Homilia  

Com Jesus, a vida eterna

29/03/2020

Como em outros evangelhos, Jesus aqui [Jo 11,1-45] desafia Marta a abandonar a velha tradição sobre ressurreição que os hebreus tinham. Os hebreus acreditavam, e acreditam até hoje, que o corpo, na medida que se decompõe, se recompõe em uma dimensão chamada Sheol e ali espera o último dia. Jesus quer que Marta abandone essa velha tradição hebraica. Nós temos que pensar que ainda existem outros grupos judeus que não acreditavam e não acreditam até hoje na ressurreição dos mortos. Isso é viver sem esperança. Porém os outros que creem na ressurreição, creem nesse ato do último dia – esse potente ato de Deus que tirará todo mundo dos túmulos.

Mas Jesus desafia Marta a entrar em uma visão nova. E a visão nova, qual é? A vida de amor que se tem nesse mundo, a vida dos discípulos de Jesus, daqueles que amam o próximo, daqueles que buscam seguir os passos de Jesus não se interrompe nem com a morte. A nossa vida, mesmo na morte, continua. É vida em Deus, é vida em Jesus. Não tem um "depois". O último dia é a cruz de Jesus. Nele, na cruz, Deus julgou o mundo. Deus cumpriu o juízo final, o julgamento está ali. Quem adere a Jesus está na vida. A morte é só um momento a mais na nossa vida. Dói, tem a saudade, a distância, a dor, mas a vida não acaba. Não termina ali, ela continua na vida em Cristo, a vida eterna. Nós entramos na vida de Deus, este é nosso desafio. É um desafio para nós também, não é somente para Marta, porque não é fácil.

Nós muitas vezes passamos a vida inteira esperando a ressurreição sem saber quando vai ser o último dia. Mas o último dia acontece todos os dias na cruz de Jesus. O julgamento final acontece todos os dias na cruz de Jesus. A vida eterna nos é dada todos os dias na cruz de Jesus.

Jesus disse ao assassino que estava crucificado junto com Ele: 'Ainda hoje estarás comigo no Paraíso', porque, para Jesus, a vida não acaba e aqueles que crêem Nele estão com Ele na vida que não termina.

Vamos pedir ao Senhor que Ele nos ajude a realmente abraçar esse desafio que Ele nos faz: a vida não termina, ela continua e se transforma. A vida não acaba porque é vida no amor de Jesus.

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 5º Domingo da Quaresma (Ano A) – 29/03/2020 (Domingo, missa das 10h).

Enxergar a luz que vem de Cristo

22/03/2020

Esse Evangelho [Jo 9] é um capítulo muito bonito do Evangelho de São João. Nós temos aqui um verdadeiro processo desse jovem cego de nascença que foi curado por Jesus. E curado de um modo muito particular: Jesus faz lama e passa esse barro nos olhos do jovem. O homem foi criado do barro. Jesus fazendo isso é como se ele estivesse dizendo: eu vou terminar a criação deste moço. Desse modo, ele finaliza, como dizendo ‘está faltando um pedaço, a lama que foi posta nesse homem era pouca’. E Jesus nesse ato se declara ele mesmo o criador.

 

Mas em todo este Evangelho, aparece essa luta entre o cego e os outros. O cego que não via e os outros que veem. O cego que crê em Jesus e os outros que não creem. E o contraste terrível deste pobre desgraçado que vivia de esmolas, cego de nascença, e que desmascara com sua simplicidade o modo de pensar dos fariseus. Os fariseus eram homens piedosos, de muita religião, respeitados, conheciam a Lei, e defendiam a Lei a tal ponto que para defender a Lei maltratavam as pessoas. E aqui nós temos a luta entre a luz que é Jesus, representado por esse jovem, e as trevas que são os fariseus que dizem conhecer, dizem ver, dizem que são discípulos de Moisés. Em outro trecho do Evangelho, Jesus vai dizer “se vocês fossem discípulos de Moisés, vocês seguiriam a sua palavra”. Esses homens não veem e, na cegueira deles, eles querem negar a evidência da luz. E como eles fazem isso? Afirmando que Jesus é pecador e que isso não pode acontecer porque isso é impossível. Mas este homem em sua simplicidade vai desarmando tudo que os fariseus dizem. E finalmente, eles dão o golpe final: expulsam o moço da sinagoga, da comunidade. Se nós prestarmos atenção, esse julgamento lembra o julgamento de Jesus. Jesus fez sinais, curou os doentes, perdoou os pecadores, ressuscitou os mortos, e, no entanto, não quiseram acreditar. A única coisa que eles fizeram era fazer esse homem morrer, era só isso que eles queriam. Não interessava a verdade. Por isso Jesus vai dizer “se vocês fossem cegos, vocês não teriam pecado; mas como vocês dizem que veem, o vosso pecado permanece” [cf. Jo 9:41]. As pessoas não querem ver, muitas vezes, nós também corremos esse risco de nos apegar em tradições religiosas e usar essas mesmas tradições religiosas para justificar a não ajudar os outros, julgar as pessoas, querer vinganças, desejar o mal. Isso é ser cegos. 

 

É necessário aprender realmente a olhar com os olhos de Jesus. E poder dizer como esse jovem: “Senhor, eu creio”. Mas creio em que? Nas suas Palavras e eu as colocarei em prática. Vamos pedir ao Senhor que abra os nossos olhos e nos faça ser realmente discípulos dele.

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 4º Domingo da Quaresma (Ano A) – 22/03/2020 (Domingo, missa das 10h).

Amar os irmãos é ser fonte de água viva

15/03/2020

O que encontramos na liturgia de hoje? Primeiro: o povo de Israel fugiu do Egito. Já no Egito, viram muitos sinais de Deus – as dez pragas, a morte dos primogênitos, a celebração da Páscoa... O anjo da morte passou, exterminando os primogênitos, mas quando chegava na casa dos Hebreus e via a porta manchada com o sangue do cordeiro que estavam comendo lá dentro, passava adiante; depois o povo partiu do Egito e o exército foi atrás para pegá-lo, então Deus abriu o mar e eles passaram: Deus salvou o povo; depois eles começaram a passar fome, e Deus mandou o maná; depois o povo reclamou que tinha só aquela comida, e Deus mandou as aves do céu para eles comerem; depois ainda houve as serpentes, e Deus falou para Moisés: "Faz uma haste de bronze com uma serpente; quem olhar para esta serpente será curado". Eram sinais, um atrás do outro, da fidelidade de Deus.

