Homilia  

Ter o pensamento de Deus

20/09/2020

Este é um Evangelho [Mt 20,1-16] muito intrigante. Jesus fala deste patrão. Naquele tempo, há cerca de 2000 anos, nós temos 99% das pessoas que trabalham ou na agricultura ou cuidando de animais lá nos confins da Palestina. E o que acontece? No tempo da vinha, muitas pessoas têm que ser contratadas para recolherem as uvas. Você não pode levar 3 meses para recolher as uvas porque é muito rápido o processo de amadurecimento. Então, temos lá estes trabalhadores que oferecem seus serviços, que nem nossos boias-frias. E estes homens são contratados logo de manhã e o patrão concorda em pagar uma diária, que naquela época era uma moeda de prata. Durante o dia, ainda tem muito trabalho na vinha e ele vai outras vezes chamar trabalhadores. Chega a um ponto de chamar gente faltando uma hora para acabar o trabalho.

 

Chega o fim do dia, e ele pede para chamarem os trabalhadores de trás para frente: primeiro, os que começaram a trabalhar mais tarde e, assim, trabalharam menos horas. Estes trabalhadores saíram com a moeda de prata, um dinheiro com o qual dava para se alimentar por um dia. Ou seja, você trabalhava por um dia de alimentação. E o que começa a ser apresentado aqui? Jesus está revelando como é o coração de Deus e como é o nosso coração. O coração de Deus dá tudo o que ele tem. Deus não se dá para nós em pedacinhos. Deus se dá inteiro.

 

A nossa justiça, quando ela é boa, ela é retributiva: dá a cada um o seu. Mas, na maioria das vezes, a nossa justiça é punitiva e vingativa. Nós vemos na atitude dos trabalhadores que começaram a trabalhar na primeira hora: “como que é isso? Isso é injusto! Eu trabalhei o dia inteiro. Você tem que se vingar deste sujeito que só trabalhou uma hora. Você não pode dar para ele o mesmo que vai dar para mim”. Acreditam em uma justiça torta. Mas Deus não pensa assim. Deus se dá inteiro. Porque o homem que trabalhou uma hora tem que comer por aquele dia. É um ser humano.

 

O pensamento de Deus é muito diferente. Nós, cristãos, muitas vezes, e em especial em tempos de crise como a pandemia, somos tentados a pensar como o mundo: “ah, o que importa é ter o dinheiro. As pessoas? Não importam. Pode mandar embora. Deixa passar fome, isso não é problema meu”. Isso é pensamento do mundo e não pode ser pensamento de um cristão. As pessoas vêm em primeiro lugar. O que eu estou disposto a sacrificar pelo bem das pessoas? O pensamento de Deus é diferente e nós, cristãos, temos que aprender a pensar como Ele.

 

Vou contar uma breve história de um filme, que era a segunda parte da história da Alice no país das maravilhas. Havia a rainha vermelha que tomou o poder. E a Alice foi ajudar a rainha branca, que era toda boazinha, muito poderosa, que tinha o poder enorme de dar a vida. Era seu único poder: ela só podia dar a vida. No fim, há uma guerra danada e a rainha vermelha perde e vai ser mandada para a prisão junto com seu maior protetor. E ele fala: “não, me mate. Prefiro ser morto do que viver sempre perto desta mulher perversa”. Daí a rainha branca diz: “isso eu não posso fazer; eu só posso dar vida; este é meu poder”. A vida que Deus dá é vida para todos. Não tem quem mereça mais e quem mereça menos. O nosso horizonte é a casa do Pai. Na casa do Pai, não dá para guardar tesouros. Na casa do Pai, nós temos a mesa comum dos irmãos, onde todos têm o necessário. Não falta e não sobra a ninguém. Não dá para acumular porque não tem sentido. Porque ali nós temos a presença de Deus. E nós temos que aprender a pensar como Deus. E a justiça de Deus é a bondade. Nós podemos dizer até que Deus não sabe dar outra coisa que não seja vida, bondade, misericórdia e acolhida.

 

Vamos nos perguntar em que lugar desta fila que vai receber o pagamento nós estamos. Cuidado, pois cristãos, muitas vezes, podem estar lá reclamando de Deus porque Ele está sendo bom. Não caiamos no mesmo erro destes trabalhadores nos quais Jesus dá um puxão de orelha. E Jesus dá para eles a vida e não um castigo por meio desta lição. O patrão deu a moeda que foi prometida. As pessoas estão reclamando de ter sido cumprido justamente aquilo que foi prometido.

 

Vamos pedir que o Espírito Santo inflame o nosso coração para que possamos ter o coração cada vez mais semelhante ao de Deus.

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 25º Domingo do Tempo Comum (Ano A) – 20/09/2020 (missa às 10h).

Perdoar sem limites

13/09/2020

Semana passada, nós ouvimos o evangelho da correção fraterna: "Quando teu irmão pecar contra você, vai e conversa com ele" [ref. Mt 18, 15-20]. Hoje, o Evangelho está nos falando sobre o perdão ao teu irmão que peca contra você [Mt 18,21-35]. São Pedro diz: "Quantas vezes devemos perdoar? Até sete vezes?"; Jesus vai responder: "Não sete, mas setenta vezes sete". Falava-se muito com linguagem de números naquele tempo, e sete era um número perfeito. Mas Jesus quer que vamos além da perfeição. Sempre! O teu perdão não pode ter limite! Por quê? Nós temos que ser como filhos e filhas do Pai. O perdão de Deus não tem limite, somos nós que colocamos limites nas coisas. Nós somos vingativos, nós queremos que a justiça se vingue das pessoas. Deus não quer isso. Deus pensa de outro jeito, e Ele age de outro jeito. Se nós pensarmos nas últimas palavras de Jesus na cruz, no Evangelho de São Lucas: "Pai, perdoa-lhes, eles não sabem o que fazem" [ref. Lc 23, 34]. Jesus não fala isso para um ou dois pecadores; Ele está pedindo perdão para os monstros que criaram toda aquela armação para destruí-Lo de uma forma cínica e que ainda estão ali, debochando Dele, aos pés da cruz. É um absurdo! E Jesus pede perdão por esses.

 

Nós somos chamados a pensar como Deus, a agir como Ele, a acreditar no ser humano. "Nossa, padre, mas não dá para acreditar em todo mundo". Não mesmo, ser cristão não é ser bobo. A justiça, neste mundo, tem que ser feita, mas de forma justa, para educar, para reinserir as pessoas na sociedade. Uma pessoa que comete um crime grave tem que pagar pelo crime, porque fez um mal para o tecido social; mas, como eu disse, para ser reeducada e reinserida no sistema social.

 

Em uma sociedade em que existem tantas injustiças, tantos preconceitos, nós temos que sanar muita coisa, e o perdão é uma guia para o ressanamento social. Se nós olhamos o grande número de portadores de drogas – hoje está em um debate político essa questão –, as nossas cadeias estão com uma população absurda de encarcerados por porte de droga. Não por tráfico, por porte. E a maior parte são jovens e negros. Isso é uma doença, um pecado da nossa sociedade: estigmatizar o preto e o pobre. O que é preciso fazer? Mudar a lei, melhorar as condições de vida das pessoas, garantir educação básica a essas pessoas para que nós possamos, realmente, ter uma sociedade reconciliada.

 

Nós, cristãos, temos que arrancar do nosso coração a palavra e o sentimento da vingança. Isso não é de Deus! Isso não é da Sagrada Escritura! O coração de Deus é um coração que ama, um coração que perdoa. Vingança, ódio, não podem estar no coração de um cristão. E quando nós percebermos isso no nosso coração, vamos pedir ao Senhor que nos converta, que coloque no nosso coração o coração Dele, para que nós possamos amar e sentir como Deus.

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 24º Domingo do Tempo Comum (Ano A) – 13/09/2020 (missa às 10h).

Somos todos irmãos

06/09/2020

Vocês se lembram que eu falei que no Evangelho de São Lucas existem cinco grandes pregações, cinco grande sermões de Jesus para lembrar os cinco livros do Pentateuco, a Lei? O Evangelho é a nova e definitiva lei de Deus, a revelação de Deus. E nós estamos no quarto discurso que é sobre a comunidade dos discípulos, onde nós encontramos uma situação, que é uma situação humana também dentro da comunidade e Jesus nos ensina como fazer... Papa Francisco tem insistido muito nisso também ‘se teu irmão’ - não é qualquer pessoa, não é uma pessoa que não te conhece, que não tem nenhum afeto por você, o teu irmão, irmão na fé, é um irmão da comunidade, - ‘pecar contra você, vai e conversa com o teu irmão’, você e ele. Não fique falando para os outros, não fique cutucando os outros, não fique levando notícias para todo mundo, menos para a pessoa. Está errado. Vá e converse pessoalmente com a pessoa. O falar do outro, falar que estamos ofendidos e chateados, só cria mais mal estar entre as pessoas. Vai e resolve com a pessoa, não fale por trás, resolva com ela, é teu irmão, é tua irmã na fé. E muitas vezes, essas situações se resolvem, porque você dá a outra pessoa a possibilidade de se explicar.

O que o Evangelho diz: ‘se essa pessoa, até na conversa pessoal você com ela, não percebe, não quer ver o erro que ela esta cometendo contra você, vai e fale para duas pessoas, não para a comunidade inteira, duas pessoas, para que elas venham junto com vocês tentar conversar com a pessoa. Se nem assim essa pessoa escuta, fala para assembleia, não é falar mal da pessoa, é quase chamar a pessoa em juízo. Você está errando, você está me passando a perna, isto não é cristão, se nem assim a pessoa escuta, deixa de lado, Deus vai cuidar dela.

Falar do outro, sem confrontar a pessoa, destrói a comunidade, destrói a família, destrói o ambiente de trabalho, destrói a vizinhança. Tem problema, vai e resolve com a pessoa. Nós chamamos isso de sinceridade, pessoa que não tem duas caras. O cristão não pode ser uma pessoa de duas caras, não pode ser uma pessoa que fala por trás dos outros, que arma por trás das pessoas, é muito grave, porque nós temos que construir uma comunidade de irmãos e irmãs, e entre irmãos e irmãs existe sinceridade, perdão e correção.

