar o Evangelho de Jesus. E mesmo sendo perseguido, Deus vai ajudar este povo a cumprir a sua missão. Deus vai ajudar nos ajudar a anunciar o Evangelho com a nossa vida e com nossas palavras.

No Evangelho, nós temos como Deus faz isso, e Maria olha para a história, para a história do povo de Israel, e ela vê como Deus dispersa as pessoas de coração orgulhoso, pessoas que se acham como deuses, que acham que não precisam de Deus. Pessoas que pensam que são donos e donas de Deus. Ninguém comanda Deus. E essas pessoas são dispersas, igual farinha ou palha no meio do vento. Deus derruba poderosos de seus tronos, quantos reis injustos tiveram o povo de Deus, muitos. Se formos lá no Livro dos Reis, vamos ver que a maioria dos reis são condenados pelo autor sagrado. Porque quando o rei governa bem, o autor do Livro dos Reis fala "esse agiu conforme a vontade de Deus", e muitos desses homens pensam que são eternos, que vão viver para sempre, que vão fazer suas corrupções sem nunca morrer. Maria diz: "Deus derruba, acaba. Os grandes impérios do mundo acabaram no nada". Os homens que pensaram que dominariam o mundo, muitos deles hoje são vistos como as desgraças da humanidade – pense em Hitler, em Stalin, pense nas coisas terríveis que fizeram, por exemplo, Napoleão que são mais próximos de nós. “E elevou os humildes”. Deus olha o mundo do avesso, Deus não olha com nossos olhos, se nós vemos a escolha do rei Davi, Deus diz ao profeta Samuel: "Vai lá na casa de Jessé que eu vou te mostrar quem vai ser o rei de Israel". Aí ele vai, encontra esses rapazes, homens grandes, fortes e fala "esse aqui sim vai ser um grande rei", Deus fala: "Tira isso da cabeça, não é ele não". E ele pensa "Deus falou que o próximo rei estaria aqui, mas não está". Então pergunta a Jesse "Mas estão todos os seus filhos aqui?", Jesse responde: "Não, nem todos... o mais novo está lá cuidando das ovelhas". Por quê? Ele só tinha 12 anos. Aí Samuel diz: "Nós não vamos jantar enquanto você não me trouxer esse rapaz". A hora que o menino entra, Deus fala para Samuel: "Este vai ser o rei de Israel". Então Samuel unge, ungir quer dizer passar óleo na cabeça, ele passa na cabeça do menino Davi, e o texto fala que a partir daquele momento o Espírito de Deus se derramou em cima do menino, e ele vai se tornar o Grande Rei Davi, fundador da dinastia "Davídica", da qual Jesus vai receber descendência de São José. Deus não olha a grandeza, Deus olha o que é desprezível aos nossos olhos. Aos olhos de Deus é bem diferente.

E Maria nos ensina outra coisa, nós estamos em um tempo em que tudo tem que ser para ontem, tudo tem que ser imediato, a gente tem que conseguir fazer tudo em pouco tempo. E nós perdemos a visão do tempo, da história. A vida leva muito tempo para mudar, são gerações e gerações, você começa a plantar hoje, para colher daqui a 20, 30, 40, 200 anos... Isso é ter esperança, ter fé. Nós não podemos pensar só no hoje, ou no máximo amanhã, a vida é comprida, nós é que passamos rápido. Mas nós que temos que plantar o amanhã. O que nós fazemos aqui hoje com estas crianças? Estamos ensinando para elas o caminho de Jesus, para que daqui 20, 30, 40 anos, elas estejam aqui no nosso lugar, trazendo os filhos deles para viver o caminho de Jesus. Eu estou pregando hoje para essas crianças para que daqui 40 anos, elas estejam aqui, como vocês estão. Daqui 40 anos eu não estarei mais aqui não, mas estamos plantando para amanhã. É essa a visão que Maria nos ensina a ter: fazer o bem hoje. Vamos pedir a Deus que nos ajude nisso!

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O perdão e a compaixão são essenciais para todo cristão

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha –  19º Domingo do Tempo Comum (Ano B ) – 08/08/2021 (missa às 10h)

O capítulo 6 do Evangelho de São João nos fala sobre a Eucaristia. Mas, no episódio da última ceia, ele não fala da instituição da Eucaristia, mas sim do Lavapés, que mostra a morte de Jesus como serviço. A Eucaristia, como São João apresenta, é serviço de vida. Jesus multiplicou os pães e o povo foi atrás dele porque queria uma vida fácil. Jesus vai então dizer: “vocês não conseguiram ver um sinal de Deus naquele pão que eu dei pra vocês”. Jesus dá um passo a mais e diz: “Eu sou o pão descido do céu”. Diz também: “Este pão é a minha carne dada”. E carne dada, entregue, não significa que cortou um dedo e deu. Significa a vida. Uma vida doada, uma vida entregue.

Deus desce do céu e torna-se um de nós para mostrar a que ponto Ele nos ama. Deus nos ama até entregar a vida. Jesus, o verbo eterno feito homem, entrega o que pode, até o fim. O limite do ser humano é a morte. E Jesus vai até este limite, entregando a vida por nós. E não é fácil entrar neste caminho de Jesus. Claro que doar a vida não significa, necessariamente, todo mundo morrer por causa do Evangelho. Não é a todos que Deus pede isso. Mas a entrega da vida está no viver como discípulo de Jesus. A Segunda Leitura [Ef 4,30-5,2] nos ilustra isto muito bem, na qual São Paulo diz: “vivam como imitadores de Cristo”. Ponham para longe de vocês a amargura, a irritação, a cólera, a gritaria, injúrias. Tudo isto tem que desaparecer. Nós nos percebemos, muitas vezes, com todos estes sentimentos. Mas nós temos que dar lugar, em nosso coração, para Jesus. Amar como Ele amou.

E São Paulo também diz: “Sede bons uns com os outros, sede compassivos”. Ser compassivo é ter compaixão, é se colocar no lugar do outro, sentir a dor do outro e agir como eu gostaria que agissem comigo se eu estivesse na situação do outro. “Perdoai-vos mutuamente”. Não há salvação para o mundo se não existe perdão e reconciliação. Não se pode viver de vinganças eternas. Chega um momento em que você odeia o outro e nem sabe o porquê. Fica aquela situação em que “os meus pais faziam assim, meus avôs faziam assim, eu faço assim e meu filho fará assim”. Ninguém mais sabe por que está odiando o outro. Isto cria as guerras, destruição e inimizades no mundo. E tudo que as pessoas querem é viver em paz.

Deus nos perdoa. Nós temos que pensar sempre nisso. A cruz de Jesus nos perdoa. A cruz de Jesus é um momento que permanece para a eternidade. E a última coisa a dizer antes de entregar o espírito para o Pai foi “perdoai-os”. Ou seja, teve uma palavra de perdão sobre nós que deve gerar dentro de cada um confiança em Deus. Por isso Jesus diz: “Eu sou o Pão da Vida descido do céu”. Moisés e Elias não desceram do céu, mas Jesus sim. Moisés e a lei são uma imagem daquilo que será o anúncio do Evangelho. A profecia de Elias e dos outros profetas também são uma imagem do que será a Palavra profética de Jesus. Jesus viu o Pai, então o que Ele fala revela o coração de Deus. Não é qualquer palavra, é a de Deus. Porque Jesus é Deus. Ele vê o rosto, o coração do Pai. E é possível, já nessa vida, começar a viver a vida eterna. Quem ama, quem perdoa, quem tem compaixão do outro já está vivendo aqui as sementes da vida eterna.

