Homilia  

Que seu coração seja terra fértil!

12/07/2020

Hoje nós temos o início do terceiro grande sermão de Jesus. O povo hebreu tinha os cinco livros do Pentateuco como base e guia da sua fé. Esses livros são a Gênesis, o Êxodo, o Levítico, Livro dos Números e o Deuteronômio. Esses livros compõem o que eles chamavam de Pentateuco, a lei. Então, São Mateus que vê em Jesus aquele que dá a lei verdadeira do Pai, que comunica a Palavra do Pai, vai, no seu Evangelho, mostrar 5 grandes sermões de Jesus. O primeiro é o das bem-aventuranças. O segundo, o missionário. E agora, no capítulo 13, as parábolas. E a primeira dessas parábolas é a do semeador.

 

Só que nós temos que perceber uma coisa muito interessante no início desse trecho que nós passamos batido, porque corremos logo para ver a parábola. Do mesmo jeito que, no início do Sermão da Montanha, Jesus sobe na montanha, se senta, os discípulos se colocam em volta dele, e é interessante ver como o texto fala: “abrindo a boca, falou” – a gente fala “ai, que gozado, só pode falar abrindo a boca”, mas isso, naquele tempo, era para dizer que a coisa que Ele ia falar era muito importante. De fato, Jesus vai fazer nada menos que o Sermão das Bem-Aventuranças. Aqui [Mt 13,1-23] nós temos mais ou menos a mesma coisa: Jesus sobe num barco, se senta, os discípulos estão perto dele, e dali Ele fala para a multidão, que está toda em pé – e o que significa em pé? Prontidão. Na missa nós fazemos alguma coisa parecida? Fazemos! Quando, logo depois do Evangelho e da homilia, nós ficamos de pé e proclamamos o Creio. É a adesão da fé. Então, aquelas pessoas estavam de pé ouvindo Jesus que ensina. Jesus, lá no Sermão das Bem-Aventuranças, é o legislador – Ele vai dar a nova lei, a lei eterna do Reino. Agora, Jesus é o mestre, aquele que ensina, com modelos e exemplos. Muitas dessas parábolas vão ter uma explicação depois. Essas explicações nascem das comunidades cristãs que anunciavam o Evangelho para outras pessoas, então eles tinham um “roteirinho”. Então esses “roteirinhos”, quando o Evangelho foi escrito, foram colocados junto e aí aparecem como se fossem um grande discurso de Jesus.

 

Então, Jesus fala do semeador – por que Jesus fala do semeador? Ué, porque era uma língua que aquele povo entendia. Jesus podia falar de astronauta? Não! Nem Jesus sabia que ia ter astronauta, não é? Jesus fala da vida e dos costumes do povo. Usa, inclusive, muitos exemplos da história de Israel. E aqui ele usa uma imagem, uma situação que todo mundo conhece: todos os anos, mais de uma vez por ano, às vezes, aquele povo fazia plantação. Então, eles entendem bem o que Jesus está falando, e Jesus conta desse semeador. Quando Jesus fala do semeador, aquele povo entende, e Jesus também, que antes de semear a semente, aquele homem trabalhou a terra. Aquele homem passou o arado, e o arado, naquele tempo, era triste. Se a pessoa era rica, ou tinha alguma coisa, ia um burrinho puxando o arado. Se não, quem ia puxando o arado era a mulher! Um arado de madeira enfiado na terra, a mulher ia puxando e o marido ia guiando o arado. Então, preparavam a terra e, no preparar a terra, o que você faz? Você tira os tocos, você tira as pedras, e vai amontoando no canto, vai amontoando nas bordas do campo, não deixa lá no meio do campo, vai colocando lá fora, não é? E você arou todo o campo, o que você vai fazer? Você vai ficar andando em cima do campo todo? Não, você vai caminhar só num lugarzinho para não ficar pisando no campo inteiro e esse caminho vai ficando meio de terra batida. Aí o sujeito vai jogar a semente. Eles faziam toda uma série de orações quando iam, antes de ir e quando jogavam a semente. Tem um salmo que fala disso, não é? “Nós vamos chorando jogando a semente e voltamos cantando com os braços cheios depois dos feixes da colheita!” [Sl 126]. O homem enfiava a mão nesse – no interior de São Paulo a gente falava bornal, é uma sacolinha de pano – enfia a mão, pega aquele monte de semente e joga. Naquele tempo não tinha máquina para semear, era jogando mesmo. Você joga aquele monte de semente. Você joga onde? Na terra boa! Ninguém vai jogar a semente lá no meio do mato. Mas quando você joga, algumas sementes chegam a cair lá onde você amontoa as pedras. Algumas chegam a cair nesse caminho que você fez ali de terra batida para não estragar o campo para lá e para cá, algumas caem até ali. Lá onde tinha os tocos, começa a nascer um matinho, uns espinheiros, tem até uma terrinha boa porque era a terra que você preparou, algumas sementes que caem por ali também vão crescer. E Jesus vai falar que, na nossa vida, ouvir a Palavra de Deus é que nem esse homem que semeia. Ele joga abundantemente – o semeador. Ele não é pão-duro com as sementes. Se ele quer uma colheita boa, ele tem que pôr muita semente, senão não nasce. Então ele enche a mão e joga para que a terra fique cheia de sementes. E essa semente começa a brotar. Então, abundância, não ter medo de anunciar o Evangelho – o Evangelho vai anunciado sempre! São Paulo vai nos dizer: “oportuna e inoportunamente”. Não ter medo de falar do Evangelho! Então, anunciar o Evangelho, e não só de boca, viu? Anunciar de boca é conversa mole. Temos que anunciar com as nossas ações, levando a sério as palavras do Evangelho.

 

Então esse semeador vê que caem sementes lá. Ele não vai correr atrás daquelas sementes porque não dá, não tem sentido. Ele sabe que, muitas vezes, o trabalho que ele fez vai ser inutilizado. Quantas vezes nós fazemos projetos, planos, tantas vezes não dão certo. Nós temos que continuar sendo generosos em anunciar a Palavra de Deus, e viver o Evangelho, porque essas sementes darão fruto. E Jesus alerta para os perigos para a semente – a semente somos cada um de nós, é o coração de cada um de nós! Ou, vamos dizer assim: o terreno é o nosso coração. Nós, muitas vezes, temos um terreno que não foi trabalhado, então está lá todo cheio de mato, cheio de espinhos, a terra não foi afofada, a terra fica fraquinha... Ou, então, fica uma terra dura, a semente bate e fica ali, seca. Ah, passarinho ama semente seca! Então, nós temos que olhar o nosso coração. Jesus vai dizer que há pessoas que se entusiasmam, mas é só da boca para fora, é só ali dois dias, acabou o retiro, dois dias depois não lembra mais, vem na missa “ah, não lembro mais o que o padre falou”, estão nem aí com nada. Tem outros, ainda, que recebem a Palavra, mas, na primeira dificuldade, “ah, eu escutei essa palavra, eu li essa palavra no Evangelho, olha que bonito” e a outra pessoa “ah, deixa isso para lá”, aí já desiste. Primeira oposiçãozinha já desiste! Existem outros que escutam o Evangelho, escutam a Palavra de Deus, mas estão tão preocupados com as coisas da vida, do dia-a-dia, que não dão nem tempo para ouvir direito a Palavra, para rezar, para colocá-la profundamente no coração. Daí os problemas da vida fazem esquecer de tudo, mas Jesus vai nos mostrar que a Palavra de Deus é potente. Do mesmo jeito que nós ouvimos lá na Primeira Leitura [Is 55,10-11], em que o profeta Isaías nos fala que Deus diz “a minha Palavra é como a água da chuva que desce, cai do céu, faz brotar a semente, e dá colheita e alimento para o agricultor”. A minha Palavra é a mesma coisa! Eu a mando para o mundo e ela não vai deixar de produzir fruto porque é a Palavra de Deus. Por isso, quando o semeador joga, a semente cai no terreno bom e ela dá fruto segundo a capacidade de cada um. Para alguns, uma semente vai dar cem sementes novas. Para outro, sessenta. Para outro, trinta. Deu trinta, tem que ter inveja do que deu cem? Não! Ele deu tudo que ele podia. O que deu cem, tem que desprezar o que deu trinta? Não, porque ele deu tudo que ele tinha, e ele sabe que o de trinta também deu tudo e o melhor que ele tinha. Esse é o caminho. Isso é buscar, no dia-a-dia, colocar em prática o Evangelho, refletir: “Jesus disse isso. Como é que eu estou fazendo isso? Eu estou imitando essa Palavra de Jesus? Ela está realmente transformando a minha vida?”.

 

Uma questão que continua muito forte, e espero que continue mesmo, é essa contra o racismo – racismo contra os negros, mas que pode ser também ampliado, todos os tipos de discriminação contra as pessoas. Tem uma Palavra de Jesus: “Vosso Pai é um e vós sois todos irmãos, herdeiros do mesmo Pai”. Jesus não disse “os bons, os honestos” – ou aqueles que se supõem honestos, não disse “os amarelos” ou “os que têm muitos filhos”, não. Todos. Todos vós sois irmãos. E aí a gente vem para a vida, porque sem a vida, o Evangelho é conversa mole! Se o Evangelho não muda as nossas ações, não questiona as nossas ações, os nossos pontos de vista, o Evangelho, na nossa vida, está sendo como aquelas sementes que ficam caindo aí, lá no meio da pedra, do espinho, do terreno seco que morre e vem o diabo e carrega embora, nem deixa dar raiz nem nada. Nós temos que cuidar para não ser esse tipo de semente. A semente boa é aquela que afunda na terra, bebe a água, lança raízes, não tem medo de morrer, e nasce, dando frutos de igualdade, solidariedade, serviço, acolhida, justiça, paz. Esses são os frutos. Então quando eu ouço “vós sois todos irmãos” – isso é o Evangelho – e eu começo a achar que tem gente de segunda classe, que preto vale menos que branco e que pode ir para a favela que dá lá mil tiros “pode matar, não tem problema”: isso não é cristão, isso não é do Evangelho. Eu não mudei o meu coração se eu aceito isso. Não mudei meu coração. Eu tenho que aprender que eu tenho que ser como Jesus. “Vós sois todos irmãos”: todos. Não existem pessoas de segunda classe. Eu não posso, como cristão, aceitar uma pessoa, aceitar um governante que prega a morte, o ódio, o racismo, a LGBTfobia, e vê as mulheres como gente de segunda classe. Eu não posso ser como semente que cai lá nos cantos, e morre. “Isso aqui nunca vai dar flor porque a terra não é boa, está no meio do espinho, isso aqui nunca vai dar flor!”. Pior ainda se você é coração duro. A terra dura faz isso: vem os passarinhos e comem toda a semente, nem chega a dar raiz! A Palavra de Deus, nesses campos assim, é inútil, perdida. Nós temos que ser como terra boa. Como eu disse, ser terra boa dói, custa. Nós temos que abandonar muita coisa. Nós temos que abandonar às vezes até as nossas convicções! “Mas foi meu pai que me ensinou assim, meu avô sempre falava isso, e agora eu escuto Jesus que diz que eu não posso pensar desse jeito! Como que eu vou fazer?”. Joga fora o que seu avô ou seu pai disse, que muitas vezes pode ser, por exemplo, racismo, e abrace a Palavra de Jesus, porque é na Palavra de Jesus que você vai encontrar a vida! “Ah, eu desprezo as pessoas, eu acho que tem que matar esse bando de vagabundo mesmo, esse povo aí só vive dando miséria para o Brasil...”: isso não é do Evangelho.

