Homilia  

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É através do Evangelho de Jesus que aprendemos a seguir seu caminho

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha  -  4º Domingo do Tempo Comum (Ano C – 16/01/2022 - missa às 10h) 

O tempo de Natal esse ano foi muito curto por causa do dia em que foi o Natal, quando coincide com a sexta ou sábado, fica tudo corridinho. Hoje iniciamos solenemente, com o Batismo do Senhor, o Tempo Comum, também chamado Tempo Ordinário, são 34 domingos onde nós somos guiados, passo a passo, por um dos evangelistas – esse ano é São Lucas. Vamos seguir Jesus até que cheguemos no último domingo do ano, vamos celebrar Jesus Rei do universo e o trono dele é a cruz. Será um longo caminho de Jesus, de pregação, de curas, de brigas, de bate bocas com as pessoas do poder religioso, de chamado aos seus discípulos, multiplicação dos pães, transfiguração... Sobre todos esses eventos da vida pública de Jesus vamos meditar durante todo o ano e seremos ajudados esse ano por São Lucas, que era cristão, filho de mãe cristã e pai pagão. Ele era médico e devia ser uma pessoa muito estudada. Ele fala, no começo do seu Evangelho, que fez muitas pesquisas. Ele não conheceu Jesus pessoalmente, mas fez muitas pesquisas e foi preparando esse texto que é o Evangelho de Lucas e os Atos dos Apóstolos. Foi uma obra escrita e planejada em dois volumes: Evangelho e Atos dos Apóstolos. No seu Evangelho, ele usou uma grande parte o Evangelho de São Marcos que já estava escrito, então ele foi juntando tudo que tinha na comunidade de Roma e escreveu o Evangelho para os pregadores. Ele usou esse material e muitos outros. O texto de São Lucas é escrito em um grego tão bonito, é um texto tão bem-feito que é considerado uma das obras literárias do primeiro século! É um Evangelho muito gostoso de ler, é bonito e elegante, é chamado de “o Evangelho dos pobres”. São Lucas vai colocar a sua ênfase, dar destaque aos pobres, aos últimos, aos pecadores. De fato, em seu Evangelho, quando vimos lá no presépio, ele mostra a visita dos pastores, nas bem-aventuranças vamos ouvir as bem-aventuranças secas, “bem-aventurados os pobres” deles é o reino do céu. Maria também vai cantar a misericórdia de Deus sobre os pobres e os humildes.

Então, em São Lucas, nós iniciamos com esse momento: o Batismo de Jesus e o que percebemos? Jesus não chegou triunfante nas margens do Jordão dizendo: “olha, eu sou o bombom da história”. Jesus chegou como as outras pessoas, Deus caminha com seu povo, Deus caminhava com o povo, no Antigo Testamento, ao longo do deserto e estava presente na vida do povo, na arca, no templo, nas orações. Deus está sempre presente e Jesus está no meio do seu povo. Deus não está acima de ninguém, Ele está no meio de nós, caminha conosco, guia nossos passos, mas no meio de nós. O povo ia até João porque estava esperando e achava que João Batista era o messias, ficaram 500 anos sem profeta na Palestina e de repente apareceu esse homem com sinais que o povo conhecia, como o profeta Elias, vestia um manto, cinturão de couro, ele também comia gafanhoto, mel silvestre, era a vida do deserto. Essa era a vida de João Batista e o povo ficou impressionado porque esse homem pregava com muita força e anunciava a chegada eminente de Deus. E junto com o povo que vinha Jesus também veio, recebe o Batismo e se retira a parte para rezar.

 

É muito importante para Lucas esses momentos de oração de Jesus. É no silêncio, na oração, no recolhimento que Deus nos fala. Temos que criar um coração que esteja esperando. O silêncio faz isso. Esperar Deus falar nos mostra o caminho, nos ensina, Ele sempre reponde no tempo Dele, mas nenhuma oração nossa é perdida, Deus nos escuta sim, Deus se manifesta não para Jesus, para o povo. Para nós, Ele manda o Espírito de forma certeira em cima de Jesus, é esse o eleito, é esse o messias, esse é o meu filho amado, nele eu coloco o meu bem querer. Isso é uma manifestação para as pessoas. Jesus não precisava disso, mas marca também um início da missão pública de Jesus. Até então Jesus vive o que chamamos de vida oculta, vida normal do dia a dia, como todos nós: trabalhava, vivia, na comunidade de Nazaré e em Cafarnaum uma vida normal de um carpinteiro daquele tempo. Agora não, agora essa vida é largada para trás e se inicia a missão de Jesus: missão que será a libertação dos pobres, anunciar aos pobres que o reino de Deus é deles, não dos donos da religião, não dos donos do poder, mas dos pobres, aqueles que o mundo não considera, aqueles que são considerados perdidos pelo mundo, aqueles que é uma conversa que conseguimos entender até na língua econômica, “aqueles que não contam para o mercado”. Para essas pessoas que são massa de manobra, é para eles que Deus anuncia a salvação. A lógica desse mundo não é a lógica de Deus e isso nós também descobrimos na oração como Jesus fez. Vamos pedir ao Senhor que nos ajude nesse ano litúrgico guiado por São Lucas.

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O Batismo de Jesus é um sinal para o povo

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha  -  Batismo do Senhor (Ano C – 09/01/2022 - missa às 10h) 

Casamentos são coisas que acontecem sempre. Na região da Palestina, mas também no mundo Oriental da época, casamento durava uma semana. A noiva era levada para casa do noivo, aí tinha uma festa e se servia, seguramente, muito vinho. E numa situação como essa, que ainda não era o fim da festa, acabar o vinho era um desastre. Mas qual a coisa interessante dessa história? É que Maria vai avisar quem que acabou o vinho? Jesus. Jesus não é o noivo, e de fato Ele responde: “esse não é problema nosso, é do noivo.” E Maria – seguramente os servos estavam perto dela – diz: “façam o que Ele disser.”

É Jesus que nos dá o vinho da salvação, o vinho da vida. As talhas de pedra que os judeus usavam para fazer as suas purificações antes das celebrações, das festas, estavam secas, não tinham nada. Pedra seca é pedra sem vida. O que se está dizendo aqui?  As tradições hebraicas, a fé, na lei, secaram, não dão mais vida, não dão mais nada. Você não arranca vida de pedra seca.

Jesus manda que se coloque água ali porque Ele é a fonte de água viva, e o vinho transformado é um vinho de ótima qualidade, “Você esperou até agora pra nos dar o vinho bom”, quer dizer o que? Os vinhos que os outros deram antes – os reis, os profetas, os sacerdotes – não era ainda o vinho bom. O vinho do Reino é aquele que Jesus dá. E é muito importante lembrar que Jesus multiplica os pães, e o pão faz referência à Eucaristia, mas Jesus muda a água em vinho, e este vinho faz lembrar o cálice que nós consagramos, que é o sangue do Senhor.

A vida eterna é só Jesus que nos dá. Nem a lei, nem os profetas, nem os reis do Antigo Testamento, nenhum deles dá vida eterna, só Jesus. E, para isso, é preciso obedecer a única ordem que Maria nos dá na Escritura, única: “façam o que Ele vos disser”. Seguir Jesus, os passos dele, o jeito dele pensar, os seus valores, as suas ações, claro, dentro do nosso tempo, esse é o caminho. 

As bodas de Caná nos apresentam a figura de Maria, que, aliás, não é nomeada, é chamada mãe de Jesus, e Jesus se dirige a ela com essa estranha palavra: mulher. Nós temos que olhar os textos de São João. No Evangelho nós temos duas menções de Maria: no início, quando Jesus começa a manifestar a sua glória, e na máxima manifestação da glória de Jesus, que é a Cruz. Maria está presente nos dois momentos, e nos dois momentos Maria aparece com os discípulos. Por quê? Porque para Jesus e para a comunidade dos cristãos não contam mais as ligações de sangue, mas o seguir Jesus.

 

Seguir Jesus nos faz ser filhos e filhas de Deus, irmãos de Jesus. Maria segue junto com os discípulos; na cruz ela está ao lado do discípulo amado e das outras mulheres que seguiam Jesus. É na comunidade dos discípulos que nós descobrimos a vontade de Deus e o caminho de Jesus.

 

Então nós temos esses dois: Caná e Cruz, e no livro do Apocalipse, que foi também escrito pela comunidade de São João, nós temos a figura da mulher vestida de sol que dá à luz o Messias. Nestas três imagens nós temos o Israel fiel, a mulher representa o povo de Israel que espera o Messias, representa a comunidade dos discípulos que segue Jesus, e é a Virgem Maria, única no universo a ter gerado o filho de Deus. As três figuras se fundem em uma só: fidelidade, seguimento.

 

Estas duas características estão presentes na Virgem Maria e devem estar presentes em todos nós. Lembrar sempre: nós não precisamos correr atrás de aparições, de revelações, não, vai ficar escutando mensagenzinha todos os dias de Nossa Senhora, não. Nós temos uma ordem dela, e essa está no Evangelho: façam o que Jesus vos diz, ali, no Evangelho, não inventam moda, no Evangelho de Jesus. Amem-se, perdoem-se, sejam capazes de ajudar uns aos outros. Respeitem-se – esse é o começo do caminho de Jesus.”

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É das periferias que vêm a Salvação de Deus

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha  -  Epifania do Senhor (Ano C – 02/01/2022 - missa às 10h) 

Epifania é a manifestação de Deus aos povos. Nós temos 2 evangelhos que falam do nascimento de Jesus: o evangelho de Lucas, que nos fala dos pastores que foram lá encontrar Maria, José e o Menino. E nós temos o Evangelho de Mateus, que nos fala dos Magos do Oriente. Magos do Oriente que nós chamamos de reis. Eram sábios, sacerdotes, adivinhos, astrólogos. Homens da sabedoria pagã. Nós temos que ter muita atenção. O povo de Israel olhava com muito desprezo os povos pagãos. Eles chegavam a dizer que estas nações pesam na balança como poeira ou como uma gota de água em um balde. Isto é sinal de desprezo total pelos pagãos. No Evangelho de Lucas, os primeiros que recebem o anúncio são estes pastores, que eram uma gente perigosa. Muitos deles eram ladrões, assassinos, perdidos no meio do nada, cuidando destes animais por muito tempo. E, agora, estes magos, estes bruxos, adivinhos dos pagãos, vêm para Jerusalém encontrar os sumo sacerdotes e os mestres da lei. 

 

A cruz e o presépio dialogam constantemente, um ilustra o outro. Quem condenou Jesus à morte: os sumo sacerdotes e os doutores da lei. As mesmas funções. E mais: os magos que reconheceram a estrela – o sinal de que nasceu um Messias em Israel – chegam em Jerusalém, a Sede da religião hebraica, que recebeu a lei e os profetas, que reza e espera as promessas de Deus. Como diz São Paulo, tem a lei e as promessas. E este povo fica de boca aberta com o fato de ter nascido um rei. E quando eles falavam rei, pensavam logo no Messias. E, no ouvido do Rei Herodes – que era um louco tirano terrível – isso soava como ameaça. Ele já tinha mandado matar uma mulher e dois filhos por medo de perder o trono. Quando ouviu falar que nasceu um rei, aí endoidou. E foi lá perguntar para os sumo sacerdotes e doutores da lei o que a Escritura falava. Eles responderam que o nascimento seria em Belém. Aí ele, com muita esperteza – aquela esperteza que só as cobras têm –, recebe os magos, conversa com eles e pede para olharem bem onde ele estaria e depois lhe dessem notícias exatas. A cobra queria dar o bote. E eles, todos contentes, vão. Uma coisa interessante é que a estrela brilhava antes e a estrela brilha depois. Quando eles entram em Jerusalém, a estrela some. Quando eles saem de Jerusalém, ela volta a brilhar.

 

Jerusalém é a cidade das luzes. A cidade do templo, a habitação de Deus. E essa cidade tornou-se cega, a escuridão. Os magos vão e encontram Maria e o Menino em casa. Não é mais no presépio. Isto havia sido no dia do nascimento de Jesus. José, provavelmente, permaneceu ali trabalhando como carpinteiro e conseguiram um lugar para ficar. Lá os magos os encontram e oferecem incenso, para o Deus do céu; ouro para o rei; mirra, para o homem que deve morrer. A intenção deles era voltar para Herodes e dizer para ele onde o menino estava. Mas um anjo do Senhor aparece e diz a eles para não retornarem pois ele ia querer matar o menino. 

 

Nós temos, depois, a matança dos santos inocentes. Eu mandei mensagem para o pessoal falando os santos inocentes e muitos perguntavam quem eles seriam. São as crianças que morreram em Belém. O rei Herodes descobriu que os magos haviam enganado ele, então calculou o tempo de nascimento daquela criança e pediu para matar todas as crianças que tivessem uma idade inferior àquele tempo. Isso é um genocídio terrível. Um monstro. Essas crianças que morreram antes de serem capazes de proclamarem sua fé, proclamaram a fé em Jesus pelo sangue. Por isso nós comemoramos os santos mártires inocentes. 

 

O que significa tudo isso? Que Deus não faz distinção de pessoas. A mesma salvação que Deus dá para os hebreus, ele dá para todos os povos. Porque Deus quer que todos sejam salvos. E quando se diz todos, são todos mesmo. Começando pelos últimos, pelos pastores, que eram uma “gentalha”. E por esses bruxos que vieram do Oriente, que eram desprezados pelo povo hebreu. De lá, Deus começa o anúncio da salvação para todos. É das periferias que vêm a salvação de Deus. 

 

Uma pergunta: quantos de nós nos preocupamos ao menos em rezar pelos desabrigados de Mauá e Ribeirão Pires? E para quantos de nós isto passou batido? Nós temos que estar atentos ao mundo dos pobres. Porque, quando o mundo dos pobres se tornar lugar de dignidade, de vida, o mundo estará mais perto do Reino de Deus. Este é o caminho. E saber reconhecer Deus nos vários sinais da vida. 

 

Estes bruxos do Oriente reconheceram através das estrelas, dos estudos de astrologia. Eles reconheceram pelos sinais que estavam ali. E nós temos que ter muito cuidado porque, do mesmo jeito que o povo de Israel não foi capaz de reconhecer o tempo de Deus, nós também, católicos, podemos não reconhecer os tempos da manifestação de Deus. Temos o risco de nos fecharmos dentro de nossas sacristias e, com isso, esvaziar o Evangelho. Nós temos que estar sempre atentos para que possamos ver os sinais da presença de Deus em nosso meio. 

 

Vamos louvar e bendizer a Deus pelo novo ano. Vamos pedir ao Senhor que nós possamos, neste ano, ouvir a Sua voz e interpretar os sinais da vida olhando a cruz de Jesus, que é também a cruz dos pobres.

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Seguir a vontade de Deus como Maria

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha  -  Solenidade de Maria, Mãe de Deus (Ano C – 01/01/2022 - missa às 16h)

A Boa Nova de Deus não é segundo o que nós queremos, mas é segundo que Deus quer. Nós julgamos as pessoas indignas de Deus, nós até amaldiçoamos pessoas, nós excomungamos pessoas, isso para Deus não significa um belo nada, porque exatamente a pessoas que eram consideradas malditas e eram mesmo – muitos deles, bandidos; alguns deles, assassinos – que todos da religião acreditavam que, quando Deus se manifestasse, essas pessoas seriam fulminadas, pois Deus escolheu exatamente essa gente para anunciar a paz. Os pastores eram pessoas muito rudes, violentas, muitos ladrões, assassinos, viviam meses e meses e meses nos campos cuidando desses rebanhos, numa situação realmente desumana. Estavam à margem de tudo o que se pudesse pensar. E eles foram os primeiros a receber o anúncio que tinha nascido um Salvador. “Nasceu para vós um Salvador”.

 

Qual é o grande sinal? A gente sempre pensa que os sinais de Deus são grandiosos, coisa d’outro mundo, não é? “Vocês vão a cidade de Belém e vão encontrar uma mãe, uma criança, deitada na manjedoura, ou seja, num cocho”. Quem pode esperar que Deus faça um negócio desse? E é bom lembrar que o romance de Natal só existe na nossa cabeça, viu gente? Aquilo ali era uma dureza extrema. Não tinha lugar para eles em lugar nenhum. Era muito comum que mulheres dessem à luz em estábulos, porque lá tinha feno e tinha o calor dos animais. Porém, a situação de Maria e José era diferente eles não tinham outra opção, não tinha lugar para eles. O Salvador do mundo nasce e é repousado num cocho de estábulo. Esses homens rudes avisam: nós vimos o anjo e ele falou paz na Terra para todos, porque Deus nos ama! Deus não nos julga, Deus não nos fulmina, Deus não nos manda para o quinto dos infernos, Deus nos ama!

 

E como a bondade de Deus se manifesta? Numa criança, recém-nascida. Quem tem medo de uma criança recém-nascida? O que pode uma criança recém-nascida fazer? Uma criança recém-nascida se você deixar ela parada por doze horas, essa criança morre. Uma criança recém-nascida não tem força para nada, não sabe se alimentar, não sabe se movimentar, não sabe fazer nada. Deus se revelou assim na fraqueza para que nenhum de nós tenha medo de se aproximar Dele. Aqueles homens não tiveram medo de ir até aquele estábulo porque Deus é uma criança recém-nascida, é um Deus bom. E o texto diz que eles falavam para as pessoas, talvez tivesse gente passando por ali e eles contavam para as pessoas e todos se admiravam: ué, mas os sacerdotes sempre falavam que quando Deus se manifestar vai fulminar todos os pecadores, não é essa gentalha aqui que eles falavam que iam para o inferno?! O anjo fala paz para essa gente? Que Deus esquisito! As pessoas estavam admiradas disso. 

 

E Maria olha, Maria recolhe todos os comentários, toda aquela situação desde o anúncio do anjo, do caminho que ela fez para as colinas da Judéia, a volta, José que a aceita como esposa, depois essa viagem para Belém já com a gravidez muito adiantada e quando chega na cidade, as dores do parto. Essa situação de pobreza e depois esses estranhos. Maria olha tudo isso, ela vê os sinais de Deus. Maria não se deixa enganar por notícias, por falsas notícias, ela olha as coisas, olha com o olhar de Deus e aí ela vai percebendo por onde vai o caminho de Deus. E ela ainda fará um longo caminho na via de Deus até chegar ao pé da Cruz. A Maria da cruz é a mesma do presépio. A Maria do presépio é a mesma que está debaixo da cruz. Um caminho feito seguindo os passos estranhos de Deus.

 

Maria, justamente, nós a chamamos de mãe de Deus por quê? Uma mulher quando dá à luz, ela não dá luz a um corpo, ela dá à luz a uma pessoa. Maria dá à luz a uma pessoa, que é o Verbo de Deus encarnado. Deus gera um Verbo na eternidade, Maria gera o Verbo encarnado no tempo. O Verbo existia na eternidade, mas no tempo, ele começou a existir em forma humana no seio da Virgem Maria. Por isso a criança que nasceu de Maria é Deus e homem, mas nasceu uma pessoa e não um corpo. Seria um corpo se fosse nascido morto, não nasceu morto é uma pessoa. Essa é a maior, nós chamamos assim, prerrogativas da mãe de Deus. Todos os outros atributos da Virgem Maria – Perpétua Conceição, Santíssima Virgindade, Assunção ao Céu, Rainha do Céu e da Terra, Templo do Espírito Santo – todas essas prerrogativas só existem porque ela é mãe de Deus, mãe do Verbo encarnado, mãe da segunda pessoa da Santíssima Trindade. E essa união, essa situação, esse mistério, Deus visualizou só e somente só nessa mulher, uma nossa irmã pode gerar um filho que é Deus, uma nossa irmã e só ela é mãe de Deus ninguém mais. É justo que nós chamemos Maria – esse é um atributo dela – de Rainha do Céu da Terra e a gente pergunta: mas a rainha não é a mulher do rei? Não no Oriente antigo, no Tempo de Jesus e milênios antes dele, rei era logicamente o rei, mas o rei tinha muitas mulheres e então quem era a rainha era a mãe do rei. Tanto que os grandes os diplomatas, os outros reis pedem a ela favores. E quando uma princesa se casava com um rei, a grande esperança dela era ter filhos que se tornassem reis, porque aí ela seria rainha. Então, Maria como mãe de Deus, ela está sempre junto com seu filho, do seu filho que reina na Cruz. O reino de Deus é diferente dos reinos deste mundo e a mãe de Deus está junto do seu filho e lá junto dele intercede por nós e reza conosco, quando nós rezamos, Maria reza conosco. Santa Bernadete, nas aparições de Lourdes, ela rezava o terço e Nossa Senhora tinha o terço na mão e ela ia escorrendo as contas do terço junto com Santa Bernadete. Sem mover os lábios, na hora que Santa Bernadete rezava o Glória, Nossa Senhora se inclinava em louvor à Santíssima Trindade. Mas ela reza por nós, mas reza conosco. É mãe, mãe de misericórdia, mãe de bondade, como Deus é bom.

 

Vamos pedir a Virgem Maria que nos ajude a olhar os fatos da vida, olhar a Sagrada Escritura, o jeito de Jesus e aprender Dele como enfrentar os fatos da vida – Maria fez assim: Via a vida, olhava a vontade de Deus e agia segundo a vontade de Deus.

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Família é lugar de crescimento, ensinamento e compreensão

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha  - Sagrada Família de Jesus, Maria e José (Ano C – 26/12/2021 - missa às 10h)

Hoje celebramos a Sagrada Família de Nazaré e o centro é sempre Jesus. Em toda a Escritura, a preocupação é Jesus. E temos que pensar e lembrar que Jesus é o verbo eterno, igual ao Pai, que se esvazia de si mesmo e se torna um de nós, com todas as dinâmicas humanas. Mas Jesus não tem uma coisa: Ele não tem o pecado. Então Jesus vê, sem sombra, a vontade do Pai. Isto não quer dizer que Jesus, desde pequeno, tinha debaixo da manga todas as respostas ou sabia como seria toda sua vida - ou seja, que iria ressuscitar no fim. Isto é uma heresia chamada docetismo, que assumiria que Jesus era quase um fantoche ou um fantasma. Assim, Sua encarnação viraria uma brincadeira. Deus, quando se torna um de nós, faz isso de forma muito séria e radical. E seu conhecimento e seu relacionamento com o Pai é algo que vai progredimento conforme esta criança vai crescendo. Como qualquer criança, ele nasce sem o obstáculo do pecado, e se desenvolve como um de nós. Jesus não é um gênio com QI acima da média. É uma pessoa como as outras e não sabia que em 1969 o homem iria colocar o pé na lua. Mas Jesus sabia o nome do monte Hérmon, uma montanha muito alta na Palestina, coberta de neve. E quando o vento bate por cima da montanha manda vento fresco sobre Jerusalém. Isso Ele sabia. O que é interessante e necessário prestar atenção neste Evangelho [Lc 2,41-52] é que Jesus crescia em sabedoria, estatura e graça. 

 

Qual foi a ordem que Deus deu para Adão e Eva no paraíso? Crescei, multiplicai-vos e dominai a terra. E Jesus cresce em estatura, sabedoria e graça diante de Deus. A sabedoria, a pessoa vai adquirindo ao longo da vida até que chegue a maturidade, por volta dos 30 anos. Jesus vai ao encontro de João Batista e ali, em plena maturidade, inicia seu ministério anunciando a Boa Nova do reino. Hoje é dia da família e não adianta ficar falando de família tradicional pois é tudo conversa mole. Porque não podemos cair no romanticismo puritano dos anos 1800. Família é um negócio sempre muito complicado. E não devemos pensar que nunca foi assim. Vai ver como era a nossa família antes de 1800. Se formos honestos conosco, vemos as diversas situações que existiam com nossos antepassados. A família tem que ser um lugar onde as pessoas possam crescer. Não pode ser lugar de desagregação. O problema é que, muitas vezes, a família não é lugar de diálogo, mas sim de briga, de discórdia, de violência. Isso não pode acontecer, seja a família que for. 

 

Nós temos uma situação gravíssima no Brasil, que é a educação pública que foi jogada no lixo. E a educação privada está indo pelo mesmo caminho. Como você pode garantir valores dentro de uma família, que às vezes é meio bagunçada, se a educação também é muito fraca ou péssima? E dinheiro para tudo isso tem. É só não gastar com coisas supérfluas. Gaste com educação. Sabedoria não é conhecer noções sabedoria é ver o coração de Deus e viver segundo o coração de Deus. E vemos, na Segunda Leitura[1Jo 3,1-2.21-24], que o coração de Deus é amor. Em nossas famílias, sejam elas como forem, nós estamos cultivando o amor entre nós? Estamos ensinando nossos filhos a amarem os outros, a respeitarem as pessoas, a serem solidários? Nós estamos ensinando isso ou simplesmente deixando que a televisão, os desenhos e o Whatsapp ensine? O que estamos fazendo? 

 

Esta é a missão da família. Seja a família como for, nós temos uma missão. Vamos pedir ao Senhor que possamos, olhando o mistério e a vida de Jesus, aprender a viver como marido, como esposa, como filhos. Aprender também a viver como idosos e ensinar as nossas crianças a viverem como Jesus.

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Deus se faz homem por nós

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha  - Missa de Natal (Ano C – 25/12/2021 - missa às 16h)

Neste Evangelho, nós vamos ver provas de João. São João quer reescrever as escrituras e ele começa com as mesmas palavras da Gênesis "No princípio...". O livro da Gênesis relata "No princípio...". E ele vai recordar o mistério de Deus, porque é simples para Deus e a palavra é igual ao coração do Pai. O Pai fala assim mesmo, e esta palavra é a segunda pessoa que se faz a Trindade, e o Pai fala com os que sofrem, abraçados pelo poder do Espírito Santo e faz com que os três sejam um único Deus. Só pode conhecer Deus quem é Deus. Nós não temos capacidade de descobrir, Deus está numa forma que chamamos de "transcendente", está além. Nós somos equivalentes, e quando nós estudamos astronomia, nós duvidamos de um universo e leis físicas que falam sobre o espaço-tempo, é muito difícil para nós! E isso falando do mundo físico, quem dirá do espiritual...

 

Nós projetamos muitas coisas e chamamos isso de "Deus", nós nos sentimos fracos, então nós fazemos esses feitos gigantes diante de nós e dizemos "Deus é onipotente". Mas nós conhecemos poucas coisas, nós não conhecemos os corações das pessoas. Então nós olhamos para nossos feitos gigantes de novo e dizemos "Deus é onisciente". Nós morremos, mas temos medo da morte ou não aceitamos a morte, então nós olhamos para o nosso espelho e dizemos "Deus é imortal". Isso são projeções nossas, puras projeções nossas. Só Deus pode falar dEle mesmo, mas se nós não podemos ver o coração de Deus, como que nós vamos conhecer Deus? Tem um jeito, Deus vem falar para nós, se fazendo um de nós, se tornando um de nós, sentindo com o nosso coração, caminhando nas nossas estradas, trabalhando como nós, se fadigando, conhecendo as profundezas de nosso coração humano, porque Ele também pega para si um coração humano, e como Ele vê o coração do Pai, com voz e coração humano, Ele pode nos falar do Pai. Então o que nós não conseguíamos se tornou alcançável, nós conseguimos entender, e mais, conseguimos imitar, porque Deus se tornou humano, e é capaz de amar e agir com coração e forma humana, então é possível conhecer e seguir os passos de Deus por meio de Jesus. Deus é Jesus que se encarna, se faz um de nós. 

 

O apóstolo vai dizer "nós vimos a sua glória, nós tocamos, nós falamos com o Verbo e a Palavra de Deus que é Jesus". E como eles podem falar isso? Porque Jesus ressuscitou. Se Jesus não tivesse ressuscitado, Ele não era Deus, mas Jesus ressuscitou e nos mostrou o que nos basta para o coração de Deus, para poder entrar no mistério do coração de Deus, e o mistério é muito simples, é muito prático: é amar, ser pessoas da luz, da verdade, esse é o caminho que Jesus nos revelou.

 

E essa palavra de hoje, nasceu no meio de nós e revelou uma outra coisa sobre Deus, de um neném recém-nascido, ninguém tem medo, quem se apavora diante de um recém-nascido? Somente um louco: Herodes. Mas uma pessoa normal, por pior que seja – pois os pastores não eram santos não, eles eram bandidos viu? –  Essa gente era tida como amaldiçoada. Para eles, Deus anunciou a salvação. Primeiro para eles, eles foram os primeiros que contemplaram a bondade de Deus. De Deus não temos que ter medo, porque Deus é como um recém-nascido, então é possível se aproximar dEle como nós somos, do jeito que nós somos, e quando nós nos aproximamos dEle, Ele nos transforma, Ele nos faz criaturas novas, Ele muda nosso jeito de agir, de pensar, de amar. Esse caminho muitas vezes pode nos levar para a cruz, mas é caminho de vida eterna, isso Deus revelou ali no presépio, para esses homens que estavam perdidos no meio das trevas, perdidos no meio do pecado, amaldiçoados até pela religião. Para eles, por primeiro, Deus se mostrou bondade, então nós podemos nos aproximar dEle, podemos aprender a nos aproximar de outras pessoas.

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Ver o outro como irmão e irmã nos levará a viver o Natal todo dia

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – Véspera de Natal - Missa do Galo (Ano C – 24/12/2021 - missa às 19h)

Natal de Jesus! Hoje eu mandei uma mensagem para nossas comunidades e grupos: o Deus do céu, o senhor do céu e da terra, aquele que mantém o universo com o sopro da sua boca, aquele que mantém no seu seio toda a criação como um pequeno peixe no mais profundo de um oceano. Ele, por pura bondade, manda no tempo e na história o Seu filho, igual a Ele, Deus eterno como Ele, na potência do Espírito, Deus eterno como o Pai e o Filho.

E para onde Ele manda? Ele manda num beco, numa calçada, num estábulo porque não tinha lugar para eles na hospedaria. Jesus nasce nas margens do mundo porque não tem lugar para ele. É lá onde não tem lugar, onde as pessoas são postas fora, lá Deus nasce: no meio das pessoas descartadas, no meio das pessoas que não contam nada, lá Jesus nasce.

 

E o que ele encontra lá? O que se encontra nessas margens! Converse com nosso pessoal que leva marmita para o pessoal sofredor de rua, o que você encontra lá? Pobres, miseráveis, bandidos, drogados, prostitutas, travestis... é isso que você encontra na margem, no lixo, no porão da humanidade. E aqueles pastores que foram lá e receberam o primeiro anúncio do nascimento de Jesus hoje nós chamaríamos de bandidos, porque não eram mais do que isso, e muitos deles assassinos. Eram pessoas rudes, ladrões, na maioria das vezes, gente que ficava longe, fora, meses e meses no meio dos bichos, só podiam ser bichos! Essa gente, lá.

Eles vieram para ver esse sinal que talvez fosse até bastante comum, pois muitas mulheres antigamente davam à luz no estábulo, onde tinha feno e calor. Encontram esse menino coberto por alguns panos em um cocho. Que jeito estranho de Deus nascer! Como é estranho o jeito desse Deus morrer: pendurado em uma cruz.

A cruz e o presépio dialogam entre si. Deus veio para os últimos, para salvar o mundo inteiro, e Ele morre amaldiçoado no lenho da cruz para salvar a todos. A salvação de Deus, do mundo começa por lá, pelos que estão longe, pelos que nós consideramos muitas vezes nada, é de lá que começa a salvação do mundo.

Na minha mensagem eu não coloquei o final pois era para agora! Natal, e nós todos reclamamos: “nossa, podia ser assim o ano inteiro, parece que tem um clima de alegria e paz!”. Por que isso não é o ano inteiro? Será o ano inteiro o dia que lá, no mundo dos pobres, dos miseráveis, dos excluídos, das pessoas que jogamos fora, pessoas que apontamos o dedo, que consideramos de segunda classe, gente pecadora, gente indigna da comunhão, o dia que essa gente tiver vida digna, naquele dia, será Natal todo dia. Enquanto não fizermos isso, Natal vai ser um dia com muito sentimento de culpa, pois sabemos que tem muita gente sofrendo.

Não é impossível que o mundo não seja assim! Papa Francisco nos diz: “aprendam a viver o evangelho que pode ser resumido em uma palavra: fraternidade. Aprendam a ver a outra pessoa como irmão e irmã!”. Eu repito isso até enjoar porque é a verdade: aprendam a ver o outro como irmão e irmã. Não significa ser ingênuo; Jesus mesmo diz: “simples como as pombas, espertos como as serpentes”, não é ingenuidade.

 

Ser irmão não é ser ingênuo, mas ser irmão e irmã é buscar reconhecer a dignidade e reconstruir a dignidade do outro que foi destruída. O dia em que o mundo fizer isso, o dia em que nós fizermos isso, vai ser Natal o ano inteiro.

 

Mas tem uma frase de Madre Teresa de Calcutá que pode nos dar alguma esperança! Ela dizia: “se você não pode dar comida para 100 pessoas, dê pra uma, mas se você tiver só um pão, reparta com o outro”. Isso vai ser Natal porque a salvação do mundo passa pelos pequenos, passa pela divisão do pouco, passa por esse ato de doar-se para o outro. É assim que Deus mantém na existência o universo, é assim que Deus salva o mundo, de um presépio ou do alto da cruz. É das margens do mundo que Deus salva a todos. Feliz Natal para todos vocês

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Maria: a serva confiante em Deus

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 4ª Domingo do Advento (Ano C – 19/12/2021 - missa às 10h)

Na preparação imediata para o Natal, nós nos fixamos na figura de Maria. Maria recebeu o anúncio do anjo, no qual o anjo lhe deu uma notícia: "a tua prima Isabel, já idosa (...)" – quem sabe naquele tempo seja uns 50 anos de idade, a idade média das pessoas era de 22 anos, tinha gente que vivia até os 90, mas a maioria morria muito mais novo. Isabel era considerada estéril, porque durante toda vida chamada "vida fértil" ela não teve filho, e no fim da menopausa vai ter filho? É um milagre de Deus! Então Maria vai, sabe-se lá quantos dias ou quanto tempo, para as colinas da Judéia, Maria estava na Galileia, para ajudar sua prima na gravidez? Não, Isabel não precisava disso, pois era mulher de um sacerdote que servia no templo, no templo de Jerusalém. Então por que Maria vai? Maria vai para codividir com Isabel a alegria da salvação, o que Deus tinha prometido a Abraão, há 1800 anos antes, se estava cumprindo naquele momento. O Salvador, o Messias estava chegando ao mundo e estava no ventre de Maria.

Geralmente os hebreus quando chegam na casa das pessoas falam "Shalom", "Paz". Ao ouvir a saudação de Maria, a criança pulou na barriga da mãe. Mãe entende essas coisas né, criança que mexe na barriga, se a criança não mexe na barriga a mãe fica preocupada, não é? Mas aqui a criança mexeu mais do que devia. E Isabel ficou repleta do Espírito Santo! João Batista ainda no seio da mãe reconhece o Messias, é a mesma cena que nós vamos ver no dia do Batismo de Jesus, quando João Batista diz "eu que tenho que ser batizado por você, e não eu te batizar". É o reconhecimento do Messias, o Messias que é Jesus. "O maior filho nascido de mulher", João Batista vai dizer isso e reconhece "Ele é o cordeiro de Deus, Ele é o Messias" desde o ventre materno. É muito interessante ver como Isabel saúda Maria. "Bendita és tu entre todas as mulheres", "bendita por excelência, não existe uma mulher mais abençoada que você", mas não por ela, pelo Messias que ela traz, pelo Messias que ela foi digna de gerar, pelo Messias que Deus fez com que ela fosse digna de gerar, e essa união, essa relação não se apaga. Mãe pode gerar bandido, mas sempre vai ser filho dela. Mãe pode gerar santo, mas sempre vai ser filho dela. Mãe pode gerar Deus e sempre vai ser filho dela. Porém, o maior elogio que Isabel faz para Maria é aquele que anula o pecado das origens.


No mito de Adão e Eva, nós vemos desobediência, o medo e a desconfiança. Em Maria, o que Isabel louva? "Bendita és tu que acreditastes, porque se farão as coisas que o Senhor prometeu". O que nós temos aqui? Nós podemos dizer que naquele instante que Maria recebeu o anúncio do anjo, ali é o verdadeiro momento da criação do ser humano, porque ali tem obediência, tem confiança, disposição de seguir o que Deus propõe. E cuidado! Quando Deus propõe para a Maria não está tudo claro, Ele fala para ela que ela vai ser mãe, que o filho será Deus conosco, que vai ter o trono de Davi para sempre, mas o anjo não revela tudo. Nós temos que pensar que essa atitude de confiança de Maria se mantém lá debaixo da cruz. Ela ficou de pé, embaixo da cruz. "Confio no meu Senhor, Ele é fiel, eu não entendo, Ele faz". De fato, três dias depois, Jesus se revela o Deus da vida e da ressurreição. E, na hora de Pentecostes, diferente do que muito das nossas culturas mostram, Maria lá no centro com os apóstolos em volta, não. O texto de Lucas não diz isso, fala dos doze, fala dos cento e vinte irmãos com Maria e os parentes de Jesus. Maria está na comunidade, a comunidade que agora é lugar do Espírito de Deus, e há confiança mais uma vez. "Deus vai cuidar da gente". Deus manda o Espírito Santo e Deus vai fazer igreja com esse pequeno grupo de pessoas, vai fazer a igreja anunciar o Evangelho ao mundo inteiro. Confiança, essa é a grande atitude que o Evangelho de hoje que nos convida a ter.

Cuidado, é mais difícil do que nós pensamos ter plena confiança em Deus, e a plena confiança é colocada a prova nos momentos de grande crise, o maior deles: a morte, e é nesse momento que é colocado em xeque-mate a nossa confiança em Deus. Mas também no momento da dor, da doença, no momento da morte dos outros, mas é no momento da nossa morte, que a nossa confiança em Deus é colocada em xeque-mate. Por isso nós pedimos na oração da Ave-Maria "Rogai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte". Para que? Para que nós tenhamos a mesma atitude de Maria, essa confiança incondicional em Deus, Ele vai cuidar, a resposta é dEle, a última palavra é dEle, eu entrego com confiança nas mãos dEle. Por isso Maria é chamada de "bem-aventurada por todas as gerações", porque a confiança dela é a confiança que Deus espera de nós. Não tenham medo, confiem! Olhando para Maria, nós aprendemos a confiar em Jesus e a seguir os seus passos de vida eterna. Maria se faz portadora dEle, seguindo os caminhos dEle, porque, em tudo e para tudo, Maria é de Jesus. E do mesmo jeito que o coração da mãe e o coração do neném batem, o coração de Maria e o coração de Jesus batem unidos, do modo que a vontade de Jesus é a vontade de Maria, não poderia ser diferente. Vamos pedir ao Senhor que nos ajude, nesses dias que precedem o Natal, a depositar a nossa confiança em Deus como Maria depositou a sua confiança em Deus.

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Convertamos nosso coração e sejamos solidários

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 3ª Domingo do Advento (Ano C – 12/12/2021 - missa às 10h)

É muito interessante ouvir João Batista, que está chamando o povo à conversão. E mais interessante é que ele não fala para ninguém rezar ou ir ao templo. Ele pede que as pessoas mudem de atitude. Chama muita atenção, também neste texto, que ele fala com cobradores de impostos e soldados. Estas são pessoas que estão diretamente lidando com o povo e, de alguma forma, exercem poder em nome do Estado. Os cobradores de impostos cobravam absurdos. Roma pedia uma moeda e eles cobravam 3, 4 ou 5. E essas a mais eles colocavam no bolso. Era corrupção correndo solta. E os soldados, que muitas vezes praticavam a extorsão – coisa que ainda pode acontecer hoje em dia.

 

Quantas vezes, para se protegerem, a gente vê pessoas que exercem poder sobre o povo inventarem histórias. Nós vimos a que ponto pode chegar esta invenção de histórias. No Brasil, com acusações falsas para lá e para cá, estamos no caos que estamos hoje. A justiça transformada em arma política. Isso é o que acontece. Acontecia lá e acontece agora. É claro que nós precisamos que os nossos policiais, por exemplo, tenham um salário mais digno. Você não pode enfrentar certas situações, arriscando a vida e sua família inteira em troca de merreca. Então nós teríamos que melhorar muita coisa. Mas, como diz São João, isto não pode ser por meios fora do caminho.

 

E para os demais, São João não fala nada? Fala. As duas primeiras coisas São João fala para nós. Se você tem duas túnicas, dê uma para o outro. Se você tem comida, ajude quem não tem. Nós temos que aprender a solidariedade. Nós temos que aprender a não viver em torno do próprio umbigo. Nós temos que olhar as necessidades das pessoas que estão à nossa volta. E, atualmente, a nossa consciência é maior. Não só com relação às pessoas, mas também ao ambiente. Uma coisa que nós podemos e devemos fazer é a reciclagem, separando o lixo do modo correto. E nós percebemos que o chamado lixo orgânico é pouco, mas o reciclável é muito. E, se a gente separa as coisas, fica muito melhor para depois se desfazer disso tudo. 

 

Depois, o Evangelho de Lucas[Lc 3,10-18] continua com uma conversa ainda muito pior, que é com o povo da religião. São os escribas e os fariseus. João vai chamá-los de raça de víboras. Nós estamos vendo muitos problemas com o mundo religioso. Se nós não nos tornamos verdadeiros anunciadores de Jesus Cristo, não nos tornamos verdadeiros testemunhos Dele, não nos tornamos testemunhas da verdade, Deus transforma a nossa palavra em pó na nossa boca. Nós temos que anunciar Jesus sem outro interesse. Sobretudo, sem interesses políticos. É uma questão complicada. João chama todos a se prepararem para aquele que está por vir, que é Jesus. Porque o julgamento de Jesus toca o coração de cada um e se baseia no amor e na justiça. Vamos pedir a Deus que Ele nos ajude a ouvir este grito de João Batista. 

 

Hoje também celebramos a memória de Nossa Senhora de Guadalupe, do México e de toda a América Latina. No Brasil, a colonização foi terrível, mas foi um pouco mais lenta. Na América espanhola, a imposição do império sobre os nativos foi ainda mais intensa. E, no meio deste conflito difícil, um índio estava indo, 5h da manhã para a catequese. E nós temos que pensar que ele estava no México, que é no hemisfério norte. 5h da manhã ainda é bem escuro, frio. E, em um certo momento, ele escuta música, uma música estranha e atraente, algo que ele nunca tinha ouvido. E ele vai procurar esta música na colina, que não era muito longe de um antigo templo que existia ali. E ele vê esse lugar diferente e ele pensa “nossa, será que eu cheguei naquele lugar que nossos pais falavam que nós teríamos depois da morte? A terra sem males?”. E ele ali, encantado, de repente vê esta menina de uns 12 anos e ele vai sempre se referir à Nossa Senhora como “minha menina”. E o interessante é que esta menina está grávida. Nossa Senhora não tinha mais de 12 ou 13 anos quando ficou grávida de Jesus. Esta era a idade com a qual as meninas se casavam naquele tempo. E ela fala para ele: “você vai lá e fala pros padres para eles construírem aqui uma capela porque eu quero enxugar as lágrimas, consolar os meus filhos”. Aí ele vai para a cidade onde ia ter a catequese, fala com o padre, com o secretário e com o bispo sobre isto. Todos o taxaram de louco. Mas, no dia seguinte, ela falou de novo, assim como nos dias seguintes. Daí ele mudou de caminho e ela foi atrás dele no novo caminho. Ele retruca dizendo que ela provavelmente teria outros mensageiros mais importantes que ele para levar o recado, pois ele era apenas um índio. Ela falou: “tenho muitos, mas é você que eu quero que insista”. Daí ele foi novamente falar com eles e o bispo, irritado, diz: “você diga para esta menina que eu construo essa capela se ela me der rosas de Castilla”. Castilla era na Espanha. Rosas não existem no hemisfério Norte, no inverno. Ou seja, algo impossível. Mas o índio foi embora todo contente achando que a menina ia dar um jeito no pedido. No outro dia, foi falar com ela e ela disse para ele pegar ali as rosas. Ele as pega e as carrega junto ao corpo. E, todo contente, foi levar para o bispo. Quando ele chega, o bispo vê que se estampa na roupa dele a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe. 

 

São coisas muito interessantes naquela imagem: as estrelas que estão no manto dela é como se ela pegasse o céu naquele momento astronômico e colocasse em cima dela. Ela tem a lua debaixo dos pés e o sol atrás dela. A lua e o sol para os maias eram deuses. Ou seja, ela está dizendo que está acima da lua e que ela ofusca o brilho do sol. Ela diz, desse modo, que é a mãe do verdadeiro Deus. E ela está grávida de Jesus, tendo um laço que indica que está grávida. A imperatriz maia, quando estava grávida, usava aquele sinal. E a roupa dela é cheia de flores, que nós chamamos de desenhos. Mas que, para os índios daquele tempo, eram letras, eram símbolos. Nós, quando lemos letras japonesas ou chinesas, nós não entendemos. Mas eles entendem. Os índios quando viram aquilo gritavam “indiazinha toda nossa”. E daí por diante, eram milhares de índios que vinham, todos os dias, ser batizados por causa daquela manifestação da Virgem Maria. Então nós podemos dizer que, na América Espanhola, Maria foi a verdadeira evangelizadora. Ela falou a língua dos índios e não desvalorizou os símbolos dos índios, mas os assumiu todos, levando este povo ao verdadeiro Deus. 

 

Vamos pedir à mãe de Jesus – que, aqui no Brasil se manifestou como Nossa Senhora Aparecida, a pretinha sem cabeça tirada do rio das águas podres, onde os negros eram decapitados quando fugiam e jogados lá dentro – que ela também nos ajude a superar os nossos racismos, as nossas divisões, para que nós possamos ser um povo de grande consciência, um povo que ama a sua terra e que seja solidário entre si e com os outros povos.

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Perdoar e respeitar o outro pra estar mais perto de Jesus

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 2ª Domingo do Advento (Ano C – 05/12/2021 - missa às 10h)

A tradição nos diz que Baruc era secretário do profeta Jeremias, e ele também era profeta. O povo tinha sido exilado, tinha sido mandado para a Babilônia, e o povo da terra, os pobres que tinham ficado, ficaram perdidos, sem liderança. Então, é a tristeza, a desolação de tudo. O templo tinha sido destruído, e Baruc faz esta profecia: “vai chegar o tempo, e que os caminhos serão aplainados, e que o povo das várias regiões do mundo, o povo de Deus que foi esparramado, vai voltar para Jerusalém.”

E é exatamente essa imagem que São Lucas vai usar para mostrar como é esse tempo. E ele diz que o Imperador era Tibério, o rei da Galiléia era Herodes, o outro rei era Filipe, o outro governava uma outra parte, Pôncio Pilatos era o governador da Judéia, e, nesse tempo, os sumos sacerdotes eram Anás e Caifás.

No tempo comum, no tempo normal, todo tempo tem um rei, todo tempo tem um presidente da república, todo tempo tem um governador, um bispo, todo tempo tem… é na vida comum. Deus escolhe um momento da vida para mostrar a sua fidelidade. Por que é que Deus faz isso? E por que Deus fez isso em Jesus? Para que aconteça exatamente o que o evangelista diz: para que os buracos sejam cheios, as montanhas sejam abaixadas, os caminhos tortos se tornem retos, para que todos possam ver a salvação que vem de Deus.