Aqui temos momentos que passam. A eternidade é um momento que dura para sempre. Vamos pedir a Jesus que Ele nos dê a graça de, realmente, acreditar Nele e no Seu Evangelho de vida. Cuidado, pois com as nossas ações e opções nós dizemos se cremos ou não. Quem diz que crê em Jesus e, na hora H, faz opções pela morte ou por pessoas que promovem a morte, na verdade não crê em Jesus. A pessoa que diz que crê em Jesus e passa do lado de sofredores de rua, de prostitutas, de travestis e tem desprezo ou nojo destas pessoas não crê em Jesus. Nós temos que converter o nosso coração. Quando nós rezamos o ato penitencial, nós batemos no peito. Sabem por quê? É como se disséssemos a Deus para amolecer nosso coração de pedra. Vamos pedir a Jesus que Ele nos dê essa graça. Essa é a graça da Salvação: poder seguir Jesus e, com Ele, entrar na vida eterna, que já começa aqui.

Hoje também a Igreja celebra, no mês vocacional, a vocação matrimonial, à família. Temos aqui no presbitério a Sagrada Família, com Jesus, Maria e José. Temos também o símbolo da aliança, como fé em Jesus ressuscitado. Eu gosto de perguntar para as pessoas: “qual é a maior de todas as vocações?”. Geralmente as pessoas demoram para responder porque ficam na dúvida e respondem que a maior é ser padre. Mas não. A maior das vocações é o matrimônio. E ela é tão fundamental que nem o pecado original, nem as águas do dilúvio destruíram esta ordem de Deus: “crescei e multiplicai-vos”. Nem o pecado conseguiu anular esta ordem de Deus pois ela é primordial. E, na Igreja, ela é sacramento, que significa que a vida matrimonial vivida no amor, na entrega, no perdão, na acolhida se torna para o mundo e para a comunidade um sinal da presença de Deus.

Hoje também é Dia dos Pais. E os pais carregam consigo também uma imagem primordial. O pai é aquela força que segura a criança quando ela é posta fora do ventre da mãe. Nós temos que ter esta imagem na cabeça. A mulher que pare a criança e o pai que a segura. Ele aquece, ele prepara para o mundo, que muitas vezes é hostil. A primeira coisa que a criança sente quando sai do ventre da mãe é a mudança de temperatura. E o pai é esta imagem daquele que acolhe esta criança. Ele vai aquecer esta criança e ele vai guiá-la para enfrentar e transformar o mundo hostil. Esta é a figura primordial do pai.

Deus abençoe os nossos pais. Deus os ajude a serem guias para os vossos filhos e filhas nestes tempos difíceis.

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O pão do céu traz vida em abundância

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 18º Domingo do Tempo Comum (Ano B ) – 01/08/2021 (missa às 10h).

É muito interessante se nós começamos a olhar este capítulo 6 do Evangelho de São João – na semana passada eu convidei vocês: “leiam o capítulo 6 do Evangelho de João, o capítulo inteiro” – pois é, o capítulo 6 de São João fala do Pão da Vida, da Eucaristia. São João não narra a instituição da Eucaristia lá na última ceia, ele conta o lava-pés, e o que acontece? Acontece que o povo hebreu vivia da lembrança que os pais contavam aos filhos sobre esse fato lá do passado, essa memória, de quando o povo fugiu do Egito, lá no meio do deserto, e eles começaram a passar fome. Começaram a murmurar contra Deus e contra Moisés, e então Deus lhes mandou o maná, e nós não sabemos exatamente o que fosse, e maná significa “o que é isso” – eles não sabiam o que era. Com aquelas pequenas sementes, eles faziam broinhas, e se alimentavam com aquilo. Se nós continuamos lendo o livro do Êxodo, nós vamos ver que eles vão reclamar mais para frente “mas essa comida é muito leve” – quase como a dizer “isso daqui não tem substância” – o povo no deserto é uma tristeza. Em todo caso, ficou esta memória na cabeça do povo: Deus deu de comer ao povo o pão do céu, Moisés fez isso!

Agora, o que acontece, quase mil e trezentos anos depois, Jesus faz esse sinal, a multiplicação dos pães, para mais de 5 mil pessoas – eram cinco pãezinhos de cevada, aquela coisa pequenininha, e dois peixes – peixe seco, viu, gente? Tem certos filmes por aí que a gente vê com peixe fresco, e não era peixe fresco não, era peixe defumado, peixe seco! Aí esse pessoal, ao invés de perceber o milagre de Deus, a presença de Deus, o que eles pensaram? “Esse sujeito vai resolver todos os nossos problemas, não tem necessidade mais, se esse cara aí for o rei, ele vai resolver nossos problemas todos – basta ele falar, olha pão para todo mundo!”. Eles não foram capazes de ver que aquilo era um sinal de Deus. “Vocês ficam com as lembranças lá do passado... essas lembranças, agora, acabaram. O pão da vida está aqui, no meio de vocês” – Jesus vai insistir com isso – “não foi Moisés, lá no passado, que vocês não viram que deu o pão da vida para vocês. O pão do céu é o que desce do céu, é o que Deus manda”. E aí nós vamos perceber que Jesus não está falando de comida, Jesus está falando dele mesmo: Ele é o pão do céu. O pão do céu é aquele que dá a vida, vida plena para as pessoas, porque Deus quer que todos tenham vida plena. E esses caras ainda estão cabeça fechada: “então qual o sinal que você nos mostra?”. “Gente, o sinal está aí no nariz de vocês, eu dei pão para vocês comerem, não conseguem enxergar? Vocês não têm olhos para ver? Vocês preferem viver de uma memória que vocês não viram de mil e duzentos anos atrás e não são capazes de abrir os olhos e ver que agora Deus está no meio de vocês? Agora Deus deu pão para vocês comerem, não são capazes de ver isso? Estão tão agarrados nessa ideia velha, a essas velhas tradições, que não conseguem ver a presença de Deus agindo na vida de vocês agora?”

Nós vamos ver nas próximas duas semanas, lendo, ainda, o pão da vida, como é difícil jogar fora as nossas velhas seguranças, as nossas velhas ideias. “Mas minha avó falava isso, mas meu avô falava aquilo...” e se a gente for olhar o Evangelho de Jesus, às vezes o Evangelho fala exatamente o contrário, mas nós ficamos com o ensinamento e as palavras da vovó e não somos capazes de jogar isso fora, e pegar o Evangelho de Jesus. Então nós, também, muitas vezes, somos como aquelas pessoas que viram o milagre, comeram o pão lá naquele lugar com Jesus, Jesus multiplicou o pão para eles. Às vezes, não somos capazes de perceber o caminho novo, uma ideia nova, um jeito novo de pensar e de agir, como é difícil! Jesus vai martelar sobre isso durante todo esse capítulo 6 do Evangelho de São João. Nos outros Evangelhos, nós vamos ver essa mesma dificuldade em vários outros momentos.

