Homilia  

O Espírito do Senhor está sobre nós

Homilia: diácono Renan Silva – Batismo do Senhor (Ano B) – 10/01/2021 (domingo, missa

às 10h).

Estar aqui, celebrando esta Solenidade do Batismo do Senhor, é um momento propício para renovarmos nossa graça batismal. Infelizmente, hoje, na cultura em que vivemos, o batismo vai perdendo a sua característica, a sua finalidade como sacramento de Deus. Às vezes, no curso de batismo, eu pergunto para os pais e padrinhos: "Por que você quer batizar o seu filho, o seu afilhado?". As respostas são as mais diversas: "Para espantar mau-olhado"; outro diz: "O menino está muito danado, vamos ver se, com a água, ele para de bagunçar" – isso quando já é maiorzinho; outros dizem: "É porque é um ritual da família, minha bisavó fazia isso". "Mas quem é Jesus? Vocês acreditam?". "Ah, não sei. Mas é importante batizar".

 

Hoje nós encerramos o ciclo do Natal, que começou lá na celebração do Natal do Senhor, Festa da Sagrada Família, Epifania e, hoje, Batismo do Senhor. Celebrar esta data é renovar as nossas promessas batismais. O batismo, sim, serve para tudo isso que eu falei, mas o batismo é a graça maior de sermos cristãos. Hoje, o nosso curso de batismo dura 1h30, 2h... Mas, no início da Igreja, eram anos de formação para uma pessoa ser batizada. Tinha que saber rezar o Pai Nosso, tinha que ter maturidade na fé. Era uma decisão se tornar um cristão e ser batizado. Nós precisamos renovar isso.

 

O Papa Francisco tem dito para celebrarmos a nossa data de batismo. Eu convido você, depois, a procurar no seu batistério (se é que você vai encontrar), ou com alguém da família, o dia em que você foi batizado, e celebrar esse dia como um aniversário. É o dia em que nós nos tornamos filhos e filhas de Deus! E, na primeira leitura [Is 42, 1-4. 6-7], mesmo no antigo testamento, em que existiam vários ritos de purificação, a gente já vê ali a missão de um batizado, que é exatamente saber que o Espírito do Senhor está sobre nós. E todo batizado tem uma missão. Às vezes, nós achamos que a figura mais importante na Igreja é um padre, um diácono, um bispo... São os batizados, que professam a fé em Jesus – homens e mulheres, crianças, jovens, idosos. Esses dias, eu acompanhei um batismo de uma senhora de 75 anos de idade, que nunca pediu o batismo. Ela veio da roça e tinha vergonha, era analfabeta; até que, um dia, alguém da comunidade chegou e disse: "A senhora é batizada?". "Nunca tive a oportunidade" – olha o que ela disse! E ela foi batizada, recebeu a primeira comunhão e foi crismada. Ela chorava de alegria! É a graça de ser batizado. O Espírito do Senhor está sobre nós!

 

Todo batizado tem um pacto com a verdade, anunciar a verdade. 80% dos nossos parlamentares, sem citar nomes, são pessoas batizadas – a maioria na Igreja Católica e, alguns, nas igrejas evangélicas. E eu pergunto: por que, se mais de 80% dos nossos representantes são batizados e professam a fé em Jesus, nós estamos vivendo deste jeito no meio desta pandemia, no meio do nosso país? É algo para a gente pensar. E não só apontar para eles, mas para nós: quantas pessoas nos nossos bairros são batizadas? A Igreja criou um termo: "batizados, mas não evangelizados", e é verdade. Aí a nossa missão de levar esse amor de Deus a essas pessoas, ser luz para as nações, abrir os olhos das pessoas que estão cegas.

 

A CNBB lançou uma nota essa semana, muito importante, que valeria a pena todos nós lermos. Nós, batizados, devemos ser contra este negacionismo que estamos vivendo nos nossos tempos, de que tudo o que está acontecendo é normal, que é vontade de Deus... Não! Isso tem uma finalidade. Nós lutamos e, juntos, vamos sair, se Deus quiser, chegando essa vacina. A glória de Deus é ver o ser humano vivo, não é ver o ser humano sofrendo. Não é um Deus que gosta do masoquismo, de ver os seus filhos sofrerem. Não!

 

Por isso que, na segunda leitura [At 10, 34-38], o Ato dos Apóstolos dá uma característica da Igreja primitiva aos batizados: todo batizado não deve excluir as pessoas. Nós não podemos fazer distinção de pessoas. Fazer distinção, excluir, é pecado! Deus acolhe a todos, e nós, como Seus filhos – graça batismal – devemos acolher. Não significa também passar a mão na cabeça, mas acolher, incluí-los, integrá-los na comunidade. Essa é a nossa missão. Eu vejo o trabalho, acompanho de perto, do monsenhor Júlio Lancelotti, um padre fantástico que faz um trabalho na Arquidiocese. As pessoas dizem: "Mas, padre, você acolhe pessoas que são pecadoras", e ele diz: "Aqui nós não julgamos, nós acolhemos, porque Deus acolhe, e essas pessoas são filhas e filhos de Deus". Essa é a nossa missão, quebrar um pouco o nosso preconceito. Não é fácil! Por isso que uma das graças do batismo é a conversão, metanoia, mudança de vida constantemente.

 

O Ato dos Apóstolos diz, ainda, que Jesus passava pelo mundo fazendo o bem. Essa é a nossa missão de batizados. Se fizeram o mal com a gente, vamos pagar o mal com o bem, não com vingança, com maledicência, mas com o bem. Nós desarmamos uma pessoa quando ela quer brigar com você e você diz: "Irmão, não, pare com isso, somos irmãos". A pessoa fica até sem saber o que fazer – às vezes, fica até com mais raiva ainda por você ser pacífico, pacífica. Essa é a nossa missão.

 

E entramos no Evangelho [Mc 1, 7-11], Evangelho de São Marcos, que é o resumo do Batismo do Senhor. A nossa vocação é sermos como João Batista: prepararmos o caminho do Senhor. Catequistas não são só os da comunidade; você que é pai, mãe, você que tem afilhado, afilhada: essa é a nossa missão, dar testemunho para essas pessoas. Eu sou professor, dou aula em um colégio católico e, às vezes, a gente tem o hábito de fazer a oração no início da aula, rezar a Ave Maria. 83% dos meus alunos são católicos. Quando eu peço: "Vamos rezar a Ave Maria?", "Não sei, professor". Como não sabe a Ave Maria? 10, 12, 13, 15 anos. "Meu pai e minha mãe não rezam". Aí está a nossa missão de ensinarmos as crianças, os jovens, o prazer pela oração, rezando juntos, não só mandando rezar. É o Santo Terço, é meditando a Palavra, é acompanhando a missa neste tempo de pandemia... Porque, senão, as pessoas vêm procurar o batismo apenas como um ritual de passagem, e não é.

 

Nós recebemos três graças no Batismo, a tríplice missão. Primeiro, sermos sacerdotes e sacerdotisas – sacerdócio comum, de doar a vida ao próximo. Essa é a missão do batizado. Segunda graça batismal: sermos profetas e profetisas – não de adivinhar o futuro, mas de anunciar a verdade. E lembre-se: todo batizado que anuncia a verdade vai parar na cruz. Não podemos ter medo da cruz. No início do cristianismo, muitos eram martirizados por serem batizados e professarem a fé em Jesus publicamente. Então nós temos um pacto com a verdade. E a última graça: participamos da família de Deus, o reinado de Deus, somos reis e rainhas. Você, eu, nós, somos da família real – não da família do Reino Unido, da Inglaterra, não. Da família de Deus. Todos. Daqui a pouco, a gente vai rezar o Pai Nosso; se Deus é "Pai nosso", somos todos irmãos.

 

Hoje é um momento de renovarmos a nossa graça batismal. Que o Senhor possa nos ajudar a vivenciar e não ter medo da cruz. Ser batizado é se comprometer com as causas de Jesus. Nós estamos dispostos a assumir as causas de Jesus? Os pobres, os últimos, os doentes, os fragilizados pela pandemia, as pessoas que estão passando necessidades... Estamos dispostos? Não só o pobre que passa pedindo comida – também esse, principalmente – mas os pobres que também "têm tudo e não tem nada", como um jovem me dizia na escola: "Professor, eu tenho tudo: apartamento, vou para os Estados Unidos a hora que eu quero, casa na praia... Mas me sinto vazio. Sinto que ninguém se preocupa comigo". Os batizados têm que levar o amor de Deus para essas pessoas também.

 

Que nós possamos ter essa missão. E, diante desta pandemia, que nós possamos não infectar com o vírus da covid-19, mas "infectar" as pessoas com o amor de Deus que nós recebemos na pia batismal. A pia batismal é o útero de novos cristãos. O útero. Não é uma pia normal, é o útero que gera novos cristãos para adorar Jesus de corpo e alma. Nós, agora, encerrando esta homilia, vamos fazer algo que é próprio, que faz parte do ritual do Batismo, que é a Profissão de Fé. Que nós possamos, ao professar a nossa fé, renovar a nossa graça e o nosso compromisso de levar Jesus ao mundo, de ser luz para as nações e anunciar Jesus às pessoas hoje, amanhã e sempre. Amém.

Jesus vem para salvar a todos

Homilia: Padre João Aroldo Campanha - Epifania do Senhor (Ano B) - 03/01/2021 (missa às 10h)

O fim desse anúncio [“A Cristo, que era, que é e que há de vir, Senhor do tempo e da História, louvor e glória pelos séculos dos séculos”] lembra a Vigília da Páscoa, quando o padre marca o Círio Pascal e usa essas mesmas palavras “Jesus Cristo ontem e hoje, princípio e fim a Ele a Glória, o poder por todos os séculos e séculos”, bem parecido com a oração e termina com o anúncio.

Hoje celebramos a Epifania do Senhor, que significa “manifestação”, uma palavra de origem grega. Deus colocou no coração humano grandes interrogações, a mais grave de todas é a morte. Nós nos tornamos humanos quando pela primeira vez enterramos nosso semelhante. No dia que fizemos isso, na sombra da história, lá trás, nós nos tornamos humanos, significa que não éramos animais, éramos humanos de alma racional, imagem de Deus. Essas grandes perguntas moveram os corações das pessoas e das nações a procurar respostas e essas respostas terminam sempre na divindade. Todos os povos adoravam e adoram divindades. Deus de algum modo se mostra, se faz encontrar, porém essa inquietude que está no coração procura algo, mas Deus está além, está naquilo que chamo de transcendência. São Paulo diz: ‘o que o ouvido humano não ouviu, o que os olhos humanos não viram, isso que Deus tem preparado para aqueles que O amam’. Ou Deus vem até nós e se revela ou nós vamos viver nessa inquietude, arranhando, procurando, procurando... e, olha que engraçado, esses magos astrólogos estudavam as estrelas e também procuravam Deus, também tinham suas divindades. Eles viram no céu essa conjunção de Júpiter, Saturno e Vênus, parecia uma fubeca no céu, aconteceu mais ou menos 8 a.C., e eles foram atrás pois interpretavam esses sinais no céu. ‘Nasceu o Messias’. A profecia de Balaão falava: “eu vejo uma estrela surgir sobre Israel” e atraídos por esse fenômeno eles vão procurar um menino. É muito interessante que eles procuram e a estrela os guia, é uma luz! Até mesmo os povos pagãos, mesmo sem conhecer o Deus verdadeiro, também são guiados por Deus e chegam em Jerusalém que era a cidade das luzes, com um grande candelabro de 9 braços. Quando entraram na cidade a conjunção se desfez e não viram mais nada, a cidade das luzes tinha se tornado cidade das trevas. Mas ainda assim foram procurar um Rei, por isso foram ao palácio e, quando chegaram, o rei ficou desesperado, já tinha mandado matar uma mulher e dois filhos com medo deles lhe tomarem o trono, aí casou com outra, teve outros filhos, mas estes não tinham sangue real, então ele ficou desesperado com a chegada dos magos. Então o rei chamou os sacerdotes da época para perguntar onde ia nascer esse rei e eles responderam que na escritura diz que “tu, Belém de Judá, não é a menor entre os povoados de Judá, de ti nascerá o condutor do meu povo” que na época era o rei Davi, então eles lembraram dessa profecia e falaram para os magos. Herodes, na sua astúcia, pede que lhe deem informações exatas para que ele também fosse adorar o menino, mas era para matar o menino Jesus.