Depois Jesus, nos diz esta grande frase de consolação: ‘Onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome, Eu estou aí no meio deles. Peça para o Pai, e o Pai concederá ao seu tempo, ao seu modo, no tempo de Deus, mas Deus escuta’. Por isso que nos neste tempo de pandemia, rezamos juntos mesmo estando longe, mesmo estando cada um na sua casa, aqui na igreja hoje, com o distanciamento, pra que? Por que? Nós cremos que Jesus está aqui, nós cremos que Jesus está unido com todos nós que estamos aqui participando desta missa pelos meios de comunicação. Jesus se faz presente, Deus nunca nos abandona, nós não podemos desistir sem o sustento radical do poder de Deus. Nada em nós pode escapar da mão de Deus, nós estamos mergulhados em Deus e isso para nós deveria ser uma grande consolação. E depois está outra frase: ‘tudo que ligares na terra, será ligado no céus e tudo que desligares na terra, será desligado nos céus.’ que a comunidade dos fiéis junto com seus pastores crer, e iluminado pelo Espírito Santo. A comunidade dos fiéis.

Vamos pedir a Deus que Ele nos ajude a ser sincero, conversar com as pessoas se nós temos problemas com elas. Nesse tempo agora no Brasil, está difícil as vezes até conversar com as pessoas, temos que aprender a dialogar. E o diálogo se dá no respeito, mesmo com opiniões diferentes. Aprender a conversar com outro, aprender a respeitar o outro, porque o que nos move é o amor de Jesus Cristo. O outro para mim é um irmão, a outra para mim é uma irmã, é isto vale mais do que qualquer posicionamento. O outro e a outra são irmãos.

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 23º Domingo do Tempo Comum (Ano A) – 06/09/2020 (missa às 10h).

O caminho de Jesus é serviço

30/08/2020

Domingo passado, nós ouvimos a profissão de fé de Pedro. Jesus perguntou: "Quem vocês dizem que eu sou?", e Pedro respondeu corretamente: "És o Cristo, o Filho do Deus Vivo". Então Jesus confirma a fé de Pedro e, logo depois, faz este discurso: "O Filho do Homem irá para Jerusalém, vai ser processado, flagelado, morto e ressuscitará ao terceiro dia". Jesus não está falando como um visionário, como um "bruxo" que lê as cartas. Quando você coloca a mão em uma caixa com fios de alta tensão, você sabe que, mais dia, menos dia, irá se queimar; não precisa ser visionário para saber disso. Todos os profetas foram assassinados, todos; nenhum deles morreu tranquilo, na própria cama; João Batista tinha sido morto por ordem de Herodes poucas semanas antes – por isso Jesus fugiu de Herodes. Então Jesus sabe que a vez Dele vai chegar, e ele mostra: "O futuro é este, e esse futuro dará em morte, porque o que eu prego, o mundo não aceita".

 

Pedro, quando reagiu a essa Palavra, mostrou que a profissão de fé que ele acabava de fazer – "Tu és o Cristo, Filho de Deus" – não tinha o mesmo conteúdo que Jesus entendia. Pedro falava do messias que o povo esperava, um messias político, que ia reunir o povo de Israel, subjugar as outras nações, expulsar os romanos da Palestina e fazer com que Israel fosse a maior nação do mundo. Essa era a ideia doida que eles tinham – um país minúsculo, com ideias megalomaníacas. E foi essa ideia que destruiu o povo de Israel 40 anos depois. Jesus vai logo responder para Pedro: "Esse pensamento não é de Deus. Suma daqui! Você não pensa como Deus". Porque Deus pensa diferente, a salvação de Deus é outra.

 

Jesus vai dizer: "Quem quer ser meu discípulo, tome a sua cruz todos os dias e me siga. Renuncie a si mesmo". O que quer dizer isso? Que temos que pegar um chicote e ficar batendo nas costas? Colocar pedras no sapato para machucar, para sofrer? Isso é masoquismo, bobagem. Jesus está falando para renunciar a si mesmo, fazer-se servo dos outros, servir aos outros. Não é renunciar à própria inteligência, aos próprios talentos; é usar tudo isso para o bem do próximo, para o bem da comunidade. Ser servidor, e não se valer de tudo isso para crescer e pisar nos outros. Este é o grande desafio que Jesus nos faz: ser servos. Tomar a cruz todos os dias é exatamente isso, porque a renúncia a esse desejo enorme que nós temos de ser deuses – o grande pecado de Adão e Eva – é algo que temos que lutar contra todos os dias, mudando de mentalidade, como diz São Paulo.

 

Que nós tenhamos, descubramos em nós esse tipo de pensamento, de desejo, não é o problema. O importante é olhar para Jesus, para sua mentalidade, seu modo de agir, e ir acertando nossos passos com os passos Dele. Olhar para Jesus e acertar meu passo com o Dele dói, mas isso é a cruz. "Ah, mas se eu sou servo dos outros, depois não vou ter reconhecimento". Esse é o caminho de Jesus. E quem é que vai reconhecer o que você fez? O servo por excelência, que é Jesus, quando Ele vier na glória dos Seus anjos e santos. Porque o sentido da nossa vida, do nosso empenho neste mundo, é medido e pesado pelo momento do encontro com Jesus. Naquele momento, nós apareceremos diante de Jesus como somos – ou como fomos, porque o único que "É", é Deus.

 

Construir, dia após dia, o caminho do discipulado; mudar a mentalidade; a isso nós chamamos "conversão", para agir e pensar como Jesus. É isso que nós temos que fazer. Parar de chamar, por exemplo, os pobres e sofredores de "vagabundos"; parar de acusar as pessoas que nos param no farol, que lavam o vidro do carro, vendem bala ou até aqueles que pedem mesmo alguma coisa – aqueles são nossos irmãos que sofrem. Se você não tem nada de material para dar, ao menos dê respeito! Todos nós podemos dar respeito para os outros, e não acusar as pessoas porque são diferentes. Temos que abraçar o outro por aquilo que ele é, porque Deus faz assim, Jesus fazia assim. Amar e respeitar o outro na sua diferença, sem julgar, pois a Deus cabe o juízo. Esse é o caminho de conversão, caminho de mudança.

 

E quando nós aceitamos seguir Jesus, pode acontecer o que aconteceu com o profeta Jeremias. Jeremias é um profeta dolorido. Se o profeta Isaías era luminoso – ele anunciou que Jerusalém não seria invadida e viu essa promessa de Deus ser cumprida, viu as tropas da Síria sumirem do dia para noite dos arredores de Jerusalém e não voltarem; ninguém podia acreditar naquilo, mas Isaías viu a promessa luminosa de Deus –, por outro lado, Jeremias só anunciava desgraça. "Esta cidade será invadida, não sobrará pedra sobre pedra, vocês todos irão para o exílio". Ele fazia sinais terríveis – abria brechas nos muros e passava à noite, falando que era aquilo que aconteceria com o povo, que seriam todos exiliados e sairiam pelos muros da cidade, humilhados, com a cabeça coberta, expulsos daquela terra. E o que o povo falava? Que Jeremias era tonto, e o ameaçavam. O anúncio que ele fazia era amargo, mas, tempos depois, Jerusalém foi invadida, o rei foi deportado, os grandes do povo foram levados embora e o templo foi destruído. Jeremias, provavelmente, foi deportado para o Egito e assassinado. E ele disse: "É terrível ser anunciador disso, mas Deus me seduziu. Ele me mostrou o caminho, e eu não consigo não seguir por ele, mesmo que as pessoas riam de mim, mesmo que me chamem de bobo, mesmo que digam: 'Você não vai aproveitar a sua vida'. Eu não posso deixar de anunciar o que meu Senhor mandou, porque Ele é como um fogo dentro de mim, e Sua Palavra queima em meus ossos".

 

Quem encontra o caminho de Jesus se encontra nessa situação de Jeremias: sabe que o caminho é aquele, que a via é aquela; mesmo que os outros riam da minha cara, que as pessoas até tramem minha morte por não gostarem de ouvir o que eu falo, eu não posso deixar esse caminho. É igual ao homem que vende tudo porque encontrou um tesouro num terreno; os outros vão chamá-lo de louco, mas ele sabe que não é loucura; ele vai, compra aquele terreno e, ali, tem um tesouro. São as mesmas palavras do profeta Jeremias: "O Senhor me seduziu, eu não posso abandoná-Lo. Eu sei que isso me custa, mas esse fogo me guia pelo Teu caminho"; "Eu não vou abandonar este caminho. Eu vou vender tudo para ficar com este tesouro, que é a Palavra de Deus".

 

Hoje, no encerramento do Mês Vocacional para a Igreja no Brasil, nós celebramos o Dia do Catequista. Os catequistas e as catequistas são o braço direito da Igreja, que pregam o Evangelho e ensinam a conhecer, amar e seguir Jesus. Só ama quem ouve falar; só ama quem conhece, então é preciso alguém para anunciar – isso é São Paulo. Quem ama, segue. Então a grande missão dos catequistas é levar a conhecer Jesus e, desse modo, acender o amor por Ele e o desejo de segui-Lo. O batismo é a porta desse caminho. E esse caminho é ouvir a Palavra, conhecer a Palavra, conhecer Jesus. Conhecer Jesus para viver, no dia a dia, no nosso estado de vida, o Evangelho. Este caminho guia toda a nossa vida. Todas as vocações são unidas e guiadas pela Palavra, pela fé que nos é dada no batismo.

 

Todos nós somos chamados a seguir o Evangelho, todos nós somos chamados à conversão. Conversão é mudar nosso modo de agir e de pensar conforme o jeito de Jesus. Jesus é servo. Jesus é fiel. Jesus não faz acepção de pessoas. Jesus ama, com um amor que não mede consequências; o amor de Jesus não tem limite! Dá vida. Esse é o modelo. A Catequese nos ajuda a conhecer, amar e seguir esse caminho. Vamos pedir a Deus que ajude todos nós a viver o serviço e o amor que Jesus nos propõe no Evangelho.

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 22º Domingo do Tempo Comum (Ano A) – 30/08/2020 (Dia Nacional do Catequista, missa às 10h).