Então esse Evangelho, hoje, nos chama atenção para isso: será que eu estou realmente ouvindo Jesus, que quer que todos tenham vida? Eu estou ouvindo essa voz de Jesus e jogando fora as minhas várias ideias que no fim das contas pregam a morte, a exclusão do outro? Eu estou aprendendo a ver o outro como meu irmão e irmã? Porque se eu vejo o outro como meu irmão e irmã, vou querer que ele e ela tenham vida, não migalhas, vida, vida plena, já nesse mundo. Comida, casa, educação, saúde, segurança, isso é o pão da vida! E onde eu encontro o pão da vida? Na Eucaristia onde Jesus se entrega para nós sem distinção de pessoa. Quem diz pode ou não pode é o padre, não é Jesus não, Jesus se entrega inteirinho para todo mundo, Ele não faz acepção de pessoas. E está no Seu Evangelho, temos que ouvir o Evangelho de Jesus, as coisas que Jesus fazia e as coisas que Jesus falava, e ouvir essas palavras, não ficar ouvindo a voz da vovozinha, do padre, do não sei quem, que não deixam nem a gente ler o que está escrito no Evangelho.

Precisamos ouvir Jesus, nos alimentar do Seu corpo, na Eucaristia, para ter os mesmos olhos de Deus. É muito interessante, lá no Antigo Testamento, quando Deus fala através do profeta Isaías: “a vossa liturgia, os vossos sacrifícios são bonitos, mas os meus olhos não estão em cima desses sacrifícios que vocês fazem, os meus olhos estão no pobre, na viúva, no órfão, no estrangeiro”. Ou seja, os olhos de Deus olham para aquilo que, para nós, muitas vezes, é horror. Lá estão os olhos de Deus, e não porque as pessoas são melhores, mas porque sofrem, por isso que os olhos de Deus estão lá, porque Deus não quer o sofrimento de ninguém, e tem mais do que o suficiente para que todos possam viver, disso a gente sabe. O mundo hoje produz o dobro de alimento do que seria necessário, para toda a humanidade, então é mentira que a humanidade tem que controlar a natalidade porque não vai ter comida, isso é mentira, uma mentira que inventaram no início dos anos 1900, um sujeito chamado Malthus, Malthusianismo, isso é falso. Nós nunca exploramos todas as possibilidades desse planeta – nós destruímos! Mas não exploramos para que possa realmente produzir vida para o planeta e para nós, então nós não podemos acreditar em mentiras. Deus olha para os que sofrem, e de lá Ele quer que todos tenham vida. Jesus nos diz: para que todos tenham vida, aprenda a ver o outro como irmão e irmã. Eu vejo os pretos como os meus irmãos? Eu vejo os gays como os meus irmãos? Eu vejo os haitianos como os meus irmãos? Eu vejo os venezuelanos, bolivianos, que estão aí cada vez mais nos semáforos, como meus irmãos e irmãs? Eu vejo os sofredores de ruas, que nesses dias aqui estão passando horrores, eu os vejo como meus irmãos e irmãs? Eles estão gritando por vida, e não são melhores que nós, são pecadores como todos nós. Não é porque a pessoa é pobre que é santa, mas são pobres, e Deus quer a vida para eles. E quem tem que dar a vida para eles, Deus? Nós, a sociedade humana é nossa, nós temos que ser vida para eles, porque aprendemos da Eucaristia e da Palavra de Deus, do Evangelho.

Vamos pedir ao Senhor que nos ajude a ouvir Sua Palavra, jogar fora aqueles conceitos falsos que não são do Evangelho, e aprender a seguir os passos de Jesus.

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Jesus é o pão compartilhado entre as gerações

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 17º Domingo do Tempo Comum (Ano B ) – 25/07/2021 (missa às 10h).

Neste ano, nós estamos lendo o Evangelho de São Marcos. Porém, como este Evangelho é bem curtinho, lemos muitas partes do Evangelho de São João. Nas próximas semanas vamos continuar ouvindo trechos do capítulo 6 do Evangelho de São João, ao qual chamamos de “o Evangelho do pão da vida”, que é a narração da multiplicação dos pães. Nesta passagem do Evangelho de São João, Jesus vai com os discípulos para um lugar tranquilo e a multidão o segue. Chegando ali, Ele vê este povo que se aproxima, vê de longe. Nesse povo não estão apenas aquelas pessoas lá daquele momento, mas também estamos todos nós que buscamos Jesus. Uma grande multidão aproxima-se e, vendo aquilo, Jesus provoca os apóstolos: “essa gente tem fome, dê comida para eles”. E os apóstolos respondem com a nossa mentalidade: se você precisa de pão, ou você faz ou você compra. E ali não dava para fazer. E também respondem que duzentas moedas de prata não dariam para comprar pão, mesmo que um pedaço para cada um.

Só que Jesus vai fazer um sinal, abençoando o pão e o Evangelho diz que estava próximo da Páscoa dos judeus. Esta Páscoa celebra o momento em que o povo de Israel sai do Egito com a mão potente de Deus e vai para o deserto. E, no deserto, o povo é alimentado por Deus com o maná, que ninguém sabia o que era, mas foi isso que alimentou o povo por muito tempo. Então o povo sempre falou “Deus nos deu o pão no deserto” e vivia dessa memória há 1200 anos. E todos os anos, na Páscoa, eles celebravam esse fato: a libertação de Deus do Egito e que Deus os alimentou com o pão do céu. Olha as coincidências: perto da Páscoa; uma grande multidão; e pão. O que aconteceu ali, de fato, nós não sabemos. Mas sabe-se que ele conseguiu alimentar até a saciedade cerca de 5000 pessoas e ainda sobrou. Essa sobra, neste Evangelho, também é simbólica: são doze cestas e o número 12 lembra dos doze apóstolos que vão continuar a distribuir o pão da vida para essa grande multidão que vem vindo. Se estamos nesta grande multidão, nós também somos alimentados pelo pão da vida. E qual é o pão da vida? A Eucaristia. Então, de algum modo, na Eucaristia, Jesus se faz presente com toda a realidade dele. E este é o mesmo pão da vida que Ele multiplicou lá no deserto para aquela multidão que também representa todos aqueles que vão se aproximar de Jesus ao longo da história. Pão da vida porque Deus só pode dar a vida. Olha que engraçado: Deus “só pode” dar a vida. Deus não dá a morte, não dá a destruição. Deus não dá o aniquilamento, a pobreza, a miséria. Deus quer que todos tenham vida e por isso Ele dá o pão da vida que é vida plena.

É isso que Jesus nos dá e isso a Eucaristia também nos ensina: que todos devem ter vida. Essa vida que vem de Deus e que, nesse mundo, passa pelo pão de cada dia, pela casa, saúde, emprego, educação, vida digna para todos. Não podemos pensar que Deus é contente com pobres ou que fica realizado que cada dia há mais moradores de rua. Deus quer que todos tenham dignidade e, por isso, Ele dá o Pão da Vida para que nós aprendamos a promover a vida do outro. Isso é o que o pão de Deus nos convida a fazer e que a Eucaristia nos convida a fazer todos os domingos. Ela nos convoca a darmos pão nós mesmos: o pão da vida, o pão do Evangelho, o pão da justiça e o pão da paz.