Jesus, Deus, se fez um de nós para falar com palavra humana, sentir com coração de carne, sofrer com dor humana, para que todos nós pudéssemos entender o Evangelho, a mensagem Dele: Sejam irmãos, se perdoem, amem uns aos outros, amem até dar a vida pelo outro. Essa é a salvação de Deus, essa é a salvação do mundo.

Na próxima semana nós vamos ver como João Batista vai ser bem duro e vai mostrar bem as coisas como elas são. Um caminho novo... comece a agir de outro jeito! Não existem mistérios na palavra de Jesus, é uma palavra da verdade, é palavra que se pode entender. Deus não fala de forma misteriosa, Deus falou para nós com voz humana, caminhou pelas nossas estradas dois mil anos atrás, mas eram estradas humanas.

O Natal, este tempo que nos separa do Natal, que chamamos de Advento, aquele que vem, é tempo para isso, ir tirando da nossa vida aquelas coisas que são obstáculos. As montanhas serão abaixadas, tudo que na nossa vida é obstáculo para ver e encontrar Jesus, e Jesus de um jeito que nós nunca esperamos!

Quem poderia pensar que o Deus do céu e da terra ia nascer numa manjedoura? Manjedoura é cocho, viu gente. Palavra bonita para dizer cocho. Esse é nosso Deus, que fala de forma simples para que quem quer ver, possa ver. Não tem obstáculo, está ali.

Vamos pedir ao Senhor que Ele nos ajude a tirar tudo aquilo que atrapalha no nosso caminho de ver Jesus. Primeira coisa de todas: tirar do nosso coração os nossos ressentimentos, os nossos ódios. Aprender que, apesar de a outra pessoa até pensar diferente de mim, ela é filho e filha de Deus tão amado quanto eu. Isso gera em nós o respeito pelo outro, seja quem for. A figura de Jesus pode estar muito estragada naquela pessoa, mas é sempre a figura de Jesus. Se nós aprendemos isso, nós entramos na dinâmica do Natal: conversão. Vamos tirar estes obstáculos do coração, vamos aprender a ouvir o outro, não só a nós mesmos, ouvir o outro para que nós possamos também ouvir Jesus.

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Olhar os pobres com carinho

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 1ª Domingo do Advento (Ano C – 28/11/2021 - missa às 10h)

Nós iniciamos o novo ano litúrgico e, com isso, nos preparamos para o Natal. Vamos acender, neste período, quatro velas, durante os quatro domingos, cada uma indicando um momento. Hoje, a esperança da vinda do Messias. Esta é a promessa que Jesus nos fez: Ele volta para julgar o mundo, julgar a história. E, olhando a primeira vinda de Jesus, nós nos preparamos para a segunda vinda. Para aqueles que durante a vida praticaram a injustiça, a morte, serviram aos ídolos da morte – que podem ser resumidos em dinheiro e poder –, destruíram as pessoas ou fizeram os outros sofrerem, a vinda de Jesus será um desespero. Para aqueles que seguiram Jesus e praticaram o bem, será um momento de muita alegria, tanto que o evangelista São Lucas vai nos dizer: “Levante a cabeça! Erga-se! A vossa libertação está próxima”. Isso ele fala para todas as vítimas da história que sofreram por causa dos desmandos daqueles que só buscaram dinheiro, poder, fama e glória à custa dos outros. 

 

Nós temos aqui preparado o nosso presépio. E as pessoas perguntam: “ué, cadê o Menino Jesus na manjedoura?”. O Menino Jesus é a Palavra de Deus eterna, encarnada. E nós vamos colocar o Menino Jesus ali na noite de Natal. Durante este tempo, nós vamos lendo as palavras da Escritura que nos preparam a vinda de Jesus. Então, na manjedoura, está a Bíblia, sobretudo o Antigo Testamento, que anuncia a vinda do Messias; e o Novo Testamento, que espera a segunda vinda de Jesus. 

 

O Advento é tempo de espera. Nós usamos roxo, mas é um tempo diferente da Quaresma, em que nos preparamos para dias pesados e difíceis da Paixão do Senhor. No Advento, permanecemos naquela espera alegre, naqueles últimos dias da mulher grávida que vai dar à luz o filho. A família toda fica ansiosa. É uma espera, uma expectativa. Esta é a atitude espiritual do Advento: a espera da chegada da promessa de Deus. E chega na fidelidade. Deus é fiel. Ele vai vir consolar e salvar o seu povo. 

 

Não sei se vocês acompanham as redes sociais, mas, nestes dias, temos visto o padre Júlio Lancelotti colocar nas redes sociais vários lugares aqui no Brasil que mostram a aporofobia, que é o medo dos pobres, desprezo pelos pobres. São, por exemplo, placas de incentivo dizendo “não dê esmola, mande para o assistente social”. Mas, se isso fosse verdade, nós não estaríamos distribuindo 1500 marmitas por mês para os pobres aqui em volta da nossa região. Não estaríamos dando 250 cestas por mês. Isso é uma forma que esses governos têm de colocar esses miseráveis em uma situação ainda pior. Ajude segundo o seu coração. A pessoa pode decidir “não dou ajuda no semáforo, mas vou dar na paróquia todo mês um quilo de alimento para os pobres”. A pessoa pode decidir, mas não deixe de ajudar. Os pobres serão os primeiros que, no dia do juízo, vão se levantar e erguer a cabeça porque seu libertador chegou.

 

 Vamos nos colocar do lado deles para que eles também sejam nossos advogados junto de Jesus. Não deixe de fazer o bem. Ninguém está na rua porque quer e gosta. Ninguém fica dias e dias sem comer um prato de comida porque gosta. Ninguém fica com roupa velha, suja e fedida porque gosta. E não basta dizer que é vagabundo, que tinha oportunidade. Mas que oportunidade essa gente tem? Onde? Mentiras. E se a assistência social realmente se preocupasse com os pobres, eles teriam o que comer, o que vestir e onde ficar. Jesus nasce na pobreza. Não despreze os pobres. Desprezar os pobres é desprezar Jesus.  

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Jesus é o Rei que se eterniza

Homilia: Pe. Flávio José dos Santos – Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo - Rei do Universo (Ano B – 21/11/2021 - missa às 10h)

Queridos irmãos e irmãs, Deus nos dá a graça, nessa manhã, de caminharmos e fazermos essa passagem. Celebrar Cristo Rei é celebrar, no sentido litúrgico, o último dia do ano. A partir do próximo domingo, primeiro do advento, celebraremos 2022, no sentido da liturgia. E, com isso, o que nós colhemos de tudo que experenciamos? Que período difícil! Mas Deus foi aquele que não nos abandonou, nos sustentou, por isso chegamos até aqui! "Ah, padre, mas e aqueles que partiram? Eles foram esquecidos por Deus?" Não, muito pelo contrário, estão em Deus. Eu sempre reflito isso.

Se você teve alguém que se foi, nunca diga que perdeu, quem ama não perde! Quem ama parte para Deus, e sua partida deixa tristeza, mas tenha certeza de uma coisa: cada lágrima que você deixa cair vai te dar mais esperança de um dia se reencontrar. E, no momento que estivermos juntos, não será somente momentâneo, mas eternizado, porque é a graça do amor que conduziu a eles que vai nos sustentando para o dia que estivermos juntos também.

Esse é o sentido de celebrarmos hoje Cristo Rei do Universo. Jesus é o rei, mas não é o rei como temos em nossa mente de um reinado humano, temporal, é aquele que se eterniza, como nós ouvimos na primeira leitura da profecia de Daniel [Dn 7, 13-14]. É bonito perceber que, diante daquela realidade difícil em que Daniel escreve para aquele povo, ele diz: "Haverá um Deus que é rei e que vai governar para sempre!". E que governo é esse? Não é no autoritarismo, não é na violência, mas é no amor, Sua lei é o amor. E esse rei tem um trono, que é a cruz.

Mas, ontem, eu até refletia: " onde que ele se senta nesse trono?" – coloque a mão no seu coração agora, até você que está em casa... é aí que ele se senta. Assim, vamos entendendo até mesmo o que Ele diz para Zaqueu: "Zaqueu, eu devo estar na sua casa." Por isso, hoje, Ele fala: "eu devo estar na sua casa que é o seu coração". É ali que Ele se senta. "Nossa, padre, então o senhor está me dizendo que eu sou uma cruz?" Sim, mas o que você entende por cruz? “Ah, então eu faço os outros sofrerem? Eu faço até mesmo Jesus sofrer? Eu magoei o coração de Deus?”. Ele mesmo vai dizer lá em Ezequiel: "os seus sentimentos não são como os meus".

E uma coisa mais bela: a partir de Jesus nós vamos entender o sentido da cruz para nós. A cruz, por mais que pensemos que é dor, sangue, sofrimento, angústia, lágrimas, para Jesus é diferente: “por você eu sofro, por você eu morro, você é a razão do meu viver!”.  É por isso que você é cruz, porque, por você, Ele faz tudo.

Quem é pai e mãe sabe perfeitamente que pelo filho fazem tudo, e é por isso que hoje nós queremos perceber que este sentimento vai perpetuando ao longo da nossa existência. E, ali, o reino não é somente o lugar, mas uma realidade, onde vai crescendo em nós essa expectativa e, aqui mesmo, nós vamos vivendo essa realidade. Não é viver somente no fim último, "ah, então deixa que no momento que eu ressuscitar, vou ver como é este reino"... não! Nunca se esqueçam o que é o reino: onde não há divisões, não há brigas, nem rancores, nem ódio, onde todos são contemplados, não há fome, não há sede.

Neste reino não há desistência, e, por isso, falo até para você que vai fazer o ENEM: você não é avaliado por uma prova, se você tem no coração o seu sonho, lute! Muitos vão falar para você que não vai dar certo, muitos vão falar para você que está errado, para buscar outra coisa. Mas, se você tem isso no coração, vá em frente, você vai conseguir. Não sabemos o dia, mas você vai conseguir. Caminhe, coragem! Não deixe que, às vezes, as adversidades do dia matem o seu sonho, tenha coragem.

Ele é o rei que vai nos dando perseverança em tempos de angústia. É muito interessante, é um rei que nos dá esperança em tempos de angústia, é um rei que nos defende. Então, vamos percebendo aquilo que nos diz a segunda leitura [Ap 1, 5-8]: é o rei que torna nossa vida um momento celebrativo, e abre as portas da eternidade para que todos nós possamos fazer essa experiência.

Por isso, hoje, ao celebrarmos o Cristo Rei, nós queremos pedir que Ele, como rei do universo, tão grandioso que é, sente e conviva comigo, tão miserável que sou. Não importa o que você faça ou o que você seja, o que importa é a sua existência para Ele, e deixar que Seu amor sempre o transforme, sempre o fortaleça, para que, cada dia, produza muitos frutos, frutos do Seu reino, que a cada dia é o cuidar, zelar e animar, e levar essa graça e essa luz a muitos corações que ainda não O descobriram.

 

Vamos pedir que essa Eucaristia ilumine muito a nossa fé, que possamos retomar cada dia nossos caminhos, e, com certeza, pedir que este rei que não é distante, que está tão próximo, este rei que não desiste de você, de nós, cada dia nos sustente nos momentos mais difíceis que iremos passar na vida.

Louvado seja o nome do nosso Senhor Jesus Cristo! Para sempre seja louvado.

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A saída para nosso mundo é a fraternidade

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 33º Domingo do Tempo Comum (Ano B – 14/11/2021 - missa às 10h)

Na semana passada nós celebramos a Solenidade de Todos os Santos, então o Evangelho era outro, não era o exatamente anterior a este. O Evangelho anterior (Mc 12, 38-44) fala da queda e destruição de Jerusalém, local que era um sinal para o povo da tribo de Judá, depois da Palestina. Era um sinal da presença de Deus! Ali estava o templo, estava o sinédrio, que eram os juízes, o congresso, e ali estava também o que chamaríamos hoje de casa da moeda, todo o poder estava concentrado em Jerusalém.

Jesus faz a profecia da destruição de Jerusalém: “quem estiver no terraço não desça para pegar suas coisas, quem estiver nos campos não volte para a cidade. Pobre das mulheres que estiverem grávidas naquele dia, pobre das mulheres que estiverem amamentando!”. Uma profecia terrível, porém, não é uma visão do futuro, como se Jesus fosse um lunático, não! São as consequências das ações do próprio povo e dos seus chefes, que foram infiéis à aliança. E mais: vão matar o messias que Deus mandou, o próprio Jesus. Não reconheceram os sinais de Deus porque se tornaram infiéis, por isso foram destruídos. 

O templo de Jerusalém foi arrasado, as famílias sacerdotais foram mortas, um grande grupo de pessoas, no ano 72, foram massacradas. O judaísmo que existia até o ano 72 simplesmente deixou  de existir! O judaísmo que conhecemos hoje é um judaísmo que foi reestruturado depois da destruição do templo.

As consequências foram tremendas porque o povo de Israel, com seus chefes, não foram fiéis a Deus. Essa é a profecia que trata de Jerusalém, porém, o Evangelho estava sendo anunciado para as nações, então, esse Evangelho que ouvimos hoje (Mc 13, 24-32) fala não do fim do mundo, mas da queda dos falsos deuses pagãos, que são representados pelo sol e pela lua.

 

O anúncio do Evangelho e a vida de amor e serviço dos cristãos denuncia esses falsos poderes do mundo que criam morte. A ação dos cristãos vai fazer com que esses ídolos de morte desapareçam! As estrelas vão caindo; ao longo da história, grandes líderes, grandes ditadores, grandes imperadores pensavam que eram os donos do mundo. O rei da Babilônia se considerava a luz do céu, uma estrela, uma grande luz no céu.  Por quê? Ele se chamava deus. Os imperadores de Roma era divinizados, deuses. E o que você pode contra um “deus”? Bem pouco, ainda mais se ele é um tirano louco, não é?

 

A ação dos cristãos de fraternidade, de amor, de luta e denuncia contra a tirania dessa gente, fará, ao longo da história, com que eles vão caindo até que o mundo se torne o mundo dos eleitos de Deus. E o que isso significa? Um mundo de amor e fraternidade!

Hoje estamos em um tempo terrível. Qual é o grande deus do nosso tempo? É o mercado, e o poder dele é o lucro, e existe uma série de deuses menores que vêm junto com ele, e que criam para o povo sofrimentos, diferenças, morte, fome... esses são ídolos da morte!

O Papa Francisco, na sua carta Fratelli Tutti (irmãos, todos irmãos), vai dizer: “nosso mundo só tem uma saída! Na frente desse monstro, desse ídolo da morte que se chama mercado, que é implacável, só tem uma possibilidade: a fraternidade.” A fraternidade coloca o lucro fora do jogo porque o que conta é o bem do outro. O outro está passando fome? Eu divido o que eu tenho.  Um país na África está passando fome e eu tenho aqui 10 toneladas de comida? “Ah, mas vai ficar caro pegar um avião e mandar para lá, deixa apodrecer aqui...” não! Eu não vou ter tanto lucro, talvez até vá perder, mas lá tem gente precisando. Essa é a lógica da fraternidade!

 

Nós estamos falando tanto agora de clima, e o Brasil está sendo um vergonha nisso. Além do mentiroso que vai lá mentir para as nações, estamos em uma situação grave: a Amazônia nunca teve tanta queimada como agora. Se você só pensa no lucro (mineração ilegal, extração de madeira ilegal), você derruba tudo, você devasta tudo! “Ah, mas eu quero esse pedaço de terra grande igual ao ABC!” - mas ali tem uma tribo indígena! “Coloca fogo, queima tudo! Tanto que o que é índio?”

Essa é a ideia do lucro, de quem não pensa no bem do outro, e nem no bem do mundo! “Ah, mas é só um pedacinho de terra que eu vou queimar...” mas isso está fazendo mal para o mundo inteiro. Todo o discurso dos combustíveis fósseis... mas estão realmente investindo, por exemplo, na energia solar?  A gente paga uma fortuna para instalar um painel solar, o próprio Estado coloca dificuldades. Tem muita gente ganhando, então o que conta é o dinheiro, não o bem do povo, do mundo nem das próximas gerações.

 

Existiu um rei no tempo de Israel, o rei Acabe, que era marido de uma mulher terrível, a rainha Jezabel. O nome dessa mulher e demônio são quase sinônimos, e ele fez uma loucura, arrumaram um complô para ele se apossar de um terreno de um homem inocente, um horror o que fizeram! E o profeta o amaldiçoou. Ele se arrependeu, e Deus falou: “essa desgraça não vai acontecer com você, mas com seu filho.” Aí ele falou: “ah, que se dane, é com meu filho”.

A nossa geração, os grandes do nosso tempo, está fazendo exatamente o que esse rei fez: “nós estamos comprometendo o futuro do mundo...” – “Problema deles, problema para as próximas gerações, até lá eu já estarei morto e terei passado a vida com o bolso cheio de dinheiro!”.

Isso é a lógica da não fraternidade! Por isso, os cristãos têm que estar sempre atentos à fraternidade e às situações do mundo que são contra a vida, contra o Evangelho, porque é pela ação dos cristãos, a ação nova dos cristãos, que essa mentalidade monstruosa do mundo vai mudando, essas estrelas falsas vão caindo e o respeito pelas pessoas vai crescendo.

 

Essa é a mensagem de Jesus, e é muito interessante ver a última frase do Evangelho: “sobre aquele dia e aquela hora ninguém sabe, nem os anjos, nem o filho, só o pai.” A hora, no Evangelho, é a hora da cruz de Jesus.

A cruz de Jesus é o julgamento do mundo. Todos nós, todas as nossas ações, todos os nossos pensamentos, julgamentos, todo o amor que temos pelas pessoas aparecem agora, diante da cruz de Cristo: o homem massacrado porque pregou o amor aos irmãos e irmãs.

O que os ídolos da morte são capazes de fazer? Matam, só isso eles podem: matar e destruir! Mas a resposta de Deus só pode ser uma: vida. E, para esse inocente massacrado, Deus responde com a vida eterna.

 

Jesus é causa de salvação para todos que nele creem e que buscam agir como ele! Esse é o poder de Deus, diferente do poder do mundo, e é isso que esse Evangelho está anunciando: é a prática dos cristãos que vai, aos poucos, mudar o mundo, e a quantidade de pessoas que vai acolher o Evangelho será tanta que abraçará os quatro cantos do mundo! É por isso que, em torno do filho do homem, que é Jesus Crucificado, vão se reunir todas as nações da terra.

Vamos pedir ao senhor que, nesse tempo, em que no Brasil vimos tanta mentira, tanta injustiça, tantas pessoas passando fome... hoje celebramos o dia do pobre! No mundo inteiro a igreja está fazendo ações pelos pobres. “Ah, mas não ajudamos os pobres todos os dias, toda semana?” Sim, mas é um modo de gritar para o mundo: nós temos que mudar nosso modo de agir, nós temos que nos preocupar com aqueles que sofrem, nós não podemos produzir mais sofrimento!

A cruz de Jesus nos leva a anunciar isso de uma forma muito forte. Hoje, na praça do Carmo, vamos distribuir 500 marmitas para os pobres, um grito para Santo André inteira: tem fome e pobreza nesta cidade! Nós, cristãos, estamos tentando fazer o que podemos, mas não basta. Os outros poderes deste lugar precisam fazer algo pelos pobres.

 

Vamos pedir ao Senhor que nos ajude a continuar olhando para Jesus crucificado, mudar o pensamento e a ação desse mundo.

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A santidade em nosso dia a dia

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – Solenidade de Todos os Santos (Ano B – 07/11/2021 - missa às 10h)

O Evangelho de hoje[Mt 5,1-12a] se presta a muitos comentários que devemos vigiar nas nossas ações e pensamentos. Bem-aventurados os pobres em espírito. Um cristão tem sempre os olhos voltados para onde estão os olhos de Deus. E os olhos de Deus estão voltados para os pobres, os injustiçados, os doentes, enfim, toda pessoa que sofre. E Jesus está pregando este Evangelho para seus discípulos e toda multidão que o segue e seguirá. Os olhos de Deus estão lá. Todas as outras bem-aventuranças serão consequências deste “ter os olhos voltados para o lugar que Deus olha”. A consolação na aflição, a misericórdia onde vem o desejo de violência, a busca da paz e da justiça, mas a justiça da Escritura. A justiça do Estado – e não poderia ser diferente – se baseia em um princípio: dar a cada um o que lhe é próprio. É um princípio muito bom, mas também pode simplesmente manter a sociedade e o mundo exatamente como estão.

Na Escritura, o significado de justiça é o de fazer justiça ao pobre. Defender o direito do pobre. Por quê? O rico já tem como se defender. O pobre é que não tem justiça. Ao pobre, há demora em se fazer justiça. Ao pobre, o Estado dá calote. E, muitas vezes, quando você grita contra isso, você é perseguido. Nós temos sempre que ter os olhos voltados para Jesus e Seu jeito. E o jeito Dele é esse. Jesus não está nos palácios, tomando chá com Herodes ou Pilatos. Jesus está no meio dos pobres, no meio do povo. E o povo daquele tempo era pobre. A eles, Jesus diz bem-aventurados. Todos aqueles que se solidarizam com os pobres entram nas bem-aventuranças: todos aqueles que buscam a paz, que buscam a justiça, que não se enganam e não se deixam enganar pelas mentiras que são ditas constantemente pelos poderosos e outros grupos de poder. Estes são os puros de coração porque veem sempre o rosto de Jesus e o jeito Dele de ver, agir e sentir. Então devemos ter sempre os olhos em Jesus e em seu Santo modo de fazer.

Queria fazer um comentário sobre o livro do Apocalipse porque aqui nós encontramos tantas interpretações sobre este texto que nós ouvimos hoje. O anjo marca a testa dos 144 mil eleitos das 12 tribos de Israel. 12 mil de Rúben, 12 mil de Gade, 12 mil de Benjamim e assim sucessivamente. 144 mil não significa realmente este valor, mas sim um número simbólico. Existem muitos números, na antiguidade, que são considerados quase que mágicos. Os números 3 e 4 estão entre eles. Sua soma, 7, e sua multiplicação, 12, são números de perfeição. 12 vezes 12 dá 144, que é outro número de perfeição. 144 vezes 1000 dá 144 mil. 1000 é um outro número de perfeição. Portanto, 144 mil significa totalidade. Ou seja, Deus vai salvar o povo de Israel, os hebreus, os judeus. Por quê? Porque ele prometeu e Deus é fiel. Só que nós temos que olhar o jogo que o escritor do Apocalipse faz. Porque são duas imagens: deste lado, os 144 mil; e esta outra imagem que São João vê logo depois. Aqui são 144 mil, um número fechado. Do outro lado existe uma multidão que ninguém é capaz de contar. É muita gente.

O povo de Israel é apenas um dos povos. Do outro lado, nós temos todos os povos. O povo de Israel fala uma língua, que é o hebraico. Aqui são todas as línguas. O povo de Israel é uma raça, semita. Do outro lado, todas as raças. Israel é uma nação, nação hebraica ou judaica. Aqui, todas as nações. O que significa isso? Que os privilégios e as promessas que Deus dá para Israel, para os judeus, Ele dá para todos os outros povos. Todos. Porque, para Deus, não existem privilegiados. Deus não faz distinção de pessoas. Deus não diz para um homem e uma mulher que trabalham em um emprego e fazem a mesma coisa: “você, homem, ganha mais e você, mulher, ganha menos”. Deus não faz isso. A mesma coisa com cor de pele. Deus não faz distinção entre preto e branco.

Deus quer todos na Sua casa. E Ele vai fazer de tudo para conseguir isso. E, diante Dele, nós temos a igualdade radical. O que nós não conseguimos neste mundo, devido ao nosso sistema político, econômico, religioso, nós vamos ter diante de Deus. E, quando nós somos cristãos, nós procuramos sempre formas de nos aproximar cada vez mais desta imagem. Papa Paulo VI disse sobre paz e progresso. Papa João Paulo II falou de solidariedade. Já o Papa Francisco falou de fraternidade. São estes princípios que fazem com que o mundo, a sociedade e a economia possam se aproximar sempre mais disto, que é a igualdade entre as pessoas. Porque é isso que Deus quer. E o Apocalipse nos mostra exatamente isso. Não existem privilégios. Todos recebem a mesma paga, ou seja, a plenitude de Deus. Para alguns, isto será o céu – ser radicalmente igual aos outros em dignidade, em acolhida. Para outros, isso será o inferno – para quem não se considera como o outro, para quem se acha superior, encontrar-se na igualdade será o inferno. Para quem viveu pisada, esmagado, perseguido, discriminado, ter dignidade igual isso será o céu.

O Apocalipse é um livro que tem grandes consequências. De fato, apocalipse significa revelação. A revelação de Jesus são os Evangelhos. Então o Apocalipse está, com uma linguagem toda própria, na via estreita dos evangelhos.

Vamos pedir ao Senhor que Ele nos ajude. Primeiro, a escutar a Sua Palavra. E aqui, vai sempre o puxão de orelha do padre: quem é que lê a Escritura todos os dias? Quem que já leu um Evangelho inteiro? Tem Evangelho com 16 capítulos. O Evangelho de Marcos em 4 horas você lê. Quem já leu o Novo Testamento inteiro? Quem já leu a Bíblia inteira? Pode me perguntar, que eu já li. Então, ao menos essa, eu ganho. Se nós não conhecemos as Escrituras, se nós não conhecemos os Evangelhos, como que, realmente, nós vamos seguir Jesus e ter os sentimentos Dele? Vamos ter coragem, conhecer Jesus, começando pela Escritura, a Palavra Dele. Depois, o passo seguinte, colocar o que nós aprendemos de Jesus em prática. Nesta hora, é preciso pedir luz e força para o Espírito Santo porque aí começam a aparecer as nossas mentiras, as nossas máscaras, os nossos preconceitos. E aí é preciso ir arrancando isso e, às vezes, dói. Porém, este é o caminho de Jesus. Lá no livro do Apocalipse diz: “lavaram suas vestes no sangue do Cordeiro”. Não necessariamente foram mártires, mas tiveram a coragem de olhar para Jesus e arrancar de si essas coisas, essas atitudes que não são de Deus. Esses são os santos. A Igreja nos apresenta alguns dos infinitos santos que há na Igreja para que possam ser, para nós, estímulo e modelo. Porém, a santidade, o seguir Jesus, é algo que está esparramado no meio do nosso povo: pais e mães de família dedicados, filhos dedicados, pessoas honestas, pessoas que promovem a caridade, pessoas que fazem o bem, pessoas que falam a verdade, pessoas que não enganam. Estes são os santos e eles estão no nosso meio e são muitos.

Vamos pedir ao Senhor, que nos marcou com o Seu selo, que tenhamos os santos como exemplos. Nós somos todos batizados. E, no dia do batismo, nós recebemos o Sinal da Cruz em nossa testa e, depois, a unção do Crisma. Tudo isto nos faz de Jesus e nos coloca nesta multidão. Então nós vamos fazer o possível para colocar a nossa vida neste caminho.

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Jesus nos revela que o nosso caminho é a ressurreição

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – Comemoração dos fiéis defuntos (Ano B – 02/11/2021 - missa às 17h)

No dia de hoje, queremos lembrar as nossas orações pelos nossos falecidos. Desejamos que as nossas orações subam até Deus como o perfume de fumaça de incenso. Por isso que hoje utilizei o incenso. Jesus nos fala, várias vezes, sobre julgamento. E sempre que nós vemos isto, aparece a questão do como nós vivemos a nossa vida aqui, como nós tratamos os nossos irmãos e irmãs. Aliás, esta é a grande pergunta: nós tratamos os outros como irmãos e irmãs? Se nós vemos os outros desse modo, nós não deixamos que haja fome, ignorância ou doença. Todas as vezes que nós destratamos as pessoas, que nós as vemos como seres de segunda classe – às vezes, nem como seres humanos –, nós estamos fora do caminho do Reino. Deus ama a todos como irmãos e irmãs e o julgamento recai sobre este modo que nós temos de tratar o outro. Nós construímos vida ou nós a destruímos? Vocês promoveram a vida entre aqueles que estavam sofrendo ou vocês ignoraram e deixaram o sofrimento permanecer?

Nosso tempo não é pior que o passado. O nosso tempo é único e é nele que nós temos que fazer o que podemos. Nossa comunidade tem sido muito generosa com os que sofrem e isso é um motivo de louvor e agradecimento a Deus. Porém nós, todos os dias, temos que nos colocar sempre a questão: “Meu Deus, eu estou tratando os outros como irmão e irmã?”. Ela é fundamental pois isso nos leva à conversão.

Eu aceito e respeito os pretos? Os estrangeiros? Os gays? As pessoas, em geral? A palavra é respeito. Posso até não gostar, mas nem por isso a pessoa é menos. Eu não posso querer eliminar o outro porque ele é diferente de mim. O que não significa que quem erra não deva pagar pelo seu erro diante do Estado. Amor e justiça não são incompatíveis. Uma é irmã da outra. Em Deus, existe só misericórdia. E a misericórdia Dele é mais justa que a nossa justiça.

Todas as vezes que nós apresentamos uma intenção na missa pelos nossos mortos, nós estamos rezando por eles. Toda vez que nós pedimos a Deus que Ele lhes dê o descanso eterno – a nossos pais, nossos irmãos, nossos amigos –, esta oração chega aos ouvidos de Deus. Quando? Na eternidade de Deus. Deus está fora do nosso tempo. E as orações que nós fazemos hoje, Deus as escuta no momento da morte da pessoa, que é o momento do julgamento. Em Deus não há antes e depois. Para nós existe, mas para Deus não. E, na hora da morte, nós saímos do tempo e entramos na eternidade.

É muito interessante ver, na Transfiguração de Jesus, que Moisés – que viveu 1250 anos dele – e Elias – que viveu 600 anos antes – estavam vivos e falavam com Jesus. A ressurreição dos mortos é revelação de Deus em Jesus. Jesus é Deus ressuscitando dos mortos e, assim, Ele nos revelou que o nosso caminho é a ressurreição. O túmulo onde Maria Madalena foi procurar um defunto, o túmulo onde João e Pedro foram procurar um cadáver não é a última resposta da nossa vida. A resposta de Deus é aquela que abre os olhos de Maria Madalena e faz com que ela contemple Jesus ressuscitado. Ou, como no caso dos discípulos de Emaús, que caminharam com Jesus ressuscitado e lhes queimava o coração quando Ele lhes falava da Escritura. E quando Jesus parte o pão na mesa, com eles, seus olhos se abrem e eles contemplam, por um segundo, Jesus ressuscitado. Outra situação foi com os doze reunidos, e ali Jesus se apresenta diante deles e eles ainda têm medo que seja um fantasma. E Tomé quis colocar a mão em suas feridas. É a realidade nova que Deus nos mostra e que Deus nos dá: vida eterna. A morte dói? Para nós dói. É separação, é saudade, são laços que são rompidos. Porém, os nossos mortos estão em Deus e nos amam – e podemos dizer que até mais do que antes, porque agora eles veem o verdadeiro rosto do amor, que é Jesus. E eles desejam para nós que façamos um caminho que nos leve sempre mais para junto de Jesus.

Vamos pedir ao Senhor que usemos bem o tempo que temos enquanto nós dissermos “hoje”. Este grande hoje que, para alguns dura 30 anos; para outros, 50; para outros, 90. Enquanto nós dissermos “hoje”, que nós possamos, realmente, amar e servir, porque é isso que nós faremos no céu.

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Não tenham medo

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 31° Domingo do Tempo Comum (Ano B – 31/10/2021 – missa às 10h)

Jesus, quando foi para Jerusalém, sabia que os dias Dele estavam contados e, naqueles dias, Ele bateu boca com um monte de gente, porque todos queriam pegar Jesus numa cilada e, por fim, mandam este Doutor da Lei. Os doutores da Lei eram homens que durante toda a vida estudavam as Escrituras e, aos 40 anos de idade, eles recebiam um tipo de ordenação e a interpretação que eles davam da Palavra era considerada infalível. Eles mandam um homem desses para colocar Jesus a prova. Este homem não está ali porque ele gosta de Jesus, mas para pegar Jesus numa cilada. E então pergunta: “Qual é o primeiro e mais importante dos mandamentos?”. Jesus responde com uma oração que os hebreus rezam todos os dias, três vezes ao dia, que se chama Shemá, que significa “escuta”. Shemá Israel, Adonai Eloheinu, Adonai Ejad. Escuta Israel que o Senhor é teu Deus, o Senhor é único.

Depois Jesus coloca que o segundo mandamento é amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Desses dois mandamentos depende tudo, não existe mandamento maior do que este. E o mestre da Lei que queria pegar Jesus no pulo responde: “Mestre, o Senhor respondeu bem”. Este homem é um inimigo de Jesus e está ali para pegar Jesus no pulo, mas este homem é profundamente honesto, porque ele reconhece a verdade que veio da boca de Jesus, daquele que ele quer destruir. Amar a Deus e amar ao próximo é maior que todos os holocaustos e sacrifícios. E Jesus dá a contrapartida: “Você não está longe do Reino de Deus”. A verdade é verdade venha de onde vier e você não pode dizer que uma palavra ou uma ação de uma pessoa é falsa só porque ele é seu inimigo. O bem que a pessoa faz, mesmo sendo seu inimigo, continua sendo bem. Os católicos ajudam os pobres. O pessoal da umbanda ajuda os pobres. O pessoal do centro espírita ajuda os pobres. O deles é diferente do nosso? Não, é o bem do mesmo jeito. Agora, você dar camiseta para os outros para ganhar voto, isso aí é comprar votos. Entenderam? Querer estourar o teto de gastos para dar 400 reais para o povo, tirando um monte de gente do meio, isso é comprar votos, 400 reais não dá para nada, tinha que ser mais para deixar o povo comer. Pois é, o bem é bem de onde quer que venha. O mal tem que ser apontado e reconhecido.

Na Segunda Leitura, na Carta aos Hebreus, o autor nos fala de Jesus sumo sacerdote. No tempo dos hebreus, o sumo sacerdote, antes da celebração, tinha que oferecer um sacrifício que era matar um animal, isto é, oferecer o sangue do animal no lugar do seu, pelos seus próprios pecados. Depois, ele ia oferecer pelos outros. Mas isso tinha que fazer todo dia. Então, o autor fala que este sacrifício não serve para nada, pois todo dia ele tem que oferecer um novo sacrifício. Jesus é o Filho de Deus, o Filho do Pai. Ele se ofereceu em sacrifício e Ele entra na eternidade diante do Pai, com seu sangue. E é o sangue de Jesus, este sacrifício único, que nos salva, que intercede por nós diante do Pai. Nós temos um sumo sacerdote que é capaz de se compadecer de nós, porque Ele conhece a nossa humanidade. Ele se fez semelhante a nós em tudo, menos no pecado, para poder ser, diante do Pai, um sumo sacerdote capaz de salvar a todos nós. Por isso que nós podemos ter plena confiança em nos aproximar de Jesus. Não temos que ter medo. Jesus fala, repete nos Evangelhos: “não tenham medo, tenham confiança”. Confiança em quem? Em si mesmos, no outro e em Deus. O medo é o veneno que o maligno colocou no nosso coração, a desconfiança de nós mesmos, dos outros e em Deus. Jesus vai falar: acabem com isso, confiem. E Jesus nos mostra a confiança Nele até o ponto de morrer, Ele dá a vida, Ele não segurou nada para Ele para que nós possamos ter plena confiança Nele. A confiança em Jesus é o fruto do nosso batismo, é a graça que nós recebemos no dia do batismo.

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Lutar contra as cegueiras que o mundo nos coloca

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 30º Domingo do Tempo Comum (Ano B – 24/10/2021 - missa às 10h) 

Na Primeira Leitura de hoje, nós ouvimos um trecho do livro do projeta Jeremias [Jr 31,7-9]. Ele viveu 100 anos depois do profeta Isaías. E Isaías foi um profeta cujas muitas de suas profecias vieram a ser realizadas. A principal delas, para nós cristão, que nós interpretamos como o anúncio do nascimento do Messias, é que uma jovem dará à luz um filho. Na época, Isaías estava falando da rainha. No tempo dele, a Assíria era um grande império e cercou Jerusalém e ia tomar a cidade. O cerco foi terrível, mas Isaías disse: “não temam, eles não vão entrar nesta cidade”. E, de fato, não se sabe o porquê até hoje – se foi uma guerra em outro lugar, uma epidemia, uma peste –, mas o exército, de um dia para o outro, levantou acampamento, foi embora e não voltou mais. E isto criou para o povo a ideia de que Jerusalém estava protegida por Deus e que, poderia acontecer o que fosse, Deus estava nesta cidade. Cem anos depois, o profeta Jeremias vai anunciar a destruição de Jerusalém e a deportação do rei e da corte inteira. Ele viu a deportação, viu a destruição do templo e ele anunciou. Mais para a frente, este povo vai voltar, serão trazidos. O terreno vai ser aplainado, as pessoas não terão nem como se perder, tal será a glória desta cidade. Os povos das nações irão para aquela cidade. Só que ele não viu esta profecia cumprida porque isto aconteceu 70 anos depois e ele já havia sido assassinado no Egito.

Porém, este anúncio “os cegos vão ver, os coxos vão andar” é a ideia, pregação, profecia sobre o Messias. E aí nós vemos o Evangelho[Mc 10,46-52], no qual Jesus está indo de Jericó para Jerusalém. Em Jerusalém, Jesus vai ser crucificado. Então estão Jesus, seus discípulos e se fala de uma grande multidão. No meio do caminho, sentado, um mendigo cego começa a escutar aquela confusão e pergunta o que estava acontecendo. E lhe dizem que Jesus, o Nazareno, estava passando por ali. Então ele começa a gritar: “Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim”. Ele é cego, ele não pode nem sair de onde ele está, pois há uma multidão passando ali. Ele não é como a mulher que sofria de fluxo de sangue, que consegue passar no meio do povo até tocar em Jesus. Ele não é como Zaqueu, que mesmo sendo de baixa estatutra, corre na frente do povo e sobe em uma árvore para ver Jesus. Tudo que este cego pode é gritar. Mas a coisa interessante é esta: os discípulos e aqueles que estão seguindo Jesus mandam ele se calar.

Mas este homem insiste porque o sofrimento grita e grita diante de Deus. E Deus escuta. E Jesus também escutou. Até quando parece que Deus não responde, ele escuta. Por que Deus não responde? Porque, às vezes, esta cruz é sua e você tem que carregar. Foi isso que Ele fez com Jesus no Horto das Oliveiras. Aqui, Jesus escutou o homem e pediu para levá-lo até Ele. E tem uma atitude interessante deste homem. O que ele faz? Ele dá um pulo e joga o manto dele fora. O manto era a única proteção que estas pessoas tinham para se cobrir durante a noite, ao relento. Então, a única defesa que ele tem, ele joga fora. Ele joga tudo fora para ir até Jesus. E Jesus vai lhe perguntar: “o que você quer que eu faça para você?”. Deus não está preocupado consigo, mas sim com o outro. O olhar de Deus está voltado para nós. E, especialmente, para os que sofrem. Os olhos de Deus estão fixos nos sofredores do mundo: nas pessoas sem casa, nas periferias do mundo, nas pessoas que estão morrendo de fome, nas pessoas que morrem porque não tem um medicamento para superar uma doença, nas pessoas que não têm água potável ou que vivem na miséria, em um mundo que esbanja muito do que produz. O mundo hoje poderia alimentar o dobro das pessoas que tem. E, no entanto, nós temos milhões de pessoas passando fome. E os olhos de Deus estão lá porque são estas pessoas que gritam diante de Deus. E os discípulos, o que tem que fazer? Conduzi-las para Deus. Não é fazer estas pessoas católicas, mas sim dar vida e dignidade para estas pessoas. É isso que Deus quer.

Jesus pergunta para o cego o que ele quer que Ele faça. E ele responde: “Senhor, que eu veja”. E Jesus responde para ele “seja conforme a sua fé”. Outra coisa interessante que lemos neste Evangelho é que Jesus diz: “vai, tua fé te curou”. E o homem continua seguindo Jesus pelo caminho. Bartimeu se torna o modelo de discípulo de Jesus. Ele viu não só com os olhos do corpo, mas também com os olhos da fé. Tem um puxão de orelha aqui neste Evangelho para os outros seguidores de Jesus. Aquela multidão – e em seu meio, os discípulos também – mandam o cego ficar quieto. Nós não queremos este tipo de problema aqui, isto não nos interessa. Não é disso que temos que ir atrás. Cuidado que mesmo a comunidade pode ser cega e não ter os olhos onde Deus têm. Por isso que nós temos que fazer o que este cego fez e pedir: Senhor, que eu veja. Tire dos meus olhos as cegueiras que eu tenho, que podem ser muitas, para que eu possa ver aquilo que Você vê. Para que eu possa ser realmente seu discípulo e não apenas mais um fã, que não serve para nada. Na hora do aperto, foge todo mundo.

Esta é a mensagem deste Evangelho: que todos nós podemos ter muitas cegueiras. E é só olhando para Jesus e o Seu santo modo de pensar e fazer que nós vamos acertando nosso passo e tirando dos nossos olhos esta cegueira.

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O poder de Deus é o amor

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 29º Domingo do Tempo Comum (Ano B – 17/10/2021 - missa às 10h)

Jesus segue decididamente para Jerusalém. Jerusalém é a Sede do poder da Palestina. Lá está o que nós chamaríamos hoje de congresso, o governo e a casa da moeda. Todo poder concentrado neste lugar. Na cabeça dos apóstolos existe uma concepção de Messias político e reformador das estruturas de Israel. E eles acham que Jesus vai para Jerusalém fazer isso: tirar os poderosos dali, pôr para fora o pessoal que comanda o templo, reformar a liturgia, expulsar os romanos e instaurar um governo que será o maior do mundo. Estes são delírios megalomaníacos de um pequeno estado que na antiguidade contou pouco ou nada. Porém, era isto que o povo esperava. E os discípulos não esperavam diferente. Jesus já havia anunciado duas vezes que ele, indo para Jerusalém, seria morto e ressuscitaria ao terceiro dia, embora ninguém entendesse o que era esse negócio de ressuscitar. E eles continuavam na cabeça com este Messias político.

Na subida para Jerusalém, há uma curva na qual, quando se vira, a cidade aparece na sua frente no meio das colinas, e você vê o vale e a cidade. Quando chegam às portas de Jerusalém, dois discípulos correm diante de Jesus, jogam-se a seus pés e pedem que Ele lhes conceda um pedido. “Queremos que você nos dê um lugar à tua direita e outro à tua esquerda”. Eram os ministros mais importantes do reino. Eram as posições do Primeiro Ministro e do Ministro da Justiça. Porque era esta a visão que eles tinham na cabeça. Antes que chegassem a Jerusalém, eles estavam falando que queriam os cargos mais importantes, para que Jesus não os cedessem a outras pessoas. Aí Jesus diz: “vocês podem beber do cálice que eu vou beber? Serem batizados do modo como serei batizado?”. Embora dissessem que podiam, eles não tinham ideia do que estavam falando. Eles estavam tão cegos que eles não tinham ideia das consequências do que eles falavam. O batismo, o cálice de Jesus é o da tortura e do sofrimento. O cálice que foi apresentado para Jesus no momento do Monte das Oliveiras, da agonia. E o batismo é o de sangue, na cruz. Eles estão pensando em outra coisa, completamente diferente. E uma coisa interessante: depois da ressurreição e da vinda do Espírito Santo, aí eles compreenderam e, realmente, seguiram Jesus no Seu cálice amargo e no sangue derramado da cruz.

Aí o que nós vemos? Nós vemos o que era de se esperar. Os outros, que pensam exatamente igual aos dois, ficam bravos, pensando que eles queriam ser espertos e dar um golpe neles. Os dois que ficam querendo chamar fogo do céu para devorar as vilas que não os acolhem, não acolhem Jesus, agora estavam querendo pegar os dois primeiros lugares. Estão exatamente na mesma ideia dos outros dois discípulos. Aí Jesus puxa o tapete.

Os chefes das nações as tiranizam. Não existe poder neste mundo que não se imponha. É certo que a força coercitiva, a polícia, o exército, são forças para se usar em caso de necessidade. Mas, mesmo assim, são forças coercitivas. E matam. Os homens do poder arrogam-se poder de vida e de morte sobre os seus subordinados. Tanto podem dar comida quanto tirar. Nós estamos vendo no Brasil. De dez milhões de pobres em 2018, nós temos 19 milhões atualmente. Pode dar vida ou pode dar morte. Teríamos, inevitavelmente, muitas mortes por COVID. Mas poderiam ter sido muito menos. Poder de vida, poder de morte. Mas isto não é só no Brasil, é em todo o mundo. O poder humano esmaga, ou tira a liberdade, ou impõe cultura, ou ele controla a economia. Ele se impõe.

Jesus alerta exatamente para isto. Não é este o caminho. O Pai é pai de todos e quer que vocês se sintam filhos e filhas Dele. Mas, se eu sou Filho de Deus, o outro, que está ao meu lado, também é. Então eu tenho que pensar como Deus. Como é ver todos como irmãos e irmãs? Quem está sentado ao seu lado no banco, você considera seu irmão ou irmã? Você está a missa toda aqui, às vezes vai até fazer a comunhão e nem disse “bom dia” para a pessoa que está do seu lado. Você chama isso de irmão ou irmã? Olha como nós estamos bêbados desta mentalidade de separação das pessoas. Eu sempre gosto de lembrar os primeiros meses, nos quais nós começamos a rezar o Pai Nosso de mãos dadas na igreja. Gente, isto aqui há quase 50 anos, há bastante tempo. Mas a coisa mais “engraçada” de se ver era que tinha gente que se negava a dar a mão para o outro. Não conheço essa pessoa. Essa pessoa é preta. Essa pessoa é pobre. As pessoas não davam as mãos facilmente, não. Demorou para que as pessoas aprendessem a dar as mãos. Nós temos esta mentalidade enfiada dentro do coração. E quando nós fazemos distinção de pessoas, nós podemos sim matá-las, com desprezo, com um tanto faz. São os nossos desprezos porque nós não vemos a todos como irmãos e irmãs. E ver a todos como irmãos e irmãs não é achar que todo mundo é bonzinho não. Porque, às vezes, nós temos irmãos e irmãs que não prestam, mas eles continuam sendo meus irmãos ou irmãs.

Deus tem só um poder: amor. O amor de Deus dá vida. Ele não mata, ele dá vida. E para mostrar o coração do Pai, Jesus aceitou morte injusta. Quando a gente fala morte injusta é exatamente este poder do mundo, poder dos governantes – na época, eram Pilatos e Herodes, eram Anás e Caifás. Mas são os poderes do mundo, que sempre criaram mártires, sempre mataram. Jesus não quer ser que nem estas pessoas. O Reino de Deus não é deste jeito. Jesus aceita que este poder esmagador caia em cima dele. Por isso nós dizemos que “Ele carregou sobre Si os nossos pecados”. Esses crimes, que são nossos também, de distinção de pessoas, de ódio pelos outros, de querer ser melhor que o outro, de poder decidir sobre a vida e a morte do outro, isto Jesus recebeu sobre Si. E morre pedindo perdão por nós, que o matamos. Por isso que nós dizemos que, toda vez que você não ama o seu irmão, você peca, porque você não reconhece nele a imagem de Jesus. E quanto mais desfigurado estiver, mais parecido com Jesus na cruz ele está. Porque Jesus na cruz não atraia o olhar de ninguém não, pois aparecia como bandido, excomungado, como um marginal contra o império. Então não atrai o olhar de ninguém, mas, sobre ele, caíram os nossos pecados. Ele, nesta situação, intercedeu por nós. Nesta situação, Ele nos deu Salvação, para que nós aprendamos a ser como Ele e amar os outros e não nos armar contra os outros.