O Papa é o escolhido para guiar o povo de Deus na terra

23/08/2020

Hoje nós ouvimos esta passagem do Evangelho de São Mateus [Mt 16,13-20]. É a mesma passagem que se lê no dia em que o Papa inicia seu ministério "Petrino". Antigamente, se dizia "a coroação do pontífice". A partir do Papa João Paulo II, não existe mais a "coroação do Papa". Existe o início do ministério "Petrino". O Papa recebe o ministério no momento em que, diante dos eleitores, ele diz "eu aceito". É um carisma dado, diretamente, por Jesus Cristo. É um carisma, não uma ordenação, da qual o próprio pontífice pode renunciar, como o Papa Bento XVI fez. Um sacerdote, um diácono ou um bispo podem até deixar o ministério, mas nunca se dissolve o sacramento da ordem porque ele imprime um sinal na alma. O Papa carrega esse sinal porque ele é bispo, é diácono, sacerdote, presbítero e também epíscopo. Mas o ministério Petrino é um carisma dado por Jesus, confirmado e mantido pela força do Espírito Santo.

Quando o Papa exerce esse poder? Quando ele prega o Evangelho de Jesus Cristo. Quando ele confirma a fé dos seus irmãos e irmãs. Nós podemos dizer que todos os papas desde São Pio Décio são santos. Mesmo o Papa Pio XI, para o qual não sei se foi aberto o processo de beatificação, foi um homem que enfrentou grandes ditaduras ideológicas do tempo – o nascente fascismo e o nascente nazismo. Ele as enfrentou de uma forma rigorosa e foi responsável por uma grande expansão missionária da Igreja no século XX. Papa Bento XV foi o Papa das "entreguerras". Foi um grande homem, visionário, muito progressista para seu tempo. Depois, nós temos essas figuras maravilhosas: Pio XII, o Papa da Segunda Guerra Mundial e, depois, estes 3 santos – João XXIII, Paulo VI e João Paulo II – que coroaram a segunda metade do século XX, especialmente, com o Concílio do Vaticano II que, muitas vezes, tem sido afrontado por grupos tradicionalistas.

É interessante como nós manipulamos palavras do Papa. O Papa Paulo VI uma vez disse: "a fumaça de Satanás entrou por brechas na parede da igreja. E esses são os que não aceitam o Concílio”. Essa segunda parte da frase quase ninguém usa. Quem não aceita o Concílio não trabalha pela unidade da Igreja. O Papa é, para nós, sinal de unidade. Assim como o bispo na diocese. O clero e o povo de Deus estão em volta dessas duas figuras: o Papa, para toda a Igreja; e o bispo, para a Igreja local. Para Igreja Católica, o Papa Francisco. Para Igreja Católica local, em Santo André, o bispo Dom Pedro. Então o Papa, para nós, é essa figura que nos lembra Pedro.

 

A igreja de Cristo nunca saiu do mar do mundo. Caminhando, às vezes com mais dificuldade, às vezes com mais facilidade. Quando nós temos homens santos que guiam a igreja, o povo também tem vantagens com isso. O povo se anima. Quando temos pecadores, o povo fadiga mais. Porém, Jesus está sempre nesse barco, e prometeu para Pedro sobre a Igreja: "As portas do inferno não vão destruí-la".

 

Nós vemos fraquezas, pecados, escândalos. E se nós olhamos a história da Igreja, nós achamos absurdos. Porém, por mais absurdo que seja, nenhum desses homens ensinou algo que fosse contra o Evangelho de Jesus. Sobre eles paira, ao menos, esta graça: guiar o povo de Deus no caminho do seguimento de Jesus, na fé em Jesus. Que ele seja santo ou pecador, mas guie e aponte o caminho de Jesus.

 

Na Primeira Leitura, do profeta Isaías [Is 22, 19-23], há esse grande mordomo do palácio do rei, que era praticamente o Primeiro Ministro. Era ele que fazia as pessoas se apresentarem diante do rei. Era ele que concedia muitas graças, cuidava da cidade de Jerusalém. E o Sobna não era um bom mordomo, era um péssimo homem. Então, o profeta Isaías fala sobre uma profecia terrível: "você vai ser destituído e um outro honesto e justo será colocado no seu lugar. E ele vai ser chamado de 'Pai do povo' porque ele será um justo administrador da casa do rei. O que ele abrir, ninguém fecha; e o que ele fechar, ninguém abre”. É a mesma coisa São Pedro e o Papa. No processo de guia do Evangelho de Jesus, a palavra do Papa é infalível, no que diz respeito à fé. Há várias questões de moral não condicionados pelo tempo. Existem períodos em que se acredita em uma determinada coisa e, depois, a ciência e o conhecimento humano demonstram algo diferente. Já as questões de fé são mais claras.

É interessante ver como o Papa realmente anima o povo. O Papa João XXIII, no dia em que abriu o Concílio, fez o grande discurso da Lua. Era muito interessante porque o Papa, naquele dia, tinha aberto o Concílio de manhã, e havia cerimônias o dia inteiro. O povo viu o papa duas vezes e isto foi uma coisa de outro mundo. Essa hora então, o Papa estava jantando - era mais de 21h - e o povo não queria ir embora. O povo ainda estava na Praça de São Pedro. Então veio o secretário e disse: "Santidade, o povo ainda está na praça; vai lá falar para o povo ir para casa; fala alguma coisa para o povo". Ele fez um dos mais belos discursos que um papa tinha feito nos últimos 100 anos. Ele falou assim, de coração: "Olhem a lua, que linda ela cheia, uma maravilha”. Disse também que a Igreja se abria para a renovação. E a última frase foi: "Vão para a casa, façam carinho em seus filhos e digam que isso é um carinho do Papa".

 

Era de uma luminosidade, de um otimismo, de um brilho que só pode vir da inspiração divina. Este ânimo, este encorajamento é a grande missão do Papa. Nós, alguns meses atrás, vimos Papa Francisco, mesmo com um problema no andar, subindo sozinho as escadas da Basílica que levam para o átrio de São Pedro, em meio à chuva, rezando e abençoando o mundo, pedindo a Deus que o mais rápido possível passasse a pandemia. Eu acredito que um homem sozinho nunca tenha reunido em torno de si tantas pessoas. Sozinho, naquela praça, pedindo a Deus com gestos muito eloquentes, simples. Um velho subindo uma escada; um velho rezando; um velho que se dirige à imagem de Nossa Senhora da Saúde, salvação do povo romano.

 

Depois, aos pés de Jesus, naquele crucifixo. E, se nós prestarmos atenção, atrás dele estava o cerimoniário, que estava se segurando. Porque aquele era o momento do velho rezando pela Igreja e pelo mundo, toda nossa esperança ali, naquele gesto. Depois a bênção para uma praça vazia, mas para um mundo cheio de esperança. Essa é a missão do Papa: nos dar esperança, aumentar e confirmar nossa fé no caminho de Jesus. Vamos pedir a Deus que ilumine o Papa, sucessor de Pedro. Este Pedro que, mesmo na sua fraqueza, conseguiu manter viva a sua fé. Que Deus confirme sempre, através dos sucessores de Pedro, a fé de todos nós no seguimento de Jesus.

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – Solenidade da Assunção de Nossa Senhora (Ano A) –23/08/2020 (Domingo da Vocação para os ministérios e serviços na comunidade, missa às 10h).

Maria: o primeiro anúncio da Boa Nova

16/08/2020

Hoje a igreja celebra a Assunção de Nossa Senhora. Maria foi a primeira discípula de Jesus, desejada por Deus desde a eternidade, no momento eterno em que Deus, a Trindade, quis a encarnação do Verbo, da segunda pessoa da Santíssima Trindade. Lá, na eternidade, Deus quis uma mãe para o seu filho. Na eternidade, Deus decide a sorte humana. Na eternidade! Deus não criou o mundo para a destruição, Deus não criou o mundo para a falência. Deus criou o mundo para que todos sejam salvos e possam gozar da felicidade eterna de Deus. No tempo, o verbo toma carne no ventre da Virgem Maria, e a presença de Jesus, uma pequena célula, no ventre de Maria, faz com que essa mulher seja a primeira anunciadora de Jesus.

Naquele tempo, havia muitas caravanas, que iam e vinham. A terra de Israel é uma terra de passagem entre os grandes impérios do norte e o Egito, no sul. Então Israel era terra de passagem, então tinha muita caravana. Então, provavelmente, Maria vai, em uma dessas caravanas, até a Judeia. A terra santa, a Palestina, é muito pequena. Ela é quase exatamente do tamanho do nosso estado de Sergipe. Pequena, 21 mil km². Então é rápido se locomover naquela terra. Maria vai, e tem essa frase do Antigo Testamento que diz “como são belos os pés da mensageira que anuncia Sião eis aqui o teu Rei” [IS 52:7]. Essa imagem de Maria caminhando é maravilhosa! Maria vai andando nessas colinas, montanhas da Judeia, carregando em si a promessa de Deus para a humanidade, o Salvador. A própria presença dela é o anúncio “eis aqui o teu Rei, eis aqui o teu Salvador”. Maria vai à casa de Isabel, que também tinha recebido uma graça de Deus. Essa mulher, que provavelmente casou-se com uns 12, 13 anos como qualquer mulher daquele tempo, durante toda a sua vida, não pôde ter filhos, agora quem sabe, lá nos 45, quase 50 anos, quando as esperanças são praticamente zero para uma mulher ter filhos, vamos pensar, no fim da menopausa, e, de repente, esta mulher engravida. Ninguém pode acreditar nisso! “Mas que coisa absurda, no tempo da fertilidade ela não ficou grávida e agora que está acabando tudo, acontece esse verdadeiro milagre”. E o anjo tinha falado disso para Maria, então Maria vai levar o anúncio da fidelidade de Deus para Isabel: “Olha aqui, o Salvador mostrou fidelidade para você. Ele mostra fidelidade para o nosso povo. A promessa que Ele fez desde o início está sendo cumprida agora!” Então Isabel, quando escuta a saudação de Maria “Shalom!”, exulta no Espírito Santo e louva Maria com as palavras que nós todos os dias repetimos na Ave Maria: “bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre”. Louvor a essa mulher que traz em si a Salvação. Ela não é a salvadora, mas ela leva, ela anuncia aos outros o Salvador que ela mesma tem no seu ventre.