 

Até que chegou o momento em que o povo, depois de ter visto tudo isso, teve sede e duvidou de Deus. "Deus é fiel ou não é? Deus está conosco ou não está?" – foram perguntas que eles fizeram. Eles se perguntaram: "Deus está aqui ou não está?", e Moisés bateu na pedra também com essa dúvida. A água jorrou, mas Deus ficou furioso e falou: "Nenhum de vocês vai colocar os pés na terra prometida". E o povo ficou andando no deserto por 40 anos, até que todos os que tinham saído do Egito tivessem morrido e só os filhos deles, que já eram adultos, pudessem entrar na terra de Israel. O que a Escritura ensina é isto: Deus é fiel! Não são os nossos problemas que colocam em dúvida a fidelidade de Deus. Deus é maior do que nós; o tempo Dele é maior do que o nosso.

 

Depois, temos o Evangelho. Há muito o que se falar dele, mas vamos ser breves. Jesus chega no poço – e é importante lembrar que este poço era propriedade de Jacó. Imaginem: Abraão saiu de Ur, da Caldeia, mais ou menos no ano 1.800 a.C.; Jacó era neto de Abraão, então estamos falando de um lugar com uma memória de mais de 1.500 anos. "Jacó esteve aqui! Ele bebeu desta água, deu para nossos animais!". É uma memória forte, uma tradição forte. E o que Jesus vai dizer? "Não é Jacó que dá a água da vida. Quem dá a água da vida é o Filho do Homem".

 

E há aí um jogo entre água morta e água viva. A água morta é a do poço, que não cresce, não aumenta, mas fica naquele nível, abaixa, sobe, porque não vem da fonte; os lençóis passam por baixo e alimentam o poço, mas ele não é fonte. A fonte jorra água para fora, e jorra sempre; o poço, não. Há até uma história que, se você ficar muito tempo sem tirar água do poço, aquela água fica ruim. Tem que sempre tirar aquela água porque é água morta, não é fonte. Jesus é a fonte! A tradição do povo, a própria religião do povo de Israel era água morta; tinha matado a sede, mas não era a fonte. A fonte viva é Jesus! E o que Ele diz neste Evangelho é isto, um desafio para aquela mulher: esqueça essa tradição velha, abrace a novidade, a vida eterna, que é Jesus mesmo e o Seu Evangelho.

 

E olha que interessante: mesmo com todas as dificuldades que a mulher tem para entender, como vimos no Evangelho, ela foi anunciar aos outros. "Este homem falou a minha situação, será que não é o Cristo?". Ela já estava professando a fé em Jesus e atraiu aquela cidade, aquele povoado para Jesus com seu testemunho. E eles deixam de beber da água morta e vão beber da água da vida eterna, a Palavra eterna que é Jesus.

 

Nós também somos chamados, sempre. Jesus fez de nós, batizados, fontes vivas. Ele nos deu a água da vida. E como nós somos fonte de vida? Amando os outros. É o tema da Campanha da Fraternidade, temos que agir como o samaritano: viu, teve compaixão e fez alguma coisa por aquele homem. Isso é ser cristão, não ver os problemas do mundo e não estar nem aí; ou, então, ver os problemas do mundo, até ter compaixão, mas não fazer nada. Ver, ter compaixão e fazer o que pode: isso é ser fonte de água viva, isso é derramar a água do nosso batismo, do nosso coração, sobre os outros que sofrem.

 

Vamos pedir ao Senhor que nos ajude a caminhar sempre como fontes da água viva que Ele colocou no nosso coração.

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 3º Domingo da Quaresma (Ano A) – 15/03/2020 (Domingo, missa das 10h).

Ler a Palavra de Deus para entendê-la melhor

08/03/2020

Vamos fazer uma pergunta fácil para as crianças que ganharam a Bíblia. É fácil porque a resposta está na mão delas. Qual que é o primeiro livro da Bíblia? É só abrir e procurar. Qual é o primeiro? Gênesis! Muito bem! E o último? O último é mais fácil ainda. Apocalipse! Muito bem! Saber isto já é um começo. A gente deveria, ao menos uma vez na vida, ler este livro da primeira até a última página. Quantas páginas têm aí? Cerca de mil e quinhentas nesta edição. Quem já leu ‘Senhor dos Anéis’ aqui? Quem já leu ‘Harry Potter’? Esses dois livros, inclusive o Harry Potter – que são vários livros –, são maiores do que a bíblia. Então ao menos quem já leu isso pode ler muito bem a bíblia. ”Mas, padre, como é que a gente lê? Às vezes, a gente não entende as coisas!”. Leia igual romance... vai lendo, um livro depois do outro. Esta é Palavra de Deus. Se um romance, muitas vezes, consegue iluminar o nosso coração, imagine a própria Palavra de Deus.

Eu gosto muito do ‘Senhor dos Anéis’ porque a primeira vez que estive em Roma foi um período difícil para mim. Eu estava com vontade de arrumar as malas, voltar para o Brasil. Eu queria continuar sendo padre, graças a Deus. Mas eu queria vir embora. E comecei a ler o ‘Senhor dos Anéis’. No filme não aparece essa frase da Galadriel. O Sam olha no espelho, vê a Pompeia sendo destruída e fala: “ah, eu tenho que voltar para lá!” Então Galadriel diz: “é exatamente se você negar o caminho que você começou que você vai fazer acontecer tudo aquilo que você está vendo”. Fechei o livro, fui conversar com um padre lá perto de Roma e continuei em Roma. E Deus me fez ficar lá mais 25 anos! Pois é, repito: se um romance é capaz de, às vezes, mudar a nossa vida, quem dirá a Palavra de Deus!

Quantas luzes nós podemos encontrar aí? Quantas lições? Quantos exemplos? Quantas orações bonitas nós encontramos na Bíblia? Muitas! E é isso que a gente tem que aprender a fazer: vamos ler. Ler igual romance e esperar que a Palavra de Deus vá nos iluminando. “Nossa, olha como isso aqui é importante! Olha como isso aqui é bonito! Olha como isso aqui está respondendo alguma coisa para a minha vida!”. E fazer isso sempre: ler a Palavra e sermos curiosos! “Nossa, o padre leu hoje no Evangelho que Jesus subiu a montanha. E depois, o que aconteceu?” Vai lá, procura o Evangelho de Mateus e tira a dúvida. “Semana passada o padre falou que ‘tem duas narrações da criação’. Como que é isso?” Vai lá, primeira página do livro de Gênesis. O padre falou que, no capítulo 1, é uma narração e no capítulo 2 é outra. “Ah, eu quero ver!” Entenderam? Ser curiosos, procurar. Ter amor pela Palavra de Deus é não deixá-la em um baú mofando, em uma estante perdida na sua casa, que vai ser a primeira coisa que você vai jogar fora quando fizer a próxima arrumação. Portanto, vamos abrir a Bíblia, ler, aprender.