A Eucaristia não é um pãozinho para a gente ficar bem e tranquilo apenas não. É o pão que nos provoca para que promovamos a vida no outro. Este Evangelho ainda tem outros dois elementos. O Evangelho de João não fala das tentações de Jesus no deserto. Porém, nós vemos aqui duas tentações. Primeira, o povo pode ter pensado: “nossa, esse homem nos deu pão sem que nós trabalhássemos”. Qual foi a tentação que Jesus sofreu no deserto? Transforma essas pedras em pão. Ou seja, não trabalhe para conseguir o pão. Afinal, ele poderia, pois é Deus. E essa é a mesma voz que falou no Eden: “Eva, coma da fruta e vocês serão como deuses”. E nós vamos ver como esse povo vai atrás de Jesus todo o tempo com essa ideia de “ele nos deu pão e não precisamos mais trabalhar, não precisamos mais nos esforçar pois Deus vai dar tudo”. Não é esse o caminho de Deus. Segundo, Jesus se retira porque percebeu também que o povo poderia pensar que ele fosse o seu rei. Naquele tempo, desde os anos 500 antes de Cristo, o povo da palestina começou a esperar o Rei Messias que iria reestruturar o Reino de Israel, mudar o culto do templo, acabar com a injustiça, expulsar as nações estrangeiras e fazer de Israel a maior nação do mundo. E até São Pedro, quando fala que Jesus é o Messias, está com isso na cabeça. O que Jesus faz? Vai embora, sobe em um lugar sozinho, escapa do povo porque essa é outra tentação do maligno: eu te dou todos os reinos da Terra se você me adorar. O maligno ou as ideologias desse mundo significam não seguir a Deus e não querer o trabalho difícil de todo dia construir um mundo mais humano, mais verdadeiro. Nós, muitas vezes, queremos que Deus faça as coisas por nós. Caímos nessa tentação de perguntar por que Deus não faz isso. Nós temos que fazer, nós criamos esse angu de caroço e agora temos que descaroçar. Essa é a história humana, essa é a nossa vida de não querer respostas fáceis e saber ver os sinais de Deus que nos encorajam para que possamos trabalhar ainda mais pela melhoria dos problemas do mundo. Deus deu para nós essa parte na criação e quer que esse lugar em que vivemos seja um mundo de paz, justiça, igualdade e fraternidade. Isso é consequência para aqueles que comem e vivem do Pão da Vida, do Pão da Eucaristia, do Pão da Palavra. Vamos pedir a Jesus que Ele permita que o Pão da Eucaristia crie em nós fome e sede de justiça e paz.

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Cuidar segundo a necessidade de cada um

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 16º Domingo do Tempo Comum (Ano B) – 18/07/2021 (missa às 10h).

A Primeira Leitura, tirada do Livro de Jeremias [Jr 23,1-6], é um puxão de orelha para os pastores do povo que na época eram os sacerdotes e os levitas, mas também os reis, os governadores... Eu toda vez que escuto esse texto eu fico tremendo diante de Deus porque o Senhor puxa a orelha dos seus pastores, daqueles que guiam o povo. Um profeta não é um homem que fica prevendo o futuro, ele não tem a bola de cristal, ele não é um bruxo. Um profeta olha o mundo com os olhos de Deus. E olhando o mundo, olhando as coisas como estão, ele fala e mostra o que é que Deus quer. Os profetas aparecem praticamente no início da monarquia. Antes existia o tempo dos juízes e existia um sistema econômico e político muito igualitário. Depois quiseram um rei, centralizou tudo na pessoa do rei, centralizou a religião toda em volta do tempo de Jerusalém de Betel no Norte e começou uma grande diferença entre as pessoas, começa a ter muita pobreza. Os profetas vão denunciar as injustiças da monarquia. Olhando Deus, olhando a igualdade que nós temos diante dos olhos de Deus, eles vão denunciar todos aqueles que são os mecanismos, as formas de governo, os privilégios. Porém, tinham falsos profetas que falavam só o que os reis queriam ouvir. E tem vários profetas que vão denunciar também os falsos profetas. Uma situação bem difícil naquele tempo! Então, o pastor é aquele que olha com os olhos de Deus. Por isso, nós, padres, bispos, Papa, nós temos que ficar sempre com os olhos no povo, nas situações concretas da vida do povo, olhar os Evangelhos, anunciar e denunciar aquilo que não está de acordo com o Evangelho. Essa é a missão do profeta e do pastor.

Depois nós temos essa imagem muito singela dessa leitura do Evangelho [Mc 6,30-34]... nós vimos, na semana passada, que Jesus mandou os apóstolos para anunciarem a conversão dos pecados e a intenção de Jesus era que os discípulos aprendessem que o povo é bom, que o povo tem sede de Deus, que o povo já está esperando antes que eles cheguem, estão esperando o anúncio e eles vem isso e como o povo acolheu a palavra deles. O povo pediu curas, exorcismos e eles fizeram grandes sinais no meio do povo e voltam contentes contando isso para Jesus. E ainda tem muita gente ali. E Jesus fala: vamos para um lugar deserto, vamos descansar. A gente pode pensar: nossa, mas tem tanta gente, eles não conseguiam nem comer de tanta gente que tinha. E vai largar essa gente para lá? Pois é. Ser pastor não é ser um salvador da pátria, não é ser o salvador do mundo – mas isso serve para nós também, em casa, no trabalho, em tudo quanto é situação – quem salvou o mundo, e já salvou, viu, gente? É Jesus! Nós temos que dar o melhor de nós mesmos, mas lembrar que nós somos humanos. A salvação do mundo não depende da gente. Por isso, Jesus diz: vamos descansar! E Jesus deixa a multidão ali. E nós vemos essa outra imagem, muito bonita, esse povo que vai ao longo da costa do lago de Genesaré e chega no lugar onde eles viram que os barcos estavam dirigidos. Levava horas para atravessar de barco o lago de Genesaré, eles chamam de Mar da Galileia de tão grande que é. Então eles conseguiram chegar lá antes dos barcos e Jesus tem essa surpresa. Esse povão ali. Olha que interessante! Não fala dos discípulos. Jesus levou os discípulos para descansar, vão lá, repousem, vocês estão cansados. Mas Jesus acolhe essas pessoas que estão a sua volta. Parecem ovelhas sem pastor. A ovelha, na visão do evangelista, precisa dos cuidados de Deus. O bom pastor é aquele que cuida, cuida das ovelhinhas, vai empurrando com mais cuidado aquela que está gorda, cuida daquelas que estão amamentando ainda os carneirinhos... É aquele que olha a necessidade de cada um e quer sobretudo que o rebanho esteja unido, porque se o rebanho se dispersa é mais fácil para os lobos atacarem. O que os lobos fazem? Eles atacam, as ovelhas se dispersam e eles pegam aquelas que ficam sozinhas. Então quando elas estão unidas é mais difícil para o lobo atacar. Essa é a imagem de Jesus que cuida das suas ovelhas, é a imagem do Bom Pastor, mas é também a imagem muito delicada do Evangelho de São Marcos: Jesus que se senta ali com esse pessoal e fala de Deus, fala das coisas do Reino, ajuda essas pessoas a levar com mais coragem os pesos de todo dia. O pastor também denuncia os lobos, cuida para que no meio das ovelhas não existam brigas.