E o Evangelista coloca na boca de Maria este canto maravilhoso que é o Magnificat, que é um pré-anúncio das bem-aventuranças do Evangelho de Lucas. O Senhor dispersa os soberbos, derruba poderosos, salva famintos, salva os pobres. Deus ama no avesso da história! Essa é a grande mensagem do Evangelho. O nosso Deus não é um deus desse mundo, e quando nós falamos desse mundo não quer dizer terra, sol e lua, esse mundo é da mentalidade que nós humanos criamos. Ele não é da nossa mentalidade não, Ele é diferente! Ele vira o mundo pelo avesso, Ele olha o mundo por aquilo que a nossa mentalidade despreza: os humildes, os pobres, os famintos. Ali está o olhar de Deus, e é a partir dali que Deus vai salvar toda a humanidade, de baixo, a partir daqueles que são o refugo do mundo. Maria nos ensina a louvar a Deus e reconhecer que toda obra da salvação é graça Dele. Maria não canta nada para si mesma: “eu sou uma serva humilde, Ele olhou para o meu pouco, para aquilo que eu não valho. Eu sou nada.” É interessante dizer que Jesus, no Evangelho de Mateus vai dizer: “vinde a mim porque sou manso e humilde de coração.” A humildade é uma característica de Deus. Maria também vai dizer: “olhou para a minha humildade, para a minha humilhação, para o meu nada”. Nós, cristãos, somos chamados na nossa vida a viver sempre na humildade de Deus.

E nós temos depois a vida de Maria. A um certo momento ela se torna discípula de Jesus, nós não sabemos quando, mas, lá no Pentecostes, Maria está com a comunidade dos discípulos e Maria estava perto da cruz. E nós cremos que, no momento da sua morte, ela foi assumida na Glória de Deus, em corpo e alma. Ela brilha para nós como garantia da promessa de Deus para nós. E a promessa de Deus está lá no Antigo Testamento: “meu povo, quando eu abrir os vossos túmulos, quando eu vos chamar dos vossos túmulos, naquele dia vocês verão que eu sou o Deus fiel, digo e faço” [Ez 37:12]. A Assunção de Maria é, para nós, um sinal que Deus nos dá de que esse é realmente o nosso destino. A ressurreição de Jesus é a porta que abre esse caminho para a casa do Pai – Jesus é o caminho! Maria, para nós, mostra que, por esse caminho, todos nós passaremos, essa é a nossa grande esperança, a força para o nosso caminho, a força para enfrentar as dificuldades da vida, as dificuldades desse momento. Tem muita gente que está deprimida, tem pessoas que estão desesperadas. Nós, cristãos, somos o povo da esperança. Quantas desgraças se abateram sobre a humanidade? Sobre povos inteiros! E a humanidade consegue se refazer, mudar as estradas tortas da vida. Às vezes cai em estradas mais tortas ainda, mas muda esses momentos. Nós, nesse tempo de sofrimento, quando a gente fica perdido para todos os lados, não sabe quem está falando a verdade – nós, cristãos, não podemos perder a esperança! Nós somos o povo da esperança. Para quê? Para que nós possamos construir um mundo melhor, um mundo verdadeiro. Maria, para nós, brilha como uma estrela que nos diz “sigam Jesus como eu segui e vocês vão construir um mundo mais justo, mais fraterno, mais verdadeiro!”. Hoje nós temos as desgraças dessas fake news que nos fazem não acreditar mais em quase nada, não é? Então Maria nos aparece como esse sinal, essa garantia: “sigam Jesus e vocês conseguirão construir um mundo de paz, de verdade, de diálogo, de justiça, de solidariedade”.

Muito bem, hoje também nós celebramos junto à Assunção de Nossa Senhora, o dia dos religiosos e religiosas. Quem são os religiosos e religiosas? São pessoas chamadas por Deus a seguirem Jesus seguindo as regras de vida – nós chamamos formas de vida – propostas por alguns santos e santas, pessoas que fundaram esses movimentos. Como nascem os religiosos? Os religiosos nascem no início do quarto século, logo depois que o imperador Constantino dá a liberdade religiosa para os cristãos. Desaparece o martírio, os cristãos não são mais perseguidos, e alguns homens e mulheres começam a achar “mas a vida cristã virou água com açúcar, que negócio é esse?”. Alguns, não poucos, homens e mulheres vão para regiões desérticas, montanhas, vales, para, ali, viver uma vida muito austera. “Como nós não somos mais perseguidos pelo Estado, não somos mais martirizados por causa de Jesus, nós vamos procurar viver uma vida austera para manter dentro do povo de Deus esse sentimento de levar muito a sério o Evangelho”. Dessa forma nasceram as formas monásticas, os beneditinos, os basilianos, várias ordens monásticas dos primeiros séculos quatrocentos, quinhentos do Cristianismo. Essas primeiras formas de vida vão evoluir e depois vão se tornar as ordens religiosas de nós conhecemos por volta de 1200. Depois, nós vamos ter um grande florescimento da vida religiosa nos anos 1500 e, novamente, nos anos 1800. Um número enorme de congregações religiosas voltadas, sobretudo, para a educação, para os hospitais, para as prisões. Naquele tempo, quem cuidava das cadeias eram os religiosos, não era a polícia. Antigamente não tinha escola pública, tinham essas escolas que os padres e as freiras organizavam, e geralmente para as crianças pobres. Também hospitais eram guiados e cuidados por religiosos. Então, os religiosos são para nós esse sinal. Ser cristão é levar a vida cristã a sério. Um pai, uma mãe de família, que levam a vida cristã a sério, são, também, luz para toda a comunidade – são luz para os próprios religiosos, são luz para os padres. Um padre que leva a sério a sua consagração, a sua ordenação, é luz para o povo. Um leigo, uma leiga não casada que leva a sério a sua vida cristã, é uma luz para a comunidade. Nós temos sempre que lembrar que não existe um modo, um cristão de classe A, de classe B, isso não existe. Nós somos todos povo de Deus. Temos várias formas diferentes de viver o cristianismo, a nossa fé, mas não existe classe A ou classe B. O padre não é classe A, os religiosos classe B, e os leigos classe C, isso não existe! O que existe são irmãos, irmãs, discípulos e discípulas de Jesus. Não há classes dentro da igreja, por isso nós somos católicos. Não tem classe, não é exclusividade de uma nação, não é exclusividade de uma língua, não é exclusividade de uma população particular. Ela é chamado para toda a humanidade, católico, todo, totalidade. É chamado a todos serem irmãos e irmãs sem ter distinções e classes.

Vamos pedir ao Senhor que nos ajude a ser anunciadores do Evangelho como Maria foi anunciadora do Evangelho, e a levar muito a sério a nossa consagração batismal para que nós possamos ser luz, os religiosos possam ser luz, os leigos possam ser luz, os sacerdotes possam ser luz. Todos irmãos e irmãs em Jesus Cristo.

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – Solenidade da Assunção de Nossa Senhora (Ano A) –16/08/2020 (Domingo da Vocação para a Vida Consagrada, missa às 10h).

Coragem. Sou Eu. Não tenham medo

09/08/2020

Nossa igreja ainda está vazia. Nestes próximos dias, nós vamos treinar o pessoal para acolhida, para guiar as pessoas. E, se não mudar nada, em setembro vamos voltar, devagarinho, às missas presenciais. A gente diz "se não mudar nada" porque não se sabe como esta pandemia é. Os números não diminuem, eles se estabilizaram nos 1.000 – e isso não é uma estabilização: 1.000 pessoas que morrem por dia de covid-19, além das outras doenças, é um número assustador! Teme-se que alcancemos 200 mil mortes até o fim de outubro... São números assustadores! E perceber o esforço mínimo – para não dizer quase desprezível – do nosso Executivo com a covid-19, com esta pandemia que está matando, está tirando tantas vidas de forma totalmente desnecessária... Isso é um absurdo.

 

Muito bem! Nós ouvimos dois textos muito interessantes. No livro dos Reis [1Rs 19, 9a. 11-13a], o profeta Elias tinha sido perseguido pela terrível rainha Jezabel, depois de fazer sinais potentes contra os sacerdotes pagãos. Ele escapa, foge. Chegando no deserto, para embaixo de uma árvore e pede a Deus: "Deixe-me morrer!". Mas um anjo aparece e lhe dá, três vezes, pão e água. E, com esse alimento, ele caminha 40 dias no deserto, até chegar ao monte Horeb. Lá, entra numa gruta, e Deus fala para ele: "Venha até a minha presença". Então ele escuta este vento terrível, terremoto, fogo... Mas ele sabe que Deus não está nessas coisas. Depois o texto é muito interessante! Nós falamos "Ouviu o murmúrio de uma brisa leve", mas não: "Ouviu o silêncio de uma brisa leve". Nesse momento, ele cobre o rosto, porque ninguém pode ver a face de Deus. O único que vê a face de Deus é o Verbo Eterno, que se esvaziou de si mesmo e entrou em nossa história: Jesus Cristo, Ele vê o rosto de Deus, o rosto do Pai, porque Ele é igual ao Pai, nós não somos iguais a Deus. E aí, então, Deus vai dar uma nova missão para o profeta. Elias tinha pedido para morrer, mas Deus dá uma bronca nele, e Elias vai, unge um rei, unge Eliseu como profeta... Ele tinha outra missão para cumprir.

 

A presença de Deus. O "Deus Terrível" não é o Deus de Israel; o "Juiz Implacável", o "Deus do Medo" não é o Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo! Nós temos que colocar muito bem isso na cabeça. Deus não ameaça, Ele mostra as evidências dos fatos. "Se vocês não se convertem, se vocês não se tornam verdadeiros seres humanos, do que valeu a vida de vocês? Que sentido tem a vida desse jeito?". Perder o sentido da vida é como viver uma vida de lixo. Deus mostra a evidência do viver. "Vocês, na vossa vida, têm que se humanizar". E ser humano é ser que ama, é isso que nos distingue dos animais, é isso que nos distingue do Universo enorme que está em volta de nós. Nós somos capazes de amar! E é no amor ao próximo que se mostra a nossa semelhança com Deus. Uma vida gasta pelo bem dos outros, e nós encontramos pessoas felizes.