Os magos então saem de Jerusalém e veem as estrelas novamente. Que interessante o anseio de Deus, agora iluminado pela palavra de Deus, guia esses homens! Podemos dizer que esses homens pagãos tinham mais fé que aqueles sacerdotes e que o próprio Herodes. Então chegam na casa, não é mais no presépio, o que significa que essa situação já se resolveu, e eles encontram uma normal família pobre daquele tempo. O pai não está porque estava na praça trabalhando, nos campos, o homem saia cedo de casa e voltada no cair da tarde. A mulher ficava o dia inteiro dentro de casa e as crianças ficavam com as mulheres até os 12 anos. Jesus está em casa com a mãe e chegam esses homens, que se surpreendem ao encontrar Deus, o Messias, desse jeito, em uma casa do povo, pobre, com pessoas pobres, um pai que está trabalhando. Mas, nessa situação, eles reconhecem o Messias e lhe concedem três dons: ouro, incenso e mirra. Ouro para realeza; incenso, porque Jesus é Deus; e a mirra, para o homem que deve morrer, já que essa era uma essência que se usava na preparação do cadáver antes de ser sepultado. Eles louvam a Deus e receberam em sonho o pedido de Deus para não voltar a Herodes, mas pegarem outro caminho.

Deus tem jeitos muito estranhos para falar conosco e a coisa interessante aqui é perceber esse fato: essas pessoas que procuram a divindade foram capazes de reconhecer Deus, Jesus Deus. Não que eles tenham a verdade, não dá pra falar “ah eu sou católico, mas os orixás da umbanda também estão certos” ou que “a reencarnação também está certo”. Devemos, porém, reconhecer a dignidade e respeitar a busca que esses povos fazem, isso temos que fazer, isso é um empenho interessante. Católico quer dizer “universal”, “de todos os povos”, não é igual o povo de Israel “só” o povo de Israel, não, todos os povos podem abraçar o caminho de Jesus, todos os povos. Então para esse respeito, especialmente, o Concílio Vaticano II nos abriu os olhos. Ele é um movimento católico, nosso, a busca e ir ao encontro dos outros para poder buscar o que nos une e, quando começamos a olhar profundamente as várias religiões, vamos encontrar uma coisa em comum: o amor ao próximo. Algumas religiões vão dizer “ama o teu povo”, outros vão falar “ame os mesmos da sua religião”, muitos dos nossos evangélicos vão dizer “ame os da sua igreja, os outros estão todos perdidos”, mas esse elemento do amor ao outro nós encontramos em todas as religiões, e isso aqui é o que pode levar todos os povos à salvação, pois no dia do juízo Jesus vai perguntar sobre o amor ao próximo.

Vamos pedir ao Senhor que Ele nos dê essa capacidade de ter o coração aberto para descobrir a boa vontade das pessoas, o bem que está nas pessoas, para acreditar realmente que o ser humano é bom, pode estar mascarado, com o coração cheio de entulho do mal, mas a marca de Deus, Jesus Cristo está no coração das pessoas. Nós temos que acreditar nisso, pois isso move a nossa esperança de que o mundo será melhor. Vamos pedir ao Senhor que nos dê essa fé: o ser humano é bom e busca e quer o bem, alguns se desviam, muitos erram, fazem o mal, porém é o bem que vai guiar e fazer crescer a humanidade.

Como Maria, seguir os passos de Jesus

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – Solenidade da Santa Mãe de Deus, Maria (Ano B) – 31/12/2020 (Quinta-Feira, missa às 19h).

Um ano. Um ano não é pouco na vida das pessoas. E, no hino que nós fizemos, nós dissemos: "Todos os dias vos louvamos", "Por todos os dias vos louvamos". O Evangelho [Lc 2, 16-21] diz, duas vezes: "E Maria meditava esses fatos no seu coração". Este foi um ano diferente. 2020 vai ser lembrado na história como "o ano da pandemia" – como alguns outros anos: 1936, o ano da gripe espanhola, que matou também muita gente no mundo inteiro; os anos da peste negra, que dizimou quase dois terços da Europa... Coisas terríveis. Nós perdemos amigos, perdemos parentes, perdemos paroquianos, perdemos um padre do nosso clero com Covid... Vários tiveram Covid. É uma situação única. Ficamos muito tempo – e devemos estar ainda muito tempo – no isolamento. O isolamento nos chateia, nos deprime; mas o isolamento nos faz pensar. É um modo de reagir contra o isolamento, contra o medo e a depressão do isolamento: pensar, meditar, ler. Ler a Palavra de Deus. Para olhar os nossos dias difíceis como dias de prova. Não prova mandada por Deus, porque Deus não quer a morte nem o sofrimento de ninguém; mas tempo de sofrimento e suportação, porque o sofrimento e a suportação geram em nós a paciência, e a paciência gera em nós a perseverança. "Aos que perseverarem até o fim, a estes será dada a salvação" [ref. Mt 24,13]. Paciência e perseverança.

 

É um ano de guerra. Sem bombas, porém com um inimigo invisível que, às vezes, entra nas nossas casas sem nós percebermos e faz desgraças. Eu tive um tio e um primo que morreram de Covid. Quantos paroquianos nossos... Uma paroquiana nossa teve dezesseis pessoas da família com Covid, dois mortos. Logo no começo, entre os meses de fevereiro e março, dois médicos aqui da nossa paróquia morreram com Covid. Nós nos assustamos, e a única coisa que podemos fazer é nos defender com isolamento, máscara, álcool em gel... Essas coisas parecem ridículas, mas podem nos dar muitas chances! Muitas chances de continuarmos vivos, de continuarmos sãos.

 

Nós aprendemos muito! Em abril, não sabíamos nada sobre essa doença. Hoje sabemos tanto! Nós temos que perseverar neste caminho, nesta guerra, enquanto nós não estivermos seguros. Estarmos seguros significa vacinados. Pela cabeça de um cristão, não pode nem passar a ideia de não se vacinar! Por quê? Porque não é um bem só para mim, é um bem para a minha comunidade, para a minha família, para as pessoas que trabalham comigo, para as pessoas que vão no ônibus comigo... Não é só para mim. Nós temos que pensar no bem do outro, no bem do povo. E começar a ver: têm pessoas que não se importam com isso, pessoas que não se importam com a morte, que fazem blefa da morte, blefa dos outros. E poderiam fazer tanto... Sejamos nós responsáveis!

 

Maria olha os fatos da vida e os medita no coração. Mas medita como? Procurando e vendo a fidelidade de Deus. A fidelidade de Deus que passa por gestos muito pequenos, mas que salva o mundo! Naquele menininho, naquele curral, dentro de um cocho; quem poderia dizer que, ali, estava o Salvador da humanidade? Deus eterno feito carne. Quem? Só um menininho, entre tantos menininhos daquele tempo... Herodes mandou matar um montão para ver se matava Ele junto. Um menininho... Como Deus é discreto. Como, com gestos pequenos, Deus salva o mundo! E Ele pede a nós, hoje, gestos pequenos: máscara, álcool em gel, distanciamento. Amor ao próximo, amor ao nosso povo.

 

Hoje nós celebramos a Virgem Maria, Mãe de Deus. O que quer dizer isso? Ela não gerou a Trindade, não. Ela gerou, no tempo, o Filho do Deus Eterno, o Verbo: eterno como o Pai, Deus como o Pai, que se esvaziou de si mesmo, tornou-se uma célula, um código no ventre daquela mulher. Foi gerado, como um de nós, porque se fez um de nós. Nasceu, como nós. Como Maria continuou virgem, isso é problema de Deus. A fé diz: virgem antes, durante e depois do parto. Problema de Deus. E o menino que ela deu à luz é Deus, Deus feito homem. Deus, esvaziado de si mesmo, feito homem. Deus pode fazer isso: Deus pode diminuir, e Ele se torna salvação. O contrário não é possível: nós querermos ser deuses. Isso cria idolatria e morte, perdição. O caminho da salvação está no abaixamento. É por isso que Maria diz: "O Senhor fez em mim maravilhas, porque olhou para a pequenez de Sua serva" [ref. Lc 1, 48s]. Não para a grandeza, mas para a pequenez de sua serva.

 

Quando nós damos títulos, cada nome enorme para Nossa Senhora, nós temos que pensar muito. O que significa "Imaculada Conceição"? Significa ser, como Deus, última. Humildade. Onde está a humildade, o inimigo não chega; o poder do inimigo é anulado. "Rainha do Céu e da Terra". Onde Maria reina? Lá na cruz, ao lado de Jesus. Belo reino! E tem gente que se faz escravo de Maria... Para que? Se for para seguir Nosso Senhor Jesus Cristo, ótimo! Maria não precisa de escravos, Maria quer seguidores de Jesus, gente que seja capaz de ir atrás dos últimos. Isso ela quer! Mas gente para viver na arrogância e dizer: "Eu sou consagrado, não sei o que...", isso não leva a nada! Nada. Ser consagrado é ser como Maria foi: última, servidora dos últimos, como Deus, como Jesus. "Maria assunta ao céu". Terminada a vida terrena, experimentando a morte, Deus cumpre, em Sua mãe, a promessa que fez a todos nós: "Eu vos tirarei dos vossos túmulos, porque Eu Sou o Deus Fiel, digo e faço" [ref. Ez 37, 12s]. Nela aparece a fidelidade de Deus como, digamos assim, um "sinal" para nós: o que Ele fez nela, fará conosco.

 

Nos anos 430, estavam reunidos vários bispos na cidade de Éfeso, na atual Turquia. E discutiam: "Afinal de contas, Maria é mãe de Deus ou Maria é mãe do homem Jesus?". Era uma briga danada... O povo discutia na rua, nos bares, nas praças; as pessoas se dividiam, discutiam. Aí os bispos, lá reunidos, conversa daqui, conversa dali, e briga daqui, e briga de lá, excomunhão para cá, excomunhão para lá... Até que chegaram a uma conclusão: Maria é mãe de Deus porque Jesus é Deus, e não se pode separar o homem do Deus. O menino que nasceu dela é Deus! O povo estava na porta, esperando os bispos, com um monte de pedaços de pau na mão. E a fé do povo é mais rápida que a fé dos padres, viu? Nós padres somos complicados... A gente discute, a gente começa a achar pelo em ovo, é um problema. O povo de Deus não tem isso, o povo de Deus é espontâneo na fé. E, muitas vezes, chegam às verdades, à iluminação da fé muito antes dos padres. Então o povo estava lá, na porta, esperando. "Se vocês disserem que Maria não é mãe de Deus, nós acabamos com vocês quando saírem daí!". Olha só esse povo como era bravo! Aí proclamaram que Maria era Mãe de Deus, e o povo todo levou os bispos em procissão, com tochas e coisas, a maior festa. Isso para ver: a fé do povo reconhece as verdades de Deus. A fé do povo simples, a nossa fé, reconhece as verdades de Deus. Como Maria via as verdades de Deus? No seu dia a dia.

 

Maria é, também, nossa mãe. Nossa mãe na fé. Por quê? Primeira discípula de Jesus: desde o momento em que o anjo anunciou a Maria, ela se colocou totalmente à disposição daquilo que fosse a vontade de Deus. Ela ainda não via o futuro, como ia ser – não era bruxa. Ela não sabia que aquilo tudo ia acabar na cruz... Mas ela se colocou nas mãos de Deus, todinha: "Faz". E foi caminhando, todos os dias da sua vida, buscando a vontade de Deus. E, no seu caminhar, ela nos ensina a seguir Jesus. Por isso ela é nossa mãe na fé, porque ela, antes de nós, fez esse caminho. E, ao longo da história, nos convida a fazer este caminho: siga os passos de Jesus.