Vamos pedir ao Senhor que Ele nos ensine a sermos servos e a ter a coragem de beber este cálice de amarguras. Não é fácil dar a vida pelo outro, cuidar do outro. Isto pode nos custar caro. Daí o batismo de sangue. Nem a todos é pedido, mas a cada um é pedido em sua proporção. E isto faz a diferença no mundo. Nisso nós somos luz para as outras pessoas que pensam e agem de outro modo. Pessoas que buscam a morte, a distinção entre as pessoas e a inferiorização do outro. Deus não é assim. Jesus não é assim e nós temos que ser como Ele.

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Ser devoto de Nossa Senhora é seguir Jesus

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – Solenidade de Nossa Senhora Aparecida (Ano B – 12/10/2021 - missa às 18h)

O Evangelho de João quando fala as duas vezes de Maria: no início do ministério de Jesus, seu primeiro sinal, e aos pés da cruz, no final da vida terrena de Jesus. Maria não é uma simples mulher, ela representa também todo o povo fiel, o povo que esperava a manifestação de Deus que tinha perdido as suas esperanças em reis, em governadores, em sumo sacerdotes. Este povo começou a depositar só em Deus a sua esperança e ele espera a manifestação de Deus. Maria é sua representante e ela sabe que a esperança está em Jesus, por isso ela vai até Jesus e diz: acabou o vinho. As festas de casamento, naquele tempo, duravam sete dias e acabar o vinho no meio de uma festa dessas era um desastre, mas é interessante prestar atenção nas palavras desse Evangelho... Maria é o povo fiel, representa o povo fiel e ela mesma faz parte desse povo fiel, dos judeus que esperam a vinda do Messias. A festa desse casamento é a grande festa que nós esperamos, que esperávamos que a lei de Moisés nos desse, mas não tem mais alegria, não nos dá mais vida, está seca. E é interessante escutar a fala “as talhas de pedras”. As pedras eram o nome mais comum que tinha para se falar das duas tábuas da lei onde estavam escritos os dez mandamentos, ou seja, a lei de Moises. Então a lei antiga não produz mais nada, acabou, ficou seca e Jesus diz: mas essa não é a minha hora, a grande revelação do amor do Pai não é agora vai ser lá na cruz. Mas Maria dá àquele servo e dá também a nós a única ordem que ela dá no Evangelho: “façam tudo que Jesus vos disser”, essa é a única ordem que a Virgem Maria nos dá. Por isso, de forma muito clara, São Paulo VI, Papa do Concílio Vaticano II diz que a verdadeira devoção à Virgem Maria é seguir Jesus, não são penduricalhos de imagens, escapulários e outras coisas, não é ficar acreditando em promessa de não sei onde com não sei quem. A verdadeira devoção à Nossa Senhora é ser discípulo de Jesus, fazer o que Jesus fazia, pensar como Ele pensava, isso é ser discípulo de Jesus e devoto de Maria, porque se ela é a representante do povo fiel também é representante dos discípulos de Jesus, então o modo como ela age para seguir Jesus é o modo que temos que agir para seguir Jesus. Em Maria, tudo leva para Jesus. Tem uma grande bobagem de certas devoções marianas que falam Jesus é o trono da justiça, Maria é o trono da misericórdia ou então a escada que leva Jesus é difícil, mas a escada que leva a Maria e o céu é fácil. Quanta bobagem, tudo asneira, devocionismo barato! Ninguém segue Maria por essas bobagens. O coração de Maria bate no mesmo ritmo que o coração de Jesus, o que Jesus quer é o que Maria quer e o julgamento de misericórdia de Jesus é o mesmo olhar de misericórdia de Maria. Entre os dois não há diferença de vontade, Maria quer o que Jesus quer, Maria quer que todos nós nos tornemos discípulos e discípulas do seu filho.
Depois Jesus manda colocar água nas talhas, não se fala mais talhas de pedra, a lei antiga passou agora é a Palavra de Jesus que permanece e permanece para sempre. É o que nós ouvimos nas palavras da consagração do vinho: “nova e eterna aliança”, o que é eterno não passa. Aí levam o vinho ao mordomo que cuidava da festa e ele fica admirado com a qualidade do vinho e isso é para os discípulos e para Maria um sinal que confirma a fé deles, como dizer o caminho é esse. E como termina esse Evangelho? Maria e os discípulos voltam para Cafarnaum, onde estavam morando, voltam com ele, ou seja, um sinal de Deus que os discípulos conseguiram ver na fé. Para os outros, era um vinho bom, de ótima qualidade, mas para os discípulos era um sinal de Jesus que era o esperado. Jesus é aquele que nos dá vinho novo do Reino de Deus.
Hoje é festa de Nossa Senhora Aparecida e nos nunca vamos cansar de nos lembrar desse fato: o rio Parnaíba era o rio das águas podres. O mundo dos escravos nunca foi tranquilo, os escravos não ficavam debaixo do chicote belos e serenos esperando para ir para o céu, muitos se rebelavam e fugiam e seus senhores capatazes e muitos eram negros perseguindo negros, no vale Paraíba, pegavam os fujões, pegavam o chefe, cortavam a cabeça e jogavam no rio para servir de exemplo para os outros. Então o governador da capitania de São Vicente, que ia até Minas Gerais, que vai fundar a cidade de Guaratinguetá ali e precisam dar baquetes para ele, mas começa uma chuva do outro mundo e o que era para ser uma visita de um dia se tornou de quinze dias. Ninguém aguentava mais, a gente diz que o peixe depois de 3 dias fede, visita também então a gente tem que estar sempre atento, depois de 3 dias, lavar uma louça, limpar a casa, vamos passear, levar para comer uma pizza... e não era tempo de peixe, esse era o grande problema! E mesmo com essa chuva, esses pescadores pobres tendo que pescar uma noite depois da outra para conseguir um mínimo de peixe para poder servir ao governador e sua comitiva. É no fim desse período que três pescadores lançam no raiar do dia, depois de passar a noite sem nada, um deles diz: “Em louvor a mãe de Deus, vamos lançar as redes mais uma vez”, eles lançam e não recolhem nada, mas na rede vem uma imagem de Aparecida sem a cabeça. Empolgados com aquilo, talvez até sem refletir muito, jogam as redes de novo e vem uma quantidade absurda de peixes e a cabeça ali no meio. E como estava essa imagem toda dourada e bonita? Não, preta! Preta como os pretos decapitados e jogados dentro do rio. Maria no Brasil e na América Latina se mostra solidária com os pequenos, com os perseguidos, com os pobres, com os miseráveis. Solidária, podemos dizer que ela se fez uma com os pretos que era jogados mortos naquele rio. Ela sai decapitada do rio das águas podres para ser consolo e luz para um povo oprimido. O primeiro milagre feito para uma pessoa pela imagem de Aparecida foi exatamente a quebra das correntes de um negro que tinha sido capturado e seria levado para ser decapitado. Diante da imagem que estava ali na casa do pescador, ele grita “minha Senhora” e suas correntes se quebram. A mãe de Deus quer filhos livres, essa é a grande mensagem de Aparecida, como será também a grande mensagem de Guadalupe. Quando os índios na América Central, no México, eram mortos, ela se torna a evangelizadora, “a indiazinha toda nossa” como diziam os índios. Maria na América Latina é solidária com os que sofrem. Nossa Senhora quer que nosso povo seja íntegro, que não seja decapitado, mas que o nosso povo tenha vida. Ela quer um povo que viva na vida de Deus, na dignidade de filhos de Deus.
Aqui vamos para nossos cinco minutos de política, essa bandeira que colocamos aqui representa o Brasil inteiro. Ela é nossa e ela está estampada no manto da Virgem Maria, Nossa Senhora Aparecida. Essa bandeira é de todos nós e não de grupos facciosos, grupos de extrema direita, gente que se arma, que odeia, que mente, gente que nos desonra. Essa bandeira é nossa, do povo e temos que ter orgulho dela e não vergonha como muitos começam a ter. Nossa Senhora quer vida e dignidade para todos os brasileiros, todos nós que temos que nos orgulhar dessa bandeira, porque ela é nossa como Nossa Senhora é nossa mãe. Vamos terminar rezando pedindo a Virgem Maria que olhe pelo nosso povo mais decapitado sempre mais enfiado nas águas podres da fome, do desemprego e da desonra internacional. Viva Nossa Senhora Aparecida!

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Doar aos pobres e valorizar a vida

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 28º Domingo do Tempo Comum (Ano B – 10/10/2021 - missa às 10h)

Este evangelho[Mc 10,17-30] é cheio de pegadinhas, vamos chamar assim. Nós temos este homem, muito rico, que se joga aos pés de Jesus e, já nas suas primeiras palavras, mostra a cabeça que ele tem, falando “bom mestre”. Quando você quer puxar uma pessoa para o seu lado desde o começo, jogue um grande elogio na pessoa. Isso se chama, em latim, captatio benevolentiae. Puxe a atenção da pessoa, faz um agrado nela. E, já nisso, ele está tentando comprar Jesus. E faz a pergunta: o que eu devo fazer para ganhar a vida eterna?
Ele é um homem rico que, provavelmente, sabe aplicar muito bem em seus negócios, o seu dinheiro. Naquele tempo não tinha offshore, mas tinha gente que ficava rica e cada vez mais rica. Aí Jesus dá a primeira cutucada: “só Deus é bom. Por que você está me chamando de bom?”. Desmascara o início. E Jesus vai colocar para ele aquilo que é o comum de todos os hebreus. Ele pediu alguma coisa grande, no caso, para ganhar a vida eterna. Jesus vai dizer “não matarás, não cometerás adultério, não roubarás, não prejudicarás ninguém”.
Coisa engraçada, muitas vezes os ricos fazem exatamente isso. Cuidado, gente! Enfiem bem na cabeça, ninguém aqui é rico, viu? Esse discurso não é para nós, não. Quem consegue uma casa e um carro com trabalho assalariado não é rico. Nós somos pobres remediados. Então tire isso da cabeça pois ninguém aqui é rico! Jesus não está falando com uma pessoa como nós.
Por causa de dinheiro se mata, se rouba, se comete adultério, se prejudica aos outros. É muito interessante, mas são as mesmas palavras dos dez mandamentos. Mas ditas para um homem cujos escrúpulos podem ser bem superficiais. Aí o que acontece? Ele imediatamente diz: “ah, mas isso eu já faço!”. Aí Jesus, vamos dizer assim, dá um golpe de misericórdia. E, olha que interessante: o evangelho diz que “Jesus o olhou e o amou”.
Tudo que Deus nos diz, tudo que Ele faz, é um gesto de amor. Jesus pensa, provavelmente, que o que esse homem precisa para se converter desse modo de pensar e de agir, é ser virado do avesso. E, olhem que absurdo, Jesus diz para esse homem: “vai, vende tudo que você tem”. Gente, isso já seria um desafio terrível para nós, pobres remediados. Já isso seria tremendo. E continua dizendo: “dá aos pobres”. Por que “dá aos pobres”? Ninguém acumula riquezas sem que alguém seja pobre. Ninguém.
Nestes dias, nós temos ouvido aí a historinha do offshore do ministro. Se aumenta o dólar, os ricos ficam mais ricos e os pobres ficam mais pobres. Por quê? O arroz fica mais caro, a carne fica mais cara. Para ele, o preço da carne não é importante. Mas, para o pobre, é. Você enriquece, mas o pobre fica mais pobre ainda. Então Jesus pede que doe para eles, que ajude a restituir a justiça social. Só depois, ir e segui-lo.
Seguramente, o evangelista está mostrando o fim oriundo do seguimento de Jesus. Ser discípulo de Jesus pode nos levar para a cruz, que é a perda total. Ele pediu vida eterna, o reino do céu. E Jesus está mostrando o caminho para ele. Jesus não está mentindo. O gesto de Jesus é um gesto de amor! Esse homem que quer comprar Deus, até que Deus diz qual é o preço. O preço é esse: vai, vende e dá para os pobres. Depois, me segue, que o meu caminho leva para a cruz. Ou seja, seja o último, o servo de todos. Não se julgue melhor que ninguém, pense nos outros e no bem dos outros, que era exatamente o que esse homem não fazia.
Essa palavra de Jesus é dirigida, sim, a todos nós também! Porque, mesmo remediados, nós podemos pensar exatamente como esse rapaz e viver dentro de um egoísmo no qual o pouco que nós temos, nós fazemos disso a nossa escravidão para não seguir Jesus. É complicado, gente!
Jesus nos diz “vende tudo”. E esse “vende tudo” não é pegar o carro que você tem e vender, não. Aprenda a ser útil para os outros, a construir paz e não muros de ódio entre as pessoas. Quem faz isso não é de Deus. Devemos procurar construir pontes de amizade, como diz o Papa Francisco. Ir ao encontro do outro, especialmente daquele que sofre. De onde vem a solidariedade? Dos grandes? Não, dos pobres. De nós, pobres remediados. Nós tiramos um quilo de arroz para dar para os pobres.
De nós, espera-se que sigamos o evangelho. E dos outros? Problema dos outros. Jesus chama e pede a todos. Fica a pergunta: nós vamos ter a atitude deste homem ou vamos arriscar esse caminho de solidariedade, de fraternidade, que pode, realmente, nos levar para a cruz? Essa é a pergunta do evangelho.
Hoje nós celebramos o dia do nascituro, que é o neném que está na barriga da mãe. E nós temos uma situação muito grave no mundo, onde se praticam milhões de abortos. Nós temos que redescobrir o valor da vida! Madre Teresa, uma vez, disse uma frase assustadora. Perguntaram para ela: “o que a senhora acha do caminho no qual o mundo está indo, com estas guerras, ameaça de extinção da humanidade, guerra atômica?”. Tudo é perigo agora. Se alguém dos Estados Unidos aperta um botão, acaba com o mundo. Se alguém da Rússia aperta um botão, acaba com o mundo. Se alguém da China aperta um botão, acaba com o mundo. Se alguém da Índia aperta um botão, acaba com o mundo. Queriam saber a opinião de Madre Teresa a respeito deste mundo ameaçado. E ela disse assim: “quando o Santuário mais sagrado, que é o ventre da mãe, é violado, nada mais pode nos admirar”.
Quando você atenta contra a vida inocente, incapaz de se defender, vida que se está desenvolvendo, você não tem mais valor nenhum, pode acabar com tudo. Nós perdemos o valor da sacralidade da vida. Este é o grande drama do aborto. O poder legislativo tem que legislar sobre o aborto? Tem. Isso é uma prática horrorosa. Aqui no Brasil, milhares e milhares de mulheres morrem todo ano por causa de práticas absurdas, de clínicas clandestinas e coisas desse tipo. Gente rica que sai do Brasil e vai fazer aborto em outro lugar e volta não são punidos.
Mas um cristão católico não pode, em nenhum caso, por nenhum motivo, suprimir a sacralidade da vida, que é o feto. Aquela vida humana no ventre da sua mãe. Nós, católicos, não aceitando e não praticando o aborto, mesmo que fosse legalizado, nos tornaremos um sinal de vida, de evangelização para uma sociedade que não respeita a vida.
Vamos pedir ao Senhor que a vida seja respeitada em todos os seus níveis, desde o nascimento, até o desenvolvimento infantil. Olhem quantas crianças abandonadas, adolescentes entregues à droga. Famílias, casais, gente amontoada, pobres a não poder mais, com fome. Pessoas que morrem, não por causa de eutanásia, mas porque ficam nas filas porque o governo não liberou os insumos. Nós, cristãos, temos que defender a vida. Nós, por primeiro, não admitindo que, entre nós, pratique-se o aborto.
No tempo dos romanos, nos primeiros séculos, o pai da criança tinha o direito de vida e de morte sobre o filho. A criança nascia, a parteira levava a criança e colocava nos pés do pai. O pai podia simplesmente esmagar a cabeça da criança, pisar em cima. Ele podia não reconhecer a criança, tinha direito de vida e ou de morte. Tinha criança que tinha defeitos físicos e os pais as matavam. Qual foi o grande testemunho dos cristãos que criou escândalo para os romanos? Os cristãos acolhiam todos os filhos que tinham, viessem como viessem. Inclusive com defeitos físicos, coisas que os romanos eliminavam imediatamente. Nós nos tornamos sinal para aquele tempo, valorizando a vida, viesse de onde viesse.
Vamos pedir ao Senhor que nós possamos amar, servir e valorizar a vida.

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Jesus nos ensina a respeitar todos como iguais

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 27º Domingo do Tempo Comum (Ano B – 03/10/2021 - missa às 10h)

Antes das várias declarações de direitos das mulheres e dos direitos das crianças, Jesus já tinha feito isso há quase dois mil anos atrás. Os fariseus não estavam nem um pouco preocupados com a questão do divórcio, eles querem pegar Jesus no pulo, é isso o que eles querem. A mulher, no tempo de Jesus e antes Dele, não tinha direito a nada. Ela era propriedade do pai até que se casasse, depois propriedade do marido até que ele morresse. Se ele morria deixando filho com mais de doze anos, ela passava para propriedade desse filho. Se o marido morresse sem que ela tivesse filhos, ela passava para propriedade do parente homem mais próximo e, se fosse irmão do defunto, tinha que se casar com ela para dar descendência para o irmão. A mulher não podia participar da vida pública, a vida da mulher era o âmbito familiar, ali, nas coisas da família. Podia ajudar na época da colheita.
Nós temos situações parecidas hoje no mundo e nós nos aterrorizamos quando vemos o que está acontecendo, por exemplo lá no Afeganistão. É voltar quatro mil anos na história, é um horror esta situação. E a coisa interessante é ver como Jesus vê a mulher, todas as vezes que Jesus se encontra com uma mulher ou fala delas, Jesus trata a mulher como igual, escandalizando muita gente. Quando Jesus conversa com a samaritana, isso era outra coisa que era proibida: um homem não podia conversar com uma mulher, ou melhor, a mulher não podia conversar com um homem estranho, e Jesus estava conversando com uma mulher lá na beira do poço, e os discípulos ficaram escandalizados com Jesus. Isto é um absurdo. Jesus tem atitudes realmente revolucionárias, mas por quê? Porque Ele acredita na igualdade de dignidade das pessoas.

Moisés, em 1250 a.C., quando ele promulgou esta Lei ou herdou esta Lei, o que os homens faziam, geralmente quando a mulher se casava, o pai dava um dote e às vezes o sujeito gastava o dote todinho, passava um tempo, não tinha mais dinheiro e o que faziam? Matava a mulher e se casava com outra, ou então, ‘ah eu não gosto mais dessa, gosto da outra’, matava a mulher e se casava com a outra. Moisés fala: parem com essa loucura, pelo menos não mate a mulher, dê a carta de divórcio e manda ela para a casa do pai. Era um modo de salvar as mulheres, porém não mudou a situação de desigualdade da mulher. Jesus vai restabelecer essa igualdade lembrando não a lei de Moisés, mas lembrando a criação, que é antes de Moisés. Quando Deus criou, Deus os criou homem e mulher. No hebraico, homem se diz “ish”, mulher se diz “isha”. O jogo de palavras é para mostrar que são iguais, não tem diferença de dignidade entre os dois, e Jesus chama isso: se você trata a sua mulher com a dignidade igual a tua, você não vai ter divórcio, você vai construir alguma coisa diferente, você vai construir alguma coisa nova. Acontecem situações de divórcio? Acontecem, tem situações impossíveis, mas deveriam ser poucas e raras para que as pessoas realmente buscassem viver como iguais.

A outra figura que nós temos aqui são as crianças. As crianças são uma outra categoria sem nenhum direito. Dependendo do lugar, o pai podia matar a criança, o filho, em Roma acontecia isso: a mãe paria a criança, a ama ou a parteira levava a criança nos pés do pai. Se o pai quisesse, se o pai achasse que o filho não era dele, se a criança tivesse algum defeito ou alguma coisa, o pai simplesmente pisava na cabeça, esmagava a criança ou então, não reconhecia como filho seu, deixava vivo, mas não reconhecia, isto também podia acontecer. A criança não tem direito nenhum, ela está totalmente à mercê do pai. Criança, isso até hoje, não pode testemunhar no tribunal, porque são facilmente influenciáveis e podiam ser vendidas como escravos para pagar dívidas. Imagina se tivesse esta lei no Brasil? Então, estas crianças não têm nenhum direito. Mas Jesus era o mestre e o povo o reconhecia como tal então as pessoas estão lá, aquela historinha de quem fica querendo chamar a atenção, o mestre está lá talvez descansando ou coisa parecida, aí as mulheres e as mães trazem as crianças, e estes falam “Não, não vai atrapalhar o mestre, ele está descansando, não vão ficar aqui, vão embora”. Aí Jesus dá uma bronca nos discípulos: deixem as crianças virem aqui. Ele abraça e abençoa as crianças e o que ele diz? Quem não receber o Reino de Deus como uma criança não entrará no Reino. Por quê? A criança, ela olha o pai, olha a mãe para aprender. O filho olha o pai trabalhar, e imita o pai para aprender a trabalhar. José era carpinteiro, Jesus aprendeu com José a ser carpinteiro, como? Olhando o pai, imitando o pai. E Ele vai usar esta imagem depois, dizendo: como o Pai Celeste trabalha, Ele que é meu pai verdadeiro, eu também trabalho. Mas tem outra coisa, um discípulo só pode ser como o mestre, se vocês não forem como crianças, vocês nunca serão como o mestre. O que significa? Nós muitas vezes, e digo aqui nós, padres também, nós achamos que sabemos quem é Jesus, nós já sabemos o que é o Evangelho, e se eu perguntar aqui quantas pessoas aqui já leram o Evangelho... Bom, não vou nem perguntar para não passarem vergonha. Só se pode imitar alguém se eu olho para essa pessoa, se eu conheço essa pessoa. E olhar para que? Para ver onde eu estou fora do caminho, para acertar meu passo. Se eu não acerto meu passo com Jesus, eu estou fora do caminho, mesmo dizendo que sou discípulo de Jesus, mesmo fazendo comunhão todo domingo. Eu já sei, mas não vivo e não tenho os valores de Jesus. Tinha um mestre chinês muito famoso, aí chegou um grande professor e falou para o mestre “olha, eu vim aqui para aprender a tua sabedoria”, o mestre não falou nada, convidou a sentar-se à mesa, preparou chá, e foi colocar na xícara do grande professor. E punha chá, punha chá e de repente, encheu a xícara e o chá foi indo, e foi derramado tudo. “Você é louco?”, o mestre falou “não, em xícara cheia não dá mais pra colocar chá”. Aquele homem, na verdade, já achava que sabia tudo, ele queria aumentar aquilo que ele pensava que seria a sabedoria, aí o mestre falou não adianta, se você não esvaziar eu não posso pôr chá aí dentro, ela já está cheia. Esvazia-se de você, jogue fora as tuas ideias, as tuas ações que não são de Jesus. Vá conhecer Jesus, e conhecer como? No Evangelho, vá ler o Evangelho! Comece pelo Evangelho de São Marcos, o mais curto e mais antigo, para começar a colocar na tua xícara o chá novo do Evangelho. Cuidado, quem diz que mais sabe, pode ser quem tem a xícara mais cheia de si mesmo, onde não entra mais nada do Evangelho. Só quem é como criança, que está vazio e disposto a acolher o ensinamento de Jesus, pode ser discípulo e discípula do Senhor.

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Só segue Jesus quem o conhece

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – Festa de Santa Teresinha (Ano B – 01/10/2021 - missa às 19h45)

Certa noite, Santa Teresinha, ainda pequena, estava com seu pai, no jardim de casa, e olhou para o céu e viu na conjugação de estrelas um "T". E ela disse: "Papai, meu nome está escrito no céu". No Tríduo deste ano, e na novena, nós refletimos muito sobre a família de Santa Teresinha, seus pais, Luís e Zélia, pessoas realmente devotas, pessoas honestas, pessoas dedicadas ao dia a dia de casa, da vida de todo dia, trabalho, sustento da família, e interessante: a mãe de Santa Teresinha também trabalhava, trabalhava em casa, mas ajudava no sustento da família porque ela fazia rendas, rendas de pano, de linha. E a preocupação desse casal era que suas filhas vivessem num lar de santidade. Santidade quer dizer o quê? Um lar onde se vivem os valores do Evangelho. Nós muitas vezes achamos que sabemos quais são os valores do Evangelho, mas aí vem a pergunta: quantos de nós já leram os evangelhos? Quantos de nós já leu um dos evangelhos? Quantos de nós já leu o mais curto dos evangelhos, que é o Evangelho de Marcos, com 16 capítulos? Qual de nós? E queremos dizer que conhecemos Jesus, que conhecemos os valores de Jesus...

A família de Santa Teresinha vivia os valores de Jesus, por isso são santos. Os pais de Santa Teresinha, São Luís e Santa Zélia, santos. E eles tiveram nove filhos, quatro morreram em idade muito crianças, cinco sobreviveram e eram cinco mulheres, a mais nova era Santa Teresinha. Essas cinco filhas foram para o convento, mas se as cinco tivessem se casado, teriam sido santas mães de família e santas esposas, porque elas foram educadas no Evangelho. Quando a igreja coloca os pais de Santa Teresinha como modelo de casal e de família, está dizendo a vocês casados que a vossa pode ser vida de santidade, de lugar do Evangelho, lugar de amor, lugar de diálogo, lugar de respeito, lugar de perdão, lugar de preocupação com a outra pessoa, lugar de amor até o fim. São Paulo diz: "Mulheres sejam submissas a seus maridos, como a igreja é submissa a Cristo". E aí alguns dizem que São Paulo é misógino. Mas São Paulo vai dizer: "Maridos, amem a vossas mulheres até morrerem por elas", e aí o que vamos falar? São Paulo é contra os homens? Não. A medida do amor, ele está mostrando, ser capaz de morrer pela outra pessoa, dar a vida pela outra pessoa, dar a vida pelos filhos. Ser para as pessoas que estão em volta de nós um exemplo, não porque a gente quer aparecer – quem faz isso não vive o Evangelho, porque está morrendo de orgulho, mas porque realmente acredita nesses valores, mas para isso precisa conhecer. Só pode amar e só pode viver no caminho de Jesus, quem conhece Jesus.

É muito vir a missa com frequência, é muito bom vir a missa no domingo, mas eu tenho que dizer: Não basta! Não nesse nosso tempo, que nos dá tantas informações e desinformações. Tem gente praticante, que vem em missa, que assiste qualquer bobagem que mostre no cinema, nessas novelas de certas emissoras não católicas que distorcem tudo, e estão prontas para acreditar naquelas abobrinhas, não escutam os padres, mas também não vão ler a Sagrada Escritura para conhecer Jesus. O mundo oferece mil interpretações, verdadeiras e falsas, nós temos que nos responsabilizar por conhecer Jesus. Luís e Zélia fizeram isso. Esse casal transmitiu para suas filhas os valores de Jesus porque conheciam Jesus profundamente, seja pela prática dos sacramentos, mas também pela prática do amor.

Jesus não quer que nós sejamos "superstar" nesse mundo que prega estrelas. O Evangelho prega exatamente o contrário: humildade, caminho pequeno, o dia a dia comum, porque a nossa vida é o dia a dia comum: levantar, tomar café, ir para o trabalho, voltar, trabalhar, ter o que fazer com os companheiros de trabalhos ou companheiras, filho para a escola, voltar da escola. É nesse dia a dia que nós seguimos Jesus. Esse lugar do dia a dia é o lugar da santidade, é o lugar onde nós escrevemos no céu o nosso nome, Deus lê o nosso nome, e sabe o nome de cada um de nós, e quer para cada um de nós um caminho de santidade.

Santidade também significa serviço, um dos sinônimos da palavra "serviço" na igreja é "ministério", e não tem nada a ver com ministro da educação, da economia, nada disso, isso é outra coisa. Na igreja, existem os ministérios ordenados que são os ministérios do sacerdócio, do diácono e do bispo, serviços ordenados. E tem os serviços extraordinários. Entre os batizados, Deus escolhe alguns para o ministério ordenado, mas também escolhe outros para o ministério extraordinários, temporários. Temporários não significa um mês ou dois meses, mas que não fica para o resto da vida. Neste dia de Santa Teresinha, nós vamos instituir nove ministros extraordinários da comunhão, homens e mulheres, casados, solteiros, para fazer o que? Para virem aparecer aqui na frente, fazer showzinho? Não! Para servir a comunidade, levar para a comunidade na celebração a Eucaristia. E fora da celebração, levar a comunhão aos doentes, ou abençoar as pessoas e as casas, ou abençoar os mortos com a celebração das exéquias, todos de serviço, caridade. Esse é o caminho da igreja, e esse é a essência do ser cristão: servir a todos. O padre não está aqui para usar este monte de panos, o diácono não está ali para ficar cantando o Evangelho, nós estamos aqui para servir a comunidade, servir a Palavra, servir na caridade, na unidade, no perdão, é para isso que estamos aqui. E Teresinha, e antes dela seus pais, entenderam isso muito bem. Santa Teresinha sem ser missionária – ela era monja, carmelita, ficava trancada dentro do mosteiro, mas essa mulher rezou tanto pelas missões, por sacerdotes que estavam em terra de missão, e ela desejava tanto ir para terras de missão que o Papa Pio XI, que a canonizou, a proclamou Patrona das Missões. Ela queria sempre fazer a vontade de Deus, e ela ardia de desejo de ir para as missões, e num belo dia, a superiora do convento falou: "Olha, temos um projeto abrir um mosteiro em terras de missão". Santa Teresinha quando escutou isso ficou contentíssima, falou: "Meu Deus, você ouviu minhas preces". Naquela noite pela primeira vez, Santa Teresinha vomitou sangue e, um ano e pouco depois, morria de tuberculose. Ela aceitou esse caminho estranho que Deus deu para ela, e ofereceu isso pelas missões, para que a Igreja possa levar o Evangelho, para que as pessoas aprendam a viver como Jesus. Vamos pedir a ela, que acenda no nosso coração, o desejo de conhecer Jesus e, que no ano que vem ou quando eu perguntar outra vez, quem já leu um evangelho, a igreja inteira levante a mão e fale "eu já li". Fica o desafio: só conhece Jesus, só vive os valores de Jesus quem conhece Jesus. Leia, pelo menos o Evangelho de São Marcos, é o mais curto, o mais antigo, leia e você vai aprender muito sobre Jesus.

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Orar a Deus para que Ele sempre envie operários para a messe

Homilia: Pe. Cleidson Pedroso Souza – 3º Dia do Tríduo de Santa Teresinha (Ano B – 30/09/2021 - missa às 19h45)

Muita alegria nesta noite tão especial para nossa comunidade, celebrando a véspera da festa de Santa Teresinha do Menino Jesus e encerrando esse Tríduo que, com certeza, animou nosso coração pela palavra proclamada. Esse momento de devoção à Santa Teresinha motiva o nosso coração a acolher este dom de amor da nossa querida Padroeira. Este luzeiro, digamos assim, que brilha na Igreja como um sinal do amor do Senhor para conosco. Esta meditação farei em duas partes, pensando que hoje é festa de São Jerônimo, mas também falando de Santa Teresinha.
Celebramos São Jerônimo, este santo tão importante na história da Igreja, sendo o padre latino mais importante segundo alguns estudiosos pois, afinal, coube a ele esta tarefa de traduzir os Evangelhos originais gregos e hebraicos. Principalmente do hebraico, uma vez que o grego era a segunda língua mais falada do mundo naquela época, graças a Alexandre, O Grande e todo o avanço da cultura helenística. O hebraico era uma língua falada por pouquíssimas pessoas, mas que trazia em si toda essa importância. Então, o Papa pede a Jerônimo para que ele pudesse realizar esta grandiosa tarefa. Ele vai à Terra santa e lá começa a tradução da Bíblia para o Latim, chamada Vulgata. Hoje, muitas traduções bebem dessa fonte. Por exemplo, a Bíblia Ave Maria, que foi traduzida para o francês direto da Vulgata e, depois, para o português. Isto mostra, justamente, a importância de São Jerônimo na vida da Igreja e, por isso, marcamos o mês de setembro como o mês da Bíblia, para exaltar esta importância na história.
Ouvimos, na Primeira Leitura[Ne 8,1-4a.5-6.7b-12], que conta sobre a restauração de Jerusalém depois que o povo volta do Exílio da Babilônia. E uma das coisas mais importantes que se faz é a solene Proclamação da Palavra, que é colocada para todo o povo como uma renovação da aliança que Deus havia feito com os pais e, agora, este povo estava finalmente de volta à sua terra, no seu templo, ouvindo a lei. E nos chamam a atenção, justamente, as reações. O povo chora porque ouve a Palavra. Quem dera se nós tivéssemos um pouquinho disso. E não é emoção porque a Palavra é proclamada de forma bonita, com impostação e teatralidade. Mas sim porque a Palavra tocou fundo no coração do povo. E nos chama a atenção para termos também o coração aberto para que a Palavra possa nos tocar. E eu tenho certeza que este foi o objetivo que motivou a Igreja no Brasil, há 50 anos, a proclamar o mês de setembro como mês da Bíblia. Para que os fiéis pudessem mergulhar ainda mais na experiência da Palavra. E a Palavra é o alimento que temos para sustentar a nossa fé e esperança.

Como eu dizia, não ouvimos a Palavra apenas para matar o tempo e poder completar uma hora de celebração. E é importante termos esse cuidado e atenção para ouvir a Palavra e não aproveitar o momento das leituras para ir ao banheiro, tomar água, dar uma volta com as crianças e tantas práticas que fazem parecer que a leitura da Palavra é uma pausa da celebração. Eu tenho certeza que isso fere o coração de Deus, pois é através da Palavra que Deus está falando do Seu mais íntimo para nós e, com certeza, este momento tem que ser celebrado com toda a atenção para ser uma Palavra proclamada e meditada. Então, a homilia também não é uma coisa paralela. Faz parte deste momento da Palavra e, por isso, o padre proclama a Palavra e faz a meditação atualizando, destacando algum ponto, colocando algo em evidência. Assim como os levitas faziam: explicavam enquanto a Palavra era proclamada. Cada um no seu lugar para que a Palavra lida, claramente, pudesse chegar ao coração e seu sentido acolhido. Eu já vi muita gente falar que a Palavra de Deus é difícil de entender ou que a Bíblia é um livro complicado. Por isso o padre estuda, desdobra, busca um ponto ou outro para ressaltar. E tamanha são a beleza e grandeza da Palavra que, se você a ouve hoje ou daqui 1 ou 2 anos, ou até daqui a 15 dias, outras coisas serão ditas e outros tesouros serão revelados.
Um Deus que fala conosco nos tempos de hoje. Isto é a graça que temos em acolhermos a Palavra de Deus para que o esforço de São Jerônimo não tenha sido em vão. Ter realizado este trabalho em um tempo em que não havia Google tradutor, buscando sentido até para as palavras mais difíceis. Quem já fez trabalho de tradução, sabe como é custoso, pois não basta apenas traduzir palavra por palavra. É preciso descobrir o sentido, o que o autor quis dizer, o que Deus quis revelar. Porque nós cremos que a inspiração da Palavra parte do coração do próprio Deus, que fala conosco, através da linguagem humana, para que pudéssemos compreender. Então, o que Deus quis dizer ali, através das palavras humanas, todo esse trabalho não pode ter sido em vão. Sendo assim, é importante que possamos acolher a Palavra. E como diz o Papa Francisco: “a Bíblia não pode ser um objeto de decoração na estante da nossa sala. Ela tem que estar nas mãos, no ouvido, na boca e no nosso coração”. Quem prova a Palavra sente, ao mesmo tempo, o seu amargor – porque a Palavra provoca, questiona, nos convida à conversão –, mas também a sua doçura, que alegra nosso coração. Por isso, a alegria do Senhor seja a nossa força. A alegria do Senhor, que é expressa por nós, através da Palavra. É ela que sustenta e ampara a nossa vida. Palavra hoje também proclamada no Evangelho[Lc 10,1-12]. Que alegria poder ouvir esta Palavra que se casa tão bem com o tema que hoje estamos tratando neste Terceiro Dia do Tríduo de Santa Teresinha. O Evangelho diz que Jesus envia 72 outros discípulos. Se você prestou bem atenção na Palavra proclamada no último domingo, você já deve ter ouvido esse 72 em algum lugar. A Primeira Leitura do domingo passado[Nm 11,25-29] fala de 72 anciãos, homens que receberam uma porção do espírito de Moisés. Setenta estavam com ele na tenda e dois estavam lá no acampamento. Então este número 72 é reconstituído por Jesus. Assim como aqueles 72 iam ajudar Moisés na condução do povo, estes 72 do Evangelho de hoje são enviados para levar a boa nova aonde Jesus deveria ir pois, afinal de contas, Ele que deve chegar aos corações. Ele vem trazer, para nós, libertação e salvação. Somos mensageiros dessa boa nova, operários dessa messe.

Esse Evangelho tão marcadamente vocacional nos fala tão bem dessa experiência do chamado de Deus na nossa vida. Convidados a sermos colaboradores dessa graça. Olha que coisa bonita! Além de sermos destinatários da graça – porque a graça é oferecida a nós –, também somos chamados a sermos colaboradores para que essa graça chegue a todos os corações, especialmente nestes tempos tão difíceis e tão sofridos que estamos vivenciando por conta da pandemia, das perdas, do desemprego, da fome, da miséria. Assim, vemos o quanto Deus precisa chegar aos corações e o quanto essa Boa Nova precisa ser proclamada.

O Papa Bento XVI certa vez dizia que, mais do que pessoas que não creem em Deus, temos as pessoas que o ignoram e colocam Deus de escanteio. Vejam o quanto é necessário Deus chegar nesses corações para trazer um ânimo novo. Para isto, Deus precisa de nós, vocacionados do reino. Jesus diz que a messe é grande e tem muito trabalho para ser feito, mas os trabalhadores são poucos. O que devemos fazer para mudar essa situação? Jesus diz só uma coisa: pedir ao dono da messe para enviar novos trabalhadores para a colheita. Portanto, nós temos esta missão também de rezarmos para que Deus suscite vocações, não apenas à vida consagrada, sacerdotal e religiosa, mas a todos os chamados do reino que são convidados a ir aos quatro cantos do mundo. E o quanto hoje nós precisamos de famílias vocacionadas!

E é muito bonito pensar nas irmãs de Santa Teresinha. Não nas congregações que surgiram depois por conta de sua inspiração, mas em suas irmãs de sangue, que foram tão importantes para o desenvolvimento da própria vocação de Teresinha. Dizem-nos os relatos da sua biografia que ela já tinha esse desejo desde pequena. Brincava, inclusive, de freira quando era bem pequenininha. Mas depois da morte de sua mãe e toda situação que se desenrolou por conta disso, ela tem a chama da vocação novamente reacendida em seu coração quando sua irmã Pauline ingressa no convento das carmelitas. Isto foi realmente importante. E que coisa bonita uma família toda marcada por esse ar de santidade: os pais já declarados santos; a filha mais conhecida e também as irmãs, todas religiosas. Uma família que foi marcadamente vocacional e que respondeu esse chamado que o Senhor da messe lhes fez. Com certeza estão entre esses 72. E Santa Teresinha é reconhecida como a padroeira das missões sem nunca ter pisado em uma missão. Missão na concepção de ir para fora, para os diferentes povos.
Santa Teresinha gostaria muito e rezava continuamente pelos missionários e religiosos que faziam esse trabalho tão importante, batendo de lugar em lugar, levando a boa nova sem bolsas, sem sandálias. Apenas confiando na misericórdia e na providência divina. Ela pedia por cada um deles. Assim também, suas irmãs que ali estavam, foram para o mesmo convento das carmelitas. Todas ali vivenciaram, junto com Santa Teresinha, essa experiência do Carmelo. Que experiência riquíssima e, com certeza, mais do que apenas pelo fato de serem todas religiosas. Isso, por si só, já é uma coisa grandiosa. Mas eu acho que mais importante é a experiência familiar de Santa Teresinha. Esse alicerce que os pais ofereceram à sua família, onde a vocação foi despertada graças a esse exemplo e testemunho da fé. Porque Deus ama das formas mais diferentes ou absurdas e até das mais incríveis e maravilhosas. Claro que, se nós, por exemplo, não rezarmos ao dono da messe, ele vai continuar mandando trabalhadores para colheita por causa da sua misericórdia e amor que nunca abandona seu povo, mesmo nos momentos mais difíceis. Mas é bom quando nós rezamos a ele, ou seja, abrimos o nosso coração. Assim “facilitamos” o trabalho de Deus, cumprimos a nossa parte nesse caminho. Porque assim foi a vida da família de Santa Teresinha: o exemplo de testemunho dos pais, a sua fé sempre presente e atuante foram conduzindo as filhas para o encontro com Deus. Sua biografia conta que os pais iam à missa todos os dias e aos momentos litúrgicos marcantes, como as festas e romarias. Todos estes instantes que Deus nos concede como oportunidade de fazer florescer a nossa fé, nossa piedade. E isso tudo foi vivenciado também dentro de casa. Claro que a vocação iria florescer mesmo se elas tivessem sido mães de família. Elas seriam excelentes mães cristãs e continuariam fomentando isso no coração dos filhos. Mas Deus tem um chamado especial para todos nós. Basta que nós acolhamos esse chamado e nos deixemos conduzir por ele. Como aqueles 72. O Evangelho de hoje não termina porque não nos conta do resultado desta missão. Mas Lucas vai continuar dizendo que depois eles voltaram e muitos frutos foram colhidos graças a essa disponibilidade do coração dos 72, dos doze originais e tantos outros. De São Jerônimo, de Santa Teresinha e tantos homens e mulheres que, na história da igreja, deixaram-se conduzir pelo Senhor e tiveram esse alicerce, essa experiência familiar. Com certeza transforma. Por isso, queridos irmãos e irmãs, somos convidados a fazer nossas famílias vocacionais para que Deus possa enviar vocações religiosas sacerdotais, leigas, missionárias, consagradas, bons pais e mães de família que transformam o mundo nas suas profissões, nos seus lugares de trabalho.
Outro ponto que chama a atenção neste Evangelho é um detalhe que passa desapercebido muitas vezes. Estejam os corações sendo abertos ou não, Jesus sempre diz: proclame que o reino de Deus está próximo. Essa proximidade de Deus se faz presente a corações abertos ou não. Mas é bem melhor ter o coração aberto para acolher esta graça e deixar-se tocar por esse amor. Que nós também estejamos com o coração sempre aberto para atender o chamado do Senhor e possamos rezar a ele pedindo que envie trabalhadores para a colheita. Que possamos nos deixar conduzir pela Palavra e fazer a graça de Deus acontecer no mundo.

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SERVIR A DEUS E BUSCAR O CÉU

Homilia: Pe. Marcos Vinícius Wanderlei da Silva – 2º Dia do Tríduo de Santa Teresinha (Ano B – 29/09/2021 - missa às 19h45)

Queridos irmãos que nos acompanham pelas mídias sociais, a liturgia de hoje é muito bela dentro de toda a dinâmica que ela propõe e também celebramos o dia dos arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael. Na Primeira Leitura de hoje[Dn 7,9-10.13-14], temos essa visão apocalíptica de Daniel, essa visão futura, onde é dado o trono, a glória, o poder e a majestade ao Filho do Homem, um termo muito utilizado pelo evangelista João que, inclusive, acabamos de escutar. E quem é esse Filho do Homem, a quem todos servem? A quem os anjos se prostram e se colocam diante dele? A quem é dado o poder, a glória e a majestade e cujo reino é eterno e não tem fim, nem se diluirá ou dissolverá? O próprio Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador. Ele mesmo vai nos dando, ao decorrer do Evangelho, indícios de quem Ele é. Ele, por exemplo, diz: "O meu reino não é deste mundo". O reino de Cristo é eterno, ele reina sobre todos nós. Os anjos, arcanjos e toda milícia celeste o louva e o glorifica.

Hoje celebramos, em especial, o dia de São Miguel, São Gabriel e São Rafael, que servem aos projetos de Deus. Alguns estudos teológicos dizem que os anjos, muitas vezes, são colocados diante das situações da vida na sagrada escritura quando faltam profetas. Nós também somos chamados a exercer um papel diante de Deus. Jesus, quando vê Natanael, diz: "Aí vem o homem que não tem falsidade". Jesus não olha apenas para o estereótipo da pessoa, quem ela é por fora, mas Ele vê profundamente quem é Natanael. Assim como Ele vê cada um de nós, quem realmente nós somos, diante da grandeza que o próprio Deus concedeu nas pequenas coisas. Como também fez Teresinha, a santa das pequenas coisas, que soube reconhecer em sua vida, em sua pequenez, a grandiosidade das ações de Deus. E nessa grandiosidade, ela soube ser missionária de dentro de um Carmelo, o que parece até contraditório. E neste sentido, Jesus vê o que há de mais profundo. Ele vê toda nossa potencialidade, que muitas vezes não exercemos porque temos medo. E tantos no decorrer da história da salvação, nas narrativas bíblicas também o possuem.

Em certos momentos, aparecem os anjos, justamente porque falta o nosso compromisso de fé diante do amor a Deus. Nos falta sermos os homens e mulheres que Deus possa dizer: "ali vem um homem de verdade, uma mulher de verdade, humanizada de verdade, imagem e semelhança de Deus e em cuja alma não há falsidade e que, verdadeiramente, está aberto a compreender e ouvir a vontade de Deus, a servir a Deus". Os anjos de Deus, independente de virem nesses momentos, também nos trazem uma grande mensagem. Gabriel é o grande anunciador. O nome dele significa "força de Deus" e vem ser o mensageiro e o protetor dos anjos.

São Miguel é o anjo guerreiro, aquele que vai à frente da milícia celeste para vencer o inimigo. E nós somos chamados a não viver de uma forma rasa tudo isso, mas, diante do convite a sermos profetas, a batalharmos também. Não devemos jogar tudo nas costas dos santos e anjos. Nós também temos que fazer a nossa parte. Então os anjos devem ser motivadores também por meio daquilo que eles representam para nós para que assumamos também este papel de sermos mensageiros e profetas de Deus. Para que nós assumamos também o papel daquele que vai guerrear. E guerrear não significa apenas o ódio, porque discursos de ódio e outras dinâmicas do tipo não são propostas do Evangelho. Mas lutar para viver, até interiormente, para eliminarmos os males que habitam em nossas vidas. E também lutarmos diante dos males que estão assolando a nossa sociedade, inclusive nos contextos das famílias. E Santa Teresinha e, sua mãe, Santa Zélia, sempre valorizaram o seio familiar.

E São Rafael é aquele que cura, aquele que é a medicina de Deus. Isto pode ser expresso também na medicina de Deus que ocorre em nossas vidas se estivermos abertos no âmbito espiritual e físico. São Rafael cura os males espirituais que dividiam Sara e Tobias, quando aparece nas Sagradas Escrituras. Também é aquele que vai curar a cegueira física do pai de Tobias. Então, desta forma, as devoções que nós temos aos santos e anjos devem ter uma vivência mais profunda. Não ficarmos no superficial de uma devoção, mas aprofundarmos naquilo que eles representam para nós. E todos os santos e santas de Deus não apontam para si mesmos. Nem Santa Teresinha, nem Santa Zélia e nenhum outro santo apontam para si mesmos, mas sim para o Filho do Homem, para Jesus Cristo, aquele que tem todo o poder, honra e glória, sempre e sempre por todos os séculos.