 

Depois, nós temos este Evangelho muito interessante [Mt 14, 22-33]. Jesus ouviu falar que Herodes tinha matado João Batista e fugiu, foi para um lugar deserto, longe. Ali, as multidões foram atrás Dele. Jesus fez o sinal do Pão da Vida, deu pão ao povo, pão no deserto; esse povo foi convidado a não viver mais de uma memória do passado, mas abraçar Jesus, que é o verdadeiro Pão da Vida. Depois, Ele despediu a multidão e falou para os discípulos atravessarem o mar da Galileia e irem para o outro lado, enquanto ele ia se retirar para rezar. Eram horas de travessia no mar da Galileia, um lago gigantesco – tanto que era chamado de mar. E no mar da Galileia existe uma situação muito perigosa, que são os ventos. Como lá é baixo, os ventos descem a 90º e levantam ondas terríveis, que podem realmente afundar barcos, fazer desastres. E elas acontecem de um momento para o outro. Então os discípulos estão ali, driblando como podem essas ondas, quando veem Jesus se aproximar. Depois, Jesus vai entrar na barca e eles vão conseguir se salvar desse mar bravio.

 

O evangelista pegou esse milagre que Jesus fez para nos ensinar muita coisa sobre Deus, muitas coisas sobre a Igreja e sobre a nossa fé. Jesus subiu para a montanha; Ele não estava com os apóstolos, Ele os mandou: "Vão. Vão pelo mar". Uma ordem de Jesus. Isso lembra Jesus que sobe ao Céu depois da Ressurreição e os apóstolos são mandados a anunciar o Evangelho no mundo, um mundo hostil, que vai matar muitos cristãos, que pensa muito diferente do Reino de Deus. E esses homens estão nessa barca pequena – comparada ao gigantesco mar da Galileia, a barca não é nada. Como é que você vai enfrentar os horrores do mundo? A tempestade simboliza isto, o mar revoltado. Deus é aquele que comanda sobre as águas, que manda que as águas se abram para que passe o povo de Israel a pé enxuto. Deus tem o comando sobre os elementos e sobre a maldade do mundo. O faraó estava correndo atrás do seu povo para exterminá-lo, e o povo, de repente, se encontra com a muralha do mar. "O que nós vamos fazer agora? Estamos perdidos! Só temos o mar a nossa frente e o faraó, louco, atrás de nós". Aí Deus fala: "Não. Eu sou o Senhor da história!", e Ele abre o mar e o povo passa; os egípcios entram atrás, o mar se fecha e morrem todos. Jesus mesmo já tinha acalmado uma outra tempestade no mar da Galileia, comandando os ventos como se comanda um cachorro. Jesus estava no barco, dormindo; a água começou até a entrar no barco, os discípulos se desesperaram, chamaram Jesus. Ele se levantou e disse: "Quieto!" – igualzinho nós fazemos com um cachorro: "Vá para a casinha! Vá embora!". Do mesmo jeito, Ele comanda as forças adversas; e, estas, calam, porque a voz de Deus é soberana.

 

Então os apóstolos estão lá, no mar, e Jesus vai até eles. Num primeiro momento, pensam que é um fantasma (quando Jesus ressuscitou e apareceu aos apóstolos, Tomé duvidou: "Enquanto eu não tocar a marca dos cravos, não vou acreditar"); eles veem essa figura andando em cima do mar – que coisa mais absurda – e gritam de medo! E Jesus diz: "Coragem! Sou Eu. Não tenham medo". Três vezes. Jesus vai quebrar o ferrão que o maligno colocou no nosso coração no dia do pecado das origens. Primeiro, Jesus chama à coragem: "Não tenham medo, não se desesperem. Coragem! O mar está feio? Vão em frente!". Sou Eu. "Sou Eu" é o nome de Deus. Jesus é Deus como o Pai, e o poder de Jesus está acima do poder do mal. E Jesus vai mais adiante: "Não tenham medo". Para o medo e a desconfiança da bondade de Deus ("mas será que Deus nos ama mesmo?"), Jesus diz: "Não tenham medo. Confiem!". A grande consequência do pecado das origens é perder a confiança em Deus, achar que Deus está nos enganando, está mentindo para nós; não confiar também no outro, começando a vê-lo como inimigo – como Caim e Abel, inveja do outro; e, ainda, a desconfiança sobre nós mesmos. É a desarmonia do coração humano com Deus, com o próximo e consigo mesmo. Jesus vai dissolver esse veneno, dizendo: "Não tenham medo. Não desconfiem de Deus. Não duvidem de Deus. Porque Deus é fiel!". É isso que Jesus está nos ensinando, é isso que vai acabar com o veneno que o maligno colocou no nosso coração, com o joio que ele semeou na nossa vida. Deus é mais que isso, e a confiança radical em Deus vai nos garantir caminhar no meio dessa tempestade.

 

Aí nós temos Pedro, este homem espontâneo, cabeça dura, orgulhoso e covarde. Porém, é um grande líder. E Ele diz: "Senhor, se é você...". Atentos! "Se é você". A fé de Pedro ainda não é total, ele quer sinais. É uma fé que ainda está fraca, bem fraquinha. Mas é uma fé suficiente. Jesus vai dizer: "Vem", e Pedro começa a andar sobre as águas, indo em direção a Jesus, sob o comando de Jesus. Mas Pedro – que deveria ter os olhos fixos em Jesus, confiar Nele, não duvidar, jogar fora do coração o veneno do maligno – se assusta; ele olha, vê o mar, vê as ondas... Aí a fé fraqueja. "Quem vai conseguir vencer tudo isso?". E é interessante que o Evangelho diz: "Pedro começa a afundar". Mas não é afundar devagarinho... Não, começa a afundar como uma pedra pesada! Pedro é pedra nisso também. Essa pedra é como certas rochas lá do mar da Galileia, que são todas pintadinhas de branco e preto. Pedro é este homem que parece um barco que vai, mas vai balançando, um homem que constantemente tem que se confrontar com sua fraqueza, com sua traição; e, constantemente, gritando a Deus: "Senhor, salva-me! Senhor, salva-me!". A fé de Pedro é fraquinha, mas suficiente para ainda, no desespero, gritar: "Salva-me, Senhor!". E interessante também é o gesto de Jesus, que mostra a fidelidade absoluta de Deus. Jesus, imediatamente, segura Pedro, mostrando, nesse gesto, a sua fidelidade radical. Deus não vai nos abandonar! Nem que nós tenhamos que caminhar pelo vale escuro da morte, porque nem a morte é um problema – nós vimos isso na ressurreição de Jesus, nem a morte. Confiem!

 

Então Jesus pega Pedro e pergunta: "Por que você duvidou? Homem de pouca fé! Não duvide". E Jesus está falando isso também para nós. Ele não está prometendo um mundo maravilhoso se nós rezamos, se vamos à missa; Ele está nos dizendo: "Não tenha desconfiança de Deus, em qualquer situação adversa da vida, por mais terrível que possa ser". Deus não vai tirar as dificuldades da vida, mas estará sempre próximo de nós. Essa é a fidelidade de Deus. Deus não está "acima de todos", como certos doidos falam por aí; Deus está no meio do seu povo. Cuidado com as bobagens nazistas e neonazistas que nós escutamos da boca de muitas pessoas... Deus está no meio do seu povo, Deus caminha conosco, Deus está presente nas situações de dor e sofrimento do mundo. Deus está no meio de nós.

 

E aí vem a promessa de Deus, que é esse barco chegar no porto para o qual ele estava destinado. Teve uma santa mística, Santa Emmerich, que teve uma visão da humanidade, e ela ficou aterrorizada. Ela tinha Jesus ao seu lado e falou: "Meu Senhor, mas que horror! O que o pecado fez com a humanidade?!". E Jesus disse: "É verdade. Mas, no fim, tudo vai dar certo". Essa é a confiança serena dos discípulos de Jesus. A realidade pode nos destruir, pode nos esmagar, pode nos matar; mas a fidelidade de Deus nos fará chegar ao porto seguro da Salvação. Nós temos um exemplo disso na vida de Dom Pedro Casaldáliga. Ele não teve medo de enfrentar desprezo, calúnia, perseguição – até do alto escalão, até da Igreja! – para permanecer fiel: "Deus está no meio do povo pobre, Deus está no meio dos indígenas perseguidos, Deus está no meio dos camponeses que estão sendo massacrados pelos grileiros. Eu tenho que ir ao encontro desses sofredores, dar voz a eles, estar com eles, viver a vida deles". Por quê? Ganhou grandes títulos? Não. Foi promovido para uma grande diocese? Não. Recebeu chapéu cardinalício? Não. Porém, gastou a vida fazendo o bem, porque acreditava na fidelidade de Deus. Esta vida, nós podemos gastar! Esta vida, podemos colocar toda a serviço dos outros. Não nos preocupar com títulos, com poder, com dinheiro; gastar a vida pelos outros, porque a chegada no porto da Salvação é segura.

 

Os pais são, para nós, essa figura. A mãe é o sonho do paraíso perdido – eu gosto muito dessa imagem. É uma imagem muito psicológica, mas diz muito sobre a figura do pai e da mãe. A mãe é esse paraíso que nós perdemos na hora do nascimento e para onde sonhamos a vida inteira em voltar: não tem trabalho, a gente não precisa nem respirar, tem tudo, é quentinho, não tem nenhum problema. O pai é aquele que nos ampara quando esse mundo maravilhoso colapsa com o parto e nós somos jogados fora. A primeira coisa que a criança sente quando nasce não é a necessidade de respirar; o primeiro choque que a criança leva é a queda da temperatura: frio. Muda, o espaço cresce de modo infinito. Esse é o primeiro choque da criança. E a imagem psicológica é a do pai que está ali e recebe essa criança que sai do útero da mãe. Ele é o primeiro que vai acolher essa criança e levá-la, educá-la para enfrentar as adversidades do mundo, enfrentar o mundo. Esta é a missão do pai: ajudar seus filhos a enfrentarem o mundo. Como a águia, no alto do abismo; mal dá para se mexer no ninho; chega uma hora que os filhotes ou aprendem a voar ou morrem. Os pais vão nutrir, vão ficar voando em volta, devagarinho, para as aguiazinhas olharem, verem como é, até o momento em que elas vão se jogar de cima do abismo. Para esse momento, os pais nos prepararam: para o momento de abrir as asas e se jogar na vida, com aquilo que os pais nos deram, com os valores, com as lutas que os pais nos deram. E nós não podemos delegar essa função para a escola, para os catequistas, para a televisão. São vocês, pais e mães, que têm que dar esses valores para os filhos. Vocês têm que educar. Na escola, vossos filhos vão receber informações, formação; mas não substitui a vossa responsabilidade, que é um drama hoje nas escolas – os pais que delegam para a escola uma função que é deles. Vocês têm que educar, vocês transmitem valores, vocês têm que aprender a gastar tempo com os vossos filhos; não dar o celular o tempo inteiro, mas vocês falarem, dialogarem, se confrontarem, brincarem com vossos filhos. Vocês, pais e mães. É uma grande missão! Deus chama, Deus pede. Para que? Para que nós possamos fazer com que este mundo, este aqui, seja o mais parecido possível com aquele paraíso com o qual nós sonhamos a vida inteira. Essa é a via que vai nos conduzir ao porto seguro da Salvação. E nós não temos que ter medo das ondas da vida, das tempestades. Não. Deus está conosco! Não está acima de nós, Ele está conosco, caminha junto conosco, quer o nosso bem, quer a nossa salvação.