 

Um comentário rápido sobre a leitura do Evangelho de hoje [Mt 17,1-9]. Jesus sobe nesta montanha e acontece essa coisa muito estranha: ele fica brilhante. Brilhante como o sol, diz o Evangelho. E com ele aparecem duas pessoas que conversavam com Jesus: uma que já tinha morrido há mais de mil e trezentos anos, que é Moisés; e outro que tinha morrido há setecentos anos, que era Elias. E aqui nós já temos a demonstração, no Evangelho, que após a morte nós somos vivos. A nossa morte é só deste corpo. Diante de Deus, nós estamos vivos. E esses dois homens estiveram na presença de Deus. Moisés, no monte Horebe, quando Deus deu as tábuas da Lei. E depois, Elias, no livro dos Reis. Porém, nenhum dos dois viu o rosto de Deus quando eles estavam vivos. Agora os dois estão lá, diante de Jesus glorioso e podem falar com Ele, face a face.

 

Jesus fala com o Pai face a face. Jesus pode isto porque ele é Deus. Um Deus que se tornou um de nós. Então tudo que Ele fala, tudo que Ele faz, tudo que Ele sente é a mesma coisa que o Pai fala, sente e faz. Porque Jesus é igual ao Pai. E tendo feito esse milagre da transfiguração, Jesus estava dando uma força grande para seus discípulos, porque dali alguns dias ia haver a crucifixão de Jesus. E neste momento, todos os apóstolos abandonaram Jesus, todo mundo foi embora, todo mundo perdeu tudo. O discípulo amado ficou lá perto, talvez porque nem soubesse o que estava acontecendo, porque se soubesse escapava também.

 

Então a transfiguração ocorreu para dar forças aos discípulos para esse momento difícil. Jesus mostrou a sua glória para fortalecer a fé dos apóstolos. Se a gente ler a escritura, a Palavra de Deus, nós também seremos fortalecidos por Jesus. Viver a Palavra de Deus, ler essa Palavra, para conhecer e saber quem é Jesus, conhecer a fidelidade de Deus, e poder dizer, como os discípulos: ‘Senhor, eu creio!’ Ou, então, como São Tomé: ‘Meu Senhor, e meu Deus.”

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 2º Domingo da Quaresma (Ano A) – 08/03/2020 (Domingo, missa das 10h).

Lutar contra a tentação como Jesus

01/03/2020

Vamos começar a comentar pela leitura do Evangelho [Mt 4,1-11]. O espírito de Deus levou Jesus para o deserto e isso acontece imediatamente após o batismo. Jesus fica lá por 40 dias. Esse número 40 é um número simbólico, pois lembra os 40 anos do povo de Israel no deserto. Mas o deserto é um lugar da prova, como foi para o povo de Israel, mas foi também pra Adão e Eva. No deserto, o povo teve fome, teve sede, doenças, ameaças, guerras. E Deus sempre veio em socorro a esse povo, porque esse povo sempre tinha dúvidas e, ao longo da história, acabou repetindo a situação da qual eles tinham saído do Egito: a escravidão. Uma religião que reprimiu o povo.

 

Jesus é colocado no deserto e ali ele é submetido às mesmas tentações de Adão e Eva. E se a gente presta atenção no texto, as duas primeiras tentações se apresentam como dois desafios: "você é filho de Deus mesmo? faz um sinal!". Essa tentação vai estar sempre perto de Jesus... Os fariseus, a um certo ponto, dizem a Jesus: "Nós queremos que você nos mostre um sinal do céu". Essa é voz do inimigo na boca dos fariseus. Aí Jesus fala: "Só vão ter o sinal de Jonas, depois de 3 dias na barriga do peixe, ele foi jogado para fora. Também o Filho do Homem depois de 3 dias vai ressuscitar". Mas mesmo assim o povo não acreditou. Não adianta dar sinais. Os sinais não sustentam a fé de ninguém. A fé é algo que nasce no nosso coração por graça de Deus, não adianta forçar. Tantas vezes na nossa vida nós temos situações que de repente mudam e a gente fala "isso foi ação de Deus". A pessoa que não tem fé olha o mesmo fato e dá outra explicação. Se você não tem fé, não adianta nada. Então Jesus vai colocar de lado esses desafios.

 

“Se é Filho de Deus, transforme essas pedras em pães”. A resposta é fácil: é uma das tentações de Adão [Gn2,7-9;3,1-7]. Comer o fruto e se tornar semelhante a Deus significa não ter que trabalhar no Jardim, não aceitar os limites da vida. Um dos maiores dramas de hoje é exatamente saber dizer NÃO para os filhos. Muitas vezes nós não colocamos limites e, quando os filhos crescem, a vida vai ensinar e eles vão ter que aprender da pior maneira possível. Se você não colocar limites no caminho das crianças e jovens, você vai destrui-los. Se você não os prepara para a vida, o mundo vai dominá-los. E na vida muitas vezes recebemos "não". Quantas vezes queremos coisas na vida e recebemos "nãos". A vida é dura com a gente e a gente tem que superar os problemas, obstáculos. Deus está educando Adão e Eva. Mas Jesus nega aceitar respostas fáceis, porque a vida não é assim.

 

Depois, o diabo divide você de si mesmo, separa você de Deus. Um perigo muito grande dos dias de hoje são os meios de comunicação. Tantos padres falando por aí, e vendem como se fosse ouro escorrendo nos meios de comunicação, padre com botox, padre com calça agarrada, padre que é tradicionalista... Jesus não aceitou fazer um show religioso. O ponto mais alto do templo era o pináculo, tinha 70 metros de altura, e o diabo disse "Se joga daqui, dê um espetáculo para as pessoas, prova quem você é". Um Deus que se impõe é um Deus da morte. O Pai de Jesus é o Deus da humildade. Onde nós vemos Deus? Deus não aparece, porque é a humildade dEle. Ele não faz espetáculos. Tem uma frase que diz assim: "Deus faz um espetáculo todos os dias com o nascer do sol. A maioria das pessoas estão dormindo e nem por isso Deus deixa de fazer". Isso se chama humildade, gratuidade, abundância. Isso é Deus. "Não importa se as pessoas acreditam em mim, por que eu faço milagres viu? Do mesmo jeito que eu pulo do pináculo do templo e não morro, eu jogo você de lá e você morre.", é o Deus do terror que diz isso, não o Pai de Jesus.