 

Vamos pedir à Virgem Maria que, neste novo ano que se inicia, nós possamos seguir Jesus, num tempo que não parece que será melhor do que 2020, infelizmente... Que nós possamos ter paciência, perseverança e amor ao próximo. Bom Ano Novo!

Reconhecer a presença de Deus

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – Solenidade da Sagrada Família (Ano B) – 27/12/2020 (missa às 10h)

Vocês já foram em Aparecida quando tem os batizados? É uma muvuca em todo o santuário, tem sempre algum devoto ou beato, aqueles que estão sempre lá, nunca saem da igreja, conversam com um e com outro, explica alguma coisa, fica lá horas e horas conversando, são os beatos do santuário que a gente chama. Pois é, nós temos que imaginar José e Maria no meio dessa muvuca, eram muitas as crianças que levavam para fazer a apresentação ao templo, alguns eram ricos e levavam novilhos, carneiros para oferecer em troca do filho. Como que é essa história de “em troca do filho”? Todo primogênito de animais ou de mulheres, macho, sempre homens, eram oferecidos ao Senhor, aí você pagava o resgate. Imagina se você pegasse todos aqueles primogênitos dos homens de Israel, não ia caber de tanta gente dentro do templo, então se fazia o resgate. Você apresentava a criança para Deus e, no lugar da criança ficar no templo, você oferecia um bezerro ou um carneiro – as pessoas pobres ofereciam um par de rolinhas ou um par de pombas. O que nós vemos aqui? Nós não vemos uma família rica, nós vemos um casal pobre que oferece duas pombinhas. E, no meio desse povão que estava ali, se aproxima este velho devoto do santuário e começa a falar: “eu te louvo, Senhor, porque os meus olhos viram a salvação do teu povo, Israel”. As pessoas nem prestam atenção no que aquele homem está falando, um doido começou a falar, pensavam. E para ajudar, ainda veio uma devota que começa a falar também. “Um bando de doido” é o que quem olha pensa. Pois é, o Evangelho diz que aquele homem era movido pelo Espírito Santo e que aquela velhinha era uma profetiza. Só quem tem os olhos da fé é capaz de identificar isso. No meio de tudo aquilo, de toda aquela gente, quem reconheceu naquele casal pobre que carregava esse menino o Messias só essas duas pessoas, nem os sacerdotes, nem os levitas, nem os bons religiosos e nem o povo que estava lá, apenas esses dois velhos.

Quando Jesus entra em Jerusalém, no Domingo de Ramos, sete dias antes de ser crucificado, ele provavelmente entra no meio de uma festa, uma espécie de carnaval que tinha naquele período ali, então ele entra num jumentinho, os apóstolos jogam os mantos no chão, pegam os ramos e vamos fazer festa! O Messias estava entrando em Jerusalém, como os profetas haviam predito. Quem reconheceu Nele o Messias? Aqueles 12 homens ali e mais algumas pessoas que O seguiam. E o resto? Para o resto, era Carnaval. Deus tem um caminho que não é o nosso, só as pessoas de fé conseguem ver na simplicidade, na humildade, a presença de Deus.

Hoje nós celebramos a Sagrada Família, nós celebramos a nossa família. Jesus é salvação. Todos os gestos de Jesus são salvíficos. Jesus ficou 30 anos no anonimato, no dia a dia, numa vida familiar. Ele santificou a vida do dia a dia das nossas famílias, porque é na família que nós aprendemos a amar, respeitar, cuidar uns dos outros, nos suportar – essa palavra “suportar” dá uma impressão de peso, mas não é esse o sentido, “suportar” é ser apoio um para o outro, é ajudar o outro a carregar o próprio peso que nem o Cirineu ajudou Jesus a carregar a cruz. Na família, também é lugar de perdoar e de aprender uma vida nova. Tem um filme que se chama Colombo, que é a história de Cristóvão Colombo quando ele chegou a América e tem uma cena que ele estava falando com um grande professor de uma grande universidade e o homem não entendia a doidice de Colombo de querer chegar às Índias rodando o mundo. Esse homem diz para o Colombo: “nós, homens do pensamento, nós criamos a civilização”. Aí o Colombo vai para a sacada, olha para a cidade e diz: “não, quem constrói o mundo e as civilizações são os pedreiros anônimos, são os marceneiros que ninguém sabe quem é, são as mulheres que cozinham, são os artesãos, os carregadores dos portos, esses constroem o mundo”. Olha que visão interessante, isso é uma visão profundamente cristã! A nossa vida, o nosso dia a dia, nas nossas casas, aí nós construímos o mundo.

Nas nossas casas, nós vivemos e ensinamos a vida ou a morte, o respeito ou o desrespeito, o perdão ou a vingança, o falar mal ou o aceitar as pessoas, compreender os limites, carregar pesos... Qual a grande desgraça de hoje, principalmente na educação dos nossos filhos? Nós não dizemos mais a palavra “não”. Não colocamos limites. Aí quando chega o mundo, os limites são impostos e a pessoa desaba – depressão, suicídio, desorientação, culpa de quem? Dos pais que não disseram “não”, deram tudo de graça, tudo fácil. Na vida, bata o pé como quiser, a vida diz: vai ser como eu quero. Na família, nós educamos, fazemos crescer e aprendemos a amar. Um dos maiores sinais de amor é o perdão.

Vamos pedir ao Senhor que nos abençoe, que nos guie e faça perceber que é no nosso dia a dia que nós vivemos como cristãos, nas coisas simples, igual aquele casal de pobres e aqueles dois velhinhos do templo de Jerusalém. As nossas famílias ensinam a ver o mundo e as coisas com a fé em Jesus ou negam isso? Aqueles dois velhinhos viram no meio daquela muvuca o Messias presente, porque eles viviam com os olhos da fé. Que as nossas famílias sejam lugar de crescimento na fé para que nós possamos reconhecer a presença de Deus em todas as pessoas, especialmente nas que mais sofrem.

Não tenha medo, confie no Senhor

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha - Missa de Natal (Ano B) – 25/12/2020 (missa às 17h)

Na noite de Natal, nós narramos o Evangelho de Lucas ou de Mateus, o nascimento de Jesus, mas na missa do dia, ouvimos a primeira página do Evangelho de São João. Se ouvirmos a primeira página do Evangelho de São Marcos, lemos “filho de Deus”, enquanto aqui, no Evangelho de João, ele escreve essa página maravilhosa que chamamos de prólogo, podemos dizer que ele vai desenvolver essa fala de São Marcos “filho de Deus”. É muito interessante pois ele vai explicar como é a relação do Pai com a Palavra. A Palavra do Pai só pode ser Ele mesmo e ela é exatamente idêntica ao Pai, está diante do Deus Pai e vê e contempla o rosto de Deus. E o Espírito Santo é o abraço, essa pessoa divina que mantém os três tão unidos que são uma única divindade.

Tudo que o Pai faz, o Filho faz; tudo que o Pai é, o Filho é. O Pai é luz, e São João vai dizer: “Deus é luz e Nele não há sinal de trevas”. Se o Pai é luz, o Filho é luz e o Espírito é luz. Quando a Palavra de Deus desce, se esvazia da divindade e se torna um de nós, mas tudo que Ele faz é revelação do Pai. Jesus vai dizer no Evangelho “eu faço tudo que vejo o Pai fazer”, pois são idênticos. Toda a ação de Jesus, todas as palavras de Jesus, os sentimentos Dele são revelação de Deus. Nós não estamos diante de um grande revolucionário ou de um mestre, estamos diante de Deus mesmo que se revela a nós na sua glória. Quando nos perguntamos: “como é Deus?”, olha para Jesus e tudo que não é Jesus, não é Deus e tudo que Jesus faz ou diz revela Deus. Quando dizemos Jesus é Deus colocamos as nossas ideias em cima de Jesus e isso cria um monte de problemas na teologia pois são pensamentos humanos e tentamos fazer Deus entrar dentro deles. Mas quando dizemos “Deus é Jesus” aí temos que olhar pra Jesus para entender quem é Deus, pois Jesus desmonta a nossa compreensão de Deus, uma delas é esse aqui: o menino Jesus.

“Nasceu hoje o Cristo Salvador” essa é a mensagem dos anjos, luz no céu, coral de anjos, imagina o espetáculo que esses pastores viram no céu. “Eis o sinal”, o que você espera? Algo grandioso, mas é um menino envolto em faixas, dentro de um estábulo, Deus é o contrário de nós, pensa do avesso, onde está a salvação? Nas periferias. De onde Deus começa a salvar o mundo inteiro? Das periferias. Onde dizemos que Deus está entronizado? A Glória de Deus, o juízo de Deus onde está? Na cruz. Deus é muito esquisito, Ele nos dá o alimento, pão divino, o cálice da Salvação, pão e vinho, o corpo e o sangue Dele entregues por nós. Se o mundo aprender a ser pão dividido para a vida e o bem dos outros, o mundo será um lugar de irmãos e irmãs. Nos reconhecer como irmãos, ser para o outro, esse é o caminho de Deus e a revelação de Jesus. A primeira mensagem dos anjos aos pastores foi “não tenham medo” de um Deus que é uma criança que precisa dos nossos cuidados, um Deus que está crucificado de braços abertos agonizando. Deus que se torna silencioso e se entrega para todos nós na Eucaristia. De um Deus assim não tem que ter medo, só nos causa alegria, só nos faz crescer como seres humanos.

Vamos pedir ao Senhor poder realmente ler a Escritura, olhar os vários momentos e frases de Jesus e dizer “Deus está falando, está agindo” e nos deixar transformar por essa palavra que é palavra de vida.

Outro dia uma pessoa reclamou porque eu falei sobre racismo, mas enquanto eu não deixar meu racismo eu não posso tratar o outro como irmão. Se eu não aceito o outro na sua diferença, eu nunca vou ser irmão do outro ou da outra. Nós temos que descobrir em nós, essas raízes do mal, porque elas só criam desconfiança para com o outro. E depois, desconfiança de Deus. Deus é um juiz implacável, vai nos esmagar, vai destruir tudo, vai ser fogo para todo lado, vai mandar todo mundo pro inferno por "uma coisinha de nada". Esse é o veneno que o inimigo colocou em nosso coração lá no mito de Adão e Eva, e Abel e Caim. Todos nós somos Adão, todos nós somos Eva, Caim e Abel. Vivemos desse drama e medo terrível, nós olhamos o nosso tempo, esse tempo. Se nós temos um pouco de responsabilidade, um pouco de amor próprio e ao outro, o outro vira uma ameaça, porque eu não sei se ele está contaminado, eu também me torno uma ameaça aos outros, porque os outros também não sabem se eu estou contaminado, eu vivo no medo, mas se eu pegar o vírus, e eu for um dos 2% que morre? E desses 2% nós já temos 188 mil mortes. Medo, medo de tudo.