 

Queridos pais, feliz Dia dos Pais! Bendito seja Deus pela vossa missão, pela vossa vocação maravilhosa. Vocação primordial, que está no momento da criação dos homens. A maior de todas as vocações: a maternidade e a paternidade. Deus abençoe todos vocês e dê a vocês, realmente, coragem, fé na fidelidade de Deus. Sejam, vocês mesmos, sinal desta fidelidade para vossos filhos, e nós teremos, realmente, um mundo melhor.

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 19º Domingo do Tempo Comum (Ano A) – 09/08/2020 (Domingo da Vocação Familiar e Dia dos Pais, missa às 10h).

Lutar contra as desigualdades é papel de todos

02/08/2020

Na bíblia, imediatamente antes deste Evangelho [Mt 14,13-21], nós temos o relato da morte de João Batista. Esta morte acontece durante um banquete dado pelo Rei Herodes para os poderosos de sua corte: os generais, os nobres, a sua esposa Herodíades. Muitas vezes, para que os grandes se banqueteiem eles precisam criar multidões de famintos. Assim como ocorria nas demonstrações de poder do império romano e de todos os impérios, criando acúmulo nas mãos de poucos e miséria para milhões. E nós não estamos muito longe disso não. O nosso país está em uma situação triste.

Jesus fica sabendo disso e vai para um lugar deserto e distante porque Herodes era terrível. Ele parecia ser bonzinho, mas ele era tremendo. Em todo grupo que ele achava que iria fazer um barulho qualquer na sociedade, ele pegava o líder e cortava a cabeça para dispersá-lo. Fez exatamente isso com João Batista e depois vai ajudar a fazer com Jesus. Jesus sabe disso e então escapa e vai para o deserto, onde encontra a multidão. O deserto não é a corte, a multidão não são os nobres. E quando é dito no Evangelho que Jesus curou os doentes no deserto, a Palavra também pode ser traduzida por “fracos”. Os pobres, as pessoas sem voz na sociedade, as vítimas de tanta miséria não têm voz, são fracos diante dos poderes que os esmagam. E Jesus vai ao encontro deles e sente compaixão. Deus se coloca no lugar de quem sofre pois Deus está com quem sofre.

Hoje temos pessoas que perguntam: onde está Deus nessa pandemia? Deus está no hospital com quem está sofrendo; está na cracolândia com o pessoal que tem sofrido muita violência e pobreza; junto com os miseráveis. Do mesmo jeito que Jesus fez com estes miseráveis.

Chega a hora da tarde e lá estavam 5 mil homens, mulheres e crianças. E os apóstolos, com a mentalidade do mundo, orienta que mandassem essa gente embora para comprarem comida. Mas então Jesus mostra a mentalidade de Deus, que é desconcertante, e diz: “dai-lhes vós mesmos de comer”. Não tem que mandar o povo embora. E os discípulos se perguntam como. A multidão não é só as 5 mil pessoas. Entre eles estão representados todos os discípulos de Jesus que virão em todos os tempos. De algum modo, podemos dizer que estamos no meio daquela multidão. E Jesus, do mesmo modo que, no deserto, o povo reclamou pra Moisés que estavam passando fome sem pão e Deus mandou maná (o maná era um grão que aparecia no começo da manhã, com o qual conseguiam fazer um tipo de pão, o pão do Céu), Deus alimentou o seu povo. Jesus pega o pouco que os discípulos tinham. Às vezes, a gente vai passear, vai no parque e coloca um lanche ou uma fruta na bolsa para comer. Às vezes, a criança vai brincar com o amiguinho e a mãe manda um lanche junto. E então Jesus, naquele tempo, fez a mesma coisa: pede aos discípulos para juntar o que eles têm: 5 pães e 2 peixes secos. E então Jesus pede para o povo sentar-se.

Devemos prestar atenção nos 4 verbos que ouvimos aqui. Jesus pegou o pão, olhou para o céu e deu graças, repartiu o pão e deu aos discípulos para que distribuíssem. Esses 4 verbos são exatamente os mesmos que nós pronunciamos quando celebramos a Eucaristia. O pão da vida é o pão da partilha. É o pão que nos faz todos irmãos. E não é comer um pedacinho de pão. O Evangelho diz que comeram até saciar-se. É a palavra do profeta Isaías que se torna realidade presente. Deus está aqui, o Reino de Deus está aqui e Jesus apresenta isso como um sinal: a partilha, o repartir o pão, que é o caminho de Deus. Quando partilhamos, todos podem ter com abundância. É assustador ver, por exemplo, que no mundo menos de 1% da população tem mais da metade do que se produz no mundo, ou seja, dinheiro. Os outros 7 bilhões e meio tem que se contentar com o resto. Tem alguma coisa errada nisso e essa proporção não é diferente no Brasil. E com a pandemia, a coisa piorou. Tem gente que se aproveita até disso e tira a ajuda que o governo dá para os necessitados, pessoas que estão sem emprego. Primeiro, o governo queria dar só R$ 200 e o Congresso brigou para dar R$ 500. Depois, para se apoderar e se aproveitar disso como dele, o Executivo colocou R$ 600 e apresenta isso como coisa dada por ele, mas não é verdade. É uma conquista do Congresso Nacional. O Executivo está se apropriando do que não é dele em outras coisas também. Vai inaugurar coisas no Nordeste para tentar convencer os nordestinos a votarem nele com obras feitas por outros. Isso é o poder do mundo que engana o povo, mente. Esse é o poder de Herodes, a corte que mata. Essa é a corte que toma do povo e não pensa nele pois, se pensasse, a situação em que estamos hoje não seria o que é.

Nós sabemos disso: o pão que Jesus partilha é o pão da vida, do cuidado pelo outro. Jesus se aproxima do fraco e o cura. Deus não precisa se preocupar com rico pois ele já tem o bastante. É a partir do fraco que Ele salva o mundo. Deus não foi multiplicar o pão de Herodes - o pão da iniquidade, que mata a voz daqueles que proclamam a verdade. Olha como os Evangelhos são atuais. Estamos enfrentando uma onda de “fake news” (notícias falsas), que tentam agora destruir o nome de pessoas que denunciam os absurdos que estão acontecendo no nosso país, contra o nosso povo. E quem denuncia é destruído. Esse é o mundo da iniquidade, o banquete de Herodes. O banquete de Jesus é o da partilha, onde todos têm vida.

Mas não tem conversão para Herodes? Uma das discípulas de Jesus era nada menos que a mulher do ministro da economia de Herodes. Há possibilidade sim, mas tem que entrar na mentalidade do reino que é compaixão, aproximar-se de quem sofre e viver do pão da partilha, da igualdade e do respeito. Este é o caminho de Jesus e é disponível para todos! Jesus não exclui. Quem exclui é a corte de Herodes. Quem faz as pessoas fugirem é a corte de Herodes. Quem mata é a corte de Herodes. Quem difama é a corte de Herodes. No banquete de Jesus, todos são irmãos, todos têm o seu espaço, todos ficam saciados, não tem excluídos.

Essa é a novidade do Evangelho. E dizer que o Evangelho não fala nada para a vida é uma idiotice. O Evangelho está mostrando quase um caminho de economia, um verdadeiro caminho de política social, a partilha que todos tenham e não migalhas como estão querendo fazer por aqui, com a continuidade de uma política de 60 anos atrás. Ninguém mais acredita nessa política absurda que está sendo feita, que faliu em muitos países que tentaram implantá-la. Só enganando o Brasil e só torturando a nossa gente. A corte de Herodes não serve. O único lugar é o Reino de Jesus e sua prática de partilha, solidariedade e compaixão.

Hoje também começa o mês de agosto e vamos refletir sobre as vocações. No primeiro domingo, refletimos sobre a vocação sacerdotal e, aqui na Diocese, estamos celebrando o ano vocacional. E Deus nos deu a pandemia no ano vocacional para nos lembrar disso: o sacerdote é o animador da comunidade. Ele também tem que fazer o mesmo caminho de todos os discípulos de Jesus. Não somos mais que ninguém. Nós somos discípulos e também temos que estar em constante caminho de conversão para que a Eucaristia que celebramos se torne vida concreta do nosso dia a dia. Que o nosso ministério seja partilha da vida para que os outros sejam consolados, ajudados e alimentados.

As pessoas podem perguntar onde foram parar aqueles 12 cestos. Eles são um símbolo do pão que Jesus continua distribuindo para o seu povo ao longo dos séculos através dos seus apóstolos. Lá eram doze, hoje são muito mais. Que o Papa Francisco, os nossos bispos, todos os sacerdotes e Jesus “deem esse pão, anunciem o reino, defendam a vida para que todos tenham vida, para que todos possam ser saciados”. É esse o mundo que Jesus quer, é esse o mundo que nós podemos começar a construir aqui nessa sociedade. O padre pode falar de política na missa pois o simples fato de ser humano e estar com outra pessoa já nos coloca em uma situação política. Isso é o Evangelho. O Evangelho de Jesus não é só para criar um conforto na alma da gente. Isso qualquer balela ou qualquer conversinha mole consegue. O Evangelho de Jesus é para que nós comecemos aqui e agora, com nossas opções e ações, a mudar esse mundo.