 

O diabo faz esses dois primeiros desafios para Jesus. E Jesus recusa. E o que o diabo faz? Ele tira a máscara. Como cresce os reinos da terra? Nós temos que nos lembrar dos grandes reinos daquela época: os assírios, persas, egípcios, gregos e romanos. Os romanos estavam dominando todo o mundo ocidental na época. Esse era o poder do mundo e os governantes desses impérios se achavam deuses. Os faraós também eram considerados deus vivo, assim como o rei Alexandre Magno, imperador de Roma. E olha o que esses impérios faziam: ódio, opressão e escravidão. Não é o caminho da vida. O caminho de Jesus, o caminho da vida, é o serviço, a humildade e o fazer a vontade do Pai. Para cumprir a vontade do Pai, Jesus morreu na cruz. As três tentações estão continuamente provocando Jesus ao longo de sua vida, até o último instante, Ele ouve: "Se tu és filho de Deus, desce da cruz". Até na última hora, Jesus foi tentado. Vamos pedir ao Senhor que, nesta Quaresma, Ele nos ensine a buscar o serviço aos outros, a humildade, a não nos acharmos deuses, nós somos pó, e em tudo procurar fazer a vontade de Deus assim como Jesus faz.

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 1º Domingo da Quaresma (Ano A) – 01/03/2020 (Domingo, missa das 07h30).

Viu, sentiu compaixão e cuidou dele

26/02/2020

Por volta do ano 160 a.C., aconteceu em Israel uma grande revolta, uma grande revolução chamada "Revolta dos Macabeus". Um grupo de hebreus se revoltou contra o Rei Antíoco Epifânio, que queria transformar o mundo hebraico em mundo grego, negando a religião hebraica. O que aconteceu? Teve uma grande revolta, uma grande briga, e os Macabeus ganharam. Desse movimento, surgiram dois grupos: um que acreditava que o Reino de Deus viria por meio da luta armada e outro que acreditava que o Reino de Deus viria por força da observância da lei. Esse segundo grupo deu origem aos fariseus. E o que esse grupo fazia? Observava estritamente a lei, acreditando que, no dia em que todos observassem a lei do modo como eles observavam, o Reino de Deus viria sobre a Terra.

 

Qual é a perversão dessa mentalidade?  Eles acreditavam que o Reino dependia de nós, das nossas forças, das nossas observâncias, e isso é falso. O Reino de Deus é de Deus e vem quando Ele quiser e como Ele quiser. De fato, Jesus, no meio de nós, é o Reino de Deus – e olha o que fizeram com Ele! Não foram nem capazes de reconhece-Lo... Outro problema com esse grupo é que eles achavam que eram merecedores da salvação; por terem observado a lei, Deus seria obrigado a dar a salvação a eles. Eles negavam que o Reino de Deus é de Deus, eles negavam a graça.

 

O bom fariseu praticava estes três elementos centrais: oração, jejum e esmola. Só que eles tinham essa atitude de achar que eram mestres, que ensinavam os outros – e aí aparece o orgulho. "Nós é que fazemos certo, vejam como se faz, vocês fazem errado". Por isso Jesus vai dizer: "Rezam nas praças para todo mundo ver". Jesus não está criticando as grandes assembleias litúrgicas, Ele está condenando as atitudes destes que se acham os "professores" dos outros. E cuidado: muitos de nós, católicos e grupos dentro do catolicismo, caímos nesse modo de pensar e agir. 

 

Quando faziam jejum, os fariseus colocavam cinzas na cabeça, vestiam sacos de estopa para todo mundo ver, parecia um teatro... Olha a arrogância que há nessa atitude! Os fariseus também tocavam sinos quando davam esmolas no templo, para se mostrarem e dizerem: "Olha aqui como o bom hebreu faz! Vocês, que não são bons hebreus, observem e aprendam". Jesus condena isso como hipocrisia. Ele vai dizer: "Faça as coisas para o Pai, que vê em segredo". O que isso quer dizer? É a sinceridade profunda. Quando você está sozinho, quando ninguém te vê, você não recebe elogio de ninguém; se você faz algo, faz por pura gratuidade, pois não vai receber nada em troca; você está sendo sincero, e isso Deus vê. E aí a tua oração, mesmo comunitária, vai ter sentido, porque ela nasce da sinceridade.

 

A tua esmola deve nascer da compaixão para com aqueles que sofrem, mesmo que ninguém veja. Compaixão. A compaixão mostra que nós ainda somos humanos. Uma pessoa que vê um sofredor de rua, um menor abandonado, um depende químico e não sente nada – pelo contrário, diz que essa gente merece a morte –, não é mais humano, muito menos cristão. Compaixão pela miséria humana, pela pobreza, pela doença, pela dor. Compaixão. Atentos! É isso que nos faz humanos. Senão somos monstros. Percebem? É dessa profunda compaixão que deve nascer todo nosso ato caritativo. 

 

Depois, o jejum nos coloca diante da nossa miséria. Na hora da imposição das cinzas, dizemos duas frases. Uma delas é: "Converte-vos e crede no Evangelho", ou seja, caminhe. Até o fim da vida, há um caminho a ser feito; nós nunca chegamos, mas caminhamos a vida inteira para melhorar a cada dia; a conversão pode acontecer até a última hora, na hora da morte, quando caminhamos para Deus. A outra frase acaba com todo o nosso orgulho: "Do pó você veio, ao pó você retornará". Como é educativo, existencialmente, o vazio. Nós nada somos. Qual arrogância podemos ter? Qual orgulho podemos ter? Nada! Pó! Humildade, serviço, compaixão e humilhação diante de Deus: é isso que o jejum deve nos ensinar.

 

E tudo isso nasce de um coração sincero, de um coração novo, não de pura exterioridade. Porque essas pessoas que querem ensinar os outros, que se acham melhores e acham que Deus deve alguma coisa a elas, pegam Deus e O matam! Foi isso que fizeram com Jesus... Primeiro, chamaram-no de louco, depois de "endemoniado", depois de herege e, depois, O mataram. Os homens que diziam ensinar como seguir a Deus, mataram Deus! Então temos que estar sempre atentos. Isto é conversão: estar atentos aos nossos passos e olhar para Jesus. Eu estou andando nos passos de Jesus? Isto é conversão: pegar meu caminho e colocar nos passos dEle.