Santa Zélia, a querida mãe de nossa padroeira Santa Teresinha, ela foi uma menina muito simples. Nasceu em uma família muito pobre, cujos pais eram muito piedosos, católicos e ensinavam a devoção e a fé a seus filhos. Mas até mesmo pela própria austeridade da vida, os seus pais não eram amorosos e carinhosos com seus filhos. Ao contrário, eram pais muito duros com eles. Santa Zélia não sentiu amor no lar e passou por diversas privações, sejam financeiras ou no âmbito da afetividade. E tudo isso poderia gerar uma pessoa rancorosa, uma pessoa que, de algum modo, não conseguiria desenvolver o amor pelos outros, ou até viver fechada no vitimismo. Mas, pelo contrário, Santa Zélia consegue ressignificar tudo isso e, olhando para Deus, dá sentido a tudo aquilo que aconteceu na sua vida. Tanto que ela conseguiu estabelecer, por meio da vivência especificamente com seus irmãos, uma relação que a fazia ter um amor profundo por aquele lar, da forma que ele era: com suas dificuldades financeiras e de convívio. Ela conseguiu estabelecer um amor profundo dentro daquele lar. E, neste amor profundo, ela foi cultivando amor e mais amor, porque sabia que aquele que a amava por primeiro era Deus. Então ela cultiva esse amor pela família. Ao mesmo tempo que este amor por sua família cresce, apesar das dificuldades, ela também vai crescendo no amor a Deus. Ao passo que, em um determinado momento da vida, ela se consagra totalmente a Deus. E nós também precisamos compreender tudo aquilo que Deus quer de nós.

Em certo momento, ela resolve entrar na ordem das filhas da caridade, em São Vicente de Paula. Ordem esta que, inclusive, está presente em São Paulo, no colégio Padre Chico, onde cuidam dos nossos deficientes visuais. A mãe de Santa Teresinha tentou adentrar, e com a graça de Deus, não conseguiu, porque não era a vocação dela. Mas ela achava que seria porque, em sua humildade, em sua simplicidade, ela pensava que para servir e amar a Deus de forma plena e profunda, ela deveria se consagrar inteiramente a Ele somente por uma ordem religiosa. Mas não era isso que Deus queria. Ela tinha uma saúde muito frágil. E justamente por esta fragilidade ela não foi aceita. Teoricamente, seria uma pessoa que daria muito trabalho dentro do convento, em vez de ser aquela que vai cuidar dos outros. Lembrando que as filhas da caridade tinham essa concepção de cuidar daqueles que precisavam. Por isso não aceitaram a Santa Zélia. Precisamos compreender também que, na história dos santos, nada é por acaso. Ela ficou muito triste. Quem não ficaria quando recebe um não daquilo que você sempre quis na vida? Mas sente uma voz interior muito profunda, em determinado momento, em que ela cruza com seu querido futuro esposo na ponte São Leonardo. Então, ali vem uma voz interior que fala para ela: "este é o marido que eu preparei para ti". Assim, ela entende que a sua vocação – a maneira com que ela iria servir generosamente a Deus de maneira profunda e integralmente – seria o matrimonio. Ainda ela não entende plenamente, mas ela entende os indícios que Deus começa a colocar em seu coração.

Zélia estuda e começa a ter ganhos fazendo renda, renda de costura, gerando verba para ela e sua família. E uma das alunas – que depois de estudar muito, abriu uma empresa e começou a prosperar – é a mãe daquele que seria seu esposo, o mesmo homem que ela havia encontrado na ponte e não sabia quem era. Então já era Deus encaminhando tudo. E depois de apenas três meses, eles se casam. E, neste casamento, por amor e respeito, diante da concepção, ele tem muito cuidado com a pequena Zélia e eles consumam o casamento apenas 10 meses depois, por orientação de um padre, o que mostra que eles eram muito fiéis a Deus e que eles deveriam gerar vida para povoar os céus. Ou seja, gerar santos. E, de certo modo, foi exatamente isso que eles fizeram. Mas, às vezes, nós confundimos algo que Santa Teresinha mesmo nos corrige. Por mais que ela tenha sido canonizada antes de Santa Zélia e de seu pai, ela teve um terreno fértil e terra boa onde pôde florir. A flor do Senhor, Santa Teresinha. A santa que cresceu e foi cultivada em uma terra santa dos pais. Eles a intercederam na santidade. E ela também tem uma frase muito bonita sobre os pais, que falava: "Bastava olha para eles para ver como rezavam os santos". Essa frase me emociona muito porque os nossos pais são, para nós, os grandes modelos. E que bom que sejam bons modelos de santidade. Santa Zélia foi assim até o fim da vida, por mais que Santa Teresinha tenha convivido muito pouco com sua mãe, já que, quando ela própria tinha 4 anos de idade, Santa Zélia faleceu.

E, para finalizar minha reflexão, algo que eu achei muito bonito ao ouvir sobre a história de Zélia, é que ela tinha uma preocupação com a santidade de seus filhos, que seus filhos não perdessem o céu. Sequer passassem pelo purgatório e que fossem direto para Deus. E ela tinha uma filha que era muito peralta e de gênio muito difícil, se não me engano era chamada Leônia. Daquele tipo de pessoa que falamos "Deus me livre e guarde viver com uma pessoa assim". E sua mãe se preocupava. Havia questões ali, dentro do próprio lar, que geravam isso, com uma empregada que maltratava a menina. E a própria Zélia não sabia disso. Depois que isto se resolve, Leônia começa a se aproximar mais da mãe. Mas, mesmo assim, a mãe se preocupa profundamente com esta filha, para que ela não perca o céu. Durante todo o período de doença – deste câncer que durou bastante tempo, não foi um câncer do dia para noite, foram 12 anos de caminhada e sofrimento também para Santa Zélia –, ela nunca esbravejou contra Deus, e nem pediu que fosse necessariamente curada. Mas que a vontade de Deus fosse realizada em sua vida. O único momento em que ela pede cura é para que ela possa ter mais tempo para acompanhar sua filha Leônia, para que ela se tornasse alguém que deveria ser. Não sei se vocês sabem, embora tenha sido a que mais deu trabalho das filhas, agora Leônia está em processo de beatificação, tamanho o zelo, o cuidado e o amor de uma mãe que, no seu leito de morte, entendeu que suas filhas não ficariam órfãs. Seria a própria Virgem Maria, segundo ela, que cuidaria delas. Então, nas pequenas coisas, sua mãe soube reconhecer as ações de Deus.

Que nós, com Santa Zélia e Santa Teresinha, com essa família santa que Deus nos apresenta – sendo Teresinha a padroeira desta paróquia –, possamos procurar, nas pequenas coisas, louvar e agradecer a Deus, com os anjos e os santos.

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BUSCAR A DEUS NAS PEQUENAS COISAS DO COTIDIANO

Homilia: Pe. Cláudio Santos – 1º Dia do Tríduo de Santa Teresinha (Ano B – 28/09/2021 - missa às 19h45) 

Meus queridos irmãos e irmãs, que nos acompanham aí de suas casas, hoje nós damos início ao Tríduo de Santa Teresinha do Menino Jesus. O Tríduo de um padroeiro de uma comunidade é um momento especial para renovarmos as nossas forças. É um momento – eu penso, e sempre faço essa leitura – de revermos também como está a nossa caminhada e, também, claro, de cultivar de uma maneira mais profunda à devoção ao nosso padroeiro. Aqui, no caso, Santa Teresinha do Menino Jesus.

Eu tenho um carinho muito especial por Santa Teresinha. Aliás, o povo brasileiro também. Porque Santa Teresinha, dentre tantas coisas que nos ensina, uma delas é a que mais me marca, que é quando ela fala da infância espiritual que, longe de ser uma imaturidade na fé, é, na verdade, um caminho de grande crescimento espiritual. A infância espiritual consiste, então, em um abandono de total confiança nos braços de um Deus que é Pai. É isso que a criança faz: ela confia. Somente isso. Se o seu pai ou a sua mãe lhe dão segurança, ela se joga. Ela confia no pai e na mãe.

E Santa Teresinha só trilhou este caminho de confiança em um Deus que é Pai porque ela teve, no seio familiar, um grande exemplo dessa paternidade divina. Um grande exemplo que, para ela – e ela mesma vai dizer isso –, representava muito bem o amor de Deus Pai. E hoje, de maneira especial, neste primeiro dia do Tríduo, falamos desse homem, desse grande Santo, São Luís Martin, o pai de Santa Teresinha.

Uma das frases tão bonitas que Santa Teresinha disse é: “quando eu queria saber como que os santos rezam, bastava eu olhar para o meu pai e minha mãe, e eu sabia exatamente como é que os santos rezavam”. E também contava muito o exemplo que eles davam. E a vida de Luís Martin não foi um mar de rosas. Às vezes, a gente imagina isso quando a gente vê os santos. A gente cria uma ideia tão romântica, não é? “Ah, mas foi tudo muito bem, tudo muito perfeito”. Não! A vida dele não foi bem assim.

Nós sabemos que ele ficou viúvo muito cedo. A sua esposa, Zélia, faleceu. E Teresinha ainda era tão pequena, Celina pequenininha também. E havia as outras filhas um pouco mais velhas. Mas ele foi um homem de garra, de coragem. Ele, sendo viúvo, não se casou novamente porque ele tinha uma grande missão, que iria exigir muito dele: a missão de educar as suas cinco filhas, de conduzi-las em um bom caminho. Ele poderia ter, é claro, se casado novamente, mas ele fez disso uma decisão, um propósito, o seu caminho.

E nós não vemos grandes feitos, aquelas coisas miraculosas, atribuídas a Luís Martin. Nós vemos, sim, as coisas pequenas, as coisas do cotidiano, que mostram essa santidade. E aí é que está o ponto chave do que este Santo nos ensina hoje: o pai de Santa Teresinha nos orienta a viver a nossa vida cristã de amor a Deus e aos irmãos, no nosso cotidiano. Não é apenas nas coisas grandes, nas coisas miraculosas, que nós daremos o testemunho da fé. E na nossa vida, isto é feito no dia a dia, no encontro com Deus, no encontro de fé. E também neste Tríduo, momento em que talvez muitos queiram estar aqui fisicamente, presencialmente, mas nos acompanham de casa.

E São Luís Martin fazia isso. Por exemplo, ia levar as filhas na escola e buscava. É um ato tão rotineiro, tão comum, mas, ali, ele estava oferecendo o cuidado de um pai que se preocupa. Celina, que é uma de suas filhas, conta que, quando eles vinham no caminho, ele ouvia, pacientemente, todas as histórias que elas tinham que contar para ele. Preparava as coisas, cuidava das suas filhas, era um homem trabalhador. Quando a sua esposa, Zélia, ainda estava viva, ela tinha um trabalho com rendas de costura. E ele deixou a sua relojoaria, fechou e vendeu por um precinho bem modesto, para poder investir e promover a sua esposa. Era um homem de comprovada virtude. Sereno e forte, ao mesmo tempo, ele entrou para um clube militar para poder ajudar as pessoas, quer seja no mar, quer seja em incêndio. Seria hoje o que nós chamamos de bombeiros. E fazia isso com muito amor.

Não eram raras as vezes em que se preocupavam quando ele demorava para chegar porque imaginavam que ele devia estar protegendo alguém que estava em uma briga na rua. Porque ele não gostava de briga e ele defendia as pessoas. Então, na vida, no cotidiano, Luís prestava culto a Deus e dava o testemunho da sua fé e levava suas filhas à missa, religiosamente, mantendo uma rotina de vida espiritual. Hoje nós pedimos a sua intercessão e pedimos ao nosso Deus que nos ajude a também ter estas sementes, esta entrega, numa vida de infância espiritual, de santidade.

No Evangelho de hoje[Lc 9,51-56], nós vimos Tiago e João indignados porque não ofereceram hospedagem para Jesus no povoado dos Samaritanos. Eles fizeram pouco caso pois viram que Jesus estava indo para Jerusalém – pois eles tinham uma rixa – e não oferecem hospedagem para Jesus. Só que Jesus já estava acostumado com isso. Jesus, quando era pequeno, no momento de seu nascimento, já não tinha lugar em hospedagem. Tiago e João se indignam e querem pedir que desça fogo do céu. Eles não estavam entendendo nada, estavam indo no caminho contrário, no caminho da vingança. Jesus repreende essa atitude de Tiago e João porque é preciso continuar o caminho. E o caminho de Cristo é o da paz, não o da violência. Não é o caminho da vingança, do desamor, do ódio, do “olho por olho, dente por dente”. Jesus, então, nos ensina que precisamos continuar trilhando o nosso caminho rumo à Jerusalém celeste, sem parar nas situações que não nos oferecem acolhimento. É preciso continuar e deixar o sinal de paz, nunca da vingança, do rancor, da falta de perdão, do ódio, das mágoas. Isso não leva a nada. Precisamos continuar o nosso caminho.

Mas uma pergunta que eu queria fazer para vocês e também para mim hoje é a seguinte: Jesus não encontrou um acolhimento naquele povoado de Samaritanos. Já que estamos em Tríduo, revendo a nossa vida e nossa caminhada, a pergunta é: e nós, estamos acolhendo Jesus em nossa vida, com a Sua proposta, acolhendo a Ele com a Sua palavra, o Seu Evangelho, ou ainda temos resistências e não queremos nos comprometer?

É importante refletirmos isso todos os dias, pedindo a Jesus e ao Espírito Santo que nos ilumine para caminharmos assim, para acolhermos a Sua presença. Deus está presente na sua vida, na sua história. Deus está presente nessa comunidade paroquial. É preciso, então, abrir as portas do coração para acolher Jesus e toda a novidade que Ele quer trazer para a nossa vida. Que essa comunidade paroquial cresça na novidade do Espírito Santo. E que fiquemos atentos para não fechar as portas do coração, para não deixar de ouvir as novidades que Deus tem para nos dizer e o caminho que Ele quer nos mostrar.

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Imitar os passos de Jesus

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 26º Domingo do Tempo Comum (Ano B – 26/09/2021 - missa às 10h)

Na Primeira Leitura, nós vivos o Espírito de Deus, espírito que tinha iluminado Moisés que ilumina também outros 70 homens que Moisés tinha escolhido para ajudar a cuidar do povo de Israel. E eles, para receber o Espírito, se reuniram com Moisés ali na tenda da arca. Durante o tempo que eles estavam no deserto, eles não tinham o templo. Eles tinham uma arca coberta por uma grande tenda e, toda vez que eles se mudavam de lugar, eles iam carregando a tenta junto, desmanchavam e depois montavam de novo. A coisa mais importante da tenda era a Arca da Aliança, era o coração da tenda e do povo de Deus. Então Moisés chamou esses homens que tinha escolhido, mas dois não conseguiram chegar, ficaram para trás. E quando Moisés fez a oração pedindo a Deus iluminasse aqueles homens, os dois que ficaram lá no acampamento também receberam o espírito e era um espírito de profecia, então eles começaram a profetizar lá no meio do povo. Ah, olha fofoqueiro existe em tudo quanto é canto, né? Aí um fofoqueiro correu falar para o Josué: ó meu amigo, aqueles dois lá que não vieram estão profetizando. Aí o Josué, que era outro fofoqueiro, foi lá falar com Moisés: olha, aqueles dois estão lá profetizando, eles não estão aqui com a gente... Então o Moisés pergunta: mas o que você tem com isso meu amigo?! Está com ciúme por quê? Tomara que todo o povo profetizasse! Gente, nós não podemos ter ciúmes dos dons de Deus dá para as pessoas. Porque se você tem ciúme dos dons que Deus concede às pessoas, você tem ciúme de Deus e você tem que se perguntar quais são os dons que Deus te deu e que você não está colocando a serviço da comunidade. Porque muitas vezes nós nos sentamos em cima nos dons que Deus nos deu e ficamos criticando os outros porque nós não fazemos nada. É complicado o negócio!

E a mesma coisa aconteceu com os discípulos de Jesus. Só que agora quem é que é o linguarudo? O linguarudo dessa vez é João que depois vai ser o apóstolo que vai dar origem ao evangelho de São João. ‘Ah Jesus, fulano lá de não sei onde que a gente encontrou estava expulsando demônios no teu nome e nós proibimos, porque ele não é um de nós’. E Jesus passa um sabão em São João na hora: ‘ele está fazendo alguma coisa em meu nome, essa pessoa não pode acabar falando mal de mim, ele não vai falar mal de mim. Quem está conosco, não está contra nós’. Em seguida, Jesus vai falar e muita gente fica perdida com o que isso quer dizer. ‘Se a tua mão te leva a pecar, corta a tua mão. Se o teu pé te leva a pecar, corta o teu pé. Se teu olho te leva a pecar, arranca-o.’. É uma imagem muito pesada, mas será que Jesus quer que todo mundo fique sem mão ou sem pé? Não.

A mão é um sinônimo das nossas ações. A mão pode se estender para ajudar, mas com a mesma mão eu posso dar um tapa no ouvido de uma pessoa. A mesma mão que faz um carinho pode ser a mão que rouba. Então se a tua mão está indo para o caminho da violência, do roubo, do erro, as tuas ações não são ações de Deus, corta esse caminho, volta para o caminho de Deus, porque se você continuar por essa estrada, o fim é o inferno.

O pé vai significar a mesma coisa. Se você ficar indo por caminhos que não são os caminhos de Jesus. E cuidado, muitas vezes nós católicos de missa diária não estamos no caminho de Jesus! Quando nós aceitamos a violência contra os outros, pode fazer comunhão todo dia, mas você não está no caminho de Jesus. Quando a gente fica defendendo o armamento da população, nós não estamos no caminho de Jesus. Quando nós não defendemos o direito dos pequenos, dos índios, dos pobres e aplaudimos violências que fazem contra esses povos, nós não somos de Jesus. Quando nós criticamos quem ajuda e faz o bem para essas pessoas, porque não pode fazer mais... Se nós criticamos pessoas que fazem o bem, nós não somos de Jesus. Nós estamos no caminho torto. Temos que jogar fora essa visão torta e pegar o caminho de Jesus. O caminho de Jesus é defender a vida, ajudar e promover o pobre, querer a paz. Jesus não fala bem-aventurados os que tem armas, Jesus fala: bem-aventurados os promotores da paz, deles é o Reino do Céu. É o caminho de Jesus que nós temos que seguir. Cortar o pé significa sair desse caminho que não é de Jesus.

Arrancar o olho... O olho é a nossa guia. A grande pergunta é: o que está nos guiando? Mais uma vez, é Jesus ou é um ídolo da morte? Hoje nós temos muitos ídolos da morte: o culto da beleza, a estética, tudo tem que ser fitness, é um absurdo. Esses deuses falsos comem muito dinheiro. Depois o deus do sucesso, tem que ter 10 mil visualizações no Instagram ou ter 10 mil amigos no Facebook são todos deuses falsos que nos alienam e que muitas vezes mentem. Não é possível ter juventude para sempre. Não é possível ser o bonzão da história o tempo inteiro. A vida é aquela que é. Cada momento da vida tem a sua beleza. A deusa da estética chegou a um tal exagero que os grandes produtores de moda feminina tiveram que fazer acordos contra a anorexia. É uma doença, uma loucura para cultuar essa deusa que no fim das contas é uma deusa do inferno que pode levar as pessoas à morte. Depois, a chamada estética muda conforme os tempos. Na antiguidade, existia um certo modelo de beleza feminina que aparece na Vênus de Milo. Na Renascença, anos 1500, as mulheres são todas rechonchudas. Se você vai nos anos 50, o modelo daquele tempo é Marilyn Monroe, que para um jovem de hoje seria considerada gorda, porque venderam para nós uma imagem de estética que é anorexia. Isso é só para a gente pensar um pouquinho nas ideias falsas que o mundo nos dá e como nós bebemos essas falsidades. Jesus nos diz: o caminho da vida. Esse é o nosso caminho: o caminho da alegria, da paz com os outros, esse é o caminho de Jesus. No Evangelho, vemos muitas vezes, Jesus na mesa, comendo com as pessoas, é alegria, é o pão, é conversa ali entre amigos. Ninguém está preocupado se é bonito ou feio, se é gordo ou magro, isso é fraternidade, são esses os valores que contam. Nós agora estamos para entrar em uma guerra de novo: a polarização da política. Vamos aprender e não vamos criar guerras entre os nossos amigos e parentes. Estar na mesa em paz com as pessoas é mais importante que os partidos políticos. Isso também é mudar o olho. A outra pessoa é mais importante que o seu partido político, porque quando eu sinto respeito e afeto, eu consigo conversar com as pessoas. Esse é o caminho do Evangelho. Jesus sabia que Zaqueu era um corrupto terrível, era chefe dos cobradores de impostos, metia a mão adoidado, mas servia alguma coisa Jesus xingar o homem? Não, Jesus conversou com ele e esse homem se converteu para o Evangelho. É só na amizade que nós trazemos as pessoas para o Evangelho. Olhem lá o que está acontecendo no Afeganistão: quando você não ama as pessoas, você mata porque essas pessoas não pensam como você, e pior, em nome da religião.

Vamos pedir a Deus que o Espírito Santo nos ensine a mudar as nossas ações se não são de Jesus, a mudar os nossos caminhos para seguir só Jesus e a mudar os nossos modos de ver a vida e o mundo para sermos de Jesus. Lembrem-se de que não basta vir à missa todo domingo, é preciso pensar e agir como Jesus.

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Viver é exercer o serviço aos irmãos

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 25º Domingo do Tempo Comum (Ano B – 19/09/2021 - missa às 10h)

Novamente, o tema de hoje é Jesus ensinando seus discípulos. Porém, eles saíram de Cesareia de Filipe, que era um deserto, e estão entrando na Galileia, que é uma terra fértil. A seguir, dirigem-se a Cafarnaum, que era a cidade onde Jesus estava morando naquele tempo em que ele foi para seu ministério público. E Jesus, novamente, falou que iriam matá-lo, e que, ao terceiro dia, Ele iria ressuscitar.

E os discípulos, mais uma vez, não entenderam nada porque, no meio do caminho, começam a discutir quem é o mais importante entre eles. Porque, se Jesus é o Messias e Ele vai estabelecer o Reino, então o pessoal queria saber quem que é o mais importante para ser o Primeiro-Ministro, ou, pelo menos, o Ministro de Graça e Justiça, que é o segundo! E começam a discutir entre eles e param até para pensar em critérios para ser o primeiro como, por exemplo, aquele para quem Jesus direcionou primeiro a palavra ou aquele que tinha o grau de parentesco mais próximo de Jesus. E Jesus só escutando as abobrinhas.

Quando chegam em casa, Jesus pergunta: “afinal de contas, vocês estavam conversando de quê? Que besteira era aquela que vocês estavam falando?”. E ninguém fala nada. Acho que entenderam que Jesus ia dar uma puxada de orelha. Aí Jesus faz uma coisa engraçada. Jesus pega uma criança e a abraça. A seguir, começa a fazer este discurso esquisito: “se alguém quer ser o primeiro, seja o último, aquele que serve a todos”. E por que Jesus abraçou uma criança? Pois Jesus está ensinando os discípulos sobre o fato de ser último.

Naquele tempo, as crianças não tinham nenhum direito. Absolutamente nenhum, a tal ponto que o pai – o pai, não a mãe, pois a mãe também não tinha direito a nada – podia vender os filhos como escravos para pagar dívidas. Já pensou se a gente pudesse fazer isso hoje em dia? A molecada estava frita, não é? Isso dá para mostrar a condição das crianças. Então, o que Jesus está mostrando para os seus apóstolos? Que eles têm que ser assim: pessoas que não reivindicam direitos! O único direito do cristão é servir aos outros. E quem deu o maior exemplo de serviço foi Jesus.

É bonito falar essas coisas, né? Aí chega na vida prática – e isso acontece muito nos encontros de casais, de jovens –, todo mundo quer trabalhar na cozinha, todo mundo quer trabalhar na acolhida, fazer horas de oração, fazer visitação. Mas vocês sabem a coisa mais difícil que tem para encontrar gente? Limpar o banheiro. Ninguém quer! Mas é onde você mais serve as pessoas, porque todo mundo tem que ir ao banheiro. Todo mundo quer dar palestra, mas limpar o banheiro ninguém quer!

Jesus diria exatamente isso: você quer servir a todos? Vai limpar o banheiro. Engraçado, né? Como é engraçado o Evangelho, como a nossa mentalidade está longe do Evangelho de Jesus.

Olha lá! Dia 25, sábado que vem, nós vamos ter limpeza da igreja. Quero ver quem vem ajudar, viu? Já estou convidando o povo para vir ajudar no sábado que vem, às 8 horas da manhã! Pode ser homem também. Aliás, muitos, porque vamos precisar mexer todos esses bancos de lugar.

Que a nossa vida seja um pleno serviço aos demais.

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Carregar a cruz é servir a todos como Jesus

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 24º Domingo do Tempo Comum (Ano B – 12/09/2021 - missa às 10h)

O Evangelho de Marcos é escrito em Roma por um evangelista que não conheceu Jesus pessoalmente. Ele pensa em hebraico e escreve em grego – e um grego bem fraquinho, mas ele tem uma ideia na cabeça quando ele escreve e deixa os primeiros nove capítulos com uma grande pergunta: “quem é Jesus?”. As pessoas ao longo dos nove capítulos perguntam quem é esse homem que faz essas coisas, que acalma o vento e a tempestade, que multiplica os pães. E no capítulo nove quem faz essa pergunta é Jesus para seus discípulos, mas até então faz essa pergunta em uma região de deserto, não tinha ninguém ali só Jesus e os doze e Pedro muito entusiasmado diz: “tu és o Messias”, porém vamos ver qual Messias Pedro tinha na cabeça... Jesus fala que vai para Jerusalém ser preso, torturado, morto e ao terceiro dia vai ressuscitar, mas o povo de Israel desde que faliu a monarquia davídica esperava um Messias que fosse o reformador da vida de Israel, reformador dos costumes, da religião, fosse um grande rei, um grande guerreiro que iria expulsar os dominadores de Israel na época os Romanos e que faria de Israel a maior nação do mundo: essa era a ideia e Pedro quando fala de Jesus é o Messias não tem nada de diferente disso na cabeça. Por isso Jesus fala “vai embora satanás, você não pensa igual Deus”, mas qual é o caminho de Deus? O que Deus pensa? Primeiro Jesus chama a si as multidões – e isso é um artifício literário, São Marcos está falando que Jesus está perdido em meio a um deserto, a única multidão que pode ter ali é de mosquito, como ele chamou as multidões?

Nós podemos dizer que foi como nos filmes quando os atores estão conversando entre si e um deles olha para a câmera e parece que está falando com você, foi exatamente isso que São Marcos fez: Jesus fala para os doze e para as multidões, que não estão ali, mas as multidões que lerão esse Evangelho e ouvirão esse Evangelho, ou seja, nós, todas as pessoas que antes de nós escutaram o Evangelho e todas as pessoas que depois de nós ouvirão esse Evangelho. Jesus fala, nesse trecho, olhando para os olhos de cara um de nós: você quer ser meu discípulo? Renuncie a si mesmo, toma tua cruz de todo dia e me siga. Renunciar a si mesmo não significa viver abandonado, mas renunciar aos próprios projetos de grandeza, de egoísmo para que todo dia na vida, no trabalho você aprenda a servir os outros, você aprenda a ser servo de todos e não querer que os outros te sirvam, não querer oprimir os outros para que você esteja bem, mas como faz Jesus na última ceia lavar os pés de todos e Jesus disse “eu sou Mestre e Senhor, mas sou Mestre e Senhor que serve”.

Essa mentalidade muda o mundo, muda a sociedade, muda a economia, muda tudo. Se o Presidente da República se coloca como servo do seu povo, ele vai querer o bem do povo e não cortar o dinheiro da vacina. Se o governador quer o bem do povo, quer ser servo do povo, ele vai implementar a educação e não a destruir. Se você é um funcionário público, você vai cuidar para que a merenda escolar chegue a todas as crianças e escolas necessitadas, mas não vai enfiar o dinheiro no bolso. Se você é pai de família, você vai se empenhar para que seus filhos vivam os valores cristãos que promovem a vida, o direito e a igualdade das pessoas. E se você for uma boa mãe de família que serve, vai buscar a mesma coisa. O padre que quer ser servo tem de servir a Palavra de Deus para o povo, mesmo que isso custe para ele críticas e às vezes até perseguição, porque isso é o caminho de Jesus: isso é carregar a cruz. Não é pegar uma cruz de 40 quilos e sair por aí ou então pegar um chicote para se bater e sofrer bastante, isso é loucura, mas na história já se fez isso, mas não é isso que Deus quer. Deus quer o serviço, ser servo dos outros é querer a vida e o bem do outro. Vamos pedir a Jesus que Ele nos ajude nisso!

Nós também estamos no mês da Bíblia e, nesse ano, refletimos e incentivamos o povo a ler a carta de São Paulo aos Gálatas. São Paulo sofria muito uma situação, ele ia numa cidade nova pregava o Evangelho, as pessoas se convertiam – às vezes só pagãos, se batizavam e queriam viver o mandamento de Jesus. São Paulo pregava o Evangelho da liberdade do amor e do serviço sem aquelas regrinhas do mundo hebraico e dizia “Jesus já acabou com isso, vamos viver o mandamento do amor e do serviço”. Então, São Paulo depois saia daquela cidade e ia para outros lugares e vinha gente da comunidade de Jerusalém para aquele comunidade cristã que Paulo tinha fundado depois que ele ia embora e falava que não era bem isso que tem que seguir a lei de Moisés, se circuncidar e São Paulo ficava louco da vida vendo o trabalho dele ser destruído, ai ele fala em uma de suas cartas “eu pedi duas vezes pra Deus me livrar desse Demônio que é para mim como um espinho na carne, vou lá trabalho, me arrebento para anunciar o Evangelho e depois vem esses folgadões e estragam tudo e Deus me disse: te basta a minha graça, vai adiante”. Aí São Paulo fica sabendo que na comunidade dos Gálatas aconteceu exatamente isso, era uma região bem do interior e São Paulo tinha constituído ali uma bela comunidade e chega esse pessoal de Jerusalém e joga água no angu, mas São Paulo escreve essa carta e fala “quem é que vem aí destruir e anunciar outro Evangelho que não seja o que eu anunciei para vocês? Foram eles que sofreram, que levaram pauladas por causa do Evangelho? Foram eles que naufragaram por causa do Evangelho? Foram eles que passaram fome, sede, frio por causa do Evangelho?”. Ele fala: “Jesus mesmo me chamou, Ele me chamou e mandou eu anunciar o Evangelho, não foi ser humano nenhum, isso foi Ele e vocês são uns insensatos, trocando um banquete que servi para vocês pela lavagem que essa gente anuncia”. São Paulo é terrível, é uma carta forte que nos lembra de que não se devem medir esforços para anunciar o Evangelho da liberdade. Papa Francisco esses dias fez um sermão falando sobre isso muitos rituaizinhos, muitas leizinhas, muitas manias religiosas, devoções que muitas vezes não servem para outra coisa, condenam um coração duro que julga os outros, condenam as pessoas, excluem as pessoas, ou seja, para não viver o Evangelho nós temos que tomar muito cuidado com isso. Jesus não chamou exército nenhum, Jesus quer servos, discípulos, como briga São Paulo na sua Carta aos Gálatas. E espero que depois de toda essa falação vocês essa semana vão lá lê-la na Bíblia, é uma carta curtinha e bem interessante na qual esse apóstolo que anuncia e grita com todas as forças o Evangelho da liberdade.

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Acreditamos no Deus da verdade

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 23º Domingo do Tempo Comum (Ano B – 05/09/2021 - missa às 10h)

A Primeira Leitura [Is 35,4-7a] parece uma contradição. Ela começa com “dizei às pessoas deprimidas”. Deprimido aqui não se refere apenas aos deprimidos de depressão, mas também aos oprimidos. Isto nós vamos entender com a continuação da leitura, que ela se refere a todas as pessoas que estão de algum modo sofrendo. Sofrendo por causa de quê? Por causa dos desmandos dos reis. Os profetas são críticos da realeza porque ela trouxe para Israel a idolatria, culto de falsos deuses. E quando nós abraçamos falsos deuses, nós geramos o sofrimento e a morte. Então, os profetas criticam duramente a monarquia quando ela é causa de morte e de sofrimento para o povo.

Mas a coisa interessante é esta: “dizei às pessoas oprimidas: criai ânimo, não tenhais medo!”. As pessoas abatidas deixam-se tomar pelo medo, pelo desânimo. O medo foi exatamente o veneno que o inimigo colocou no coração do homem no momento do pecado original. De fato, Adão vai falar pra Deus: “tive medo e me escondi”. O medo nos paralisa e nos faz acreditar que uma formiga é um dinossauro, que um mentiroso diz a verdade. O medo faz isso. E o profeta continua: “vede, é vosso Deus, é a vingança que vem, é a recompensa de Deus”. Mas daí pensamos: que vingança é esta? Ela vem para vos salvar. A vingança de Deus é contra os ídolos, contra os instrumentos de morte, contra as mentiras que os governantes falam e iludem os povos. Deus traz o quê como vingança? A cura. Porque o povo está sem saúde. Abrir os olhos para ver a verdade e não se enganar com as mentiras. Abrir os ouvidos para ouvir e olhar o que realmente está acontecendo em torno de nós, não nos deixar enganar. O coxo, que pode ser entendido também como o paralítico, saltará como um cervo e se desatará a língua dos mudos. Não é andar, simplesmente. É saltar de alegria, pois a salvação chegou. A salvação que os grandes negaram ao povo.

Hoje nós temos toda esta ideologia barata que as vacinas fazem mal. E já temos um desastre que advém disso. Tem muita que não toma a vacina da Covid e outros tantos que não tomam nem a segunda dose. E isso é um crime contra os outros. Mas tem gente que está deixando de dar para os próprios filhos pequenos as vacinas essenciais, sendo uma delas a da poliomielite. Tem gente que não quer dar porque acha que o filho vai ter um chip. Isso aqui é ignorância e não tem outro nome. Se você não dá vacina de poliomielite para as crianças, você corre o risco de condenar uma criança a ter paralisia nas pernas para o resto da vida. Por causa de uma ignorância tua, quem vai pagar é o teu filho. Não acredite em mentiras. Deus nos quer vendo e ouvindo a verdade.

Então Deus vai tirar as mentiras do nosso meio para nos dar a verdade. Brotarão águas no deserto, jorrarão torrentes no ermo. Este texto aqui foi escrito há cerca de 2.500 ou 2.700 anos, mas parece que ele está lendo o Brasil de hoje. Nós estamos destruindo o Brasil. O mundo precisa destas florestas. O mundo precisa da nossa água e estão deixando destruir tudo. Vamos pôr o olhar em Deus e olhar para aquilo que Deus olha.

Onde está o olhar de Deus? O olhar de Deus está nos pobres, nos que sofrem, nos desempregados, nos doentes. Seus olhos não estão em cima dos banqueiros ou de deputado que segura mais de cem pedidos de impeachment no governo. Os olhos de Deus não estão lá. Nós temos que pensar nos pobres, nos que sofrem e ajudarmos estas pessoas. No dia em que, verdadeiramente, aprendermos isto, nós vamos estar mais perto do Reino de Deus. Neste dia, nós vamos começar a ter um Brasil melhor e uma vida mais serena. Porque, se eu promovo a justiça, o bem, o trabalho, a educação e a saúde para o povo, eu não vou ter violência. Toda a sociedade ganha. Não haverá mais sofredores de rua, porque este povo não vai ter que viver no meio da rua por não poder mais pagar aluguel na favela. Imaginem, todos terem onde morar porque não existe mais um mar de desempregados. É isso que Deus quer. E isso nós podemos começar a plantar já neste mundo. Porque, no Reino de Deus, vai haver igualdade radical para todos, dado que todos somos filhos e filhas de Deus. Nenhum de nós é melhor diante de Deus. Para alguns, esta igualdade radical vai ser o céu. Para outros, que vivem da ganância, do roubo, da mentira, a igualdade radical será o inferno. Mas, ainda assim, se tiver alguma pessoa que deseje ir nestas manifestações, ao menos respeitem os outros. Todos querem voltar para casa, os prós e os contras as pautas, todos têm família.

Vamos aprender a não nos odiar e, pior ainda, por assuntos que não valem a pena. Vamos nos respeitar como cidadãos, do mesmo jeito que vocês respeitam a mim falando tudo isso e não deixam de amar a Nosso Senhor Jesus Cristo. Procurem, de todo modo, fazer o bem para quem sofre, porque nós, no dia do juízo final, seremos julgados por isso.

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A luz de Cristo está no coração de cada batizado

Homilia: Pe. Flávio José dos Santos – 22º Domingo do Tempo Comum (Ano B) – 29/08/2021 (missa das 10h, Dia Nacional do Catequista).

Primeiramente, queridos pais e padrinhos, vocês estão nos ensinando muito o sentido do que é o Batismo. Isso é muito importante, até para que possamos esclarecer o que é batizar de verdade. Eu escuto muitas bobagens por aí, e uma delas eu tenho certeza que vocês nunca escutaram, que é alguém chegar para vocês e falar: "Por que você vai batizá-la quando criança? Ela não sabe o que está acontecendo. Deixe-a crescer, aí ela vai escolher o que quer ser". Que pensamento errôneo, pois só olha para si mesmo. E se eu chego a vocês e pergunto "por que querem batizar seus filhos", vocês vão falar um monte de coisas: "Ah, minha família é católica, eu nasci em berço católico", "Porque quero que eles se casem"... Alguns falam: "Porque quero que a criança fique quieta, que afaste mau-olhado". Um monte de coisas, não é? Mas se eu começo a perguntar mesmo, vai chegar uma hora em que vocês não saberão responder o real motivo do porquê vocês as trouxeram. Aí é que está um grande ensinamento para nós: não é só o nosso desejo de querer batizar os nossos filhos, é o desejo de Deus.

 

Nesse momento em que ungi o peito dessas crianças, eu falei: "Que o Cristo Salvador lhe dê a Sua força". E se todos nós somos batizados, um dia, um Padre fez a mesma coisa com você: mostrou, nesse gesto, que a força, a graça e a luz de Cristo estão no seu coração e na sua vida. Então a gente deveria pensar três vezes antes de desistir de alguma coisa, de achar que nossa vida não vale nada, pensar que Deus nos abandonou. Não! Nesse gesto, Deus transfere para nós a Sua luz, a Sua graça, a Sua força; ninguém tira! E é desejo Dele, por isso é que o Batismo é único, não é uma imposição da Igreja, mas é um desejo de Deus que sejam filhos e filhas amadas e amados.

 

A partir de hoje, essas crianças não pertencem mais a vocês, pertencem a Deus. Só que Deus não é igual ao ser humano, egoísta; Ele sabe – e confia – que vocês são os melhores para cuidar e zelar. Por isso, cuidem muito bem delas. Eu sempre digo, em todos os batizados: nunca deixe de abençoar os seus filhos, os seus afilhados. Tem gente que fala que isso é coisa para velho, "Ah, só velho faz isso, pedir a bênção", não é? Uma vez, eu vi uma senhora que estava com a netinha do lado, que falou "benção, vó", e ela disse: "Sai, menina! Você está me chamando de velha?". Não! Todos os dias, ao acordar, quando eu vou iniciar o meu dia, a primeira frase que levo no meu coração é: "Deus te abençoe, meu filho" – a bênção da minha mãe. Meu pai já partiu, mas a bênção dele permanece, e que bom iniciarmos o nosso dia recebendo essa bênção, porque abençoar é mostrar o bem de Deus que está em nós, e esse bem nos acompanha sempre.

 

Por isso, parabéns a vocês, viu? E vocês não estarão caminhando sozinhos. É nosso dever, enquanto comunidade, rezar por vocês! Pedir a Deus que sempre os mantenha firmes. E, saibam, vocês podem fazer tudo e deixar tudo para suas crianças, mas o bem maior: deixe Deus no coração delas! Assim, elas nunca serão alienadas, mas serão humanas, percebendo, cada dia, essa dádiva, por meio do Sacramento que nós celebramos na manhã de hoje.

 

Queridos irmãos e irmãs, como é bom celebrarmos e percebermos a riqueza da nossa fé! A liturgia de hoje nos mostra isso. Seria muito interessante perguntarmos sempre: em que a fé me ajuda enquanto pessoa? Não tem como nós vivermos algo dentro de uma igreja e sermos outra pessoa fora. A liturgia de hoje questiona isso. Na primeira leitura [Dt 4, 1-2. 6-8], Moisés vai dizer: "Olha, não invente mais coisa, já existem os mandamentos de Deus". E qual é o mandamento de Deus? Pai de todos; ama todos; anima todos; acolhe a todos... Não adianta inventar mais coisas, porque, senão, acaba distanciando.

 

É aí que a gente compreende o Evangelho de hoje [Mc 7, 1-8. 14-15. 21-23]. Porque, quando olhamos este Evangelho, ficamos com o pé atrás até mesmo com Jesus e os discípulos – eles não lavavam as mãos para comer? Eles não tomavam banho? Não é isso. Aqui, a questão é do ritual. O judeu é muito ritualista. É como na missa também: o padre, depois que apresenta as oferendas, vai lavar as mãos, e não é por que sujou, não, é um gesto ritual. E a mesma coisa era na época de Jesus, tanto é que o Evangelho vai dizendo: "Tem a maneira certa de lavar os copos, as jarras; não é de qualquer forma". Mas tudo isso muito categórico, porque tinha todo um ritual para fazer aquilo.

 

E Jesus vem dizer: "Não". Porque em que isso enriquece você? Em que isso transforma a sua vida? É por isso que Jesus chama a atenção: "Olha, não é o que está fora e entra que é o grande mal, mas o que está dentro e é manifestado". E é por isso que ele vai dizer que o que causa, realmente, uma ação terrível são as más inclinações, as maldades, o desejo que o outro se dê mal, causar divisões, separações... É para tudo isso, cultivado no coração do ser humano, que Jesus chama a atenção. Os ritos, as expressões de fé, nos ajudam a superar tudo isso – porque também é natural, muitas vezes, alguma situação terrível, provocar isso em nós; mas não deve permanecer. É para isso que Jesus chama a atenção.

 

Na segunda leitura [Tg 1, 17-18. 21b-22. 27], Tiago vai nos mostrar isso de uma forma muito incisiva, quando ele diz: "Vivam aquilo que vocês celebram, vivam a Palavra que vocês escutam, sejam realmente sinal de proteção". É por isso que ele diz para proteger as viúvas e os órfãos, ou seja, aqueles que estão, de certa forma, em perigo de muitas situações. Protegê-los. E de que forma? Estando sempre atentos, discernindo realmente a graça e a ação de Deus, para que esse vínculo nunca se separe de nós.

 

Hoje, ao celebrarmos esta Eucaristia, nós também queremos agradecer aos nossos catequistas. Pela manhã, lá na Catedral, a gente também rezou por eles, mas uma coisa é fato: não adianta transferir a educação da fé dos nossos filhos para os catequistas. Eles ajudam a aprofundar, mas os primeiros catequistas – e maiores – são vocês, pai e mãe. O que nós estamos deixando para nossos filhos? Uma coisa que temos que refletir é se não estamos destruindo uma dimensão tão especial no ser humano, que é o cuidado. Ninguém mais quer cuidar de ninguém, ninguém mais quer ouvir, compartilhar, ajudar no sofrimento dos outros... "Cada um que siga com a sua cruz". Não!

 

Precisamos muito ajudar a transmitir esses valores tão especiais para nossas crianças, sem deixar de agradecer aos catequistas das nossas paróquias, porque são homens e mulheres que, muitas vezes, deixam suas casas, suas famílias, para zelar e cuidar do bem maior que são os nossos filhos. E, mais ainda, transmitir a eles aquilo que eles também acreditam, que é a questão da ternura e da graça da fé. Então nós queremos muito agradecer a você que é catequista: Deus sempre abençoe você! Porque todas as vezes que nós olharmos para vocês na igreja, vamos sempre recordar: a Igreja, por sua essência, também é catequista, porque a catequese é permanente, ela nunca é temporária; tem os momentos para aprofundarmos, mas ela sempre é permanente, pois ela sempre nos leva a permanecer no colo e no coração de Deus.

 

Vamos pedir que esta Eucaristia fortaleça a todos nós e ilumine os nossos corações, para que essa graça sempre seja a luz necessária para o nosso caminhar.

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Aprender com a Virgem Maria

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha –  Solenidade da Assunção de Nossa Senhora (Ano B) – 15/06/2021 (missa às 10h).

Hoje celebramos a Assunção de Nossa Senhora. O que quer dizer assunção? Assunção significa ser levado. E ascensão? Elevar-se. É diferente, Jesus ascendeu ao céu, subiu ao céu, por força própria, porque Ele é Deus. Maria foi assunta, foi levada, não por força própria, foi levada por força de Deus. Maria morreu? Sim, morreu – até Jesus morreu, todo mundo morre. E na hora da morte, Deus ressuscitou Maria e ela está de corpo e alma junto de Deus. Ela aparece para nós como uma estrela, no meio do mar, no meio da tempestade, uma estrela que indica para nós a direção, e a direção que Maria indica é sempre Jesus. Maria nunca aponta para si mesma. Quando ela fala de si mesma, ela vai dizer: "O Senhor viu a humildade da sua serva, por isso Ele fez grandes coisas em meu favor, foi Ele que fez, é Ele que é grande, eu sou uma humilde serva do Senhor". Ver Maria assunta ao céu de corpo e alma também é garantia que Deus nos dá de que essa nossa fraqueza, essa carne fraca, essa nossa vida breve e sofrida tem um valor para Deus. E essa vida vai se sentar junto de Deus, a nossa vida, a nossa fraqueza, a nossa miséria, o nosso pó vai ser mantido vivo na eternidade pela graça de Deus. Isso que o Evangelho de hoje e a doutrina da igreja nos ensinam com a assunção de Maria.

Vamos olhar essa belíssima leitura de Apocalipse, final do capítulo 11 e começo do capítulo 12, mas primeiro vamos falar sobre a arca da aliança... Ela foi mandada ser construída por Deus, que disse: "Moisés, você irá construir uma barca deste jeito aqui". Então deu as medidas e instruções de como deveria fazer e Moisés fez, no meio do deserto, lá no livro do Êxodo – se vocês ainda não leram o livro do Êxodo é porque não estão assistindo "As Aventuras Bíblicas", né? Todos os sábados lá no Facebook da paróquia, nós estamos explicando passo a passo da Bíblia. Nós começamos lá em Gênesis, e já estamos no livro de Rute, já estamos bem adiantados, mais de 40 capítulos, então vocês tratem de ir lá, assistirem e aprenderem coisas da Bíblia. Pois então, Moisés fez a arca, e a arca caminhou com o povo no deserto, depois que entraram na Terra Santa, ainda ficaram lá 250 anos sem o templo, a arca ficava num templo que era uma cabana móvel, uma tenda móvel, depois Salomão fez um templo e colocaram a arca no templo. Por volta dos anos 600, 500 a.C., antes da invasão da Babilônia, o profeta Jeremias pegou a arca e levou para as montanhas, para um lugar escondido, e a arca se perdeu, não se sabe onde ele colocou a arca. Entre o povo criou-se então a tradição, que no dia do juízo, a arca de Deus estaria no céu, a arca da aliança.