 

“Vós sois todos irmãos!”, então se pergunte: o que essa Palavra está pedindo para eu mudar? “Mas eu sempre ouvi isso, sempre aprendi isso!”, mas Jesus, o que Ele fala? A porta estreita nos obriga a jogar fora tudo aquilo que não serve. Se você tem que atravessar uma porta estreita, de repente você tem que largar para trás mochila, sapato, às vezes até a sua roupa você tem que ir largando para trás para conseguir passar naquele vãozinho danado que vai te esfolando todo – mas se você não passar por ali o bicho te pega lá atrás – para você conseguir a liberdade e a vida lá longe. O Evangelho custa. O Evangelho não é barato, não. O Evangelho não é conversa mole. Por causa do Evangelho muitos e muitas, velhos, homens e mulheres, e muitas crianças morreram. Para seguir Jesus, aceitaram a morte. Quanto nós realmente aceitamos nos questionar? Quanto nós realmente aceitamos jogar fora para ser realmente discípulos de Jesus, capazes de dar fruto e flor? Essas são perguntas que têm que ficar no nosso coração, porque, sem essa pergunta, nós nunca aprenderemos a ser terra boa e Jesus quer que todos nós sejamos terra boa.

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 15° Domingo do Tempo Comum  (Ano A) – 12/07/2020 (domingo, missa às 10h).

Exerçamos o poder de servir aos irmãos

05/07/2020

Nós estamos diante de uma das páginas mais bonitas do Evangelho [Mt 11, 25-30]. Jesus faz o discurso missionário que nós até começamos a ouvir no domingo passado. Ele envia os discípulos em missão e eles voltam felizes, contando tudo que aconteceu. E Jesus, vendo a alegria deles, louva e exulta o Pai. É interessante ver que esta mesma palavra foi usada no caso da Virgem Maria: “meu espírito exulta em Deus, meu Salvador”. Jesus nos ensina a louvar o Pai. Ele olha a realidade e vê a ação do Pai nesta realidade. E onde Ele reconhece a ação do Pai? Justamente na pequenez. Eu te louvo, Senhor do céu e da terra, porque revelaste estas coisas aos pequenos e as escondestes aos sábios.

 

Não podemos nos enganar nunca. Deus mostra a Sua Salvação através daqueles que, no mundo, “não contam”. Estes dias, eu vi um vídeo realmente pedante. Talvez alguns de vocês também tenham visto. Duas senhoras, muito bem vestidas, falando que não devemos dar marmita ou ajudar os sofredores de rua porque são pessoas que devem ser responsabilizadas, pessoas que gostam de estar na rua. Só pode falar uma asneira dessas pessoas que nunca sofreram na vida. E se dizer que sofre, é mentira. As pessoas não vão para a rua porque querem. Elas vão para a rua porque não são aceitas mais pela família, porque estão sozinhas na vida, porque não conseguem mais pagar aluguel, perderam emprego, perderam tudo. Temos também o problema do pessoal que usa drogas, que bebe demais. E isso não é sem-vergonhice, isso não é vagabundagem. Só um mundo horroroso cria isso. Existe uma frase terrível de um profeta que fala: “vai vir o extermínio para estas vacas de Basã, que vivem nas maravilhas e não estão nem aí com os pobres”. Pelo contrário, ainda os chamam de irresponsáveis. Deus não faz isso.

 

Nós podemos nos perguntar hoje: onde está Deus? Deus está doente, Deus está com COVID-19. Deus está nos hospitais. Deus está abandonado nas ruas. Deus está nas comunidades. Deus está em toda pessoa que sofre. Mas todos nós não somos imagem de Deus? Somos. Mas somos imagem de Deus quando nós agimos como Ele. Quando nos esquecemos de nós mesmos e nos aproximamos de quem sofre, de quem precisa de nós, sem outras justificativas. Sem quês nem porquês. Porque o coração de Deus é assim. Jesus diz “bem-aventurados os mansos porque possuirão a terra”. E nisto, Jesus está falando de exercício de poder. A mansidão, no exercício do poder, significa entender o poder como serviço.

 

Por que nós temos tantos problemas de corrupção no Brasil? Porque muitos dos nossos políticos não têm a consciência da distinção clara (que nem luz e noite, que nem água e óleo) do que é o bem público (o bem comum) e o bem próprio. Com o que eu ganho, eu faço o que eu quero. Mas com o que é do povo, eu não posso tocar nem uma moeda. O que é do povo deve ser administrado para o bem do povo, pois é do outro. Essa distinção, muitas vezes, não é clara na cabeça de muitos de nossos governantes. Toda vez que ouvimos falar de corrupção é porque estas pessoas não fazem o correto. E na maioria das vezes, não fazem porque não querem. E aí está a gravidade da coisa, e isso é crime: não fazer a distinção e se apropriar do que é do outro.

 

Exercer o poder na mansidão é ser todo voltado para as necessidades do outro. Mas não de qualquer outro, senão poderiam dizer sobre um rico empresário. Mas não, porque este já tem os meios dele. O manso olha a parte de baixo da sociedade. Olha o que o COVID revelou, mas que todos nós já sabíamos. Olha a gravidade do saneamento básico. Nós temos milhões de brasileiros vivendo sem água encanada, sem água potável, sem esgoto. Fazendo ainda palafitas em cima de esgoto. São questões terríveis. O SUS, que é o melhor sistema de saúde pública do mundo, ele capenga. Por quê? Possivelmente, porque a gestão não é a mais adequada. Tem gente que ainda acha que aquilo é deles. Mas é do povo. E deve ser administrado para o bem do povo.

 

Olha que engraçado: estamos falando, inicialmente, do Sagrado Coração de Jesus e a gente vem falar de Administração Pública. A mansidão de Jesus mostra que um discípulo Dele que esteja no poder – porque nós temos que administrar a sociedade humana, o cristão tem que estar dentro da política, os católicos tem que estar dentro da política – exerce isso em função do povo, sem se apropriar das coisas do povo. Quer escândalo maior que esse de querer pegar a verba destinada para uso com o COVID? Ainda tivemos outra denúncia de gente metendo a mão no dinheiro da merenda escolar. Que coisa absurda! Aquilo é do povo. Ninguém pode tocar o que é propriedade do outro. Do contrário, você justamente deveria ir para a cadeia. Você não pode pedir para um funcionário fantasma assinar uma folha de pagamento que recebeu um salário e te entregar parte. Isso é crime. Você está enganando o povo ao dizer que precisa daquele funcionário e não precisa de coisa nenhuma, pois é apenas uma forma de enfiar dinheiro no bolso de modo criminoso. Você está roubando o povo. E isso não é menos crime do que roubar milhões porque a estrutura é exatamente a mesma. É diabólica do mesmo jeito.

 

Nós temos, como pessoas, como católicos, que fazer a diferença diante de um mundo desse, diante de situações deste tipo. Não é só punir os culpados – e têm que ser punidos mesmo –, mas nos negar a compartilhar e desculpar situações deste tipo. Ser mansos e humildes de coração. Ser devoto do Sagrado Coração de Jesus significa olhar o mundo e toda ação de comando como serviço ao outro. Especialmente ao outro que sofre.

 

Adorar o Sagrado Coração de Jesus é se colocar no caminho de Jesus, manso e humilde. Um discípulo de Jesus, que quer segui-lo, coloca-se neste caminho. E se possui qualquer tipo de comando – e pode ser o padre, o bispo, o papa, um deputado, um vereador, um coordenador de uma associação de bairro, o dono de uma empresa, de um pequeno negócio aqui da nossa rua –, um católico tem que fazer a diferença. Porque nós professamos a nossa fé em Jesus. Como disse São Paulo, você tem o espírito de Jesus se você age como ele. Do contrário, pode pendurar 500 crucifixos no pescoço que, se não age como Jesus, você não é Dele. O Espírito Dele não está em você se, no exercício do poder, seja ele qual for, você não é uma pessoa preocupada com o bem do outro, se você não se nega a se apropriar do outro. Ou nós somos honestos e vivemos estes valores ou não somos cristãos. O Sagrado Coração de Jesus nos chama a viver de um determinado modo. E quando nós traímos isso, nós não somos Dele. Nós temos que ter isso sempre muito claro.

 

Depois, temos a outra fala de Jesus que vai terminar este pensamento. “Ninguém conhece o Filho senão o Pai. E ninguém conhece o Pai senão o Filho”. Jesus diz “ninguém”. Nem Moisés, nem Buda, nem Isaías, nem Jeremias, nem Gandhi. Ninguém. Somente Jesus. Jesus é a revelação do Pai. Com as atitudes de Jesus, nós vemos quem é Deus Pai. Porque Jesus tem as mesmas atitudes do Pai, Ele é igual ao Pai. Então o Pai exerce autoridade Dele na mansidão, como Jesus.

 

O poder de Deus é a humildade. E olha que outra coisa engraçada: a Virgem Maria, em seu canto, vai dizer “olhou a humildade de sua serva”. Nós não podemos nunca nos enganar. Nosso Deus é o Deus da cruz. Nosso Deus é o Deus dos pequenos e dos últimos deste mundo. Como disse um sacerdote outro dia, nosso Deus é um Deus falido. Não é Júpiter. Não é Krishna. É Jesus crucificado. Este é o nosso Deus, que desce nos porões da humanidade e que quer salvar ela toda, inclusive as vacas de Basã. Porque Deus é misericordioso. E Ele salva lá de baixo para não excluir ninguém. Ele tem os olhos e o coração com os que estão em posição inferior para que o mundo inteiro seja salvo.

 

Vamos pedir ao Senhor Jesus que Ele nos ensine, como cristãos, a sermos mansos e humildes. Para aqueles que têm, exercer o poder e autoridade como serviço aos outros. E o humilde é aquele que é capaz de escutar, que é capaz de não buscar só os seus pontos de vista, mas procurar sempre o bem do povo.

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 14° Domingo do Tempo Comum  (Ano A) – 05/07/2020 (domingo, missa às 10h).