Agora vamos falar destes símbolos belíssimos que colocaram sob o presbitério nesta Missa de Cinzas. A cruz, o mistério pascal de Cristo, é a fonte da nossa salvação. Dela, nasce a nossa fé: vida, paixão, morte e ressurreição. Do lado de Jesus brota sangue e água, por isso esta jarra representa a água que dá vida eterna, que dá vida nova; é a água do batismo, a água na qual invoca-se o Espírito Santo. A vela acesa representa a vida humana, o nascimento, a vida que deve ser cuidada e respeitada – é o tema da Campanha da Fraternidade. Se seguirmos Jesus sempre, nós nos tornamos como este sal para a Terra. E a vela apagada representa o fim da nossa vida. A vida eterna é dom de Deus, é graça de Deus, e Jesus nos dá isso por força da Sua ressurreição, não por força nossa. E nós esperamos esta graça, que só Jesus pode dar – e vai dar, porque Deus é fiel e não mente: "Eu vou preparar uma casa para vocês, um lugar. E, quando estiver preparado, eu vou voltar para buscar vocês, para que vejam minha glória e estejam comigo na casa do Pai", essa é a promessa de Jesus. O momento da graça acontece no exato momento da nossa morte. Até lá, temos que ser sal para a Terra e luz para o Mundo, amando e cuidando dos nossos irmãos, dando de comer e beber, cobrindo as pessoas que sofrem frio ou mostram nudez.

 

Do outro lado, temos o cartaz da Campanha da Fraternidade 2020, com o lema: "Viu, sentiu compaixão e cuidou dele". É o bom samaritano, que não olha religião, rituais, nacionalidade, orientação sexual. Olha apenas o outro que sofre. "Essa pessoa precisa de ajuda", então ele se aproxima e ajuda do modo como pode. Este é o bom samaritano. O tema da Campanha este ano é "Fraternidade e Vida", vida que é dom e compromisso. O bom samaritano não só passou óleo nas feridas do homem, mas se comprometeu: levou o homem para um abrigo, curou as feridas dele e deixou comida para até quando voltasse, ou seja, não acabou naquele primeiro socorro, ele se comprometeu com essa pessoa. É isso o que devemos fazer.

 

E temos, ainda, no cartaz, esta que vai ser para nós, creio que de hoje em diante, grande modelo para a Igreja no Brasil: Santa Dulce dos Pobres. Nosso País pode se alegrar, pois temos nossa própria Santa Tereza de Calcutá! Irmã Dulce, para nós, é um constante chamado a servir, acolher e se comprometer com os que mais sofrem, por isso ela foi escolhida como símbolo desta Campanha da Fraternidade.

 

Vamos pedir a Deus que nos guie no nosso caminho.

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – Quarta-Feira de Cinzas (Ano A) – 26/02/2020 (Quarta-Feira, missa às 19h45).

Oferecer a outra face é ir além

23/02/2020

Uma das leis mais sábias já criadas na história está nesta frase, em que Jesus diz: "Vocês ouviram isto: olho por olho, dente por dente". Essa lei de Hamurabi, que era um rei sumério, coloca limite à vingança. Se vocês olharem lá na Gênesis, um dos filhos de Caim, que se chamava Lameque, dizia: "Por um esbarrão, eu matarei sete pessoas". Isso é a desproporção da vingança. Por isso o código de Hamurabi. O outro lhe cortou um dedo? Você não pode matá-lo, mas pode cortar o dedo dele. O outro lhe roubou um cavalo? Você pode pegar um cavalo dele, mas não vai pegar um cavalo e uma vaca. É o limite na vingança. O grande problema é que estamos falando de vingança, não de perdão. A única força capaz de quebrar o círculo das vinganças é o perdão. Não tem outro jeito. Ou você coloca uma trave no meio e quebra essa roda – e essa trave é o perdão – ou uma vingança irá gerar outra e depois outra e assim por diante, até o momento em que você não sabe nem por que está se vingando, mas continua matando e destruindo do mesmo jeito.

 

Jesus diz: "Nada disso! Se o teu opressor te obriga a andar 1 km, caminhe 2 km com ele. Se te derem um tapa em uma face, oferece também a outra". Com isso, Jesus não está falando para sermos bobos. Geralmente, é assim que interpretamos: ser cristão é ser bobo. Não! Ser cristão é ser livre! Ser cristão é ir além dos limites que os outros nos impõem. O teu inimigo te obriga a caminhar 1 km; se você se demonstra submisso ao teu inimigo, você caminha 1 km e para – "Fiz o que me obrigaram"; mas se você caminha com ele outro quilômetro, você está dizendo: "Ninguém tira minha liberdade, ninguém tira minha dignidade. Eu ando outro quilômetro porque quero! Eu vou além dos teus limites". Assim você está indo além, e a outra pessoa não tem poder sobre você.

 

Naquele tempo, quem dava tapa na cara das pessoas eram os reis, os donos de escravos, os patrões nos empregados e os pais nos filhos. Era um gesto de submissão, para colocar ordem. E a outra pessoa paralisava, reconhecendo o poder do outro sobre ele. Jesus diz: "Oferece a outra face", ou seja, "Você não é submisso! Seja livre! Não entregue a sua dignidade. Você é dono de si mesmo". Isso é ir além dos limites que o outro te impõe. Isso é ser livre. Não quer dizer que o tapa que o outro te deu foi bom nem que o caminho que ele te obrigou a andar foi uma coisa boa. Não, podem ser coisas bem ruins. Mas você vai além! Com isso, você demonstra ao outro que tem a mesma dignidade que ele. Por quê? "Sede perfeitos como vosso Pai Celeste é perfeito". Deus vai além!

 

Existe um modo muito atual de falar isso: não violência ativa. Isso gera, inclusive, ações políticas. O grande modelo disso, no século passado, foi Gandhi. Tem um filme que conta a história dele e, no comecinho do movimento que culminou na independência da Índia, era a Inglaterra que emitia os passaportes; o movimento de Gandhi passou a não mais lutar contra o governo nem pegar em armas, mas queimar o passaporte. Por quê? "Eu não sou dependente do país dominante, eu sou livre". Isso é ir além: a minha dignidade ninguém tira.

 

Nós somos todos iguais diante de Deus – e não só nós, mas os dependentes químicos também, os assassinos também... Eu não sou melhor que nenhum deles, porque todos nós somos irmãos diante de Deus. Temos uma frase que é, seguramente, da boca de Jesus, porque é um absurdo. Ela coloca dois termos contraditórios em conexão direta: "Amar os inimigos". Inimigo é o contrário de amigo; amor é contrário ao ódio. Ou seja: amor ao inimigo é contraditório, é um absurdo! Mas essa é a medida de Deus. Deus vai além! Este é o único jeito de superar a lógica do ódio – o ódio, que gera a vingança. E é o único jeito de enfiarmos uma trava e quebrarmos esta roda da vingança.