Então vamos para Apocalipse, onde João diz: "Vi a arca da aliança que aparecia no céu, era o sinal de Deus, chegou o tempo do julgamento". Interessante é que São João olha de novo e o que ele vê é uma mulher grávida, vestida de sol, com a lua debaixo dos pés e uma coroa com doze estrelas em volta da cabeça, e ela está gritando porque ela vai ter uma criança. Ela está gravida, mas já está dando a luz à criança e, ao mesmo tempo, aparece no céu um dragão gigantesco, monstruoso, com dez chifres. Com o rabo, ele leva um terço das estrelas do céu, é uma coisa assustadora! O que essa pobre mulher, nas dores do parto pode fazer contra uma coisa desse tipo? E o dragão se coloca em frente a ela, para devorar o filho. A criança nasce e Deus leva a criança para junto de si. Essa mulher simboliza o povo de Israel, ela simboliza também a comunidade dos cristãos, a Igreja que somos nós, e ela também representa a Virgem Maria que é membro da Igreja, uma de nós. O filho que nasce dela é Jesus que é levado para junto de Deus, essa é a Ressureição e Ascenção de Jesus. E a mulher então foge e vem para a terra, é a Igreja que tem que anunciar para o mundo o Evangelho de Jesus, e ela vai sofrer muita perseguição, do dragão que ficou muito bravo porque não conseguiu destruir o messias de Deus. Então ele se joga contra a mulher e a terra se abre, e o mar que o dragão tinha vomitado para afogar a mulher, a terra engole, isso é para dizer que Deus sempre vai proteger seu povo, o povo de Deus tem uma missão e a missão é anunciar o Evangelho de Jesus. E mesmo sendo perseguido, Deus vai ajudar este povo a cumprir a sua missão. Deus vai ajudar nos ajudar a anunciar o Evangelho com a nossa vida e com nossas palavras.

No Evangelho, nós temos como Deus faz isso, e Maria olha para a história, para a história do povo de Israel, e ela vê como Deus dispersa as pessoas de coração orgulhoso, pessoas que se acham como deuses, que acham que não precisam de Deus. Pessoas que pensam que são donos e donas de Deus. Ninguém comanda Deus. E essas pessoas são dispersas, igual farinha ou palha no meio do vento. Deus derruba poderosos de seus tronos, quantos reis injustos tiveram o povo de Deus, muitos. Se formos lá no Livro dos Reis, vamos ver que a maioria dos reis são condenados pelo autor sagrado. Porque quando o rei governa bem, o autor do Livro dos Reis fala "esse agiu conforme a vontade de Deus", e muitos desses homens pensam que são eternos, que vão viver para sempre, que vão fazer suas corrupções sem nunca morrer. Maria diz: "Deus derruba, acaba. Os grandes impérios do mundo acabaram no nada". Os homens que pensaram que dominariam o mundo, muitos deles hoje são vistos como as desgraças da humanidade – pense em Hitler, em Stalin, pense nas coisas terríveis que fizeram, por exemplo, Napoleão que são mais próximos de nós. “E elevou os humildes”. Deus olha o mundo do avesso, Deus não olha com nossos olhos, se nós vemos a escolha do rei Davi, Deus diz ao profeta Samuel: "Vai lá na casa de Jessé que eu vou te mostrar quem vai ser o rei de Israel". Aí ele vai, encontra esses rapazes, homens grandes, fortes e fala "esse aqui sim vai ser um grande rei", Deus fala: "Tira isso da cabeça, não é ele não". E ele pensa "Deus falou que o próximo rei estaria aqui, mas não está". Então pergunta a Jesse "Mas estão todos os seus filhos aqui?", Jesse responde: "Não, nem todos... o mais novo está lá cuidando das ovelhas". Por quê? Ele só tinha 12 anos. Aí Samuel diz: "Nós não vamos jantar enquanto você não me trouxer esse rapaz". A hora que o menino entra, Deus fala para Samuel: "Este vai ser o rei de Israel". Então Samuel unge, ungir quer dizer passar óleo na cabeça, ele passa na cabeça do menino Davi, e o texto fala que a partir daquele momento o Espírito de Deus se derramou em cima do menino, e ele vai se tornar o Grande Rei Davi, fundador da dinastia "Davídica", da qual Jesus vai receber descendência de São José. Deus não olha a grandeza, Deus olha o que é desprezível aos nossos olhos. Aos olhos de Deus é bem diferente.

E Maria nos ensina outra coisa, nós estamos em um tempo em que tudo tem que ser para ontem, tudo tem que ser imediato, a gente tem que conseguir fazer tudo em pouco tempo. E nós perdemos a visão do tempo, da história. A vida leva muito tempo para mudar, são gerações e gerações, você começa a plantar hoje, para colher daqui a 20, 30, 40, 200 anos... Isso é ter esperança, ter fé. Nós não podemos pensar só no hoje, ou no máximo amanhã, a vida é comprida, nós é que passamos rápido. Mas nós que temos que plantar o amanhã. O que nós fazemos aqui hoje com estas crianças? Estamos ensinando para elas o caminho de Jesus, para que daqui 20, 30, 40 anos, elas estejam aqui no nosso lugar, trazendo os filhos deles para viver o caminho de Jesus. Eu estou pregando hoje para essas crianças para que daqui 40 anos, elas estejam aqui, como vocês estão. Daqui 40 anos eu não estarei mais aqui não, mas estamos plantando para amanhã. É essa a visão que Maria nos ensina a ter: fazer o bem hoje. Vamos pedir a Deus que nos ajude nisso!

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O perdão e a compaixão são essenciais para todo cristão

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha –  19º Domingo do Tempo Comum (Ano B ) – 08/08/2021 (missa às 10h)

O capítulo 6 do Evangelho de São João nos fala sobre a Eucaristia. Mas, no episódio da última ceia, ele não fala da instituição da Eucaristia, mas sim do Lavapés, que mostra a morte de Jesus como serviço. A Eucaristia, como São João apresenta, é serviço de vida. Jesus multiplicou os pães e o povo foi atrás dele porque queria uma vida fácil. Jesus vai então dizer: “vocês não conseguiram ver um sinal de Deus naquele pão que eu dei pra vocês”. Jesus dá um passo a mais e diz: “Eu sou o pão descido do céu”. Diz também: “Este pão é a minha carne dada”. E carne dada, entregue, não significa que cortou um dedo e deu. Significa a vida. Uma vida doada, uma vida entregue.

Deus desce do céu e torna-se um de nós para mostrar a que ponto Ele nos ama. Deus nos ama até entregar a vida. Jesus, o verbo eterno feito homem, entrega o que pode, até o fim. O limite do ser humano é a morte. E Jesus vai até este limite, entregando a vida por nós. E não é fácil entrar neste caminho de Jesus. Claro que doar a vida não significa, necessariamente, todo mundo morrer por causa do Evangelho. Não é a todos que Deus pede isso. Mas a entrega da vida está no viver como discípulo de Jesus. A Segunda Leitura [Ef 4,30-5,2] nos ilustra isto muito bem, na qual São Paulo diz: “vivam como imitadores de Cristo”. Ponham para longe de vocês a amargura, a irritação, a cólera, a gritaria, injúrias. Tudo isto tem que desaparecer. Nós nos percebemos, muitas vezes, com todos estes sentimentos. Mas nós temos que dar lugar, em nosso coração, para Jesus. Amar como Ele amou.

E São Paulo também diz: “Sede bons uns com os outros, sede compassivos”. Ser compassivo é ter compaixão, é se colocar no lugar do outro, sentir a dor do outro e agir como eu gostaria que agissem comigo se eu estivesse na situação do outro. “Perdoai-vos mutuamente”. Não há salvação para o mundo se não existe perdão e reconciliação. Não se pode viver de vinganças eternas. Chega um momento em que você odeia o outro e nem sabe o porquê. Fica aquela situação em que “os meus pais faziam assim, meus avôs faziam assim, eu faço assim e meu filho fará assim”. Ninguém mais sabe por que está odiando o outro. Isto cria as guerras, destruição e inimizades no mundo. E tudo que as pessoas querem é viver em paz.

Deus nos perdoa. Nós temos que pensar sempre nisso. A cruz de Jesus nos perdoa. A cruz de Jesus é um momento que permanece para a eternidade. E a última coisa a dizer antes de entregar o espírito para o Pai foi “perdoai-os”. Ou seja, teve uma palavra de perdão sobre nós que deve gerar dentro de cada um confiança em Deus. Por isso Jesus diz: “Eu sou o Pão da Vida descido do céu”. Moisés e Elias não desceram do céu, mas Jesus sim. Moisés e a lei são uma imagem daquilo que será o anúncio do Evangelho. A profecia de Elias e dos outros profetas também são uma imagem do que será a Palavra profética de Jesus. Jesus viu o Pai, então o que Ele fala revela o coração de Deus. Não é qualquer palavra, é a de Deus. Porque Jesus é Deus. Ele vê o rosto, o coração do Pai. E é possível, já nessa vida, começar a viver a vida eterna. Quem ama, quem perdoa, quem tem compaixão do outro já está vivendo aqui as sementes da vida eterna.

Aqui temos momentos que passam. A eternidade é um momento que dura para sempre. Vamos pedir a Jesus que Ele nos dê a graça de, realmente, acreditar Nele e no Seu Evangelho de vida. Cuidado, pois com as nossas ações e opções nós dizemos se cremos ou não. Quem diz que crê em Jesus e, na hora H, faz opções pela morte ou por pessoas que promovem a morte, na verdade não crê em Jesus. A pessoa que diz que crê em Jesus e passa do lado de sofredores de rua, de prostitutas, de travestis e tem desprezo ou nojo destas pessoas não crê em Jesus. Nós temos que converter o nosso coração. Quando nós rezamos o ato penitencial, nós batemos no peito. Sabem por quê? É como se disséssemos a Deus para amolecer nosso coração de pedra. Vamos pedir a Jesus que Ele nos dê essa graça. Essa é a graça da Salvação: poder seguir Jesus e, com Ele, entrar na vida eterna, que já começa aqui.

Hoje também a Igreja celebra, no mês vocacional, a vocação matrimonial, à família. Temos aqui no presbitério a Sagrada Família, com Jesus, Maria e José. Temos também o símbolo da aliança, como fé em Jesus ressuscitado. Eu gosto de perguntar para as pessoas: “qual é a maior de todas as vocações?”. Geralmente as pessoas demoram para responder porque ficam na dúvida e respondem que a maior é ser padre. Mas não. A maior das vocações é o matrimônio. E ela é tão fundamental que nem o pecado original, nem as águas do dilúvio destruíram esta ordem de Deus: “crescei e multiplicai-vos”. Nem o pecado conseguiu anular esta ordem de Deus pois ela é primordial. E, na Igreja, ela é sacramento, que significa que a vida matrimonial vivida no amor, na entrega, no perdão, na acolhida se torna para o mundo e para a comunidade um sinal da presença de Deus.

Hoje também é Dia dos Pais. E os pais carregam consigo também uma imagem primordial. O pai é aquela força que segura a criança quando ela é posta fora do ventre da mãe. Nós temos que ter esta imagem na cabeça. A mulher que pare a criança e o pai que a segura. Ele aquece, ele prepara para o mundo, que muitas vezes é hostil. A primeira coisa que a criança sente quando sai do ventre da mãe é a mudança de temperatura. E o pai é esta imagem daquele que acolhe esta criança. Ele vai aquecer esta criança e ele vai guiá-la para enfrentar e transformar o mundo hostil. Esta é a figura primordial do pai.

Deus abençoe os nossos pais. Deus os ajude a serem guias para os vossos filhos e filhas nestes tempos difíceis.

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O pão do céu traz vida em abundância

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 18º Domingo do Tempo Comum (Ano B ) – 01/08/2021 (missa às 10h).

É muito interessante se nós começamos a olhar este capítulo 6 do Evangelho de São João – na semana passada eu convidei vocês: “leiam o capítulo 6 do Evangelho de João, o capítulo inteiro” – pois é, o capítulo 6 de São João fala do Pão da Vida, da Eucaristia. São João não narra a instituição da Eucaristia lá na última ceia, ele conta o lava-pés, e o que acontece? Acontece que o povo hebreu vivia da lembrança que os pais contavam aos filhos sobre esse fato lá do passado, essa memória, de quando o povo fugiu do Egito, lá no meio do deserto, e eles começaram a passar fome. Começaram a murmurar contra Deus e contra Moisés, e então Deus lhes mandou o maná, e nós não sabemos exatamente o que fosse, e maná significa “o que é isso” – eles não sabiam o que era. Com aquelas pequenas sementes, eles faziam broinhas, e se alimentavam com aquilo. Se nós continuamos lendo o livro do Êxodo, nós vamos ver que eles vão reclamar mais para frente “mas essa comida é muito leve” – quase como a dizer “isso daqui não tem substância” – o povo no deserto é uma tristeza. Em todo caso, ficou esta memória na cabeça do povo: Deus deu de comer ao povo o pão do céu, Moisés fez isso!

Agora, o que acontece, quase mil e trezentos anos depois, Jesus faz esse sinal, a multiplicação dos pães, para mais de 5 mil pessoas – eram cinco pãezinhos de cevada, aquela coisa pequenininha, e dois peixes – peixe seco, viu, gente? Tem certos filmes por aí que a gente vê com peixe fresco, e não era peixe fresco não, era peixe defumado, peixe seco! Aí esse pessoal, ao invés de perceber o milagre de Deus, a presença de Deus, o que eles pensaram? “Esse sujeito vai resolver todos os nossos problemas, não tem necessidade mais, se esse cara aí for o rei, ele vai resolver nossos problemas todos – basta ele falar, olha pão para todo mundo!”. Eles não foram capazes de ver que aquilo era um sinal de Deus. “Vocês ficam com as lembranças lá do passado... essas lembranças, agora, acabaram. O pão da vida está aqui, no meio de vocês” – Jesus vai insistir com isso – “não foi Moisés, lá no passado, que vocês não viram que deu o pão da vida para vocês. O pão do céu é o que desce do céu, é o que Deus manda”. E aí nós vamos perceber que Jesus não está falando de comida, Jesus está falando dele mesmo: Ele é o pão do céu. O pão do céu é aquele que dá a vida, vida plena para as pessoas, porque Deus quer que todos tenham vida plena. E esses caras ainda estão cabeça fechada: “então qual o sinal que você nos mostra?”. “Gente, o sinal está aí no nariz de vocês, eu dei pão para vocês comerem, não conseguem enxergar? Vocês não têm olhos para ver? Vocês preferem viver de uma memória que vocês não viram de mil e duzentos anos atrás e não são capazes de abrir os olhos e ver que agora Deus está no meio de vocês? Agora Deus deu pão para vocês comerem, não são capazes de ver isso? Estão tão agarrados nessa ideia velha, a essas velhas tradições, que não conseguem ver a presença de Deus agindo na vida de vocês agora?”

Nós vamos ver nas próximas duas semanas, lendo, ainda, o pão da vida, como é difícil jogar fora as nossas velhas seguranças, as nossas velhas ideias. “Mas minha avó falava isso, mas meu avô falava aquilo...” e se a gente for olhar o Evangelho de Jesus, às vezes o Evangelho fala exatamente o contrário, mas nós ficamos com o ensinamento e as palavras da vovó e não somos capazes de jogar isso fora, e pegar o Evangelho de Jesus. Então nós, também, muitas vezes, somos como aquelas pessoas que viram o milagre, comeram o pão lá naquele lugar com Jesus, Jesus multiplicou o pão para eles. Às vezes, não somos capazes de perceber o caminho novo, uma ideia nova, um jeito novo de pensar e de agir, como é difícil! Jesus vai martelar sobre isso durante todo esse capítulo 6 do Evangelho de São João. Nos outros Evangelhos, nós vamos ver essa mesma dificuldade em vários outros momentos.

Então esse Evangelho, hoje, nos chama atenção para isso: será que eu estou realmente ouvindo Jesus, que quer que todos tenham vida? Eu estou ouvindo essa voz de Jesus e jogando fora as minhas várias ideias que no fim das contas pregam a morte, a exclusão do outro? Eu estou aprendendo a ver o outro como meu irmão e irmã? Porque se eu vejo o outro como meu irmão e irmã, vou querer que ele e ela tenham vida, não migalhas, vida, vida plena, já nesse mundo. Comida, casa, educação, saúde, segurança, isso é o pão da vida! E onde eu encontro o pão da vida? Na Eucaristia onde Jesus se entrega para nós sem distinção de pessoa. Quem diz pode ou não pode é o padre, não é Jesus não, Jesus se entrega inteirinho para todo mundo, Ele não faz acepção de pessoas. E está no Seu Evangelho, temos que ouvir o Evangelho de Jesus, as coisas que Jesus fazia e as coisas que Jesus falava, e ouvir essas palavras, não ficar ouvindo a voz da vovozinha, do padre, do não sei quem, que não deixam nem a gente ler o que está escrito no Evangelho.

Precisamos ouvir Jesus, nos alimentar do Seu corpo, na Eucaristia, para ter os mesmos olhos de Deus. É muito interessante, lá no Antigo Testamento, quando Deus fala através do profeta Isaías: “a vossa liturgia, os vossos sacrifícios são bonitos, mas os meus olhos não estão em cima desses sacrifícios que vocês fazem, os meus olhos estão no pobre, na viúva, no órfão, no estrangeiro”. Ou seja, os olhos de Deus olham para aquilo que, para nós, muitas vezes, é horror. Lá estão os olhos de Deus, e não porque as pessoas são melhores, mas porque sofrem, por isso que os olhos de Deus estão lá, porque Deus não quer o sofrimento de ninguém, e tem mais do que o suficiente para que todos possam viver, disso a gente sabe. O mundo hoje produz o dobro de alimento do que seria necessário, para toda a humanidade, então é mentira que a humanidade tem que controlar a natalidade porque não vai ter comida, isso é mentira, uma mentira que inventaram no início dos anos 1900, um sujeito chamado Malthus, Malthusianismo, isso é falso. Nós nunca exploramos todas as possibilidades desse planeta – nós destruímos! Mas não exploramos para que possa realmente produzir vida para o planeta e para nós, então nós não podemos acreditar em mentiras. Deus olha para os que sofrem, e de lá Ele quer que todos tenham vida. Jesus nos diz: para que todos tenham vida, aprenda a ver o outro como irmão e irmã. Eu vejo os pretos como os meus irmãos? Eu vejo os gays como os meus irmãos? Eu vejo os haitianos como os meus irmãos? Eu vejo os venezuelanos, bolivianos, que estão aí cada vez mais nos semáforos, como meus irmãos e irmãs? Eu vejo os sofredores de ruas, que nesses dias aqui estão passando horrores, eu os vejo como meus irmãos e irmãs? Eles estão gritando por vida, e não são melhores que nós, são pecadores como todos nós. Não é porque a pessoa é pobre que é santa, mas são pobres, e Deus quer a vida para eles. E quem tem que dar a vida para eles, Deus? Nós, a sociedade humana é nossa, nós temos que ser vida para eles, porque aprendemos da Eucaristia e da Palavra de Deus, do Evangelho.

Vamos pedir ao Senhor que nos ajude a ouvir Sua Palavra, jogar fora aqueles conceitos falsos que não são do Evangelho, e aprender a seguir os passos de Jesus.

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Jesus é o pão compartilhado entre as gerações

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 17º Domingo do Tempo Comum (Ano B ) – 25/07/2021 (missa às 10h).

Neste ano, nós estamos lendo o Evangelho de São Marcos. Porém, como este Evangelho é bem curtinho, lemos muitas partes do Evangelho de São João. Nas próximas semanas vamos continuar ouvindo trechos do capítulo 6 do Evangelho de São João, ao qual chamamos de “o Evangelho do pão da vida”, que é a narração da multiplicação dos pães. Nesta passagem do Evangelho de São João, Jesus vai com os discípulos para um lugar tranquilo e a multidão o segue. Chegando ali, Ele vê este povo que se aproxima, vê de longe. Nesse povo não estão apenas aquelas pessoas lá daquele momento, mas também estamos todos nós que buscamos Jesus. Uma grande multidão aproxima-se e, vendo aquilo, Jesus provoca os apóstolos: “essa gente tem fome, dê comida para eles”. E os apóstolos respondem com a nossa mentalidade: se você precisa de pão, ou você faz ou você compra. E ali não dava para fazer. E também respondem que duzentas moedas de prata não dariam para comprar pão, mesmo que um pedaço para cada um.

Só que Jesus vai fazer um sinal, abençoando o pão e o Evangelho diz que estava próximo da Páscoa dos judeus. Esta Páscoa celebra o momento em que o povo de Israel sai do Egito com a mão potente de Deus e vai para o deserto. E, no deserto, o povo é alimentado por Deus com o maná, que ninguém sabia o que era, mas foi isso que alimentou o povo por muito tempo. Então o povo sempre falou “Deus nos deu o pão no deserto” e vivia dessa memória há 1200 anos. E todos os anos, na Páscoa, eles celebravam esse fato: a libertação de Deus do Egito e que Deus os alimentou com o pão do céu. Olha as coincidências: perto da Páscoa; uma grande multidão; e pão. O que aconteceu ali, de fato, nós não sabemos. Mas sabe-se que ele conseguiu alimentar até a saciedade cerca de 5000 pessoas e ainda sobrou. Essa sobra, neste Evangelho, também é simbólica: são doze cestas e o número 12 lembra dos doze apóstolos que vão continuar a distribuir o pão da vida para essa grande multidão que vem vindo. Se estamos nesta grande multidão, nós também somos alimentados pelo pão da vida. E qual é o pão da vida? A Eucaristia. Então, de algum modo, na Eucaristia, Jesus se faz presente com toda a realidade dele. E este é o mesmo pão da vida que Ele multiplicou lá no deserto para aquela multidão que também representa todos aqueles que vão se aproximar de Jesus ao longo da história. Pão da vida porque Deus só pode dar a vida. Olha que engraçado: Deus “só pode” dar a vida. Deus não dá a morte, não dá a destruição. Deus não dá o aniquilamento, a pobreza, a miséria. Deus quer que todos tenham vida e por isso Ele dá o pão da vida que é vida plena.

É isso que Jesus nos dá e isso a Eucaristia também nos ensina: que todos devem ter vida. Essa vida que vem de Deus e que, nesse mundo, passa pelo pão de cada dia, pela casa, saúde, emprego, educação, vida digna para todos. Não podemos pensar que Deus é contente com pobres ou que fica realizado que cada dia há mais moradores de rua. Deus quer que todos tenham dignidade e, por isso, Ele dá o Pão da Vida para que nós aprendamos a promover a vida do outro. Isso é o que o pão de Deus nos convida a fazer e que a Eucaristia nos convida a fazer todos os domingos. Ela nos convoca a darmos pão nós mesmos: o pão da vida, o pão do Evangelho, o pão da justiça e o pão da paz.

A Eucaristia não é um pãozinho para a gente ficar bem e tranquilo apenas não. É o pão que nos provoca para que promovamos a vida no outro. Este Evangelho ainda tem outros dois elementos. O Evangelho de João não fala das tentações de Jesus no deserto. Porém, nós vemos aqui duas tentações. Primeira, o povo pode ter pensado: “nossa, esse homem nos deu pão sem que nós trabalhássemos”. Qual foi a tentação que Jesus sofreu no deserto? Transforma essas pedras em pão. Ou seja, não trabalhe para conseguir o pão. Afinal, ele poderia, pois é Deus. E essa é a mesma voz que falou no Eden: “Eva, coma da fruta e vocês serão como deuses”. E nós vamos ver como esse povo vai atrás de Jesus todo o tempo com essa ideia de “ele nos deu pão e não precisamos mais trabalhar, não precisamos mais nos esforçar pois Deus vai dar tudo”. Não é esse o caminho de Deus. Segundo, Jesus se retira porque percebeu também que o povo poderia pensar que ele fosse o seu rei. Naquele tempo, desde os anos 500 antes de Cristo, o povo da palestina começou a esperar o Rei Messias que iria reestruturar o Reino de Israel, mudar o culto do templo, acabar com a injustiça, expulsar as nações estrangeiras e fazer de Israel a maior nação do mundo. E até São Pedro, quando fala que Jesus é o Messias, está com isso na cabeça. O que Jesus faz? Vai embora, sobe em um lugar sozinho, escapa do povo porque essa é outra tentação do maligno: eu te dou todos os reinos da Terra se você me adorar. O maligno ou as ideologias desse mundo significam não seguir a Deus e não querer o trabalho difícil de todo dia construir um mundo mais humano, mais verdadeiro. Nós, muitas vezes, queremos que Deus faça as coisas por nós. Caímos nessa tentação de perguntar por que Deus não faz isso. Nós temos que fazer, nós criamos esse angu de caroço e agora temos que descaroçar. Essa é a história humana, essa é a nossa vida de não querer respostas fáceis e saber ver os sinais de Deus que nos encorajam para que possamos trabalhar ainda mais pela melhoria dos problemas do mundo. Deus deu para nós essa parte na criação e quer que esse lugar em que vivemos seja um mundo de paz, justiça, igualdade e fraternidade. Isso é consequência para aqueles que comem e vivem do Pão da Vida, do Pão da Eucaristia, do Pão da Palavra. Vamos pedir a Jesus que Ele permita que o Pão da Eucaristia crie em nós fome e sede de justiça e paz.

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Cuidar segundo a necessidade de cada um

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 16º Domingo do Tempo Comum (Ano B) – 18/07/2021 (missa às 10h).

A Primeira Leitura, tirada do Livro de Jeremias [Jr 23,1-6], é um puxão de orelha para os pastores do povo que na época eram os sacerdotes e os levitas, mas também os reis, os governadores... Eu toda vez que escuto esse texto eu fico tremendo diante de Deus porque o Senhor puxa a orelha dos seus pastores, daqueles que guiam o povo. Um profeta não é um homem que fica prevendo o futuro, ele não tem a bola de cristal, ele não é um bruxo. Um profeta olha o mundo com os olhos de Deus. E olhando o mundo, olhando as coisas como estão, ele fala e mostra o que é que Deus quer. Os profetas aparecem praticamente no início da monarquia. Antes existia o tempo dos juízes e existia um sistema econômico e político muito igualitário. Depois quiseram um rei, centralizou tudo na pessoa do rei, centralizou a religião toda em volta do tempo de Jerusalém de Betel no Norte e começou uma grande diferença entre as pessoas, começa a ter muita pobreza. Os profetas vão denunciar as injustiças da monarquia. Olhando Deus, olhando a igualdade que nós temos diante dos olhos de Deus, eles vão denunciar todos aqueles que são os mecanismos, as formas de governo, os privilégios. Porém, tinham falsos profetas que falavam só o que os reis queriam ouvir. E tem vários profetas que vão denunciar também os falsos profetas. Uma situação bem difícil naquele tempo! Então, o pastor é aquele que olha com os olhos de Deus. Por isso, nós, padres, bispos, Papa, nós temos que ficar sempre com os olhos no povo, nas situações concretas da vida do povo, olhar os Evangelhos, anunciar e denunciar aquilo que não está de acordo com o Evangelho. Essa é a missão do profeta e do pastor.

Depois nós temos essa imagem muito singela dessa leitura do Evangelho [Mc 6,30-34]... nós vimos, na semana passada, que Jesus mandou os apóstolos para anunciarem a conversão dos pecados e a intenção de Jesus era que os discípulos aprendessem que o povo é bom, que o povo tem sede de Deus, que o povo já está esperando antes que eles cheguem, estão esperando o anúncio e eles vem isso e como o povo acolheu a palavra deles. O povo pediu curas, exorcismos e eles fizeram grandes sinais no meio do povo e voltam contentes contando isso para Jesus. E ainda tem muita gente ali. E Jesus fala: vamos para um lugar deserto, vamos descansar. A gente pode pensar: nossa, mas tem tanta gente, eles não conseguiam nem comer de tanta gente que tinha. E vai largar essa gente para lá? Pois é. Ser pastor não é ser um salvador da pátria, não é ser o salvador do mundo – mas isso serve para nós também, em casa, no trabalho, em tudo quanto é situação – quem salvou o mundo, e já salvou, viu, gente? É Jesus! Nós temos que dar o melhor de nós mesmos, mas lembrar que nós somos humanos. A salvação do mundo não depende da gente. Por isso, Jesus diz: vamos descansar! E Jesus deixa a multidão ali. E nós vemos essa outra imagem, muito bonita, esse povo que vai ao longo da costa do lago de Genesaré e chega no lugar onde eles viram que os barcos estavam dirigidos. Levava horas para atravessar de barco o lago de Genesaré, eles chamam de Mar da Galileia de tão grande que é. Então eles conseguiram chegar lá antes dos barcos e Jesus tem essa surpresa. Esse povão ali. Olha que interessante! Não fala dos discípulos. Jesus levou os discípulos para descansar, vão lá, repousem, vocês estão cansados. Mas Jesus acolhe essas pessoas que estão a sua volta. Parecem ovelhas sem pastor. A ovelha, na visão do evangelista, precisa dos cuidados de Deus. O bom pastor é aquele que cuida, cuida das ovelhinhas, vai empurrando com mais cuidado aquela que está gorda, cuida daquelas que estão amamentando ainda os carneirinhos... É aquele que olha a necessidade de cada um e quer sobretudo que o rebanho esteja unido, porque se o rebanho se dispersa é mais fácil para os lobos atacarem. O que os lobos fazem? Eles atacam, as ovelhas se dispersam e eles pegam aquelas que ficam sozinhas. Então quando elas estão unidas é mais difícil para o lobo atacar. Essa é a imagem de Jesus que cuida das suas ovelhas, é a imagem do Bom Pastor, mas é também a imagem muito delicada do Evangelho de São Marcos: Jesus que se senta ali com esse pessoal e fala de Deus, fala das coisas do Reino, ajuda essas pessoas a levar com mais coragem os pesos de todo dia. O pastor também denuncia os lobos, cuida para que no meio das ovelhas não existam brigas.

Nesses dias aqui, o Papa Francisco escreveu um documento chamado Motu Proprio, que significa de própria iniciativa. Ele escreveu um Motu Proprio [“Traditionis custodes”] que fala sobre estes padres e leigos que estão celebrando a missa velha, a missa de antes do Concílio, quando o padre ficava de costas, o altar ficava lá encostado, se rezava em latim e ninguém entendia uma palavra. Nós temos que aprender uma coisa: não existe língua sagrada. Todas as línguas são sagradas, porque todas as línguas nos permitem falar com Deus. Não existe uma língua privilegiada e nós temos que descobrir e aprender que até o ano 800 a liturgia romana era feita em grego, porque o grego era a língua mais conhecida naquele tempo. Só que com o passar dos séculos, o povo não sabia mais grego, só se usava grego nas missas. Aí nós tivemos uma grande crise na Europa, a invasão dos bárbaros, foi uma coisa tremenda, e aí aos poucos se consegue reestruturar um pouco a Europa. E o Papa Leão III coroou imperador do chamado sacro-império Carlos Magno, estamos na noite de Natal do ano 800, e o que o Carlos Magno fez? Ele era um homem muito prático, então ele falou: mas escuta o povo não fala grego, o povo fala latim. Então ele falou para traduzir a missa do grego para o latim – o imperador fez isso, para que povo pudesse entender a missa. Passaram-se quase 1200 anos e o povo não falava mais latim. Aí o Concílio Vaticano II decidiu, vendo também experiência dos irmãos protestantes que já tinham traduzido a Bíblia e já usavam a Bíblia na língua local, que a missa fosse traduzida para as línguas locais e que a missa fosse “limpa”. Ao longo dos séculos, nós fomos colocando tanta coisa na missa e na liturgia que o mistério de Cristo foi ficando apagado. A gente celebrava santo demais, fazíamos muitas exceções na liturgia e o mistério de Jesus ficava apagado. A grande ênfase que se dava na missa era no sacrifício de Jesus e pouco a comunidade então o Vaticano II tenta reequilibrar isso. E manda traduzir a liturgia mais limpa para as línguas locais. Depois do Concílio, veio um grupo de bispos que não quer, não aceita. Papa Paulo VI, São Paulo VI tentou remediar um pouco, aí sobrou para Papa João Paulo II que colocou algumas normas para tentar remediar vê se esse pessoal ficava tranquilo. Bento XVI tentou mais ainda, mas abriu demais aí começou a dar problema. O Papa Francisco, depois de ter ouvido os bispos do mundo inteiro, junto com os bispos, falou: não, o bispo do lugar vai decidir onde, como e quem vai poder celebrar a missa antiga, se for necessário, se for para o bem espiritual de alguém. O padre tem que conhecer muito bem o latim e não basta simplesmente rezar a missa, é necessário o cuidado pastoral dessas pessoas e cuidar para que eles estejam unidos com toda a Igreja para que não aconteçam grupinhos separados que no fim começam a ter cara de uma outra igreja. Esse é o trabalho dos pastores: cuidar para que o rebanho esteja unido para que lobos não venham separar, dividir, devorar o povo de Deus. Este documento era esperado já há anos – ao menos eu esperava já há anos e graças a Deus Papa Francisco emanou este documento.

Vamos então rezar pelos nossos pastores, pelos padres, bispos, diáconos e pelo Papa para que nós possamos sempre, sempre, sempre, apesar dos nossos defeitos, dos nossos pecados, das nossas incoerências, sempre cuidar da unidade do nosso povo, curar as feridas da alma e do corpo do nosso povo, para que nós possamos ser uma luz para o mundo que já é cheio de divisões.

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O povo de Deus é bom

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 15º Domingo do Tempo Comum (Ano B) – 11/07/2021 (missa às 10h).

Na primeira leitura [Am 7, 12-15], nós vemos um bate-boca entre o profeta Amós e um sacerdote da corte do rei. Naquele tempo, a Palestina tinha que ser dividida em dois reinos, o reino do Sul, com Jerusalém como capital, e o reino do Norte, com Betel como capital. Amós foi chamado a profetizar em Betel, no Norte. E qual era o problema? Ser profeta é uma vocação de Deus, e o profeta fala o que Deus quer, não o que o rei quer ouvir. Mas, em torno do rei, sempre se juntam aqueles que se dizem profetas e falam só o que o rei quer ouvir – "Nossa, o seu governo é uma maravilha!", "O senhor é abençoado por Deus, as pessoas é que não compreendem o senhor".

 

Mas Deus suscitava os profetas, que enfiavam o dedo nas feridas e, por isso, ninguém queria ouvi-los. E os profetas, nesse tempo, estavam anunciando o fim do reino do Norte, porque estavam deixando a idolatria andar no meio do povo – e, por trás da adoração a outros deuses, estavam sistemas de economia que exploravam o povo. Então Deus chama Amós. E quem era ele? Amós era um cuidador de vacas e de sicômoros (tipo uma melancia), ou seja, era um agricultor. E Deus o chamou: "Vá lá e diga para o rei o que Eu vou te dizer". Ele foi e anunciou, e o negócio era bravo. E o que aconteceu? Esse sacerdote, que era um daqueles que viviam bajulando o rei, chegou para Amós e falou: "Escute aqui, meu amigo, você não é bem-vindo aqui, não. Pegue suas coisas e vá lá para Jerusalém, vá lá para o outro reino. Vá anunciar o que o rei de lá precisa ouvir".

 

A leitura de hoje não continua, mas o que o profeta vai fazer? Ele vai dizer: "Olha, eu não sou filho de profeta nem neto de profeta" – para dizer "Eu não sou profeta por profissão, como você" – "Eu estava bem tranquilo lá com as minhas vacas e meus sicômoros, minhas melancias. Estava tudo muito bem na minha vida. Foi Deus que me chamou. Agora, escute bem o que vai acontecer com você" – e, olha, foi terrível – "Você vai morrer fora desta terra; teus filhos vão morrer a fio de espada; e a tua mulher vai se prostituir". Dito e feito! Poucos dias depois, o reino do Norte foi invadido e aconteceu exatamente o que o profeta Amós tinha dito sobre esse falso profeta.

 

Quando nós não queremos ouvir a verdade da Palavra de Deus, nós caímos na desgraça. E o povo de Israel foi alertado muitas vezes. O reino do Norte e, 200 anos depois, o reino do Sul: os dois reinos caíram nas mãos de outros impérios e nunca mais se livraram. O Norte, desde o ano 730 a.C.; o Sul, desde o ano 530 a.C. Caíram nas mãos da Babilônia, da Pérsia, dos gregos e, depois, dos romanos, e estes destruíram o templo e dispersaram os hebreus.

 

No Evangelho [Mc 6, 7-13], Jesus manda Seus discípulos anunciarem a conversão. Chamar o povo à conversão – João Batista fazia isso, só que ele ficava esperando na margem do rio; Jesus foi até o povo, e Ele manda missionários para o povo. Mas, aqui, Jesus sabe que seus discípulos ainda não têm fé o bastante, e os manda anunciar a conversão com instruções bem precisas, para que eles aprendessem uma coisa: que o povo de Deus é bom! O povo de Deus tem sede de ouvir a Palavra. O povo de Deus responde com generosidade a esta Palavra. Esta era a intenção de Jesus quando envia esses primeiros apóstolos: "Aprendam. Aprendam que o povo é bom".

 

Nós temos que aprender a ver as pessoas como boas. Vai ter gente torta, pecadora, criminosa? Vai. Mas não são a maioria. A maioria é boa! A maioria das pessoas quer caminhar à luz de Deus. Aos outros, também é anunciada a Palavra de Deus, porque muitos se convertem. Mas o povo é bom, e a prova disso é que, quando os discípulos voltam, eles vão contar para Jesus: "Olha, o Senhor mandou a gente anunciar a conversão, mas traziam os doentes e nós os curávamos pelo Teu nome; nós expulsamos os demônios, nós fizemos, no fim das contas, muito mais do que o Senhor pediu. Porque aquele povo tinha fé". Então eles aprenderam a lição que Jesus tinha mandado: "Vão e vejam. Experimentem. O povo de Deus é bom".

 

Vamos pedir ao Senhor que Ele nos ajude a ter esse olhar positivo sobre as pessoas. Até a lei tem esse olhar positivo quando, diante de uma pessoa acusada, diz: "Ela é inocente até que se prove o contrário". Isso é acreditar na pessoa, isso é acreditar no cidadão. Até a lei faz isso. Aprendamos, nós também, a dar um voto de confiança às pessoas. Desse jeito, nós construímos um mundo melhor, nós não nos armamos contra as pessoas, nós aprendemos a dialogar, nós aprendemos a respeitar, nós aprendemos a procurar o que há de bom em cada pessoa. Jesus fez isso. E é como Ele que nós temos que agir.

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O Papa confirma a nossa fé em Jesus

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – Solenidade de São Pedro e São Paulo Apóstolos, “Dia do Papa” (Ano B) – 04/07/2021 (missa às 10h).

Iniciamos este mês de julho com a Solenidade de São Pedro e São Paulo. Nós sempre falamos abreviadamente como “São Pedro”, mas a solenidade é dos dois. Nós celebramos em 29 de junho o martírio de Pedro e Paulo. São Pedro foi o primeiro chefe da comunidade de Jerusalém. Jesus, ao longo dos 3 anos do seu ministério, ele juntou em torno de si muitos discípulos e discípulas. Doze destes, ele escolheu para que estivessem mais próximos dele. A estes, Jesus comunicou a sua própria autoridade.

No dia de Pentecostes, nós tínhamos umas 120 pessoas ali reunidas naquela sala, todos temerosos porque Jesus tinha morrido, ressuscitado e subido aos céus. E eles se sentiam sozinhos. Mas Jesus disse: “esperem que eu vos mandarei o consolador, o advogado, aquele que está junto do Pai”. E o Espírito Santo desce sobre estas 120 pessoas e, entre elas, está Maria, que já tinha recebido o Espírito Santo no momento da Anunciação. Ela recebe, agora, como membro da comunidade nascente, membro da Igreja. São Pedro logo vai tendo esse pessoal todo em volta dele e vai, com os apóstolos, organizar esta comunidade. Ele vai ser preso várias vezes, ele vai ser confrontado várias vezes, fez vários milagres e, aos poucos, São Pedro também foi percebendo que o anúncio do Evangelho não era só para os judeus, mas para todos os povos.

Quando houve a diáspora, com a perseguição dos cristãos em Jerusalém, poucos ficaram ali. E Pedro ficou sete anos na cidade de Antioquia, na atual Turquia. E de lá, depois, para Roma, onde ficou ainda 25 anos. Sob o império de Nero, foi feita uma grande perseguição aos cristãos, inclusive a Pedro e Paulo. Pedro foi crucificado porque era hebreu, ou seja, não era romano. E Paulo era cidadão romano. Então Paulo foi decapitado, o que era um “privilégio” dos cidadãos romanos. São Paulo, por sua vez, era um fariseu. Os fariseus eram religiosos muito corretos e que, por causa de suas leis, eram capazes de matar as pessoas. E Paulo era deste jeito. Paulo era muito observante – podemos dizer até fanático – e pedia cartas para perseguir cristãos e colocá-los na cadeia. Mas a gente nunca sabe os caminhos de Deus. No meio do caminho, Aquele que escreve a história diz: “é aqui o nosso encontro”. E Jesus aparece para Paulo e a vida deste homem muda completamente. De um pregador rígido da Lei Mosaica, Paulo se torna o anunciador de Jesus, o anunciador do Evangelho da liberdade.

São Paulo foi perseguido nas suas missões. Paulo viveu andando e nós vemos isso nas cartas aos Gálatas. Inclusive nós vamos ler a carta aos Gálatas no mês da bíblia deste ano. Ele naufragou muitas vezes, apanhou muitas outras, passou frio, passou fome. Foi um desespero a vida deste homem, tudo por causa do Evangelho. E ele fundou muitas comunidades no meio dos pagãos. E qual era o grande problema? São Paulo rezou muitas vezes a Deus que o livrasse desta desgraça. Eram os cristãos que vinham do judaísmo. Paulo pregava o Evangelho da liberdade. Estes cristãos, que antes eram judeus, chegavam e bagunçavam o negócio todo dizendo que todo mundo tinha que seguir as leis hebraicas. E, na carta aos Gálatas, São Paulo expressa sua discordância, ficando muito bravo com a ação que esse pessoal fazia nas comunidades. Mas fato é que ele também foi preso e morreu decapitado. Fora dos muros de Roma existe até hoje o lugar onde São Paulo foi decapitado, no Mosteiro de Três Fontes. E existe também o lugar onde São Pedro foi crucificado de cabeça para baixo. E foi enterrado em uma colina que ficava perco do circo de Nero e Calígula. Em volta deste túmulo, logo iniciaram-se peregrinações. Os cristãos iam visitar o túmulo de Pedro. E outros chefes da Igreja de Roma, como nós chamamos os primeiros papas, quiseram ser enterrados perto do túmulo de Pedro. Algum tempo depois construíram lá um altarzinho. A seguir, um muro por trás para as enxurradas não levarem tudo. Depois, o imperador Constantino mandou construir uma basílica em cima do túmulo de Pedro e uma basílica fora dos muros de Roma, onde se acreditava que estava enterrado Paulo, às margens do Rio Tevere. Estas duas basílicas existem até hoje. Ao menos o lugar delas pois a Basílica de São Pedro, em 1500, foi praticamente derrubada e construída a atual basílica que nos conhecemos, que é indescritível, enorme. Mas tudo aquilo para guardar os poucos ossos que sobraram de São Pedro.

Por que nós celebramos São Pedro? Porque Jesus prometeu para ele que sobre essa rocha – uma rocha que talvez não seja uma pedra preciosa, mas talvez seja como as pedras do lago de Cafarnaum, que mostra a situação humana, a fraqueza humana e a força de Deus. São Pedro era um homem orgulhoso e muito cabeça dura, mas extremamente espontâneo e generoso. Tinha uma grande liderança e Jesus confiou a ele a Sua comunidade nascente. Depois de Pedro, na cidade de Roma, nós tivemos 265 sucessores. Contando com Pedro, o Papa Francisco é o número 266. Mais de 80 destes homens são santos. Um outro grande número é de beatos. Nós tivemos também grandes papas

que não chegaram a serem santos. Talvez o maior papa da história tenha sido Inocêncio III, que é o papa do tempo de São Francisco. Ele não é santo, mas foi um grandíssimo papa. E nós temos um outro grande papa, que foi Bonifácio VIII, que foi o papa que convocou o primeiro ano santo, em 1300. Tivemos muitos outros, tivemos homens pecadores que, apesar de toda a sua incoerência e pecados, não causaram dano à Igreja e nem a sua doutrina. Nós tivemos até papas que eram homens bem mundanos e que, quando foram eleitos, mudaram completamente de vida, deixando para trás toda esta vida antiga, tornando-se homens realmente exemplares e que não causaram dano à Igreja.

Porque quem guia a Igreja é o Espírito Santo e Ele garante que a sua Igreja chegue aonde ele quer que ela chegue. Nós temos que imaginar a Igreja com uma enfermeira agonizante, morrendo. Que tem a missão de, em um campo de guerra, curar as doenças do mundo. Agonizante por causa das nossas fraquezas, pecados e incoerências. Mas nunca morta porque ela tem que cumprir a missão que Deus lhe dê. E Deus lhe dá as forças suficientes para cumprir essa missão de curar as feridas do mundo. E quem confirma constantemente a nossa fé nisso é o sucessor de Pedro. Jesus disse a São Pedro uma vez: “Pedro, Satanás pediu para te joeirar igual o trigo, mas eu rezei por você e você, uma vez convertido, confirma os teus irmãos na fé.”

Esta é a grande missão do papa: confirmar a nossa fé em Jesus para que nós possamos vivenciar, em nosso dia a dia, o Evangelho da vida. No dia em que o Papa Francisco foi eleito, eu estava lá na praça – naquele momento, eu não queria ir porque estava chovendo, mas pensei “vai que o Papa é eleito agora” e fui – aí ficamos lá esperando e ele fez uma coisa que nenhum Papa fez antes: ele pediu para o povo rezar por ele em um instante de silêncio. Aquela praça devia ter, no mínimo, umas 120 mil pessoas. Estava entupida de gente. Porque, entre a saída da fumaça e quando o Papa aparece no balcão, passam ao menos uns 40 minutos. E o povo de Roma fica todo atento para que, quando ocorra a fumaça branca, dê para chegar rápido na praça São Pedro. Então a praça com 120 mil pessoas ou mais e o Papa pediu um instante de oração por ele. Aquela praça se tornou como um túmulo. Silêncio total das pessoas rezando pelo Papa. E ele sempre pede. E pede não porque é uma marca registrada, porque ele não tem estes negócios. Ele pede que rezem para ele todas as vezes porque ele realmente sente o peso deste ministério. Ele é um papa muito combatido e não só por forças externas, mas por grupos internos da Igreja. Isso é um dano de hoje da Igreja. Quem está na Igreja, está com o Papa. Muitas vezes nós podemos até discordar de certas coisas. São Paulo uma vez disse que São Pedro era hipócrita, mas ele nunca combateu São Pedro. Não se combate o papa. Um católico não critica o papa porque ele confirma a nossa fé em Jesus.

Vamos pedir a Deus que Ele nos ajude a buscar sempre os passos de Jesus dentro da comunidade que é a Igreja, e nunca sem a comunhão com o Papa.