Pedro e Paulo: alicerces da nossa fé

28/06/2020

Nós estamos no último domingo de junho, mês das Festas Juninas e destes três grandes santos: Santo Antônio, São João Batista e São Pedro. E hoje a Igreja celebra a Festa de São Pedro e São Paulo, que a tradição diz que morreram no mesmo período, entre o ano 64 e 67 d.C., sob o império de Nero, que fez uma terrível perseguição contra os cristãos. Esse imperador se tornou modelo dos tiranos que, ao longo da história, perseguem os cristãos. Quando lemos, no livro do Apocalipse: "Aquele que tem entendimento, calcule o número da besta, porque é o número de um homem, e o seu número é seiscentos e sessenta e seis" (Ap 13, 18b), e pegamos o nome de Nero em grego, ao somar as letras temos o número 666. Todos aqueles que perseguem os cristãos, que fazem mal e destroem o povo, que não amam o povo, não se preocupam com as dores do povo, todos eles são a besta fera. Todos. Nero é o modelo, mas todos os perseguidores são bestas feras. Nosso povo está morrendo; no Brasil, já passamos de 56 mil mortos. Muitas mortes poderiam ter sido evitadas... Para bom entendedor, meia palavra basta.

 

Vamos falar de São Pedro. Pedro foi o primeiro apóstolo chamado por Jesus, segundo os Evangelhos Sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas). Dentro do grupo dos apóstolos, ele sempre teve uma grande liderança. E Jesus reconhece e consagra esta liderança. Pedro, depois da morte de Jesus, vai reunir os apóstolos e ser o ponto de referência para as igrejas nascentes daquela época. São Paulo, quando estava nas primeiras comunidades convertidas do paganismo, teve um problema com os cristãos vindos do hebraísmo, que queriam que os cristãos que vinham do paganismo abraçassem a lei de Moisés, com todos os seus ritos, todas aquelas cerimônias, purificações e, sobretudo, a circuncisão dos homens. Paulo dizia: "Isso é coisa da lei antiga", e houve uma grande polêmica. E qual foi a decisão da comunidade? "Vamos a Jerusalém conversar com Pedro e os outros".

 

Pedro foi, depois da ressurreição e da ascensão de Jesus, imediatamente, reconhecido pela sua liderança, autoridade dada pelo mesmo Jesus: "Guia os meus discípulos; confirma a fé dos meus discípulos". Essa é a missão de Pedro. E não só de Pedro, mas também de seus sucessores. Nós temos 265 sucessores de Pedro. O Papa Francisco é o 265º de uma sucessão ininterrupta que, ao longo dos séculos, fez ver muitas luzes e sombras. Na história dos papas, nós encontramos muita luz, muita santidade, grandes nomes, mártires, beatos, santos; encontramos também muita miséria, pecados, brigas... Por outro lado, vemos a coisa mais importante: a fidelidade de Deus por seu povo. Na santidade ou na fraqueza, Deus guia sua comunidade na unidade reconhecida em torno desta figura, o Papa. Às vezes, a comunidade caminha mais devagar; às vezes, mais depressa; às vezes, há grandes avanços, ela se abre para as missões; às vezes, se fecha muito; às vezes, se atualiza, como no Concílio Vaticano II; depois, parece que puxa um pouco os freios... Porém ela é sempre guiada pelo Espírito Santo, que assiste este homem que se torna sinal de unidade para toda a Igreja. "Vamos até Pedro", "Vamos conversar com Pedro". E é muito interessante ver como São Pedro e a comunidade que estava junto com ele definem: "Decidimos o Espírito Santo e nós".

 

Jesus prometeu a Pedro – e nós cristãos, católicos e ortodoxos, acreditamos que também ao Papa e aos bispos – a missão de confirmar, guiar a fé do povo cristão para que não erre, para que não caminhe contra o Evangelho. Às vezes, podemos até ser lentos, mas nunca nos desviarmos do caminho. Esta é a promessa que Jesus fez: "As portas do inferno" – as portas do mundo, da maldade, das trevas, da corrupção, dos pecados mais baixos que podem existir – "não prevalecerão", não serão capazes de destruir a comunidade dos discípulos de Jesus. Essa é a promessa alicerçada em uma pessoa: Pedro, e em seus sucessores – Pedro e o colégio dos apóstolos; o Papa e os bispos. Nós temos um ditado antigo na Igreja: onde está Pedro, aí está a Igreja. Porque o Papa e os bispos não vivem sozinhos; a Igreja é a comunidade. Quando esta comunidade está reunida com aqueles que Jesus colocou para serem mestres e guias do Seu povo, ela não se perde do caminho do Evangelho.

 

Hoje também temos a celebração do martírio de São Paulo. Paulo é uma figura fulgurante, uma maravilha de pessoa. Ele era um homem muito convicto, fanático do judaísmo, um fariseu formado em uma escola muito autorizada, a escola de Gamaliel. E começou a perseguir os cristãos, ir atrás, descobrir os ninhos desses "hereges" para colocá-los na cadeia, mandar torturá-los. Quando mataram Santo Estevão, ele estava lá; colocaram nos pés dele os mantos do povo que estava ali para apedrejar Estevão; ele estava de acordo com aquela morte. Porém, os caminhos de Deus são bem diferentes dos nossos... E no meio do caminho de Paulo, Jesus deu uma bela rasteira nele. De perseguidor, ele se transforma em grande anunciador do Evangelho da Salvação, do Evangelho da liberdade dos filhos e filhas de Deus!

 

Se a Igreja é o que ela é hoje, devemos isso a São Paulo. Ele rompeu barreiras! Em uma atitude realmente profética, mas um profetismo que talvez "fure" toda a história da Igreja, ele anunciou a liberdade que Jesus nos trouxe, a liberdade de filhos, não escravos de leis, de doutrinas: livres filhos de Deus. Há uma imagem de Jesus que diz: "Aquele que me segue, que passa pela porta" – e Jesus se coloca como a porta, o dono de toda essa realidade que é o Reino de Deus – "entrará e sairá, e encontrará pastagem". Esta é a imagem que está no coração de São Paulo: liberdade. O Reino de Deus, o Reino anunciado e vivido por Jesus até a morte, é um reino que não cria escravos, não cria fanáticos, não cria monstros capazes de matar o outro para defender suas ideias. Era isso que os fariseus faziam, era isso que os hebreus da época faziam, matavam quem não seguia a lei. Jesus prefere morrer a matar, e São Paulo vai anunciar essa liberdade. O Reino de Deus é liberdade: a porta está sempre aberta e sempre tem pastagem. Liberdade! E ninguém escapa desta bondade infinita de Deus, nem as ovelhas que estão ali dentro, no aprisco, nem as ovelhas que caminham em volta, no campo livre, porque tudo é o Reino de Deus, a liberdade é o Reino de Deus.

 

Segundo a tradição, São Paulo foi condenado à morte e decapitado. Esse era um privilégio dos cidadãos romanos. Mas se Paulo não era de Roma, e sim da cidade de Tarso, como ele era cidadão romano? As tropas romanas, quando saiam para a guerra, passavam por várias cidades. Naquela época, as cidades não eram como as nossas. Nós vamos para São Paulo, voltamos para Santo André, passamos por São Bernardo, por Mauá... Isso não existia. Primeiro que as cidades eram bastante longes umas das outras, e elas também eram fechadas com muros. Então, quando uma tropa estava passando, se fechassem os portões, a tropa tinha que ir embora, não podia entrar na cidade para se abastecer com água e comida. Era um verdadeiro ato de guerra. E se essa tropa voltasse vitoriosa, ai daquela cidade! Algumas cidades, porém, abriam as portas, davam comida, repouso e água para os soldados. E se eles voltassem vitoriosos, davam prêmios a esta cidade. Foi o que aconteceu com Tarso. As tropas romanas passaram por lá e eles abriram suas portas, deram ajuda aos romanos, e as tropas seguiram com esta promessa: "Se nós formos vitoriosos, a vossa generosidade não será esquecida". Os romanos eram muito leais ao que falavam, e quando voltaram, vitoriosos, deram a todos os cidadãos de Tarso o título de cidadãos romanos.

Ser cidadão romano significava um mundo de privilégios. Um deles, era poder ser julgado pelo imperador – como se fosse o Supremo Tribunal Federal aqui no Brasil, a Corte máxima. Era um privilégio dos romanos. Por isso São Paulo, lá no fim dos Atos dos Apóstolos, quando o governador pergunta: "Você quer ir para Jerusalém ser julgado?", vai dizer: "Não. Eu sou cidadão romano, apelo para Cesar", usando de um direito que ele, como cidadão de Tarso, tinha. Infelizmente, esse direito também era um modo de dizer: "Nós somos melhores que os outros"... Mas isso garantiu a São Paulo a possibilidade de morrer decapitado – sem sofrimento, como eles acreditavam.

 

São Pedro, porém, era judeu, e não tinha privilégio nenhum. Ele foi crucificado – segundo a tradição, de cabeça para baixo – em um monte próximo ao Vaticano. E os restos dos ossos encontrados perto de 1950, nas escavações da Basílica de São Pedro, são muito curiosos, porque não temos nenhum osso dos pés de Pedro. Os romanos se importavam com a pessoa enquanto ela estava viva; após a morte, o corpo era de quem estava por ali. E, nas execuções, o povo, os amigos podiam estar perto. Mas eles tinham pouco tempo para resgatar os corpos, senão os romanos iam lá, arrancavam todos dos suplícios e enterravam em valas comuns. Na pressa, eles cortavam os pés e carregavam o resto do corpo. Provavelmente, foi o que aconteceu com São Pedro. Ele, então, foi enterrado em uma colina que tinha ali perto, chamada Collis Vaticanus, próxima ao circo de Nero. E, em torno deste pequeno túmulo, simples, dos pobres, imediatamente começa o que hoje chamaríamos de devoção: os cristãos de Roma e de outros lugares vão visitá-lo. Mais para frente, no ano 320, quando o imperador Constantino dá liberdade religiosa aos cristãos, ele manda construir uma grande Basílica em cima desse túmulo; faz um trabalho gigantesco, mas não mexe no túmulo. Depois, nos anos 1500, quando aquela Basílica já estava a ponto de cair, o Papa Júlio II manda derrubar tudo e começa a nova Basílica Vaticana, aquela que nós conhecemos hoje. Não temos grandes registros; provavelmente, mexeram nos ossos e, muito possivelmente, colocaram-nos em um local perto do túmulo original. No fim dos anos 1940, início dos anos 1950, reencontram esses ossos e fazem o reconhecimento. Papa Paulo VI disse: "Nós temos a certeza de que os ossos de Pedro estão aqui". Lá, debaixo do altar da Basílica do Vaticano, ali está o que restou dos ossos de São Pedro.

 

Pedro representa a Igreja de Jerusalém, o judaísmo que se converte, o povo hebreu que esperava nas promessas de Deus. Aos pés da cruz, Maria representa esses hebreus. Maria era judia e, em algum momento, ela abraçou o discipulado de Jesus. E ali, aos pés da cruz, ela mesma representa esta comunidade dos hebreus fiéis, dos pobres de Deus que esperavam na promessa feita a seus pais. Já São João Evangelista vai representar a nova comunidade, que veio depois do paganismo. Os dois, debaixo da cruz; os dois que se dirigem a Jesus: Maria e João – os judeus convertidos e os outros povos que se converteriam ao cristianismo. De algum modo, podemos dizer que, ali, debaixo da cruz, nós também estamos.