Nesses dias aqui, o Papa Francisco escreveu um documento chamado Motu Proprio, que significa de própria iniciativa. Ele escreveu um Motu Proprio [“Traditionis custodes”] que fala sobre estes padres e leigos que estão celebrando a missa velha, a missa de antes do Concílio, quando o padre ficava de costas, o altar ficava lá encostado, se rezava em latim e ninguém entendia uma palavra. Nós temos que aprender uma coisa: não existe língua sagrada. Todas as línguas são sagradas, porque todas as línguas nos permitem falar com Deus. Não existe uma língua privilegiada e nós temos que descobrir e aprender que até o ano 800 a liturgia romana era feita em grego, porque o grego era a língua mais conhecida naquele tempo. Só que com o passar dos séculos, o povo não sabia mais grego, só se usava grego nas missas. Aí nós tivemos uma grande crise na Europa, a invasão dos bárbaros, foi uma coisa tremenda, e aí aos poucos se consegue reestruturar um pouco a Europa. E o Papa Leão III coroou imperador do chamado sacro-império Carlos Magno, estamos na noite de Natal do ano 800, e o que o Carlos Magno fez? Ele era um homem muito prático, então ele falou: mas escuta o povo não fala grego, o povo fala latim. Então ele falou para traduzir a missa do grego para o latim – o imperador fez isso, para que povo pudesse entender a missa. Passaram-se quase 1200 anos e o povo não falava mais latim. Aí o Concílio Vaticano II decidiu, vendo também experiência dos irmãos protestantes que já tinham traduzido a Bíblia e já usavam a Bíblia na língua local, que a missa fosse traduzida para as línguas locais e que a missa fosse “limpa”. Ao longo dos séculos, nós fomos colocando tanta coisa na missa e na liturgia que o mistério de Cristo foi ficando apagado. A gente celebrava santo demais, fazíamos muitas exceções na liturgia e o mistério de Jesus ficava apagado. A grande ênfase que se dava na missa era no sacrifício de Jesus e pouco a comunidade então o Vaticano II tenta reequilibrar isso. E manda traduzir a liturgia mais limpa para as línguas locais. Depois do Concílio, veio um grupo de bispos que não quer, não aceita. Papa Paulo VI, São Paulo VI tentou remediar um pouco, aí sobrou para Papa João Paulo II que colocou algumas normas para tentar remediar vê se esse pessoal ficava tranquilo. Bento XVI tentou mais ainda, mas abriu demais aí começou a dar problema. O Papa Francisco, depois de ter ouvido os bispos do mundo inteiro, junto com os bispos, falou: não, o bispo do lugar vai decidir onde, como e quem vai poder celebrar a missa antiga, se for necessário, se for para o bem espiritual de alguém. O padre tem que conhecer muito bem o latim e não basta simplesmente rezar a missa, é necessário o cuidado pastoral dessas pessoas e cuidar para que eles estejam unidos com toda a Igreja para que não aconteçam grupinhos separados que no fim começam a ter cara de uma outra igreja. Esse é o trabalho dos pastores: cuidar para que o rebanho esteja unido para que lobos não venham separar, dividir, devorar o povo de Deus. Este documento era esperado já há anos – ao menos eu esperava já há anos e graças a Deus Papa Francisco emanou este documento.

Vamos então rezar pelos nossos pastores, pelos padres, bispos, diáconos e pelo Papa para que nós possamos sempre, sempre, sempre, apesar dos nossos defeitos, dos nossos pecados, das nossas incoerências, sempre cuidar da unidade do nosso povo, curar as feridas da alma e do corpo do nosso povo, para que nós possamos ser uma luz para o mundo que já é cheio de divisões.

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O povo de Deus é bom

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 15º Domingo do Tempo Comum (Ano B) – 11/07/2021 (missa às 10h).

Na primeira leitura [Am 7, 12-15], nós vemos um bate-boca entre o profeta Amós e um sacerdote da corte do rei. Naquele tempo, a Palestina tinha que ser dividida em dois reinos, o reino do Sul, com Jerusalém como capital, e o reino do Norte, com Betel como capital. Amós foi chamado a profetizar em Betel, no Norte. E qual era o problema? Ser profeta é uma vocação de Deus, e o profeta fala o que Deus quer, não o que o rei quer ouvir. Mas, em torno do rei, sempre se juntam aqueles que se dizem profetas e falam só o que o rei quer ouvir – "Nossa, o seu governo é uma maravilha!", "O senhor é abençoado por Deus, as pessoas é que não compreendem o senhor".

 

Mas Deus suscitava os profetas, que enfiavam o dedo nas feridas e, por isso, ninguém queria ouvi-los. E os profetas, nesse tempo, estavam anunciando o fim do reino do Norte, porque estavam deixando a idolatria andar no meio do povo – e, por trás da adoração a outros deuses, estavam sistemas de economia que exploravam o povo. Então Deus chama Amós. E quem era ele? Amós era um cuidador de vacas e de sicômoros (tipo uma melancia), ou seja, era um agricultor. E Deus o chamou: "Vá lá e diga para o rei o que Eu vou te dizer". Ele foi e anunciou, e o negócio era bravo. E o que aconteceu? Esse sacerdote, que era um daqueles que viviam bajulando o rei, chegou para Amós e falou: "Escute aqui, meu amigo, você não é bem-vindo aqui, não. Pegue suas coisas e vá lá para Jerusalém, vá lá para o outro reino. Vá anunciar o que o rei de lá precisa ouvir".

 

A leitura de hoje não continua, mas o que o profeta vai fazer? Ele vai dizer: "Olha, eu não sou filho de profeta nem neto de profeta" – para dizer "Eu não sou profeta por profissão, como você" – "Eu estava bem tranquilo lá com as minhas vacas e meus sicômoros, minhas melancias. Estava tudo muito bem na minha vida. Foi Deus que me chamou. Agora, escute bem o que vai acontecer com você" – e, olha, foi terrível – "Você vai morrer fora desta terra; teus filhos vão morrer a fio de espada; e a tua mulher vai se prostituir". Dito e feito! Poucos dias depois, o reino do Norte foi invadido e aconteceu exatamente o que o profeta Amós tinha dito sobre esse falso profeta.

 

Quando nós não queremos ouvir a verdade da Palavra de Deus, nós caímos na desgraça. E o povo de Israel foi alertado muitas vezes. O reino do Norte e, 200 anos depois, o reino do Sul: os dois reinos caíram nas mãos de outros impérios e nunca mais se livraram. O Norte, desde o ano 730 a.C.; o Sul, desde o ano 530 a.C. Caíram nas mãos da Babilônia, da Pérsia, dos gregos e, depois, dos romanos, e estes destruíram o templo e dispersaram os hebreus.