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Que Deus nos liberte de todo preconceito

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 13º Domingo do Tempo Comum (Ano B) – 27/06/2021 (missa às 10h).

Este Evangelho [Mc 5, 21-24. 35b-43] não é um tratado de medicina. Como eu disse no início, este texto pode ser chamado "O Evangelho da Libertação da Mulher". Nele, nós temos duas situações ligadas à menstruação feminina. A mulher, uma vez por mês, sangra, a partir, mais ou menos, dos 12 anos. E é interessante que a menina tinha 12 anos. Usa-se esse número duas vezes: a mulher estava há 12 anos com uma hemorragia constante, e a menina tinha 12 anos.

 

No mundo hebraico (e em todo o mundo antigo), a mulher era sempre um ser inferior. Ela não tinha direito de testemunhar em juízo, era considerada incapaz, equiparada às crianças e aos escravos. A mulher era sempre propriedade de alguém – primeiro, do pai; depois, do marido; se ficasse viúva, do filho mais velho. Ela era sempre um ser inferior que tinha que ser protegido. As mulheres viriam a ter uma situação muito diferente em Roma, mas Roma já é outro mundo.

 

E, além dessa situação, existia o problema da menstruação. A mulher menstruada era impura; ela só podia sentar em uma única cadeira, não podia sentar em outra; tudo o que ela tocasse se tornava impuro; nenhum homem podia se aproximar dela e nem ela podia tocar em homem nenhum ou pessoa nenhuma, porque a pessoa se tornava impura. Era um peso absurdo! Quando a mulher tinha um parto, se era um menino, ela ficava 40 dias impura – além da dor do parto, além de ter de carregar por 9 meses um neném na barriga, ainda ficava impura por 40 dias. Porém, se ela tivesse uma menina: 90 dias impura.

 

Então nós podemos dizer que, desde o nascimento, a mulher era marcada pela impureza. A mulher era quem cuidava dos cadáveres. Morreu o pai, a mãe, o tio, o sobrinho, amigo, amiga...? Eram mulheres que cuidavam do cadáver. Por quê? Os homens não podiam tocar em cadáveres, pois ficavam impuros. O impuro, aqui, é impuro para ir à sinagoga, não podia ir. Tinham algumas questões, com homens, ligadas também a sexo, mas eram algo muito menor, uma coisa que chega a ser ridícula comparada à situação da mulher.

 

Então nós temos que ver, neste Evangelho, essa situação. Jairo vem procurar Jesus: "Minha filha está morrendo. Vem [nós diríamos hoje] dar uma bênção". E Ele vai. No caminho, encontra essa multidão. Olha que coisa engraçada, porque os discípulos, quando reclamam, eles entendem as coisas atravessadas, mas é verdadeira também a interpretação deles. Essa mulher perdeu tudo – provavelmente, era uma mulher muito rica – e, durante 12 anos, ela tentava, de todo jeito, curar essa hemorragia. Porque ela não era impura uma vez por mês, ela era impura durante 12 anos! Que inferno era, na vida daquela mulher, essa situação! E os médicos acabaram com o que ela tinha; a única esperança dessa mulher, agora, era esse "profeta", Ele curava as pessoas. Ela não tinha mais nada a perder, mas não perdia a esperança. E ela tentou, sabendo que aquele gesto tornaria Jesus impuro... Uma mulher não podia tocar em um homem durante o período menstrual, e essa mulher tinha hemorragia.

 

A multidão em volta de Jesus era, nós podemos dizer, os "fãs". Mas Ele percebeu um toque diferente, alguma coisa diferente ali, e foi isso o que Ele buscou. Jesus não estava preocupado com fã – que bobagem, fã te abandona. Mas têm as pessoas que acreditam em Jesus, e essa mulher acreditou! Ela não teve medo de arriscar. E Jesus procurou por esse gesto – "Quem me tocou?" –, porque foi diferente: era uma mulher que tinha fé. E ela percebeu, "alguma coisa diferente aconteceu em mim". Ela então se colocou diante de Jesus, tremendo – o que mostra o medo de Deus. Atentos: o medo de Deus. Ela ousou o que Deus tinha proibido; estando impura, tocou em um homem. Por isso ela teve medo quando se colocou diante de Jesus. E contou tudo a Ele. E Jesus disse: "Vai em paz, a tua fé te salvou".

 

Nós, muitas vezes, nos colocamos também em uma situação de medo diante de Deus: o Deus terrível, o Deus que pune, o Deus que está pronto para nos mandar para o quinto dos infernos. Esse não é o Pai de Jesus! Jesus nos revela o Pai. E olhem bem como Jesus tratou essa mulher que ousou ir contra uma lei religiosa: "Vai em paz, a tua fé te salvou. A tua ousadia te abriu a salvação!”. Quanto nós ousamos, diante de Deus, para buscar o bem dos outros? Quanto? Essa fala de Jesus nos manda, necessariamente, para a parábola do bom samaritano. O sacerdote olha lá, pensa que é um defunto e nem chega perto. "Opa! Não posso tocar em defunto, Deus mandou não tocar em defunto". O levita, que era o sacristão: "Opa! Um cadáver? Nem sei se está morto, mas nem vou arriscar". Mas o, vamos chamar assim, meio pagão – porque os samaritanos eram assim, meio pagãos, adoravam o Deus de Israel mas outros deuses também –, aquele lá, foi; aquele lá, ajudou o homem; e aquele lá foi elogiado por Deus.

 

Depois, no Evangelho, chega-se à casa dessa família. O que será que aconteceu? Nós não sabemos. Naquele tempo, não tínhamos tantos meios como temos hoje. Não tínhamos desfibrilador, às vezes a pessoa entrava em estado de coma e achavam que tinha morrido... Era uma situação muito complicada. E deram a menina por morta. "Ah, morreu, pronto, vamos fazer festa" – e esse pessoal da festa, que estava fazendo barulho, choradeira etc. ganhava dinheiro para isso. Quem já ouviu falar das "carpideiras"? Eram mulheres pagas para chorar em enterros. E esse pessoal que estava tocando lá no enterro era essa gente: "Opa! Morreu, vamos lá ganhar um dinheirinho". Jesus colocou esse povo todo para fora e entrou no quarto dessa menina de 12 anos. Ela iria entrar, ou já tinha entrado, nesse calvário das mulheres hebreias, e isso, para aquela menina, seria uma morte. E Jesus, mais uma vez – primeiro foi a mulher que tocou Nele que O tornou impuro para o culto; agora era Jesus que fazia o absurdo: pegar na mão de uma menina que achavam que estava morta, um defunto. E uma menina que, provavelmente, estava tendo a sua primeira menstruação, portanto, impura. Jesus pega na mão dessa menina, ou seja, Ele mesmo se torna impuro.

 

Deus entra na nossa situação de dor. Ele conhece a nossa dor por dentro. Ele não tem medo de se sujar conosco. E, de lá de dentro, Ele nos chama para a vida. Jesus morreu, entrou na morte, foi além dela e, de lá de dentro, nos tirou para a vida eterna! Jesus tira essa menina dessa morte que é a lei da pureza e impureza sobre as mulheres hebreias. E não pense que isso não existe mais, viu? Existe até hoje entre eles. O pessoal que foi à Terra Santa sabe disso. Lá, a mulher não pode pôr a mão em homem nenhum, nem encostar para pedir uma informação, dá rolo, dá briga, porque ele não sabe se aquela mulher está menstruada ou não. Isso nos dias de hoje! É um inferno essa lei que paira sobre as mulheres – não só hebreias, mas também de outras religiões.

 

Vamos aprender isto: Deus nos criou, homem e mulher, com a mesma dignidade. Deus não fez a mulher de um outro punhado de barro; Deus tirou a mulher do costado do homem para mostrar que são iguais em dignidade, um diante do outro, para dialogar. Dois pontos de vista diferentes para, juntos, construírem um mundo novo. Não tem concorrência, tem igualdade na diferença – a mulher fica grávida, o homem não fica; são situações diferentes, mas a dignidade é igual.

 

Vamos pedir ao Senhor que limpe do nosso coração todas as ideias e atitudes que temos de discriminação contra as mulheres. "Nossa, padre, mas eu não faço distinção com as mulheres". Não? Quer ver uma, fácil, que as próprias mulheres fazem? Você vê uma barbeiragem no trânsito e olha logo para ver se é uma mulher. Isso se chama preconceito, aprendam isto! Porque homem também faz barbeiragem, e a gente perdoa. Olha que absurdo! Isso se chama preconceito. Nós estamos atolados nisso.

 

Vamos pedir ao Senhor que Ele vá limpando isso do nosso coração, que mande o Espírito Santo. Às vezes a gente pede a Deus que mande Seu Espírito Santo para cada bobagem... Nós temos que pedir para Deus mandar o Espírito para limpar o nosso coração dessas coisas.

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Jesus está conosco, Ele é a esperança!

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 12° Domingo do Tempo Comum (Ano B) – 20/06/2021 (domingo, missa às 10h)

Jesus fez um milagre no lago de Genesaré, que é tão grande que chamam de Mar da Galileia. Ele produz muito peixe e parece uma bacia porque em volta estão as montanhas. E tem um fenômeno que é muito perigoso, quando o vento, de repente, fica terrível e desce a 90 graus, criando ondas enormes nesse lago a ponto de afundar até barco também... Jesus em uma ocasião dessas ordenou que o mar se calasse e que o vento cessasse. Isso aconteceu e os discípulos ficaram maravilhados. São Marcos, quando escreveu esse milagre, queria também dar uma outra mensagem para os seus ouvintes – e aqui temos que pensar nos símbolos, o mar simboliza tudo que de mal possa existir... Muitas vezes, na Bíblia, o mar é o mar; outras vezes ele simboliza o mal. Nós temos esse outro fato de que a barca dos apóstolos está ali, mas não era só a barca dos apóstolos tinham outras barcas também. E, depois, Jesus que dorme em um travesseio no fundo de um barco que não era um iate, era um barquinho de pescador e o negócio está afundando, enchendo de água, e como que ele está dormindo lá no fundo? É esquisito isso!

 

São Marcos usa aquele fato do milagre para dizer também uma outra mensagem. Jesus morreu e ressuscitou há cerca de 40 anos. São Marcos vai escrever seu Evangelho por volta do ano 70, se passaram mais ou menos 40 anos da morte e ressureição de Jesus. Então Jesus não está mais visivelmente com a comunidade – as várias barcas que estão também no lago representam as outras comunidades cristãs em que o anúncio do Evangelho já foi multiplicado. No ano 70, o próprio São Marcos escreve seu Evangelho em Roma, então a comunidade cristã já chegou até em Roma e está se espalhando no mundo, então são muitas barcas... Porém, começaram também as perseguições. Os apóstolos todos, com exceção de São João, foram mortos, martirizados – não morreram de dor de barriga não, mataram. E muitos outros cristãos estavam sendo perseguidos, basta pensar nas perseguições de Nero na metade dos anos 60 e o pessoal começa a ficar assustado, pensando ‘afinal de contas, como vamos acabar?’. Por isso, tem essa imagem em que eles vão lá acordar Jesus que está dormindo e, quando os apóstolos o chamam desesperados, Jesus dá uma bronca neles. Primeiro, Jesus os salva, e Ele comanda o mar como Deus comanda o mar na hora da criação. Na Primeira Leitura, vimos como Jó desafiou Deus, em um certo momento, e Deus aparece para ele em um turbilhão e começa a falar “você quer conhecer meus desígnios? Por acaso foi você quem criou as aves dos céus? Quem viu o mar brotar da terra? Foi você quem criou as nuvens do céu? Foi você quem disse para as ondas do mar aqui acaba a sua arrogância?”. Deus está falando isso para Jó e os discípulos conhecem esses textos, pois são da Sagrada Escritura, então, quando Jesus levanta do barco e ordena “silêncio, cala-te” e o mar se acalma, Ele está mostrando que tem o mesmo poder do Pai. E aí Ele vai dar uma bronca nos apóstolos “porque vocês ainda têm medo?” – essa é a grande questão: no meio da tempestade, você tem que continuar remandando ou você afunda; no tempo de calmaria, você tem que continuar remando para o barco poder ir para frente. Deus cuida! Vai ter dor, vai ter morte, vai ter sofrimento, isso é a história, isso é a vida humana! Continue remando esse barco, não perca a fé e então os discípulos que ficam de boca aberta e perguntam “quem é esse que comanda o mar e o mar obedece?”, nós chamamos isso de o segredo messiânico.

 

Nós estamos no meio de uma tempestade, estamos no meio de uma guerra cujo inimigo é invisível e pode entrar em nossas casas quando menos esperamos. Nós temos membros da comunidade que morreram, muitos paroquianos foram contaminados e graças a Deus se recuperaram. É um tempo difícil! Usar máscara e álcool gel todo tempo, ficar com medo das pessoas é uma coisa estranha e muita gente está entrando em depressão, porque perdem a esperança e isso não é culpa das pessoas, porém perdem a luz e a situação da depressão é terrível. E tem tantos outros fatos que acontecem, pessoas com crise de pânico que não tinham antes, tudo por causa da pandemia, o que devemos fazer? Jesus está no barco da nossa vida, Ele não nos abandona e nós acreditamos que a morte não é última palavra, por isso vamos continuar a remar o barco da nossa vida, das nossas comunidades, para que a nossa vida possa seguir e, quando superarmos essa tempestade, ela possa prosseguir melhor. O que não podemos é deixar de remar e nos desesperar. Vamos manter todo o cuidado, vacinar-se para que possamos respirar outra vez. Não vamos perder a esperança, mas fazer tudo que podemos para que a situação seja o mais suportável possível. Temos poucos meios, mas temos que usá-los: máscara, higienização e distanciamento são os remos que nós temos. Vamos remar, só vamos sair da tempestade se fizermos isso! Ontem [sábado, 19/06] a CNBB convocou um ato nas igrejas para que às 15h tocassem os sinos em sinal de luto pelo meio milhão de mortos pela COVID e a coisa que mais nos entristece é que mais da metade dessas pessoas poderiam ainda estar entre nós se tivéssemos começado a vacinação quando ofereceram pela primeira vez.

 

Vamos chorar nossos mortos sim, muitas mortes desnecessárias. Vamos pedir a Deus dias melhores e que tudo acabe o quanto antes e se possa vacinar o nosso povo o quanto antes. E, da próxima vez, escolhamos alguém que não seja um louco para nos governar... Por causa de um protesto, nós matamos brasileiros e estamos destruindo o nosso país. A tempestade é grande, mas Jesus nos diz: esperança, força, usemos nossos remos, um dia melhor vai chegar. Nós temos os nossos falecidos que nos deixam por 1001 modos que conhecemos, como Dona Inês, por um câncer, os nossos sofrimentos continuam, mas não percamos a esperança, pois a morte não é a última resposta nem a última palavra da nossa vida, a morte é como um barco que nos manda para os braços de Deus e para a eternidade.

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Lançar as sementes para que os frutos apareçam

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – Solenidade da Santíssima Trindade (Ano B) – 13/06/2021 (domingo, missa às 10h).

Jesus é um mestre e também um sábio. Ele fala para gente muito simples, para gente do povo, e muito do que ele conta é por meio de parábolas. Com o que nós poderíamos comparar as parábolas nos dias de hoje? Parábolas são os “casos”. "Vou te contar um caso" ou "vou te contar uma história". E a pessoa sabe que não é verdade, necessariamente, mas, mesmo assim, ali tem um ensinamento. Jesus usa os exemplos do dia a dia. Muitas vezes quando a gente fala de "casos", geralmente se refere a pessoas do interior. E do que eles vão falar? Os casos podem ser histórias de cavalo, de plantação, de coisas corriqueiras da vida daquele ambiente. Nós também temos nossos casos de cidade. Muitas vezes nós contamos coisas que aconteceram no metrô, no trabalho, na venda, no bar. Todos estes são casos e, muitos deles, trazem ensinamentos. Hoje em dia, há muitos "tik tok" da internet, que também contam casos. Alguns engraçados, outros trágicos, outros vergonhosos. E com cada um destes se tenta transmitir algo.

Jesus fala da vida, do dia a dia. Fala para pessoas que ele sabia que viviam no mundo agrícola, no mundo de pecuária. Ali não existiam indústrias, muito menos aquecimento climático. Então Jesus vai falar de sementes. É interessante porque as duas parábolas têm a mesma ideia: a semente que é jogada na terra. Mas Jesus mesmo vai se comparar a um grão de trigo jogado na terra. Ele diz: "se o grão de trigo não é lançado na terra e morre, ele não dá fruto. Agora se ele cai na terra e morre, dará muito fruto". O próprio Jesus é o reino de Deus entre nós. Porém, nós podemos, graças à força do Espírito Santo, sermos também semeadores. E o reino de Deus tem uma força que é dEle e não depende de nós. O que nós podemos fazer é semear: anunciar o Evangelho, fazer o bem, sermos pessoas justas e honestas, sempre procurando seguir Jesus. Nós nunca sabemos como vai funcionar no coração e na vida de uma pessoa uma boa palavra que nós demos, uma boa ação que fizemos, uma ajuda que nós demonstramos ou, ainda, uma acolhida em um momento de dificuldade. Nós nunca sabemos.

É muito importante espalhar as sementes do bem. Tem um autor, católico, nasceu na África do Sul, mas depois viveu a vida toda na Inglaterra. Eu gosto muito dos livros dele. Ele é o autor do livro "O Senhor dos Anéis", esse livro é uma grande história, que muitos de vocês devem ter lido ou visto os filmes. Em uma passagem deste livro, sobre o espelho de Galadriel, eu tomei uma decisão muito importante. Eu estava em Roma pela segunda vez e, por causa daquela decisão, Deus me enviou para ficar 21 anos no confessionário, dentro da Basílica de São Pedro. E eu agradeço a Deus por este homem ter escrito aquele livro, sem saber que alguém ia se inspirar e mudar a vida por causa daquele livro, por causa de uma frase daquele livro. E, em nossas vidas, muitas vezes escutamos outras pessoas falando, ou então uma ação, um conselho ou, até mesmo, uma mensagem de WhatsApp que pode iluminar a vida de uma pessoa naquele momento. Jesus diz sobre um pequeno grão, o grão de mostarda. E quando Ele diz sobre o grão de mostarda, só para esclarecer um pouco, não é a mostarda que nós conhecemos aqui no Brasil ou aqui no Ocidente. A mostarda que Jesus fala é um tipo de cacto do deserto, cuja semente é realmente igual pó. Se você pega este pó na mão, você provavelmente pensa: "isso aqui não dá em nada, isso aqui é uma poeira". Mas se você joga a semente na terra, você não consegue mais se livrar da planta, ela afunda as raízes, ela cresce, ela estoura vasos, ela estoura o chão. Se ela coloca a raiz no chão, você nunca mais arranca ela dali. E as codornas amam fazer ninhos embaixo desta planta. Por isso Jesus fala "até os pássaros do céu se abrigam debaixo dessa planta".

O Reino de Deus tem essa força. Toda palavra e ação de bem que nós temos e fazemos são sementes do reino. Então, o que Deus pede para nós? Não jogue uma semente, mas sim jogue muitas! Conforme a possibilidade de cada um, pois Deus cuida do resto. Eu gosto de escutar as avós que reclamam dos netos que não vão à missa ou não vão à igreja. Aí eu lembro para elas da história de uma moça que eu encontrei no confessionário. Ela disse: "Padre, eu nunca liguei para igreja. Eu ia no começo, quando eu era criança, mas depois nunca mais fui. E minha avó vivia reclamando que a gente não ia à missa. E ela sempre falava: 'eu rezo para vocês voltarem para a igreja'.” E a idosa morreu e não viu nenhum dos seus netos ir para a igreja. Na missa de sétimo dia, uma das netas, que era uma dessas que a idosa vivia dizendo que rezava para que ela voltasse para a igreja, falou: "vovó gostava tanto de missa. Como é a missa de sétimo dia dela, então eu vou lá, ao menos para lembrar dela". A mulher foi tocada de uma forma tão profunda por aquela missa que ela se tornou uma boa católica. Aí a gente fala: "nossa, mas isso não podia ter acontecido antes?". Na verdade, não interessa. O que Jesus pedia para aquela idosa é que ela rezasse pelos seus netos, não que ela visse os frutos. Porque os frutos não são para nós, os frutos são para os outros. Jogue a semente. Ela não viu a neta dela ir à igreja e se tornar uma boa católica, mas a semente que, durante anos e anos, ela plantou no coração daquela mulher, deu fruto ao seu tempo. Jesus diz no Evangelho também: "Na perseverança, salvarei as vossas vidas". Não nos resultados, mas sim na perseverança. Todo dia, acreditando que Deus vai fazer dar fruto, às vezes onde a gente menos espera.

Hoje é dia de Santo Antônio. Ele era monge agostiniano. Nasceu em Coimbra e vivia na cidade de Lisboa. Era um grande estudioso da bíblia. Em uma bela noite, cinco rapazes batem na porta do convento. Como ele era o porteiro aquela noite, acolheu os rapazes, deu de comer e passou a noite inteira conversando com eles. Contaram desse novo grupo que um tal de Francisco da cidade de Assis tinha começado. E eles estavam indo para a África, para Marrocos, entre os mulçumanos, para anunciar o Evangelho. E Santo Antônio ficou encantado com aquilo. Então os rapazes se foram e Santo Antônio continuou a vida dele. Um mês depois voltam os cinco, dentro de cinco caixões. Eles haviam sido martirizados. Esse fato deixou Santo Antônio tão fulminado pela graça de Deus que disse: "É isso que eu quero para minha vida: morrer mártir". Ele deixou os monges agostinianos, tornou-se franciscano e, junto com os frades, ele

pegou um navio e foi para Marrocos. Chegando lá, pegou malária e ficou quatro meses lá dentro de uma cabana, passando mal, com febre e barriga d'água. Assim, decidiram enviá-lo de volta para um convento em Lisboa. Então colocaram-no em um navio. Houve uma tempestade e ela jogou o navio (que estava indo para o Ocidente) para o Oriente. E ele foi parar na costa da Cecília, na Itália. Chegando ali, souberam que haveria o Capítulo Geral, que era a reunião de todos os frades. Santo Antônio, que já estava um pouco melhor, quis ir à reunião. Provavelmente, foi ali que conheceu São Francisco. E ele foi mandado para o norte da Itália, na cidade de Pádua. E lá aconteceram muitas coisas. Porém, o fato é que ele se tornou provincial dos frades em todo norte da Itália e no sul da França, fazendo um grandíssimo trabalho de pregação, especialmente, em regiões de hereges, onde o povo sobretudo negava a presença de Jesus na eucaristia. Ele nunca sarou totalmente da malária e, nos últimos meses da sua vida, ele começou realmente a passar muito mal. Então ele foi enviado para o campo, fora da cidade, porque lá era mais fresco. Pádua era uma cidade muito seca, de um calor insuportável. Então ele foi para o campo, na casa de um amigo dele. E lá ele pregava para as pessoas, para os camponeses. Ficava horas sentado embaixo de uma arvore confessando as pessoas. Em uma dessas ocasiões, ele teve a visão de Jesus ainda menino, que nós vemos na imagem dele.

Depois a malária piorou, porque ele provavelmente teve uma paralisia renal, ficando inchado. Aí ele percebeu que não ia conseguir viver muito tempo. Então ele pediu: "por favor, me levem para Pádua porque eu quero morrer lá com os frades". No meio do caminho havia uma capelinha e ele pediu: "Parem aqui porque não vou longe, minha hora chegou". E então o colocaram no chão, que era mais frio e mais fresco, e ele morreu cantando o hino em louvor a Nossa Senhora, que começava com essa frase "Ó, Gloriosa Senhora". Em latim, era "Ó, Gloriosa Domina". Depois, houve uma avalanche de milagres tão grande na região de Pádua que, 11 meses depois de sua morte, ele foi proclamado santo. É o santo proclamado em menor tempo da história. São Francisco foi com 2 anos, mas Santo Antônio foi com 11 meses.

Se nós fomos ver, o que esse homem fez? Ele abriu a porta do convento e acolheu, no meio da noite, aqueles cinco rapazes. Foi isso que Antônio fez. Mas, porque ele fez isso, os frutos que foram dados foram enormes. E esses frutos continuam até hoje. A devoção a Santo Antônio vai muito além da Igreja Católica, assim como a São Francisco também. Os muçulmanos têm devoção por São Francisco. Ele foi um grande pregador da Palavra de Deus e sempre amou o povo, querendo que todos se reconciliassem com Deus para viver uma vida nova no Evangelho. Ele jogou muitas sementes e era um homem inteligente. E os frutos estão crescendo até hoje. Mas cada um de nós também pode jogar suas sementes do bem, da boa palavra, do bom exemplo. E nós não sabemos em qual terra pode cair e como Jesus e o Espírito Santo farão isso crescer no coração das pessoas.

Vamos pedir a Deus que nos dê essa coragem, das pessoas que têm fé, de anunciar, de falar de Jesus, de encorajar e ter compaixão pelas pessoas. Vamos ajudar como podemos, acreditando que todo o bem feito um dia vai frutificar, mesmo que não sejamos nós que iremos ver.

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Todo bem é graça de Deus

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 10° Domingo do Tempo Comum (Ano B) – 06/06/2021 (domingo, missa às 10h).

A Primeira Leitura de hoje [Gn 3,9-15] apresenta o mito de Adão e Eva e o momento em que Deus vem ao jardim conversar com eles e eles se escondem. Deus chama e depois acaba percebendo onde eles estão e Adão diz: “eu vi que estava nu e fiquei com medo”. Deus perguntou: “quem foi que te disse que você estava nu? Por um acaso você comeu da árvore que eu proibi?”. A cultura humana é nossa criação, e o que nós vemos ali é exatamente essa primeira manifestação da cultura: “eu estava nu”. Essa consciência é cultural. Os índios, que não têm essa consciência cultural ocidental, grega, semita, não tinham problema nenhum com isso. Isso é cultura, e já é uma cultura torta. Por isso Deus pergunta “mas você comeu o fruto da árvore por que?”. O fruto da árvore foi apresentado como fruto da ciência: “vocês serão como deuses”. Deus iria mandar o ser humano para o deserto do mundo, Deus iria revelar ao ser humano que tinha que crescer, que tinha que se multiplicar, sim, Deus iria revelar tudo isso. Mas seria um caminho gradual, um crescimento gradual. Só que o ser humano não quis – nós nunca queremos processos, nós queremos o fruto pronto, especialmente no nosso tempo. Nós temos pressa de tudo. Mas a vida humana não é pressa, a vida humana é passo depois de passo, por isso que nós estamos nos atropelando, porque estamos indo depressa demais.

 

O maligno... o povo hebreu acreditava que o demônio era um anjo – e um anjo da corte de Deus, e a sua missão era colocar à prova os seres humanos. Com o passar dos séculos, essa figura vai se clareando e se mostra como o princípio do mal. Jesus vai dizer: “o demônio é assassino e mentiroso desde o início” – isso é revelação, viu, gente? Palavra de Jesus: assassino e mentiroso. Jesus está ali, Ele fez várias curas e expulsou demônios, e tem pessoas muito religiosas, muito observantes que estão de olho no que Jesus está falando, e no que Jesus está fazendo. Hoje, com as suas ideias, nós diríamos que Jesus era quase um subversivo. Ele não obedecia aos padres, não vivia a religião como os outros observantes da lei observavam. Jesus era muito livre e isso incomodava esses homens da religião, porque, através da religião, eles controlavam o povo. Havia centenas de leis! E eles queriam acabar com Jesus. Jesus já tinha ido no templo em Jerusalém e expulsado os vendilhões do templo, e isso aqui causou uma revolta, uma doidice no templo, nos padres, nos sacerdotes do templo: “nós temos que matar esse sujeito!”. Então já tinham decidido matar Jesus, e agora eles têm que desautorizar Jesus, falar para o povo: “esse sujeito não presta”. Eles veem o que Jesus fez e começam a conversa: “ó, estão vendo esse demônio que ele expulsou? Ele faz isso porque tem o poder do príncipe dos demônios”. Aí Jesus vai dizer: “ué, mas se eu faço isso com o espírito do ‘príncipe dos demônios’, então a minha casa está dividida, e casa dividida não fica em pé”. Casa rachada cai! “Agora, se eu faço isso com o poder de Deus” – Jesus vai falar com o dedo de Deus no outro Evangelho – “o reino de Deus chegou a vocês. Porém,” –Jesus vai dizer, – “todos os pecados têm perdão.” Prestem bem atenção nisso: todos os pecados têm perdão, todos. Não existe pecado que não possa ser perdoado. Pensem no que quiserem, só um pecado não tem perdão: é o pecado contra o Espírito.

 

O que é a blasfêmia contra o Espírito Santo? A blasfêmia contra o Espírito Santo é ver o bem que uma pessoa faz, mas, porque essa pessoa não é do teu clubinho, não é do teu grupo, não é da tua religião, não é do teu partido ou não é do teu time de futebol, você diz que aquele bem que a pessoa fez é um mal. Isso aqui, hoje, nós chamamos de ideologia. Quando uma pessoa faz o bem, nós temos que

reconhecer o bem que essa pessoa faz, mesmo que seja nosso inimigo. Se fez o bem, fez o bem. Você não pode dizer que a pessoa fez o bem por força do mal, não, fez o bem! Venha de onde vier, é o bem, porque isso também cria brecha para o perdão, cria brecha para a paz. Reconhecer que o meu inimigo também é capaz de fazer o bem, então ele não é tão ruim assim, é o primeiro passo para a reconciliação. Agora, se eu fecho a porta e falo que o bem que ele faz é coisa dos demônios, é uma mentira, não é verdade, eu estou fechando as portas, mas estou fechando as portas não só para o meu irmão, estou fechando as portas para Deus, porque todo bem é feito com a graça de Deus. Então, estou me fechando para Deus. Esse é o pecado contra o Espírito Santo: acusar o outro e dizer que o bem que ele faz, porque essa pessoa não pensa como eu, o bem que ele faz é o mal. Isso é pecado contra o Espírito. E, de fato, mesmo vendo tantos outros sinais que Jesus fez, tantos outros milagres, eles fecharam o coração, mataram Jesus.

 

Mas esse Evangelho [Mc 3,20-35] também tem uma outra novidade: nós estamos no capítulo 3 do Evangelho de Marcos, estamos bem no início do Evangelho, que mostra o início do ministério de Jesus. Imagine, o ministério já começa com o pessoal querendo matar o homem. Os parentes de Jesus vão atrás dele: “vamos pegar esse homem, endoidou, está fora completamente”. Esse era um outro modo de desautorizar as pessoas: “é um doido”. Dos próprios parentes, dos próprios amigos de convivência de Jesus: “é um doido, tem que prender, tem que tirar daí”. Olha que nós também, no meio das nossas famílias, entre os nossos amigos, podemos também cortar, destruir as possibilidades e talentos das pessoas – isso é horrível! Jesus simplesmente deixa para lá. Primeiro, os parentes, aí depois não só esses primeiros parentes, vêm a mãe e os primos de Jesus, os parentes mais próximos não querem agarrá-lo, mas querem conversar com Ele. Aí Jesus vai dar outra rasteira: “meus irmãos, minha mãe, minhas irmãs são aqueles que fazem a vontade do Pai”. Acabou a proteção de sangue, isso não existe mais, a fraternidade é para todos, e, o sangue que corre nas veias desses irmãos e irmãs é o sangue da vontade de Deus, fazer aquilo que Deus quer.

 

Vamos pedir ao Senhor que Ele nos ajude a reconhecer o bem onde quer que o bem esteja, e a nos lembrar que o que nos faz irmãos e irmãs de Jesus é amar os outros como irmãos e irmãs.

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Comungar é participar da vida de Jesus

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – Solenidade do Santíssimo Sacramento do Corpo e do Sangue de Cristo (Ano B) – 03/06/2021 (quinta-feira, missa às 19h45).

Naquela noite, Jesus ceiou a última vez com seus discípulos. Não era a ceia dos judeus, a ceia dos judeus, a grande páscoa dos judeus foi na noite da sexta-feira que para eles já era sábado. Então aquela ceia foi alguma coisa diferente. Existiam várias bençãos que se davam nos pães, na bênção mais solene sobre o pão, era um pão particular que recebia a benção. Naquela noite, Jesus mudou alguma coisa, Jesus acrescentou alguma coisa: “isso é o meu corpo”. Eram quatro taças de vinho que se passavam durante a ceia e cada uma delas recebia uma benção. Na taça mais solene, Jesus também fez uma alteração: “este é o sangue meu, o sangue da aliança, que é derramado por vós e por muitos”. Este ‘muitos’ significa todos – todos que queiram se aproximar de Jesus. “Façam isso em minha memória”. Essas palavras ficaram tão marcadas na memória dos discípulos que 20 anos depois quando São Paulo escreve as suas cartas, ele vai dizer eu recebi esta tradição que o Senhor, na última ceia, tomou o pão, deu graças partiu e deu aos discípulos, dizendo “isto é o meu corpo”, depois tomou o cálice deu aos discípulos e disse “este é o sangue novo da aliança, o meu sangue”. A Eucaristia é o mistério da presença de Jesus entre nós, a Eucaristia não é um pedaço de carne e um tubinho de sangue. A Eucaristia é muito mais que isso! A Eucaristia é a vida de Jesus.

 

O pão para o povo e para o simbolizava o trabalho, a fadiga, as dores da vida. O pão se comia com ervas amargas, é o tempo do sofrimento, do trabalho, quando Deus disse lá no Gênesis “o suor do teu rosto arrancará da terra o teu pão” é o trabalho, é a fadiga. Naquele pão, estão os trabalhos, as fadigas, as lutas, as dificuldades, os enfrentamentos que Jesus teve que fazer com seus inimigos, todos os desafios que Ele teve que enfrentar a sua Paixão e a sua Morte, estão todas ali. O sangue para o povo hebreu é o sinal da alegria, da vida, é uma bênção de Deus. O vinho dá alegria a alma e ali está alegria da vida de Jesus: o nascer entre nós, o viver as nossas alegrias, o nosso dia a dia, ver o nascer do sol, o brilho das estrelas, sentir o amor de sua mãe, sentir o amor daquele que cuidou dele como se fosse um pai, a alegria dos seus amigos, dos seus discípulos, das pessoas que o seguiram... pensem lá na mulher ungindo os pés de Jesus, no leproso que volta agradecendo por Ele tê-lo curado, Jesus que se alegra imensamente quando os discípulos voltam dizendo foi uma maravilha – até os demônios saem das pessoas quando se invoca o teu nome! Jesus exulta de alegria, porque Deus ele está acolhendo os pequeninhos. Essas são as alegrias de Jesus. Pão e vinho consagrados, pão e vinho, Eucaristia é a vida inteira de Jesus que entra em comunhão conosco.

 

A vida de cada um de nós não é um montão de carne e quatro litros e meio de sangue. A vida de uma pessoa é uma vida de relações: primeiro com seus pais, irmãos, amigos, até mesmo com seus inimigos, trabalho, fadigas, alegrias, as pessoas que amamos, mulher, marido, filhos. O mundo que nós vemos as belezas do mundo, as suas ter tristezas e até monstruosidades, tudo faz parte da nossa vida. Essa nossa vida é acolhida por Jesus que se entrega a nós até o fim na Eucaristia, se consome sendo alimento para nós. Ele entra na nossa vida e nós entramos neste grande círculo de amigos e comensais de Jesus. Nós passamos a fazer parte da sua vida. Ele passa a fazer parte da nossa e nos convida constantemente à uma vida nova que nós chamamos conversão. Jesus se entrega para nós com toda a sua vida de salvação, nos convidando a fazer com que a nossa vida se mude também em salvação. Que os nossos ódios se tornem serviço, humildade, perdão, acolhida. Capacidade de acolher a diversidade do outro do jeito que o outro é porque Deus assim o quis. Querer que esse mundo seja melhor e trabalhar para isso. sabendo que nós plantamos uma pedra, outros vão colocar outras pedras, e aos poucos a humanidade terá construído uma grandíssima catedral. Essa é a nossa vida: Jesus entra a fazer parte dela e nós entramos a fazer parte da vida dele. Eucaristia é isso: fazer parte do amor de Deus, recebê-lo para poder dar, Jesus se dá até o fim, nos convida a sermos também pessoas capazes de dar a vida pelos outros, ser para o outro, assim é Deus no seu mistério, o Pai é todo para o Filho, o Filho é todo para o Pai. E o Espírito é o grande abraço que faz da Trindade um único Deus.

 

Jesus Eucarístico nos convida a ser comunidade de irmãos, uma só alma, um só coração, um único empenho no amor e no serviço. A Eucaristia, vista desse modo, nos ajuda a tirar dos olhos os enganos do mundo, nos faz olhar só a vida e a verdade. Vamos pedir a Jesus que comungando o seu corpo e sangue, adorando o mistério da Eucaristia, nós possamos realmente nos deixar transformar em Jesus e ser para o mundo doação, entrega, serviço.

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Trindade é unidade de amor

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – Solenidade da Santíssima Trindade (Ano B) – 30/05/2021 (domingo, missa às 10h).

O nosso Deus é o Deus dos judeus? Não. É o Deus dos mulçumanos? Não. É Ogum, pai dos orixás, do Candomblé? Não. Ele é uma energia cósmica com a qual nos uniremos depois da morte? Não. Então quem é o nosso Deus? Nosso Deus é a Trindade. Os hebreus não creem na Trindade, e nem os mulçumanos – apesar de nós sermos as chamadas três religiões abraâmicas monoteístas.

 

Jesus Cristo nos revelou que Deus são três pessoas e uma só divindade; não são três deuses, mas uma só divindade, um só poder, como dizemos na liturgia: "um só poder, uma só majestade, uma só onipotência e uma só glória". Três pessoas abraçadas de uma forma tão potente que são uma só divindade.

 

Ao longo dos séculos, os teólogos místicos falaram e discursaram muito sobre a Santíssima Trindade, e nós temos muitas representações Dela. A que mais conhecemos é o triângulo, com o eixo em cima, que representa o Pai, do qual procedem o Filho e o Espírito. Temos também o triângulo invertido, com a ponta em baixo, que representa o Espírito, que procede do Pai e do Filho. Nós temos ainda a representação do círculo: três pessoas que são eternas e, contemplando a Trindade, vemos que uma emana da outra, no ciclo eterno de amor.

 

Quem nos revelou isso foi Jesus, pois não seria possível conhecer Deus naquele que é o Seu mistério sem que Ele descesse do céu e nos dissesse com palavra humana. Porque Deus vive em uma transcendência, Deus vive além, e nós não podemos sequer imaginar o que isso seja... São Paulo dizia: "Não tem palavra humana, não tem ouvido humano que possa entender ou descrever aquilo que é o mistério de Deus". Ou Deus desce do céu, sai da Sua transcendência – vamos assim dizer, do seu mundo – e vem até nós ou não seremos capazes de entender e perscrutar o mistério de Deus.

 

Deus, em Sua bondade, vai revelando a grandeza do mundo, do céu, dos mares, dos ventos... Nós nos damos conta desse algo infinito e maior. Então, de algum modo, percebemos que somos pequenos e que o mundo vai muito além de nós. É aí que nós, por meio da religião, da filosofia, chegamos a elaborar uma ideia dessa grandeza. Nós podemos ainda olhar o ser humano, pois somos uma maravilha – somos também o horror, mas somos também maravilha. Se olharmos o corpo humano, essa máquina maravilhosa que somos... Se olharmos nossas capacidades, pensarmos o que é o mundo nas coisas que criamos... Se pegarmos um simples microfone, quanta tecnologia! Quanta inteligência o ser humano tem para criar coisas desse jeito, mudar o mundo, derreter rochas, fazer fios extremamente sutis, criar antenas, criar um monte de coisas com forças que nós nem vemos. O rádio: a onda de rádio, nós não vemos e, no entanto, ela está transmitindo daqui lá para fora. É uma coisa fabulosa! A mente humana é capaz de muitas maravilhas, e nisso nós também contemplamos essa grandeza de Deus.

Então nós, de algum modo, podemos intuir Deus. Porém, saber como Deus é no seu coração, só Ele descendo até nós. E quando Ele se revela para nós, Ele quebra nossa cara, porque também projetamos, na imagem de Deus, os nossos desejos e as nossas frustações. Nós somos fracos, então nós imaginamos um Deus onipotente; o nosso conhecimento é pequeno, e nós imaginamos um Deus onisciente; a nossa justiça é fraca, então imaginamos um Deus supervingativo, um juiz implacável. E esquecemos que Deus é outro... E quando Ele vem e se revela para nós em Jesus, nós realmente ficamos de boca aberta! A onipotência de Deus se manifesta no amor, na misericórdia; nós esperamos um poder que esmaga, que destrói, que se impõe com força... Quanta gente está falando por aí: "Por que Deus não faz alguma coisa para acabar com a covid?". Deus não faz isso. Onde é que está Deus? Deus está lá nos hospitais, procurando respirar; Deus está, infelizmente, em muitas casas e em muitos lugares do Brasil morrendo, porque não tem mais lugar no hospital.... Deus está ali.

 

Compaixão. Que poder é esse? Deus é assim. Deus cria, Deus não destrói; Deus quer a vida, não a morte. Tanto que, no livro do Deuteronômio, quando Moisés fala com o povo, colocando as palavras de Deus: "Coloco diante de vocês a vida e a morte. Vocês vão escolher a vida". Porque liberdade não é escolher a morte, liberdade é escolher a vida! A morte só vem pela injustiça, pela maldade, pelo crime, pela corrupção; Deus quer a vida, a justiça, paz, fraternidade, respeito... Deus quer vida! São revelações de Deus que quebram a nossa cara.


E Jesus vai nos mostrar que o amor do Pai não é o que nós queremos ou o que os poderosos querem. Jesus vai bater boca com os sumos sacerdotes – imagine só, os sumos sacerdotes, que eram representantes de Deus! E Ele vai falar na cara deles: "Eu sei quem é o pai de vocês. Vocês falam que vosso pai é Abraão, mas não é. Vosso pai é o diabo! Porque, de Deus, vocês não entenderam nada. Vocês transformaram Deus em um monstro, que assusta o povo, que impõe leis terríveis e cobra muito dinheiro". Se vocês forem lá nas "Aventuras Bíblicas" (vai sair ainda), vamos falar sobre Salomão, e iremos ver o que Salomão aprontou com o povo... Ele esfolou o povo em nome de Deus para construir o templo, e Deus não é assim. Deus quer vida, e Jesus revelou isso. Deus é perdão, e Jesus perdoa. Para Ele, não existe pecado que não possa ser perdoado – só há um pecado que não dá para perdoar, que é quando a pessoa não quer; é você ver uma verdade e dizer que é uma mentira, isso não tem jeito, porque você não quer, você não quer largar sua posição falsa para abraçar a verdade que está diante de você ou, então, dizer que o bem que uma pessoa faz é um mal só porque ela pensa diferente de você. Mas todos os outros pecados, Deus perdoa!

 

Eu me lembro quando estava confessando – fui confessor por 21 anos – e vinham muitas mulheres, poucos homens, mas muitas mulheres confessar aborto achando que Deus não pode perdoar. É falso! Deus perdoa aborto também! Para Deus, o perdão não tem limite, e isso é uma coisa que nós não somos capazes de entender. Mas Jesus revelou isto para nós: o perdão de Deus não tem limite! Nós somos vingativos, a nossa justiça é vingativa, punitiva; a gente até inventa o purgatório para as pessoas pagarem pelos seus pecados deste mundo... Nós não conseguimos pensar na radicalidade do perdão de Deus. E a mesma coisa do poder de Deus. Se nós prestarmos atenção nas curas que Jesus faz, são gestos muito simples, sem espetáculo; Ele toca o leproso, Ele pega na mão da menina, Ele diz para a figueira: "Você não vai mais dar fruto nenhum". Não tem todo esse aparato, brilho, grito... Deus não faz isso, não. O poder de Deus é uma força irresistível e extremamente discreta. Não precisa "tocar sinos" para chamar a atenção dos outros, Ele age na discrição. Deus é tão potente e tão discreto que nós estamos mergulhados Nele e não O vemos. Deus está aqui, nós estamos mergulhados Nele e ninguém vê, para que nós possamos existir tranquilos, serenos e livres.

 

Este Deus que é amor, que é comunhão de amor, quer todos os Seus filhos e filhas abraçados no Seu mesmo amor. Tanto que São Paulo vai nos dizer: "No fim, todos os poderes serão colocados debaixo dos pés de Jesus, e o último deles é a morte". Quando tudo estiver sujeitado a Jesus, então Ele vai nos colocar todos no abraço da Trindade. É isto que Deus quer para nós, a perfeita comunhão com Ele. Porque, em Deus, tudo se une – não é "tudo se confunde"; tudo se une. São três pessoas, mas não são confusas. Nós seremos nós, Deus será Deus, mas seremos um só no amor. E isso nós temos que começar a aprender a viver agora, como irmãos, buscando a justiça, buscando a paz, buscando a concórdia entre as pessoas, superando o ódio.

 

Em 2018, nossa sociedade foi vítima do jogo da ideologia da morte. Quantas amizades se perderam, quantas relações familiares foram rompidas por causa da ideologia do ódio... E era só política. Mas nós estamos arriscando cair na mesma coisa daqui a pouco – já está começando. O ódio se mantém acima da mentira, da lavagem cerebral, da monotonia da música. É uma ideia sempre igual, o mal nunca é criativo. E ele separa a ponto de criar, em nós – Jesus vai falar isso no Evangelho: você começa a falar já no teu coração, começa a não gostar mais da pessoa, aí vai chamá-la de "canalha", depois de "herege", e isso dentro de um discurso religioso ou político; depois, você vai chamar a pessoa de "comunista" ou de "vagabundo". E o que você está fazendo? Matando e eliminando. Foi isso que fizeram na Alemanha, na Segunda Guerra Mundial... Esse é um discurso de ódio que não é de Deus. Pode até falar o nome de Deus, mas isso é blasfêmia! Deus une na diferença.

 

É possível ter diferenças políticas, mas não ódio entre as pessoas, não mentira entre as pessoas. Tem que existir a verdade, a busca do bem para todos (nós chamamos de "bem comum"). Isso para ver como adorar o Deus Trino, que é o amor, que é comunhão na diferença – porque as três pessoas são diferentes, mas são um só Deus –, gera consequências na nossa vida. Você não pode falar que adora o Deus da Vida, a Santíssima Trindade; que você é discípulo de Jesus, se você quer a morte do outro, se você acha que o outro vale menos, se você acha que o outro pode ser eliminado porque pensa diferente de você. Isso não é de Deus. Uma pessoa cristã que pensasse assim não poderia nem receber comunhão! Estaria comendo e bebendo a própria condenação. Porque Jesus quer a vida para todos. Se eu quero a morte dos outros e comungo, o que estou fazendo? Eu estou sendo a contradição total!

 

Isso não quer dizer pensar todo mundo igual, mas, nas diferenças, com respeito e a busca da vida para todos, a começar pelos últimos, conseguiremos. E é possível! É difícil? É muito difícil. Precisa conversar? Muito. Conseguiremos mudanças imediatas? Não. Tem que conversar muito, mas a gente consegue! Aos poucos, consegue. Aqui tem outra revelação de Deus: Ele tem muita paciência conosco. Então vamos pedir ao Deus Uno e Trino, que Jesus revelou – Jesus, que é a segunda pessoa da Trindade –, que nos ajude a ser discípulos e discípulas que trabalham pela vida, pelo respeito e pela solidariedade para com todos.