 

A nossa fé se apoia sobre a fé e o testemunho dos discípulos e destes dois apóstolos: Pedro, os judeus; Paulo, os pagãos. Dois apóstolos, dois discípulos de Jesus, cada um a seu modo, que são coroados com a coroa do martírio: poder derramar o próprio sangue por causa do seguimento de Jesus. Essa é uma graça que não é dada a todos. Porém, seguir os passos de Jesus é uma graça que o Espírito Santo nos dá. Vamos pedir ao Espírito de Deus que possamos, realmente, seguir o Evangelho que esses dois apóstolos e os outros discípulos anunciaram e que, hoje, o Papa e os bispos nos garantem, e confirmam a nossa fé nesse seguimento.

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – Solenidade de São Pedro e São Paulo Apóstolos (Ano A) – 28/06/2020 (domingo, missa às 10h).

Não tenham medo!

21/06/2020

Hoje, 12° Domingo de Tempo Comum, nós estamos lendo o Evangelho de Mateus e São Mateus tem uma compreensão sobre Jesus: para ele, Jesus é o novo e definitivo legislador. O primeiro legislador foi Moisés e, na Sagrada Escritura, no Antigo Testamento, se diz ‘até hoje não apareceu um profeta como Moisés’. Mas São Mateus vai dizer: apareceu um profeta, não igual, mas infinitamente maior que Moisés, porque ele é Deus conosco. Então, ele vai fazer um paralelo. A lei do povo hebraico constava de cinco livros, chamados Pentateuco: Genesis, Êxodo, Números, Livro de Josué e Deuteronômio. São Mateus vai apresentar Jesus com cinco grandes discursos. O primeiro e o mais conhecido é o Sermão da Montanha. Nós estamos agora, no capítulo 10 de São Mateus, lendo o Discurso da Missão, um dos cinco grandes discursos de Jesus no Evangelho de Mateus.

Jesus envia os apóstolos para anunciar o Evangelho, dá várias instruções e depois vai dizer essas frases que lemos nesse Evangelho: vão e não tenham medo! Vocês têm que anunciar a Palavra de Deus, para isso, vocês foram chamados. Tem uma passagem do profeta Jeremias em que Deus diz para ele: eu coloco as minhas palavras na tua boca e você vai, diante de quem eu te mandar, e não tenha medo, porque se você tiver medo deles, eu farei você ter medo. São as mesmas palavras de Jesus: não temam os homens, não temam as autoridades desse mundo, não temam as pessoas que estão fora do caminho, anunciem o Evangelho sem medo, porque se vocês tiverem medo, se vocês se desviarem para salvar a própria pele, vocês vão ter que acertar as contas comigo. É a mesma ideia de Jeremias. Por quê? A vocação que Deus nos dá não é nossa. Quando Jesus nos chama para pregar o Evangelho, Ele não está nos dando uma honra, não está fazendo com que sejamos melhores que ninguém, Ele está nos dando uma missão: anuncie para a comunidade em que eu te colocar, anuncie ali o Evangelho sem medo, porque sou eu que estou te mandando para anunciar a minha palavra, não os seus interesses, não os seus medos, não as suas inseguranças, mas o Evangelho! E isso pode custar a sua vida, porque Jesus não engana... Se Jesus contar só a parte bonita da história, Ele é um enganador, mas Ele não engana, Ele diz: vocês vão receber 100 por 1 nesse mundo, muita gente vai escutar vocês, o povo de Deus é generoso, mas, escutem bem, vai ter quem persegue, vai ter quem mata e muitos de vocês serão perseguidos, expulsos das igrejas, vão ser mortos e, até depois da morte, ainda vão ser amaldiçoados. Jesus não esconde, porque Ele mesmo é o exemplo. Jesus, para fazer a vontade do Pai, para ser fiel ao Pai, não faz pactos nem conchavos, não procura os centrões da vida. Jesus é fiel mesmo que seja abandonado por todos, mesmo que seja acusado falsamente, mesmo que seja contado entre os piores criminosos do seu tempo. Jesus não está preocupado com honra, com nome ou fortunas, Jesus está preocupado com a fidelidade do Pai. A fidelidade do Pai é que todos tenham vida e anunciar e promover isso pode te levar a cruz. Esse é o anúncio de Jesus. E Ele nos diz: não tenham medo! A nossa vida está nas mãos de Deus. A nossa vida é salva em Jesus. A nossa vida não acaba aqui, por isso a ressureição de Jesus para nós é a garantia de que nós estaremos nas mãos de Deus. E, se nós estamos nas mãos de Deus e a nossa vida é vida gloriosa nas mãos Dele, podemos gastar a vida desse mundo pelo bem dos outros. É isso que Jesus nos diz: não tenha medo, promova a vida, faça o que você pode para que as pessoas sejam felizes, tenham comida, tenham instrução, tenham casa. A vida cristã é uma vida muito concreta, porque se o nosso anúncio não toca a vida concreta no nosso dia a dia, então é conversa mole. E conversa mole, eu posso escutar em qualquer lugar, ainda mais agora que o pessoal fica em casa nessa pandemia, basta ligar a internet. Tem até que nisso saber escolher bem para não se vender para lorotas que anunciam por aí. Então, tenham a coragem de anunciar o Evangelho!

Esses dias eu recebi uma notícia de um pessoal de Brasília que dava solidariedade aos bispos auxiliares – sabem que Brasília está sem arcebispo, né? Ele foi transferido para Salvador como Primaz do Brasil. E os bispos auxiliares, então, estão lá na diocese sem um arcebispo. E eles mandam, diz, essa nota de solidariedade aos bispos auxiliares que não permitiram que um grupinho de baderneiros, dos 300 que não passam de 30, se acampassem diante da Catedral de Brasília. Os bispos foram ameaçados por esse grupo, um grupo armado, que produz mentiras, que ataca os poderes constituídos do nosso país. Não aceitar compromisso com essa gente pode criar, para você, perseguição. Quem defende a morte, não pode ter lugar entre os discípulos de Jesus, não porque nós não aceitamos – Jesus quer salvar a todos, inclusive essas pessoas –, mas essas pessoas sozinhas se excluem do caminho do Reino, porque o Reino quer vida para todos, vida igual para todos, começando pelas periferias do mundo, por aqueles que mais sofrem, por aqueles que menos tem, por aqueles que são marginalizados e excluídos pela sociedade. O Evangelho fala para a vida e é só falando para a vida que nós podemos transformar a nossa realidade.

Hoje também é dia de São Luiz Gonzaga. Ele é um santo dos anos 1500, foi de uma família muito rica e poderosa do norte da Itália. Era um nobre e renunciou tudo para se tornar jesuíta, religioso e, no seu tempo, explodiu a peste. Ele era muito novo, tinha não mais que 24 anos, e foi ajudar a cuidar das pessoas – naquele tempo, não existiam os conhecimentos mínimos de higiene sanitária que nós conhecemos, um dia ele encontrou um homem morrendo, pegou o sujeito, colocou para dormir e ele morreu ali, na cama dele. Depois, ele pegou o homem, foi enterrar e tudo isso e voltou a dormir na mesma cama, pegou a peste e morreu. Isso é para ver que o que vale é o bem do outro, a tua vida vale quanto o bem do outro. E São Luiz Gonzaga é também chamado padroeiro dos seminaristas. Hoje no fim da missa, nossa comunidade vai enviar para a Paróquia Santo Antônio o ícone vocacional. Nós, neste ano, estamos pedindo a Deus vocações. Nós falamos e pedimos a Deus por todas as vocações, mas, neste ano, especialmente nós estamos pedindo a Deus vocações sacerdotais. Nossa diocese precisa de sacerdotes e a comunidade dos jovens da Paróquia Santa Teresinha é chamada, a comunidade dos jovens da Paróquia Santo Antônio é chamada, porque Jesus é fiel ao seu povo, Ele chama. Jovens, tenham a coragem de se colocar ao menos uma vez na vida essa pergunta: será que o Senhor Jesus está me chamando para o ministério sacerdotal? Se Ele estiver, e você vai saber se está, não tenha medo, tenha confiança. Servir o povo de Deus é uma graça, é um bem, realiza a nossa vida, dá sentido ao nosso caminho. Vamos ouvir a palavra, vamos pedir ao Espírito Santo que nos fale, que nos dê coragem. E se você, pai e mãe de família, tiver um filho ou uma filha que te diz eu gostaria de ser padre ou eu gostaria de ser religiosa, apoie! ‘Ah, mas é meu único filho’. Se Deus chama, é Dele! Apoie as vocações. A mãe e o pai de um sacerdote é mãe e pai de todos os sacerdotes. Você não vai perder um filho ou uma filha, você vai ganhar centenas de filhos e filhas. Vamos pedir a Deus que ele mande muitas vocações para a nossa diocese e que dê a nós, sacerdotes, a graça de poder anunciar o Evangelho sem medo.

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 12º Domingo do Tempo Comum (Ano A) – 21/06/2020 (missa às 10h).

Seguir os passos de Jesus

14/06/2020

Com a segunda-feira depois de Pentecostes, nós entramos novamente no Tempo Comum. "Comum" não significa que ele vale menos; este é o tempo da Igreja enquanto povo que caminha seguindo os passos de Jesus.

 

Na Igreja, temos o Tempo do Advento, que é a preparação para a vinda de Jesus, um tempo de alegria contida, como nos últimos dias do oitavo mês de gravidez de uma mulher. Naqueles dias, nós caminhamos com Maria, que está para dar à luz. Nasce Jesus! Cantamos com os anjos "Glória a Deus nas alturas e paz aos seres humanos" – que Deus ama. Depois vêm os magos. E, então, nós entramos no começo deste Tempo Comum, vamos seguir Jesus passo a passo. Depois vem o Tempo da Quaresma e da Páscoa, que começa na Quarta-Feira de Cinzas e termina com o Domingo de Pentecostes. Nesses 90 dias, nós acompanhamos as últimas semanas de Jesus; na Semana Santa, quase dia por dia, acompanhamos os passos do Senhor; no Tríduo Pascal é praticamente hora por hora; na Sexta-Feira Santa celebramos a Paixão do Senhor; passamos o sábado com o altar desnudo, sem flores, sem nada, lembrando o frio do túmulo onde Jesus foi colocado para, então, explodir de alegria na noite do Sábado de Aleluia, que encerra aquele momento, pouco antes do nascer do sol, quando Jesus triunfa da morte! E continuamos nessa alegria por mais 50 dias até chegar Pentecostes, a efusão do Espírito e a Igreja que é enviada pelo mundo – Tempo Comum, tempo de caminho.