É possível que este mundo seja diferente. Vai demorar sim. Vai precisar de muito caminho sim. Passo a passo. Mas nós podemos ser o primeiro passo de um caminho de quilômetros. E, às vezes, vamos ver somente o primeiro passo, mas já nele estará o Reino de Deus. Esse reino vai ser pleno no dia da glória eterna, mas o Reino de Jesus começa aqui. Jesus quer que esse mundo, que muitas vezes parece um deserto, comece a ser um mundo de partilha e deixe de ser uma corte que gera morte. Que aprendamos com este Evangelho a olhar o mundo de outro jeito: partilha, proximidade com os que sofrem, compaixão. Estas são as palavras-chave que devem nos guiar a partir desse Evangelho. E nós, sacerdotes, somos chamados a anunciar o Evangelho de Jesus inteiro. Se nós mutilamos o Evangelho, calamos Jesus e somos servos de Herodes que, mais uma vez, cala a voz dos profetas. Vamos pedir ao Senhor que nos ajude a sermos fiéis ao Evangelho e que dê a nós, sacerdotes, na nossa fraqueza e miséria, a graça de poder anunciá-lo com coragem.

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 18º Domingo do Tempo Comum (Ano A) – 02/08/2020 (missa às 10h).

Valorizar o verdadeiro tesouro da vida

26/07/2020

Essas três parábolas [Mt 13, 44-52] são o final do Capítulo 13 de São Mateus, do terceiro sermão de Jesus. E o que nós temos? Nós temos a história deste homem, provavelmente pobre, que estava andando pelo campo, procurando alguma raiz, alguma fruta, ou até recolhendo algum trigo que sobrou da colheita de outros. E de repente, ele olha no chão, e encontra um pote, cheio de dinheiro ou de joias. Que coisa gozada, não é? A gente sair pelo meio do campo e achar um pote cheio de ouro, pois é. Essa prática era muito comum entre os judeus, na Antiguidade. Tanto que quando Roma invadiu e destruiu Jerusalém, quando cavavam nos campos e terrenos, encontrava-se muitos tesouros, porque o pessoal tinha costume de enterrar os tesouros. E o que acontece? Este homem pobre encontra esse tesouro e não pode carregar para casa dele, então o que ele faz? Ele vende tudo o que tem – o pouco que tinha – vendeu tudo, foi lá e comprou aquele terreno. Ele diz ao dono: "Olha, quero comprar este terreno, o dinheiro está aqui". O terreno custava 10 mil reais, e o tesouro valia 1 milhão e meio de reais. Esse é o homem pobre, o tesouro é o Reino dos Céus. Então nos ensina a ter a coragem de jogar tudo o que temos para seguir o caminho do Reino.

 

Aí Jesus conta a segunda parábola: uma parábola interessante de um mercador de pérolas. O pessoal do "mundo das vendas" era muito mal visto pelo povo de Israel, porque eles sempre "passavam a perna" nas pessoas: põe umas gramas a menos no pacote, vende trigo de má qualidade, tenta empurrar sandálias que não prestam para os pobres, era um embrulho só. Então, esse homem estava lá fazendo as compras dele e, de repente, bate o olho e vê no meio de muitas coisas uma pérola, e ele pensou "Se eu descascar essa pérola, vai valer uma fortuna". Vocês sabiam que as pérolas são semelhantes a uma cebola? Elas vão sendo formadas em películas e, quando nós tiramos a pérola da ostra, a película é muito feia. Então você tem que ir devagarzinho descascando a película da pérola até chegar na casca que é limpa e brilhante. Então este homem, visto que o comerciante não percebeu que era valioso, vendeu tudo o que ele tinha e comprou a pérola. Chegou no comerciante e disse: "Ah eu quero esse negócio aí, deve valer uns 10 reais" e, na verdade, vale 10 milhões.

 

Se vocês lerem aquele romance histórico "Chica" – não a novela, mas sim o livro. O livro começa com a história de um casal que recebe um português rico, dono das terras. O português vai até a casa deste casal, e percebe que tem uma pedra igual um ovo de galinha que a moça colocava para segurar a porta para a porta não bater. O sujeito olha e pergunta: "Que pedra diferente, não é?", a mulher responde, "Pois é, é um cascalho que achamos por aí". O homem tinha um olho muito bom, e perguntou novamente: "Posso ficar com essa pedra?", ela responde: "Claro, é cascalho, tem um monte de cascalhos por aqui igual esse". Então esse português enfia a pedra no bolso, leva de volta para Portugal e manda pra Holanda para lapidar a pedra. E o que aparece? Um diamante, de primeiríssima qualidade. Aí ele pensa: "Opa, a moça falou que tem um monte de cascalho igual esse, perto do rio seco, no meio da minha terra". E aí começa o ciclo do diamante no Brasil. Depois tem a história toda da extração dos diamantes e a corrupção terrível que existia no tráfico dos diamantes e do ouro – foi uma situação terrível. Mas ali nós vemos esta história que é muito parecida com a história do negociante que tinha o olho bom. Para a moça era um cascalho, mas para o homem que tinha o olho bom, era um local que tinha muita coisa valiosa. É a mesma história do homem das pérolas, ele tem o olho fino, ele era uma pessoa que procura, era um homem esperto.

 

Jesus vai elogiar, também em outro lugar, um sujeito esperto. Ele metia a mão, não nos bens do seu senhor, porque nesse ele não podia meter as mãos, mas ele cobrava juros absurdos. A pessoa ficava devendo 10 barris de óleos para o senhor dele e ele falava: "Tá bom, eu te empresto, mas você vai ter que pagar mais vinte de volta". Era um agiota terrível – hoje em dia é crime: emprestar dinheiro a juros é crime e se chama agiotagem. Então, aquele sujeito fazia exatamente isso. Na hora que o patrão descobre isso, diz: "Espere, juros sob meu patrimônio não, pode sumir daqui". Então ele vai lá e muda as contas. Ele não mexe em nada o que era do patrão, mas ele tira tudo o que era de juros, que na verdade era para ele. Então ele fala: "Quanto você está devendo para meu patrão?" e a pessoa responde: "Olha, com o juros que vocês puseram, eu estou devendo 20 barris", então ele responde: "Não tem problema meu amigo, você vai pagar só 10, que era o que você estava devendo". E esse homem vai virar amigo desse administrador. E o outro devia muitos sacos de trigo, tipo uns 50, e o sujeito colocou com o juros dando 80 sacos (onde 30 era pra ele); o administrador chama a pessoa e diz "Olha, quanto você deve?", e a pessoa responde "Eu pedi 50, mas com o juros que vocês pediram, eu estou devendo 80", nisso ele responde: "Não, meu amigo, o que é isso... você vai pagar só os 50". E esse homem sai todo contente pensando em como o administrador é bom. Aí o patrão ouve e diz "Olha só que sujeito esperto, jogou tudo fora, porque depois ele iria procurar esses que ele tinha dispensado dos juros e, seguramente, o homem iria contratá-lo como o administrador dele também. E aí ele ia continuar fazendo a mesma história. Mas Jesus não elogia a sem-vergonhice do homem, Jesus elogia a esperteza e o olho bom. Na parábola do semeador, Jesus diz que a pessoa que tem a terra boa que é a terra que foi trabalhada, é a mesma coisa seja do homem que vai achar o tesouro, seja do mercador esperto, eles encontram essa novidade: o Reino de Deus, essa palavra de vida nova, de jeito novo de viver. E eles ficam tão entusiasmados que eles percebem que a vida deles pode mudar, que eles arriscam tudo, sabendo, inclusive, que seguir esse caminho pode até levá-los a morte. Mas eles ficam tão entusiasmados que aceitam até isso. Esse jeito de viver é tão bom, tão maravilhoso: amar os outros, não explorar as pessoas, viver na justiça, viver na paz, amar o outro como irmão. Isso aqui é uma coisa nova e é isso que eu quero, abandonando tudo que me impede de abraçar esse caminho.

 

Depois nós temos a última parábola, que vai nos lembrar da parábola do trigo e do joio. Tem esses pescadores, que trabalham a noite toda, pegam os peixes – figurativamente, Jesus está falando ali do mar da Galileia. Depois que as redes estão cheias, eles puxam as redes para a praia, e o que fazem? Separam os peixes bons dos peixes ruins, ou seja, os peixes que são comestíveis dos outros. Tem peixe que não dá para comer, mesmo que seja peixe. O povo de Israel não comia vários tipos de peixes, só alguns tipos. Ele nos lembra que, no mundo, os peixes estão todos misturados, bons e maus: é a vida, é o mundo. Mas a última palavra da vida, não é dos grandes e potentes desse mundo, a última palavra é do pescador, que vai separar os peixes. Na hora que vai pescar, ele não vai dizer: "Ah não, pega esse, deixa aquele, pega aquele ali". Não dá para fazer isso enquanto está pescando, você simplesmente joga a rede, a vida é assim, vai indo, nessa confusão que é o mundo, mas nessa confusão do mundo, todas as pessoas que seguem o Reino são peixes bons. E na hora da morte, na hora do juízo universal, os bons brilham como o sol. Os maus são podres, como brasa pegando fogo: não valem nada. Então é muito fácil para Deus, na hora da morte, nos julgar. Porque ali nós somos peixe bom ou peixe ruim.

 

Quando a gente pensa nesse tesouro que ouvimos nessas parábolas, podemos imaginar uma caixinha de tesouro com a Bíblia dentro. Na Bíblia, nós temos Jesus crucificado, o caminho de Deus e a Palavra de Jesus. Quem segue Jesus tem a vida. A vida de Jesus é o tesouro. Mas não basta falar que segue Jesus, seguir Jesus é promover a vida para todos, começando dos mais pobres, dos que são chutados pelo mundo, é por aí que Deus começa a salvação. Assim é seguir o caminho de Jesus, encontrar este tesouro, escondido no campo da vida, ou nas barracas perdidas da vida, que nem o homem da pérola, encontrará o caminho de Jesus.