 

No Evangelho [Mc 6, 7-13], Jesus manda Seus discípulos anunciarem a conversão. Chamar o povo à conversão – João Batista fazia isso, só que ele ficava esperando na margem do rio; Jesus foi até o povo, e Ele manda missionários para o povo. Mas, aqui, Jesus sabe que seus discípulos ainda não têm fé o bastante, e os manda anunciar a conversão com instruções bem precisas, para que eles aprendessem uma coisa: que o povo de Deus é bom! O povo de Deus tem sede de ouvir a Palavra. O povo de Deus responde com generosidade a esta Palavra. Esta era a intenção de Jesus quando envia esses primeiros apóstolos: "Aprendam. Aprendam que o povo é bom".

 

Nós temos que aprender a ver as pessoas como boas. Vai ter gente torta, pecadora, criminosa? Vai. Mas não são a maioria. A maioria é boa! A maioria das pessoas quer caminhar à luz de Deus. Aos outros, também é anunciada a Palavra de Deus, porque muitos se convertem. Mas o povo é bom, e a prova disso é que, quando os discípulos voltam, eles vão contar para Jesus: "Olha, o Senhor mandou a gente anunciar a conversão, mas traziam os doentes e nós os curávamos pelo Teu nome; nós expulsamos os demônios, nós fizemos, no fim das contas, muito mais do que o Senhor pediu. Porque aquele povo tinha fé". Então eles aprenderam a lição que Jesus tinha mandado: "Vão e vejam. Experimentem. O povo de Deus é bom".

 

Vamos pedir ao Senhor que Ele nos ajude a ter esse olhar positivo sobre as pessoas. Até a lei tem esse olhar positivo quando, diante de uma pessoa acusada, diz: "Ela é inocente até que se prove o contrário". Isso é acreditar na pessoa, isso é acreditar no cidadão. Até a lei faz isso. Aprendamos, nós também, a dar um voto de confiança às pessoas. Desse jeito, nós construímos um mundo melhor, nós não nos armamos contra as pessoas, nós aprendemos a dialogar, nós aprendemos a respeitar, nós aprendemos a procurar o que há de bom em cada pessoa. Jesus fez isso. E é como Ele que nós temos que agir.

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O Papa confirma a nossa fé em Jesus

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – Solenidade de São Pedro e São Paulo Apóstolos, “Dia do Papa” (Ano B) – 04/07/2021 (missa às 10h).

Iniciamos este mês de julho com a Solenidade de São Pedro e São Paulo. Nós sempre falamos abreviadamente como “São Pedro”, mas a solenidade é dos dois. Nós celebramos em 29 de junho o martírio de Pedro e Paulo. São Pedro foi o primeiro chefe da comunidade de Jerusalém. Jesus, ao longo dos 3 anos do seu ministério, ele juntou em torno de si muitos discípulos e discípulas. Doze destes, ele escolheu para que estivessem mais próximos dele. A estes, Jesus comunicou a sua própria autoridade.

No dia de Pentecostes, nós tínhamos umas 120 pessoas ali reunidas naquela sala, todos temerosos porque Jesus tinha morrido, ressuscitado e subido aos céus. E eles se sentiam sozinhos. Mas Jesus disse: “esperem que eu vos mandarei o consolador, o advogado, aquele que está junto do Pai”. E o Espírito Santo desce sobre estas 120 pessoas e, entre elas, está Maria, que já tinha recebido o Espírito Santo no momento da Anunciação. Ela recebe, agora, como membro da comunidade nascente, membro da Igreja. São Pedro logo vai tendo esse pessoal todo em volta dele e vai, com os apóstolos, organizar esta comunidade. Ele vai ser preso várias vezes, ele vai ser confrontado várias vezes, fez vários milagres e, aos poucos, São Pedro também foi percebendo que o anúncio do Evangelho não era só para os judeus, mas para todos os povos.

Quando houve a diáspora, com a perseguição dos cristãos em Jerusalém, poucos ficaram ali. E Pedro ficou sete anos na cidade de Antioquia, na atual Turquia. E de lá, depois, para Roma, onde ficou ainda 25 anos. Sob o império de Nero, foi feita uma grande perseguição aos cristãos, inclusive a Pedro e Paulo. Pedro foi crucificado porque era hebreu, ou seja, não era romano. E Paulo era cidadão romano. Então Paulo foi decapitado, o que era um “privilégio” dos cidadãos romanos. São Paulo, por sua vez, era um fariseu. Os fariseus eram religiosos muito corretos e que, por causa de suas leis, eram capazes de matar as pessoas. E Paulo era deste jeito. Paulo era muito observante – podemos dizer até fanático – e pedia cartas para perseguir cristãos e colocá-los na cadeia. Mas a gente nunca sabe os caminhos de Deus. No meio do caminho, Aquele que escreve a história diz: “é aqui o nosso encontro”. E Jesus aparece para Paulo e a vida deste homem muda completamente. De um pregador rígido da Lei Mosaica, Paulo se torna o anunciador de Jesus, o anunciador do Evangelho da liberdade.

São Paulo foi perseguido nas suas missões. Paulo viveu andando e nós vemos isso nas cartas aos Gálatas. Inclusive nós vamos ler a carta aos Gálatas no mês da bíblia deste ano. Ele naufragou muitas vezes, apanhou muitas outras, passou frio, passou fome. Foi um desespero a vida deste homem, tudo por causa do Evangelho. E ele fundou muitas comunidades no meio dos pagãos. E qual era o grande problema? São Paulo rezou muitas vezes a Deus que o livrasse desta desgraça. Eram os cristãos que vinham do judaísmo. Paulo pregava o Evangelho da liberdade. Estes cristãos, que antes eram judeus, chegavam e bagunçavam o negócio todo dizendo que todo mundo tinha que seguir as leis hebraicas. E, na carta aos Gálatas, São Paulo expressa sua discordância, ficando muito bravo com a ação que esse pessoal fazia nas comunidades. Mas fato é que ele também foi preso e morreu decapitado. Fora dos muros de Roma existe até hoje o lugar onde São Paulo foi decapitado, no Mosteiro de Três Fontes. E existe também o lugar onde São Pedro foi crucificado de cabeça para baixo. E foi enterrado em uma colina que ficava perco do circo de Nero e Calígula. Em volta deste túmulo, logo iniciaram-se peregrinações. Os cristãos iam visitar o túmulo de Pedro. E outros chefes da Igreja de Roma, como nós chamamos os primeiros papas, quiseram ser enterrados perto do túmulo de Pedro. Algum tempo depois construíram lá um altarzinho. A seguir, um muro por trás para as enxurradas não levarem tudo. Depois, o imperador Constantino mandou construir uma basílica em cima do túmulo de Pedro e uma basílica fora dos muros de Roma, onde se acreditava que estava enterrado Paulo, às margens do Rio Tevere. Estas duas basílicas existem até hoje. Ao menos o lugar delas pois a Basílica de São Pedro, em 1500, foi praticamente derrubada e construída a atual basílica que nos conhecemos, que é indescritível, enorme. Mas tudo aquilo para guardar os poucos ossos que sobraram de São Pedro.