 

Nós também usamos cores diferentes. Nos tempos do Advento e da Quaresma, as vestes do padre são roxas; no Tempo Comum, a cor é verde; no Tempo do Natal e na Páscoa, a cor é o branco; no dia de Pentecostes, vermelho, o fogo de Deus e o sangue dos mártires. E durante o ano todo nós também celebramos as várias memórias daqueles cristãos e cristãs que chamamos de santos: gente como nós que levou a sério o Evangelho, e que a Igreja nos propõe como modelos. O primeiro de todos, sem igual, é a Virgem Maria, que é, para nós, sempre, a primeira seguidora de Jesus, aquela que mostra para a Igreja e para cada um de nós, o tempo todo, os passos de Jesus. Ela está sempre nos dizendo: caminhe por aqui, o caminho de Jesus é este, siga estes passos, Ele está andando por aqui. Os santos e as santas são cristãos, como nós, que viveram colocando em prática os valores do Evangelho. E a Igreja diz: se você imitar essa pessoa na sinceridade, vai aprender a seguir os passos de Jesus. Porque, seja no culto e devoção à Virgem Maria, seja no culto aos santos, tudo o que nós queremos é aprender a seguir os passos de Jesus.

 

Jesus é o nosso Salvador, é Ele quem nos salva. Maria e os santos cantam a salvação de Jesus; Maria e os santos nos apontam: caminhe por aqui, porque aqui estão os passos de Jesus. Isso nos ajuda a entender a devoção à Mãe de Jesus e aos santos e santas da Igreja. Tem muita gente santa e têm muitos santos no céu. Santa Teresinha – essa monja que morreu com 24 anos e é doutora da Igreja, uma moça tão jovem que é luz para a Igreja – dizia: "Há muitos santos que nós não conhecemos; e, talvez, muito maiores do que aqueles que conhecemos". A vida de santidade está espalhada no meio do nosso povo. Toda pessoa que ama Jesus, que ama o próximo, que se interessa pelo bem da vida do outro – seja cristão ou não cristão – está no caminho de Jesus, às vezes até sem saber. Quem faz o bem, desinteressadamente; quem faz o bem seguindo sua consciência – isso nos ensina o Concílio Vaticano II – está no caminho de Cristo; de algum modo, é Igreja de Cristo.

 

Seguir Jesus é a finalidade de todo o nosso caminhar, de toda a nossa liturgia, de todas as nossas devoções, de todos os nossos sacramentos: seguir Nosso Senhor Jesus Cristo! O que nos une a todos os cristãos é a fé em Jesus, nosso único Salvador. E é um absurdo, ao afirmarmos isso, quando alguns católicos vêm dizer: "E Nossa Senhora?". Maria não salvou ninguém; Santo Antônio não salvou ninguém; Santa Teresinha não salvou ninguém. E isso não é invenção do padre João, está lá nas cartas de São Paulo: "Quem morreu por vocês? Pedro? Paulo? Apolo? Não, o único que morreu por nós foi Jesus". Maria nos ensina a seguir Jesus, e se queremos ser realmente devotos da Virgem Maria, temos que levar muito a sério o Magnificat, que é um canto revolucionário, quente como as bem-aventuranças de Jesus. Tal Mãe, tal Filho! Como dizia São Paulo VI, o maior Papa dos últimos 500 ou 600 anos: "A verdadeira devoção à Virgem Maria é seguir os passos de Jesus". Maria é toda de Jesus, e ela nos diz: siga os passos de Jesus, caminhe deste jeito aqui, seguindo os passos Dele. Essa é a verdadeira devoção mariana. Se nós, católicos, tivéssemos muita clareza nisso, não haveria tanta confusão na cabeça dos nossos irmãos protestantes.

 

Jesus, como nos conta o Evangelho de hoje [Mt 9, 36 — 10, 8], mandou seus 12 apóstolos anunciarem a chegada do Reino. E é muito interessante: doze. Doze eram as tribos de Israel. Jesus, claramente, está iniciando um novo povo de Israel. E o que nos chama a atenção é que Ele não manda seus discípulos falarem primeiro com os sumo-sacerdotes ou com o grupo dos fariseus, os bons religiosos daquele tempo; não, Jesus não está preocupado com essa gente. "Vão primeiro às ovelhas perdidas da casa de Israel". A salvação de Deus começa pelas margens. Hoje, podemos dizer que a salvação de Deus começa pelas periferias. A salvação de Deus começa pelos excluídos porque é só desse jeito que todos podem ser salvos, mudando do avesso nosso modo de compreender: comece na periferia a ensinar a liberdade, a justiça, a paz, a solidariedade; e, assim, todo o corpo terá paz, justiça, solidariedade. Quando nós começamos pelas bordas nós vamos mudando o mundo! E vamos nos tornando aquilo que era missão dada por Deus ao povo de Israel no deserto; Jesus vai dizer que esse povo traiu sua própria vocação: a vocação daquele povo era ser santo, ser uma luz para os outros povos. Mas eles se tornaram escravizadores, como os outros povos; adoradores de ideologias; venderam-se ao deus mamona – não todos, mas muitos. E, assim, traíram a vocação que Deus havia dado a eles.

 

Nós também temos que ficar atentos, porque corremos o risco de nos afastar deste que é o grande chamado de Deus para nós, cristãos de hoje. Jesus fala para nós – eu, você, para nossa comunidade: anuncie aos outros que o Reino de Deus está próximo. Próximo significa que está aqui, no meio de nós. Como? Quando eu amo as pessoas, quando não faço discriminação, quando eu não sou racista. No Brasil, há um grande racismo velado, que nega suas raízes. Olhe as periferias: quantas pessoas negras estão lá? Mais de 54% da nossa população é negra ou descendente de negros, não é possível que um número tão alto seja tão discriminado! Nós temos que ter consciência disso. Olhando as periferias, lembre-se: "Vão às ovelhas perdidas". Hoje: olhem a situação das periferias. Lá existe violência, a educação é fraca, o saneamento básico é péssimo, a saúde é pouca; vamos trabalhar nisso, vamos melhorar essas situações, vamos dar vida digna a essas pessoas e reconhecê-las como irmãos e irmãs, com os mesmos direitos e dignidade que nós. Assim, estaremos curando nossa sociedade e expulsando os demônios que vêm criando sofrimento no meio do povo. Toda vez que a Igreja anuncia isso, está anunciando o Reino de Jesus.

 

O Reino de Deus começa aqui! E se não o plantarmos e tivermos coragem de anuncia-lo aqui, que frutos colheremos depois? Uma planta só nasce e dá fruto se plantamos a semente; se você não colocar nenhuma semente aqui, que fruto vai querer colher lá? Vamos ter a coragem de colocar sementes do Reino no nosso meio, e vamos pedir a Deus que nos ajude a fazer esse caminho.

 

O Evangelho de hoje também chama nossa atenção para as vocações. Jesus chama os doze para anunciar o Evangelho ao povo, à nossa comunidade, à nossa Diocese, a esta paróquia! E Ele diz: "Peçam ao dono da vinha que mande operários para sua messe". Vamos rezar! Nossa Diocese, neste ano, o ano da pandemia, está celebrando o Ano Vocacional Extraordinário. Parece que Deus nos deu mais tempo para rezar... Então vamos pedir, implorar a Deus, a Jesus, o Bom-Pastor, que cuida das suas ovelhas – as mais fracas, Ele mesmo carrega; as mais fortes, caminham junto Dele. Vamos pedir que Deus mande vocações entre os nossos jovens. Eu tenho 59 anos; mais 15 anos e faço 75; cadê o outro padre? Tem que sair desta comunidade o meu sucessor! Jovens: Deus está chamando vocês! Jesus lhe chama pelo nome: Pedro, João, Tadeu. Jesus chama pelo nome, do mesmo jeito que Ele me chamou pelo meu nome. Ele sabia que eu era pecador, ele sabia meus defeitos. Ele conhece tudo isso, mas não somos nós que escolhemos, é Ele que escolhe. E se é Ele que escolhe, Ele vai lhe dar força! Ele vai lhe dar força para você contar para sua mãe, para o seu pai... Jesus nos dá coragem para enfrentar pai e mãe. Às vezes demora; eu levei 6 anos para ir para o seminário – Jesus me chamou quando eu tinha 15 anos e só entrei para o seminário aos 21; trabalhei em banco, fiz Tiro de Guerra, comecei a fazer Faculdade de Filosofia por conta, participei do grupo vocacional... Porque Jesus chama! Sem mérito nosso, Ele chama para o povo Dele. Tenha coragem! Se Jesus lhe chama para o sacerdócio, não tenha medo. E Ele chama! Jesus não vai deixar sua Igreja sem padres, não vai deixar nossa Diocese sem padres, não vai deixar esta paróquia sem um sucessor. Coragem! Se Jesus lhe chama, tenha a coragem de dizer: "Senhor, eu estou aqui. Fraco, pecador, limitado; mas a obra é Tua. Envia-me".

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 11º Domingo do Tempo Comum (Ano A) – 14/06/2020 (missa às 10h).

A Eucaristia está em nosso dia a dia

11/06/2020

A Eucaristia é um milagre de Deus. Deus quer estar entre nós de uma forma sensível, de modo que nós possamos experimentá-lo. E a vida de Jesus é toda de entrega e de doação por nós, porque Deus nos ama. São João vai dizer: “Deus amou tanto o mundo, que mandou Seu filho para que todo que nele crê tenha vida eterna”. E Jesus quer permanecer, profundamente, unido conosco e Ele nos dá esse sinal que é também presença real. Por exemplo, uma placa de contramão somente indica, mas ela não é a contramão. A Eucaristia não é apenas um sinal, é a real presença de Jesus. Jesus, na última ceia, nos dá essa garantia: “eu estarei convosco presente”.

Primeiro, ele já havia dito que onde dois ou mais estiverem reunidos em Seu nome, Ele estaria no meio deles. A Sua Igreja, a Sua comunidade de discípulos está reunida onde duas pessoas ou mais estão unidas em nome Dele. Aí está a Igreja e Jesus quer estar presente no pão que esta comunidade celebra e divide, não sendo apenas uma memória do passado. A Eucaristia não é uma simples repetição de um gesto de dois mil anos atrás. A Eucaristia se faz presente aqui e agora, na nossa vida do dia a dia, no isolamento da pandemia, com a nossa vida, os nossos sofrimentos, as nossas alegrias. Jesus se torna presente e, no pão e vinho que oferecemos, ele assume toda a nossa realidade, entra em contato conosco. E tudo isso nós apresentamos ao Pai para que esse pão e vinho se tornem Jesus entre nós.

Jesus não é uma memória, é agora! É ato, não é uma coisa do passado ou uma tradição. Jesus disse “os seus pais comeram o maná do deserto e morreram”. Isto no passado. O pão que Jesus dá é vida agora. E dar o sangue não significa cortar o braço e colocar o sangue de um lado e carne do outro e comer. Não, essa é uma forma de expressão. Comer o Corpo e beber o Sangue significa ter, em si mesmo, a própria realidade de Jesus. Pedir para si mesmo que tenhamos os mesmos sentimentos, os mesmos desejos, as mesmas indignações, as mesmas compaixões, a mesma acolhida que Jesus tinha pelas pessoas. Comer o Corpo e beber o Sangue significa assumir, na própria vida, a vida de Jesus. Então, a Eucaristia não é simplesmente um corpo, é a vida de Jesus. Claro que o Corpo também faz parte, mas é toda a vida Dele que se entrega para nós para que aprendamos com Ele, que se faz pão para nós, nos convida a sermos pão para o outro, a ser vida para os irmãos. Porque tudo isso é muito bonito, mas se não se encarna na nossa vida, não tem sentido nenhum.