Aqueles pastores eram o que nós hoje chamaríamos de "delinquentes". Eram homens rudes, mal conseguiam falar, pior pessoas que poderiam existir, muitos eram ladrões, ou assassinos, e a única coisa que podiam confiar a eles eram os rebanhos e que eles vivessem em montanhas, indo atrás de ervas para estes rebanhos. Todo mundo tremia quando essas pessoas se aproximavam, e a religião de Israel dizia que no dia da manifestação de Deus, esses homens ou pessoas como eles seriam fulminadas pela glória de Deus, destruídas, derreteriam como cera diante do esplendor e da justiça de Deus. Esses homens viviam com medo, e eles acreditavam nisso que a religião falava, nós chamamos isso de medo projetado. É como uma pessoa preta que acredita que é inferior porque a sociedade falou isso. Não acreditem, isso é falso. É como a pessoa homoafetivas, que acreditam que é um pecador absurdo, desviado, desordenado intensivamente, são palavras da religião. E as pessoas acreditam nisso, até própria pessoa acredita nisso. É tudo mentira, viu gente? Até as palavras ditas pela religião. Por quê? Isso descrimina as pessoas. Mas Deus não descrimina ninguém. E para que eu estou falando tudo isso? Para a gente se dar conta do que significou para aqueles homens que estavam lá, no meio do campo a noite, cuidando de ovelhas, para que lobos ou outros bichos não viessem atacar aquelas ovelhas. Para eles que eram considerados lixo do mundo, malditos, amaldiçoados por Deus, para eles, apareceu o anjo de Deus, apareceu a luz divina, e aqueles homens só podiam sentir uma coisa: terror. Tudo aquilo que tinham falado para eles, todas aquelas asneiras que tinham enfiado na cabeça deles, de que eles eram malditos, perdidos, assassinos, ladrões, e que seriam fulminados no momento da glória de Deus. E o que acontece? Olha que absurdo, eles morrendo de medo e o anjo diz: "Não tenhais medo". E fez daqueles homens, lixo do mundo, anunciadores e testemunhas da fidelidade de Deus, eles vão anunciar: "Nasceu para vocês um salvador, glória a Deus nas alturas, paz para os seres humanos, Deus ama vocês, Deus ama vocês com vossos pecados, até com vossos crimes. Deus ama e quer salvação para todos. Nasceu o Salvador, na cidade de Davi". E o que vem na nossa cabeça? Vem na nossa cabeça o esplendor e a grandeza, o salvador que esperávamos, descendente de Davi. E qual é o sinal? Os sinais absurdos de Deus: "Vocês vão encontrar um menino envolvido em faixas, lá no estábulo, deitado numa manjedoura, cocho”. Não tinha lugar para eles, então botaram eles lá. A lenda diz que foi uma mulher chamada Abigail que falou pra São José: "Olha, vai por ali, tem um lugar fora da cidade, onde tem animais, vacas, é um lugar tranquilo, tem palha e daqui a pouco vou lá para ver como é que está a situação da moça".

E então essa gente que o mundo diz que não vale nada, que a religião diz que vão ser condenados, estes homens vão até lá e encontram o Salvador, um menino em um cocho do estábulo, que salvador esquisito. E o que o anjo disse no inicio? "Não tenhais medo". Quem tem medo de uma criança pobre num cocho de estábulo? Uma criança recém-nascida? Até aqueles homens rudes, ladrões, assassinos foram ver ele. Não podiam se aproximar das pessoas, mas foram anunciar "Os anjos vieram e nos falaram isso". E falaram para pessoas que talvez tinham encontrado no caminho, às vezes até falou para a tal da Abigail também. Quem de nós teme uma criança recém-nascida? Quem? Se fosse um filho de rei, teria muito poder, mas uma criança pobre num estábulo, quem tem medo? Ninguém. Do mesmo jeito, que ninguém tem medo de um homem pendurado na cruz, agonizando. Quem tem medo de se aproximar desse pobre? Quem tem medo de se aproximar do Pão Eucarístico, que se entrega sem perguntar se você é santo ou pecador? Os padres que inventaram essa história de "aquele pode", "aquele não pode". Jesus não faz essas coisas, os padres que fazem. Tem medo de um pedaço de pão, que se reparte para ser comida pro mundo, para que as pessoas possam viver, pessoas como nós, pessoas piores que nós, pessoas que nós mesmos apontamos o dedo e dizemos: "condenado". Jesus se entrega a todos, para todos, não tenham medo.

E o que quer dizer "não tenha medo" nesses dias de pandemia? Nesse tempo de uma alegria bem "borocoxo". Quando é que vocês viram uma missa de véspera de Natal com a igreja vazia deste jeito? "Ah, padre, é pandemia", mas cabem 150 pessoas aqui e não tem. "Ah padre, mas tinha que agendar" Isso é conversa mole. Jesus nos diz "Não tenhais medo". Jesus não disse: “Sejam irresponsáveis", Ele disse: "Não tenhais medo". A situação é difícil, é, vai ficar pior, vai. Não tenham medo, as dificuldades na história existem, as dificuldades na vida existem e são muitas, mas a gente consegue ir para frente, as pessoas conseguem melhorar, as sociedades melhoram, faça o que pode hoje, o que eu posso fazer? Máscara, álcool e isolamento, isso você pode, faça. Não faça festinha, não faça esse ano para poder fazer ano que vem. Porque muitos que irão fazer festa este ano, não vão fazer ano que vem porque foram irresponsáveis, porque tiveram medo, medo de ter que se isolar, de ter que ficar sozinhos, medo de ter que aguentar a chatice do dia-a-dia. Não é fácil aguentarmos a chatice do dia-a-dia trancado dentro de casa, mas para quem persevera, tem saúde depois. Não persevera e não quer? Tem doença, e o risco de morte ou sequelas. Não ter medo hoje é responsável, é manter o contato virtual com as pessoas, hoje é tão fácil, tem muito jeitos, mandar mensagem, falar por WhatsApp, tem jeito de manter contato com as pessoas, e assim você vai estar enfrentando o medo. Quem foge do isolamento, ou nega os sistemas de proteção que são mínimos, máscara e álcool, se essa pessoa tem medo, essa pessoa é fraca. Cuidem-se, empenhem-se. Quem se empenha, dará frutos, Deus ama a todos, inclusive aos que tem medo, mas nos chama a ser responsáveis. Deus deu uma missão àqueles pastores, que eram amaldiçoados pela religião e temidos pelo povo, porque Deus confia em nós, essa é a mensagem de Natal. Não tenham medo, vamos em frente, mesmo que seja chato, cansativo estar em isolamento. Esse é nosso caminho, essa é nossa confiança, nossa esperança, e vamos nos alegrar um pouquinho mais, porque Jesus nasceu para cada um de nós e nos acolhe como somos. Toda a outra imagem de Deus é falsa, Deus é o menino na manjedoura, Deus é o pão da Eucaristia, Deus é o homem da cruz. São três momentos, e é o mesmo e único Deus que acolhe a todos. Bom Natal!

Não tenha medo, confie no Senhor

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha - Missa do Galo (Ano B) - 24/12/2020 (missa às 20h)

A frase deste natal e do começo do novo ano são as que o anjo disse para os pastores: "Não tenhais medo!". Medo, aqui no caso, é o medo de Deus, mas também é o medo de si mesmos e o medo dos outros. Quando nós aprofundamos as nossas raízes lá no mito de Adão e Eva, nós vamos encontrar o momento exato quando o ser humano mostra a sua infidelidade a Deus. Deus caminha no jardim, como fazia todos os dias, procura Adão não encontra, procura Eva e não encontra, e diz: "Onde vocês estão?" e os vê atrás do matinho. "Opa, vocês estão aí" e Adão logo fala: "Eu vi os teus passos no jardim e tive medo, eu estava nu". Mas Deus falou: "Quem te disse que você estava nu? Você por acaso comeu o fruto da árvore que eu proibi?". Quando o ser humano não quer crescer, quando o ser humano não quer fazer este longo caminho que é arar a terra, colocar a semente, cuidar da terra, esperar a planta crescer, esperar vir os frutos, esperar que os frutos amadureçam, recolher o fruto, moer a semente, preparar o fermento para fazer o pão. Todo este caminho... Quando o ser humano não quer esse caminho e quer o fruto final, quer o pão em sua mão, ele começa a não se aceitar. "Eu quero ser como Deus, eu quero o fruto final de tudo, não quero fadiga, não quero crescer porque sofrer dói". E a mesma imagem pode ser dada para a mulher, carregar uma criança na barriga por 9 meses, parto, dores únicas, depois tem que amamentar a criança, educar, fazer crescer, quando chega na adolescência vira um desastre, depois esperar ser adulto... Quanta fadiga, quanto tempo... "Não, quero tudo pronto, tudo maravilhoso". Isso não existe. Mas quando Adão e Eva rompem esse caminho de crescimento, esse caminho às vezes se torna uma maldição, punição de Deus. Nós temos medo. Medo foi o veneno que o inimigo colocou no nosso coração. Medo de Deus e de nós mesmos, porque nós somos miséria, nós sabemos que vamos morrer, nós temos medo do sofrimento e nós vemos muito sofrimento também, temos medo da pobreza, miséria, e muitas vezes nós mesmos produzimos miséria. Muitas vezes nós produzimos sofrimento, nós temos medo do outro que pode nos agredir, que pode nos atacar ou nos matar. E enfiamos de novo nossas raízes lá no mito de Abel e Caim, quando se pergunta a Caim "Onde está seu irmão", e ele responde "O que eu tenho a ver com meu irmão? Não interessa nada do meu irmão". Medo. Medo de Deus, medo de si mesmos e medo do outro. E quantas mentiras nós engolimos durante a história? Durante a vida? Quantas mentiras?

Outro dia uma pessoa reclamou porque eu falei sobre racismo, mas enquanto eu não deixar meu racismo eu não posso tratar o outro como irmão. Se eu não aceito o outro na sua diferença, eu nunca vou ser irmão do outro ou da outra. Nós temos que descobrir em nós, essas raízes do mal, porque elas só criam desconfiança para com o outro. E depois, desconfiança de Deus. Deus é um juiz implacável, vai nos esmagar, vai destruir tudo, vai ser fogo para todo lado, vai mandar todo mundo pro inferno por "uma coisinha de nada". Esse é o veneno que o inimigo colocou em nosso coração lá no mito de Adão e Eva, e Abel e Caim. Todos nós somos Adão, todos nós somos Eva, Caim e Abel. Vivemos desse drama e medo terrível, nós olhamos o nosso tempo, esse tempo. Se nós temos um pouco de responsabilidade, um pouco de amor próprio e ao outro, o outro vira uma ameaça, porque eu não sei se ele está contaminado, eu também me torno uma ameaça aos outros, porque os outros também não sabem se eu estou contaminado, eu vivo no medo, mas se eu pegar o vírus, e eu for um dos 2% que morre? E desses 2% nós já temos 188 mil mortes. Medo, medo de tudo.

Aqueles pastores eram o que nós hoje chamaríamos de "delinquentes". Eram homens rudes, mal conseguiam falar, pior pessoas que poderiam existir, muitos eram ladrões, ou assassinos, e a única coisa que podiam confiar a eles eram os rebanhos e que eles vivessem em montanhas, indo atrás de ervas para estes rebanhos. Todo mundo tremia quando essas pessoas se aproximavam, e a religião de Israel dizia que no dia da manifestação de Deus, esses homens ou pessoas como eles seriam fulminadas pela glória de Deus, destruídas, derreteriam como cera diante do esplendor e da justiça de Deus. Esses homens viviam com medo, e eles acreditavam nisso que a religião falava, nós chamamos isso de medo projetado. É como uma pessoa preta que acredita que é inferior porque a sociedade falou isso. Não acreditem, isso é falso. É como a pessoa homoafetivas, que acreditam que é um pecador absurdo, desviado, desordenado intensivamente, são palavras da religião. E as pessoas acreditam nisso, até própria pessoa acredita nisso. É tudo mentira, viu gente? Até as palavras ditas pela religião. Por quê? Isso descrimina as pessoas. Mas Deus não descrimina ninguém. E para que eu estou falando tudo isso? Para a gente se dar conta do que significou para aqueles homens que estavam lá, no meio do campo a noite, cuidando de ovelhas, para que lobos ou outros bichos não viessem atacar aquelas ovelhas. Para eles que eram considerados lixo do mundo, malditos, amaldiçoados por Deus, para eles, apareceu o anjo de Deus, apareceu a luz divina, e aqueles homens só podiam sentir uma coisa: terror. Tudo aquilo que tinham falado para eles, todas aquelas asneiras que tinham enfiado na cabeça deles, de que eles eram malditos, perdidos, assassinos, ladrões, e que seriam fulminados no momento da glória de Deus. E o que acontece? Olha que absurdo, eles morrendo de medo e o anjo diz: "Não tenhais medo". E fez daqueles homens, lixo do mundo, anunciadores e testemunhas da fidelidade de Deus, eles vão anunciar: "Nasceu para vocês um salvador, glória a Deus nas alturas, paz para os seres humanos, Deus ama vocês, Deus ama vocês com vossos pecados, até com vossos crimes. Deus ama e quer salvação para todos. Nasceu o Salvador, na cidade de Davi". E o que vem na nossa cabeça? Vem na nossa cabeça o esplendor e a grandeza, o salvador que esperávamos, descendente de Davi. E qual é o sinal? Os sinais absurdos de Deus: "Vocês vão encontrar um menino envolvido em faixas, lá no estábulo, deitado numa manjedoura, cocho”. Não tinha lugar para eles, então botaram eles lá. A lenda diz que foi uma mulher chamada Abigail que falou pra São José: "Olha, vai por ali, tem um lugar fora da cidade, onde tem animais, vacas, é um lugar tranquilo, tem palha e daqui a pouco vou lá para ver como é que está a situação da moça".