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Deixar a porta aberta para o Espírito

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha –  Solenidade de Pentecostes (Ano B) – 24/05/2021 (Missa às 10h)

Hoje celebramos o Espírito Santo. É muito interessante que toda vez que falamos do Espírito terminamos falando do Pai e de Jesus, porque o Espírito é a terceira pessoa dividida e Ele é o amor do Pai e do Filho. Ele abraça o Filho com a força tão grande que essas três pessoas são um só Deus. O Espírito Santo nós dizemos que Ele prescruta, Ele olha, Ele penetra as próprias profundezas de Deus. O Espírito Santo é o poder de Deus, é a eternidade, a onipotência de Deus. O Espírito é a onisciência de Deus e, sendo poder de Deus, Ele é suave é discreto como a luz do sol que não faz violência contra uma casa que esteja fechada, ilumina a porta fechada da casa, mas não arrebenta a porta para entrar. Ela espera que você abra a porta e ela se entrega todinha na medida que você abre a porta. Se você abre uma brechinha ela entra toda por aquela brecha e vai ocupar todo aquele espaço. E se você abre a porta inteira, quanta luz não entra nessa casa? E mais ainda se você sair da casa, você se inunda naquela luz. O Espírito de Deus perdoa os pecados, faz de nós seres novos e nos dá as forças para continuar caminhando na nossa vida. Vocês escutaram a Sequência de Pentecostes que fala de trabalho, fadiga, dureza, frio, secura: são as coisas da vida. O Espírito de Deus não nos tira da vida, mas nos dá a força necessária para enfrentar aquele momento, as durezas da vida. No trabalho, ele nos dá descanso. Na secura, nos dá água – vocês já viram um vaso de planta seco, a gente coloca água e parece que a terra até agradece, continua sendo terra, mas se ela está molhada faz a planta viver. Nesse nosso tempo tão difícil de pandemia: na escuridão, iluminai. Às vezes Deus não nos tira da escuridão, temos de levar muito a sério o Evangelho... Jesus, no Horto das Oliveiras, pediu para o Pai tirá-lo desse negócio e o Pai não tirou, porque aquela cruz era dele, por isso o Pai não tirou, mas não o abandonou tanto que Jesus pôde fazer todo o caminho até a morte. Guiai no escuro, nas trevas, do medo, da morte, da depressão...

Nós, muitas vezes, queremos que o Espírito de Deus aja com a gente como um bruxo, um mago com poderes especiais, mas é bobagem! O Espírito de Deus nos dá a força para amar para transformar o nosso coração duro, nos dá força para mudar as nossas práticas injustas, ilumina o nosso coração para que comecemos a tirar do nosso dia a dia os nossos racismos, as nossas birras, os nossos ódios. Ele trabalha em nós, mas é como eu disse no início, como a luz do sol, se você abre a porta Ele muda a sua vida, mas depende de você abrir a porta. Muitas vezes a mudança precisa da nossa boa vontade, mas a força é de Deus. Deus pede a boa vontade de abrir essa porta, olhar pra Jesus e aprender Dele, porque Ele age com a força do Espírito. Ele é Deus e o Espírito Santo está Nele. Ele nos doa o Espírito! Às vezes, no nosso falar, dá a impressão que o Espírito não tinha antes só passa a ter nesse momento, mas a Trindade age junta desde antes da criação do mundo na criação do mundo. O Pai diz: ‘faça-se’, mas o poder que faz é o Espírito. Em todas as ações humanas, em toda a vida, em todo esse universo que nós nem sabemos o que seja e o que tenha, é o Espírito de Deus que age e, em nós também, no nosso coração, na nossa vida, quantas vezes nos dizemos “nossa parece que eu tive uma luz que me guiou pelo caminho certo, eu não tinha nem pensado isso e isso me salvou, ajudou os outros, mudou mina vida”? O Espírito de Deus age constantemente

Jesus o deu para a Igreja e seus apóstolos e, quando falamos Igreja, não estamos falando dos padres somente, a Igreja somos nós e os padres estão na assembleia dos irmãos e irmãs, Ele deu para a sua Igreja o poder que Ele recebeu do Pai: ‘recebei o Espírito Santo, a quem perdoardes serão perdoados os pecados’. O ser humano é egoísta demais. Nós somos criados para sermos bons, imagem do verbo encarnado, mas somos muito egoístas e nós facilmente nos desviamos do caminho. Ao invés de procurarmos o caminho para nós e para os outros, procuramos a morte do outro e, no fim, a nossa e isso é pecado! O Espírito de Deus nos dá a capacidade de reiniciar um caminho de vida e chamamos isso de conversão. Quando a igreja perdoa é esse sinal verdadeiro de Deus para que possamos recomeçar um caminho de vida. Quando Jesus diz ‘a quem não perdoares os pecados serão retidos’ tem muito padre e autoridades altas da igreja que falam que o padre pode decidir se perdoa ou não perdoa, mas isso é uma visão tão fraca. Deus nos dá a plenitude e a totalidade da sua graça para perdoar aqueles que querem retomar o caminho da vida, mas para também denunciar os instrumentos da morte. Temos que entender isso como o poder que os profetas tinham no Antigo Testamento de animar, encorajar, mas também de denunciar tudo aquilo que não é de Deus. Se não seria uma coisa muito ridícula e o Espírito Santo não é ridículo.

O Espírito de Deus é dono de Jesus ressuscitado e Ele faz com que Jesus esteja conosco o tempo todo, é o poder de Jesus estar na Eucaristia, estar conosco na Sua Palavra, está conosco nos pobres, nos doentes, nos presos, em toda pessoa que sofre... É o Espírito Santo que faz com que Jesus esteja nessas várias realidades. É o Espírito Santo que mantém nas várias realidades a igreja viva. Se olharmos a história da Igreja cada doidice que fizemos, e quando falamos não é só os papas, mas também os bispos e movimentos leigos que criaram problemas terríveis para o povo, alguns foram salvação para a igreja em muitos momentos, santos homens e santas mulheres, o Espírito Santo é que mantém todo esse negócio funcionando. Sem o Espírito de Deus – e a igreja professa isso, já teria acabado a muito tempo. São muitos os problemas, muitas as insídias, muitos os enganos que nós caímos e o Espírito de Deus limpa, purifica, abre um novo caminho, ilumina de novo, chama as pessoas certas. Em momentos difíceis é a força do Espírito que nos ajuda para que essa comunidade possa sempre louvar a Deus amando os que sofrem, ser autêntica no serviço.

Vamos pedir com força a Espírito Santo que Ele ilumine o nosso coração. Recebemos o dom do Espírito no Batismo, na Crisma, na Ordenação... Vamos implorar que o Espírito de Deus encontre em nós a porta aberta.

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A fraternidade é o caminho que nos leva à comunhão com o Pai

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha –  7º Domingo da Páscoa – Ascensão do Senhor (Ano B ) – 16/05/2021

Hoje celebramos a Ascensão do Senhor. Mas o que quer dizer ascensão? Significa elevação por poder próprio. Assunção, que é o que ocorreu no caso de Nossa Senhora, é também uma elevação, mas por poder de outro.

Jesus termina a sua presença visível entre nós. E que coisa maravilhosa saber que todos os atos de Jesus são atos de revelação de Deus. Jesus possuía um corpo ressuscitado, porém reconhecível, que trazia em si as marcas do modo como ele foi morto, da barbárie que fizeram com Ele. E este corpo não é só carne, mas sim a vida da pessoa: é a rede de relações que a pessoa tem – são as suas amizades, seus parentes, sua cultura, o seu mundo. Uma pessoa não é um boneco que está parado na parede. O ser humano é um ser de relações. E tudo isso entra na glória de Deus. Jesus carrega a sua vida humana. Ele, eterno como o Pai, se esvazia e se torna um de nós. Assume essa vida humana, carne e osso, relações humanas, dores, alegrias, tristezas, fadigas. Ele assume tudo isso. A morte não destrói essa história, esta vida. E esta é a primeira grande revelação de Jesus: a ressurreição. Depois, a ascensão. Esta história não é desprezada, mas sim assumida por Deus.

Jesus carrega, na sua volta à Glória, junto do Pai, a nossa humanidade, a nossa história. Não só a história que ele fez conosco 2000 anos atrás, mas também a história que ele faz conosco todos os dias. História esta que se amplia todas as vezes que nós comungamos, que nós ouvimos a sua Palavra, que nós o acudimos no irmão que sofre. Em todos estes momentos, nós entramos em comunhão com Jesus. Nós fazemos parte da vida dEle. Até o dia que, depois de nossa morte, nós estaremos com Ele. E seremos pessoas, com a nossa individualidade, mas também seremos comunidade de irmãos e irmãs. Porque Deus quer que sejamos isto: irmãos e irmãs. Este é o caminho para seguir o Evangelho durante toda nossa vida: aprender a viver como irmãos e irmãs.

Às vezes, nós estamos lá longe, dando os primeiros passos. E conseguimos ver que há outras pessoas que estão bem adiante. Tem outras pessoas, então, que já chegaram quase na meta. Então a comunidade vai se animando para que cada um aprenda e procure, cada vez mais, amar os outros como irmãos e irmãs. Pois esta é a vida de fraternidade que nos coloca em comunhão com Jesus porque Ele se fez irmão nosso. Isso é um dom de Deus. Nós somos chamados a sermos irmãos e irmãs entre nós para entrarmos nesta vida de Jesus.

Irmão e irmã quer a vida e o respeito para o outro, quer que o outro tenha o mínimo de dignidade. Isso é ser irmão. Um irmão de verdade não quer nem a morte, nem o sofrimento, nem a destruição do outro. “Ah, mas na minha família tem problema”. Esta não é a fraternidade que Deus quer. “Ah, mas meus irmãos não prestam”. Este é outro problema. O modelo de irmão não são os seus irmãos. Modelo de irmão é Jesus. Igual o profeta Isaías nos fala “qual mãe abandonaria seu filho pequeno?”. O fato é que tem mãe que faz isso. Mas Deus fala “mesmo que existisse tal mulher, eu não farei isso, pois eu te amo Israel, meu povo”. Aqui se aplica a mesma coisa: mesmo que alguns irmãos e irmãs não sejam as pessoas mais bondosas deste mundo, eu devo continuar acreditando na fraternidade. E quantas vezes nós experimentamos a fraternidade até fora da nossa família! É muito comum viver este tipo de fraternidade, esperando ter paciência, suporte, perdão, acolhida. E é esta vida, construída na busca da fraternidade, que nós levamos para junto de Deus. Jesus nos mostrou isso em sua vida terrena.

Isso tudo é levado para junto de Deus a fim de entrarmos na comunhão da Trindade. Inclusive com o Espírito Santo, que nós vamos celebrar no próximo domingo. Ele é este poder de Deus, que abraça o Pai e o Filho e, com eles, torna-se a unidade. Mas, neste abraço, ele vai colocar todos nós. Como Jesus diz: que eles sejam um, como nós somos um. A nossa vida foi criada para entrar na glória de Deus. E Jesus, sentado do lado do Pai, nos revela isso: nossa vida tem um lugar junto do Pai.

Um pequeno comentário sobre este trecho do Evangelho que nós ouvimos [Mc 16,15-20]. O Evangelho de São Marcos é o mais antigo e o mais curto que nós temos. Ele foi escrito por uma única pessoa, que a tradição da Igreja atribuiu a João Marcos, que era companheiro de Pedro e também de Paulo, ao menos em algumas viagens. É o Evangelho do anúncio. Foi escrito para missionários, pregadores do Evangelho que não tinham conhecido Jesus, que não eram hebreus. Tanto que, durante o Evangelho, você vai encontrar muitas explicações. E o que aconteceu com este Evangelho? Nós não sabemos se ele termina de propósito, imediatamente depois da aparição dos anjos às mulheres, dizendo para elas irem anunciar aos discípulos. Ali acaba. É como se tivessem arrancado a última página.

Já no comecinho do segundo século, escreveram três pequenos trechos para terminar o Evangelho de Marcos e um deles é este que nós ouvimos. Os três trechos são praticamente iguais. E eles se apoiam nos Evangelhos já escritos de João, Lucas e Mateus. A Igreja sempre considerou estes três textos como inspirados, mesmo que não tenham sido escritos pelo mesmo evangelista. Este fato é para nós conhecermos um pouco dos meandros do Evangelho. E é muito interessante ver que Marcos diz “aqueles que crerem e forem batizados serão salvos; aqueles que não crerem (e não diz nada sobre o batismo) serão condenados”. O que quer dizer “só os que crerem no nome de Jesus”? Se fôssemos entender ao pé da letra, então Deus seria o ser mais injusto porque, no mundo, hoje, temos 7 bilhões de pessoas e, provavelmente, 3 bilhões delas nunca devem ter ouvido falar do nome de Jesus. Portanto, “os que crerem e forem batizados” não quer dizer isso.

“Os que creem em Jesus” pode ser entendido como os que agem como Jesus disse. Aqueles que fazem o bem e aqueles que agem de boa consciência em favor dos outros, mesmo sem conhecer Jesus. Isso quer dizer crer. Batizados são todos aqueles que creem em Jesus, que têm a missão, a vocação de viver e aprender a viver como irmãos e irmãs. Ser cristão é também uma vocação, um empenho, um chamado. Se ainda não vivemos como irmãos, então é chegada a hora de aprendermos, porque este é o caminho de comunhão com Deus.

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O amor é hoje. O amor é todo dia.

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 6º Domingo da Páscoa (Ano B) – 09/05/2021 (Missa às 10h, Dia das Mães).

Tem uma lenda de que São João, já velhinho, toda vez que tinha a reunião – que seria o que nós hoje chamaríamos Missa –, sempre pediam para ele: "Diga algo", e ele sempre dizia isto: "Jesus nos disse: 'Amai-vos uns aos outros'". Sempre, sempre, sempre. Anos e anos e anos. Uma celebração após a outra. Toda vez que pediam para ele falar, ele dizia exatamente essa frase. Com o passar do tempo, os líderes da comunidade foram se renovando, e uma vez tinha um grupinho bem mais novo de cristãos que iam organizar a celebração. Um deles falou para os outros, e todos concordaram: "Ah, que chatice! Toda vez que a gente fala com o apóstolo, ele sempre repete essa frase, sempre a mesma". Só que eles não viram que São João estava ali atrás e escutou tudo. Aí esses mesmos jovens pediram: "Irmão, nos diga alguma coisa". E ele disse: "Este é o mandamento do Senhor: amai-vos uns aos outros".

 

O amor, gente, é de todo dia, e ele é todo dia de novo. Você não ama para sempre; você promete amar para sempre, mas você vai renovar o seu amor todos os dias, porque não tem um dia que é igual ao outro. Nós poderíamos dizer que não tem uma hora igual à outra. Nós amamos e aprendemos a amar. Nós temos que aceitar o limite do outro, aceitar o nosso limite, aceitar que as coisas mudam, se transformam. A gente que tem cabelo branco, a gente não vive falando: "No meu tempo..."? Gente, é um saudosismo bobo. O amor é hoje! O amor é este dia! "No meu tempo" eu fiz uma experiência de amor que me ajuda a amar hoje. Mas hoje é outro tempo, é mais um passo. Por isso que não faz sentido os tradicionalistas. Essas são pessoas que ficam repetindo formas de amar antes, que não respondem mais ao amor de hoje. Não tem o menor sentido.

 

Hoje! E aí há um grande desafio que foi dado a esta geração: amar durante a pandemia. Nenhum de nós aqui viveu, conscientemente, os dramas da gripe espanhola, dos anos 1930. Acho que não tem ninguém aqui com 95 anos, não é? Teria que ser adulto para ter consciência do que estava acontecendo. Hoje, neste tempo, nos é pedido para amar como Jesus amou. Olha só! Deus nos pede, hoje, para amar como Jesus amou. Percebe? Amar hoje é ser responsável pelo outro, cuidar do outro. Não "meter o bedelho" na vida do outro, isso não. Cuidar da outra pessoa, cuidar de nós mesmos; neste tempo extremamente difícil, estender as mãos, naquilo que podemos, àqueles que sofrem. Hoje, mais do que há muitos anos. Nós não tínhamos uma situação de pobreza e miséria como estamos tendo no Brasil já há muitas décadas. Então nós somos chamados à solidariedade – a solidariedade é uma forma de amor. À honestidade. Não falar mal do outro. Buscar a verdade. Nós temos que aprender a não falar por ouvir dizer. "Alguém me falou", isso não existe! Você está mandando para frente um negócio, lavando as mãos de responsabilidade; só que, fazendo isso, você está sendo responsável por mandar esse negócio para a frente.

 

Hoje nós temos essas histórias de fake news, notícias que não se pode provar. Tem uma historinha – foi de verdade isso –, lá em 1500, em Roma. Infelizmente, era uma mulher, fazer o que? Homem também é fofoqueiro, mas era uma mulher fofoqueira. Ela foi falar com São Filipe Néri, que era um grande confessor, um grande padre daquele tempo. E ela falou: "Ai, padre, eu fiz uma fofoca contra uma amiga... Qual a minha penitência?". Aí ele respondeu: "Você vai subir na torre da igreja, vai pegar um travesseiro de penas e, às 5h da tarde, quando tem bastante vento, você vai rasgar esse travesseiro e jogar. Depois, você volta aqui". Aí a mulher foi, subiu na torre toda contente: "Vou pagar minha penitência!". Foi e jogou as penas no ar. Desceu a torre correndo – perigo danado de quebrar o pescoço... "Pronto, padre Filipe, está pronto!". "Pois é, minha filha. Agora, para terminar sua penitência, você vai recolher todas as penas".

 

Fake News é que nem rasgar um travesseiro de penas em cima de uma torre num dia de vento: por mais que você queira, você não consegue pegar tudo de volta. Se você fala mal de uma pessoa – às vezes só ali, entre vizinhos, entre colegas de trabalho (homem faz muito isso no mundo do trabalho, do jogo): "Oh, cuidado com fulano por causa disso", "Você viu o que a fulana fez?". E, às vezes, não é verdade. Como é que você vai limpar o nome dessa pessoa? Como é que você vai mostrar para cada pessoa que ficou sabendo daquilo que aquilo não é verdade? Você espalhou o que era falso. E aí, como você faz? Você não corrige mais. Mas isso nós estamos já pensando em pessoas que tentam corrigir; a coisa mais triste é que tem gente que faz isso para que as penas se esparramem mesmo, e isso é diabólico. Então, neste nosso tempo, uma forma de amar muito séria é não falar por ouvir dizer. "Ah, mas eu recebi esta mensagenzinha aqui". Faz morrer em você. Desce da torre sem abrir o travesseiro. Devolve o travesseiro sem rasgar para São Filipe. "Oh, São Filipe, eu recebi esta notícia aqui, mas como eu amo as pessoas, e eu quero amá-las, eu não vou rasgar esse travesseiro lá em cima coisa nenhuma". Eu não sei onde uma coisa dessa pode chegar... Eu não sei como está o coração do outro que recebe esta má notícia ou esta notícia falsa...

 

Então a busca da verdade é uma forma de amar. A honestidade, o diálogo. Vamos conversar, vamos buscar o bem dos outros. Isso a gente aprende em casa, viu? "Ah, eu quero, eu quero, eu quero!". Não. O que nós queremos? O que nós precisamos? O que nós podemos? Isso é educar, inclusive as crianças. "Eu quero, eu quero, eu quero!". Falar "não" é educativo. "Nós não podemos isso". Formas de amar até chegar ao limite máximo da expressão de amor, que é arriscar e dar a vida pelo outro. Isto pode nos pôr na cruz, isto pode nos levar à morte. A busca da verdade, a busca de ajudar o outro, a busca de esclarecer o outro, a busca de mostrar para o outro a verdade, a busca de denunciar o erro. Pode nos levar à morte, e muitas pessoas morrem. Não pense que isso é conversinha, balela de padre. Tem muita gente que morre por causa disso. Amar.

 

Então essa fala de São João, vamos nos colocar lá, nessa comunidade do primeiro século, com esses rapazes jovens que estavam animando a liturgia e já estavam cansados de ouvir essa frase de São João – o que mostra que eles não tinham entendido nada, né? Apesar de já terem ouvido isso muitas vezes. Vamos ouvir de novo, e sempre de novo: "Amai-vos uns aos outros assim como eu vos amei. Não existe maior amor que dar a vida pelos irmãos" [ref. João 15, 12s].

 

Às nossas mães. Toda mulher, de algum modo, é mãe, porque a mulher tem útero, e só mulher pode sentir isto: na hora do medo, na hora da aflição por outra pessoa, o útero se contrai. E Deus diz que ama o seu povo deste jeito: "As minhas vísceras tremem por você, Israel" (Israel é o povo de Deus). Esse é o amor que o Pai tem por nós, e o amor do Pai, em Jesus, se expressa, de forma máxima, na cruz: "Dou a vida para que todos tenham vida". Jesus, entregando a vida, deu vida nova. Vamos pedir ao Senhor pelas nossas mães, para que elas, realmente, possam ser luz, alegria e aconchego. Feliz Dia das Mães!

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Deus é bom, tenha confiança!

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 5º Domingo da Páscoa (Ano B) – 02/05/2021 (missa às 10h)

A Segunda Leitura de hoje [1Jo 3,18-24] nos fala do amor de Deus. Nós estamos lendo o Evangelho de João e as cartas de São João, então um texto chama o outro, não é? São João fala do imenso amor que Deus tem por nós. E esse amor se manifesta no perdão. Ele vai dizer: "Deus nos perdoou", mas às vezes alguém tem algum peso na consciência, e ele vai animar essas pessoas. Deus é maior que a tua consciência. Isso nos ajuda a nos aproximar de Deus com imensa confiança, nós não temos que ter medo de Deus em nenhum momento, porque Deus não é o deus terrível. Muitas vezes nós trocamos o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, trocamos Jesus, trocamos o Espírito Santo que é o amor do Pai e do Filho, por imagens de outros deuses que não são nem cristãos. O deus que criava terror só de se aproximar dele era Plutão, o deus dos infernos, dos romanos, ou Ades, também deus dos infernos dos gregos, mas esse não é o Pai de Jesus. O Pai de Jesus é o Deus da fidelidade, Deus da vida, não o deus cujo poder nos esmaga e nos destrói, por isso temos de ter confiança em se aproximar de Deus e nunca desconfiar de Deus, mesmo que nós tenhamos que caminhar no vale da morte.

Jesus nos mostrou que a morte não é o fim e essa é nossa fé: a morte não é o fim. Então nem ela nos assusta. Dói, mas não assusta. Jesus no Evangelho [Jo 15,1-8] vai nos dizer "Permaneçam em mim". O que significa "permanecer em Jesus"? Seguir Jesus. Se nós permanecemos Nele, se nós colocamos em prática o Seu mandamento, que é o mandamento do amor – não existe amor maior do que dar a vida pelos outros, por aqueles que nós amamos. Se nós permanecermos nisso, nós somos como um ramo de uma grande videira que ligada ao tronco dá frutos, muitos frutos. E Deus Pai vai cuidar para que nós possamos dar sempre mais fruto. Não significa nós darmos nossa vida fácil, viu gente?

Eu já falei muitas vezes, sempre que leio esse Evangelho eu lembro desse fato: o Evangelho diz que aqueles que dão fruto, Deus limpa. Deus não poda, Deus limpa para que dê ainda mais fruto. Uma vez em um parreiral, lá em Rio Grande do Sul, onde eu fui visitar um padre, nós estávamos vendo vários tipos de uvas, e uma dessas uvas estava toda mofada, e aí perguntei "Vocês não vão limpar isso aqui não? Isso aqui não vai estragar tudo?", aí me responderam "Não, nós não podemos mexer nessas uvas, elas têm que ficar com esse mofo, porque se tirar esse mofo, o vinho não é bom". O vinho precisa desse mofo, olha que coisa esquisita, a gente que vive com a ideia de esterilizar tudo – especialmente nesse tempo de pandemia, passamos álcool até no que não precisa. Mas então nós precisamos, entre aspas, da sujeira? Precisa! Olha que engraçado. Então nós muitas vezes olhamos para nossa vida e nós falamos "Meu Deus, olha quantos defeitos eu tenho, quantos limites", e a gente pede, pede, faz sacrifícios, faz penitências e Deus não tira aquilo da gente. Por quê? Porque pode ser o mofo que Deus quer em cima da gente para que esse mofo dê vinho bom. E aí de novo a confiança em Deus, que nos conhece e nos ama. Ele sabe que não somos perfeitos, mas Ele sabe que mesmo com todos nossos defeitos e limites é possível seguir Jesus, é possível amar aos outros. É muito difícil, a pessoa teria que ser um monstro total para que fosse totalmente incapaz de amor e afeto por alguém. Aquela pessoa é capaz de amar alguém, ao menos uma pessoa. E esse amor, nas mãos de Deus, pode ser exatamente aquele anzol para tirar a pessoa da destruição total.

Vamos pedir então ao Senhor, que o Espírito Santo nos dê a confiança em Deus, no Pai, em Jesus. E que o Espírito Santo nos ajude a amar, com os nossos limites, mas amar, porque esse é o caminho de Jesus.

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O Bom Pastor olha, incessantemente, por todo seu povo 

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 4º Domingo da Páscoa (Ano B ) – 25/04/2021(missa às 10h).

Como assusta a atualidade desta imagem do Bom Pastor. O Bom Pastor é aquele que se preocupa com a vida das suas ovelhas. O mercenário, aquele que não ama as ovelhas porque elas não são dele, não se importa. Ele vê o lobo chegar e abandona as ovelhas a si mesmas. Façam os lobos o que quiserem.

Já no Antigo Testamento, o profeta Ezequiel faz tremendas ameaças, em nome de Deus, contra os chefes do povo, que são os sacerdotes, o rei e os vários governantes do povo. Ele fala “se vocês não cuidam do meu povo, ele se dispersa. Eu mesmo vou cuidar do meu povo, mas vou pedir conta a vocês do que vocês fizeram a ele”. É assustador.

É interessante perceber que o Antigo Testamento é todo pautado nisso: ser fiel a Deus e governar com justiça ou ser adorador dos deuses da morte e explorar, fazendo o povo sofrer. Deus quer, porém, que todos tenham vida. Deus libertou o povo de Egito não para o povo viver de novo como escravo, não para ele morrer esfolado pelos poderosos do lugar, sem ter plenitude de vida. Deus quer que as pessoas vivam como irmãos, que cada um tenha dignidade, vida, casa e comida. Deus quer vida e Jesus nos mostra isso com a entrega de sua própria vida. E é muito interessante ver que a entrega da vida de Jesus o recoloca na eternidade, na glória com o Pai e a nós, ele comunica vida eterna. E isto nós já temos. São João nos fala: “nós já somos filhos de Deus, mas nós vivemos ainda na sombra deste mundo”. Ele também fala: “o que nós seremos ainda não chegou na plenitude, mas nós sabemos que quem ama o outro está com Deus”. Então vivendo no amor e na vida fraterna – que começa na comunidade e em casa –, nós já experimentamos os frutos da filiação divina, que nos foi dada, mas não é propriedade privada nossa.

São João vai dizer: “Jesus perdoou os nossos pecados e os do mundo inteiro”. Jesus diz: “eu chamei as minhas ovelhas. Tenho outras ovelhas que vão ouvir a minha voz”. E isto é para dizer o quê? Nós, batizados, não somos o clube dos salvos. Deus salva quem ele quer e Ele deseja a Salvação de todos. E quando nós dizemos “todos”, isto é muito abrangente. Significa até de quem faz o mal. Viu, gente? Deus quer que realmente todos se salvem. Deus quer os pecadores salvos? Sim. Deus quer a Salvação dos marginalizados, que nós vemos abandonados em nosso país, em um número cada vez maior? Claro que Deus quer.

O Bom Pastor, o bom chefe, o bom governante é aquele que cuida da vida do seu povo e não de si mesmo, apenas dos seus pontos de vista. Jesus é o modelo. Jesus morre pelo povo para que nós tenhamos vida eterna, para que nós aprendamos com Ele a nos doar pelos outros. Este é o caminho. Toda vez que eu deixo o outro sofrer ou deixo o outro morrer para encher meu bolso, eu estou sendo mercenário, que significa “soldado comprado”. Os mercenários são todos traidores porque eles servem a quem paga mais. Soldado mercenário é o maior tiro no pé que se pode dar pois ele sempre pode encontrar quem pague mais. Jesus não. Jesus entrega tudo, entrega a própria vida. Nós temos dificuldade para entender o que é isso porque nós até damos, mas a conta-gotas, com limite. Jesus quer que nós amemos de verdade e não tenhamos medo de ser pessoas que preguem a verdade. Este é o caminho da Salvação. Este é o caminho que Jesus abriu para nós.

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Converter-se e anunciar a Boa Nova de Jesus

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 3º Domingo da Páscoa (Ano B) – 18/04/2021

(missa às 10h).

Nós temos, nos Evangelhos, as narrações da ressurreição de Jesus. Cada evangelista escrevia o seu Evangelho para a sua comunidade, respondendo a situações concretas da sua comunidade. São João tinha uma comunidade que estava se dividindo, sendo devorada por algo que nós, depois, chamamos de "heresia": o gnosticismo, que faz desgraça até hoje no mundo – Nova Era, Espiritismo... É tudo gnosticismo revestido. E esse pessoal negava a corporeidade de Jesus e, também, que é preciso viver os mandamentos Dele; bastava conhecer, ser "iluminado". E São João vai ser duro. Já no Evangelho e, depois, nas suas cartas, vai ser muito incisivo: "Quem diz que conhece Deus" – ou seja, iluminado – "mas não ama o próximo, é mentiroso, a verdade não está nele. A verdade está naquele que ama o próximo, este conheceu Deus, porque Deus é amor, não é uma ideia" [cf. 1Jo 4, 20]. E São João vai insistir sempre: "Nós, que comemos e bebemos com Ele. Nós que O tocamos" – e tocaram também depois da ressurreição, como nós vimos domingo passado, com São Tomé: "Toca aqui, no buraco dos cravos. Põe a mão no furo que a lança fez. Creia, não seja infiel" [cf. Jo 20, 27].

 

São Lucas também vai ter esta preocupação de mostrar para sua comunidade que a ressurreição de Jesus não é uma ideia. Jesus não é uma alma penada, não é um fantasma que aparece; Jesus é aquele que morreu, foi além da morte, abriu-nos o caminho e voltou Senhor da vida, vida eterna! Jesus não é como Lázaro, que foi "reanimado"; não é como a filha de Jairo, que foi reanimada. Eles morreram depois, Jesus não. Jesus morreu, atravessou o vale da morte e, nesse caminho, se faz caminho, retoma a Sua glória de Filho de Deus, na eternidade, e volta Senhor da vida, vida eterna, a vida que está na Trindade – porque Jesus é a segunda pessoa da Santíssima Trindade encarnada. Então São Lucas vai insistir também: "Olha aqui as feridas dos cravos: sou Eu mesmo." – um fantasma não tem carne e osso – "Dai-Me alguma coisa para comer" [cf. Lc 24, 39-41]. Nós temos que lembrar que este fato – comer com os discípulos – não é um "lanchinho" de qualquer dia no meio da estrada; ele lembra, imediatamente, a última ceia. E aqui, no caso, dois verbos: "tomou" e "comeu". Na última ceia, Jesus toma o pão, parte, dá graças, entrega; com os discípulos de Emaús, toma o pão, dá graças e reparte; aqui, toma o peixe, come na frente deles – sinal de comunhão com eles, que estavam, provavelmente, jantando ou tinham acabado de jantar, estão nesse contexto de refeição.

 

Mas tem uma coisa interessante neste Evangelho [Lc 24, 35-48]. Jesus é a Palavra de Deus, Ele é a Palavra. E Ele vai dizer: "Cumpriu-se tudo o que estava escrito na Lei, nos Profetas e nos Salmos sobre o Cristo". Ou seja, o Antigo Testamento como espera do Messias acabou. Só que Jesus, podemos dizer, completa, escreve a última frase do Antigo Testamento e relança a Igreja, essa primeira comunidade, para o futuro: "Era preciso que o Cristo sofresse, morresse e ressuscitasse". Essa frase não existe no Antigo Testamento; Jesus completa e põe um ponto final na espera antiga. E continua: "E em Seu nome" – em nome do Cristo – "será anunciado o perdão dos pecados e a conversão a todas as nações, começando por Jerusalém". Ou seja, a nova missão da Igreja, que vai começar no dia de Pentecostes, alguns dias depois; mas, agora, com a Nova Palavra, Palavra que dura até o fim dos tempos – "Anunciarão a Sua Boa Notícia para todas as nações". Essa é a Nova Palavra até o fim dos tempos.

 

Depois, esta frase: "Vós sereis testemunhas de tudo isso". Testemunha, aqui, não significa só alguém que viu e fala. O testemunho, antes de tudo, é colocar em prática aquilo que a pessoa anuncia. No dia em que o padre é ordenado, ele recebe o Evangelho e o bispo diz: "Vive o que pregas", ou seja, "Seja você, sacerdote, aquele que testemunha com a vida, com seus atos. Você tem que anunciar o Evangelho, antes de tudo, sendo discípulo de Jesus". E se, no meio desse caminho, nós nos encontramos com fraqueza, com pecado, com infidelidades, o próprio São João vai nos ajudar: "Se você cometeu algum erro, você tem Jesus como intercessor" [cf. 1Jo 2, 1-5a]. Confesse teus pecados e comece de novo o caminho de conversão – caminho de conversão que vai até o fim da vida. Então nós, discípulos de Jesus, todos nós batizados, antes de tudo, temos que buscar viver, pôr em nossos dias, em nossa vida, o Evangelho. E não é só conhecer, precisa ir além, transformar nossa vida segundo o Evangelho. Mas, para isso, nós temos que reconhecer que, muitas vezes, nossa vida não está de acordo com o Evangelho. Às vezes, no meu dia a dia, eu percebo, por exemplo, que, não obstante a gente critique tanto e condene, justamente, o racismo – aqui no Brasil, particularmente contra os negros –, às vezes me escapa um comentário, uma atitude, e eu percebo o quanto eu ainda tenho que caminhar. "Meu Deus, esta atitude demonstra uma atitude racista. O Evangelho diz: 'Vós sois todos irmãos'. Eu tenho que arrancar isso do meu coração, porque isso não é de Deus". Confesso, diante de Deus, que estou no erro, e começo um caminho novo, ajudado pela graça de Deus. E isso até o fim da nossa vida. A purificação do nosso coração e a mudança das nossas atitudes são um longo caminho, mas que começa já! Conversão não é para amanhã, conversão é para agora.

 

Vamos pedir ao Senhor que Ele nos ajude a entrar nesta enorme confiança: Deus nos amou primeiro. O Papa Francisco diz que nós nos cansamos de pedir perdão, mas Deus nunca se cansa de perdoar. Que nós sejamos capazes de olhar para nossa vida, confrontá-la com o Evangelho e começar um caminho novo, para sermos verdadeiras testemunhas de Jesus.

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A ressurreição é a luz da eternidade

Padre João Aroldo Campanha – 2° Domingo da Páscoa, Festa da Divina Misericórdia (Ano B) - 11/04/2021 (Domingo, missa às 10h)

Estamos no segundo domingo da Páscoa. Durante oito dias a contar da Páscoa, nós contamos como se fosse um único dia, tanto que durante as missas que celebramos durante a semana – infelizmente não estamos celebrando aqui na igreja, o padre está celebrando as missas sozinho em casa. Todos os dias desta semana nós rezávamos não neste tempo da Páscoa, mas neste dia – oito dias como se fossem um único dia, por isso nós dizemos Oitava da Páscoa. E neste tempo, vamos dizer assim, esta alegria vai se estender por mais quarenta dias até Pentecostes. A alegria da Páscoa está viva na Igreja e, essa alegria depois com Pentecostes se esparrama para o mundo para anunciar o Evangelho.

Nós temos este Evangelho, que nós já conhecemos, João bem ali mostra os onze apóstolos, onze não, dez, reunidos e Jesus que aparece várias vezes no dia. Naquele domingo, Jesus já tinha se manifestado: se manifestou no primeiro momento para as mulheres, se manifestou para Maria Madalena, se manifestou a Pedro, se manifestou para os doze, se manifestou para aqueles dois discípulos que estavam indo a Emaús, Jesus se mostra para as pessoas que conviveram com Ele. Por quê? Jesus não é um milagreiro barato, a fé ela nasce do testemunho de vida. A vida que Jesus levou com aquelas pessoas, os anúncios que fez, os milagres que realizou, todo o drama daquele processo, dos sumos sacerdotes, saduceus, fariseus, doutores da lei, que foram apertando o cerco, o próprio Herodes que disse que ia matar Jesus... Esses apóstolos, essas pessoas que estavam próximas, elas viram tudo isso, elas conheceram os fatos desde dentro e é para essas pessoas que Jesus se manifesta. Para que? Para que elas possam olhar a vida de Jesus e o caminho que eles fizeram à Luz da ressurreição. Tudo na vida de Jesus passa ter um sentido novo, um sentido pleno a partir da ressurreição. E Jesus no caminho de Emaús vai ensinar os apóstolos a lerem a Sagrada Escritura, ou seja, o Antigo Testamento, as leis, os salmos, os profetas, não mais como os hebreus liam, mas sempre à Luz da ressurreição. A ressurreição fará a Escritura todinha ter uma nova luz, por isso o Concílio Vaticano II vai dizer que o Antigo e o Novo Testamento formam uma única Escritura, aí algumas pessoas podem dizer: mas lá no Antigo Testamento está dizendo que estão esperando o Messias, se Ele já veio, então não serve para nada. Não, é à Luz da ressurreição que nós lemos isso. Eles estão anunciando, eles são preparação a ressurreição, então serve de baliza, é uma baliza nova, é um novo modo de ver toda a Escritura e toda a revelação de Deus que foi feita antes da ressurreição de Jesus.

Uma coisa muito interessante, nós podemos perguntar, mas para que essa história desse homem com tantas dúvidas? Isso não é para eles, isso é para nós. A dúvida de Tomé é algo para nós. Os outros relatos falam de Jesus, São Lucas vai inclusive dizer que eles estavam tão incrédulos naquilo que Jesus se senta e como um pedaço de peixe assado com eles, para que eles se dessem conta de que aquilo não era um fantasma, aquilo é o novo de Deus. E São João se lembra desse fato, esse discípulo que diz “pera aí, isso pode ser tudo conversa mole de vocês, vocês podem ter bebido um pouco demais e começaram a ver coisas. Ninguém botou a mão nele. Não, eu quero botar a mão”. E ele faz esse gesto quando Jesus aparece novamente e diz ‘Põe aqui na minha mão – era no pulso na verdade. Põe na minha mão, o dedo no buraco, no furo, no rasgo que a lança fez no meu peito. Põe a mão aqui, não duvide’. Tomé fez um gesto para nós, Jesus não é um fantasma, Jesus não é uma alma voando por aí. Jesus ressuscitado é Ele inteirinho. O mesmo Jesus que caminhou com eles, agora está vivo de um outro modo. Ele mantém, carrega consigo as marcas da sua vida, das consequências, das opções da sua vida. Os sinais da Cruz são os sinais da fidelidade de Jesus à vontade do Pai, é a fidelidade que está ali marcada naqueles pregos, nos buracos daqueles pregos, no buraco daquela lança que abriu o peito de Jesus depois que ele já tinha morrido, está lá, mas Ele é o novo, Ele é diferente. Os discípulos de Emaús não O reconheceram num primeiro momento, ou por um longo caminho. Maria Madalena num primeiro momento não O reconheceu, os próprios apóstolos nos outros Evangelhos aparecem como assustados, pensando que fosse um fantasma. Tem algo novo, por quê? Porque é o mundo de Deus, é o mundo de Deus que aparece nesse nosso mundo frágil e finito, nesse nosso mundo condenado à morte. Em Jesus ressuscitado, aparece a eternidade. Quando Santa Bernadete falava de Nossa Senhora, ela dizia: nunca vi nada mais lindo, e depois daquelas visões a luz do sol deste mundo não era mais tão brilhante. Ela viu a Luz da eternidade, isso os apóstolos viram, o mundo de Deus. Por isso que a pregação do Evangelho, é pregação de um mundo humano possível. Jesus, enquanto estava conosco, pregou o amor fraterno entre nós, valores novos e Ele morreu por isso, porque essa era a vontade do Pai, que nós nos amemos como irmãos. Então é possível construir um mundo mais parecido com aquilo que Jesus anuncia, mais parecido que aquilo que Jesus viveu, nós podemos fazer, porque Ele se fez um de nós. Ele não é um fantasma e se Ele amou com amor humano, nós também podemos, com a graça Dele podemos imitá-lo, podemos segui-lo. E São João vai dizer que o verdadeiro amor a Deus aparece no amor ao próximo. Se você ama o próximo, é porque você ama a Deus. Você não pode dizer que ama a Deus se despreza o teu irmão, nisso o amor de Deus se manifestou. Deus nos amou primeiro não só em questão de tempo. Ah, Jesus nos amou há dois mil anos atrás. E o pessoal que tinha morrido antes de Jesus, Deus não amou? Não. Deus ama sempre. O amor de Deus é presente, ele é eterno. Nós que temos passado e futuro. Nós vivemos um presente que goteja, nós não saímos disso, nossa vida é sempre este tempo que goteja. Mas Deus é presença eterna, então o amor Dele é imutável desde antes a criação do mundo, e será imutável também depois da consumação dos séculos. Deus nos ama, Deus nos amou primeiro neste sentido, é amor eterno. É amor antes do tempo, e vai ser amor além do tempo. Nós podemos imitar este amor, Jesus nos mostrou como, Deus que é amor eterno se tornou humano, e nos amou com a capacidade humana, nos ensinou a ser fiéis, até a morte se for preciso. Esse é o caminho de Deus, esse é o caminho do amor eterno e nós podemos fazer, porque Deus nos ajuda, Deus nos dá a sua graça, nós sozinhos não podemos, mas a graça de Deus pode fazer isso em nós. Ele sustenta a fraqueza humana, Ele vai além, até mesmos das nossas infidelidades, dos nossos pecados, das nossas fraquezas. Todos os santos tinham as suas fraquezas, todos os santos talvez tivessem seus pecados, mas a graça de Deus suporta, carrega, dá força para aqueles que buscam viver na fidelidade.

Depois nós temos essa primeira imagem, uma imagem pitoresca da igreja primitiva, os discípulos, os irmãos tinham tudo em comum, vendiam tudo o que tinham e colocavam aos pés dos apóstolos, isso é tudo muito bonito, se o mundo acabasse em um ano. O problema é que o mundo não acabou em um ano e, com esse modelo, eles foram muito ingênuos e algum tempo depois o dinheiro acabou, venderam tudo, acabou. E as outras comunidades tiveram que ajudar a comunidade de Jerusalém. São Paulo fez uma grande coleta entre as comunidades para ajudar a comunidade de Jerusalém, e ali nos descobrimos que o nosso modelo deve ser o da solidariedade, dar de coração, sem constrangimento e sem má consciência. Dar o que te diz o coração, esse é o ensinamento de São Paulo, que depois vai guiar as práticas das comunidades cristãs. Vamos pedir ao Senhor que nos ajude a amar, que Ele nos ajude a ser mais irmãos e irmãs dos outros, participar mais dos sofrimentos dos outros. É tempo de pandemia, mas nós podemos ser solidários. Solidários na ajuda aos mais necessitados, que agora no Brasil são mais de 19 milhões, isso dos famintos, porque se fala em 100 milhões de pobres, nós estamos no desgoverno mais absurdo das últimas décadas, e a solidariedade é possível. É possível nos tornar próximos dos que sofrem. Quantas pessoas perderam seus familiares. Ah, mas eu não posso visitar. Você pode mandar uma mensagem, você pode fazer um telefonema, tem muitos jeitos. E jeitos que não custam, você não tem que ir ao correio para mandar uma mensagem de WhatsApp. Vamos colocar-nos à disposição das pessoas. Às vezes eu não posso ir visitar, mas eu posso fazer uma compra e ir levar até a pessoa, tem tantos modos de ajudar. Vamos fazer o melhor que podemos.

Hoje também é o Domingo da Misericórdia, o que que nos lembra isso? Deus é misericordioso. Nós pensamos – porque nós somos vingativos, extremamente vingativos – que a misericórdia e a justiça não andam de mãos dadas. A misericórdia é a irmã, eu diria sinônimo, da justiça divina. A misericórdia de Deus vai muito além, infinitamente além da nossa justiça, que é extremamente vingativa, muitas vezes não é curativa, não reintegra as pessoas, na maioria das vezes não as ajudam a ser cidadãos melhores. Não é essa justiça que Deus tem. A nossa concepção de justiça é vingativa, que é mandar um monte de gente para o inferno. Deus não é assim não. A alegria de Deus é ver o inferno vazio. Aliás, o inferno é a solidão esquizofrênica de tudo. Deus é misericórdia e bondade. Quando nós celebramos o Domingo da Misericórdia, as portas da misericórdia de Deus estão escancaradas. Isso não quer dizer que estão escancaradas hoje, agora. A misericórdia de Deus está escancarada desde a criação do mundo e se mostrou a nós na cruz de Jesus. Jesus carrega em si estes sinais. É a misericórdia de Deus que se derrama sobre nós e nos chama continuamente a ser melhores. Caminhe os passos de Jesus, busque o bem das pessoas, não procure só o seu interesse, pense nos outros, não se coloque como melhores que os outros, mas como servo dos outros, quem mais tem, mais tem que dar. Quantos talentos nós temos, vamos pôr à disposição. Este é o chamado que o Senhor nos faz, nós, cristãos católicos, devemos ser as pessoas mais alegres, a gente tem que andar na rua rindo sozinhos, porque nós sabemos que Deus é bom. Deus quer que todos sejam felizes e nós devemos fazer o possível para que todos sejam felizes já neste mundo com a prática da justiça e a paz entre as pessoas. Vamos louvar a Deus pela sua bondade, pela sua Misericórdia, por nos ter dado seu Filho Jesus, como revelador do Pai.

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Que a alegria da ressureição transforme o mundo

Padre João Aroldo Campanha – Domingo de Páscoa (Ano B) – 04/04/2021(Missa às 10h).

Nós não podemos, de modo nenhum, reprovar, nem Maria Madalena, nem as outras mulheres, nem Pedro porque foram ao túmulo procurando um cadáver. É o drama humano: a morte.

Nós prestamos culto aos mortos. Quando nós estudamos o passado do ser humano, nós podemos dizer que, a partir do momento em que foi feito o primeiro enterro, ali existe ser humano, não apenas um corpo. Mas dali para frente, tem-se consciência da existência da alma humana.

Alguns animais têm certa reverência pelos mortos. Os elefantes fazem guarda para o morto por horas e, depois, simplesmente o abandonam. Alguns primatas, chimpanzés e macacos também se aproximam do morto, tocam-no, mas, após certo momento, viram as costas e vão embora, entregando-o à putrefação. O ser humano não. O ser humano reverencia este mistério, que é a morte. Por isso, para nós, neste tempo de pandemia é tão difícil olhar os que morrem com COVID. Nós, praticamente, não podemos prestar, no momento, culto ao cadáver.