 

Hoje nós celebramos a memória de Santa Ana e São Joaquim, os pais da Virgem Maria. Na imagem da Santa Ana, ela ensina os mandamentos para a Nossa Senhora. Nós celebramos também o dia dos avós hoje. Os avós são a tradição e a memória de nossa família. E, hoje em dia, muitos deles foram chamados a continuar a educação não só dos filhos, mas de muitos netos para que os pais da criança possam trabalhar. Isso para não dizer, os avós que têm que cuidar dos netos porque os pais se separaram, vivem brigando ou tem problemas, e quem tem que assumir a responsabilidade são os avós. Então a sociedade nossa hoje colocou de novo nas costas dos avós o peso da educação das novas gerações. Isso é, num certo sentido, um bem, mas em outro sentido, um grande mal, porque os avós estão dentro da família com uma missão particular, não aquela de ser pais dos próprios netos. Estamos numa sociedade que desvaloriza o relacionamento humano, que desvaloriza o matrimônio e os problemas vão sobrando para os avós. Isso cria uma série de distorções, porém é muito bonito ver os avós que assumem, com tanta responsabilidade, essa tarefa que não é deles, mas sim imposta por uma sociedade que acaba explorando mais os trabalhadores. Então vamos pedir a Deus, pelos nossos avós que, de um modo ou outro, nos transmitem e nos lembram que nós não somos que nem cogumelo na história, nós somos continuação de geração em geração. Nós levamos a diante os grandes valores que recebemos de nossos antepassados. E um dia seremos, se Deus quiser, aqueles que transmitem essas tradições boas – porque as ruins nós jogamos fora – e, sempre iluminados pelo Evangelho, que deve sempre iluminar nossas tradições, para que ao transmitir aos nossos netos e bisnetos, elas sejam sempre mais luz do Evangelho. Vamos louvar a Deus por aqueles que nos transmitem a fé e a tradição da nossa família e do nosso povo.

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 17º Domingo do Tempo Comum (Ano A) – 26/07/2020 (missa às 10h).

Minhas ações são trigo ou joio?

19/07/2020

Estamos ainda no capítulo 13 do Evangelho de São Mateus, e este é o terceiro grande discurso de Jesus, agora como Mestre. Ele vai revelar os segredos do Reino, e continua usando os exemplos que o povo daquele tempo conhecia – vai falar de plantação, de cuidar de ovelhas, cuidar da casa... Ele dá sempre exemplos da vida, porque o Reino de Deus se manifesta no dia a dia da nossa vida. É no nosso dia a dia que manifestamos o Reino de Deus. Dos grandes eventos religiosos, grandes acontecimentos, nós até podemos pegar muitas luzes e sementes do Reino; depois, é no dia a dia que essas sementes têm que ser plantadas, crescer e dar fruto.

 

Das três parábolas do Evangelho de hoje [Mt 13,24-43], Jesus explica uma. O semeador vai plantar suas sementes, e são sementes boas, que ele mesmo escolheu. Ele preparou bem o terreno e jogou suas sementes. Durante a noite – e é muito importante este elemento: "durante a noite" é o mundo das trevas –, veio o inimigo e espalhou, no meio do campo, uma outra semente, o joio. O joio é uma planta que se parece muito com o trigo – as sementes, inclusive; só que elas são escuras, avermelhadas, e o trigo é diferente. Mas quando a planta está crescendo, elas são iguais, engana direitinho. É quando aparece a espiga – o fruto – que você vê que não é trigo, e sim joio.

 

Então foram falar para o dono do terreno: "Como é que tem joio, se o senhor comprou a melhor semente?". E ele respondeu: "Foi algum inimigo que fez isso". Nós percebemos a imagem do inimigo em nossa vida de muitas maneiras: quando mentimos, quando somos invejosos e deixamos a inveja tomar conta das nossas ações. Quantas pessoas fazem o mal para os outros... Há pessoas capazes de destruir a vida do outro, com invenções, com fofocas, e vão envenenando a vida do outro. Uma mentira constantemente repetida, na cabeça de muita gente, vira uma verdade, mas ela continua sendo mentira. O grande inimigo, Jesus o chamou de "mentiroso e assassino", homicida, desde o início. Estas são as estratégias do mal – a mentira, a difamação, a inveja – para destruir, tirar a paz das pessoas.

 

Algo que deve nos chamar a atenção é que Jesus diz que o campo é o mundo. O campo é a igreja, o campo é a nossa comunidade, o campo pode ser a nossa família. E no meio da nossa vida, há pessoas que realmente fazem o mal. O mal é um mistério. Pessoas que querem o mal do outro, maquinam o mal do outro... E, muitas vezes, nós perguntamos: "Por que Deus permite isso?", "Por que Deus não acaba logo com a covid-19?", "Cadê Deus?". Deus está doente, com covid-19, lá nos hospitais de campanha... Deus está morrendo onde o Governo não está ajudando... Jesus está lá, com os doentes. A nossa vida, é pequena; o mundo, é muito grande; para Deus, um dia é como um milhão de anos, mas um milhão de anos são como um sonho da noite que passou. É muita arrogância nossa querer perguntar para Deus: "Cadê você?", "O que você está fazendo?", "Por que você não intervém?". A história é nossa! Somos nós que estamos neste campo. Deus deu para nós construir a história humana. Deus não tira de nós as nossas responsabilidades, porque senão seríamos sempre tolas crianças irresponsáveis, e Deus não quer isso.

 

Jesus diz: "Espera. Deixa o joio e o trigo crescerem juntos. Porque se você for arrancar o joio, pode acontecer de tirar também coisas boas. Deixa crescer. Na hora da colheita, aí é muito fácil descobrir qual é o trigo e qual é o joio. É bem diferente, não tem como se enganar. E, então, você colhe primeiro o joio e joga-o no fogo. O trigo, recolha no meu celeiro. Isso aqui vai dar pão, aquilo ali dá doença, então eu vou queimar". O joio é uma semente que causa náusea, ânsia de vômito, é uma planta que faz mal. Não só é diferente do trigo, mas ela faz mal. A nossa vida, diante de Deus, é muito breve. E tem um provérbio no Antigo Testamento que diz: "Para Deus, julgar na hora da morte é muito fácil, porque na hora da morte nós aparecemos diante de Deus exatamente como nós fomos" [ref. Pr 20, 8-11]. Exatamente. Não há desculpa. Nós somos, diante do olhar transparente de Deus, realidade. "Eu sou isto. Estes são os frutos". Ou é trigo ou é joio, não existe meio termo. As nossas ações ou criam vida, respeito, solidariedade, acolhida, paz, justiça... Ou criam morte. Não tem meio termo! Ou somos humanos ou desumanos.

 

Nós poderíamos também ficar assustados. "Meu Deus, às vezes olhamos em volta e só vemos trevas". Deus não se preocupa com isso, e Jesus vai contar duas outras parábolas. O Reino de Deus é como a semente de mostarda – não a mostarda que vemos e compramos no supermercado; na Terra Santa, naquela região do Oriente Médio, a mostarda é um tipo de cacto, e a semente parece pó. Ela é fina, parece poeira, você não dá nada por aquilo. Se uma pessoa traz um punhado daquela semente, é capaz de você jogar fora, em qualquer canto. Mas quando se dá conta, começa a nascer uma planta com raízes tão profundas, um cacto que cresce tanto... Você corta e ele brota de novo. As rolinhas amam fazer ninhos no meio de suas ramas – por isso Jesus fala: "Os pássaros do céu". E Ele diz que o Reino de Deus é como essa semente: uma sementinha de nada que dá uma planta forte, nada pode acabar com ela. Porque é de Deus, e o que é de Deus não se destrói.

 

Jesus também compara o Reino de Deus com uma mulher que mistura, na farinha, o fermento. Naquele tempo, não havia fermentos químicos, mas sim o que eles chamavam de "semente de fermento" – você coloca uma quantidade de farinha em uma garrafa ou vasilha com água, essa farinha azeda, vai produzindo uma série de bactérias e, então, cria essa força; você pega um pouco disso, põe na farinha nova, vai misturando, põe água, leite e faz o pão. O pão demora para crescer, mas essa força do fermento não para, não dá para parar, e ele faz o pão crescer. É a mesma ideia: o Reino de Deus tem essa força, então toda boa ação que uma pessoa faz, que uma comunidade faz, que um país faz, gera vida. E é uma vida que permanece, porque ainda que a história passe, para Deus, a história é presente – tudo, todos os nossos atos e ações. Na hora da morte, Deus irá ver, diante do olhar Dele, as nossas ações – ações que, diante de Deus, aparecem como o Sol. Durante a noite, nas trevas, o inimigo semeou joio; mas os filhos do Reino brilharão como o Sol". Esta é a imagem do Evangelho.

 

Toda vez que nós mentimos, que faltamos com a verdade, que enganamos os outros, nós estamos criando morte. Hoje temos uma situação horrorosa, não só no Brasil, no mundo todo: as fake news. Fake quer dizer mentirosa: notícias mentirosas, notícias falsas, que você espalha dizendo que é a maior verdade do mundo, mentindo, alterando números, inventando mil e uma coisas para difamar as pessoas. E com que finalidade? Esconder os teus crimes. Isso é muito grave! Pessoas que inventam, falam as maiores barbaridades como se fossem os maiores gurus do mundo; são capazes de influenciar grupos políticos, ministérios, até mesmo o presidente da República. Não dê ouvido! A mentira mata! A mentira leva à morte. Dizer que cloroquina não faz mal é mentira, ela pode fazer mal sim. Uma pessoa pode ser tratada com cloroquina, mas em hospital, sob responsabilidade médica, com controle cardíaco constante. Você não pode dizer que "se não faz bem, mal também não faz". Isso é mentira! A OMS falou: "Descartem". Então dizer que não faz mal, é mentira. E muita gente que acredita na mentira pode se dar mal com isso...

Esses são os criadores de morte, esse é o "mentiroso e assassino". Mentirosos e assassinos nós encontramos em todos os lugares, só que alguns podem fazer mais mal que outros... Vamos sempre ficar atentos à verdade, buscar fazer o bem, buscar a vida. Vida, não ódio, não violência, não armamento. As pessoas têm que se respeitar e se amar, ao menos se tolerar. Mas não sair por aí atirando nos outros – nem a polícia poderia fazer isso. Se nós criamos uma sociedade de respeito, de tolerância, os frutos aparecem, a violência diminui, a saúde das pessoas aumenta, o nível do povo se eleva. Com o bem, nós construímos; com o resto, vem só destruição. E nós estamos vendo muita destruição...

 

Vamos pedir a Deus pelo nosso Brasil. Que esses inimigos, essa gente das trevas, dos "gurus da morte", não prevaleçam sobre o nosso povo, sobre este "campo bom" que é o povo brasileiro – povo que tem como patrona, como padroeira, a Virgem Negra Aparecida. Que não prevaleça, sobre o nosso povo, as forças do mal.

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 16º Domingo do Tempo Comum (Ano A) – 19/07/2020 (Missa às 10h).

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