E então essa gente que o mundo diz que não vale nada, que a religião diz que vão ser condenados, estes homens vão até lá e encontram o Salvador, um menino em um cocho do estábulo, que salvador esquisito. E o que o anjo disse no inicio? "Não tenhais medo". Quem tem medo de uma criança pobre num cocho de estábulo? Uma criança recém-nascida? Até aqueles homens rudes, ladrões, assassinos foram ver ele. Não podiam se aproximar das pessoas, mas foram anunciar "Os anjos vieram e nos falaram isso". E falaram para pessoas que talvez tinham encontrado no caminho, às vezes até falou para a tal da Abigail também. Quem de nós teme uma criança recém-nascida? Quem? Se fosse um filho de rei, teria muito poder, mas uma criança pobre num estábulo, quem tem medo? Ninguém. Do mesmo jeito, que ninguém tem medo de um homem pendurado na cruz, agonizando. Quem tem medo de se aproximar desse pobre? Quem tem medo de se aproximar do Pão Eucarístico, que se entrega sem perguntar se você é santo ou pecador? Os padres que inventaram essa história de "aquele pode", "aquele não pode". Jesus não faz essas coisas, os padres que fazem. Tem medo de um pedaço de pão, que se reparte para ser comida pro mundo, para que as pessoas possam viver, pessoas como nós, pessoas piores que nós, pessoas que nós mesmos apontamos o dedo e dizemos: "condenado". Jesus se entrega a todos, para todos, não tenham medo.

E o que quer dizer "não tenha medo" nesses dias de pandemia? Nesse tempo de uma alegria bem "borocoxo". Quando é que vocês viram uma missa de véspera de Natal com a igreja vazia deste jeito? "Ah, padre, é pandemia", mas cabem 150 pessoas aqui e não tem. "Ah padre, mas tinha que agendar" Isso é conversa mole. Jesus nos diz "Não tenhais medo". Jesus não disse: “Sejam irresponsáveis", Ele disse: "Não tenhais medo". A situação é difícil, é, vai ficar pior, vai. Não tenham medo, as dificuldades na história existem, as dificuldades na vida existem e são muitas, mas a gente consegue ir para frente, as pessoas conseguem melhorar, as sociedades melhoram, faça o que pode hoje, o que eu posso fazer? Máscara, álcool e isolamento, isso você pode, faça. Não faça festinha, não faça esse ano para poder fazer ano que vem. Porque muitos que irão fazer festa este ano, não vão fazer ano que vem porque foram irresponsáveis, porque tiveram medo, medo de ter que se isolar, de ter que ficar sozinhos, medo de ter que aguentar a chatice do dia-a-dia. Não é fácil aguentarmos a chatice do dia-a-dia trancado dentro de casa, mas para quem persevera, tem saúde depois. Não persevera e não quer? Tem doença, e o risco de morte ou sequelas. Não ter medo hoje é responsável, é manter o contato virtual com as pessoas, hoje é tão fácil, tem muito jeitos, mandar mensagem, falar por WhatsApp, tem jeito de manter contato com as pessoas, e assim você vai estar enfrentando o medo. Quem foge do isolamento, ou nega os sistemas de proteção que são mínimos, máscara e álcool, se essa pessoa tem medo, essa pessoa é fraca. Cuidem-se, empenhem-se. Quem se empenha, dará frutos, Deus ama a todos, inclusive aos que tem medo, mas nos chama a ser responsáveis. Deus deu uma missão àqueles pastores, que eram amaldiçoados pela religião e temidos pelo povo, porque Deus confia em nós, essa é a mensagem de Natal. Não tenham medo, vamos em frente, mesmo que seja chato, cansativo estar em isolamento. Esse é nosso caminho, essa é nossa confiança, nossa esperança, e vamos nos alegrar um pouquinho mais, porque Jesus nasceu para cada um de nós e nos acolhe como somos. Toda a outra imagem de Deus é falsa, Deus é o menino na manjedoura, Deus é o pão da Eucaristia, Deus é o homem da cruz. São três momentos, e é o mesmo e único Deus que acolhe a todos. Bom Natal!

Em Maria, cumpre-se a vontade de Deus

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 4º Domingo do Advento (Ano B) – 20/12/2020 (missa às 10h).

Vamos começar com uma curiosidade sobre o Evangelho: nós não sabemos qual é a linhagem de Maria. Nós só sabemos a de José, ele era descendente de Davi. Filho que nasce de mãe hebreia é hebreu. Quem dá a descendência para o filho é o pai, mesmo que seja pai adotivo. Maria garante que Jesus é hebreu, mas é José que, assumindo a paternidade de Jesus, aceitando esse mistério que Deus operou na vida dela, diante da Lei, José aparece como pai de Jesus. Então Jesus se torna descendente de Davi por causa de José, que, diante da Lei é pai de Jesus, apesar de nós sabermos que Ele é filho de Deus.

Muito bem, já falei aqui outras vezes sobre a anunciação. Essa menina de fim de mundo, que Deus tinha desejado na eternidade que fosse a mãe do Seu filho. E, quando chegou o tempo, Ele cria Maria inundada, ou imersa, na graça de Deus, de modo que, nela, só existe luz. Os nossos irmãos protestantes muitas vezes traduzem “cheia de graça” por “agraciada”, para mostrar esse fato que Maria recebe de Deus a graça, e é justa a afirmação. Maria é nossa. Ela está deste lado do abismo, ela está conosco. Do outro lado, está Deus. Entre nós e Deus, existe um abismo intransponível. Deus habita numa luz inacessível, não tem como chegar lá. Ou Ele vem até nós, ou nós não temos acesso. E o que nós vemos é exatamente a misericórdia de Deus que vem ao nosso encontro, vem através da criação, vem através da criação do homem e da mulher, vem através do Seu filho, Jesus, verbo eterno do Pai, que se esvazia de si mesmo e se torna uma célula no seio da Virgem Maria. Maria, estando desse lado do abismo, se torna o ponto de apoio da ponte, entre Deus e nós e a Jesus. Essa ponte encontra o seu fundamento aqui do nosso lado em Maria, no seio dessa mulher. Deus operou um milagre. O filho que dela nasceu é um homem perfeito e ao mesmo tempo é o Deus eterno. Só nessa mulher, em toda criação, se encerra o mistério que Deus operou na encarnação.

Quando o anjo diz “alegra-te”, ele está dizendo “Maria, finalmente a espera do povo vai se concretizar, a promessa que Deus fez para Abraão há mil e oitocentos anos, as promessas que Ele fez a Davi há mil anos atrás, as profecias de setecentos, quinhentos, quatrocentos anos atrás se cumprem agora”. E se cumprem do jeito de Deus, não do nosso jeito. Um descendente para Davi, cujo trono vai ficar eternamente diante do Pai. O que você pensa? Um super rei, imagina! E qual é o trono que Jesus tem? A cruz. Que jeito esquisito de Deus. E, na eternidade, Jesus reina com os sinais da cruz, e Ele nos julga a partir da cruz. O julgamento de Deus é um julgamento de misericórdia, lembrando que a misericórdia de Deus é mais justa que a nossa justiça vingativa. Deus quer a salvação de todos.

Nós aprendemos ainda com Maria, no momento da anunciação, muitas coisas. Hoje nós vamos frisar uma. Já falei isso muitas vezes porque é importante! Maria não pergunta “por quê?” para Deus, não pergunta. Maria pergunta para o anjo “como fazer, o que eu tenho que fazer? Eu não conheço o homem”, ou seja, “eu sou virgem”, “o que eu tenho que fazer? Tenho que casar logo com José? Tenho que procurar outro homem? O que eu tenho que fazer?” – é uma pergunta operativa. Não é uma pergunta que quer saber “por que é que Deus permite isso? Por que eu? Por que para mim isso?”. Não. Isso é pergunta arrogante, pergunta de quem não tem fé. A pergunta é: ‘o que fazer nesta situação?’. O que fazer numa situação de câncer terminal, o que fazer nessa situação de doença grave, desnecessária que é o COVID. O que fazer com um parente que morre, o que fazer com o meu vazio, o que fazer com a minha dor. O que fazer? Essa é a grande pergunta. A essa pergunta Deus dá respostas. Uma pessoa com câncer terminal, às vezes eu não posso fazer nada, está morrendo. Mas eu posso, às vezes, segurar a mão da pessoa. Posso, às vezes, estar ao seu lado, às vezes rezar por ela, especialmente agora, o pessoal com COVID, que a gente não pode nem rezar uma Ave-Maria antes de enterrar, e a maior parte dessas pessoas não teria que ter morrido, o que eu posso fazer? É rezar, isso eu posso. Ajudar as pessoas que estão sofrendo, isso eu posso. “Por que Deus permitiu que o meu marido morresse assim?”. Isso é problema de Deus, a vida não vai te responder. O que fazer agora? Às vezes a resposta é: chora. Quando a dor é grande, Deus entende. Não podemos ser arrogantes diante de Deus, Maria nos ensina isso. O que fazer? Isso é uma atitude espiritual. Essa é uma atitude que deve nascer da fé cristã. Não ser arrogante e perguntar o porquê para Deus, arregaçar as mangas e fazer o que é possível, e, às vezes, tem bem pouco para fazer. Mas, às vezes, tem muito. Isso faz a diferença.

Depois, tem uma frase que a gente às vezes precisa explicar também. O anjo diz: “o Espírito do Senhor virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a Sua sombra”. Dá impressão de que são dois atos, ou duas pessoas. Não é, é o mesmo. O Espírito Santo é o poder do Pai, a força do Pai. É o Espírito Santo que cria em Maria a possibilidade de gerar um filho que seja homem e Deus. É o Espírito Santo que faz isso. O filho é do Pai, Ele envia o seu verbo do céu. Mas o poder que permite isso é o Espírito Santo. A sombra do poder de Deus é o mesmo Espírito Santo, as duas expressões falam de um único ato, e lembram a presença de Deus. Onde que nós encontramos a figura da nuvem no Antigo Testamento? Quando o povo de Deus, aquele grupinho de pessoas que fugia do Egito, perseguidos por soldados egípcios – homens, mulheres, crianças, animais, pessoas anciãs, que situação difícil. E o pessoal atrás com as bigas, que eram que nem carros de guerra, conduzidos a cavalo, terríveis. O que essa pobre gente conseguia contra aquilo? A nuvem se coloca entre o exército e o povo. Para o povo, ela é luz. Para o exército, ela é trevas. É a presença de Deus. Um outro momento em que nós encontramos a nuvem é quando Deus fala com Moisés no monte Horebe, para dar para ele os dez mandamentos, as tábuas da lei. Horebe estava cheio de tempestades. Aquilo, a nuvem, indica a presença de Deus. Quando rei Salomão consagrou o templo de Jerusalém e pede que Deus esteja presente naquele lugar, desce sobre o templo a nuvem, sinal da presença de Deus. Quando o povo é exilado para a Babilônia, o profeta Jeremias vê a nuvem se levantar do templo e ir atrás do povo, para onde o povo vai. No Novo Testamento, nós temos a transfiguração. Jesus, que no monte Tabor se transfigura e, próximo dele aparecem Moisés e Elias vivos, não mortos. Vivos, e falam com eles. Deus é Deus dos vivos, não de mortos. Quando nós morremos, nós ressurgimos para a vida eterna, viu gente? Não acaba no túmulo não. Ali a gente enterra carne, e vai apodrecer. Nós ressurgimos para a vida na hora da morte. Pedro, João e Tiago viram a sombra, a nuvem que encobriu o topo do morro, encobriu Jesus, Moisés e Elias. É a presença de Deus, e eles ouvem “este é meu filho amado, ouvi-o”. É a presença de Deus, a presença de Deus desce sobre Maria, o poder de Deus desce sobre ela, e permite que ela, sem ajuda de homem, conceba um filho que é homem e Deus eterno.