Hoje, por exemplo, no meio de uma pandemia, o que é dar a vida pelo outro? Uma forma é ficando em casa, evitando o contágio, não só por mim, mas também para não ser uma ameaça para o outro. Estar atento para alguém da minha família, da minha vizinhança. Às vezes, alguém que está na porta da frente do nosso apartamento pode estar precisando de alguma coisa. Às vezes, é uma pessoa de idade que não pode sair e não tem ninguém que possa fazer uma compra para ela. Às vezes, a pessoa não tem nem o que comer. Preocupar-se com o outro neste tempo difícil é viver, no hoje, a Eucaristia. Doar-nos para os outros e lembrar que Jesus não faz distinção de pessoas. Nós que fazemos. Ousamos dizer: “você pode e você não pode”. E Deus não faz isso. Se Jesus não faz isso, nós temos que aprender a não fazer também e acolher as pessoas, começando pelos últimos porque, facilmente, nós nos esquecemos deles.

Deus quer salvar a todos, acolhe a todos e quer vida para todos. Começando pelos que mais sofrem, dos que têm menos vida. Para que todos tenham vida. A vida da Eucaristia tem que chegar para todos. Esse é o amor de Jesus. Não é uma memória, é um fato. Nos convida e nos desafia sempre. Toda vez que nós comungamos, Jesus nos chama outra vez: “faça o que eu fiz, mude o seu coração, jogue fora o que não presta, abrace o caminho da vida que vai desabrochar em vida eterna, porque já começou a ser vida nova nesse tempo”. Essa é a verdade de Jesus e é isso que celebramos na Eucaristia: a vida nova, que é vida verdadeira de Jesus. Jesus está aqui, nos chamando à conversão, a amar como Ele.

Deus é bem espertinho. Amar é muito mais fácil do que odiar. Dar a vida é muito melhor do que matar. Deus quer a vida, a alegria, a abundância. E a Eucaristia que celebramos sobre esse altar nos lembra isso e realiza isso em nós todas as vezes que Jesus se entrega. Ele se dá todo para nós, sem reservas e sem medo. Ele se entrega e nos convida a nos entregarmos para os outros, no amor e no serviço. Uma pequena gota de catequese: na Eucaristia, no momento em que o sacerdote consagra, por graça de Deus e por força do Sacramento da Ordem, o sacerdote, naquele momento, misteriosamente, age na pessoa de Jesus. É Jesus que age ali! Existe uma oração de império, um pedido: “Pai, manda o Teu Espirito para que este pão e este vinho sejam Corpo e Sangue de Cristo”. A Eucaristia é obra da Santíssima Trindade. Pai, que envia o Espírito para que o pão e vinho se tornem Corpo, Sangue, vida total de Jesus, que se entrega para nós e para vida do mundo inteiro. É isto que nós celebramos aqui no altar.

Vamos pedir ao Senhor que possamos amar como Ele ama, servir como Ele nos serve na Eucaristia para que possamos, realmente, sermos Corpo de Cristo, comunidade reunida no Seu amor.

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – Santíssimo Sacramento do Corpo e Sangue de Cristo (Ano A) – 11/06/2020 (missa das 19h30).

Trindade Santa: Deus é amor

07/06/2020

Hoje a Igreja celebra o mistério da Santíssima Trindade. Nós podemos ficar divagando sobre a Santíssima Trindade com altos conceitos de teologia, mas que, no fim das contas, tentam só escavar um mistério que vai sempre muito além de nós. Mas nós podemos também nos dobrar sobre o Evangelho, que, aliás, é a pedra fundamental de toda a vida e doutrina cristã. O que sai disso, vira e mexe, dá problema.

 

Quem nos revelou a Santíssima Trindade? A Santíssima Trindade é uma revelação de Jesus. No Antigo Testamento, não adianta procurar a Santíssima Trindade, porque essa revelação nos foi feita por Jesus! A partir da revelação de Jesus, nós vamos olhar o Antigo Testamento vendo ali sinais que podem indicar isso que depois Jesus vai nos revelar. Essa revelação é de Jesus. Deus são três pessoas: ao Pai, que nós chamamos primeira pessoa da Santíssima Trindade, nós atribuímos a criação; ao Filho, nós atribuímos a redenção, a salvação do mundo; e, ao Espírito Santo, a santificação ou plenificação de todas as coisas. O Espírito Santo leva o mundo com todas as suas mazelas, dificuldades, grandezas, alegrias, esperanças, pecados; vai nos levando, devagarinho, àquela altura que Jesus e que o Pai querem que a humanidade chegue. O Espírito Santo é essa força de Deus que cumpre a vontade do Pai. Nós falamos a vontade do Pai como se Jesus e o Espírito não tivessem vontade, mas as três pessoas divinas sempre agem juntas. O Pai cria o mundo, cria o universo, cria todas as coisas no Filho, com o poder do Espírito. Jesus é a palavra eterna do Pai, e, pela força do Espírito, se esvazia, se torna um de nós, caminha pelas nossas estradas, é morto, ressuscita e retoma a glória que tinha antes da criação do mundo. Esse é o mistério da salvação, da redenção. E Jesus faz isso obediente ao Pai, com a força do Espírito. E o Espírito Santo é a força que cria o universo. Ele é a força que faz com que a Virgem Maria tenha um filho que é, também, divino. O Espírito Santo é o poder de Deus que age através de Jesus nos milagres, é o Espírito Santo que dá forças para Jesus suportar a Paixão, a morte, e opera em Jesus a ressurreição. Ele leva ao universo a união com Deus.

 

São Paulo nos diz que o Pai quer que o mundo, todos os poderes, sejam colocados debaixo dos pés de Jesus. O último poder a ser submetido aos pés de Jesus será a morte. E, por fim, Jesus mesmo se entrega ao Pai. Isso tudo na força do Espírito: o Espírito que abraça o Pai e o Filho e, com eles, forma uma única divindade, único Deus. O Espírito vai nos ter junto com a Trindade neste grande abraço divino, por misericórdia, por graça, porque Deus é bom. No Antigo Testamento, para Moisés, Deus se revelou como aquele que é, aquele que foi, aquele que será. O que significa isso? O Deus fiel, o Deus que não volta atrás, o Deus que paga até a conta de quem está devendo para Ele – isto é fidelidade.

 

São João vai nos dizer que Deus é amor. Jesus vai dizer: “amai-vos uns aos outros como Eu vos amei; não há amor maior que dar a vida por aqueles que se ama. Eu e o Pai somos um. Eu sou o caminho verdadeiro para a vida. A vida é o Pai, na força do Espírito.” Então, quem ama, já vive em Deus, porque Deus, que é amor, está agindo em nós, agindo na comunidade. E Deus é luz, onde não existe sombra nenhuma. E o Evangelho mesmo de São João vai dizer que a luz brilha no meio das trevas, e todo aquele que se aproxima da luz, que é Jesus, tem a vida. Esse é o mistério da Santíssima Trindade. Não existe outro Deus acima da Trindade; Deus é um. Não existem outros deuses. Deus é um!

 

Nós, com a nossa filosofia, com os nossos pensamentos humanos, elaboramos ideias sobre Deus; porém, sempre projetando as nossas ideias, as nossas falhas, os nossos defeitos em Deus. Nós somos fracos, Deus é forte. Nós somos limitados no nosso conhecimento, Deus é onisciente. E assim a gente vai fazendo: olha a nossa fraqueza, vê nossa grandeza. A gente vê a glória dos poderosos e diz que Deus é glorioso. Isso é tudo invenção nossa. Deus é Jesus. Olhando Jesus, agindo como Jesus age, amando como Jesus ama, procurando, realmente, ser entrega de vida para os outros, nós conhecemos Deus. Não na teoria, não na nossa imaginação, não na nossa filosofia. Mas o Deus da vida que Jesus, e só Ele, pode revelar, porque só Ele vê o rosto do Pai na eternidade. Vamos pedir a Deus poder sempre, sempre, sempre adorar a Trindade, Deus uno em três pessoas. Nós iniciamos todas as nossas orações invocando a Santíssima Trindade: “em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo” sempre. Nós abençoamos sempre em nome da Trindade. Ele é o nosso Deus. Nosso Deus é a Trindade.

 

Muito bem, vamos fazer os nossos comentários. Essa semana aqui é uma semana estranha. Mais uma triste notícia que chegou aí esses dias foi que alguns padres de algumas emissoras católicas foram lá conversar com o presidente para pedir verba em troca de apoio. A CNBB soltou uma nota de repúdio a esse tipo de atitude. A Igreja Católica não faz barganha. Nós preferimos fechar uma rádio a nos associar a um regime que se mostra genocida. A Igreja Católica, a CNBB, não autorizam ninguém a isso. Então, nós queremos manter a nossa liberdade diante do Estado para poder anunciar o Evangelho, porque o Evangelho é livre, o Evangelho não se compra, não se vende. Jesus não tem preço. E é grave que alguns padres, alguns grupos tenham tido essa atitude vergonhosa.