 

Jesus, Ele mesmo se enfiou no meio da roda. Ele foi a trava. Quando, no Evangelho de São João, chegam os soldados para prendê-Lo, Ele pergunta: "Quem vocês buscam?", e eles respondem: "Jesus de Nazaré". Jesus diz: "Eu Sou". Então, todos caem para trás, porque "Eu Sou" é o nome indizível de Deus, e faz com que a presença de Deus esteja ali. Jesus é a presença de Deus, e diante de Deus ninguém consegue subsistir. Só Deus é o vivente, nós somos sombras e vivemos por misericórdia, por graça. Quando eles caem, Jesus repete: "A quem vocês buscam?", e eles respondem: "Jesus de Nazaré". Jesus, então, diz: "Estou aqui", e aí sim eles pegam Jesus. Ele faz isso como um ato de liberdade: "Não são vocês que me pegam, sou Eu que me entrego, Eu que me faço trave no meio desta roda de vingança, de ódio, de morte. Nem que, para isso, Eu tenha que morrer". Essa é a medida de Deus, isso é ir além.

 

Agir assim não é fácil, mas nós rezamos justamente para pedir a Deus para sermos iguais a Ele e termos o mesmo coração que Ele. Deus se fez um de nós para que nós pudéssemos imitá-Lo. E Deus, feito homem, assumiu o nosso limite. O limite de Deus não existe, é infinito; já o nosso, tem um fim: a morte. Jesus se fez trave para quebrar a roda da violência. Mais uma vez: ser cristão não é ser bobo; ser cristão é não renunciar a própria dignidade, ir além das ofensas que as pessoas possam nos fazer e buscar ter o coração de Deus, rezar por aqueles que nos perseguem. Isso também é amar os inimigos. Reconhecer, no outro, Jesus Cristo – que pode estar desfigurado, violentado, horroroso diante de nós. Um assassino é Jesus completamente desfigurado na nossa frente, um monstro! Mas é Jesus. Por isso a justiça tem que ser correta, não pode ser corrupta, tem que corrigir, tem que educar as pessoas. É um assassino? Tem que ir preso sim. Mas ele é a imagem de Cristo, tem que ser reeducado e reinserido na comunidade. Para isso, é preciso um sistema carcerário que seja capaz de fazer isso. Olha como este mandamento muda muita coisa na nossa vida! O Estado muda, a política muda, a justiça muda.

 

Ser cristão tem consequências. Grandes. Vamos pedir a Jesus que nos ajude a ser, realmente, filhos e filhas de Deus.

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 7º Domingo do Tempo Comum (Ano A) – 23/02/2020 (Domingo, missa das 10h).

Seguir os mandamentos desde o coração

15/02/2020

Como eu disse semana passada, esse Evangelho chamado Sermão da Montanha, (capítulos 5, 6 e 7 de São Mateus) é a Nova Lei promulgada por Jesus. Moisés deu a Lei ao povo, e o povo hebreu esperava um profeta que fosse maior que Moisés. São Mateus está dizendo: ‘eis aqui o novo legislado, Jesus’. Muito bem, Jesus, por ação de seu Evangelho, está nessa frase: se a vossa justiça não superar a justiça dos doutores da Lei e dos fariseus, vocês não vão entrar no Reino dos Céus. Os doutores da Lei eram os grandes teólogos daquele tempo, eles interpretavam as escrituras. Imaginem, conhecer as escrituras de cor! Os fariseus eram gente muito, muito religiosa. Observavam todas as vírgulas e inventavam até orações para serem mais rigorosos ainda. Os dois grupos mataram Jesus. Se a nossa justiça não superar a justiça deles, com rigor na lei, mas rigor extremo... Jesus criticou duramente os fariseus e os doutores da Lei e dizia: ‘vocês são como túmulos: bonitos por fora; e por dentro? Um monte de carne podre! Vocês são exatamente iguais a esses túmulos, parecem grandes religiosos, mas dentro estão cheios de mentira, de hipocrisia, de falsidade, de morte.’ Nós temos sempre que estar muito atentos a isso. Especialmente nós que praticamos uma religião. Nós, padres, então, vocês não têm ideia de como a gente tem que estar diante disso, porque facilmente nós caímos numa rede de falsidade extrema. Você segue rituais, você até obedece a mandamentos, mas se não acontece no seu coração, fica só na superfície.

 

Jesus vai dar os vários mandamentos: não matarás. Quando a gente ouve ‘não matarás’, uma pessoa que é extremamente rigorosa nesse ‘não matarás’, o que essa pessoa se permite fazer? Por exemplo, torturar é matar? Falar mal é matar? Chamar uma pessoa de herege e criar ódio contra essa pessoa é matar? Pois, vamos ver, Jesus vai dizer: se você cria raiva no coração contra os teus irmãos, contra o teu irmão, você começa a criar, depois você começa a falar para os outros, você difama, até que você diz que essa pessoa é um demônio. Desse ponto para matar a pessoa é fácil. É isso que fizeram com Jesus. Primeiro disseram que ele era louco, depois que ele agia com o poder do demônio, depois disseram que ele era um herege. Então Jesus fala: ‘comece a limpar a raiz do teu coração, de dentro, a morte que você dá para essa pessoa começa no teu coração.’ Um discípulo, uma discípula de Deus tem que cuidar para que essas raízes não cresçam dentro do seu coração, porque se você deixa, você vai odiar, e há um certo momento em que você vai estar pronto para matar a pessoa. É que nós não temos a ocasião, mas nós estamos muitas vezes dispostos a matar os outros.

 

Jesus era muito rígido com a questão do matrimônio. Isso não é uma condenação para as pessoas de segunda união, mas é uma chamada para o matrimônio mesmo. No tempo de Jesus, a mulher, no matrimônio, era propriedade do marido. A mulher, dentro do matrimônio, não tinha direito a nada, e tinha que ser protegida pelo marido. O homem podia se desfazer da mulher e marcava o divórcio. Jesus lembra: ‘no início da criação do mundo não foi assim! Deus criou Adão e Eva com igual dignidade.’ Ninguém era dono de ninguém! Jesus está condenando o fato de colocarem a mulher como inferior ao homem dentro do casamento, olha que interessante. E Jesus vai dizer: ‘cuidado! A Lei fala não cometerás adultério’. Ah, mas até cometer adultério há tanta coisa que eu posso fazer... Mas Jesus diz: ‘quando você já olha com um olhar sedutor para alguma coisa na rua, você já está plantando adultério no teu coração, você tem que queimar essa raiz logo porque ela cresce’.