Nós nunca vamos contemplar o bastante o mistério da encarnação do verbo, nunca. Porque cada vez que nós debruçamos sobre esta passagem, toda vez que nós nos debruçamos sobre qualquer passagem da Escritura, do Novo Testamento, dos quatro evangelhos, nós encontramos sempre, sempre, sempre, novas luzes. Os hebreus falam que a leitura constante da palavra é como pegar duas pedras, dessas que fazem fogo, e bater uma contra a outra. Sempre saem faíscas novas. Essa é a Escritura, esse é o mistério de Deus. Por isso, a Sagrada Escritura é sagrada, é Palavra de Deus, mesmo tendo sendo escrita há dois mil, três mil, três mil e quinhentos anos atrás, ela continua nos falando hoje. E, com essa leitura de hoje, nós aprendemos uma atitude cristã fundamental: não devemos nunca perguntar os porquês para Deus, mas aprender a perguntar o que fazer.

Ser luz em um mundo de trevas

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 3º Domingo do Advento (Ano B) – 13/12/2020 (missa às 10h).

Os quatro evangelhos nos falam de João Batista, essa figura que foi complicada para a primeira comunidade cristã. Porque os discípulos de João Batista acreditavam que era ele o Messias, então se formaram comunidades de discípulos. Enquanto os evangelhos foram escritos, ainda existiam essas comunidades – por volta da metade do segundo século, ano 120, 130 –, os chamados "Batistas". Eles se tornaram cristãos, reconheceram que Jesus era o Messias, mas, enquanto os evangelhos eram escritos, ainda tinha polêmica. Quatro comunidades diferentes escreveram os evangelhos – comunidades diferentes, pessoas diferentes, problemas diferentes. Os evangelhos não são biografias de Jesus, são o anúncio da boa notícia que Jesus trouxe. Jesus é nosso Salvador; morreu e foi ressuscitado, está na glória do Pai e há de vir. Esse é o grande anúncio dos evangelhos.

 

O primeiro evangelho a ser escrito foi o de São Marcos. Nele, São João Batista é apresentado assim, com cores bem vivas. Depois, São Lucas e São Mateus copiaram praticamente 90% do evangelho de São Marcos, e eles tentaram englobar João Batista dentro da vida de Jesus – São Lucas vai apresentar João Batista como primo de Jesus. São João, ou a comunidade de São João, vai apresentar João Batista como uma testemunha. Se vocês lerem lá no primeiro capítulo de São João, não tem e não aparece o batismo de Jesus.  Engraçado, não é? Pois é, São João esvazia essa figura de João Batista. Para ele, João Batista é uma testemunha – uma testemunha qualificada, porque ele cumpre uma profecia de Isaías: "Uma voz grita no deserto: preparai os caminhos do Senhor" [ref. Is 40, 3].

 

São João Batista chama o povo para a conversão, e ele usa as roupas, os trajes que eram próprios dos profetas. Elias usava aquele tipo de roupa (pele de camelo), comia mel silvestre e outras coisas que conseguiam obter no deserto – até gafanhotos comiam! Quando teve aquela nuvem de gafanhotos aqui na América Latina – isso é uma piadinha, tá? –, aqui no Brasil, o pessoal começou a fazer fritada de gafanhoto; tem gente que come casquinha de siri, outros começaram a fazer fritada de gafanhotos. Os gafanhotos chegaram na fronteira e pensaram: "O que? Vamos acabar na panela? Nada disso...", aí foram embora. Então significa que gafanhoto dá para comer, viu, gente? Naquele tempo, comiam.

 

O que João Batista faz? Ele anuncia: "Eu não sou digno de desatar as suas sandálias". O que isso quer dizer? Quem desatava as sandálias era o escravo velho, que não servia para mais nada, ele só dava gastos para o dono da casa. Então era ele, que não valia mais nada, que desamarrava as sandálias do dono. João Batista está dizendo: "Nem isso, eu sou muito menos que isso. Podem me chamar de profeta, podem me chamar de novo Elias, isso não é nada comparado ao que Ele é. Eu batizo com água" – o que é agua? Não é nada – "Ele dá o Espírito dá vida, que só Deus pode dar".

 

São João deixa muito claro em seu evangelho: Jesus olha o rosto do Pai. Só quem pode olhar o rosto do Pai é quem é igual ao Pai, Deus como Pai. Então Ele nos revela o Pai. Todo gesto de Jesus é gesto divino, é o humano que revela Deus. E qual o problema? São João diz: "Ele está no meio de vocês, mas vocês não O conhecem". Olha que coisa estranha. Quem eram esses homens que vieram perguntar para João Batista o que ele era? Sacerdotes e levitas. Levitas seriam os nossos sacristãos de hoje, ou seja, gente de dentro da igreja. E o que esperamos dessas pessoas? Que sejam capazes de reconhecer o Messias, é isso o que a gente espera. São João vai dizer o que? "Vocês não O conhecem". Por quê? Porque não são capazes de ouvir "a voz que grita no deserto" chamando à conversão. Convertei-vos! Este era o grande anúncio de João Batista: convertei-vos. E essa gente não se converteu; e essa gente, depois, vai matar João Batista e Jesus. Para nós, fica também esta pergunta: "Você é capaz de reconhecer Jesus?". Onde Jesus está? Jesus está na Eucaristia. Jesus está em Sua Palavra. Jesus se manifesta em Sua comunidade quando ela reza em nome Dele. Mas Jesus também está em todas as pessoas que se aproximam de nós ou de quem nos aproximamos – aí está Jesus. São João, em sua primeira carta, vai dizer: "Quem diz que ama a Deus e não O vê, mas não ama seu irmão, que vê, é mentiroso" [ref. 1 Jo 4, 20]. Você só pode amar a Deus se você ama o teu irmão, a tua irmã; senão, você não conhece Deus, você está como aqueles sacerdotes e levitas – Jesus estava ali, no meio da multidão, mas eles não O reconheceram e O mataram. Então nós reconhecemos Jesus nos nossos irmãos e irmãs, especialmente nos que mais sofrem. Jesus está desfigurado nos pobres, nos doentes, nas pessoas desesperadas, nas pessoas marginalizadas, nas pessoas excluídas das nossas comunidades: Jesus está lá, pedindo a nós que os reconheçamos, para que essas pessoas vivam os valores do Reino. E uma coisa interessante: São João, em seu evangelho, não fala de Deus nenhuma vez. Porque, para São João, o Reino de Deus não era uma realidade visível; para ele, o Reino de Deus era Jesus. Tudo, para São João, era Jesus.

 

Quem vê Jesus, vê o Pai. O Espírito Santo é o espírito de Jesus ressuscitado. O Reino de Deus é Jesus. Tudo, para São João, era Jesus. Jesus é o Reino, e Jesus faz o que? O bem. Anuncia o que? A verdade – não fake news. Ele não engana o povo, Ele diz a verdade. Inclusive, diz: "Quem segue meus passos, pode acabar na cruz". Jesus não engana, não; Jesus não faz fake news nem conta histórias pela metade. Se nós formos ver os milagres que Jesus faz, não são shows, não têm "estrelinhas" e holofotes. Por quê? Porque o Reino de Deus é discreto. Nós vamos construindo o Reino aos poucos. Onde aparece o Reino de Deus? O Reino de Deus aparece nos nossos pequenos gestos, no pedaço de pão que você dá a quem te pediu. Para quem está com fome, você vai, entrega, não tem brilho, não tem estrelinha, não aparece anjo, ninguém bate palma, não tem nada disso. Ali, naquele momento, aconteceu uma faísca do Reino de Deus, como estrelas no céu, como se ficassem apagando e ascendendo o tempo inteiro sinais do Reino. Toda vez que você faz o bem, que você defende a verdade, a honestidade, a justiça, você está fazendo brilhar, num instante, o Reino de Deus. E é este o Reino que nós temos aqui neste mundo; este mundo aqui poderia ser um mar de luzes... Mas, muitas vezes, é um mar de trevas. Ainda assim, quanto maiores as trevas, mais a luz brilha! Vocês já andaram... Bom, para moradores de cidades, como aqui, é mais difícil, mas pega a rodovia Castelo Branco – eu falo dessa rodovia porque é a única que eu conheço mais –, pega a rodovia e vai embora. Depois da entrada para São Manoel, entre numa estradinha de lado qualquer em uma noite sem lua, com céu encoberto... É um breu total. No meio deste breu, se você acende um palito de fosforo, você pode ser visto a quilômetros! Em um mundo onde reinam as trevas, Jesus nos ensina a ser luz. E Ele quer que nós transformemos essa maré de trevas em um mar de luzes! Esse é o Reino neste mundo. Porque, no Reino de Deus, é só luz, lá não tem trevas.

 

Vamos pedir ao Senhor que nós possamos reconhece-Lo e, desse modo, estar sempre preparados para Sua nova vinda. Hoje, um modo de dar testemunho da luz é ficar em casa, esquecer de fazer festinha de Natal e Ano Novo. Quer comemorar Natal de 2021 e Ano Novo de 2022? Fique em casa! Sem festinhas, para não comemorar o ano que vem no cemitério. Entendeu? Está muito preocupante, não se iluda! Se feche em casa neste fim de ano, melhor renunciar às festinhas de 2020 para comemorarmos em 2021. Isso também é cuidar e amar os outros.

Três passos para a conversão

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 2º Domingo do Advento (Ano B) – 06/12/2020 (Missa às 10h).

O livro do profeta Isaías foi escrito em três etapas: a primeira parte é do tempo do profeta (700 a.C.), a segunda parte é do tempo da volta do exilio da Babilônia por volta dos anos 535 a.C. e uns 50 ou 60 anos depois, o que nós chamamos de terceiro Isaías. O segundo Isaías anuncia o retorno do povo exilado. Os chefes do povo, os nobres, a corte foram exilados na Babilônia. Só ficaram na Palestina as pessoas mais pobres do lugar, esse pessoal ficou passando miséria por 70 anos. Aí veio o rei Círio da Pérsia e fez todo mundo voltar para a Palestina, então os discípulos do profeta contemplam um Deus que volta com o seu povo. Essa é a diferença do Deus de Israel para os deuses dos outros povos. Os deuses dos outros povos eram fixos em templos e o templo não se move. São as pessoas que vão até o templo. O Deus de Israel é um deus que está com o seu povo. Por isso que nós, neste período de pandemia, que estamos em isolamento e rezamos em casa, Deus está conosco. Porque Ele não depende dessas quatro paredes aqui. Ele está onde estão os seus filhos, onde estão as suas filhas. Esse é o nosso Deus.