Por que nós celebramos São Pedro? Porque Jesus prometeu para ele que sobre essa rocha – uma rocha que talvez não seja uma pedra preciosa, mas talvez seja como as pedras do lago de Cafarnaum, que mostra a situação humana, a fraqueza humana e a força de Deus. São Pedro era um homem orgulhoso e muito cabeça dura, mas extremamente espontâneo e generoso. Tinha uma grande liderança e Jesus confiou a ele a Sua comunidade nascente. Depois de Pedro, na cidade de Roma, nós tivemos 265 sucessores. Contando com Pedro, o Papa Francisco é o número 266. Mais de 80 destes homens são santos. Um outro grande número é de beatos. Nós tivemos também grandes papas

que não chegaram a serem santos. Talvez o maior papa da história tenha sido Inocêncio III, que é o papa do tempo de São Francisco. Ele não é santo, mas foi um grandíssimo papa. E nós temos um outro grande papa, que foi Bonifácio VIII, que foi o papa que convocou o primeiro ano santo, em 1300. Tivemos muitos outros, tivemos homens pecadores que, apesar de toda a sua incoerência e pecados, não causaram dano à Igreja e nem a sua doutrina. Nós tivemos até papas que eram homens bem mundanos e que, quando foram eleitos, mudaram completamente de vida, deixando para trás toda esta vida antiga, tornando-se homens realmente exemplares e que não causaram dano à Igreja.

Porque quem guia a Igreja é o Espírito Santo e Ele garante que a sua Igreja chegue aonde ele quer que ela chegue. Nós temos que imaginar a Igreja com uma enfermeira agonizante, morrendo. Que tem a missão de, em um campo de guerra, curar as doenças do mundo. Agonizante por causa das nossas fraquezas, pecados e incoerências. Mas nunca morta porque ela tem que cumprir a missão que Deus lhe dê. E Deus lhe dá as forças suficientes para cumprir essa missão de curar as feridas do mundo. E quem confirma constantemente a nossa fé nisso é o sucessor de Pedro. Jesus disse a São Pedro uma vez: “Pedro, Satanás pediu para te joeirar igual o trigo, mas eu rezei por você e você, uma vez convertido, confirma os teus irmãos na fé.”

Esta é a grande missão do papa: confirmar a nossa fé em Jesus para que nós possamos vivenciar, em nosso dia a dia, o Evangelho da vida. No dia em que o Papa Francisco foi eleito, eu estava lá na praça – naquele momento, eu não queria ir porque estava chovendo, mas pensei “vai que o Papa é eleito agora” e fui – aí ficamos lá esperando e ele fez uma coisa que nenhum Papa fez antes: ele pediu para o povo rezar por ele em um instante de silêncio. Aquela praça devia ter, no mínimo, umas 120 mil pessoas. Estava entupida de gente. Porque, entre a saída da fumaça e quando o Papa aparece no balcão, passam ao menos uns 40 minutos. E o povo de Roma fica todo atento para que, quando ocorra a fumaça branca, dê para chegar rápido na praça São Pedro. Então a praça com 120 mil pessoas ou mais e o Papa pediu um instante de oração por ele. Aquela praça se tornou como um túmulo. Silêncio total das pessoas rezando pelo Papa. E ele sempre pede. E pede não porque é uma marca registrada, porque ele não tem estes negócios. Ele pede que rezem para ele todas as vezes porque ele realmente sente o peso deste ministério. Ele é um papa muito combatido e não só por forças externas, mas por grupos internos da Igreja. Isso é um dano de hoje da Igreja. Quem está na Igreja, está com o Papa. Muitas vezes nós podemos até discordar de certas coisas. São Paulo uma vez disse que São Pedro era hipócrita, mas ele nunca combateu São Pedro. Não se combate o papa. Um católico não critica o papa porque ele confirma a nossa fé em Jesus.

Vamos pedir a Deus que Ele nos ajude a buscar sempre os passos de Jesus dentro da comunidade que é a Igreja, e nunca sem a comunhão com o Papa.

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Que Deus nos liberte de todo preconceito

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 13º Domingo do Tempo Comum (Ano B) – 27/06/2021 (missa às 10h).

Este Evangelho [Mc 5, 21-24. 35b-43] não é um tratado de medicina. Como eu disse no início, este texto pode ser chamado "O Evangelho da Libertação da Mulher". Nele, nós temos duas situações ligadas à menstruação feminina. A mulher, uma vez por mês, sangra, a partir, mais ou menos, dos 12 anos. E é interessante que a menina tinha 12 anos. Usa-se esse número duas vezes: a mulher estava há 12 anos com uma hemorragia constante, e a menina tinha 12 anos.

 

No mundo hebraico (e em todo o mundo antigo), a mulher era sempre um ser inferior. Ela não tinha direito de testemunhar em juízo, era considerada incapaz, equiparada às crianças e aos escravos. A mulher era sempre propriedade de alguém – primeiro, do pai; depois, do marido; se ficasse viúva, do filho mais velho. Ela era sempre um ser inferior que tinha que ser protegido. As mulheres viriam a ter uma situação muito diferente em Roma, mas Roma já é outro mundo.

 

E, além dessa situação, existia o problema da menstruação. A mulher menstruada era impura; ela só podia sentar em uma única cadeira, não podia sentar em outra; tudo o que ela tocasse se tornava impuro; nenhum homem podia se aproximar dela e nem ela podia tocar em homem nenhum ou pessoa nenhuma, porque a pessoa se tornava impura. Era um peso absurdo! Quando a mulher tinha um parto, se era um menino, ela ficava 40 dias impura – além da dor do parto, além de ter de carregar por 9 meses um neném na barriga, ainda ficava impura por 40 dias. Porém, se ela tivesse uma menina: 90 dias impura.

 

Então nós podemos dizer que, desde o nascimento, a mulher era marcada pela impureza. A mulher era quem cuidava dos cadáveres. Morreu o pai, a mãe, o tio, o sobrinho, amigo, amiga...? Eram mulheres que cuidavam do cadáver. Por quê? Os homens não podiam tocar em cadáveres, pois ficavam impuros. O impuro, aqui, é impuro para ir à sinagoga, não podia ir. Tinham algumas questões, com homens, ligadas também a sexo, mas eram algo muito menor, uma coisa que chega a ser ridícula comparada à situação da mulher.

 

Então nós temos que ver, neste Evangelho, essa situação. Jairo vem procurar Jesus: "Minha filha está morrendo. Vem [nós diríamos hoje] dar uma bênção". E Ele vai. No caminho, encontra essa multidão. Olha que coisa engraçada, porque os discípulos, quando reclamam, eles entendem as coisas atravessadas, mas é verdadeira também a interpretação deles. Essa mulher perdeu tudo – provavelmente, era uma mulher muito rica – e, durante 12 anos, ela tentava, de todo jeito, curar essa hemorragia. Porque ela não era impura uma vez por mês, ela era impura durante 12 anos! Que inferno era, na vida daquela mulher, essa situação! E os médicos acabaram com o que ela tinha; a única esperança dessa mulher, agora, era esse "profeta", Ele curava as pessoas. Ela não tinha mais nada a perder, mas não perdia a esperança. E ela tentou, sabendo que aquele gesto tornaria Jesus impuro... Uma mulher não podia tocar em um homem durante o período menstrual, e essa mulher tinha hemorragia.