 

Jesus era absolutamente contra o juramento. Que coisa interessante... até na igreja, a gente faz um monte de juramento para ser padre, tem que jurar pelo céu e pela terra! E Jesus falou para não jurar, para que o 'sim' seja 'Sim', e o 'não' seja 'Não'! Sinceridade no que você fala, é isso o que Jesus quer dizer. Não faça com que as pessoas tenham dúvida do que você fala. Por que a gente obriga as pessoas a jurarem? A gente tem medo de que as pessoas falhem. Jesus diz ‘que a tua palavra seja firme’.

 

Por isso, Jesus diz ‘eu não vim para jogar fora a Lei, eu vim levá-la ao pleno cumprimento’. É preciso ir ao coração da Lei, e curar todos os males que nascem dentro do nosso coração. Jesus disse para os fariseus: ‘é no coração que nasce o ódio, o homicídio, os adultérios.’ No coração do homem, no coração da pessoa humana nasce tudo isso. Isso torna o ser humano impuro. Jesus não joga fora os mandamentos de Moisés, Ele nos ajuda a ir à profundidade, de modo que esses mandamentos entrem no nosso coração e façam que a nossa vida seja uma vida nova desde dentro.

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 6º Domingo do Tempo Comum (Ano A) – 15/02/2020 (Sábado, missa das 16h).

Amar e perdoar para ser luz no mundo

09/02/2020

A cada ano, nós lemos um Evangelho. Neste ano, estamos lendo o de Mateus, que nos apresenta Jesus como o novo Moisés. O livro do Deuteronômio termina dizendo: "Até hoje, não surgiu um profeta como Moisés", e São Mateus vai nos dizer que Jesus é maior do que Moisés. Moisés subiu em uma montanha – o monte Horeb – para receber as tábuas da lei; Jesus também subiu em uma montanha para falar aos discípulos qual era a nova lei (no sermão da montanha, que começa com as bem-aventuranças), e muitas vezes Ele vai dizer: "Vocês ouviram o que foi dito: 'Olho por olho, dente por dente'. Eu, porém, vos digo: 'Amai os vossos inimigos, rezai pelos que vos perseguem'". Jesus nos dá a lei do amor, a lei do perdão.

 

O que destrói o ser humano é a vingança. Têm povos no mundo que brigam há milênios, e nem sabem mais o porquê da briga, pois vivem com a mentalidade da vingança. A vingança só destrói: pessoas, vidas, famílias, nações. Jesus fala para perdoar, deixar para lá e começar um caminho novo. O perdão é um modo cristão de ser sal para a Terra, para dar um gosto bom a este mundo.

 

Jesus fala: "Vós sois a luz do mundo". Se você vier à noite à igreja, vai encontrá-la iluminada, e nem vai olhar para os lustres, pois já tem a luz; você só percebe os lustres quando a luz se apaga. Nós, cristãos, temos que ser para o mundo como a luz: estar presente e transformar a vida das pessoas. Amar os outros como irmãos e irmãs transforma a vida das pessoas! Você não puxa o tapete, não faz fofoca, não difama, não sente inveja se começa a ver o outro como irmão e irmã. E fazendo isso, com essas atitudes, você será como uma luz para as pessoas.

 

Nos primeiros séculos, os cristãos incomodavam os romanos porque aceitavam todos os filhos, viessem como viessem. Já os romanos, se a criança não vinha como o pai queria, eles mandavam matá-la. Se não quisesse uma menina, por exemplo, ou se o filho tinha alguma deficiência física. O mundo romano era horrível! Então eles achavam um absurdo os cristãos aceitarem os filhos como viessem. "Mas como eles aceitam todos os filhos?". Porque é vida! É dom de Deus! Isto é uma luz: o respeito à vida.

 

Mas tem gente que te persegue porque você faz o bem... Tem gente que te persegue se você não entra na "rodinha" dos corruptos – alguns funcionários públicos entendem isso muito bem. O pessoal esta lá, roubando dinheiro da merenda; se você não aceita fazer parte da rodinha, eles vão te perseguir. Mas se você persevera, você vai ser uma luz para o mundo! O caminho de Jesus é esse.

 

E é isso que devemos ensinar para nossas crianças. Os primeiros catequistas são os pais, que devem rezar com seus filhos, falar de Jesus para eles e ter em casa algum símbolo religioso, ao menos um crucifixo. Nós não podemos renunciar a nossos símbolos cristãos.

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 5º Domingo do Tempo Comum (Ano A) – 09/02/2020 (Domingo, missa das 10h, com apresentação das crianças da Catequese).

Acolher a Jesus é acolher a Sua Palavra

01/02/2020

Religiosos e religiosas, viemos aqui para esta celebração olhando para Jesus. É Jesus, como a própria iconografia desta igreja, o começo e o fim. Ao entrar nesta igreja, temos o ícone de Jesus – “Jesus, eu confio em vós”, e aqui [sobre o altar] o crucifixo, lembrando-nos que Jesus é o centro de nossa fé. Ele diz “Eu sou a luz do mundo, quem me segue não andará nas trevas” [Jo 8:12].

 

Hoje, festa da Luz, tanto assim que em sua origem em Portugal se chama festa de Nossa Senhora da Candelária. Nossa Senhora é aquela que apresenta Jesus, junto com São José, mas a festa é de Jesus. Na liturgia de hoje, a igreja coloca como Festa da Apresentação de Jesus. Jesus é apresentado naquele rito judaico no qual o primeiro filho a nascer, o primogênito, é apresentado no templo e consagrado a Deus. Jesus vai ser apresentado uma outra vez, no dia da sua Paixão, quando Ele é julgado e Pilatos apresenta “Eis o homem”, momento dramático no qual a multidão que foi beneficiada por Jesus com sua Palavra, com seu amor, com os milagres diz “crucifica-o”. E nesse relato da apresentação de Jesus, conforme o Evangelho [Lc 2,22-40], já está presente o sinal da Paixão. Simeão diz a Maria: “uma espada de dor atravessará o seu coração”.

 

Esta celebração de hoje é a festa da luz, porque Jesus é apresentado, mas também é a festa da acolhida de Jesus por Simeão e Ana, dois pobres, anciãos, que aguardavam a manifestação de Deus. Assim também, na Paixão de Jesus, foram poucos os que realmente acreditaram n’Ele. Esta narrativa tão bonita, tão poética: Jesus que vai ao templo com o pai e a mãe é oferecido, essas duas personagens o acolhem, José e Maria oferecem um par de rolinhas como oferta, sacrifício – e isso prova que realmente eram pobres, porque esta era a oferta dos pobres, os ricos ofereciam cordeiros, por exemplo.