Maria Madalena levanta-se, ainda de madrugada, prepara aqueles aromas para cuidar, demonstrar toda sua devoção, carinho e gratidão a um cadáver. E não é possível que faça diferente. Quando Maria chega ao túmulo, nós podemos dizer que sentiu ainda a “rocha quente” da ressurreição. Ela não acredita e na sua cabeça se passa o que passaria a qualquer um de nós: roubaram o cadáver. Isso a transtorna. Ela corre até os apóstolos: “roubaram, roubaram o cadáver! Roubaram o corpo. Não está mais lá”. Como um defunto não sai andando, concluiu que o roubaram. E os dois discípulos correm. O discípulo amado corre mais rápido. E aqui nós temos uma figura teológica: o amor nos atrai. Tem algo estranho ali, e ele é atraído por isto.

Pedro está imerso em suas desilusões. Ele esperava um Messias político, um Messias que fosse restaurar Israel. O Rei Messias que iria fazer de Israel a nação mais gloriosa do mundo. O descendente de Davi prometido por Deus. Ele caminha – talvez até corra –, mas sob o peso dessa enorme desilusão. João chega na porta do túmulo, na beirada do túmulo, abaixa-se – porque a entrada do túmulo era uma descida –, olha dentro daquela sala e vê as faixas. É como se o corpo tivesse “evaporado”. É isso que João viu e crê.

O amor vai além. O amor supera as coisas comuns do dia a dia porque ele consegue ter entendimentos que a razão comum não consegue ter. Depois chega Pedro, que olha e permanece perplexo ao ver que o cadáver não está aqui. Em seguida, voltam para casa. A Sagrada Escritura nos diz que, depois deste fato, em algum momento do dia, Jesus apareceu a Pedro. Tanto que, à noite, quando os discípulos de Emaús voltam, eles mesmos vão dizer: o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão. É a revelação de Deus, que é algo que vai além da nossa possibilidade.

Jesus nos revela o que está no coração de Deus. E só quem está no coração de Deus pode revelar isso. Jesus nos revela filhos de Adão, filhas de Eva, criados do barro. Mas nos diz que não é este barro, este pó, a última palavra da vossa vida. A vossa vida é para a eternidade. É vida para luz. E o caminho é Jesus. Caminho este que começa aqui, neste mundo. Porque se a nossa vida tem sua plenitude, o seu cumprimento, é porque esta vida é um caminho que pode ser gasto para amar, para fazer o bem, para transformar o mundo em um mundo de irmãos. Esta é a grande novidade do Evangelho. Esta é a Palavra de Deus que nos é revelada pelo próprio Deus, que é Jesus. Não com simples palavras, mas com sua vida, com a sua ressurreição.

O Pai coloca o selo da sua aprovação na vida humana de seu Filho, que estava com Ele na Glória antes da criação do mundo, na eternidade. Este Filho, que se esvaziou da sua glória e se tornou um de nós, caminhou nas nossas estradas. Ele faz o caminho do Pai. Ele mostra a fidelidade do Pai e nos chama a ser fiéis como Ele. Assim como Ele se fez humano como nós, isto mostra que somos capazes, cada um a seu modo, cada um na sua medida de seguir os passos de Cristo. E isto não por nossas forças, com nossa boa vontade, mas abrindo-nos à graça do Espírito Santo de Deus.

Vamos pedir ao Senhor que a alegria da ressurreição, que nos mostra que nossa vida é um além, nos ajude a transformar este mundo, para que ele seja sempre mais parecido com aquilo que é a Glória do Pai. Que nós possamos, apesar das nossas fraquezas – e também com elas –, apesar dos nossos pecados – que Deus perdoa –, trilhar o caminho humano de Jesus, porque este é o caminho da vida eterna.

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A ressureição nos ensina a amar

Padre João Aroldo Campanha – Vigília Pascal (Ano B) - 03/04/2021 (Sábado Santo, missa às 18h)

Meus irmãos e minhas irmãs, a fé em Jesus ressuscitado é a nossa força. A fé em Jesus ressuscitado é a garantia da nossa ação. Jesus nos mostrou, no Evangelho, que o Pai trabalha, a criação não foi terminada. Jesus é o ser humano, o ser humano desejado por Deus na eternidade. Ele gerou o seu Verbo Eterno, seu Filho e o desejo que Ele fosse o Homem perfeito. Não existem outros super-homens. O super-homem é o Homem da Cruz, é o Homem que é fiel até a morte, o Homem que anuncia a paz, a paz que Deus nos dá e a paz que nós podemos construir.

Com a ressurreição de Jesus, inicia-se o oitavo dia da criação. Deus repousa, e Deus quer que toda a criação – o ser humano e toda a criação – entre nesse oitavo dia. O número sete é número de completamento, o número oito é a eternidade, a volta sobre si mesmo. Eternidade. Deus nos criou para a eternidade, em Jesus, o Cristo. Ele nos criou, olhando para o seu Filho. O seu Filho, a seu tempo, desceu do céu, se tornou um de nós, nos ensinou a ser humanos – humanos novos, não mais nos fazendo de barro, mas nos ensinando a amar, nos ensinando a fidelidade ao Pai, nos ensinando que nós somos irmãos e irmãs. Nós nos lamentamos do mundo, mas por que o mundo é como é? Porque o mundo não vive o anúncio de Jesus. O mundo não vive considerando o outro como irmão, por isso promove guerras, por isso promove a fome, num tempo onde nós temos mais que o dobro do necessário de comida para a humanidade, nós ainda temos milhões de pessoas que morrem de fome, invejas, a busca do lucro desenfreado à custa de milhões de desempregados. As situações mais mesquinhas desde o roubo da merenda até gastos astronômicos numa nave espacial, ou pior, uma bomba atômica! Por quê? Porque não aprendemos a ser irmãos. Desrespeitamos as pessoas, consideramos as pessoas descartáveis, segunda, terceira, quinta categoria. Não consideramos o outro como um irmão. Irmão é igual, igual em dignidade. Quanto mais um irmão sofre, mais os outros tem que ajudar, porque o que vale não é o lucro, mas a vida do outro.

Esse é o novo que Jesus nos trouxe, essa é a verdade que transformará a face da terra em um mundo novo. Essa é a parte nova da criação que Deus confiou a nós, Ele nos mandou seu Filho, desejado desde a eternidade, para que fosse para nós modelo, para que fosse para nós caminho, para que fosse para nós ponte, força, para que possamos também nós com sua ajuda e com sua graça ser verdadeiramente filhos e filhas de Deus, homens e mulheres que promovem e vivem a paz. A paz entendida da forma hebraica, a paz que é vida, saúde, casa, educação, respeito, acolhida das várias diversidades da humanidade. Paz que é prosperidade, mas prosperidade que é fruto do trabalho comum, onde todos têm a oportunidade de dar seus frutos para o bem de todos – de todos, não de 2% da humanidade, não para 10%, para todos os irmãos que diante do Pai são iguais. E como é difícil para nós aceitar e entender isso, nós queremos sempre ser diferentes, os melhores, aqueles que apontam os dedos para os outros, aqueles que dizem inclusive: você é um pecador, não te posso abençoar... Como somos arrogantes! Deus morre pelos pecadores e faz um absurdo, leva consigo para a eternidade um assassino. Os malfeitores que estavam na cruz com Jesus estavam envolvidos com homicídio, por isso foram condenados do jeito que foram condenados, e Barrabás também iria acabar com eles lá, no mesmo lugar, só que Jesus pegou o lugar dele. Jesus leva esses homens para junto Dele, como para dizer pra todos nós: ninguém é melhor que ninguém. Ninguém é melhor que ninguém, todos são chamados a ser irmãos, todos! E a salvação é para todos, inclusive para os absurdos e cínicos assassinos de Jesus. Ninguém é excluído da salvação. Isto também nos deixa perdidos, como é possível? Isto é incompreensível sim, porque o amor de Deus é maior do que nós, a misericórdia de Deus é mais justa do que a nossa justiça, e o Pai quando ressuscita Jesus e o recoloca no trono da sua glória – glória que Ele tinha antes da criação do mundo, porque é Filho, igual ao Pai, mesma dignidade, mesma divindade. Ele diz: é exatamente isso o homem novo. A fidelidade, que se torna doação e chega ao extremo de dar a vida, se necessário, nos faz homens e mulheres novos. Vida nova. Às vezes, nós pensamos em coisas do outro mundo, mas é na vida do dia a dia que nós vivemos a fidelidade a Deus, que nós vamos aos poucos nos assemelhando mais a Cristo: um pai de família que se dedica aos filhos e a esposa, a mãe de família que se dedica aos filhos e ao esposo, a família que se dedica ao bem da comunidade, do bairro, da cidade, as pessoas que se ajudam entre si, que praticam a justiça e promovem a paz, resolvendo os conflitos com diálogo, as nações que se ajudam e não se roubam.

Nestes dias, ouvimos falar da situação terrível que estão sofrendo a população que está sofrendo lá no Norte de Moçambique, milhões de pessoas levadas à beira do desespero e da morte. E se você vai escavar nisso, não são guerra entre etnias, não são grupos de fanáticos. Sim, tem tudo isso, mas isso tudo é pago, insuflado e promovido pelos grandes produtores e recolhedores de gás natural. Não estão preocupados com a população, com o bem do povo de Moçambique que seria extremamente rico, se este gás extraído para o bem também dos outros povos, rendesse benefício para eles. Não, deve-se esmagar esta pobre gente, levá-los à morte e à fome, com tanto que nenhum metro de gás seja tirado a menos que as nações que estão explorando continuem se enriquecendo. No Iêmen, ao lado da Arábia Saudita, estamos tendo uma situação muito parecida. Sem falar do Brasil, que há anos e anos não tinha nível de corrupção tão alto como agora. As organizações mundiais começam a nos colocar outra vez entre as nações de governos corruptos, se nós nos preocuparmos com o outro como irmão, nós, nesta hora, já teríamos vacina para todos, nós não teríamos catorze milhões de desempregados. Catorze milhões de desempregados multiplicados por quatro ao menos nos dão mais de cinquenta milhões de pessoas sem renda em casa. Isto é um absurdo, um desastre! E grandes empresários se enriquecendo, durante a pandemia. Enquanto os pequenos quebram, os grandes se enriquecem. Venda tudo, jogue tudo no lixo, venda a preço de banana, metade da banana vem para o meu bolso, o resto, jogue para o povo, deixe o povo morrer. Estas são as consequências de não ver o outro como irmão. Jesus nos ensina que só na fraternidade nós poderemos ser realmente humanos, verdadeiros filhos e filhas de Deus. E o Pai deu a sua aprovação a Jesus, ao seu modo de fazer, ao seu modo de pensar, aos seus sentimentos, à sua fidelidade. A ressurreição é o selo do Pai que proclama “Este é o meu Filho amado”. Nele e à imagem Dele, Eu criei o universo, o ser humano e o ser humano deve aprender a ser como Ele.

Vamos pedir ao Senhor que ele nos ajude a nos convencer que só quando nos damos a vida e promovemos a vida, vendo os outros como irmãos e irmãs é que nós estaremos no caminho da verdadeira paz, do verdadeiro respeito pelo outro.

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Ser fiel ao Pai, como Jesus

Padre João Aroldo Campanha – Paixão e Morte do Senhor (Ano B) - 02/04/2021 (Sexta-feira Santa, celebração às 15h)

A cruz de Jesus e o seu processo mostram o que é ser do Pai e ser dos poderes do mundo, ser do deus mamona. Jesus era indiferente ao templo. Jesus muitas vezes foi ao templo, mas para fazer pregações, não aparece em nenhuma página da Escritura que Jesus, durante seu ministério, participasse de algum ritual do templo. Dessa forma, Jesus desautoriza o templo. Jesus já tinha expulsado os vendilhões do templo e isso causou um escândalo.

No momento em que Jesus é preso, Ele desmascara também a mentalidade até mesmo de seus discípulos. Pedroainda espera o messianismo de força e de poder. De fato, ele tinha uma espada e corta a orelha direita do servo do sumo sacerdote. O sumo sacerdote, quando era consagrado, não podia ter defeito físico nenhum e ele era "ungido" – não se diz ungido porque era sangue. O sangue do sacrifício se passava exatamente no lobo da orelha direita. Pedro, cortando essa orelha, em um ímpeto de raiva, São João vê nisso a de sagração do sumo sacerdote. O sumo sacerdote, que na verdade é Anás, Caifás era só uma figura de momento. Caifás foi sumo sacerdote de 6 d.C. até 15 d.C. Depois disso, ele colocou cinco filhos dele, um atrás do outro, como sumo sacerdotes, e finalmente colocou o próprio genro, mas quem manipulava tudo, quem governava tudo era Anás. De fato, é para a casa dele que levam Jesus e vão dizer "a casa do sumo sacerdote". Ele era o grande manipulador, homem rico, avarento, que vai julgar por trás, que manipula as cartas, que faz as mentiras parecerem verdades. Ele chantageia, manipula as massas e se aproveita de uma mentalidade do povo que tinha desacreditado nos reis. Herodes, Magno, aquele que fez a perseguição aos inocentes quando Jesus era pequeno, aquele homem era um usurpador, ele e seus filhos Arquelau, Herodes Antípa, e outros filhos que teve eram todos usurpadores, então o povo não acreditava mais nesses reis. O povo começou a acreditar nos sumos sacerdotes, e reconheciam neles a grande autoridade. É um perigo, quando a autoridade religiosa se torna autoridade civil e política, quando se torna autoridade econômica. Foi exatamente isso que aconteceu com os sumos sacerdotes e Anás jogava esse jogo muito bem, perverso. Jesus vai dizer que o inimigo é o pai da mentira, assassino desde o início, o grande servo do inimigo aqui é Anás. Jesus já tinha desautorizado o templo, Pedro cortando a orelha direita do servo do sumo sacerdote que por acaso se chama Malco – Malco significa "rei". Jesus desautoriza o sumo sacerdote e aqueles que se dizem reis. Destitui, não reconhece a autoridade religiosa nem aquela civil. Estes homens são todos servos do deus mamona, do deus dinheiro, do deus lucro, e o deus mamona só pode dar uma coisa: morte, exploração, humilhação. Não se interessa com nada, a única coisa que interessa é que os cofres estejam cheios, mesmo que os pobres tenham que jogar dentro deste cofre, tudo o que tem para viver. É assustador.

O que os hebreus esperam no Messias? Que reforme o culto, que reforme as instituições, que faça de Israel uma grande nação, aliás, a maior nação do mundo e que posso dominar sobre o mundo, impondo a Lei de forma implacável. Jesus não aceita nada disso. Deus é amore o amor dá a vida. O amor não mata, o amor morre para que o outro viva. Isso é o absurdo que eles não aceitam. Nem Pedro entendia isso, se não ele não tinha levado a espada. Nem os outros apóstolos entendiam isso, porque senão não iam brigar entre si, dizendo que ia ficar a direita e a esquerda de Jesus. Todos fugiram. Pedro segue Jesus com o discípulo amado de longe, ou seja, "eu não tenho que aparecer, vamos ver no que vai dar". E, quando Pedro é confrontado, ele cede, "eu não aceito esse Deus aí não, eu não aceito esse Messias, esse Messias me pede pra acabar que nem Ele e eu não quero". Isso nos ajuda a ver que o caminho do Evangelho é desafiador, mas Pedro se arrependeu, retomando várias vezes o caminho... Quantas vezes Pedro voltou atrás? Muitas, até São Paulo desmascarou Pedro pela sua hipocrisia uma vez. Como esse homem fez um vai-e-vem, que é muitas vezes o nosso caminho, mas por fim, foi fiel.

É um caminho difícil e, Jesus não aceitando o poder deste mundo, Ele vai ser difamado, visto como um endemoniado, um herege, e depois eles o condenam como um malfeitor. Ele foi detonado, humilhado, com uma morte terrível, porém o Evangelho é muito sutil quando diz "Jesus tomou sobre si a cruz". Jesus vai livremente para a morte como a dizer "eu morro para ser fiel, eu morro para amar, o ódio não pode ser respondido com ódio". O que vence o ódio, o que vence os poderes do mundo é o amor radical até o fim, por isso Jesus coloca a cruz sobre os ombros, Ele pega a cruz, Ele carrega a cruz. Claro que a cruz seria imposta, mas tem esse detalhe, Ele pega a cruz, Ele faz da cruz algo seu, esse sinal, essa opção de ser de Deus, de ser do Pai, de ser fiel ao Pai, de ser a revelação do Pai, de mostrar "Eu sou Deus, e Deus ama até o fim". Deus não destrói, Deus não mente, Deus não manipula, Deus se entrega e Jesus faz isso.

O Evangelho de João é muito seco nas palavras de Jesus quando está na cruz, mostra a mãe e o discípulo amado, Jesus que tem sede, Jesus que entrega o espírito. "Eu atrairei todos a mim". Maria e João se aproximam de Jesus, é um gesto para escutar as palavras deste homem torturado e agonizante e, nesse movimento, Jesus reconhece o caminho que vai ser feito, aqui começa a atração do mundo, o mundo inteiro virá atrás de Jesus, o mundo terá vida se seguir o caminho de Jesus. Amor, liberdade, paz, solidariedade, justiça, fraternidade são essas as palavras que devem ser acompanhadas sempre dentro daquilo que chamamos de caminho cristão. Durante a Campanha da Fraternidade, vimos a palavra "acolhida do diferente", esse é o caminho de Deus, não o caminho dos preconceitos, dos ódios, dos muros, mas o caminho da acolhida e do respeito, do reconhecer na outra pessoa, seja quem for, um irmão e uma irmã minha, com a mesma dignidade, de filho e filha de Deus. Jesus paga com a vida por isso.

Nós podemos pensar "Nossa, mas é tão pouco", não é tão pouco. Pautar a vida por esses valores, pode nos levar a morte, reconhecer que os sofredores e os explorados são dignos de atenção, cuidado, pode nos levar a morte. Ameaças de morte têm tantas. Nós temos exemplos, e muito recentes, pessoas que cuidam dos pobres e que são ameaçadas de morte. Tivemos muitas pessoas, especialmente no campo, entre operários, entre camponeses que foram mortos, por quê? Porque não aceitam, em nome de Jesus, o mundo da morte e da exploração do outro. O caminho de Jesus é muito forte, o amor de Deus vai muito além do que o que os poderes deste mundo podem fazer. Os poderes deste mundo podem te matar e, além disso, o que sobra para eles? Todos nós vamos morrer, todos nós vamos encontrar com nada, todos nós teremos este momento terrível do estar sem nada, de ser nada. E nisso nós vemos Jesus também solidário com todos nós, Jesus desce ao frio do túmulo, talvez com tantas figuras românticas, Maria Madalena que chora, Nossa Senhora que O segura, tem muito romanticismo aqui, mas Ele está no frio do túmulo. Quando se coloca a tampa, quando se gira as costas, Jesus assume esse lugar. Se faz solidário com toda a humanidade, da morte nenhum de nós escapa. Há os que são santos, há os que são extremamente pecadores, há os monstros da história, mas, na morte, todos nós somos solidários, e Jesus abraça a nossa morte. Jesus morre a nossa morte, carregando sobre si o que nós somos capazes de produzir, morte, destruição, pecado. Jesus carrega tudo isso consigo. Nenhum de nós pode se dizer inocente diante de Jesus crucificado, e os inocentes aparecem crucificados. Procuremos especialmente neste tempo aprender de Jesus, aprender de Jesus que nos dá a vida, aprender de Jesus que não mata, aprender de Jesus que não condena as pessoas, aprender de Jesus que se coloca do lado e junto dos que sofrem daqueles que são tidos como amaldiçoados pela religião. Lá nos tornamos discípulos de Jesus, esses valores nós temos que aprender a colocar na nossa vida, porque só assim seremos discípulos, luz para o mundo. É um caminho difícil sim, cruz não é de chocolate, é um caminho duro, mas é o caminho da vida, da liberdade.

Lembra um fato, não sei se vocês se lembram... Há alguns anos, teve uma grande revolta e manifestações na China, e tinha até tanque de guerra. Uma pessoa se colocou na frente dele, e o tanque de guerra passou por cima do sujeito. É um absurdo, fizeram protestos internacionais, a China teve que mudar uma série de coisas rápido, porque as repercussões tinham sido terríveis, porém, aquele homem não se deixou intimidar pela violência e pela escravidão. Ele preferiu morrer livre, ele se colocou na frente do tanque de guerra, ninguém o obrigou a fazer aquilo, ele o fez livremente. Isso nos ajuda a entender o que Jesus fez. "Eu não vou responder ao ódio do mundo com ódio, o mundo com seus poderes não destrói a minha liberdade, o mundo com seus poderes não me impede de amar até o fim". Isso é redentor, isso salva, e a resposta do Pai virá na madrugada do domingo, mas vamos permanecer diante da cruz. Facilmente nós queremos sair dela, especialmente nesses dias, tantos problemas, isolamento, depressão... São momentos difíceis? São, até eu fico chateado de vez em quando, mas é a cruz! Vamos aprender, vamos caminhar mais uma vez, vamos fortalecer nossa esperança, Jesus não se abate, vamos abraçar a cruz, porque depois da noite longa, por mais longa que seja, sempre vem a aurora. Nós vamos permanecer diante da cruz porque a aurora vai chegar.

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Fidelidade ao caminho de Cristo

Pe. João Aroldo Campanha – Ceia do Senhor (Ano B) – 01/04/2021(missa às 18h30).

Última Ceia. Um momento cheio de tensão e, pela dinâmica daquele momento, nós percebemos que os discípulos não estavam entendendo nada. As pessoas que sabem que estão enfrentando de cara o inimigo, sabem que o inimigo vai se aproximando e que o cerco vai se apertando, e chega a hora que a pessoa sabe que vão matá-la.

Jesus já tinha percebido isso. Dias antes, ele já tinha dito isso, em várias ocasiões. Antes, ainda, Jesus já tinha dito “o Filho do Homem vai ser traído, vai ser morto”. Os seus discípulos não entendiam porque a ideia que eles têm é a ideia dos poderes deste mundo, que usam tudo o que podem para se manter por cima, para encher-se de privilégios, para encher os bolsos.

Era assim há dois mil anos e é assim hoje. Usam de tudo, e um dos instrumentos é o medo, a ameaça. Já tinham tentado matar Jesus. Já o tinham avisado: “olha, Herodes está querendo te matar”. No templo, mais de uma vez, pegaram pedras para apedrejar Jesus até a morte, mas Ele consegue escapar. É a ameaça. E, para isso, usa-se de tudo: a mentira, a manipulação. Para quê? Para que o outro ceda, para que o outro mude o seu discurso, para que o outro, de algum modo, entre no jogo. E é essa a grande tentação de Jesus.

E este é o cenário diante da morte iminente de Jesus, homem de meia idade, pleno das suas energias, onde é massacrado e morto. Só que Jesus faz uma coisa que muitas vezes nós não conseguimos nem imaginar: Jesus quer a fidelidade do Pai porque Jesus é a revelação do Pai, e o Pai é fiel até o fim. Jesus é fiel até o fim, e o fim humano é a morte.

Jesus não aceita a tentação de dar uma desviada, de deixar de enfrentar. “Adoce as palavras, mude um pouco, entre no nosso jogo”. Jesus desmonta um mundo de autoridades judaicas daquele tempo, que era todo apoiado no templo, na sua administração, dinheiro, poder e solidificado com a lei. A lei, que deveria ser o sinal da fidelidade de Deus, se tornou o lugar da morte. A aplicação implacável de normas e regras infalíveis - porque os doutores da lei interpretam de forma infalível - não tem espaço para Deus.

Deus foi posto fora do jogo e Jesus, que é Deus, a revelação do Pai, será posto fora do jogo. Jesus sabe e está angustiado. É a angústia humana. Todos nós trememos diante da morte. Todos nós trememos quando nós vemos os abismos se abrirem diante de nós ou quando nós vemos as trevas que nos envolvem. É difícil. Jesus vive este drama de permanecer fiel, sabendo que isso vai pedir a sua morte, vai pedir a sua vida.

Mas Jesus, para se manter fiel ao Pai, para permanecer no amor do Pai - e não na morte da lei -, abraça livremente a morte, não cede. Morre para ser fiel e para mostrar o rosto de Deus, que é amor. Nessa tensão, Jesus se reúne com seus apóstolos. No dia seguinte, eles teriam celebrado a Páscoa hebraica. Mas aquela celebração não foi uma Páscoa hebraica. E, um dia antes, foi uma celebração muito especial, onde aconteceram alguns gestos que são muito diferentes dentro do contexto de aliança, de celebração sagrada. Mas tem algo tão forte, tão estranho, tão novo, que aquelas palavras ficaram marcadas como fogo na memória daqueles homens.

Dois dias depois, quando dois deles estão fugindo para outra cidade, chegam a Emaús, encontram este forasteiro. E quando este forasteiro abençoa o pão, aquelas palavras de fogo se acendem de novo no coração deles. E eles reconhecem, naquele gesto, a plenitude da vida de Jesus. Ele que estava ali caminhando e falando com eles. E, sem seguida, desaparece. Permanece o pão dividido, o amor entregue até o fim e a vida doada. Essa é a mensagem do Evangelho, essa é a mensagem da Eucaristia.

A Eucaristia é uma escola de Cristianismo, é uma escola do Evangelho, como o Pai-Nosso. A Eucaristia é o próprio Jesus que, todas as vezes, se dá para nós. O Deus vivo nos convida a sermos pão dividido para os outros e fidelidade ao amor até o fim, com todas as consequências que isso possa pedir de nós. Fidelidade é a palavra de Jesus em relação ao Pai.

Nisso nós nos tornamos irmãos e irmãs, e é um caminho. Nós, na eternidade, fomos desejados por Deus, à imagem do verbo encarnado, à imagem de Jesus. Mas esta semelhança a Jesus nós construímos no nosso dia a dia, quando nós buscamos sempre, e de novo, ser fiéis ao evangelho. Sempre, e de novo, ser pão repartido para os outros, para que os outros tenham vida, vida doada.

Então a morte de Jesus toma todo um outro sentido: fidelidade, amor pelo Pai e por aqueles que abraçam o caminho do Pai, que também é o amor. E, atentos, o contrário de amor é poder. O ódio é um substrato do poder. O poder desse mundo esmaga, mata. Por isso Jesus, na última Ceia, faz esse sinal estranho, absurdo: lavar os pés. Este era um trabalho de um escravo que não valia mais nada. Mas eu, que sou Mestre, faço assim. Vocês, discípulos, aprendam a fazer isso, todos os dias, durante toda a vossa vida: ser servos dos outros. E, se as circunstâncias nos colocam em situação de comando, lembrem-se: um cristão serve. Para nós, tudo é serviço, não é privilégio. Não é ocasião de se enriquecer, não é ocasião de favorecer grupos especiais, não é ocasião para mentiras.

Jesus e o seu amor desmascaram as mentiras, desarmam o medo. Há duas situações que podem nos dar um pouco esta ideia. E estas situações são tiradas dos muçulmanos. Duas coisas que os muçulmanos têm de muito interessante, que escandalizam a nós, homens e mulheres do Ocidente. O soldado muçulmano não vai para a guerra pensando em voltar para casa. O soldado muçulmano vai para a guerra para morrer por uma causa. E esta é a coisa que mais coloca os soldados ocidentais, de nosso povo, em desespero: eles jogam tudo, mas nós jogamos até certo ponto.

Outro ponto que os muçulmanos nos sacodem é ficar escandalizados com o crucificado. Eles acham horripilante um cadáver pendurado em uma cruz. Infelizmente nós, cristãos, perdemos isso. A cruz, para nós, virou obra de arte. Nós, diante de um crucifixo, achamos bonito – dizemos “que bonito, que coisa linda”. A cruz é um horror. A cruz é a pior tortura à qual podia ser submetida uma pessoa dois mil anos atrás pelo Império Romano. É uma monstruosidade.

Nós deveríamos realmente ter terror diante da cruz. Mas aquilo é amor de quem não teme ser esmagado para ser fiel. E a Eucaristia é isso: serviço na fidelidade, amor radical, que não faz conchavos, que não se vende, que não mente, que não faz narrativas para esconder a verdade, que não vive inventando ameaças para que as pessoas se distraiam dos seus crimes. A cruz é amor radical. A cruz é o lugar onde Jesus mostra até que ponto vai a fidelidade de Deus: até o fim.

Jesus assume a nossa humanidade, e o fim para nós, neste caso, é a morte injusta, massacrada, sob tortura. A Eucaristia nos lembra tudo isso. A Eucaristia nos chama sempre à fidelidade. Por isso, São Paulo [1Cor 11,23-26] – quando vê que os irmãos, antes de celebrar a Eucaristia, fazem banquetes sem que todos da comunidade participem e fazem distinção entre os pobres e os mais ricos – diz que a Eucaristia desse jeito é condenação. Por quê? Ele desmascara essa incoerência. Como você pode ser pão dividido para todos se você faz distinção de pessoas?


E, aqui, nós podemos pegar o tema da Campanha da Fraternidade: como é possível ser cristão se vivemos divididos? Se somos intolerantes, racistas, homofóbicos? Pessoas que aplaudem alusão à tortura, pessoas que aplaudem a limitação da liberdade das pessoas são incoerentes com a Eucaristia! Não pode um cristão viver na incoerência com essa palavra que se faz pão.

Muitas vezes nós nos descobrimos incoerentes e Jesus nos convida, na infinita paciência divina: “acerte o seu passo, acerte o caminho, venha comigo, tente de novo, melhore, converta-se, confesse os seus pecados, peça ajuda aos seus irmãos e irmãs na fé”. A fidelidade, para nós, é uma construção. Mas o importante é ter a coragem de, todos os dias, outra vez, retomar esse caminho de se seguir a Jesus. Aprender da Eucaristia, que é amor coerente até o fim, que Deus se dá, sem distinção. Jesus não faz distinção entre as pessoas e vai chegar ao absurdo de pedir perdão ao Pai pelos seus cínicos assassinos. Tal é o absurdo do amor de Deus que perdoa até quem não pediu perdão. É difícil, mas é esse o caminho de Jesus. E o Espírito Santo nos dá as forças para seguir esse caminho.

Nós estamos aqui hoje, mas não podemos fazer o Lava-pés. Mas nós temos aqui a cânfora, as sandálias – que lembram exatamente o descalçar-se para ser servidores –, temos as uvas e o trigo, que é moído – o grão, se ele quer ser pão, ele tem que aceitar ser triturado. Quem aceita seguir Jesus, aceita este caminho de triturar os seus egoísmos, os seus interesses mesquinhos, para ser, para os outros, pão. Pão novo, pão que dá a vida. Esse é o nosso caminho, ser pão e vinho. A uva também é esmagada. E a uva esmagada, nos dá o vinho. Mas o vinho é alegria, a alegria desse mundo novo. Este mundo novo, que é o amor.

Vamos pedir ao Senhor que nos dê a graça de aceitar ser grão de trigo, que aceita moer os seus egoísmos para ser farinha boa, para ser pão para todos.

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A morte de Jesus nos dá vida eterna

Pe. João Aroldo Campanha – Domingo de Ramos e Paixão do Senhor (Ano B) – 28/03/2021

(Missa às 10h).

Parte I

 

Jesus, antes da Páscoa, vem e entra em Jerusalém. Era uma festa popular, e Jesus simplesmente entra no meio dessa festa. Todos esperavam que a entrada do Messias em Jerusalém fosse alguma coisa parecida com a apoteose do imperador de Roma; no entanto, Jesus entra em Jerusalém na humildade, porque esta é a característica de Deus: a humildade. Deus não precisa parecer grande; Deus não precisa se mostrar gigantesco: Ele é. Por isso, pode ser humilde, pequeno, e fazer uma entrada triunfal no meio de uma festa popular.

 

Vamos pedir ao Senhor a graça de poder reconhecer Seus gestos de humildade, que são bem mais fortes que os nossos grandes gestos de poder.

 

Parte II

 

O Evangelho de Marcos [Mc 15, 1-39] nos coloca a crueldade deste momento que é a morte de Jesus. Essa é a parte mais antiga dos Evangelhos, e o Evangelho de Marcos é o mais antigo de todos eles. Jesus é destruído, e a coisa mais absurda é ver que Deus aceita ser aniquilado. Foi um complô dos sumos sacerdotes, com uma ajuda inesperada de um dos discípulos de Jesus – que o Evangelho de Marcos nos deixa com este amargo na boca. Judas foi, de livre vontade, até os sumos sacerdotes. Livre vontade, não queria nada. Traiu o seu mestre, depois prometeram dinheiro para ele. Mas ele não estava preocupado com dinheiro, ele tinha se desiludido com Jesus.

 

No Getsêmani, o Jesus de Marcos é um homem que está lutando contra o terror do sofrimento. Jesus está estendido por terra, implorando ao Pai que afaste Dele o cálice do sofrimento. Essa mesma cena era usada por muitos pagãos para debochar do Jesus que os cristãos chamavam de Deus: "Como é possível que um Deus se jogue no chão, como uma criança, pedindo que o Pai afaste Dele o sofrimento?". Deus não tem medo de tremer diante da maldade humana. A grandeza de Deus, a grandeza de Jesus, está em abraçar, até o fim, esta situação terrível: morte injusta (verdadeiro assassinato), provas falsas, chantagem contra o governador e deboche. Jesus aceita tudo. Isso não é fácil. A pessoa pode ter até consciência de que está na lista dos que deverão ser mortos, pode ter até profunda serenidade; mas a morte sempre assusta, o modo da morte assusta.

 

Jesus é levado, interrogado em um processo que já estava praticamente pronto; sumariamente, decretam que Ele é culpado; e, agora, não basta dizer que Ele é um blasfemador. Um blasfemador seria apedrejado em praça pública até a morte. Não basta isso, eles não se contentam com esse pouco, querem mais. Jesus tem que ser colocado como escória. E isso não é uma coisa só dos judeus, não é uma "coisinha nossa"; Roma, com todo seu poder, vai demonstrar que esse sujeito não vale nada, que é um criminoso da pior espécie – é isso que eles querem, e por isso vão pressionar o procurador. Eles sabem que o procurador está em uma situação de muita fragilidade, e o chantageiam, forçam a mão. E o procurador recua, lava as mãos dizendo: "Este crime é vosso. Vocês me chantagearam, porque sabem que eu estou em uma situação fraca". Porém, só o nome de Pilatos entrou para o "Creio"...

 

Jesus carrega a cruz, que era o símbolo da infâmia. Existe uma maldição, no Antigo Testamento: "Maldito o que morre no madeiro". Jesus é crucificado fora da cidade santa, fora das muralhas. Jesus faz um caminho de, aproximadamente, 600 metros, que é o caminho do Calvário. Crucificado entre inimigos do Estado. Por que não crucificaram discípulos de Jesus? Para não dar nenhuma importância a Ele. Por que colocaram Jesus entre malfeitores comprovados? Eles eram assassinos, tinham assassinado um soldado ou um cidadão romano – era o único modo que levava as pessoas à crucificação. Barrabás seria um deles. Inimigos do Estado, pessoas que complotaram contra o Estado, não só contra os judeus. Pior ainda: contra o Império!

 

E, já na cruz, Jesus abraça nosso abismo da morte. Lá, em outro lugar, em um "tempo sem tempo". No mito de Adão e Eva, a árvore da vida foi lugar do "Não"; a árvore do bem e do mal foi lugar do "Não". Agora, uma outra árvore, um outro madeiro, se torna lugar da fidelidade: fiel à vontade do Pai até o fim, fiel à vontade do Pai mesmo vendo tudo que se destrói, fiel à vontade do Pai mesmo sendo engolido pelo abismo da morte. Jesus grita: "Pai, por que me abandonaste?". É uma frase do Salmo 21, que nós ouvimos durante as leituras. Esse é o salmo que canta essa situação dramática do servo de Deus, mas é um salmo que termina convidando todos a louvarem a Deus, porque a mão de Deus é maior que o abismo da morte, é maior que a maldade humana, é maior que a associação dos nossos pecados contra o Ungido do Pai.

 

E Jesus entrega o espírito. Deus entrega vida. Deus só pode dar a vida. E Jesus entrega a vida. Expira. Sopra o Espírito. A vida de Deus se mantém na eternidade. Deus é vida. O Espírito Santo é a vida em Deus. Jesus, ao mergulhar no abismo da morte, abre para nós o caminho da vida: Ele se torna caminho, Ele se torna ponte entre nós e a vida eterna do Pai.

 

Ter a coragem de olhar Jesus na cruz. Jesus tem como companheiros dois assassinos. Deus se solidariza com os sofrimentos, com as dores, com os horrores da condição humana. Jesus quer salvar a todos, não exclui ninguém. O momento mais alto da nossa salvação, Deus o viveu entre dois assassinos. Deus ama realmente o ser humano! E não adianta querer quase dissuadir Deus do Seu eterno desejo de amor. Até da morte Ele faz ressurgir vida! A paixão na cruz é o lugar da solidariedade, onde todos e cada um de nós pode, realmente, se identificar com Jesus. Ele assumiu toda nossa dor, a nossa miséria, as nossas contradições. Sofreu com todas elas e por todas elas. Ali, naquele homem, nós estampamos tudo que nós podemos: toda a nossa maldade, todo o nosso pecado.

 

Teve um santo, São Jerônimo, aquele que traduziu a Bíblia do grego e do hebraico para o latim. No fim da vida, Jesus apareceu para ele e disse: "Jerônimo, me oferece alguma coisa tua". Jerônimo falou: "Ah, eu te ofereço a Bíblia que eu traduzi". "Não, isso eu não quero. Fui eu que te dei a capacidade para fazer isso". "Eu te ofereço as minhas penitências tremendas, de anos e anos e anos". "Isso não me interessa. Fui eu que te dei a força para fazer isso". E ele foi oferecendo outras coisas e outras coisas, e Jesus falava: "Não, isso eu não quero, isso aí fui eu que permiti que você fizesse". "E o que eu posso te oferecer então, meu Senhor?". E Jesus falou para ele: "Me ofereça os teus pecados". Esta é a única coisa realmente nossa que nós podemos oferecer a Deus: os nossos pecados. E reconhecer, no Crucificado, os pecados que nós estampamos Nele. Ele não pegou os nossos pecados, nós estampamos esses pecados Nele, por isso Ele carrega os nossos pecados. E só quem é capaz de se reconhecer pecador pode mergulhar com Jesus, como nas águas do batismo, mergulhar na morte para ressurgir na vida eterna.

 

Vamos pedir ao Senhor que nos dê esta consciência do amor incondicional que Ele tem por nós; nos aproximar do Crucificado sem medo, reconhecendo que somos necessitados da Sua graça para podermos viver já a vida nova do amor e da solidariedade. É esse o caminho que Jesus tem para nós.

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Ser fiel aos planos do Pai

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 5º Domingo da Quaresma (Ano B) – 21/03/2021

(missa às 10h).

Jesus entende a Sua missão destinada primeiro ao povo hebreu. Jesus não tem dúvida que a sua missão, que o seu evangelho, tem que ser anunciado para o mundo. Porém, primeiro a Israel porque este é o povo da aliança, um povo escolhido por Deus. Não porque era melhor que os outros, não. Mas Deus escolheu este povo porque quis! Outros povos fizeram êxodos; outros povos acreditaram em deuses; outros povos experimentaram a própria providência de Deus pensando que eram outros deuses. Contudo, Deus escolheu Israel por pura misericórdia, assim como poderia ter escolhido qualquer outro povo. Elegeu Israel e, com isso, Ele quer demonstrar a Sua fidelidade a este povo, para mostrar a sua fidelidade a todos os povos.

Nesta passagem do Evangelho [Jo 12,20-33], nós percebemos que as coisas estão ficando muito difíceis para Jesus. Quando você assume certas atitudes, certos modos de pensar, você sabe que, em algum momento, o cerco pode fechar em volta de você. E Jesus sabe que as coisas estão se complicando para o lado Dele. E em toda essa máquina que vai se apertando, falta ainda uma peça da engrenagem, que é Judas.

Jesus sabe que é questão de dias, talvez de horas. E estando no templo, vêm estes dois discípulos e falam para ele: "tem um pessoal aí de língua grega". São hebreus da diáspora, hebreus que moravam fora, na Grécia. Talvez, na sua viagem para Jerusalém para comemorar ali a Páscoa, ouviram falar neste profeta, neste pregador, neste homem que fazia sinais, milagres, e querem ver Jesus.

Quando Filipe e André vêm falar com Jesus, Ele diz: "agora é a hora marcada; chegou o tempo; de agora em diante, o anúncio vai ser o anúncio da fidelidade". A fidelidade do Pai vai ser revelada por Jesus na cruz. Naquele período – e o último de todos esses momentos vai ser o Horto das Oliveiras –, Jesus ainda poderia mudar a história: escapar, fugir, mudar as cartas. Mas Ele sabe que, se fizer isto, Ele sabe que estará faltando com a fidelidade ao Pai.

Jesus, que é a revelação do Pai, permanece fiel. E, diante daquilo que Ele sabe que pode e que vai acontecer, Ele sente angústia. Repare que não se diz medo, mas sim angústia. Ninguém quer sofrer torturado. Ninguém quer morrer sob tortura, mas este é o momento da prova. Ou Jesus é fiel até o fim, ou Ele falhou na missão e não revela o Pai. E, como Jesus é a revelação do Pai, Ele se mantém fiel.

Outros povos já foram atraídos pois o nome de Jesus já chegou no ouvido deles. E esses outros povos vão ver o quê? Vão encontrar Jesus onde? No testemunho dos apóstolos que conheceram Jesus na sua entrega absoluta, para revelar a fidelidade do Pai até na crucificação. O amor do Pai vale a vida, e Jesus entrega tudo. E, nessa entrega, Ele se mostra doador de vida. Deus faz isso, doa a vida. Jesus revela o Pai, a força do Espírito, dá a vida para doar vida eterna para nós. Isso é o amor de Deus.

Peçamos ao Senhor a graça de, também nós, sermos fiéis, sabendo que muitas das nossas atitudes e afirmações podem ter consequências dolorosas para nós. Porém, o que conta é sermos fiéis ao Pai.

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A luz de Jesus

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 4º Domingo da Quaresma (Ano B) – 14/03/2021

(missa às 10h).

Nós estamos, praticamente, no meio da Quaresma; um pouquinho mais da metade. O domingo de hoje é chamado Domingo Laetare: "Domingo da Alegria" – é por isso que o padre usa essa cor mais fraca de roxo, quase rosa, para lembrar que é um domingo mais suave no caminho da Quaresma. Por quê? Para nos prepararmos para as três semanas que ainda faltam. Temos duas semanas para chegar ao Domingo de Ramos; depois, a grande semana, que é a Semana Santa, em que nós celebramos o mistério da morte, sepultura e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

Na primeira leitura [2Cr 36, 14-16. 19-23], nós ouvimos a história da infidelidade do povo, e como essa infidelidade acabou colocando o povo numa situação de desgraça. Veio o rei da Babilônia e tomou tudo! Esse rei era um louco, era perverso, era horrível – Nabucodonosor. Ele levou os grandes de Jerusalém e da Judeia presos para a Babilônia e deixou para trás o povo mais pobre, de modo que a Judeia ficou praticamente largada, abandonada a si mesma. Depois de 70 anos, o Império Babilônico desabou e foi conquistado pelo rei Ciro, da Pérsia. Ele tinha uma política bem diferente daquela do rei da Babilônia. E o que ele fez? Queria que todos os vários povos adorassem os seus deuses; bastava que pagassem os impostos para o rei e podiam adorar o deus que quisessem. Então ele manda que construam de novo, em Jerusalém, o templo que o rei Nabucodonosor tinha mandado destruir.

 

E aí nós temos a ação de duas grandes figuras: Esdras e Neemias (um era governador e o outro, o sumo sacerdote), que praticamente fundaram o que nós chamamos de judaísmo primitivo. Foi Esdras que estabeleceu os cinco livros da lei, a Torá – Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio –, porque ele fixou esses textos, que eram trechos muito antigos, de muitas tradições; ele, com ajuda de sacerdotes e anciãos, juntou tudo para que se falasse "uma língua só". Desse modo, ele conseguiu dar uma identidade para o povo judeu, e esses livros passam a ser luz para o povo. Por quê? Com a volta dos filhos dos deportados, colocou-se uma grande questão: "Afinal de contas, nossa religião, nossa identidade como nação, vai continuar ou vai desaparecer?". Então Neemias e Esdras têm essa preocupação: "Nós vamos marcar bem a identidade do nosso povo, deixando escrito, claro; pegando todas as nossas tradições e deixando aqui, juntas, para que o nosso povo não se disperse, não erre". E eles conseguiram. Sua obra foi grandiosa!

 

Depois, nós temos essa imagem de Jesus no Evangelho [Jo 3, 14-21]. Nicodemos é um membro do sinédrio – e ele vai, inclusive, chamar a atenção dos membros do sinédrio quando começam a acusar Jesus, lá no capítulo 2 do Evangelho de João; ele fala: "Calma. A nossa lei não permite condenar uma pessoa sem, antes, ter provas". E eles ainda xingam Nicodemos... Esse homem, à noite – para que os outros não saibam –, vêm conversar com Jesus, e Jesus vai falar das coisas do Reino para ele. Uma das questões é esta: o Pai mandou seu Filho para que todas as pessoas que crerem em Jesus tenham a vida eterna. E todos aqueles que se aproximam de Jesus têm suas obras iluminadas, porque essas pessoas não têm medo da luz. As nossas obras boas aparecem, mas os nossos pecados também aparecem... E a misericórdia de Deus nos perdoa e nos ajuda a nos convertermos. Nós não temos que ter medo da luz de Jesus, porque se Jesus mostra os nossos erros é para que nós possamos caminhar com Ele, melhorar, acertar o passo, continuar na vida da luz. Têm pessoas que não querem Jesus, porque suas ações são das trevas – uma pessoa egoísta, uma pessoa que só pensa em passar a perna nos outros, uma pessoa que é capaz até de corromper juízes, políticos... Essa pessoa não quer se aproximar de

Jesus. Você se aproxima de Jesus, seu pecado aparece, e muitas dessas pessoas não querem mudar de atitude, elas se afastam, não querem a luz. Porque se elas se aproximam da luz, elas são convidadas a se converter, e para essas pessoas a conversão é dolorosa, porque é exigente.

 

O Reino de Deus tem uma força que é dele. Não depende de nós, é dele. E Jesus vai dizer: "Vocês se lembram quando o povo reclamou de Deus e de Moisés no deserto? Deus mandou umas cobras para pegarem o povo, daí o povo foi, arrependido, pedir perdão. E Deus falou: 'Constrói uma haste e, nela, põe uma cobra de bronze. Todos aqueles que olharem para ela serão curados'. É exatamente a mesma ideia: quando Jesus for elevado na cruz, todos aqueles que se aproximarem Dele terão vida eterna". Essa é a Palavra de Jesus.

 

Quando Jesus, na cruz, está agonizando (no Evangelho de São João), tem ali a mãe e o discípulo amado – Jesus não chama Maria pelo nome, chama de "mulher". E Ele diz: "Mulher, eis aí teu filho; filho, eis aí tua mãe". Jesus está agonizando, e as palavras desse agonizante são ditas com dificuldade. Então São João quer mostrar Maria e o discípulo que se aproximam, fazem um movimento para ouvir Jesus que está na cruz, um movimento de atração. Quando Jesus vê esse movimento, Ele diz: "Está consumado, agora eu expiro". Esse movimento de se aproximar da cruz nunca mais vai acabar, a humanidade inteira vai chegar e será chamada pela cruz.

 

Essas semanas atrás, nós v