 

A multidão em volta de Jesus era, nós podemos dizer, os "fãs". Mas Ele percebeu um toque diferente, alguma coisa diferente ali, e foi isso o que Ele buscou. Jesus não estava preocupado com fã – que bobagem, fã te abandona. Mas têm as pessoas que acreditam em Jesus, e essa mulher acreditou! Ela não teve medo de arriscar. E Jesus procurou por esse gesto – "Quem me tocou?" –, porque foi diferente: era uma mulher que tinha fé. E ela percebeu, "alguma coisa diferente aconteceu em mim". Ela então se colocou diante de Jesus, tremendo – o que mostra o medo de Deus. Atentos: o medo de Deus. Ela ousou o que Deus tinha proibido; estando impura, tocou em um homem. Por isso ela teve medo quando se colocou diante de Jesus. E contou tudo a Ele. E Jesus disse: "Vai em paz, a tua fé te salvou".

 

Nós, muitas vezes, nos colocamos também em uma situação de medo diante de Deus: o Deus terrível, o Deus que pune, o Deus que está pronto para nos mandar para o quinto dos infernos. Esse não é o Pai de Jesus! Jesus nos revela o Pai. E olhem bem como Jesus tratou essa mulher que ousou ir contra uma lei religiosa: "Vai em paz, a tua fé te salvou. A tua ousadia te abriu a salvação!”. Quanto nós ousamos, diante de Deus, para buscar o bem dos outros? Quanto? Essa fala de Jesus nos manda, necessariamente, para a parábola do bom samaritano. O sacerdote olha lá, pensa que é um defunto e nem chega perto. "Opa! Não posso tocar em defunto, Deus mandou não tocar em defunto". O levita, que era o sacristão: "Opa! Um cadáver? Nem sei se está morto, mas nem vou arriscar". Mas o, vamos chamar assim, meio pagão – porque os samaritanos eram assim, meio pagãos, adoravam o Deus de Israel mas outros deuses também –, aquele lá, foi; aquele lá, ajudou o homem; e aquele lá foi elogiado por Deus.

 

Depois, no Evangelho, chega-se à casa dessa família. O que será que aconteceu? Nós não sabemos. Naquele tempo, não tínhamos tantos meios como temos hoje. Não tínhamos desfibrilador, às vezes a pessoa entrava em estado de coma e achavam que tinha morrido... Era uma situação muito complicada. E deram a menina por morta. "Ah, morreu, pronto, vamos fazer festa" – e esse pessoal da festa, que estava fazendo barulho, choradeira etc. ganhava dinheiro para isso. Quem já ouviu falar das "carpideiras"? Eram mulheres pagas para chorar em enterros. E esse pessoal que estava tocando lá no enterro era essa gente: "Opa! Morreu, vamos lá ganhar um dinheirinho". Jesus colocou esse povo todo para fora e entrou no quarto dessa menina de 12 anos. Ela iria entrar, ou já tinha entrado, nesse calvário das mulheres hebreias, e isso, para aquela menina, seria uma morte. E Jesus, mais uma vez – primeiro foi a mulher que tocou Nele que O tornou impuro para o culto; agora era Jesus que fazia o absurdo: pegar na mão de uma menina que achavam que estava morta, um defunto. E uma menina que, provavelmente, estava tendo a sua primeira menstruação, portanto, impura. Jesus pega na mão dessa menina, ou seja, Ele mesmo se torna impuro.

 

Deus entra na nossa situação de dor. Ele conhece a nossa dor por dentro. Ele não tem medo de se sujar conosco. E, de lá de dentro, Ele nos chama para a vida. Jesus morreu, entrou na morte, foi além dela e, de lá de dentro, nos tirou para a vida eterna! Jesus tira essa menina dessa morte que é a lei da pureza e impureza sobre as mulheres hebreias. E não pense que isso não existe mais, viu? Existe até hoje entre eles. O pessoal que foi à Terra Santa sabe disso. Lá, a mulher não pode pôr a mão em homem nenhum, nem encostar para pedir uma informação, dá rolo, dá briga, porque ele não sabe se aquela mulher está menstruada ou não. Isso nos dias de hoje! É um inferno essa lei que paira sobre as mulheres – não só hebreias, mas também de outras religiões.

 

Vamos aprender isto: Deus nos criou, homem e mulher, com a mesma dignidade. Deus não fez a mulher de um outro punhado de barro; Deus tirou a mulher do costado do homem para mostrar que são iguais em dignidade, um diante do outro, para dialogar. Dois pontos de vista diferentes para, juntos, construírem um mundo novo. Não tem concorrência, tem igualdade na diferença – a mulher fica grávida, o homem não fica; são situações diferentes, mas a dignidade é igual.

 

Vamos pedir ao Senhor que limpe do nosso coração todas as ideias e atitudes que temos de discriminação contra as mulheres. "Nossa, padre, mas eu não faço distinção com as mulheres". Não? Quer ver uma, fácil, que as próprias mulheres fazem? Você vê uma barbeiragem no trânsito e olha logo para ver se é uma mulher. Isso se chama preconceito, aprendam isto! Porque homem também faz barbeiragem, e a gente perdoa. Olha que absurdo! Isso se chama preconceito. Nós estamos atolados nisso.

 

Vamos pedir ao Senhor que Ele vá limpando isso do nosso coração, que mande o Espírito Santo. Às vezes a gente pede a Deus que mande Seu Espírito Santo para cada bobagem... Nós temos que pedir para Deus mandar o Espírito para limpar o nosso coração dessas coisas.

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Jesus está conosco, Ele é a esperança!

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 12° Domingo do Tempo Comum (Ano B) – 20/06/2021 (domingo, missa às 10h)

Jesus fez um milagre no lago de Genesaré, que é tão grande que chamam de Mar da Galileia. Ele produz muito peixe e parece uma bacia porque em volta estão as montanhas. E tem um fenômeno que é muito perigoso, quando o vento, de repente, fica terrível e desce a 90 graus, criando ondas enormes nesse lago a ponto de afundar até barco também... Jesus em uma ocasião dessas ordenou que o mar se calasse e que o vento cessasse. Isso aconteceu e os discípulos ficaram maravilhados. São Marcos, quando escreveu esse milagre, queria também dar uma outra mensagem para os seus ouvintes – e aqui temos que pensar nos símbolos, o mar simboliza tudo que de mal possa existir... Muitas vezes, na Bíblia, o mar é o mar; outras vezes ele simboliza o mal. Nós temos esse outro fato de que a barca dos apóstolos está ali, mas não era só a barca dos apóstolos tinham outras barcas também. E, depois, Jesus que dorme em um travesseio no fundo de um barco que não era um iate, era um barquinho de pescador e o negócio está afundando, enchendo de água, e como que ele está dormindo lá no fundo? É esquisito isso!

 

São Marcos usa aquele fato do milagre para dizer também uma outra mensagem. Jesus morreu e ressuscitou há cerca de 40 anos. São Marcos vai e