 

Então essa festa diz o que para nós? Diz sobre nossa fé em Jesus. Nós já o encontramos na nossa vida? No íntimo do nosso coração, já encontramos Jesus? Os bispos reunidos em Aparecida dizem que tudo depende... e, também a nossa fé, tudo na vida do cristão depende desse encontro com Jesus! Deus nos apresenta, nos oferece através de Maria e José, o seu Filho Jesus, luz do mundo. Muitos olham, mas preferem viver nas trevas; outros aceitam essa luz sob condição que ela ilumine somente algumas áreas da vida e não toda a vida... Como nós estamos diante da manifestação desta luz, Jesus Cristo, na nossa existência? Nós acolhemos esta luz? Nós queremos estar iluminados por Ele? Nós aceitamos que Ele é o Filho de Deus que se fez homem em tudo semelhante a nós, menos no pecado?

 

Ele é o filho de Deus, como nos diz a Segunda Leitura [Hb 2,14-18]. Queridos irmãos e irmãs, a luz se manifesta. Deus se oferece, Deus está aí batendo e batendo na porta da nossa casa, do nosso coração. Simeão e Ana tiveram essa sensibilidade de acolhê-lo. Também hoje é dia de nos perguntarmos como nós acolhemos Jesus na nossa vida. O “acolher” Jesus não é uma questão do cérebro, da boca, fazer orações. É uma questão de vida, de atitude. Não é uma questão sentimental, isso é o que mostra a Segunda Leitura. Não é uma questão de sentimento só, mas é uma questão de adesão com a vida. Nós sabemos que Jesus se manifestou em nossa vida, e que nós O acolhemos quando a nossa vida muda, quando isto é determinante nos nossos atos, nas nossas atitudes, no modo de viver, no modo de agir, no modo de encarar a realidade na qual vivemos. Quem é o teu Mestre? É Jesus?

 

Então a Palavra de Deus hoje coloca-nos não só essa alegria imensa de ver que Deus se manifesta, na Primeira Leitura [Ml 3,1-4], o profeta diz eu vou mandar o anjo preparar o caminho para Ele. Deus já mandou muitos anjos preparando o caminho de Jesus na nossa vida, e Ele se manifesta, e como você vê essa manifestação e como você o recebe? Receber Jesus é deixar se guiar pela sua Palavra. Quem me ama, guarda a minha Palavra. Quem me recebe, dá crédito para que eu ensine a Palavra.

 

E nós estamos celebrando aqui os 80 anos desta paróquia que tem como padroeira Santa Teresinha. A história desta paróquia é bonita, ela existe antes da criação da nossa Diocese. Quando se criou a Diocese de Santo André, já existia esta paróquia e todo itinerário e foi consagrada a Santa Teresinha, que na época da fundação desta paróquia era a santa que estava logo após a sua canonização, o mundo inteiro falando dela – hoje se fala, mas naquela época era uma grande novidade, era uma santa do dia. Cada época tem algum santo que são mais conhecidos. Mas Santa Teresinha estava dando uma grande mensagem, que ela recebeu Jesus sim, como luz para sua vida, mas levou a sério nas pequenas coisas da vida. descobrindo que a resposta que nós damos à manifestação de Jesus, a acolhida que nós damos é o amor. Porque o amor é a síntese do que Ele nos ensinou, mas um amor não só afetivo, mas efetivo, incidente na nossa vida, nos nossos atos, na nossa realidade. E o sinal desse amor é o serviço aos irmãos, tanto que ela desejou ser missionária e é uma das padroeiras das missões, junto com São Francisco Xavier. O amor nos impele a servir o próximo, a manifestar-se como estar a serviço dos irmãos e da causa do reino de Deus. O amor, portanto, é um colocar-se nas mãos de Deus, com toda a confiança, aquela mesma confiança que a criança tem ao se colocar nas mãos do pai e da mãe. Nós confiamos em Deus? Nós acreditamos que Deus pode, na nossa existência, influir, transformar, dirigir? Existe abandono nas mãos de Deus de nossa parte? É uma boa pergunta que todo esse dia de celebrações tão significativa coloca diante de nós a partir da Palavra de Deus. E o que fez Santa Teresinha foi isso, receber Jesus, luz na sua vida, acolhê-lo, acreditar na sua Palavra e vivê-la como um amor capaz de servir e de se entregar a Jesus para que Ele transformasse sua vida e a dirigisse. E isso para nós é muito difícil. A nossa cultura é uma cultura do individualismo, do narcisismo. “Quem manda na minha vida sou eu”, “não obedeço a ninguém, nem a Deus e nem os seus representantes muito menos”, “eu é que mando na minha vida”, isso é a glória do homem da nossa época.

 

E nós estamos celebrando o Dia da Vida Consagrada. Não existe vida consagrada sem esta atitude de obediência para com Deus, de deixar a sua vida nas mãos de Deus, de entrega alegre nas mãos de Deus. E quem é um exemplo disso além de Santa Teresinha? Maria e José. Que estavam ali colaborando com o plano de Deus, que mudou os seus planos, colaborando com o plano de Deus que entrou na vida deles e mudou o direcionamento dos seus projetos. José e Maria jamais fizeram projeto de ser o que eles foram: Maria, mãe do Filho de Deus, e José, pai adotivo do Filho de Deus. Acolhida do projeto de Deus para nós, isto é, vida religiosa, a vida de quem se consagrada, tanto no batismo – que vale para todo mundo – como para os consagrados que sentiram o impulso, como Teresa do Menino Jesus, de se consagrar inteiramente a Deus numa vida que não mais lhe pertence. O consagrado é aquele cuja vida não lhe pertence mais. E isto você vê que é para gente corajosa. Corajosa na força do espírito. Que maravilha! Vamos bendizer a Deus pelos religiosos e religiosas que estão aqui.

 

Vamos continuar nossa celebração, colocando-nos diante de Deus e pedindo a graça de vivermos todos nós a consagração batismal de aceitar Jesus na nossa vida como Luz.

Homilia: Dom Pedro Carlos Cipollini – Apresentação do Senhor (Ano A) – 01/02/2020 (sábado, às 16h, missa solene pelo Aniversário de 80 Anos da Paróquia Santa Teresinha).

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Paróquia Santa Teresinha

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