 

Nós também estamos vendo um aumento constante do número de mortos com COVID-19. Nós estamos, já, a quase um morto por minuto. Mil quatrocentos e quarenta minutos nós temos em 24 horas. Nós passamos da marca de mil e duzentos, quase um morto por minuto, por causa do COVID-19. Vamos pedir a Deus que tenha piedade do seu povo. Hoje também vamos falar do documento que nosso bispo emanou na semana passada (30/05), com 60 normas para uma possível reabertura de nossas paróquias. O bispo não mandou reabrir. Nosso bispo, com muito bom senso, diz para cada padre ver a realidade da sua comunidade: a realidade, a situação, a saúde do próprio padre, a situação de idade, a situação sanitária da própria comunidade, para que, com segurança, se possa reabrir as igrejas. Nós temos lá 60 regras para poder agir. Nós, aqui na nossa comunidade, fizemos uma reunião virtual com os coordenadores do conselho pastoral, e com os coordenadores das várias pastorais que estão ligadas à Liturgia, à celebração das missas nos domingos. E, por unanimidade, nossa comunidade decidiu não abrir. Nós vamos fazer uma reavaliação em primeiro de julho, nós vamos tomar uma série de providências, vamos preparar a igreja para o momento da reabertura. Nós decidimos não fazer isso antes de agosto. Então, antes do primeiro de agosto, a comunidade Santa Teresinha não reabre. Por quê? Nós temos muitos anciãos, muitos membros das equipes de Liturgia têm mais de 60 anos, também não podemos arriscar crianças e jovens. A nossa igreja teria capacidade, seguindo as regras, de colocar aqui 150 pessoas, mas 150 pessoas já é uma grande aglomeração. O padre, mesmo, tem quatro elementos de risco, então vamos devagar. E o critério é a curva. Enquanto os números continuarem subindo, e cada dia está subindo mais, nós não vamos reabrir. Se, em agosto, a curva já estiver abaixando, nós vamos esperar para ver quando a coisa é mais segura. Então, no começo de agosto, nós vamos reavaliar. Nós vamos ter duas reavaliações: dia primeiro de julho, depois, imediatamente antes do início de agosto. Se a curva continuar ascendente, nós vamos continuar fechados. É melhor nós estarmos seguros em casa, seguros celebrando e poder continuar alimentando a nossa fé do que ter a responsabilidade e o medo de contaminar pessoas. Os critérios de reabertura são muito bem feitos e muito exigentes. A necessidade de usar máscaras, as pessoas ficarem todo o tempo sentadas, distantes, com medida de segurança, não pode ter mais do que um número específico. Se tiver 50 pessoas lá na porta esperando e deu o número limite, o pessoal tem que voltar para casa, volte semana que vem. Por exemplo, uma família não poderia ficar sentada toda num mesmo banco. Cada um na distância de um metro e meio a dois metros um do outro. Também há a necessidade de higienização da igreja depois de cada missa. Higienização significa o que? Passar desinfetante nos bancos, passar pano na igreja inteira. A gente fala “nossa, dá para fazer!”. Aí a gente pergunta: quem vai fazer? Se as senhoras que ajudam a limpeza da igreja têm mais de 60 anos? Aí a coisa fica complicada. Então, avaliando todas essas questões, vendo direitinho, nós chegamos a essa decisão. Nessa semana próxima, nós vamos nos reunir com os padres da região sobre as medidas que cada um de nós está tomando. Vamos rezar.

 

Vamos aproveitar esse tempo para ler a Escritura. Várias pessoas me pediram: “Padre, quando é que o senhor vai falar de Bíblia para nós?”. Ainda não temos o dia, mas essa semana eu vou começar a gravar capítulos sobre a Escritura para que nós possamos, devagarinho, conhecer um pouco mais da Bíblia. Isso pode demorar ainda muito tempo; não muito tempo para começar, mas muito tempo para continuar. Se a gente fizer 5 minutos, 10 minutos por semana, falando um pouco da Bíblia, um pouco do mundo da Bíblia, tentando explicar os livros... nós temos capítulos até o ano 2050! Muito bem! Então, vamos agradecer a Deus pela sua bondade. A bondade do Pai em nos revelar, em Jesus, o mistério do próprio coração de Deus. Três pessoas. Uma única divindade.

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – Solenidade da Santíssima Trindade (Ano A) – 07/06/2020 (missa das 10h).

A força do Espírito nos conduz

31/05/2020

Festa de Pentecostes! Vamos falar um pouquinho de doutrina? O Espírito Santo é a terceira pessoa da Santíssima Trindade; é Deus, como o Pai e o Filho. Ele é o dom de Deus, é o amor de Deus que se doa. E é esta potência, esta pessoa que abraça o Pai e o Filho de uma forma tão intensa que os três são um só Deus. Esse é o mistério da Trindade. Nós, na teologia, dizemos uma frase: "O Espírito Santo é a personificação de todos os atributos divinos: é a divindade em Deus, a onisciência em Deus, a onipresença em Deus, a onipotência em Deus". O Espírito perscruta as profundezas, o íntimo da própria Trindade.

 

É a potência do Espírito que cria. A ordem é do Pai: o Pai cria no Filho pela força do Espírito. O Espírito permeia toda realidade, a criada e a eterna; Ele perpassa tudo. Ele é a força divina que mantém todo o Universo, do mesmo modo que é a unidade na Trindade. O Espírito Santo opera em cada uma das criaturas de Deus, para que, em cada um de nós, possa aparecer a imagem de Jesus. "Criemos o ser humano à nossa imagem e semelhança". À imagem de Cristo: viver e amar como Cristo amou, a ponto de dar a vida por aqueles que amamos. À semelhança da Trindade: vivermos na unidade, um só coração, uma só alma, todos procurando o bem comum – como diz São Paulo na segunda leitura [1Cor 12, 3b-7. 12-13]. Esse é o projeto de Deus para nós.

 

O Espírito Santo é ação. Ele é dinâmico. Está além. O Espírito se manifesta em ações: Ele esquenta, Ele amolece, Ele refrigera, Ele se hospeda na nossa vida, na nossa alma. Ele nos transforma. Ele nos leva a agir como Cristo. Ele acende o amor de Deus em nós. Ele guia a Igreja para o fim que Deus Pai quer. O Pai quer que todos se salvem, e o Espírito Santo guia a humanidade a isso. Estamos em processo, e o processo é longo. Cada um de nós sabe como é difícil o caminho de conversão, mas é o Espírito de Deus que vai trabalhando até que, em nós, transpareça a imagem de Jesus. Para isso, temos que abrir o nosso coração; temos que buscar, constantemente, a conversão: ler o Evangelho, observá-lo, confrontar-nos com as ações, os pensamentos e as falas de Jesus, e permitir que essas ações, falas e pensamentos quebrem o nosso coração de pedra e façam, realmente, com que ele se converta em um coração de vida. Todo esse caminho é feito pela força do Espírito Santo.

 

A Igreja é impulsionada, no decorrer da história, pela força do Espírito. Muitas vezes, a Igreja aparece, para o mundo, como uma enfermeira agonizante. Agonizante porque temos pecados, falências, misérias, traições... Quantas vezes, até como Igreja, não nos esquecemos do Evangelho? O Papa Francisco insiste em nos chamar: "Voltemos ao Evangelho, mudemos nossas ações". E, dentro da própria Igreja, temos muita gente que diz: "Não, isso é conversa mole". Como pode ser "conversa mole" voltar ao Evangelho? Então nós vemos todas essas dificuldades; mas, se olharmos ao longo da história da Igreja, vemos também que existe uma força que leva esta comunidade a anunciar o Evangelho da Salvação.

 

Os Atos dos Apóstolos dizem que os apóstolos falavam "em línguas" [ref. At 2, 1-11] Nós temos que lembrar que os Atos dos Apóstolos foram escritos por volta dos anos 80, 90, cerca de 60 anos depois da morte e ressurreição de Jesus. E, já nesse momento, tínhamos cristãos espalhados por todo o mundo conhecido, o chamado Império Romano. Em todos os lugares, o Evangelho começava a ser anunciado, com pessoas e para pessoas de cada lugar. São Lucas descreve a totalidade do Império Romano, que era praticamente todo o mundo conhecido do Ocidente, para mostrar que o Evangelho estava sendo anunciado nesses vários lugares pelas pessoas desses lugares. O Evangelho entra na vida das pessoas onde quer que elas estejam para, ali, naquela situação, transformar esse anúncio de amor, de paz, de união, de serviço, de solidariedade em realidade eclesial, uma comunidade de irmãos e irmãs que buscam seguir sempre os passos de Jesus. Essas são as línguas: o mundo inteiro, que ouve e anuncia Jesus.

 

O Espírito Santo é essa força. Ele age na Igreja também por meio dos sacramentos e dos seus ministros consagrados, especialmente o Papa e o colégio dos bispos. Não existe o colégio dos bispos sem o Papa nem o Papa sem comunhão com o colégio dos bispos: eles são uma só realidade. E todas as vezes que o Papa e os bispos rezam e atualizam o anúncio do Evangelho e a vida da Igreja para o tempo presente, eles são guiados pelo Espírito. Isso nós vemos desde o começo da Igreja, já no Concílio de Jerusalém, que é relatado nos Atos dos Apóstolos, mas também em todos os concílios. Em cada época, o Evangelho se encarna, e o Papa e os bispos buscam essa encarnação. Hoje nós temos alguns grupos tradicionalistas, saudosistas, que se reportam ao Concílio de Trento, um dos maiores concílios da Igreja. Ele respondeu muito bem às necessidades dos anos 1500 – tanto que é chamado de Contrarreforma Católica, quando a reforma protestante estava incendiando o norte da Europa e a Igreja precisava pensar essa realidade; então ela fez esse grande concílio e respondeu para aquele tempo. Nós tivemos também o Concílio Vaticano I, que tentou responder a um problema grave, também do seu tempo, que era a unificação dos estados italianos e o desaparecimento do chamado Estado Pontifício (graças a Deus!); naquele momento, também era importante reafirmar a autoridade do Papa, então o Papa Pio IX, em comunhão com os bispos, proclama a infalibilidade pontifícia.

 

E em 1962, realmente iluminado pelo Espírito Santo, o Papa João XXIII decidiu convocar o Concílio Vaticano II para atualizar a Igreja. As respostas de 1500, ótimas para aquele tempo, já não estavam respondendo mais. Aquela liturgia de corte respondia para aquele tempo; para os homens e mulheres do séc. XX, já não respondia mais. Jesus é o mesmo, a liturgia é a mesma, a eucaristia é a mesma; mas têm que ser celebrados de modo que respondam às necessidades de hoje. Temos que abraçar os desafios deste tempo. E o Espírito de Deus guia a Igreja, apesar de termos algumas pessoas que gostam de colecionar velharias... De vez em quando, nós encontramos pessoas que têm mania de guardar tranqueiras; infelizmente, também dentro da Igreja temos que ter paciência com alguns grupos que gostam de guardar quinquilharias que já não dizem mais nada. Porém, o Espírito Santo, com paciência, vai renovando tudo, com os movimentos de atualização, de modernização da vida; movimentos reacionários não resolvem. E o Espírito Santo renova sempre! O Espírito Santo nos mantém sempre vivos, sempre aptos a responder, hoje, aos desafios da nossa realidade com a Palavra do Evangelho. O Evangelho não muda; a eucaristia é sempre a mesma; os sacramentos, imutáveis; sempre respondendo às necessidades e às realidades do tempo atual.

 

Hoje também vamos falar do documento que nosso bispo emanou ontem (30/5), com 60 normas para uma possível reabertura de nossas paróquias. As condições são muitas, de muita prudência e, em alguns casos, muito restritivas. Por quê? Porque estamos em um momento terrível da pandemia. O número de casos não está baixando, e as projeções de estudiosos são que, em agosto, tenhamos mais de 120 mil mortos por causa da covid-19 no Brasil. Isso é um desastre! Nós estamos vendo a incompetência, o descaso, o deboche do governo federal sobre essa questão, enganando o povo com a história da cloroquina, medicamento que está mais do que provado que não serve, que é perigoso... Isso é enganar o nosso povo! Nós temos que pedir que o Espírito de Deus ilumine nossos governantes, ilumine o Supremo Tribunal Federal, dê coragem aos nossos deputados e senadores, para que possam realmente buscar o melhor para o Brasil, pensando no povo.