E Jesus é a revelação do Pai: Deus que desce do céu, se esvazia de si mesmo e se torna um de nós, mas é sempre Deus. Humano como nós, porque Deus pode fazer isso. Nós não podemos ser deuses. Se nós queremos ser deuses, nós caímos na autoidolatria que é o pecado das origens: ‘Vocês serão como deuses’. Mas Deus pode ser um de nós, Ele pode se tornar um de nós e, em Jesus, Ele se tornou um de nós. Por isso que as palavras, os gestos, as opções de Jesus, para nós, são normativos. Por quê? Porque Ele é Deus, Ele é o Filho de Deus, que amou com coração humano, andou com pés humanos, se compadeceu de nós e das nossas misérias, veio ao nosso encontro e Ele nos convida – e João Batista também – a um caminho de conversão. Porque se Jesus é o homem novo, o homem que Deus pensou desde toda a eternidade, para que eu seja uma pessoa nova, uma pessoa do Reino de Deus, eu tenho que olhar para como age Jesus.

São João diz ‘conversão’. E conversão é o que? Se eu estou andando para um lado, eu olho Jesus e Ele diz que o caminho é para o outro lado, então eu começo a seguir o caminho de Jesus. Eu mudo o caminho. Eu sigo as vias novas de Jesus. Muitas vezes, não são as minhas. Se eu sou uma pessoa injusta, começar a praticar a justiça. Se eu minto, começar a falar a verdade. Se eu não me preocupo com os outros, começar a me solidarizar com o sofrimento dos nossos irmãos. Olha que frase bonita aqui no Salmo 84: ‘A verdade e o amor se encontrarão, a justiça e a paz se abraçarão, da terra brotará a fidelidade e a justiça olhará dos altos céus’. O nosso Deus é um Deus fiel. Ele nos ama na verdade, no amor e na justiça. Ele nos dá a paz. E busca em nós correspondência para a sua fidelidade, que na nossa vida é a perseverança no bem, mesmo que isso possa custar perseguição, mesmo que isso possa custar a morte.

É a isso que esse Tempo do Advento nos convida: viver de um jeito novo, na espera do dia em que Jesus volta. Olhando os passos de Jesus, acertar os nossos passos hoje, esperando a sua volta. Desse modo nós conseguimos construir um mundo novo, com relações novas entre nós. O que quer dizer fidelidade? As pessoas saberem que podem contar conosco, que não vamos deixá-las na mão nem trai-las ou virar as costas. Isso é fidelidade. No nosso tempo, não dar ouvidos às mentiras que se contam para todo o lado. Fidelidade é querer o bem do povo, é querer construir uma sociedade boa e justa e não destruir tudo o que a sociedade tem. Agora nós estamos num tempo da demolição, os senhores que estão sentados lá em cima estão demolindo tudo, isso não é fidelidade ao povo. Temos que construir um mundo novo, tempos novos. Seguir Jesus é construir isso, o bem entre nós, começando pela solidariedade, nos importarmos uns com os outros.

 

Vamos pedir ao Senhor que nos dê coragem: primeiro, de ver onde nós estamos andando, depois a coragem de olhar como Jesus fazia e o terceiro passo da coragem, mudar as nossas atitudes e os nossos caminhos para seguir Jesus. Vamos lá, são três passos: 1. Ver onde eu estou. 2. Olhar Jesus. 3. Seguir os passos Dele. O Espírito Santo pode fazer isso em nós. Vamos pedir que Ele nos ajude!

Espera no Senhor

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 1º Domingo do Advento (Ano B) – 29/11/2020 (Missa às 10h).

Nós estamos lendo, neste novo Ano Litúrgico, o Evangelho de São Marcos – pois, hoje, para a Igreja, começa o Ano Novo, o novo ciclo da liturgia, e quem vai nos acompanhar este ano é São Marcos. Como ele é muito curto, nós vamos ter vários trechos de São João e de São Lucas também durante o ano, mas digamos que a "espinha dorsal" das leituras do Evangelho será São Marcos. O ano passado foi São Mateus; neste ano litúrgico será São Marcos; e, no ano que vem, o Advento vai começar com São Lucas.

 

Vigilância. Nós, muitas vezes, queremos que Deus intervenha na história. "Por que Deus não acaba com esse coronavírus?" – tantas vezes ouvi isso da boca das pessoas... "Por que Deus não acaba com as guerras no mundo?", "Por que Deus não acaba com a fome?". Nós estamos dizendo a mesma coisa que o povo de Israel dizia, quase desafiando Deus: "Por que você não rasga o céu e faz alguma coisa?". A história humana, Deus deu para nós criarmos. É a nossa parte da criação, e Ele não vai "descaroçar o angu" que nós encaroçamos, nós é que vamos ter que descaroçar esse negócio... De que jeito? Voltando para o caminho de Deus. E qual é o caminho de Deus? Justiça, paz, verdade, honestidade, solidariedade. Olha que coisa: solidariedade. Isso, para a comunidade cristã inteira. Para que? Para que nós sejamos, no mundo cheio de trevas, luz. Porque um cristão desonesto, vale nada; um cristão injusto é das trevas do mesmo jeito. Quem pratica a verdade, a justiça, a honestidade, esse sim é luz! É um cristão que é luz no mundo. E é luz o que somos chamados a ser, como comunidade. Então o que Deus espera da sua comunidade é que, em cada tempo, ela seja uma luz. Luz de amor ao próximo, de serviço, de justiça, de honestidade, de solidariedade... De verdade!

 

Qual o grande problema que nós estamos atravessando agora na sociedade? Fake news, ou seja, mentiras, notícias falsas. Fake, em inglês, quer dizer falso; news, notícias – notícias falsas. Para quê? Para enganar as pessoas, para enganar o povo; para que, desse jeito, eu possa dominar o povo; para que eu seja a única fonte da verdade e, quando falar que o branco é preto, todo mundo diga que é preto. Mas continua sendo branco. Então o cristão, hoje e sempre, tem que ser uma pessoa da verdade, como comunidade, esperando o dia do Pai. Não adianta fazer contas com os números da Bíblia, não adianta ficar fazendo conta com astrologia, achar que o asteroide número não sei qual vai vir, bater na Terra e acabar com tudo. Não adianta ficar tendo esse tipo de conversa. O tempo de Deus é Dele, é do agrado Dele, e não tem ninguém, nem no céu nem na terra, que abaixe aqui e venha dizer quando é – nem a Virgem Maria faz isso, porque ela também não sabe. Jesus falou que só o Pai sabe, ponto final, palavra de Jesus.

 

Depois, para cada um dos discípulos, para cada um de nós, discípulos e discípulas, quando é o dia do Senhor, o dia do encontro com o Senhor? Primeiro, todo momento é momento de encontro com Deus. Todo momento, porque Deus é mais presente a nós do que nós mesmos. Todo tempo é tempo de encontro com Deus, mas o grande momento é o momento da morte, quando nós nos encontraremos face a face com o Pai – ou, alguns místicos dizem, face a face com a única imagem do Pai, Jesus crucificado. E, ali, se dá o julgamento do mundo. A morte não é algo determinado, não está escrito num livro: "Você vai viver tantos dias". Isso não existe, isso é bruxaria. Deus conhece? Claro que conhece, na onipotência, na onisciência Dele. Porém, em Deus, as coisas são eternas. Nós vemos o tempo; Deus vê a eternidade.

 

Nós temos que estar prontos para a morte, e este tempo nosso aqui está nos alertando muito. Quantas pessoas nós conhecemos que estavam bem e, por causa desse vírus, não estão mais conosco? Por responsabilidade – ou irresponsabilidade – do governo, isso é outro problema, mas quantos não estão mais conosco? Quantas pessoas morrem de infarto todos os dias? Que estava bem, era novo, nova... Eu me lembro de uma paróquia onde tinha um casal com dois filhos e a esposa tinha problema de coração; eles estavam tomando café, de manhã, e ela simplesmente caiu morta em cima da xícara, mortinha da Silva, na frente do marido e dos filhos. Quantos jovens estão andando na rua e caem mortos por aneurisma? Quantas pessoas de idade foram internadas, entubadas, passaram quarenta dias em UTI, em hospital, com Covid e, no fim, saíram boas? Quantos jovens foram e não voltaram?

 

A morte é incerta, então Jesus nos convida a estar sempre prontos. Prontos em quê? Na prática das boas obras, na prática do Evangelho, do amor, perdão... E, naquilo que não conseguimos perdoar, pedir a Deus que nos ajude – e Deus ajuda. Além disso, ajudando os outros que sofrem, não sendo indiferentes. "Ah, mas eu tenho que ficar em casa o dia inteiro, porque eu sou do grupo de risco", mas fica lá vendo bestagem no WhatsApp o dia inteiro... Em vez disso, mande uma mensagem para as pessoas que você conhece e sabe que não estão bem. Telefone para alguém, para consolar as pessoas. Esses são modos de estar presente, mesmo estando longe. Você reza pelos outros? Com mais tempo, você lê a Palavra de Deus? Para aprender mais sobre Jesus, para aprender mais a como viver o Evangelho... São questões. Vigiai, preparai-vos, porque o dia do Senhor chega para todos nós. Ninguém vai ficar para semente não, viu, gente? Todos nós, daqui a 100 anos, nenhum que está aqui, nenhum, nem o que estiver na barriga da mãe vai estar mais neste mundo.

 

Este tempo é tempo de fazer o bem; este tempo é tempo de ser luz para o mundo; este tempo é tempo de ser testemunhas de Jesus e do Seu santo modo de agir. Advento é isso, Advento é a espera. Espera do Natal? "Mas o Natal já foi há dois mil anos...". É a espera da vinda do Senhor. Ele quer que a nossa comunidade seja luz para o mundo, para este mundo. Ele quer que cada um de nós sejamos discípulos e discípulas, pratiquemos as palavras do Evangelho. Nós lembramos o Natal para esperar a segunda vinda de Jesus. E, como diz São Paulo, na segunda leitura [1Cor 1, 3-9], Deus é fiel – o que Ele promete, Ele faz, e Ele vai cuidar da gente.

 

Muito bem. Por que é que o Padre veste roxo? Morreu alguém? Não. O roxo, as cores da liturgia, não são para moda – "Ah, hoje eu quero usar verde, amanhã eu quero usar vermelho". Não tem isso, não. Cada tempo tem uma cor, e a cor agora é o roxo, o tempo do Advento é roxo. O roxo significa três coisas: penitência (durante a Quaresma, nós também usamos roxo), espera (Advento, que é o que nós temos agora) ou celebração dos mortos. São essas três coisas que significa o roxo na liturgia. O verde é o Tempo Comum, é a maior parte do tempo, quando nós seguimos Jesus passo a passo pelo Evangelho. Depois nós temos o Tempo da Páscoa e o Tempo do Natal, que são brancos. Pentecoste é vermelho, e quando celebramos os mártires, pessoas que derramaram o sangue por causa do Evangelho, também usamos vermelho.

Jesus traz os oprimidos ao banquete do Reino

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – Solenidade de Cristo Rei (Ano A) – 22/11/2020 (Domingo, missa às 10h).

Este evangelho[Mt 25, 31-46] traz um ponto de reflexão constante para nossa vida cristã. Foi baseado neste evangelho que Frederico Ozanan fundou os Vicentinos. São Vicente de Paulo, duzentos anos antes, vivia dessa espiritualidade: do serviço ao pobre, ao que sofre. Hoje em dia, continuamos, infelizmente, tendo tantas situações de sofrimento e de injustiça no mundo. Nós vimos, dois dias atrás, um homem espancado em um mercado, depois de agredir um vigia. Ele cometeu um erro, mas isso não justifica que a pessoa seja espancada até a morte. E este homem que foi morto era negro. Então nos vem a pergunta: “se fosse um homem branco, teriam feito aquilo?”. Temos que nos fazer estas perguntas.

Um dia, uma pessoa me perguntou: “por que que fala tanto de negro? Para de falar tanto, fala de branco também”. Mas o que não se percebe é que de branco se fala o tempo inteiro. Quando você assiste novela, a maioria é branco. Agora que começaram a mudar, mas antes você podia contar dois ou três artistas negros. Tudo é baseado na cultura branca. Nós não temos o racismo segregacionista da África do Sul, no qual os negros ficavam em lugares separados dos brancos durante o período do Apartheid. Isso não existe no Brasil. Nós também não temos o mesmo segregacionismo americano, mas não podemos dizer que não temos racismo no Brasil.