 

Meus discursos, às vezes, são levemente políticos, mas houve um sinal muito feio, horrível, que tem conotações realmente autoritárias, ditatoriais: beber leite em público. Esse é um sinal nazista, uma linguagem assustadora! Nós não podemos, como cristãos, aceitar uma situação dessa. O nazismo e o fascismo se baseiam na doutrina de que existem pessoas melhores do que outras. No mundo alemão da época de Hitler, essas pessoas melhores eram os arianos, grandes consumidores de leite. Esse é um sinal nazista! Vamos nos conscientizar de que estamos diante de uma situação grave, muito grave. Vamos pedir a Deus que tenha piedade do seu povo.

 

Jesus diz no Evangelho: "Que todos tenham vida". Todos. Jesus não diz: "que os brancos tenham vida", "que os ricos tenham vida", "que os donos da tecnologia tenham vida", "que os senhores que podem mandar astronaves para o espaço tenham vida"; Jesus diz: todos! E todos quer dizer todos: brancos, negros, amarelos, vermelhos; homens, mulheres; todas as raças, todas as nações, todos os seres humanos. Se nós, cristãos, católicos sobretudo, não somos capazes de nos confrontar com o Evangelho nessa frase, não somos católicos na prática; temos só um verniz católico, mas não o somos. Jesus diz: "Que todos tenham vida"; nenhum governo autoritário defende a vida de todos, nenhum. E quando esses governos dão sinais e símbolos claros da sua ideologia, nós católicos, nós cristãos não podemos aceitar! Nós temos uma consciência; nós responderemos diante de Deus sobre essa consciência. O Evangelho está diante de nós, e nós não podemos brincar com isso. Mas o Espírito de Deus há de guiar o nosso povo! Há de iluminar aqueles que podem, com sua autoridade, ajudar o povo a ter, realmente, uma democracia, onde todos possam viver de forma digna.

 

Voltando às instruções do nosso bispo, são 60 normas de muita prudência: só 30% do espaço da igreja poderá ser ocupado, as celebrações devem ser curtas, pessoas do grupo de risco (com mais de 60 anos, pressão alta, diabetes, em tratamento de câncer, que foram operados a menos de dois anos, bem como jovens com 15 anos ou menos) devem ficar em casa... Nós ainda vamos avaliar como e se iremos reabrir a Paróquia Santa Teresinha, porque um dos critérios é o próprio padre, e o padre da vossa paróquia está com 59 anos, é diabético e hipertenso, o que justificaria a não reabertura da igreja. Mas, em todo caso, ainda vamos conversar com nossos ministros. Nossa comunidade também tem um grande número de idosos, então temos que, realmente, pensar, com prudência e bom senso, sobre como abrir, de que modo abrir, se abrir.

 

Enquanto não tivermos uma vacina, o risco de contágio é permanente. No Brasil, temos quase meio milhão de infectados, o que significa que muita gente ainda vai morrer... Os números são alarmantes. Vamos pensar, vamos rezar e vamos, juntos, buscar o que é melhor para nossa comunidade, para cada um de vocês.

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – Domingo de Pentecostes (Ano A) – 31/05/2020 (missa das 10h).

Jesus: conosco até o fim dos tempos

24/05/2020

Hoje a igreja celebra o Domingo da Ascensão. A ascensão de Jesus marca o final da Sua presença física entre nós. Jesus passou a Sua vida terrena vivendo como nós. Deus desceu das alturas, se esvaziou de si mesmo até se tornar um de nós. Caminhou pelas nossas estradas; um de nós! Amou com amor humano, com coração humano. Sofreu com dor humana. Deu a vida humana para todos nós. Com a ascensão, Jesus retoma a Sua condição anterior à encarnação. Esse é o mistério do verbo encarnado. Deus, que desce do céu, se esvazia – nós chamamos de kenosis, esvaziamento – se torna um de nós, morre; é morto, assassinado! Depois ressuscita e retoma a glória que tinha antes da criação do mundo.

 

Esse momento marca, também, o início da vida da comunidade enquanto guiada pelo Espírito de Jesus. Semana que vem, nós vamos celebrar Pentecostes – aí é o momento que a igreja sai para o mundo. Mas a ascensão de Jesus deixa esta comunidade com uma presença misteriosa. Jesus diz: “Eu estarei convosco. Eu estou convosco até o fim dos tempos!”. A comunidade dos discípulos de Jesus nunca fica sozinha, nunca fica abandonada, porque Ele está presente no nosso meio. Ele está presente na Sua palavra, Ele está presente na Eucaristia, Ele está presente na Sua comunidade reunida, Ele está presente em todo ser humano que sofre. A igreja é chamada, por vocação, a ser testemunha dessa presença constante de Jesus no meio dela. Nós dizemos, na teologia, na Pastoral, nos Documentos do Concílio: a igreja, constantemente chamada à conversão, significa constantemente buscar ouvir e seguir Jesus que está aqui, no nosso meio; nos chama, nos desmascara, para indicar para nós o único caminho, que é Ele mesmo. Nós muitas vezes pensamos “ah, Jesus isso, Jesus aquilo...”, mas quando nós vamos nos aprofundar na Sua Palavra, nós descobrimos quanto nós estamos longe e quanto nós não conhecemos Jesus. Por isso, devemos colocar as Suas palavras na nossa vida para que Ele realmente possa ir tomando forma em nós – esse é o poder de Jesus entre nós: transformar-nos, com a força do Espírito, à sua imagem.

 

Hoje a igreja também celebra o 54º Dia Mundial da Comunicação Social. Por isso, nós lembramos hoje, aos pés do Círio Pascal – Jesus é a luz do mundo – os meios de comunicação, que são essa maravilha que Deus permitiu que a inteligência humana construísse, descobrisse, aprimorasse; nos leva informações, instrução, evangelização. Como tudo nas mãos do ser humano, servem para o bem, e, infelizmente, podem ser usadas de um péssimo modo. Porém, isso não tira o valor e a qualidade desses meios. Graças a esses meios de comunicação, hoje, no meio de uma pandemia como esta, talvez a maior pandemia da história, nós podemos nos comunicar, nos fazer presentes. Quantos de nós já tinham um pouco deixado de vir na Missa, não é? Estão nos seguindo. Quantos de nós não conheciam o nosso Bispo? E quantas transmissões ao vivo nós estamos tendo aqui com o nosso Bispo Diocesano, com outros padres da Diocese, com outros padres do Brasil, com outros padres do mundo? Anos atrás, nós não podíamos ver o Papa Francisco ao vivo como nós vimos no dia da bênção Urbi et Orbi, na Praça de São Pedro. É uma maravilha o que Deus concedeu ao nosso conhecimento. E esse nosso conhecimento, esses meios de comunicação, estão indo fora, não estão mais na Terra. Nós temos um satélite, uma pequena nave, o Voyager 1, que já passou dos limites de Plutão. Está indo no espaço; nós não sabemos para onde mais. E vai captando notícias, informações, mandando para nós. Meios de comunicação. Maravilhas. Vamos pedir ao Senhor que nós possamos sempre buscar o melhor desses meios.

 

Hoje, aqui no Brasil, em meio à pandemia, especialmente, se torna fundamental o uso dos meios de comunicação. Como dizia, infelizmente o ser humano pode fazer bom uso de tudo e mau uso de tudo. Hoje nós temos o desafio das fake news, notícias falsas, notícias inventadas, mentiras feitas e construídas para enganar e distrair o povo, criar opinião errada, justificar monstruosidades. Nós temos que, sempre mais, verificar o que nós estamos ouvindo, verificar o que nós estamos recebendo para saber se isso é verdade ou não. Essa é a dupla face de tudo nas mãos dos seres humanos.

 

Vamos pedir ao Senhor que nos dê discernimento para podermos sempre buscar a verdade, notícias certas, notícias seguras, para poder fazer o bem e ajudar as pessoas a encontrar a verdade. Verdade que é uma só: Jesus Cristo morto e ressuscitado.

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – Ascensão do Senhor (Ano A) – 24/05/2020 (domingo, missa às 10h)

Espírito Santo, vinde iluminar-nos!

17/05/2020

Nós continuamos lendo o discurso de despedida de Jesus na última ceia no Evangelho de São João. E Jesus promete enviar-nos o Espírito, o Defensor, o assistente judicial. Um assistente que nos defende contra a maldade deste mundo. Nós temos que pensar que estes textos, especialmente o Evangelho de São João, terminaram de ser escritos por volta do ano 90 d.C. E, neste período, as comunidades cristãs eram perseguidas duramente. Segundo a história, o único apóstolo que ainda estava vivo era São João. E, mesmo assim, não foi porque ele não sofreu martírio – a tradição diz que São João teria sido jogado dentro de óleo fervendo e, milagrosamente, não teria morrido. Já havia passado a perseguição de Nero, nos anos 60, quando morreram São Pedro e São Paulo e vários outros cristãos. Então nós temos grande perseguição contra os cristãos já neste período.

E o Espírito Santo é a presença de Deus em nós, que nos defende do mundo. Jesus diz: “quando vos levarem para os tribunais, não fiquem preocupados com o que vocês irão dizer, como vão se defender, pois o Espírito Santo falará por vós”. Então, nós precisamos sempre abrir o coração, pedir a Deus que mude nossa vida, que transforme as nossas ações para que nós possamos realmente seguir o Senhor. Nestes dias, nós também temos visto, aqui no Brasil, toda essa dificuldade e polêmicas como, por exemplo, de um Ministro da Saúde que, novamente, sai do cargo no meio desta pandemia. Estamos vivendo também uma crise política vergonhosa. Nenhum país do mundo, no meio de uma verdadeira guerra que está sendo esta pandemia, procura e cria uma crise política. Orientações de ministros, governadores e prefeitos de um lado e do Executivo do outro, com coisas contraditórias. O povo fica completamente perdido. Nossa imagem e reputação, no mundo inteiro, está indo para o lixo. O Brasil, que era respeitado por sua diplomacia, que buscava acordos e pacificar as situações, agora é lugar de piada.

 

Vamos pedir a Deus que mande o Seu Espírito para abrir o coração dos nossos governantes, para que pensem no povo e deixem de lado questões e polêmicas. Pensem na vida do povo, porque é isso que importa e os governantes estão lá para isto: para agir em nome do povo como um todo e não somente de alguns que se manifestam na frente do Planalto.

 

Basta olhar o nosso povo, os hospitais entrando em colapso, as mortes chegando sempre mais perto de nós. Não cuidar do povo é vender-se ao Espírito do mundo. O mundo não conhece o Espírito porque não conhece Jesus. Jesus não só respeita o povo. Jesus está disposto a dar a vida pelo povo. A força para defender o povo, para fazer o bem pelo povo, vem do Espírito. Então vamos pedir ao Senhor que ilumine o nosso povo, ilumine os nossos governantes, para que busquem o bem de todos nós.

Homilia: Pe. João Aroldo Campanha – 6º Domingo da Páscoa (Ano A) – 17/05/2020 (domingo, missa às 10h).

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