Vocês já ouviram falar das conversas que os pais negros têm com os filhos quando tem 10, 11 ou 12 anos? A conversa do pai é – prestem atenção nas palavras –: “filho, quando você for parado pela polícia (não é “se”, é “quando”; ele sabe que vai ser parado porque ele é negro), olhe para o chão, entregue os documentos, seja educado, responda às perguntas, se estiver com tênis novo, leve a nota fiscal na carteira”. Se isso não se chama racismo, eu não sei o que vai chamar. Qual pai branco teve essa conversa com o filho quando tinha 11 ou 12 anos? Nenhum. Isso nem passa na nossa cabeça. E os negros são pouco mais da metade da população brasileira.

Não adianta alguns senhores que se sentam em certas cadeiras dizerem que, no Brasil, não há racismo. Não tem como aparece nos EUA e na África do Sul, mas tem. Pergunte a um negro. Tem a história da moça que foi com a amiga negra fazer comprar no shopping. Ela queria comprar sutiã. Chegaram no shopping e a vendedora se dirigiu somente à branca, nem considerou a negra que estava com ela. Só quando foi informada que a moça negra era a cliente é que se dirigiu a ela. A moça negra disse que queria um sutiã cor da pele. A vendedora pegou todas as variações de bege. Por quê? Porque pensamos que cor de pele é só branca. Isso se chama racismo introjetado e nós fazemos isso todos os dias. A vendedora, que não é mais culpada do que nós, deveria ter perguntado: “é para você? Qual a cor de pele da pessoa?”. Racismo introjetado é isso: se você vai comprar uma tinta e quer tinta cor de pele, ela vai ser bege.

Isso está na nossa cabeça e se chama racismo estrutural. E nós somos culpados? Não! Mas temos que ligar o sinal vermelho e saber que não está certo. Que cor você quer pintar a pessoa? Se for São Benedito, a pele é escura; se for Santa Clara de Assis, então a pele é clara. Do mesmo modo, se é uma mulher negra, as cores de sutiã cor de pele serão dentro do cinza, do negro, do marrom. Nós temos que ligar o sinalzinho vermelho.

Padre, e o que isso tem a ver com o evangelho? Tudo! Porque se o Evangelho não nos incomoda, não nos cutuca, é porque estamos lendo errado. Hoje, no Brasil, amar o próximo é respeitá-lo na sua diferença, é considerar o outro, um cidadão como eu. A lei leiga, ou seja, que não é confessional, reconhece isso: “todos os cidadãos são iguais diante da lei”. Mas, algumas semanas atrás, uma juíza escreveu em uma sentença: “pela raça desta pessoa, a gente já vê que tende ao crime”. Isto é falso e absurdo. Ser cristão, hoje, no Brasil, é ter uma mentalidade antirracista. “Eu era negro e você me respeitou” é o que o evangelho nos fala hoje. Eu era negro e você não fez piada. Eu era gay e você não ficou fazendo chacota da minha cara. Eu era loira e você não me chamou de burra. Inclusive, atualmente, estas coisas dão até cadeia. O Evangelho se atualiza nas várias realidades, por isso é Palavra de Deus. E hoje, no Brasil, ele pede respeito, justiça e honestidade. Olha que coisa horrorosa! A que nível nós caímos! Alguns anos atrás, isso eram coisas quase descontadas pois assumia-se que as pessoas eram honestas. Hoje em dia, ser justo e respeitar o outro virou valor cristão. O evangelho incomoda e nos obriga a tomar atitudes. O que podemos fazer? Parar de fazer piadas sobre negros, sobre gays, loiras. E você vai ver como é difícil parar. Você vai ver como isso entrou dentro da sua cabeça. E para mudar, precisa de esforço.

Vamos aprender: quando estou chegando perto do farol e eu vejo um rapaz negro, eu fecho o vidro? Eu faria a mesma coisa se fosse um branco? Ou a gente faz com os dois ou não faz com nenhum! São coisas para pensar. É o evangelho do julgamento. E isso não é política. Esse é o evangelho que incomoda em uma situação que nós vemos todos os dias. Vamos pedir ao Senhor que Ele nos ajude a nos limpar destas ideias e conceitos podres que colocaram dentro da gente. E que nós não temos culpa. Cuidado. Foi colocado dentro da gente. Anos e anos pensando assim. Mas temos que ter consciência e começar a limpar, olhando para Jesus que, na cruz, que foi o Seu trono, perdoou e levou para junto de si nada menos que um assassino.

Fazei o bem com os dons que Deus nos dá

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 33° Domingo do Tempo Comum (Ano A) – 15/11/2020 (Domingo, missa às 10h).

Tanto o Evangelho da semana passada das virgens, como este de hoje, nos fala da vinda do Senhor e fala aos discípulos de Jesus. Jesus monta esta parábola em volta de um fato histórico: o rei Herodes, o grande, que matou os inocentes, ele foi para Roma e comprou o título de rei. E um grupo de inimigos dele foi logo atrás, só que chegaram atrasados e o rei já tinha comprado o título. Quando eles voltaram para trás, o rei mandou cortar a cabeça de tudo mundo. Jesus usa este fato e conta essa parábola. O rei foi para um país estrangeiro e confiou os seus bens aos seus servos. Ele chamou os servos – este “chamou” é a mesma palavra que se usa quando Jesus escolhe os apóstolos, Jesus passou a noite rezando e, ao amanheceu, chamou os seus discípulos e escolheu 12 entre eles. Esse “chamou” então é uma escolha do Senhor.

 

Deus nos chama e Deus nos dá talentos: a vida, as nossas aptidões, os nossos sentimentos, nos dá a vida e isso tudo é graça. Se nós nos convencermos de que nós não somos donos nem de nós mesmos, tudo o que temos e somos é graça de Deus, nós vamos começar a cuidar muito melhor disso. E o que somos não é para nós é para a vida do mundo, para que o mundo seja melhor, mas o que é o mundo? Minha família, minha vizinhança, minha comunidade, minha cidade, meu estado, meu país, este é o mundo. Dar frutos: paz, justiça, solidariedade, honestidade, estes são os frutos que Deus quer para nós, além do fato de também testemunhar o Evangelho, testemunhar o nome de Jesus e as opções de Jesus – isso é ser cristão, isso é ser discípulo de Jesus.

 

Este Evangelho não está falando de problemas bancários de inflação, a preocupação desse Evangelho é outra. Um talento, naquela época era muito dinheiro, eram 6 mil diárias de dinheiro, imagine mil dias são três anos, seis mil é o trabalho com o salário de 18 anos. Um talento é muito dinheiro, então ele entregou esse dinheiro na mão desses servos, para cada um segundo a sua capacidade, pois nós não somos iguais: tem gente que sabe falar bem, tem gente que sabe consertar as coisas, tem gente que sabe ajudar os outros, tem gente que sabe curar feridas, tem gente que sabe fazer comida e tem gente que sabe construir paredes. Cada um segundo a sua capacidade e foi embora e o rei confiou neles, veja só confiança! Quem é este rei? Nesta parábola, é Jesus que confiou aos seus discípulos a Palavra do Evangelho, confiou a nós os mandamentos do Evangelho amai o próximo a ponto de dar a vida por ele e amai a Deus sobre todas as coisas, Deus que é pai de todas as coisas, Deus que é pai de todos, Deus quer que todos tenham vida. E Jesus volta, Ele vai voltar, essa é a nossa fé: Ele prometeu que volta. “Na casa do Pai tem muitas moradas, eu vou e vou preparar para vós uma morada para que onde eu esteja vocês também estejam”, essa é promessa de Jesus e Jesus é fiel. Aqui tem fidelidade: Ele volta! E, quando Ele voltar, Ele vai pedir o que é Dele. “Eu confiei a vocês essa missão, eu dei para vocês os dons necessários para cumpri-la, como que vocês fizeram isso?”, essa é a pergunta. Qual que é o coração dessa parábola? Fidelidade! Ser fiel ao Senhor e ser fiel significa produzir, colocar em prática aquilo que o Senhor nos ensinou, lutar para que os valores de Jesus sejam implantados no mundo, que nós aprendamos que a pessoa que está do meu lado, que todas as pessoas do mundo, começando sempre pelas periferias, pelos últimos, todas são meus irmãos e irmãs! Este é o caminho.

 

E hoje é dia de eleição e a gente tem que se perguntar: este candidato realmente se preocupa com o povo? Esse candidato realmente se preocupa com as periferias da cidade? Esse candidato está cuidando das coisas básicas para o nosso povo, especialmente, para o povo pobre: escola, educação, saúde? E durante os próximos quatro anos, você tem a obrigação de ir procurando para ver o que está fazendo, se está fazendo esse mundo melhor. É isso que a gente tem que fazer: procurar que este mundo seja melhor, em todos os campos. Tem gente que tem a vocação da vida pública, da vida política, isso é graça de Deus também. Nem todos nós podemos ser políticos, mas todos nós podemos nos preocupar com a vida do povo, isso é política também.

 

Precisamos ser fiéis. E o que aquele terceiro homem fez? Gente, tem uma situação muito estranha se prestar a atenção no que o rei falou: “você deveria ter pego o dinheiro e colocado no banco”, é o mínimo de interesse por aquilo que era do rei. Você pega o negócio e entrega para o banco, você não faz nada, o banco pensa por você. Se você aplica o dinheiro na poupança, você não precisa ir lá todo mês colocar mais dinheiro, a poupança vai sozinha. Você nem precisa se preocupar, a única preocupação é você dizer: vamos guardar esse dinheiro num lugar seguro, o banco é um lugar seguro. Mas o que este homem fez? Abriu um buraco no chão e enterrou ali aquele talento. Existia um costume hebraico, naquele tempo, que se você caminhasse e por um acaso de repente batesse lá num saco de dinheiro, você podia pegar aquele dinheiro para você, ou seja, isso demonstra que o servo não teve cuidado nenhum com o dinheiro. Ele enterrou lá e se qualquer outra pessoa descobre, leva embora. Ele não mostrou nenhuma preocupação, chega ao desprezo. Ele podia ter chego no fim e falado para o patrão: “eu enterrei, mas acho que alguém levou embora, eu não achei mais”, isso é total desprezo.

 

Não podemos desprezar o Evangelho de Jesus. Ou nós somos discípulos e discípulas fiéis ou nós estamos na infidelidade. Isso não significa as nossas fraquezas, debilidades, porque Deus sabe tudo isso. Quando Ele nos chama, ele dá segundo a capacidade de cada um. Tem quem tem o ombro fraco, Ele não vai dar peso muito grande. Tem quem tem a mão torta, Ele não vai mandar essa pessoa fazer um bordado. Ele dá segundo a capacidade de cada um.

 

Vamos fazer o bem, querer bem as pessoas, nos importar com elas, nos preocupar com os pobres, nos preocupar com a nossa esposa, com o nosso esposo, com os nossos filhos. Nos preocupar, nos ocupar deles, conversar com as pessoas, ser honestos. Que coisa horrorosa, gente, temos que chamar as pessoas a honestidade. Que coisa triste. Honestidade tem que ser de todo dia. Temos que aprender a ser pessoas honestas: esse é caminho de Jesus e aprender que o outro e a outra é meu irmão e minha irmã, eu não sou melhor do que eles, estamos todos no mesmo barco e vamos chegar todos na casa do Pai. E o Pai vai perguntar para nós: “que bem que você fez com os dons que Eu te dei?”. É isso que Ele vai perguntar. Ele não vai perguntar dos seus pecados: “que bem você fez?”

Paróquia Santa Teresinha

Praça Rui Barbosa, s/n - Santa Terezinha, Santo André/SP

Informações: Tel. (11) 4996-3506 | WhatsApp. (11) 99971-5580 | teresinha.sa@diocesesa.org.br | Redes sociais: @santateresinhasa